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História Cataclismo - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


1. Primeiramente, esta fanfic é baseada em uma novela turca exibida na Band em 2015 (Fatmagul: a força do amor, ou Fatmagül'ün Suçu Ne?), mas eu alterei algumas coisas e exclui várias cenas que não me agradavam ou considerei inúteis para evitar uma absurda quantidade de capítulos.

2. A história gira em torno de uma vítima de estupro - no caso, Midoriya Izuku - e sua luta para superar seus traumas e pôr os culpados atrás das grades, além de haver o desenvolvimento lento do romance.

3. Como eu já citei anteriormente, o relacionamento dos tododeku vai demorar para atingir seu pico, isto é, ocorrerá um slowburn. Por conta disso, espero que sejam pacientes, principalmente com o Midoriya. Ele é um bebezinho e não merece comentários ruins.

4. A história vai se passar no universo abo porque julguei que se encaixaria melhor.

5. A história terá mais de um P.O.V. (ponto de vista), às vezes será o Midoriya narrando, outras o Todoroki, algum outro personagem ou o narrador onisciente. Eu avisarei quando essas trocas ocorrerem.

6. Eu tenho alguns probleminhas de autoestima com minha escrita; nunca me sinto satisfeita com ela e acabo deletando tudo depois de um tempo, mas vou me esforçar pra manter 'Cataclismo' firme e forte aqui na plataforma e seria legal se vocês me ajudassem comentando e tals.

7. A capa maravilhosa foi feita @purrstell.

Certo, é só isso que eu gostaria de comentar. Boa leitura!

(Obs.: o início do capítulo é uma carta do futuro, como poderão perceber pela data em que foi escrita.)

Capítulo 1 - I. A Aldeia dos Pescadores


Cataclismo — Capítulo 01.

A Aldeia dos Pescadores.



Japão, Tóquio.

2016.



"Cara Psicóloga,


Apesar de já ter 22 anos nas costas, nunca escrevi uma carta antes, entretanto, já recebi uma, ainda que não a tenha mais em mãos. Sabendo disso, espero que entenda se não conseguir me comunicar tão bem como deveria com você, senhorita Asui.

Estou aqui porque, há um ano atrás, fui vítima de um estupro coletivo e me disseram que deveria buscar por acompanhamento profissional para análise da extensão dos meus traumas e resolução destes, mas, ainda que tenha recebido inúmeros conselhos, eu simplesmente não consigo falar. Me sinto incapacitado de dizer algo sobre aquela noite e não me vejo como alguém que tenha o direito de conversar sobre isto. Não quando me parece tão inútil.

Justamente por isso estou escrevendo essa carta, senhorita Asui, porque não quero mais guardar essa experiência somente para mim e desejo tentar me curar de uma vez por todas de tudo o que aconteceu. Então, se sou incapaz de lhe dizer, vou lhe escrever.

Eu nasci e cresci em Yoshimura¹, aldeia essa que por muitos anos foi meu único e verdadeiro lar, tendo testemunhado todas as minhas boas e péssimas lembranças.

Substituir Yoshimura por Tóquio não foi nada fácil, por muito tempo achei que estaria lá para ver as futuras gerações de crisântemos e as crianças correndo pelas ruas com uma bola de futebol, torcendo para que algum dia uma delas fosse minha. Durante um ano, não consegui me desapegar dessa doce ilusão e estive vivendo no passado, sem nem ao mesmo perceber quanta dor isso ainda me causava.

Eu estava noivo e prestes a entrar em uma nova fase como ômega, mas as coisas saíram completamente dos trilhos quando cruzei o caminho deles. Em questão de minutos, minha vida virou de cabeça pra baixo e se distorceu completamente.

Refletir sobre tudo o que perdi foi doloroso e continua sendo. É simplesmente uma das piores sensações do mundo ter que mudar de vida tão drasticamente e aceitar que nada mais será o mesmo. Assemelha-se a um intenso cataclismo; um desastre que não sei se algum dia poderei me recuperar totalmente.

Deixei de ser o que eu era para participar de uma história corrupta que ainda sonho que termine com a justiça; um jogo de cão e gato que não escolhi fazer parte.

Achei que um pedaço meu tinha se perdido para sempre em um passado inalcançável e estava fadado a estar preso nas memórias daquela noite, mas hoje é com surpresa que olho para frente e finalmente vejo uma esperança.

Talvez agora eu estivesse portando o sobrenome Bakugou em vez de Todoroki, e, possivelmente, estivesse cuidando do nosso lar, como a maioria dos ômegas da minha aldeia costumavam fazer por seus alfas, mas como todo aquele inferno aconteceu, eu pude finalmente enxergar. Katsuki não me amava realmente, ele amava seu orgulho e sua honra, tanto que preferiu salvar a própria pele em vez de estar ao meu lado quando mais precisei.

Eu estive guardando um ressentimento muito grande dentro de mim faz um ano, porque o alfa que eu amava não me abraçou quando estava deitado naquela maca implorando pela morte. Ele queimou nossas memórias e nem sequer olhou na minha cara quando chamei por seu nome. Naquele momento, recebendo olhares e palavras de desprezo, eu senti como se tudo o que tivesse acontecido fosse realmente minha culpa e foi sufocante a forma como o cheiro insuportável da fumaça invadia minhas narinas, provando que eu já não significava mais nada para ele.

E, por estar sozinho, senti que apenas deveria levar toda essa imundice pro túmulo comigo. Mas agora é diferente. Agora eu sinto que devo reunir forças para tentar lutar, porque finalmente tenho o apoio de alguém.

Eu quero justiça e é justamente por isso não pretendo desistir e não vou descansar até vê-los apodrecendo na cadeia, pagando por seus crimes e pecados nojentos que tentaram jogar para debaixo do tapete como se não fossem nada.

Eu vou ser o cataclismo desastroso na vida deles, do mesmo jeito que foram na minha."


(...)


Japão, Yoshimura.

2015.


Izuku



— Tio 'Zuku, o que a mamãe tá fazendo? — ouvi a voz de Kota me chamar enquanto esfregava a toalha nos seus fios molhados. — Eu já sou grandinho. Para de me tratar feito bebê. — tentou afastar a toalha que eu segurava.

— Ah, mas parece que foi ontem que você ainda precisava de mim pra trocar suas fraldas. — ri baixinho, apertando seu nariz e vendo-o reclamar sobre já ter sete anos e isso ser a idade de um homem adulto. — Quanto a sua mãe… — espiei pela janela, observando a loira conversar com um desconhecido, que, por sinal, era muito bem vestido. — Não se preocupe com ela, acho que é apenas coisa do trabalho. Agora… Que tal se vestir, homenzinho adulto? Eu vou precisar da sua ajuda. — dito isso, Kota correu para o quarto de Nakagame atrás de algumas roupas.

Enquanto ainda estava livre de perturbações, aproveitei para checar meu celular, observando que tinha chegado uma nova mensagem de Kacchan, meu melhor amigo de infância e, atualmente, meu noivo.



Kacchan 👺. 09:34 A.M.
"Nosso barco está pra chegar.
Você vem me ver no cais?"



Sorri apenas de imaginar vê-lo depois de dias. Kacchan nunca parava quieto na aldeia por muito tempo e sempre precisava zarpar cedo, o que acabava o afastando da família, mesmo assim, meu loirinho estressado sempre arrumava um tempinho pra repor os momentos perdidos.

Respondi a mensagem com um "sim" e já estava me preparando para deixar a sala, quando outra ômega entrou no recinto, visivelmente agitada.

— Pra onde você pensa que vai? Nós temos muito trabalho pela frente. — pôs as mãos na cintura, autoritária.

— Do que está falando? Tem algo haver com o homem de agora há pouco?

— Óbvio! E não é qualquer homem, garoto. É um dos funcionários da família Monoma e veio pra encomendar queijo e leite para o noivado do filho único de Monoma Amon. — ela falava tão rápido que tinha um pouco de dificuldade em acompanhar seu ritmo. — Tem noção do quão grande eles são? Você pode até tentar fisgar algum riquinho por lá e finalmente prestar pra tirar a gente da miséria.

— Você pirou de vez? Eu não vou fazer isso! — praticamente rosnei as palavras quando percebi que a loira parecia estar falando sério. Nakagame tem o dom de tirar minha paz e, desde que se casara com meu irmão, passa seu tempo me infernizando sem motivo algum. — Quanto ao trabalho, nós combinamos que eu poderia tirar um dia de folga pra ver o Kacchan.

— Calminha aí, ômega idiota. Eu só tava brincando. — franzi o cenho, tentando ignorar seus insultos. — Pois bem, eu não ligo pra esse seu alfa estúpido. Tô te fazendo um favor impedindo que o veja, afinal, você sabe como as coisas funcionam. Se continuar correndo atrás desse garoto, ele vai enjoar de você e te chutar.

— Kacchan nunca vai me deixar.

— Você diz isso com certeza demais... É muito ingênuo quando se trata de alfas. — zombou enquanto apertava meus ombros. — Certo, como eu já disse, seu namoradinho não me interessa, seu irmão e eu vamos precisar de ajuda com a encomenda. A festa é daqui a duas semanas.

— Eu… — espremi os lábios nervosamente enquanto encarava fixamente a saída. — Eu posso começar amanhã?

— Não se atreva… — tarde demais. Se tinha algo sobre mim que às vezes me rendia problemas, com certeza era minha capacidade brilhante em desobedecer e fugir das coisas. Isso tinha começado a fazer parte da minha personalidade depois do casamento do meu irmão, que foi quando meu lado rebelde resolveu se manifestar e não parou mais, mesmo que agora já tenha 21 anos.

Com isso, eu não hesitei em correr pra fora de casa, ignorando completamente os gritos de Nakagame, que amaldiçoava meu noivado com Kacchan, mas eu não liguei, continuando minha corrida contra o tempo.

Já era tão comum ver um garoto esquisito de cabelos verdes correndo em direção ao cais que os moradores sequer se importavam mais. Eu tinha tornado aquela correria toda em algo rotineiro e também costumavam me dizer que era invisível, por isso ninguém sabia quem eu era. Izuku era apenas o irmão mais novo do alfa gentil do negócio de laticínios e o ômega de um pescador. Às vezes também me diziam que era um garoto muito bonito e cheiroso, um dos mais belos da aldeia, mas quando me casei, a comoção de antes passou. Meu irmão, Shindo, ciumento como era, tentava espantar qualquer um que se aproximasse de mim e isso o rendia muitos olhos roxos por ser mais fraco que os outros, tantos que me cansava tentar convencê-lo a ser menos encrenqueiro. Custou-lhe bastante aceitar Kacchan.

Yoshimura é uma aldeia minúscula localizada no fim do mundo, não tem nada de especial por aqui e por isso não vemos muitos turistas, mas isso não significa que eles não existem. No verão eu costumo ver alguns passeando por aqui, com roupas chiques e óculos de sol, dessa vez não é diferente.

Enquanto corria não consegui ignorar o carro preto e grande passeando pelas ruas – talvez por quase ter sido atropelado por ele –. O homem dentro gritou, me repreendendo, e ele era um alfa, por isso fui incapaz de evitar meu corpo de paralisar por alguns instantes e se encolher diante da voz dele. Maldita voz de alfa.

— Papai, já chega. Está me incomodando. — uma voz feminina soou e eu consegui reconhecer que vinha da ômega de cabelos pretos presos num coque no banco de trás. A janela estava aberta e, mesmo com a pouca iluminação oferecida graças às sombras das casas, percebi que ela era muito bonita e elegante. Se eu fosse Nakagame, com certeza já estaria fofocando com os vizinhos sobre a presença de riquinhos na aldeia, como tinha feito mais cedo.

Aproveitei que os dois estavam discutindo sobre minha falta de atenção para me afastar e voltar a correr.

— Kacchan! — acenei enquanto corria pela trilha que guiava até o cais. Costumava sempre pegar um atalho, passando pela clareira próxima da praia. Era mais demorado ir pela estrada e não queria me atrasar para ver meu noivo.

Quando cheguei, o alfa estava ocupado ajudando a carregar vários caixotes de peixes, então só acenou em resposta antes de continuar com o trabalho. Enquanto esperava-o, apoiei-me contra um ramo de madeira para observá-lo com os outros pescadores.



— Perdão… Eu te fiz esperar muito lá? — caminhávamos de mãos dadas pela estrada de terra, indo em direção à construção onde seria nossa futura casa.

— Não tem problema, eu gosto de te ver trabalhando. — tinha sido um comentário inocente, mas parece que Katsuki não via dessa forma. Percebi isso pelo sorriso malicioso em seu rosto quando o encarei. — O que foi…? — senti minhas bochechas esquentarem um pouco.

— Em todos esses anos em que te conheço, jamais imaginei que tivesse fetiche em pescadores, Deku. — um pimentão. Provavelmente era com um que eu estava parecendo depois de ouvi-lo.

— É c-claro que não! Que nojo, Kacchan! Sai de perto! — me soltei dele quando este tentou me beijar e corri pela trilha em meio às árvores, entrando na casa de tijolos não terminada. Kacchan dizia que quando o nosso lar estivesse pronto, poderíamos prosseguir com o casamento, mas já estava demorando muito e eu não gostava de esperar.

— Ei! Volta aqui! Se você gosta dessas coisas, não tem problema, eu não te julgo! — senti seus braços rodeando meu corpo por trás em um abraço e gritei, assustado.

— Você tá fedendo a peixe e tá todo suado! Eca! Sai! — minhas costas doeram um pouco quando fui empurrado contra uma parede e comecei a rir ao sentir os beijos de Kacchan pelo meu rosto. — Isso faz cócegas!

— Está rindo dos meus beijos? Você realmente não me leva a sério. — suspirei baixinho ao sentir o aperto forte do loiro em minhas coxas e as mordidas sendo espalhadas por meu pescoço. Eu gostava de quando Katsuki me tocava daquela forma, então não me importaria com isso. Isto é, se não houvesse um único problema.

— Kacchan, não faz isso… — pedi, empurrando seu tronco com calma. O cheiro dele estava forte e, por um momento, me perguntei se estava próximo do cio. Se estivesse, então não queria deixá-lo irritado.

Alfas costumam ficar estressados quando se sentem rejeitados.

— O que houve, Deku? — o loiro afastou o rosto do meu pescoço, mas ainda mantinha o olhar fixo naquela área. Me perguntei se ele tinha deixado algum rastro temporário ali e a ideia me agradou e desagradou ao mesmo tempo. Não queria ter que escutar as provocações de Nakagame sobre eu estar fazendo algo de errado.

— Eu te disse pra não fazer essas coisas, lembra? Quero esperar até nosso casamento. — respondi, afastando as mãos bobas do outro com o rosto corado.

— São só alguns beijos. Qual o problema de eu fazer essas coisas com meu ômega?

— E-Eu… — tentei contestar, mas fui interrompido pelo barulho de palmas do lado de fora da construção.

— Filho? Está aí dentro? — eu corei tanto ao reconhecer a voz da tia Mitsuki do lado de fora que me perguntei se meus cabelos estavam ruivos agora, mas Kacchan, ao contrário de mim, não parecia nem um pouco preocupado com a visita da própria mãe, já que tentava voltar a me agarrar.

— Kacchan! — briguei, dando um tapinha no seu braço. Meu alfa estúpido apenas choramingou um "você é tão mau comigo" e eu revirei os olhos. — T-Tia Mitsuki? Nós viemos só… checar como as coisas estavam. — expliquei envergonhado ao vê-la me encarar com um olhar questionador.

— Como esperado… Katsuki volta de viagem e não liga pra ninguém além do noivo.

— Quanto drama, mãe! — Kacchan voltou a me abraçar por trás e eu sorri um pouco, até me lembrar da "discussão" atual.

— E quanto a você, Izuku... Só te vejo quando Katsuki está por perto! — reclamou, apontando pra mim.

— I-Isso não é verdade! Eu fui visitá-la várias vezes e…! — corei ao ouvir as risadas dos dois alfas.

— Eu só estou brincando, criança. Não precisa ficar tão nervoso. — me encolhi envergonhado e Kacchan beijou minha orelha como conforto, mas empurrei-o, irritado depois de vê-lo rir de mais um dos meus micos. — Eu preparei uma de suas comidas favoritas pra comemorar seu retorno, querido.

— Sério? O que é?

— É segredo.

— Me conta, mãe. Pelo menos uma dica! — ocasionalmente voltei a me aproximar dos dois loiros escandalosos e sorri fraco, observando-os interagir enquanto nos afastávamos da construção.

— Não!

— Que cruel...



(...)



Shouto


— Entra logo, não posso parar aqui e se eu pegar uma multa por sua culpa, você quem vai pagar, além de me pagar pela carona também. — reclamei mais uma vez, observando o beta estúpido parado na entrada do aeroporto sem mover um músculo. Já estava esperando-o chegar fazia horas e o estresse me consumia aos poucos.

— Uma carona não é uma carona se eu tiver que pagar.

— Não quero desculpas, quero dinheiro.

— Não nos vemos há anos e quando nos reencontramos, você se aproveita pra extorquir meu dinheiro. Que terrível… — quando Raiden finalmente entrou no meu buggy – que na verdade não era meu, e sim do meu chefe – , tentei me concentrar em dirigir, o que passou a se mostrar como algo impossível já que o moreno não parava de tagarelar um só segundo sobre como eu era insensível com meus amigos e blábláblá.

— Como você é dramático. Só me chama quando quer um motorista de graça e quer se vitimizar. — soltei um riso nasalado ao ouvir os gritinhos indignados do outro. — Aliás, você estava no mesmo vôo que o Neito, não? Ele vem?

— Estava? Não vi a cara de maníaco dele por lá... E é claro que ele vem, idiotão, é um Monoma, então vai aparecer pro noivado do priminho. — zombou do sobrenome que o loiro tanto se gabava e suspirei com aquela notícia desagradável. No fundo tinha esperanças de que ele não fosse vir por ter uma rixa com seu tio, Monoma Amon, mas aparentemente não seria o caso.

Raiden, Neito e Hideo eram como carne e unha, o que significava que quando os outros dois chegassem, estariam juntos o tempo todo e eu não me sentia confortável perto desses três. Na verdade, o único que gostava nesse meio era Raiden, que apesar de tudo, era um cara divertido e legal, ao contrário de seus primos, principalmente Neito.

Hideo era só um garoto mimado que se aproveitava do poder que o pai tinha e traía a coitada da noiva sem qualquer remorso, enquanto Neito era um invejoso, sempre falando mal do primo pelas costas e se envolvendo com drogas. Ele conseguia ser alguém extremamente desprezível com as outras pessoas quando queria, mesmo sendo tão jovem.

— Você vai no noivado? — Raiden perguntou curioso.

— Lógico que não. Por que eu iria?

— Por mim!

— Sem chance.

— Você me ama que eu sei.

— Não mesmo. — sorri com a cara de cachorrinho abandonado que o beta fez. — Você sabe que eu não sou próximo dos Monoma.

— Mas é de mim. Tenho um convite extra e vai ter muita comida. — cantarolou e eu suspirei, me preparando pra mais uma sessão de chantagens vindo dele. Tinha sido a mesma coisa quando recebi sua ligação me pedindo pra ir buscá-lo no aeroporto. — Você tem outros amigos que te deixam entrar de penetra em festas grandes? Provavelmente não, e eu sei, sou maravilhoso e único. — reviro os olhos pela segunda vez naquele dia com seus surtos de amor próprio.

— Não é o suficiente pra me convencer.

— Vai ter o soba mais delicioso do mundo lá porque só vão cozinheiros incríveis e você pode repetir o prato quantas vezes quiser.

— Tá, mas eu vou ficar escondido no canto comendo sozinho.

— Como você é fácil de comprar. — o moreno gargalhou, apesar de provavelmente estar insatisfeito com minha exigência, até que de repente os risos param e ouço um grito agudo. — MEU DEUS!

— O que foi?! — me assusto com o escândalo repentino do outro, pensando que iríamos morrer até que Raiden volta a gargalhar.

— Olha só que belezinhas, colega! — ele aponta para outro carro mais a frente, onde algumas ômegas e betas estavam reunidas de biquínis no teto solar de um veículo, provavelmente indo para a praia mais próxima. — Acelera, vai! Vai! Passa por elas!

— O quê...? Como assim?

— Passa logo, cara! Anda! — não disse mais nada, apenas acelerei e vi meu amigo pôr metade do corpo pra fora da janela.

— EU AMO BIQUÍNIS! EU AMO VOCÊS! — gritou bem alto, ouvindo as risadas das garotas no carro e alguns xingamentos dos homens que estavam com elas.

— O que diabos foi isso?! — gargalhei após mais um surto de loucura de Fujiwara Raiden.

— Eu quero namorar, Shouto… Tô triste. — o garoto choramingava.

— Você não tinha uma namorada? A Kendou?

— Nós terminamos… 

— Ah, que pena… — torci o rosto, desconfortável com a atmosfera melancólica que tinha se instalado no ambiente de repente, que não durou muito já que Raiden tinha dificuldades em permanecer em locais tão quietos e tristes.

— Mas e você, garanhão? Ômegas adoram ferreiros sexys que nem você, então, como anda sua vida amorosa? — piscou sugestivo e sorri envergonhado, incomodado com a pergunta. Ele sabia que eu não pretendia me envolver em relacionamentos sérios, mas mesmo assim continuava me provocando a cada mínima oportunidade.

— Você sabe, continua parada como sempre. Nada novo.

—  Ah, Shouto… Você deveria deixar esse negócio de imprinting², almas gêmeas e blábláblá de lado. Raramente acontecem e provavelmente são só conto de fadas, você dá muita bola pra essas coisas, mas elas não vão fazer seus problemas desaparecerem.

— Eu não acredito nessa baboseira… — resmunguei estressado. Até quando vou ser julgado por uma crença infantil? Eu dava muita credibilidade para as lendas da minha mãe quando ela ainda era viva.

— Ah, você é hilário! — o beta limpava as lágrimas que tinham escorrido após as risadas, satisfeito depois de me perturbar novamente. — E a princesa inglesa?

– Princesa ing… Camie?!

— Sim, sim. A turista ômega super bonita que estava te dando bola, mas você nem ligou.

— Ela é uma garota legal, mas…

— Não é sua metade da laranja e blábláblá. Você vai morrer sozinho, sabia?

— E-Eu não ia dizer isso!

— Ah, entendi. — debochou, desviando o olhar de mim para o carro com as garotas de antes, que se aproximava mais uma vez. — Vou fazer de nov… — puxei sua camisa antes que enfiasse o corpo pra fora da janela.

— Sossega, seu louco.



— Shouto! — escutei a voz de Chiyo ao chegar em casa após deixar Raiden na sua, percebendo que a grisalha estava acompanhada de mais duas mulheres no jardim. — Esse é meu afilhado, Shouto. Cuido dele desde que era só um pirralhinho. — disse para as acompanhantes, que soltaram alguns risinhos com a respostas. Só pude corar um pouco e rezar para que aquela sessão de vergonha não durasse muito.

Chiyo adorava me jogar para os lobos, e quando digo lobos, estou me referindo a mães desesperadas para casar seus filhos ômegas.

— Eu tenho uma filha da sua idade, Shouto! — não disse?

— Sério? Isso é legal, mas eu preciso entrar… Estou cansado. — tentei ser o mais educado possível na minha fuga, não esperando mais nenhum segundo para finalmente entrar em casa, indo direto pro banheiro tomar um banho para, enfim, descansar.

Morava com Chiyo desde meus 12 anos. Quando minha mãe se suicidou após ser abandonada por meu pai – que viajou para outro país e formou uma nova família –, eu fiquei sem ninguém e, como não podia me sustentar sozinho, tive que vir morar com minha madrinha e foi ela quem cuidou de mim durante todos esses anos. Eu a amava muito, apesar dela tentar me casar a todo custo.

Chiyo era uma curandeira bastante conhecida na vizinhança por seus remédios caseiros muito úteis, enquanto eu trabalhava na oficina da aldeia.

Ainda que Chiyo seja muito especial pra mim, não tenho interesse em permanecer em Yoshimura pra sempre e tenho guardado dinheiro faz bastante tempo… Eu quero ir pra longe, viajar e conhecer outros lugares, coisa que nunca terei estando preso aqui, mas não sei como dizer algo assim pra ela.

Não quero que se sinta sozinha quando eu não estiver mais aqui.


Notas Finais


Yoshimura¹ – aldeia fictícia inventada por mim, ela não deve existir na vida real, mas se existe, não é a mesma.

Imprinting² – ligação de alma que antecede a marca no Universo ABO. É algo semelhante a almas gêmeas e destino.

Wattpad: https://my.w.tt/5LtcfIHj34


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