História Casamento Arranjado - Capítulo 4


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Notas do Autor


Mais um capítulo saído do forninho :)

Capítulo 4 - Capítulo 4


 

 -Não, não pode ser verdade - Analu disse baixinho derrotada enquanto afundava na cadeira em frente a mesa de sua tia.

 

Verônica era irmã de seu pai, tinha os cabelos escuros e os olhos castanho avermelhados da família, a mulher encarava a sobrinha com pena no olhar, havia passado a trabalhar no setor administrativo do hospital quando descobriram os desfalques que o antigo sócio, Diego Ávila, havia feito um mês atrás. Eles tentavam a todo custo melhorar as coisas mas nada ia bem, o dinheiro mal dava para cobrir as despesas e agora eles teriam que trocar os equipamentos de radioterapia e radiografia, pois estavam defeituosos, para completar a situação no país também não estava boa e o governo não estava repassando a verba para atender os programas e atendimentos que  eles disponibilizavam para a população e também estavam retirando os incentivos fiscais que eles tinham, a maioria dos pacientes não tinha como pagar pelos tratamentos e aquilo partia o coração de Analu.

 

    -O seu pai está pensando em vender o hospital para quitar todas as dívidas

 

A declaração da tia a fez afundar ainda mais na cadeira, tudo o que seus pais haviam construído, todo o esforço e trabalho duro indo pelo ralo, sentiu o seu coração apertar, seus pais estavam trabalhando muito além do normal, tentando compensar horas de outros profissionais que eles não podiam pagar, ela também estava sobrecarregada com tudo aquilo, com a faculdade, o trabalho, com as tensões dentro de casa, ela era a filha mais velha, tinha mais responsabilidades e deveres que seus irmãos Laura e Lucas e estava tentando a todo o custo evitar que aquela situação os atingisse, porém talvez aquilo não fosse possível.

 

    -Nós recebemos uma proposta - Verônica disse sem olhar a sobrinha nos olhos - isso poderia salvar o hospital. A longo prazo tudo poderia voltar a ser como era.

 

    -E por que os meus pais não aceitaram essa proposta ainda?

 

    -Essa proposta não é para os seus pais… Ela é pra você e depende de você, é meio antiquada e inconveniente e eu queria dizer que ela não é tentadora e que não precisamos disso, mas você viu que não é assim. Eu sei o quanto você admira tudo o que os seus pais fizeram e como ama esse lugar, mas também não vou te pedir para aceitar isso.

 

    -E o que seria?  - a garota perguntou aflita.

 

    -Você recebeu uma proposta de casamento. - Verônica disse de uma vez vendo a expressão da sobrinha ficar ainda mais perplexa - O Coronel Torres fez uma proposta para que você casasse com o filho mais novo dele, Miguel. Você sabe que além da carreira militar e da firma de advocacia eles também tem uma fábrica para exportação de açaí, ele me mandou vários documentos que comprovam a renda do negócio e disse que se você aceitasse ele passaria quinze por cento dos lucros da fábrica para o hospital até o fim do contrato de casamento, mas tudo teria que ser sigiloso, ele tem amigos e influência no governo e as transações seriam feitas como  se estivessemos recebendo pelos programas que o hospital oferece à população, Ana isso é muito dinheiro e ele sabe que os seus pais jamais aceitariam.

 

-Ele quer me comprar para o filho dele como se eu fosse uma égua premiada - ela disse tentando conter as lágrimas nos olhos, não podia acreditar que coisas assim aconteciam em pleno século XXI - Por que ele precisa disso? Por que eu?

 

-Ele quer que o filho suba na carreira militar e precisa de um casamento, seria tudo de fachada, vocês não precisariam ter filhos, relações, muito menos gostar um do outro durante três anos. O Coronel me deu uma cópia do contrato para eu entregar a você, eu lí e não tem nada que possa te prejudicar, mas ele está disposto a fazer alterações se você quiser, tem até uma cláusula que permite infidelidade desde que vocês sejam discretos e não reproduzam filhos com outras pessoas.

 

Analu riu amargamente, ainda não entendia porque aquilo estava acontecendo com ela, que tipo de coisa ela havia feito para ter um karma como aquele?

 

-Quais as nossas chances se eu não aceitar essa palhaçada? Por favor seja sincera.

 

-Pouquíssimas - ela disse olhando a sobrinha com tristeza nos olhos - Talvez nem vendendo o hospital dê para quitar as contas. Estou falando como sua gerente financeira, como sua tia eu odiaria te ver infeliz um dia sequer, só não sei qual das duas coisas poderia ser pior.

 

Ana sabia o que seria pior, ver a sua família desmoronando, ver todos infelizes, ver seus irmãos sendo forçados a mudar os planos, os estudos, ver tudo o que sua família construiu desmoronar, seus pais frustrados dando tudo de si em vão. Ela seria capaz de muito para não ver aquilo acontecer.

 

-Você acha que eles acreditariam nisso? - Analu perguntou resignada

 

-Tudo depende de como vocês vão vender a história, o Coronel deu até maio do ano que vem para vocês casarem, isso se você aceitar a proposta, assim que você assinar o contrato ele libera o dinheiro até o fim do casamento.

 

Ana suspirou, teria oito meses para casar, se aceitasse aquilo.

 

    -Me deixa ver essa cópia do contrato.

 

***

 

Miguel mal saiu da barbearia quando sentiu seu telefone vibrar no bolso, franziu o cenho ao ver um número desconhecido na tela antes de atender.

 

    -Alô - ele disse

 

    -Oi, aqui é a Ana… Dias. Você está muito ocupado? Preciso conversar com você.

 

Por essa ela não estava esperando, ele sabia que deveria ser algo sobre a maluquice do seu pai, mas no fundo havia gostado de receber a ligação da garota, eles não se viam desde aquele final de semana e aquilo já fazia mais de dois meses.

 

    -Não estou ocupado.

 

    -Você pode me encontrar naquela cafeteria perto do hospital?

 

    -Claro, chego em alguns minutos.



 

Quando ele entrou na cafeteria sentiu cheiro de bolo saindo do forno, café e baunilha, não havia muita gente alí, um casal, um grupo de adolescentes e um homem de meia idade. Miguel avistou Ana Luiza sentada em uma mesa perto da janela de vidro, ela tinha uma caneca de café a sua frente e brincava com uma fatia de bolo no prato, a garota usava calças jeans, tênis e uma blusa clara, seus cabelos estavam presos em um coque mal feito, ela parecia cansada, ele não duvidava que ela tivesse dado uma escapada do expediente para encontrá-lo ali. Ele se aproximou e puxou uma cadeira para se sentar ao lado de Ana, ela voltou seus olhos exaustos e sem vida para Miguel, a garota parecia não descansar há dias.

 

    -Sobre o que você queria falar? - ele perguntou calmamente.

 

Analu pegou um envelope pardo que estava na cadeira vazia ao seu lado e empurrou em sua direção, Miguel abriu o envelope revelando o seu conteúdo, um contrato nupcial. Apertou a mandíbula enquanto lia, não imaginava que o pai já estava tão adiantado, deveria estar planejando aquilo desde antes dele voltar para casa, alí ele prometia destinar sorrateiramente quinze por cento dos lucros da fábrica de exportação de açaí para o hospital, era muito dinheiro, também falava das obrigações de casados que eles teriam e não teriam durante três anos. A moça se mantinha em silêncio enquanto ele lia os papéis.

 

    -Você já sabia disso? - ela perguntou cansada enquanto o via guardar os papéis de volta no envelope.

 

    -Lembra de quando esbarramos com você no supermercado? Ele estava tentando me convencer a isso, mas só soube que ele havia te elegido como a candidata perfeita no domingo, depois que te deixei em casa.

 

Ana passou as mãos no rosto e acabou apoiando as bochechas nelas com os cotovelos na mesa, uma garçonete se aproximou para perguntar se Miguel queria alguma coisa, ele pediu apenas um café e a garota ao seu lado se manteve calada até a garçonete voltar com o café dele e ir embora.

 

    -Por que eu? - ela perguntou o encarando e ele pôde observar que os olhos dela não eram de um castanho qualquer como ele havia imaginado, eles tinham um brilho avermelhado que o prendeu por algum tempo.

 

    -Porque você é dedicada à família, ao seu trabalho e dizem que você tem um coração bom. Ele encontrou uma fraqueza em você e resolveu explorá-la em favor dele. - Miguel tentava conter a sua raiva enquanto falava - Meu pai tem certeza de que você vai aceitar, pelo que eu posso ver você está ao menos considerando.

 

    -Pode me chamar do que quiser, mas eu tenho muitos motivos para considerar essa oferta. Por que você concordaria com isso? Não acredito que você seja incapaz de achar alguém sozinho pra esse papel.

 

    -Segundo o Coronel não sou capaz de achar alguém boa o bastante muito menos rápido o suficiente. Isso tudo é uma questão de imagem, status e dinheiro, todo mundo acha que você é imaculada, que nunca faz nada de errado, dizem que você é gentil e adora ajudar as pessoas. O meu pai tem a ambição de que um de nós um dia chegue ao posto máximo, parece que o seu tipo de imagem compra patentes. - ele disse  amargamente com o rosto endurecido - ele também me prometeu algumas coisas, mas nenhuma era boa ou vantajosa.

 

    -Eu esperava que conversar com você esclarecesse as coisas e não me trouxesse mais dúvidas  - ela riu cansada, ainda sentindo calafrios pelo que Miguel havia lhe dito, como podia um pai chegar a esse ponto com os filhos? Ele envolveu as mãos pequenas dela nas suas a fazendo olhar nos seus olhos.

 

    -Eu sinto muito que você também tenha que passar por isso e eu entendo os motivos que você tem para aceitar essa coisa ridícula - naquele momento mais que em qualquer outro ele odiava ter seguido a carreira que o seu pai escolheu para ele, mas acabou se perguntando o que Ana Luiza faria para resolver a situação da sua família sem aquela oportunidade, desejou abraçá-la e inalar ainda mais o seu cheiro de lavanda, mas não o fez. Pior, ele proferiu tais palavras: - Assine o contrato.

 

    -O que? - Ana perguntou surpresa o olhando espantada.

 

    -Vão ser apenas três anos, muitas vezes eu mal vou estar em casa por causa do serviço militar, você também tem o seu trabalho, talvez nem iremos passar tanto tempo juntos e você tem muitas famílias mais para ajudar além da sua resolvendo os problemas do hospital.

 

Ela sabia que aquilo era verdade, não pensava só nos seus pais e seus irmãos, mas nos funcionários, nos pacientes e em todas as pessoas que dependiam daquele lugar. Ainda assim se perguntava se aquilo era um preço justo a pagar.

 

    -Os meus pais jamais aceitariam se soubessem, acho que ninguém na minha família.

 

    -Posso te ajudar a convencê-los - que droga ele estava fazendo? de onde surgiu a súbita vontade de ajudar aquela garota? Talvez Miguel não quisesse admitir, mas estava se afeiçoando a ela e se tivesse que passar por aquilo que fosse com ela e não uma completa estranha.

 

    -Bom, eu...

 

    -Então você estava aqui? - Ana Luiza deu um pulo na cadeira ao ouvir a voz da mãe enquanto ela entrava no lugar, rapidamente puxou suas mãos das de Miguel - A Júlia ligou três vezes atrás de você no hospital, eu falei que você tinha saído mais cedo, ela queria te lembrar sobre a prova de vestido às 17:00.

 

Ao perceber a cena Rosana levantou uma sobrancelha para a filha num pedido mudo de explicação, a mulher tinha os cabelos tingidos de loiro, os olhos quase negros brilhavam sob a armação de óculos dourada, seus lábios eram finos e tinham um sorriso travesso.

 

    -Desculpem, eu não quis atrapalhar vocês, só vim buscar um bolo de chocolate para a Laura e te vi aí… Eu já vou indo.

 

    -Não precisa ir, a senhora não nos atrapalha - Miguel disse com a voz aveludada e o sorriso galante, fazendo Rosana lançar outro sorriso travesso para a filha que afundava um pouco na cadeira por aquela cena.

 

    -Mãe, a senhora lembra do Miguel, irmão da Sofia? Ele vai ser o padrinho do Guilherme no casamento.

 

-Claro que sim, encontrei a sua mãe há uns dois dias, ela disse que você havia voltado, espero que por bastante tempo.

 

-É o que pretendo - ele disse olhando para Ana Luiza com um sorriso nos lábios fazendo com que ela corasse.

 

-Eu já vou indo - disse Rosana sorrindo para os dois - e Ana, não esqueça da sua prima, 17:00, prova de vestidos.

 

-Certo - a garota disse para a mãe que já saia pela porta da cafeteria e conferiu as horas no celular 16:20 ela não planejava ter passado tanto tempo conversando com Miguel.

 

-Acho que a sua mãe me aprova - ele disse sorrindo para Ana Luiza que revirou os olhos.

 

-Até agora, espera só até  ela saber que temos que nos casar daqui há oito meses.

 

-É um tempo curto demais, - ele concordou - então isso significa que você vai aceitar?

 

-Que escolha eu tenho? - ela rebateu com um meio sorriso - Desculpa, eu tenho que ir agora, mas acho que ainda temos algumas coisas para conversar sobre isso.

 

-Claro, - Miguel disse meneando a cabeça - vamos ter tempo para isso, afinal de contas namorados passam bastante tempo juntos.

 

    -Namorados? - ela perguntou franzindo o cenho.

 

    -É o relacionamento que todo casal tem antes de casar, Luiza. É melhor você se acostumar logo com o jogo.

 

***


 

“É melhor você se acostumar logo com o Jogo”, aquela frase não abandonava os pensamentos de Analu enquanto ela observava a costureira fazer alguns ajustes no vestido de noiva que Júlia usava.

 

    -Planeta terra chamando! - A ruiva disse estalando os dedos diante dos olhos de Ana Luiza para chamar sua atenção - O que aconteceu? Hoje você está bem mais aérea que o habitual. São os problemas no hospital?

 

    -Isso também - respondeu Analu massageando a ponte do nariz antes de olhar para Júlia, ela estava perfeita no vestido de noiva e ana não conteve o sorriso, o casamento seria em duas semanas - mas já estamos colocando em prática uma maneira de resolver e isso não importa agora, você está perfeita!

 

-Obrigada, - Júlia envolveu Analu em um abraço apertado - por estar me ajudando tanto com o casamento mesmo com tantas coisas na sua cabeça, você e as meninas têm sido ótimas comigo e eu queria retribuir de alguma forma.

 

-Ah, nós vamos ser retribuídas na sua despedida de solteira - Ana disse com um sorriso malicioso.

 

-Não estou falando disso, sua boba - Júlia rebateu acertando uma almofada na prima - estou falando sobre o hospital e os problemas que estão sobrecarregando vocês. Tem certeza que está tudo bem?

 

-Vai ficar tudo bem - ela disse para tranquilizar Júlia e a si mesma, também porque precisava acreditar naquilo e talvez proferir aquelas palavras em voz alta as tornasse mais reais.



 

Eram oito da noite quando chegou em casa, as luzes estavam apagadas, ela suspirou sabendo que seus pais passariam mais uma noite de plantão no hospital, suspirou e pegou o telefone para falar com sua tia Verônica, teria que assinar o contrato o quanto antes. Após uma breve ligação Analu se jogou no sofá curtindo o silêncio do lugar, ela estava sozinha Laura havia saído com o namorado e Lucas estava estudando para as provas bimestrais na casa de um amigo. Estava quase pegando no sono quando sentiu o celular vibrar ao seu lado, era uma mensagem de Miguel.

    “Espero que não se importe de eu ter salvado o seu número”.

 

    “Tudo bem. De qualquer forma acho que a gente vai ter que aprender a ter algum tipo de convivência”.

 

    “Nossa, como você é romântica” ele havia lhe mandado com um emoji irônico a fazendo abrir um pequeno sorriso que logo se desfez.

 

    “Isso é um contrato, não é para ser romântico”.

 

Desde que saiu da cafeteria Miguel esperava por uma oportunidade de falar com Analu, agora que havia criado coragem olhava incomodado para a última mensagem que a garota havia lhe mandado, deixou o celular cair na cama ao seu lado e encarou o teto se perguntando porque Luiza tinha que ser tão irritante às vezes e em seguida porque aquela simples mensagem tinha o abalado afinal de contas ela estava certa. Talvez fosse apenas seu ego ferido.

 

    “Você tem razão, sem sentimentos torna tudo muito mais fácil para nós dois” ele respondeu mesmo estando incerto, começava a pensar que em algum momento eles teriam que demonstrar afeto um com o outro, teriam que trocar carinhos e até se beijar, fazia parte do teatro e Miguel se perguntava se seria capaz de interpretar seu papel.

 

    “Que bom que você concorda”.

 

    “Sim, mas lembra que ainda temos que convencer as pessoas, a sua família, a minha…Vamos precisar fingir estar apaixonados”.

 

Alguns minutos haviam se passado sem que ela o respondesse, para Miguel pareceu uma eternidade, suas mãos suavam enquanto ele observava severamente a tela do celular até que finalmente Luiza o respondeu.

 

    “Podemos começar isso depois  do casamento da Júlia e do Guilherme? Não quero tirar os holofotes deles”. Eles seriam os padrinhos do casamento, seria até uma boa desculpa para uma aproximação entre eles.

 

    “Claro, mas você vai ter que parar de ter sempre razão ou esse casamento não vai ter a menor graça :P”

 

    “HAHAHA, não vai ter a menor graça para você! :P”. Ela provocou o fazendo sorrir e tentar pensar em alguma coisa, não queria que a conversa acabasse.

 

    “Aliás, como foi a prova do vestido?”.

 

    “Ótimo! Ela vai ser a noiva mais linda do mundo *-*”. Ele sorriu se perguntando se ela lembrava que em breve também estaria se casando.

 

    “Aposto que sim”

 

    “Hey, depois a gente se fala, estou exausta, posso acabar dormindo a qualquer momento”. Ele olhou o relógio no celular, eram quase dez horas, mal havia visto o tempo passar.

 

    “Okay, durma bem :)”.

 

    “Você também, fica com os anjinhos :)”.

 

Ele sorriu ao ler aquilo, não demorou muito e adormeceu também, mas sonhou apenas com um anjo.


Notas Finais


Espero que tenham gostado


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