1. Spirit Fanfics >
  2. Catch Me, Eve - Villaneve >
  3. Chapéu Seletor

História Catch Me, Eve - Villaneve - Capítulo 3


Escrita por: e SadnessDaLana


Notas do Autor


Oi gente! Gostaríamos de agradecer a todos que estão acompanhando!

Capítulo 3 - Chapéu Seletor


Fanfic / Fanfiction Catch Me, Eve - Villaneve - Capítulo 3 - Chapéu Seletor

1 de Setembro de 2005 – Beco Diagonal, Londres.

Gregory Oh tentava manter sua boa pose diante de várias classes sociais bruxas enquanto conduzia suas filhas, pelo local de suma importância, com suas listas de materiais.

Lilith e Madelaine praticamente arrastavam o pai por várias lojas a procura de apetrechos dos mais desnecessários e caros aos mais fúteis, logicamente e igualmente, caros. Em uma das livrarias onde compraria seu material didático, Eve notou que seu pai e suas irmãs não estavam mais na loja. Suspirou, estava só e teria paz.

Continuou a procurar os títulos corretos pelas prateleiras, havia bruxos de idades variadas também a procura de seus respectivos materiais, muitos acompanhados dos pais, outros conversavam entre si. Eve não conhecia ninguém, não sabia bem como interagir, então apenas continuou tentando ser invisível aos olhos de todos, como sua família a instruiu a ser.

Depois de algum tempo, já segurava os livros necessários, se encaminhava para o caixa até esbarrar em alguém, segurou firmemente os livros em seus braços e se manteve de pé, mas o garoto que colidiu contra seu corpo estava de joelhos no chão, enquanto recolhia os próprios livros que havia derrubado.

- Desculpa! Eu sinto muito, eu... – O garoto iniciou, era meio desastrado e parecia amedrontado. – Senhorita Oh, não recorra aos seguranças, por favor. – Eve franziu o cenho.

- Mas fui eu que esbarrei em você! – Ela exclamou o óbvio .

- Eu não deveria estar no seu caminho. – O garoto levantou-se de cabeça baixa.

- Deixe de ser idiota, a livraria está cheia. – Eve rebateu. – Como sabe o meu sobrenome?

- Vi você com o seu pai e suas irmãs. Queria deixar claro que é uma honra ir para Hogwarts no mesmo ano que a filha mais reservada, intrigante e bonita do senhor Gregory Oh. – Eve franziu o cenho mais uma vez. – Me perdoe, eu não quis dizer...

- Para de se desculpar, credo. – Eve o cortou. – Eu não sou como eles, não vou chamar um segurança porquê alguém esbarrou em mim por minha própria culpa. – O garoto suspirou em alívio. – Alguém da minha família já fez isso?

- O tempo todo. Quer dizer...

- Nossa. Que horrível. – Eve bufou em insatisfação. – Como pode ver, eu devo ser a vassoura desgovernada dessa família, então você pode me tratar como um ser humano normal. – O garoto assentiu. – Sou Eve Oh, e você?

- Niko Polastri. – Ele apresentou-se e estendeu sua mão. Eve a apertou e sorriu. – Você não parece muito feliz, se me permite.

- Eu não estou feliz. Estou apavorada! Tenho medo de fazer alguma bobagem em Hogwarts, ser expulsa e sujar o nome da minha família.

- Nossa, eu também! – Niko revelou recebendo a completa atenção de Eve. – Quer dizer, minha família não é tão grandiosa como a sua, mas eu sou um completo desastre em tudo o que faço, tenho medo de não ser aceito em nenhuma das casas.

- Isso pode acontecer? – Eve indagou assustada.

- Ouvi boatos de que já ocorreu!

- Bom, o jeito é apoiarmos um ao outro. – Eve declarou se encaminhando ao caixa onde ambos pagaram por seus livros. Em seguida, caminhou até a porta da loja.

- Você não vai esperar pelo seu pai? – Niko indagou.

- Ele nem deve saber onde me esqueceu. Isso é normal. – Niko a seguiu. – Qual a próxima coisa na lista?

- Temos que comprar nossas primeiras varinhas.

- Isso! – Eve seguiu pelo caminho certo, sempre encarando as várias lojas e bruxos felizes com o início do ano letivo. – Seus pais não vieram com você?

- Estão trabalhando. Minha mãe me deixou aqui e virá se despedir mais tarde. – Explicou. – Eles trabalham duro para conseguir me mandar para Hogwarts e eu sou um fracasso.

- Você se coloca muito pra baixo. Porque acha que é um fracasso?

- Eu tropecei cinco vezes nesses trinta minutos em que estamos juntos aqui.

- Você é desastrado, mas fez comentários inteligentes, gosta de poesia, gosta de cozinhar, se empenha em ser um bom bruxo, isso não parece um fracasso pra mim. – Niko encara a menina ao seu lado, completamente extasiado.

- Como você sabe isso em tão pouco tempo? Eu nem falei sobre essas coisas!

- Falou sem perceber. Eu sou uma observadora nata. Consigo desvendar uma pessoa com poucas informações e em pouco tempo. Por isso minha família me abomina, Eu sempre sei o que eles escondem. – Niko segurou uma das mãos de Eve.

- Eles te abominam por ser brilhante?

- Não. Eles têm medo de mim. Eu uso essas habilidades para investigar assassinas. – Eve viu o sorriso no rosto de Niko sumir, e seu sonho se acabou. O único amigo que possuía já estava com medo dela. – Desculpa, é estranho.

- Eu achei demais. Você é tão corajosa, eu não faria algo assim nem por dinheiro. – Eve sorriu. – Seus pais não deveriam ter medo de você. Seu sonho é caçar as assassinas para deixar o mundo mais seguro, não é?

Eve calou-se por um tempo. Nunca havia parado para pensar em seus motivos para ter tais costumes. Talvez Claire e Niko estivessem certos. Essa era sua vocação. Ser uma Auror e deixar o mundo bruxo livre de assassinas.

- Sim. – Eve finalmente respondeu. Ambos adentraram a loja de varinhas mais famosa do mundo e aguardaram. – Você me acha bonita? – Eve indagou fazendo o amigo corar imediatamente, mas antes que ele pudesse responder, o insubstituível Olivaras surgiu por entre as gigantescas prateleiras.

- Olá. Deixe-me tentar, estão atrás da primeira varinha? – Ambos assentiram. – Quem começará primeiro?

- Ele! – Eve estava apavorada, mal poderia organizar em pensamentos tudo o que queria fazer com uma varinha, e tudo o que nunca poderia fazer.

- Certo, diga seu nome.

- Niko Polastri. – O garoto informou enquanto viu o mestre da confecção de varinhas seguir por entre as prateleiras.

- Tente essa, lembre-se, a varinha escolhe o bruxo. Deixe que seu poder flua sobre ela. – Niko segurou a varinha e no instante que a sacudiu, uma grande explosão atingiu a loja, derrubando várias estantes e transformando o ambiente em um caos. – Por Merlin!

- Senhor! Perdão!

- Tudo bem, criança. Núcleo de fibra de coração de dragão pode ser muito instável. Eu darei um jeito nisso. – Olivaras sacou sua própria varinha onde iniciava a restauração do ambiente e fazia com que as demais varinhas parassem de dançar ou sacolejar.

- Senhorita, creio que seja mais seguro que espere lá fora. – Eve assentiu e deixou a loja, sentando na calçada. Agora definitivamente estava apavorada.

Esperou por mais algum tempo enquanto observava algumas pessoas passarem por ela, mal a enxergavam ali. Eve gostava de pensar que possuía a capa da invisibilidade para ser tão boa em não ser notada, mas seu devaneio fora cortado assim que alguém finalmente a enxergou.

- Oi, porquê está aqui fora? – Eve encarou a menina que havia acabado de chegar. Estava bem vestida, possuía uma lindíssima pele negra, usava seus cabelos crespos em dois coques e um par de rubis em forma de brincos.

- Meu amigo tentou usar uma varinha e causou uma catástrofe aí dentro, o senhor Olivaras pediu para aguardar aqui fora. – Eve explicou, tentando disfarçar o pavor que sentia.

E se ela causasse algo ainda pior? Já havia causado tantos acidentes com magia em casa, quando usava feitiços com as próprias mãos que resultavam no ministério da magia batendo em sua porta, afinal, bruxos menores de idade não poderiam usar magia fora de Hogwarts.

- Ele tem o azar do bruxo iniciante. Quer uma dica? Fique longe dele. – A menina aconselhou Eve. – Eu uso os rubis pra afastar isso. Eram da minha avó. Aliás, sou Elena Felton, e você?

- Eve Oh.

- Uma celebridade! Os jornais não falam muito sobre você. É o mistério da sua família! Imagino que deva ser um gênio! – Ela proclamava cada palavra com exatidão.

- É a segunda pessoa que diz isso. – Eve responde.

Naquele momento uma garota passou por entre as duas. Seus passos eram focados e ela mal parecia reparar que havia mais duas pessoas presentes. Eve a encarou. Era alta pra idade, parecia decidida e calculista com seus movimentos. Habilidosa, segurava seis livros perfeitamente ajustados com apenas um braço. Seus cabelos eram loiros escuros, quase no tom mel, seus olhos esverdeados encaravam a vidraça da loja com aptidão. Tocou a maçaneta com seus longos dedos até ser parada por Elena.

- Você não pode entrar. Um garoto com azar de bruxo iniciante criou o caos aí dentro, vamos ter que esperar aqui fora. – A garota assentiu e sentou-se ao lado de Eve, que só assim parou de encará-la.

Elena sentou do lado esquerdo da nova amiga, sendo assim, as três estavam sentadas e Eve estava no meio das duas novidades que desfrutariam do primeiro ano de Hogwarts junto dela.

- Sou Elena Felton e essa é Eve Oh, quem é você?

- Villanelle Astankova. – A garota respondeu e passou a encarar as duas, que esperaram por algo a mais vindo da loira, que nada mais disse.

- Elena, o Niko não está com azar de bruxo iniciante. Ele só é desastrado. – Eve defendeu o amigo.

- Ele é desastrado e ainda tem o azar? Por Merlin! Vou te manter longe dele. – Elena alarmou fazendo Eve rolar os olhos.

- O quê é azar de bruxo iniciante? – Villanelle indagou cortando o assunto entre as outras bruxas.

- Minha avó sempre me contou a história de que em cada turma de primeiro ano em Hogwarts, sempre tem algum aluno que carrega um tremendo azar e pode se alastrar entre os melhores amigos.

- E como sabe que é o garoto? – Villanelle estava tentando entender, pois em seu ponto de vista ela poderia carregar o tenebroso azar.

- Ele tocou em uma varinha e derrubou as estantes da loja inteira. Ele com certeza é o azarado. – Elena mantinha convicção em suas palavras. – Nunca ouvi falar de sua família, Villanelle.

- Eu sou órfã. Uma mulher me buscou no orfanato em que cresci e me contou que eu era uma bruxa. – Villanelle contou as meninas que no instante seguinte abaixaram os olhares.

- Eu sinto muito. – Elena desejou.

- Não se preocupe. Eu não posso sentir falta de quem eu não conheço. – Deu de ombros.

- Te assustou descobrir que era uma bruxa? – Eve indagou, completamente envolvida pela tremenda bruxa com potencial para encrenqueira que atraía muito de sua atenção.

- Me aliviou. Vendo as coisas que eu costumava fazer, eu pensava que era um demônio. – Elena gargalhou, fazendo Villanelle a acompanhar. Eve também entrou no meio das risadas cortantes. – E quanto a família de vocês?

- Moro com meus pais e minha avó. Sou filha única e a pessoa que precisa levar a linhagem Felton a algum feito grandioso. – As duas prestavam atenção na garota entusiasmada. – Minha avó foi a azarada da turma dela. Coitada, desde então estudou a fundo sobre como manter esse presságio distante. Meu pai não quis seguir nenhuma carreira no mundo bruxo e então restou a mim. A garota que vai brilhar e levar o nome Felton aos holofotes!

- Tenho certeza que vai conseguir. – Eve desejou.

- Estive com crianças mimadas e arrogantes a manhã inteira nesse lugar. Você já será a melhor dessa turma. – Villanelle diz deixando Elena ainda mais radiante.

- E voltando a falar da nossa celebridade... – Elena encara Eve. – A família Oh é uma das mais prestigiadas do mundo bruxo, e essa garota é o mistério deles.

- Eu sou uma vergonha para minha família, e por isso eles não deixam que eu apareça na mídia. Eu literalmente tive que ameaçar destruir o casamento do meu irmão com meu jeito horripilante de ser se eles não me permitissem vir a Hogwarts. – Eve deixou escapar toda a verdade causando certo espanto em Elena. Eve soltou seus cabelos e os remexeu por entre os dedos. Ela os iria prender de volta, mas fora interrompida.

- Use solto. – Villanelle pediu. Eve apenas assentiu, mantendo um contato visual por alguns segundos.

- Você é diferente deles, eu vejo isso só em alguns minutos com você. – Elena disparou as palavras para a amiga. – E eu definitivamente gosto mais de você do que deles.

Eve sorriu, mas assim que pensou em como responder, foram interrompidas por Niko que deixou a loja segurando sua varinha.

- Senhoritas, podem entrar.

- Eve, quer que eu te espere? – Niko indagou assim que percebeu que sua amiga estava acompanhada.

- Não. Ela te encontra no trem. – Elena responde pela amiga. Niko assente e as três adentram a loja. – Vamos despistar ele. – Villanelle riu assim como Elena. Eve ficou com pena do garoto portanto apenas sorriu amarelo.

- Qual das moças virá primeiro? – Eve e Villanelle encararam-se, Elena deu um passo a frente.

- Pode ser eu. – Elena avisou, dizendo seu nome em seguida. Olivaras retornou com uma varinha que julgou boa o bastante.

- Madeira de Carvalho, núcleo de fibra de coração de dragão, dezessete centímetros, inflexível. Tente.

Elena chacoalhou levemente a varinha em suas mãos e o brilho envolvente que contornou da ponta da varinha por entre seus dedos a fez sorrir. Aquela era a varinha certa. Elena estava confiante, ela não seria a azarada da turma. Os brincos de sua avó funcionavam afinal.

- Quem é a próxima? – Villanelle não moveu um único músculo, e apesar das mínimas reações, Eve sabia o quão difícil aquele momento deveria ser. A poucas horas a garota mal sabia que era uma bruxa. Ela faria aquele esforço.

- Eu. – Deu um passo a frente. – Eve Oh.

- Deveria ter reconhecido. A família Oh mandou outra de suas crianças para mim. – Olivaras sorria de orelha a orelha. Não era possível que todos moviam montanhas para agradar sua família. – Madeira de sequoia, Núcleo de pena de fênix, dezoito centímetros, flexível. Essa é a varinha que todos os membros da sua família usam. Combina perfeitamente com sua linhagem. Também é uma das mais caras da loja.

Eve segurou a varinha, não sentiu um arrepio sequer, chacoalhou, mas nada aconteceu. Era de se esperar que nem isso seria como o de sua família.

- Ela não funciona para você. – Olivaras encarava a menina como se a decifrasse. – Você não é como eles, é algo a mais escondido atrás de um sobrenome de peso. – Eve sorriu ao ouvir as palavras.

Talvez ela estivesse sendo enganada a vida inteira. Ela não era uma aberração que deveria ser escondida. Sua família era, e como ela era diferente, eles a enxergavam como um defeito. Ela não se esconderia mais.

- Experimente essa aqui. – Eve segurou a varinha e sorriu ao sentir a energia inebriante percorrer seu corpo, remexendo seus fios de cabelo e lhe dando calafrios, de alguma forma, ela gostava da sensação do poder que tinha nas mãos. O medo e a insegurança haviam passado.

- Nossa! Deve ser caríssima! – Elena encarava entusiasmada para as mãos da amiga.

- Na verdade não, senhorita Felton. O especial dessa varinha é sua simplicidade. Madeira de azevinho, Núcleo de pena de fênix, dezenove centímetros, inflexível. Essa varinha não se enquadra a qualquer um. Ela costuma entregar sua fidelidade a quem tem como objetivo uma busca perigosa. Ela se adequa a quem tem tendências raivosas e comportamentais. – Olivaras explica, deixando as três impressionadas. – Essa varinha nunca seria escolhida por alguém de sua família pela simplicidade, mas creio que não seja um problema para a senhorita carregar o que chamam por aí de: varinha de segunda mão.

- Alguém realmente fala isso? – Eve indagou. – Que imbecis. Eu vou ficar com ela.

- E agora resta a senhorita.

- Villanelle Astankova. - Apresentou-se ao senhor. – Conhece minha família? – Aquele era um ato desesperado da garota de conseguir qualquer informação sobre si mesma.

- Creio que não. – Ele lamentou. – Não se acanhe criança.

Ele a entregou uma varinha atrás de outra e as reações não eram as esperadas. O que tornou o clima depressivo.

- Eu não sou uma bruxa. – Villanelle deixou a frustração escapar por meio de palavras.

- Às vezes, um bruxo demora a conseguir achar a varinha correta. Mas não se preocupe, magia corre em suas veias. – Villanelle assentiu enquanto encarava o senhor passear por outras estantes. Foi quando uma varinha isolada das demais a chamou atenção.

- Senhor, posso segurar aquela? – Villanelle apontou para a varinha. Olivaras hesitou, mas a entregou a varinha, e no instante seguinte, as boas reações vieram.

Villanelle sempre fez coisas inexplicáveis, mas enquanto segurava aquela varinha, conseguia entender que realmente fazia parte daquele mundo.

- Madeira de amieiro, Núcleo de pelo de unicórnio, dezessete centímetros, inflexível. – Villanelle encarava a belíssima varinha em suas mãos. – Ela é rara, escolhe bruxos avançados com personalidade marcante. Ela é gêmea da varinha do grande Konstantin Vasiliev.

- Quem é?

- O diretor de Hogwarts. – Eve contou.

- E um dos bruxos mais excepcionais que existem. – Ele adiantou.

- Então ele precisará lidar com uma aluna órfã do primeiro ano que tem uma varinha igual a dele. – Villanelle alfinetou arrancando risadas das amigas. Ela sentia-se mais confortável naquele momento.

Villanelle retirou do bolso o papel que Dasha a havia entregado. Olivaras leu e reconheceu. Aquele era o código do ministério que continha valores para os alunos órfãos adquirirem seu material.

- Sinto em lhe informar, mas o valor que o ministério oferece não pode pagar o preço dessa varinha. – Ele sentia muito ao dizer tais palavras. – O que me parte o coração, pois essa varinha tempestuosa mostrou lealdade a você.

- Eu posso pagar. – Eve ofereceu. – Minha varinha não custou caro, então eu pago as duas.

No fim, as três deixaram a loja com suas varinhas, e Villanelle admirada por Eve. Por quê ela havia feito isso? E o mais absurdo é que podia sentir que fora um ato genuíno. Eve não queria algo em troca. Em seguida as três precisaram separarem-se pois seus respectivos responsáveis haviam retornado com destinos diferentes.


1 de Setembro de 2005, Estação de Kings Cross, Londres.


O Expresso de Hogwarts sairia em uma hora e Villanelle não poderia estar mais animada para ver com seus próprios olhos tudo o que Dasha lhe havia contado no dia anterior e naquela manhã.

Ela empurrava um carrinho que continha os seus pertences e encarava vários londrinos posicionando-se em suas plataformas de embarque.

- Eles não veem nada? E se algum deles entrar no trem? – Villanelle indaga a Dasha, referindo-se aos humanos em torno de si.

- Os trouxas? Não. Eles não têm chance de conseguirem entrar nesse trem. – Villanelle parecia confusa. – Você verá, criança.

Andaram até o grande pilar de concreto onde Villanelle avistou uma pequena placa indicando que ali era a plataforma 9 ¾. Como constava em seu bilhete. Franziu o cenho mais uma vez.

- Está invisível?

- Não. Você precisa entrar para ver. – Dasha apontou na direção do pilar de concreto.

- Quer que eu entre na parede?

- Sim. Segure o carrinho e corra na direção dela. – Sem questionar, afinal, não conseguia desacreditar em mais nada naquele ponto, apenas fez o que lhe foi dito e surpreendeu-se ao atravessar a parede.

Agora ela enxergava pais junto de seus filhos, todos com carrinhos como o dela.

- Embarque sua bagagem, depois entre no trem. Lá você receberá instruções do que fazer. – Villanelle ouviu Dasha dizer antes da mesma dar-lhe as costas, a deixando sozinha.

Fez o que lhe foi ordenado e adentrou o trem, encarando as cabines já preenchidas, até avistar um rosto conhecido.

- V? Senta aqui! – Elena acenou para a amiga apontando para o assento ao seu lado. Villanelle sorriu e se juntou a amiga que já havia lhe dado um apelido. Nunca havia tido amigos e isso era maravilhoso ao seu ver. – Você viu a Eve? – Ela negou. – Não deve ter chegado ainda.

Dois rapazes se aproximaram na intenção de ocupar os dois assentos na frente delas, mas foram interrompidos.

- Os lugares estão ocupados. – Villanelle falou ríspida.

- Não vejo ninguém aí. – Um dos garotos ironizou e sentou-se no lugar, Villanelle o puxou pelo braço e o jogando no corredor do trem.

- Eu disse que está ocupado. – Ela reafirmou. Elena gargalhava enquanto os dois corriam pelo imenso corredor de cabines.

- Você é incrível. Não acredito que empurrou Aaron Peel na frente de todos.

- E quem é ele?

- Um idiota filhinho de papai. Acho que a família dele só não é mais rica que a família da Eve. – Villanelle deu de ombros e voltou a sentar-se ao lado de Elena.

Lilith e Madelaine empurravam seus respectivos carrinhos enquanto discutiam sobre algo fútil o bastante para não prender a atenção de Eve, que vinha logo atrás, procurando seus amigos e não os encontrando. O que a deixava aflita.

- Não se esqueçam, meninas, no fim de semana do casamento vocês poderão sair da escola, eu irei buscá-las para o evento. – Gregory Oh informou as gêmeas.

- E os nossos vestidos? Como vamos saber se ficaram perfeitos sem a última prova? – Lilith indagou perplexa.

- Eu conversarei com o diretor, Konstantin não fará questão de permitir que a estilista vá fazer a última prova. – O Sr. Oh garantiu as suas filhas que deram-se por vencidas. – Eve, tem certeza que não irá ao casamento? Claire tem falado muito sobre você.

- Não irei como prometido, Digam a Claire que eu me queimei tentando fazer uma poção para a pele. – Eve respondeu em tom provocativo.

- Aquilo foi um acidente! – Madelaine defendeu-se. – Pai! Não a deixe zombar de mim dessa forma! – Gregory tentou manter a situação sob controle enquanto Eve tirava proveito das irmãs. No fim, todos despediram-se, pois o trem já iria sair.

- Não destrua o nome da nossa família. – Gregory ordenou a Eve que apenas assentiu.

Aquilo não a afetava mais, ela sabia que o problema de sua linhagem não estava com ela. Eles afundariam sozinhos.

As três embarcaram e seguiram pelo extenso corredor de cabines, todas estavam lotadas. As gêmeas encontraram suas amigas e ocuparam seus lugares, deixando Eve de pé e cogitando a ideia de sentar pelo corredor. Por sorte, ouviu a risada de Elena e seguiu até a última cabine, onde encontrou suas amigas.

- Oi, Eve. – Villanelle sorriu. – Guardamos o seu lugar. – Eve sentou-se de frente para as amigas, deixando apenas um lugar vago na cabine.

- Aaron Peel tentou sentar aí e a V o jogou no corredor! – Elena contou a novidade fazendo Eve rir também.

As três foram atraídas por uma nova presença no local acompanhada de uma respiração descompassada.

- Eu posso sentar aqui? – Era Niko Polastri. – Eu percorri o corredor inteiro, todas as cabines estão cheias.

Villanelle deu de ombros, já Elena arregalou os olhos.

- Tudo bem. – Eve sorriu. Niko sentou-se ao seu lado. Elena fuzilou a amiga com o olhar. – Por quê está tão cansado?

- Eu estava correndo. Quase perdi o trem. – Niko explicou e finalmente sentiram que o trem estava saindo.

- Vamos ser todos contagiados por azar! – Elena lamentou.

- O quê? – Niko indagou confuso.

- Nada. – Eve cortou a amiga iniciando outro assunto.

Tempo depois, Elena já havia desistido de excluir Niko do grupo de amigos, afinal, ele era divertido e como elas, só queria ser incluso, se sair bem em Hogwarts e estava apavorado com o turbilhão de coisas que viriam. Os quatro estavam se dando bem juntos, e naquelas horas dividindo a cabine conseguiram soltar o melhor de si, ou o pior. Todos compartilhavam histórias trágicas de sua infância e recebiam uma nota de quem foi o mais sofredor.

Dentre risadas e brincadeiras, e até uma pausa pro lanchinho onde Villanelle se encantou pelos famosos sapos de chocolate prometendo que um dia teria seu rosto naquelas figurinhas. Eve continuava a observando e cada mínimo detalhe vindo dela parecia ser mais atraente do que qualquer coisa em volta. Eve queria conhecer a garota ao ponto de poder ler as entrelinhas.

Faltando pouco tempo para a chegada no vilarejo de Hogsmeade, Niko e Elena estavam adormecidos, assim como Eve, que acabou por despertar antes dos dois amigos. Ela encarou Villanelle que desviou seu olhar para a janela, entretanto, não funcionou, Eve sabia que ela a estava encarando.

- Por quanto tempo eu dormi? – Eve indagou.

- Cerca de uma hora e meia. – Villanelle desistiu de fingir que não a estava encarando. – Você baba enquanto dorme.

- Credo. – Eve limpou seu rosto arrancando risadas da amiga.

- Quer continuar falando sobre o casamento do seu irmão? – Villanelle ofereceu, mostrando estar realmente interessada.

- Eu não sei.

- Não precisa falar se não quiser.

- Eu só não acho justo. Eu pelo menos tive uma família enquanto você cresceu em um orfanato trouxa sem saber quem era de verdade. Deve ter sido horrível, mas você tranca dentro de si e responde com brincadeiras como se estivesse tudo bem. – Villanelle pescou uma das mãos de Eve, as entrelaçando.

- Está certa. Eu minto sobre como me sinto sobre mim, mas não vou te entregar de bandeja. – Eve franziu o cenho. – Você precisa desabafar sobre esse casamento.

- Certo. Desde que eu me recordo, August era o orgulho da família. Nunca tive muito contato com ele. Depois tem as gêmeas, Lilith e Madelaine. Elas servem pra infernizar minha vida com as futilidades de roupas, joias e Status. E quando eu tinha sete anos nasceu o Marco, ele parece uma cópia de cada parte ruim da família. Minha mãe odeia minha falta de vaidade, meu linguajar inapropriado e meus hobbies. Meu pai abomina que eu seja mais inteligente que ele, deve se sentir ameaçado. Eles fizeram eu me sentir como uma aberração por toda a minha vida. E graças a vocês. - Referiu-se aos amigos. – Eu pude notar isso. O casamento é um marco importante e me deixa triste saber que minha família não me quer lá.

- Claro que não querem. Se na noite de jantar em família você já roubou toda a atenção da noiva do seu irmão, imagina o que fará com ela se aparecer no casamento? – Eve sorriu, enquanto acariciava os dedos entrelaçados aos seus.

- Agora é a sua vez.

- Bom. Eu sempre fiz coisas esquisitas. O fogo parece me perseguir por onde quer que eu vá. Rodei por vários lares adotivos, mas ninguém queria uma menina que coloca fogo em coisas. Então eu sempre voltei pro orfanato onde as outras crianças tinham medo de mim.

- Isso é um saco.

- Eu pensava que tinha sido abandonada por ter nascido com esses poderes. Então tentei manter eles em controle e me afastei das outras crianças de vez. Se nem meus pais me quiseram ninguém mais pode querer. Por isso me fechei.

- Eu quero você em minha vida.

Ambas sorriram cúmplices. O momento era íntimo, mas seu encanto se perdeu assim que o trem parou. Significava que haviam chegado.

Já havia anoitecido, a escuridão preenchia todo o ambiente arborizado localizado em frente a um belo lago. Vários barcos estavam a espera dos alunos do primeiro ano que desfrutariam daquela doce experiência. Villanelle segurou a mão de Eve por impulso, que sorriu, reconfortando a amiga. Mostrando que estava ao seu lado. Um adulto tomava o controle de cada pequeno barco, o conduzindo pelas águas. Cada aluno segurava uma vela, que iluminava apenas seus rostos.

Villanelle encarava o fogo da chama, a beleza como a fagulha dançava por cima da cera, aquela fagulha não parecia querer fazê-la mal. Estava ali guiando-a para uma nova vida.

Aquela trajetória possuía um significado diferente para cada um, Villanelle finalmente entendia o que ela era. Niko queria fazer valer o esforço de sua família, Elena queria honrar seu sobrenome e Eve, bom, com Eve a situação era mais complexa.

Finalmente entender que não era de fato esquisita era bom, ter aceitação dos amigos também era algo bom, entretanto, sabia que no fundo de sua alma, ela estava buscando por algo a mais. Algo que parecia trancado dentro de si. Encarou sua varinha, lembrou-se das palavras de Olivaras e como aquela varinha a havia escolhido antes de chegar em suas mãos. Não demonstrou perceber na loja, mas observou o milissegundo em que o artesão deu um passo para trás ao encarar brevemente a varinha que havia se mexido na prateleira, como se apontasse para Eve. No instante seguinte, Olivaras a entregou a varinha, explicando-a minuciosamente sua especialidade. Fora um aviso. A varinha estava pronta para embarcar em sua escuridão interior? Nem ela mesma estava.

Os barcos finalmente haviam cruzado o lago, todos os alunos do primeiro ano poderiam encarar o castelo. Era incrível e a cada passo que davam os fazia sentir-se deslumbrados e ansiosos. Agora estavam no que parecia uma grande sala de jantar, havia uma espécie de altar, com uma mesa posta e vários adultos sentados lado a lado. No restante do grande salão, haviam quatro mesas cumpridas, e ao julgar os uniformes com brasões diferentes, poderiam deduzir que cada mesa seria utilizada por alunos das respectivas quatro casas. Muitos alunos já haviam encontrado seus assentos, assim como Lilith e Madelaine que sentaram-se na grande mesa da Sonserina. Enquanto os alunos do primeiro ano ainda estavam de pé.

- Boa noite a todos. Especialmente aos novos alunos. – O diretor dirigiu-se a todos os presentes. – Gostaria de desejar sorte e um excelente ano letivo a todos, e aos nossos novos membros, que possam se adequar da melhor forma a nossa escola.

Villanelle encarou o homem que falava, cabelos e barba brancos, um pouco acima do peso, sorriso descarado no rosto, porém, possuía carisma o suficiente para lidar com qualquer um ali. Era quem mandava por ali, e ela precisava mostrar sua presença, para assim, conquistar o seu devido lugar. Ele parecia ser o tipo de pessoa que possuía respostas para qualquer coisa, e ela precisava das mesmas.

- A professora Anna chamará por seus nomes, dessa forma, subam aqui, onde deixaremos o chapéu seletor decidir em qual casa deverão ficar. – O diretor explicou, fazendo os quatro amigos encararem-se.

- Um chapéu decide as casas? Eu pensei que faríamos uma prova! – Villanelle queixou-se, e só então lembrou da breve explicação de Dasha.

- Eu estou louca para ver isso! – Elena exclamou animada. Como de costume.

- Aaron Peel. – O diretor leu o primeiro nome, logo o garoto subiu os degraus e sentou no pequeno banco. Em seguida a professora Anna colocou o chapéu em sua cabeça, e para a surpresa de todos, o chapéu falava.

- Foi ele que a V jogou no corredor do trem! – Elena cochichou fazendo os amigos rirem.

- Sonserina. – Aaron sorriu indo até a mesa onde os alunos da Sonserina estavam, a mesma casa que todos da família Oh fizeram parte, mas ao ver como as coisas estavam funcionando, Eve duvidava muito que fosse parar lá. Mesmo que isso não fizesse diferença, desde que estivesse com seus amigos estava tudo bem.

- Elena Felton. – Elena sorriu e subiu ao altar, onde o chapéu foi colocado em sua cabeça.

- Quanta criatividade e conhecimento. – O chapéu vasculhou sua mente por cerca de dois minutos. – Corvinal. – Elena sorriu para seus amigos e seguiu para a mesa de sua casa, onde foi recebida com aplausos.

- Eve Oh. – Eve engoliu em seco. Repetiu os passos da amiga e logo possuía o chapéu em sua cabeça.

- Essa maçã caiu bem longe da árvore. – O chapéu dizia para que todos ouvissem. – Tem muitas coisas aqui, objetivos que serão alcançados no seu tempo e em seu próprio método. Você se dará bem na Corvinal.

Eve sorriu e correu na direção de Elena, um peso terrível havia sido tirado de suas costas. Agora faltava apenas Villanelle e Niko serem mandados para a Corvinal também.

Em seguida Gemma Whelan fora mandada para a Lufa-lufa. Assim como Geraldine Staunton que fora mandada para a mesma casa. Essa chamando a atenção por ser filha de uma professora, Carolyn Martens.

Outros nomes foram chamados, assim como Hugo Turner que fora mandado para a Sonserina. Kenny Staunton, irmão gêmeo de Geraldine, que assim como a irmã, foi encaminhado para a Lufa-lufa. A próxima fora Nádia Kadomtseya que fora mandada para a Grifinoria.

- Nicholas Polastri. – Niko subiu ao altar tendo o chapéu falante em sua cabeça. E no meio de tanta confusão, fora mandado para a Corvinal. Eve e Elena comemoram. Estava tudo saindo como o planejado.

O próximo fora Sebastian Parker, caindo na Grifinória. Restavam mais alguns alunos junto de Villanelle, que viu todos serem distribuídos por suas casas até ouvir o seu nome.

- Villanelle Astankova.

Ela subiu e sentou-se. O chapéu iniciou a busca por traços importantes de personalidade, o que acabou demorando mais do que deveria. Villanelle parecia travar uma batalha mental contra o chapéu.

- Querida, apenas relaxe. Deixe o chapéu ver em qual casa você terá mais progresso. – Villanelle encarou Konstantin, trincou a mandíbula, mas deu-se por vencida.

- Você tem uma mistura de opiniões, é destemida, ardente como o fogo, pode tomar seu território como um leão. Vejo muita coragem em potencial, isso lhe abre portas para qualquer objetivo. – Villanelle estava apreensiva, assim como Eve. – Grifnória.

- Não. – Villanelle rebateu o chapéu, no mesmo instante. No entanto, ninguém além do próprio fora capaz de ouvir.

- Eu sei de seus receios, e também entendi suas motivações para ir para a Corvinal. Eu geralmente levo opiniões de alunos em consideração, mas vejo aqui, que seus traços de personalidade não se adequam na Corvinal, você só encontraria problemas futuros.

- Querida? – Konstantin indagou. Villanelle apenas levantou-se tendo o chapéu arrancado de sua cabeça. Caminhou até a mesa da Grifnória, sendo recebida por aplausos.

- Oi, Sou o Sebastian. – O garoto sorriu para ela. Villanelle apenas sorriu de volta. No instante seguinte encarou Eve, com seu olhar marejado.

Eve também estava infeliz. Tudo havia dado errado. Seus amigos não estavam todos juntos. E ter Villanelle sozinha em outra casa era inimaginável. Ela prometeu que estaria ali para ela, não em palavras, mas com seus olhares cruzados. Aquilo definitivamente não poderia ficar daquela maneira.

- Agora que todos estão em suas devidas casas, dediquem-se a elas como se fossem suas famílias, e juntos teremos um ano letivo promissor. – Konstantin deu fim a cerimônia do chapéu seletor iniciando a apresentação dos professores.

- Começando por Anna Aanmokoba, sua professora de transfiguração e também a diretora da casa Grifinória. – Todos aplaudiram. – Em seguida, Carolyn Martens, professora de defesa contra as artes das trevas e também, diretora da casa Sonserina. – Tornaram a aplaudir.

- Dizem que essa mulher é o demônio encarnado. – Elena cochichou para Eve e Niko. – Eu já adoro ela! Olha quanto poder ela exala!

- Dasha Duzran. Sua professora de história da magia e também a diretora da casa Lufa-lufa. – Villanelle a reconheceu, ela que havia lhe buscado no orfanato.

- Chamam ela de o cão soviético. – Nádia contou, fazendo Sebastian e outros alunos rirem.

- Bill Pargrave. Seu professor de feitiços e também diretor da casa Corvinal.

Os demais professores foram apresentados e no fim, todos puderam celebrar o belíssimo jantar. Mesmo que Eve e Villanelle estivessem mais interessadas em encarar uma a outra.

Quando o jantar caminhava-se visivelmente para seu fim, um garoto alto de bochechas levemente coradas e cabelo bem penteado com feições amigáveis levantou-se na mesa da Corvinal atraindo olhares. Com um meio sorriso em seus lábios, ele apresentou-se como Marcus Hemingway: monitor da Corvinal e, por tanto, tinham de segui-lo para seu respectivo salão comunal.

Todos então o seguiram rumo a uma das três torres mais altas do castelo de Hogwarts, localizada na ala oeste. Após subirem por uma escada espiral não demorou muito para que estivessem diante da porta do salão comunal da Corvinal.

O silêncio que se fazia entre os alunos dava margem a expectativa emudecida, mas previsível. Elena observou a porta com palpável admiração, ela era feita de madeira e completamente ornamentada por detalhes em bronze, não possuía maçaneta e/ou fechadura alguma, havia apenas uma aldrava em formato de águia.

- Para ter acesso ao salão da Corvinal é necessário responder um enigma que será feito pela aldrava que estão observando. – Marcus disse com um sorriso maior e suas mãos umas nas outras.

- E se eu errar a resposta do enigma? – Niko perguntou-o e Marcus direcionou seu olhar para o garoto com as sobrancelhas erguidas numa expressão de quem já esperava por aquela pergunta.

- Então você terá de aguardar outro corvino para responder e assim entrar com ele. Caso ele responda o enigma corretamente, óbvio. – Sua última frase veio carregada de uma pequena e discreta risada.

Marcus virou-se então para a porta, sabia que havia olhares curiosos detrás de si. Os alunos aguardavam o enigma com expectativa espiando com olhares desconfiados.

- Quem vem primeiro? O fogo ou a fênix? – A aldrava finalmente questionou, alguns alunos olharam entre si como que para descobrir se alguém ao lado saberia a resposta, outros apenas pareciam aguardar a resposta do monitor.

- Um círculo não possui início. – Marcus respondeu calmamente, mas de maneira audível e a porta então abriu-se. Ele olhou para trás por cima de seu ombro direito convidando-os com um movimento rápido de cabeça e assim os alunos entraram atrás dele.

Fora possível ouvir a admiração que todos deviam ter estampada em seus rostos quando entraram no salão comunal da Corvinal.

O salão era amplo, de formato circular e arejado. Havia diversas mesas e cadeiras espelhadas pelo cômodo, um tapete na tonalidade azul meia noite, um divã e algumas estantes de livros.

Niko levantou sua cabeça e embasbacou-se ao ver sedas azuis com detalhes em bronze presas às paredes que possuíam um tom marfim. Enquanto isso Marcus explicava quem eram as pessoas nos quadros espalhados pelo salão dizendo-os, com orgulho pomposo, se tratar de grandes bruxos que passaram pela casa Corvinal.

O teto era ainda pintado com o céu noturno cheio de estrelas, Marcus assegurou que as constelações do teto refletiam no tapete. Porém o sorriso do monitor aumentou ao informar que possuíam uma biblioteca particular, exato momento no qual Elena pôs o olhar na bela e grande estátua em mármore branco de uma mulher.

- Que estátua mais linda! – Exclamou. – Quem é ela? – Elena quis saber rapidamente.

- Essa é a estátua de Rowena Ravenclaw, uma dos fundadores de Hogwarts. – Marcus disse com um tom de voz mais quieto como se estivesse também distraído por olhar a estátua.

Com um sorriso largo, Elena virou-se para fazer um comentário a respeito da estátua com Eve, mas a notou mais afastada com uma expressão melancólica enquanto olhava através de uma das janelas de formato arqueado do salão.

Elena então aproximou-se sorrateiramente da amiga e pôs-se ao seu lado observando o que quer que ela estivesse observando e até a surpreendeu que a visão dali fosse tão vasta.

Marcus as percebeu e então como se houvesse acabado de se lembrar de algo virou-se para os outros alunos dizendo que, das janelas do salão da Corvinal se tinha uma das visões mais lindas e vastas de Hogwarts, citando que podiam ver coisas como o campo de quadribol, a floresta proibida e as montanhas.

Mas apesar de parecer concentrada na visão que aquela torre podia oferecê-la através de uma das janelas daquele salão, Eve nem ouviu o que o monitor havia dito.

- O que houve? – Elena perguntou num tom ameno, tentando fazer parecer menos invasiva, caso Eve a achasse invasiva.

- Isso aqui é tudo muito lindo. – Eve disse com uma certeza calma e tristonha. – Eu queria que a Villanelle estivesse aqui, vivendo tudo isso com a gente. – Fez uma pausa frustrada e rápida. – Não é justo ela ter ido para outra casa. – Concluiu e Elena a olhou de soslaio e com um esboço de sorriso em seus lábios.

- Está tudo bem. – Adiantou. – Nós ainda vamos vê-la nos intervalos e nas aulas, não é como se isso pudesse impedir a nossa amizade. – Disse com candura e um pouco de determinação.

Eve comprimiu seus lábios numa expressão reflexiva parecendo hesitante.

- Bem, eu também estou um pouco preocupada... – Confessou. – Todos na minha família têm orgulho de serem selecionados para a Sonserina e eu estou aqui na Corvinal.

Elena descontraiu o rosto e esbarrou propositalmente em Eve com seu ombro.

- Ah não se preocupe com isso! Sabe o que dizem? – Perguntou retoricamente atraindo o olhar de Eve. – Que a Corvinal é conhecida por ser uma casa de pessoas muito inteligentes, e eu acredito nisso. Eu acredito que independente da casa deles, você é mais inteligente do que todos da sua família.

Eve finalmente sorriu.

- Você acredita mesmo nisso? – Eve perguntou hesitante encolhendo os ombros numa postura intimista, mas havia uma pequena alegria contida em seu olhar.

- É claro que sim! Você não precisa provar nada para ninguém, mostrará o seu valor e quão boa você é, naturalmente. Você está na casa certa, eu tenho certeza que o chapéu seletor estava certo na escolha que fez quando a colocou aqui.

Toda a certeza de Elena com aquele seu sorriso frouxo e amigável fazia daquele ponto algo muito mais fácil e suportável, fazia parecer que o que havia acabado de dizer era uma verdade absoluta e Eve se sentia imensamente grata por isso.

- Obrigada. – Eve respondeu finalmente, Elena deu-a uma piscadela e continuou ao seu lado.

Alguns minutos antes, ainda no grande salão, Após o jantar, Villanelle sentia-se deslocada, Eve já estava se encaminhando para o salão comunal da Corvinal com seus novos amigos enquanto ela continuava presa em seus devaneios.

Em sua consciência, estava no lugar errado e achava injusto um simples chapéu decidir o seu destino. Ela não queria fazer parte daquela casa, ela queria estar com Eve.

No fim, fora acordada de seus devaneios por Nádia e percebeu que precisava seguir Celeste Arguini, monitora da sua casa, afinal, ela fazia parte da Grifinória e isso a torturava. Era como se tivesse fracassado. Sua única tarefa era manter-se na mesma casa de três colegas e nem isso foi capaz de conseguir, agora sentia-se deslocada em meio a tantas crianças felizes e corajosas. O chapéu a havia chamando de corajosa e tudo o que fez a vida inteira fora esconder-se.

Todos estavam animados e admiravam cada detalhe de cada corredor do Castelo, mas Villanelle não conseguia, simplesmente sentia que não fazia parte daquilo, não como havia sentido após conhecer Dasha. Villanelle havia aceitado ir com a mesma, pois acreditava que realmente aquele mundo fantasioso e maravilhoso que a mais velha havia apresentado poderia ser a solução para não se encaixar no mundo normal e entediante em que vivia, afinal ela não era normal. Assim que conheceu Eve e Elena sentiu fortemente que poderia fazer parte daquilo, mas não estava funcionando como deveria.

As crianças do primeiro ano que haviam sido selecionadas para Grifinória não pareciam perceber sua indiferença, contudo, os alunos do segundo ano em diante a encaravam de forma esquisita como se ela não se encaixasse ali, o que ela realmente sentia que era verdade. Aquele também não parecia ser o seu lugar. Seria possível não existir lugar para alguém como ela?

Celeste finalmente chegou ao seu destino guiando os alunos pelas escadarias, em seguida os mostrando como deveriam fazer para adentrar o salão comunal. Tratava-se de um quadro com uma senhora que se mexia e até arriscava cantar. Pela primeira vez Villanelle impressionou-se com algo após ser selecionada para aquela casa. Celeste disse a senha bem claramente para que todos os alunos do primeiro ano não se esquecessem, pois precisavam dela para entrar no salão comunal.

Após a porta ser aberta e a senhora do quadro dar boas vindas aos novos alunos, todos adentraram. O salão era bem bonito e reconfortante, havia uma lareira grande e outros detalhes em madeira, os tecidos enfeitavam entre dourado e vermelho. O emblema da casa era visível bem no meio de uma espécie de faixa pendurada.

Ninguém ali parecia cansado, principalmente os alunos mais velhos. Mesmo tendo sido recomendado que fossem dormir, pois teriam aula de manhã cedo, alguns contavam histórias das férias e os alunos do primeiro ano se entretinham no meio do que parecia ser uma primeira regra a ser quebrada.

Estavam acordados até tarde quando foi ordenado claramente que fossem dormir, aquilo era o máximo para a maioria, mas não para Villanelle, ela já estava acostumada a quebrar regras, aquilo não fazia diferença.

Ela também não estava interessada nas histórias, pois já havia passado por coisas bem piores no orfanato em que cresceu. Ela também não se sentia comovida com as histórias familiares pelo fato de que não conhecia a sua própria família.

Sentia falta de Eve e Elena, afinal com elas o assunto sempre parecia fluir. Não havia encontrado nada em comum com nenhum dos alunos ali presentes e isso a deixava perplexa, aquele chapéu idiota havia lhe garantindo que ali era o seu lugar e que se sairia melhor naquela casa. Porém, não parecia que as coisas estavam funcionando dessa forma.

Ouviu os novos alunos conversando entre si, agora se afastando dos alunos mais velhos, sobre as qualidades e características de alunos daquela casa. Villanelle simplesmente não se enxergava em nenhuma delas, aquilo era o bastante, ela não fazia parte da Grifinória e o chapéu estava errado. Na manhã seguinte estava decidida a falar com o diretor. Ela não poderia continuar na situação atual, nesse caso iria preferir voltar para o orfanato de onde veio.

A madrugada veio a tona transformando todo o castelo em um grande lugar silencioso e amedrontador. Os fantasmas rondavam os corredores fazendo com que dois alunos do segundo ano, que haviam decidido sair pelos corredores, voltassem correndo.

Aquilo deveria ser uma maneira de mostrar serem superiores aos alunos do primeiro ano? Villanelle riu sem humor, aquilo era simplesmente ridículo.

Naquela altura até os alunos do sétimo ano já estavam deitados em suas respectivas camas, exceto a órfã. Ela não conseguia dormir, não conseguia nem mesmo ficar em sua cama. Voltou para o salão comunal onde sentou-se perto da lareira e foi então que lágrimas caíram molhando todo seu rosto. As únicas pessoas em que se apegou a todo esse tempo eram suas amigas e nem isso poderia ter, e agora aquele castelo gigantesco e medonho fazia com que o pior de seus medos saltasse. Ela não sabia explicar o que era ou como estava se sentindo realmente, apenas sentia que a escuridão que rondava a madrugada estava abraçando-a e ela não gostava daquela sensação. Ao menos no orfanato havia se acostumado, mas ali parecia pior.

Agarrou-se a sua varinha, porém não sabia muito bem o que fazer com ela. Apenas sentiu a energia correr desde a ponta amadeirada até seu corpo inteiro. Sentiu-se um pouco melhor, como se estivesse sendo reconfortada, mas estava longe de sentir-se bem. De repente percebeu que não estava sozinha, haviam dois alunos do primeiro ano fora da cama assim como ela e pareciam estar observando a algum tempo. Tratavam-se de Nádia e Sebastian.

Nádia foi a primeira a se aproximar. Sentou ao lado da amiga, por assim dizer, e tocou seu ombro levemente.

- Se você não dormir não vai ter problemas para acordar amanhã?

- Eu não consigo dormir. Aquele chapéu me colocou na casa errada. Eu não deveria estar aqui, todos ficam me encarando, eu não me encaixo. – Villanelle suspirou deixando que mais lágrimas caíssem. - Eu ouvi vocês conversando sobre as características e não tem nada a ver comigo.

- Você tem certeza disso? Você me parece uma menina muito corajosa e afinal essas características são superficiais, existe muito mais por trás disso. - Disse Sebastian. Entretanto, Villanelle ainda não parecia inteiramente convencida. – Se ainda assim você se preocupa, amanhã podemos falar com o diretor, talvez exista alguma opção.

Villanelle então assentiu, era o mais viável a se fazer. Logo Nádia e Sebastian estavam em suas devidas camas já adormecidos, enquanto Villanelle viu o sol nascer, acompanhada da solidão. Levantou e vestiu-se antes mesmo de qualquer outro aluno despertar. Deixou o dormitório, passou pelo salão comunal sem sequer olhar para trás e seguiu pelas escadarias.


Notas Finais


Pedimos que deixem seus comentários! Queremos saber o quê estão achando!

De quais personagens vcs gostam?
Gostaram das casas para qual todos foram mandados? Podem acreditar, tudo fará sentido!


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...