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História Cartas Para Ele(a) - Capítulo 8


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Capítulo 8 - Vinho e comida de boteco.


Fanfic / Fanfiction Cartas Para Ele(a) - Capítulo 8 - Vinho e comida de boteco.

Por Julián

Caminhei pela casa após tomar café e ainda tinha tempo até ter que sair para o trabalho. Entrei num cômodo da casa que vivia trancado. Por várias vezes Ashley me perguntou porque não o transformava em um quarto de hóspedes, vulgo ela, já que não recebia visitas com frequência. 

Me sentei no banco e toquei as teclas sem pressioná-las. Toquei lost boy no piano que havia herdado da minha mãe.

Minha madrasta sempre fora uma mulher excepcional comigo, sempre a chamei de mãe mesmo que não fosse. Minha mãe biológica morreu no parto. Tenho um vídeo em que ela está tocando esse piano. Fazia questão de manter aquela sala com fotos e livros que ela escrevera e nunca publicara junto com o instrumento. 

There was a time when I was alone; Nowhere to go and no place to call home; My only friend was the man in the moon; And even sometimes he would go away, too...

Soube de tudo isso há alguns anos, quando meu pai resolveu mudar de estado com minha meia irmã caçula e minha madrasta e me contou. 

Vi que já tinha matado bastante a saudade de tocar, recolhi minhas coisas e saí.

- Bom dia. - Disse sorrindo.

- Bom dia, Julián... - Mila disse sonolenta.

- Festejou muito esse fim de semana, Mila?

- Que nada! São os filhos da minha irmã que acabam com minha beleza e juventude. - Ri.

- Onde está o chefe?

- Se não estiver no escritório, eu não sei. Sabe como ele é; parece que trabalha sozinho. - O Chefe, senhor Rubro, aparece atrás dela com o mal humor de sempre. Faço um sinal com os olhos, mas ela parece ocupada de mais para se calar - Nunca notifica a ninguém só porque é o chefe! Mas se um de nós saímos... Não! Temos que deixar por escrito onde vamos mesmo que sejam assuntos pessoais! 

- Então, senhorita Ross; já terminou? - Disse frio. 

- Te espero em sua sala, senhor.

- É... - Estava procurando o que dizer, com certeza. Me virei e saí andando - Julián! Não me deixe aqui! 

Alguns minutos depois, ele apareceu. 

- Tenho um caso específico para você. Estava na casa de festa, ontem, não estava?

- Sim, senhor.

- Parece que não foi um acidente com o barman.

- Suspeitei. O chão estava escorregadio, embora não houvesse nada que pudesse ter causado isso nos copos que ele derrubou.

- Seja lá como, seu papel é descobrir quem provocou o acidente.

- Sim, senhor.

- Você tem a sua disposição um membro da delegacia. Pode escolher. 

- O policial Hopkins. Quero contatar a pessoa que realizou os primeiros socorros; tenho certeza que ela poderá ajudar.

- Ok. Avise-o e comece hoje mesmo. - Me olhou malicioso - Não envolva muito o trabalho se quer a garota. 

"Acredite ou não, ela não cairia nessa.", pensei. 

Investigamos tudo durante algumas horas e ainda estavamos sem resultados de quem tinha feito isso. Liguei para Roberta. Caixa postal. 

- Senhor, como disse que ele estava caído?

- De barriga para cima.

- Ou ele se virou, ou a queda foi provocada. Se ele apenas caiu e se virou em seguida...

- Não deveria ter cortes apenas na barriga e coxas, mas no rosto e nas mãos? Ele disse que deixou os copos caírem antes de escorregar. Deve ter visto alguém e por isso se assustou.

Fizemos uma investigação mais detalhada e acabamos por achar algumas provas de que alguém mais esteve ali antes. Marcas de sapato em um armazém empoeirado e digitais que não eram da vítima. Achamos a dona das digitais e chamamos promotores para envestigar o caso de um modo mais... Minucioso. Prendemos a mulher como suspeita de tentativa de homicídio.

Cheguei em casa cansado e um pouco triste. Ashley não mandara sequer uma mensagem em resposta à que eu havia lhe enviado. Tomei um banho e bati à sua porta. O endereço dela ainda estava no post-it.

- Tá fazendo o que aqui? - Disse fria.

Odiava quando ela ficava daquele jeito.

- Eu não vou ficar se você for me tratar assim. - Me virei e caminhei pelo corredor do prédio. 

- Espera... 

- Disse algo? Não ouvi direito. 

- Me desculpa... Entra.

Dei meia volta e entrei em seu apartamento. Estava uma bagunça; o que era raro se tratando de Ashley.

- O que aconteceu? - Comecei a arrumar a mesinha de centro e o sofá que estavam cobertos de embalagens e papéis do trabalho.

- Encontrei Caio logo depois de discutir com Adrien. Os dois pareciam se conhecer. 

- Bom... - Reuni os papéis numa pilha. - Me conte do começo.

- Onde estava? Por que sumiu e me deixou sem alguém para me trazer para casa? Havíamos combinado que você cuidaria dos bêbados, dessa vez.

- Estava sujo de sangue depois de realizar os primeiros socorros no Augusto, o barman que sofreu cortes pela barriga e coxas após escorregar entre cacos de vidro. Por que? Ficou bêbada? - Ao terminar o sofá e a mesa de centro, arrumei também o painel da televisão de cinquenta e cinco polegadas.

- Fiquei com ressaca, mas antes, meio que fiquei com o Adrien. Foi só um beijo, mas foi um beijo completo.

- Ficando com alguém no primeiro date? Uau. - Andei para a cozinha e arrumei a mesa sem deixar de organizar os pratos na pia.

- Não era um date. - Ela começara a lavar a louça.

- Coincidência?

- Isso. Assim como vê-lo na feira, cair na mesma turma que ele no IF e dar de cara com ele na balada.

- É o destino?

- Achei que não acreditasse nessas coisas.

- Sei lá. Talvez tudo tenha um propósito. Ou talvez não. - Abri a geladeira. Tirei lombo defumado, cebola, couve, tomate.

Enquanto o silêncio tomava conta, peguei uma tábua no armário e comecei a cortar o lombo. Joguei-o na panela com um fio de óleo enquanto cortava a cebola e o tomate. Coloquei-os em seguida e após um bom tempo; a couve. 

- Ah! Eu estou cansada dessa vida. Quero sair, beijar algumas bocas e me divertir ao mesmo passo que quero alguém para abraçar e dormir junto. 

- Não me olhe assim. - Disse sem desviar os olhos da panela agora com farinha de mandioca dentro. - Eu também não te entendo. Nunca entendi. 

- Por que veio? - Olhava triste para os pratos que colocava no escorredor.

- Preciso de um motivo para vir?

- Você não faz nada sem motivo, Julián.

- Estava preocupado e isso deveria te bastar, mas nada te basta. Vive com sede de mais e por isso se ferra. - Pego duas tigelas no armário e despejo a farofa. Ela termina a louça e seca as mãos com um pano.

- Eu sou assim.

- Mude ou viva se machucando. Não tem problema nenhum ser intensa, mas me faça um favor; seja intensa com quem aguenta. Toda vez é você quem volta magoada e chateada. - Lhe dou um talher e começo a comer.

- Qual é a sua com a Roberta? - Parecia irritada.

- Não temos nada.

- Não minta pra mim, Julián. 

- Não estou mentindo. Está com ciúmes?

- Eu não sei. Deveria?

Estavamos discutindo de um modo que nunca fizemos antes; frio e calmo, porém carregado de raiva. Me calei.

- Agora você fica quieto? - Diz com ironia. - Culpa no cartório, Julián?

- Nós não namoramos, não somos mãe e filho, muito menos o inverso. Pare de agir como se eu fosse viúvo e estivesse tentando achar uma madrasta para você.

- Pensei que fôssemos amigos. 

- Se não tem certeza disso, o que acha que posso fazer? Vim tentar conversar, mas você estava na defensiva desde o início. Naquele momento, eu quis matar quem te fez sofrer e quis me matar por não me sentir o suficiente. Você é a única pessoa capaz de tirar meu chão, Ashley, e parece gostar de fazer isso. Você fica brava e me enxerga como seu saco de pancadas, coisa que eu não sou. - Me levanto e procuro um suco na geladeira. Apenas bebidas alcoólicas, com exceção do suco de uva verde. Pego o suco e duas taças. 

- Farofa com vinho sem álcool não me parece muito convidativo.

- Você e aquele loirinho são a mesma coisa. Ele tem cara de vinho, mas não passa de comida de boteco; bruta. Você é vinho e se faz de qualquer uma para ter muitas amizades sendo que ignorantes não sabem apreciar uma bebida tão nobre. 

- Vai ficar fazendo metáforas?

- Eu vou fazer silêncio. - Tomo um gole de vinho.

- Por que estamos brigando?

- Porque você acha que eu tenho algo com a Roberta e eu acho que você tem que parar de querer pessoas imbecis na sua vida.

A campainha tocou. Ashley não se moveu. Atendi.

- Vocês precisam se resolver. Se machucar ela, eu vou abrir o seu crânio com minha melhor arma assim que te vir. Quer que eu fique ou prefere que eu vá?

- Ele não vai me machucar.

- Não foi o que eu perguntei, mas entendi.

- Você está sendo rude.

- Você me conhece bem o bastante para saber que não é atoa. - Saio, fecho a porta e pego o elevador.

- Julián?

- Oi, Angel. - Ela sorri para mim e começa a contar coisas aleatórias. Apenas concordo com tudo. Quando ela sai, sinto um alívio enorme.

Fui para casa pensando em tudo aquilo e nem percebi que estava acelerando muito numa noite escura e chuvosa. Bati num carro que vinha na contra mão. Esperei o socorro chegar. Minhas pernas estavam começando a doer e eu não podia me mover. Roberta desceu de uma ambulância acompanhada de Caio. Ela veio em minha direção quase correndo. 

- Oi, Julián! É bom te ver, mas nesse estado... - Dizia enquanto uma equipe de bombeiros abria parte do meu carro novo para separar minhas pernas das ferragens.

- Bom te ver também. - Minha visão estava turva e estava com muito sono.

- Preciso que fique acordado, Julián. - Ela e um homem me colocaram numa maca com o pescoço envolto num colar cervical.

- É, eu imaginei. Mas está difícil.

Os policiais chegaram e fizeram o teste do bafômetro ignorando os gritos de Roberta.

- Saia! Precisamos tratá-lo! 

Apaguei e quando me dei conta, estava no hospital.



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