1. Spirit Fanfics >
  2. Catch a Bulbasaur in Halloween >
  3. Bulbassauro vs. Charizard no Festival de Inverno

História Catch a Bulbasaur in Halloween - Capítulo 2


Escrita por:


Capítulo 2 - Bulbassauro vs. Charizard no Festival de Inverno


07 de Novembro de 2019

Sala de música da Seoul Arts High School

 

As teclas do piano eram administradas com maestria. Call You Mine da Bebe Rexha soava de forma melancólica na sala de música ocupada somente pela estudante. Ela adoraria que aquela fosse a trilha sonora do cortejo fúnebre de sétimo dia desde o enterro de Soobin, mas não teve sorte naquele trinta e um de Outubro passado. O dia mais vergonhoso dos dezoito anos vividos por Boram.

Parte do pijama preferido dela tinha sido rasgada pelas mãos inconvenientes do Choi, essas que seguraram com tanta força para impedir a queda da garota – o que não aconteceu – e acabaram, acidentalmente, revelando mais do que deveriam. Só de lembrar que vários desconhecidos viram a calcinha dela deixava a Kim à beira de um ataque de nervos.

— Eu quero transformar aquele rosto bonito em pedacinhos. – As notas saíram desafinadas, em total desordem, quando Boram espremeu os dedos sob as teclas, fugindo da melodia musical e expressando a raiva que não conseguia conter. — Pedacinhos bem pequenos, triturar tudo!

Encarar a sacola ao lado da mochila era um tanto desconfortável. Após o acidente, Soobin retirou parte do uniforme – o blazer azul marinho – para que a garota pudesse amarrá-lo na cintura e cobrir o local com o buraco do tamanho de uma cratera feita por um meteoro. Agora ela chegava a até mesmo simpatizar com os dinossauros.

Boram não conseguia lembrar com exatidão do ocorrido, apenas do breve momento em que o próprio destruidor de pijamas alheios fez todo o trabalho enquanto ela tinha os braços imobilizados por Danoh, para que não estapeasse o pobre garoto. O constrangimento e a raiva que sentia por ele não deixaram que a presidente esboçasse pena da expressão arrependida que estampava a face masculina. Nem uma mínima gota de piedade. A vida de Boram era um matriarcado regido por ela mesma, Soobin que se lascasse.

Apesar disso, era impossível não ter na mente a lembrança do perfume dele ao se aproximar. Foi involuntário para Boram, quando percebeu, já tinha gravado com afinco os detalhes de Soobin que ainda não havia apreciado tão de perto anteriormente. O fato do aroma parecer irradiar como se fosse inato, naturalmente da pele dele, era intrigante. A Kim tinha a sensação de embaraço sempre que pensava no colega, sentia-se frustrada por não obter êxito em tirá-lo da cabeça, por não conseguir parar de achar o quanto ele ficava adorável quando procurava desculpas e as proferia sem uma mínima pausa através dos lábios macios.

A sala de prática vinha sendo utilizada por ela há cerca de duas horas. Repassava os detalhes finais de sua apresentação para o Festival de Inverno do colégio, porém, estava sendo mais difícil concentrar-se na partitura do que convencer Danoh sobre não precisar de maquiagem, por exemplo. A Kwon tinha o lema de que, não importava a hora, o dia ou o clima, seus fiéis escudeiros seriam sempre o corretivo e o lip tint. O total oposto da Kim, motivo pelo qual aquela amizade era bem equilibrada.

— Certo. Eu desisto. – Anunciou para si mesma, aceitando que não conseguiria produzir nada com a cabeça tão cheia. 

Boram ergueu-se apressada, juntando em uma pasta os papeis das canções que tinha revisado, e rumou para fora da sala. Decidiu, após uma longa batalha interna, que devolveria o uniforme de Soobin antes de qualquer coisa, evitando assim ter que falar com ele até que estivesse formada, no mínimo.

O celular já estava em mãos enquanto ela caminhava pelos corredores vazios. A grande maioria dos alunos tinha sido liberada, mas Boram costumava ficar até mais tarde após as aulas, seja estudando ou praticando para as atividades extras. Digitava uma mensagem para Soobin querendo saber o paradeiro do garoto, mas logo apagava, encarando com certo receio a janela aberta do aplicativo de conversa. Tinha o número gravado em sua agenda virtual porque era a presidente de turma e precisava estar em contato com todos os colegas, é claro. Nada mais.

— Eu não falo com ele normalmente. Talvez soe estranho? – Ponderava. Os dedos foram para os lábios, indecisa sobre procurá-lo ou não. 

 

[21:13] Choi Soobin: você ainda 'tá na escola?

 

A mensagem surgiu de repente e logo os dois traços do aplicativo ficaram azuis, indicando que Boram tinha a conversa aberta ao mesmo tempo que Soobin. Ambos estavam online como em uma telepatia inesperada ao estilo professor Charles Xavier. O aparelho brincou entre os dedos femininos trêmulos, antes dela agarrar o objeto com força evitando a queda que o levaria de encontro ao piso polido. Por sorte, o smartphone levinho não era um Nokia 3310.

O coração da jovem de cabelos castanhos parecia ter experimentado o famoso bungee jumping, batendo descontrolado no peito, como se a corda de segurança presa às pessoas praticantes do esporte radical estivesse esticando e soltando, resultando em uma pressão no corpo daquele corajoso o suficiente para pular de penhascos.

 

[21:14] Kim Boram: 'to sim

[21:14] Kim Boram: por que quer saber?

 

O tapa certeiro que ela desferiu na própria testa parecia querer puni-la pelo nervosismo. Boram não acreditava que tinha respondido a mensagem em um minuto, não queria de forma alguma assemelhar-se à uma curiosa desesperada para encontrar o garoto, mas não tinha o que fazer se estava realmente – muito – atormentada por culpa do incidente no Halloween. Se pudesse, teria ateado fogo no uniforme masculino e feito a dança da chuva em volta, porém, sabiamente contrariada, teve que inventar uma boa desculpa para que a mãe dela não tentasse descobrir quem era o dono da peça de roupa e o motivo de estar com a estudante.

A Kim continuava encarando a tela do celular, absorta nos próprios pensamentos e motivos para que a mensagem aparecesse como sendo digitada durante minutos excessivamente longos demais. Até que, para alguém que não queria deixar transparecer, Boram estava se saindo como uma angustiada de carteirinha.

 

[21:19] Choi Soobin: quero falar com você

[21:19] Choi Soobin: podemos nos encontrar? 

[21:20] Choi Soobin: também 'to na escola

[21:20] Choi Soobin: perto da entrada

 

O aparelho vibrou, indicando que recebia mensagens de outras pessoas, mas Boram decidiu ignorá-las por enquanto. Algo que não teve êxito em fazer com as memórias relacionadas à Soobin, atrações fajutas de terror barato e perfume de calêndula. Se pudesse, passaria um bom tempo cheirando o longínquo pescoço do mais alto como uma verdadeira farejadora, igual ao jeito que o seu Lulu da Pomerania fazia com as roupas que ela largava pelo quarto.

 

[21:21] Kim Boram: tudo bem

[21:21] Kim Boram: 'to a caminho

 

O tempo que levou para chegar na entrada do edifício, ou nesse caso saída, foi pequeno. Apesar dos pés terem sido arrastados com lentidão e desânimo como demonstrava o rosto feminino, por dentro, Boram dava triplos mortais carpados como se fosse a própria Simone Biles em carne e osso. Ela carregava consigo o uniforme que queria devolver ao garoto, algo que precisava ser feito rapidamente para que ocorresse de forma menos indolor. Seria como estar passando por um procedimento estético chamado depilação. Sabe, arrancar tudo de uma vez sem medo. Ou melhor, com medo, mas ainda sim em uma cajadada só.

Não que Boram tivesse algum grande problema com o colega de turma, mas a garota sabia, lá no fundo, que Soobin mexia com algo dentro dela. Aquele frio na barriga clichê que estava presente em noventa e nove por cento dos livros de romances adolescentes que a garota já havia lido. Quando percebeu que não conseguiria vencer o sentimento ainda não nomeado, decidiu que o melhor seria ter menos contato possível. Por isso, fugia de todos os trabalhos em grupo e atividades extras que o envolvessem. Boram corria de Soobin como o Diabo foge da cruz.

No entanto, Soobin era um cara legal, ela até admitia. Além de ser bonito fisicamente, mais do que Tom Welling em Smallville no início dos anos dois mil. Isso a garota também conseguia aceitar sem maiores protestos. Boram não era cega, afinal. Só míope.

As portas automáticas ao final do corredor abriram-se para que a colegial finalmente chegasse ao pátio da propriedade. O clima gélido de Inverno fez a Kim encolher o corpo dentro do grosso casaco, a ponta do nariz dela estava avermelhada por conta da temperatura quase negativa e, toda vez que soltava uma lufada de ar o hálito quente dissipava-se no ambiente. Não usava luvas, mas teria optado pelo acessório se tivesse lembrado de como aquecer os dedos era importante. Tinha total inclinação e apreço para evitar que as mãos congelassem e perdesse um mindinho.

Soobin, sentado em um dos bancos de madeira que estavam dispostos no local, percebeu os passos cuidadosos da mais baixa. Era fácil escutá-la já que, tirando alguns funcionários, não havia ninguém no colégio. O garoto levantou-se com rapidez, ajeitando as coisas que carregava entre os braços. Viu a figura pequena de Boram surgir e encarou-a por breves segundos antes de sorrir singelo.

— Sobre o que quer falar? – Uma pequena distância separava-os, mas o abismo de sentimentos parecia muito maior. — O que é isso?

Intrigada pela embalagem um tanto brega e suspeita que o Choi carregava, ela decidiu encurtar a distância. O mais alto percebeu as orbes escuras cravadas no objeto e estendeu o presente na direção da garota sem pensar duas vezes.

— Meu pedido de desculpas. 

Ele tinha preparado um discurso bastante extenso sobre como estava arrependido por ter constrangido Boram no dia do passeio no Lotte World, dando ênfase no fato de que nada tinha sido planejado, mas que não deu para evitar a bela escaneada na calcinha de corações cor de rosa e como tinha achado a peça fofa. Só que, após mostrar o texto para Yeonjun, acabou jogando tudo no lixo. O amigo de cabelos azuis deixou claro que se Soobin falasse aquilo não escaparia de uma surra.

— Pelo que? – A caixa continuava sendo segurada por Soobin, mas, após ponderar e chegar a conclusão de que negar o gesto não adiantaria de nada, ela recebeu o dito presente, sentando-se no banco vago. 

Nesse momento, Boram escutava as duas vozes opostas em sua mente. Uma agradecia em tom emocionado enquanto dava pulinhos de alegria e a outra sussurrava com convicção para que a garota não aceitasse o Cavalo de Troia disfarçado em papel brilhante e laço vermelho.

— Aquele dia. Sabe ... a sua calcin ...

— Fica quieto, Soobin. Pelo amor de Deus.

— Não está mais aqui quem falou. – Ergueu os braços em sinal de rendição antes que acabasse apanhando.

Boram desembrulhou o presente sem muita delicadeza, rasgando as laterais e mantendo somente o laço colorido intacto. O garoto ainda estava de pé, observando com cuidado as expressões no rosto feminino. Testa vincada, nariz que fungava vez ou outra por conta da temperatura e olhar curioso. Soobin estava certo de que ela gostaria do que ele escolheu com bastante cuidado no site de uma loja importada, havia até mesmo pago o frete mais caro para que a peça chegasse o quanto antes.

O pijama laranja do Charizard foi sendo desdobrado pelas mãos da Kim. O tecido era um pouco mais grosso do que o antigo e com uma camada flanelada, perfeito para o clima congelante. Parecia de um tamanho maior do aquele que havia sido arruinado, mas o diferencial estava nas asas azuis. No entanto, ela estava confusa. Aquele não era o seu personagem preferido. Não que a garota ligasse para presentes, mas se Soobin pretendia se desculpar que ao menos acertasse nisso.

— Acho que temos um engano.

— Como assim?

— Olha. – A peça foi erguida para que Soobin pudesse vê-la por completo. — Parece com o que eu estava vestindo naquele dia?

— Não, mas o outro estava fora de estoque.

Boram podia confirmar pela expressão do mais alto que ele estava envergonhado, mexendo de forma aleatória nos cabelos castanhos e chutando algum tipo de pedra imaginária. As bochechas tão vermelhas como se tivesse acabado de levar um tapa fizeram com que a colegial quisesse rir, mas conteve-se tentando manter uma postura inabalável. Soobin jamais poderia saber que a palavra "encantador" passou como um raio pela mente da garota.

— Tudo bem. Eu vou aceitar já que é melhor do que nada. – Ela ergueu-se para que pudesse colocar o presente dentro da própria mochila. — Obrigada.

— Você vai embora agora?

— Vou, mas antes preciso devolver uma coisa.

A sacola com o uniforme masculino foi erguida em frente ao Choi que rapidamente segurou o objeto. Ele parecia extremamente nervoso por estar tendo uma conversa com a presidente de classe. Soobin não levava muito jeito com garotas, principalmente uma pela qual sentia algo diferente. Era como se fosse desmaiar a qualquer instante e, se dependesse de Boram, talvez o corpo dele ficasse estatelado no chão ao ar livre naquele frio. Provavelmente congelando no gelo por setenta anos assim como o bom Steve Rogers.

— Eu te acompanho. Está tarde.

— Não precisa. Sei me cuidar.

Boram acenou, mantendo a expressão impassível no rosto. Queria acabar com qualquer possibilidade de ser acompanhada por Soobin, despedindo-se o mais rápido possível. Ajeitou a mochila, mordendo os lábios em apreensão, e caminhou para longe de forma desajeitada. O chão estava escorregadio por conta da chuva que acabava caindo naquela estação em específico, mas concentrou todas as habilidades que adquiriu ao longo dos anos na equipe de atletismo para que fosse para o mais longe do Choi.

Apesar da tentativa de escape, Soobin alcançou-a sem maiores problemas fazendo a mais baixa praguejar sobre garotos com pernas longas. Tudo o que ela queria era chegar em casa, tomar um banho quentinho e nunca mais ter que sentir a presença do colega tão de perto como acontecia naquele momento. Ambos caminhavam em completo silêncio como se fossem incapazes de manterem uma conversa civilizada e esse era o motivo que a fazia odiar ficar à sós com ele.

O momento constrangedor gerava em Boram uma enorme vontade de sumir no primeiro esgoto que encontrasse como se estivesse sendo chamada por It. Preferia ter que lidar com um palhaço extraterrestre assassino do que com as secadas que recebia do mais alto. Ele só a encarava sem dizer nada, abrindo a boca no processo, mas logo desviava o olhar para o horizonte.

— Fala logo, Soobin. Antes que eu chute a sua canela.

Foram poucos minutos até que avistassem o ponto de ônibus. Sentaram lado a lado enquanto esperavam pela condução que os levaria para casa. Moravam em bairros diferentes, mas não muito distantes um do outro. Boram esfregava as mãos criando o atrito necessário para aquecê-las enquanto o Choi continuava a agir com se o gato tivesse comido a língua dele.

— E-eu posso te pagar um almoço? Seria um bônus do pedido de desculpas.

Soobin não conseguia encarar a mais baixa e olhava somente na direção dos tênis impecáveis que usava todos os dias. A barriga parecia revirar pelo nervosismo de finalmente ter convidado Boram para uma espécie de encontro-se-você-quiser-que-seja-um. Ele sabia que as chances dela aceitar eram mínimas, porém, havia sido encorajado por Yeonjun seguindo um famoso ditado de "o não a gente já tem, agora vamos correr atrás a humilhação".

— Já aceitei o presente e te desculpei. Não precisa se incomodar.

Obviamente, o convite era totalmente inesperado. Choi Soobin, focado apenas nos estudos, com um único amigo em toda a vida colegial, que nunca havia saído com uma garota. Aquilo não fazia o menor sentido, mas Boram ousou virar o rosto para observá-lo batucando com os pés no chão, segurando os dedos com certa força e de cabeça baixa. Os cabelos ocultavam qualquer que fosse a expressão na face masculina, mas ela poderia jurar que ele estava de olhos fechados, mordendo os próprios lábios. Algo apertou dentro do peito da presidente de turma.

Nervosismo. Não havia outra palavra para descrever as reações.

Boram ergueu o braço, queria tocá-lo e pedir para que ficasse calmo, no entanto, hesitou. Voltou atrás como sempre fazia quando o assunto era o garoto ao lado. Reprimiu qualquer desejo do coração mole e fácil de ser conquistado. Sim, ela se fazia de durona, mas no fundo era só uma colegial cheia de sonhos.

O ônibus que seguiria a rota até Yongsan surgiu a alguns metros de distância chamando a atenção da Kim. Ela não tinha certeza sobre como agir ou o que dizer até que avistou a pasta repleta de partituras e, como em um lampejo, a ideia perfeita surgiu. Não seria uma resposta concreta, deixaria aquele mistério no ar. 

— M-mas ...

— É isso! – Um tapa foi deixado no braço do Choi após interromper o garoto. Um tapa bem forte. — Se você conseguir o primeiro lugar no festival, eu aceito.

Estapear a própria testa foi o momento de glória ao apreciar a ideia brilhante que acabara de ter. Um sorriso despontava de canto a canto no rosto de expressão orgulhosa e levemente corado por culpa do frio – ela jurava de pés juntos que não era por causa de Soobin – ao perceber que era observada pelo outro. Ao menos ele tinha parado de tremer, estava visivelmente confuso.

— O que? – Ergueu a cabeça rapidamente. Os dedos ainda apertavam uns aos outros.

O automóvel responsável pela condução coletiva parou em frente à dupla, abrindo a porta mecânica. Boram estava animada. Saltitante como se tivesse descoberto o segredo para a paz mundial ou a cura para uma doença muito grave. Ela estava se sentindo como a verdadeira pomba branca.

— Tchau, Soobin. – Ela acenou de forma completamente eufórica e começou a se afastar.

Tão animada que não verbalizou mais explicações e até se atrapalhou para encontrar o cartão de passagem. Desculpou-se com o motorista de cabelos grisalhos, correndo para sentar-se em um banco vazio próximo à janela. Acenava para o garoto que foi deixado para trás como se ele tivesse entendido alguma coisa, mas é claro que não.

Fazia anos que Boram sempre levava o primeiro lugar da competição artística e faria de tudo para que o grande feito se repetisse, assim, não teria que sair com o Choi de cabelos castanhos. Exceto pelo fato de que, agora, Soobin estava mais motivado do que nunca a levar a coroa de vencedor do Festival de Inverno.

Salve-se quem puder.

[ ... ]


2 semanas depois

Auditório da Seoul Arts High School


O grande auditório estava com a decoração finalizada. Aos poucos, os estudantes começavam a preencher os assentos vazios enquanto aguardavam com ansiedade pelas apresentações do famosíssimo Festival de Inverno. Era um evento e tanto, comentado em todas as redes sociais dos diversos colegiais da instituição.

Boram já estava nos bastidores. Mal havia conseguido digerir o café da manhã antes de partir apressada para o colégio. O receio latente de que pudesse estrelar uma das cenas medonhas de O Exorcista fez com que a garota evitasse comer demais.

A presidente seria a primeira a se apresentar junto do belo e robusto piano de cauda, além de recitar o discurso de abertura escrito por ela mesma. Apesar de ser uma veterana no assunto, sentia como se aquela fosse a primeira vez. Nunca teve que de fato vencer a competição, mas agora tinha uma motivação diferente. Precisava do prêmio para não ter que lidar com Soobin no futuro.

Por sorte, ela não havia encontrado o Choi desde que pisou na grande propriedade da escola, mas acabou esbarrando em Yeonjun, dupla inseparável daquele que tinha tomado por completo os pensamentos da estudante. Era impossível não reconhecer os cabelos azuis, porém, evitou qualquer pergunta sobre o desaparecido. Não daria com a língua nos dentes e jamais demonstraria interesse no paradeiro do colega de turma.

As unhas pintadas de um esmalte em tom de lilás repleto de brilho corriam sério perigo de serem roídas, mas estavam a salvo ao menos até que a apresentação terminasse. Ela queria estar impecável para que os dedos trabalhassem como nunca ao tocarem a melodia cativante da música que seria coroada a vencedora entre todos os participantes como era imaginado pela garota.

— Boram, me siga. Já vai começar.

Danoh surgiu na porta do camarim feminino munida de uma prancheta. Os olhos corriam pela folha e a caneta logo registrava diversas anotações. A organizadora do festival era bastante exigente e intimidadora, um tanto grossa e sádica, mas eficiente. Boram tinha certeza que tudo sairia nas conformidades e ambas receberiam pontos extra na grade curricular.

— Você acha que vai dar certo? Aquilo. Aquela coisa secreta.

Os dedos tremiam em volta da garrafa de plástico com a água pela metade. A Kim bebeu o líquido restante em um grande gole que a fez tossir em desespero e bater no próprio peito tentando acalmar a respiração.

A Kwon, e amiga da pianista, rangeu os dentes em desconforto, sibilando pausadamente um "cala essa boca grande" antes que a presidente de classe saísse espalhando para todas as almas vivas e almas penadas da Seoul Arts High School sobre o plano que haviam bolado em conjunto.

— Se é secreta, – Danoh agarrou a outra pelo pulso, levando-a para um canto mais afastado. A voz não passava de um sussurro. — por que raios de motivo você está falando sobre isso aqui?

— Eu estou agindo como uma burra, não é?

— Concordo. Agora vai logo. – Rebateu, empurrando a amiga de forma apressada.

Boram foi praticamente expulsa do ambiente de descanso e caminhou pelos corredores repletos de pessoas que faziam parte da equipe de organização interna do evento. Ela respirou fundo, recitando um mantra para que se acalmasse antes de subir ao palco e iniciar as formalidades necessárias. Avistou os diversos estudantes e docentes sentados nas poltronas confortáveis do auditório lotado e tudo ocorreu como ensaiaram durante meses. Ao final dos aplausos, Danoh foi quem apareceu, aproximando-se do microfone para anunciar a primeira atração. 

Sentar no piano imponente era como estar em um mundo novo. O tato acostumado com o tamanho das teclas e a audição agraciada com o som de cada nota que ecoava no salão eram um alento para a garota. Sentia-se feliz e encorajada a desbravar o mundo toda vez que tocava uma música que gostava. O público também parecia estar entretido com a apresentação que foi finalizada por palmas expressivas e assobios agudos.

Ela agradeceu, retirando-se do palco para dar espaço a Kwon. A organizadora seguiu o roteiro, chamando cada participante enquanto a presidente de classe retornava ao camarim feminino, recebendo diversas parabenizações pelo caminho. Trocaria o traje social por uma roupa mais confortável. Estava um tanto cansada e, dessa vez, retornaria ao auditório para ser uma mera espectadora enquanto assistia ao restante dos alunos que se apresentariam. 

No entanto, ao abrir a porta, deparou-se com um buquê de flores em cima de uma das poltronas no local. O arranjo de rosas cor-de-rosa estava ali, sozinho e notório. Ao lado, uma pequena embalagem enlaçada sem qualquer bilhete. A Kim balançou a cabeça querendo espantar os pensamentos sobre dar uma pequena espiada no conteúdo da caixa delicada, mas algo em seu sexto sentido parecia gritar sobre como ela estava andando demais com Danoh e tornando-se uma bela de uma fofoqueira. Tinha que bisbilhotar e descobrir o objeto ainda não identificado para que tivesse a plena certeza que não era para ela, é claro.

Boram segurou a caixa com cuidado, abrindo-a do jeito mais gentil possível e deparou-se com um chaveiro do Bulbassauro. Não conseguiu conter a expressão de completo espanto e muito menos pôde impedir o coração de bater acelerado. Quer dizer, não existiam muitos fãs de Pókemon que fossem exatamente uma garota que estava participando do festival, estudante do terceiro ano naquela escola em específico e que tivesse sido alocada no camarim de número dois, não é?

O presente era mesmo dela.

[ ... ]

A plateia inteira estava atenta à apresentação do grupo de cinco garotas que dançava uma música do ITZY. Enquanto isso, Boram, encolhida em um dos assentos da sétima fileira, bufava em descrença ao perceber a saliva que praticamente escorria das bocas dos garotos do primeiro ao terceiro ano.

Ela tinha o capuz do casaco cobrindo os cabelos castanhos e parte do esmalte, antes impecável, já estava desfeito. Não conseguiu poupar as unhas do nervosismo ao pensar que a dupla dos Choi seria a próxima atração. Foram anunciados por Danoh e logo entraram no palco. Sentaram-se em duas cadeiras, lado a lado, e Soobin ajeitou o violão sob as pernas. Os microfones estavam em pedestais e a presidente não fazia a mínima ideia do que eles iriam cantar.

Repassava dentro da cabeça prestes a explodir o plano que havia combinado junto com a amiga. Não que Boram não confiasse nas próprias habilidades, mas o medo de que o garoto ficasse em primeiro lugar era maior do que a vergonha na cara. Foi aí que, então, ambas decidiram usar da influência que possuíam para dar uma ajudinha a Kim. Existia um pequeno – quase inexistente – peso na consciência pela trapaça e jogo sujo, porém, aquilo era o preço do desespero. Não poderia sair com o Choi. 

— Nunca. Nem que ele fosse a última bolacha do pacote. Não!

Um "shiuuu" em tom irritado fez a garota se calar no mesmo instante. Ela murmurou um pedido de desculpas, retomando a atenção para os acordes que começaram a soar nas caixas de som do lugar. Evitou fazer contato visual com o destruidor de pijamas, mas era impossível não reparar no quanto ficava bonito em jeans rasgado e converse vermelho.

Sabia que faltava só mais alguns segundos para que o plano fosse executado e sorriu animada quando Miniskirt do AOA interrompeu a música acústica que ficaria perfeita nas vozes dos amigos de cabelos castanhos e azuis. Danoh poderia ser diabólica quando queria, no entanto, Boram se considerava uma sábia gênio do mal.

Tirou o capuz que estava atrapalhando a visão e endireitou-se na poltrona, batucando com os pés no piso polido e curvando os lábios em um claro sinal de que não poderia estar mais satisfeita. Mesmo que o erro – proposital – não fosse culpa da dupla e eles tivessem direito a recomeçar a apresentação, acreditava que Soobin ficaria nervoso o suficiente para não se sair tão bem assim. 

Boram só não esperava que Yeonjun, após segundos paralisado, fosse se levantar e puxar o outro pela manga da blusa. A expressão confusa mudou para uma que demonstrava total confiança no que pretendia fazer e, então, afastando-se dos microfones, ambos começaram a dançar a coreografia original da música.

Mayday, mayday! O plano estava arruinado.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...