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História Causa sui - Capítulo 3


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Capítulo 3 - Capítulo 3


O frio finalmente se despedira e agora as flores chegavam para dar o ar da graça.

Baekhyun continuava o mesmo, contudo.

Talvez um pouco mais robusto por causa dos lanchinhos das reuniões do clube da arte, estas que passou a frequentar assiduamente. Alegava ser pela comida, mas Kyungsoo percebia como o brilho no olhar do amigo parecia aumentar e as conversas se tornarem mais leves cada vez mais que debatiam sobre um livro que gostava ou expunha os seus poemas favoritos.

Sempre enxergara através da armadura que Baekhyun insistia em empunhar, o menino de poucas palavras e de coração doce como mel.

Baekhyun era forte, precisou aprender a ser já que ninguém seria por ele, mas embaixo dessas camadas de determinação, vivia um garoto perdido e assustado. Admirava sua coragem, mas sabia que ninguém conseguia ser de ferro para sempre.

Por isso fez tanta questão de incluí-lo no clube, para que encontrasse outros meios de extravasar suas angústias que não fosse pelos mais arriscados. Era fácil se entregar ao mundo das drogas, da perdição, dos vícios. Temia que isso acontecesse com Baekhyun, assim como acontecera a alguns de seus antigos companheiros do abrigo.

Porém, o que Kyungsoo não sabia era que Baekhyun nunca escolheria o caminho mais fácil.

Desistir não era uma opção, e mesmo sofrendo com os desígnios da vida, suportaria tudo de cabeça erguida, até que não fosse mais capaz.


                          >>◇<<


Baekhyun encontrava-se mais uma vez por entre as almofadas no tapete do clube, lugar que tornara-se basicamente seu hábitat natural, por passar mais tempo ali do que até mesmo em seu quarto pequeno e mofado da pensão em que morava.

Sempre estava ali usufruindo da vasta coleção de livros do clube, quando não estava na sorveteria trabalhando.

Aproveitava também para escrever seus poemas em seu cardeninho, que já estava pedindo arrego, mas não era como se tivesse dinheiro para um luxo daqueles.

Estava no meio de um verso quando foi interrompido pelo barulho estridente de algo caindo.

O ambiente era barulhento por natureza, com as músicas que Jongin, Seulgi e Soonyoung ensaiavam seus passos, ou com as composições de Yixing e Kris que soavam pelos acordes harmônicos dos violões. Baekhyun não se incomodava, na verdade, adorava tê-los como música de fundo para suas leituras, porém o barulho que o distraiu era diferente, apesar de não ser inédito.

Sehun passava a sua frente com cacos de vidro encobertos em um pano, provavelmente da garrafa de cerveja que acabara de ser quebrada. Parecia estar mais sóbrio do que o de costume, mas seu andar vacilante indicava que a garrafa quebrada havia sido esvaziada por ele.

Sehun era um dos membros do clube, aparentemente interessado por pinturas devido aos inúmeros quadros com sua assinatura distribuídos pelo armazém, mas sempre bêbado demais para sequer estabelecer uma conversa decente. Não participava das reuniões, e sempre que Baekhyun o via estava com um pincel em uma mão e uma garrafa de cerveja na outra.

Ninguém comentava muito sobre ele, mas sempre que alguns membros resolviam reviver lembranças ou contar histórias engraçadas do passado, Sehun era citado, fazendo Baekhyun imaginar o tipo de pessoa que ele é, ou melhor, que ele foi.

Suas pinturas instigavam mais ainda sua curiosidade, sempre misteriosas, mas ainda assim harmoniosas e agradáveis ao olhar. Eram bem coloridas, em sua maioria, contrastando com as roupas sempre pretas e olhos borrados de delineador que Sehun usava.

Baekhyun às vezes sentia vontade de conversar com o garoto, mas apesar de suas habilidades socias terem evoluído significamente desde que entrou para o clube, ainda se sentia acanhado para iniciar conversas, sobretudo com pessoas tão bonitas como Sehun.

- "Baek! Baekinho, beakão, amor da minha vida, como você está?" - pergunta Minseok, um dos amigos que Baekhyun acabou fazendo no clube e alguém que o garoto apreciava imensamente por ser tão sociável e sempre deixar o ambiente mais leve, proporcionando assim a possibilidade de Baekhyun tentar novas amizades sem a presença constante do constrangimento que sempre sentia ao interagir socialmente.

Às vezes, Baekhyun se perguntava se havia sido uma pedra em sua reencarnação passada, porque não era possível sua falta de habilidade em falar com pessoas.

- "Tô bem, Seok. E você?" - pergunta Baekhyun enquanto encara aqueles olhinhos brilhantes em sua direção.

- "Estou super feliz!" - exclama o outro. - "Mas sabe, tem algo que você pode fazer que me deixaria super, super, super feliz!" - diz o garoto piscando os dois olhos rapidamente como uma criança manhosa.

- "Seja o que for, foi mal, mas não vai dar. Vou estar ocupado fazendo alguma coisa que vou inventar mais tarde." - diz o atendente enquanto volta seu olhar ao seu caderninho.

- "Como você é mal! Você nem sabe o que é ainda." - resmunga. - "E se eu disser que envolve comida?" - pergunta Minseok, olhando-o de forma sugestiva.

Baekhyun levanta o olhar novamente, já suspeitando aonde isso iria chegar.

- "Desembucha."

Minseok comemora, sabendo que não precisaria mais de muito para convencer o garoto de mechas loiras.

-"O que acha de participar do recital amanhã? Só precisamos de umas duas poesias. Uma só, uma só!" - berra Minseok ao ver Baekhyun ameaçar levantar das almofadas. -"E em troca , eu te levo naquela pizzaria que abriu aqui no bairro."

Os olhos do atendente se iluminaram imediatamente, fazia um tempo que estava juntando trocados para conseguir pagar um rodízio na aclamada pizzaria que abriu ao lado, mas poder comer lá de graça atiçou ainda mais sua vontade.

Apesar de morrer de vergonha que escutem suas poesias, essa era uma proposta irrecusável.


                           >>◇<<


As mesas que normalmente ficavam dispostas em um círculo agora estavam enfileiradas e voltadas para um pedestal improvisado, de onde alguns membros recitariam suas poesias.

Parecia ser um evento requisitado no clube, já que todos estavam presentes para prestigiá-lo, até mesmo Sehun, sentado de braços cruzados na última fileira.

Baekhyun estava nervoso, nunca havia lido nenhum de seus poemas em voz alta, e pretendia nunca fazê-lo se não fosse por Minseok e suas jogadas envolvendo comidas gordurosas.

Pelo menos não seria o único a passar por esse vexame, Joohyun e Luhan também recitariam poesias de autoria própria, mas isso não impedia o reboliço de nervoso em seu estômago.

Baekhyun volta à realidade ao ouvir os aplausos destinados a Joohyun, quem antecederia sua vez. Acabou perdido por entre as palavras da moça, assim como nas de Luhan antes dela, encantado com toda a singularidade que os diferentes arranjos de palavras poderiam oferecer.

A poesia de Luhan era delicada, de uma sutileza única e de concomitância com a vida. Parecia bem centrado e satisfeito com seus arredores.

Já Joohyun fazia poesia de forma confiante e incisiva. Resplandecia convicção e benevolência, usando palavras que todos gostariam de ouvir.

Chegara então a vez de Baekhyun, que apreciava o incômodo do inexplicável e o desconforto da impotência. Gostava de sempre contrariar suas certezas, e com sua poesia não seria diferente.

Começa a recitar sua poesia, olhos no papel e a voz um pouco trêmula:


"pegue nas mãos do destino e vai

deixe-o guiar-te por entre os trilhos

sob esse trem de perspectivas

feche os olhos e sinta a brisa

siga adiante e não olhe para trás

só não esqueça que além das janelas embaçadas

a vida acontece

passará da estação por dormir demais

e dessa vez não terá mais volta

pegue nas mãos do destino e cai

mas quem garante que não é ele te puxando desde o princípio?"


Terminou fazendo uma careta discreta. Nunca gostava do que escrevia, sempre sentia que poderia fazer melhor, mas os aplausos que seguiram indicavam que talvez não tenha ficado tão ruim assim, ou então que todos ali tinham o mínimo de educação para não o ignorarem.

Desviou seu olhar para Kyungsoo, que sentava na primeira fileira com um sorriso no rosto. Sabia que o amigo sempre teve curiosidade em saber o que Baekhyun tanto escrevia em seu caderninho, e agora não só ele como todos os membros estavam curiosos para ouvir seus escritos. Não era a toa que Minseok colocou sua carteira em jogo, mas a única coisa que Baekhyun conseguia pensar no momento era na deliciosa pizza de calabresa que o esperava mais tarde.


                            >>◇<<


Estavam todos reunidos ao redor da grande mesa na pizzaria nova do bairro, ou quase todos, Sehun nunca participava dos momentos de confraternização.

Baekhyun já perdera a conta de quantas fatias havia comido, mas nada que o impedisse de continuar comendo sempre que o garçom se aproximava. Não estava muito atento a conversa acontecendo na mesa, ao menos sabia que o assunto era ele próprio até sentir um empurrãozinho de Minseok que estava sentado ao seu lado.

- "Então Baekhyun, o Kyungsoo tinha comentado que vocês costumavam morar juntos em um abrigo para crianças há alguns anos." - comenta Seungwan que estava sentada a sua frente.

- "Sim, entramos quase na mesma época quando ainda éramos bebês e eu fiquei por lá até os dezesseis anos. Kyungsoo saiu antes para morar com um tio e acabamos nos reencontrando no ano retrasado." - encara seu amigo que o dá um olhar complacente. - "Ele me ajudou a conseguir um emprego e com o dinheiro alugo um quarto em uma pensão aqui perto." - Baekhyun resolve compartilhar com seus novos colegas que, apesar de estarem mais íntimos após meses de convivência, ainda não sabiam sobre a situação do garoto.

- "A pensão da Dona Choi? Mas aquele lugar é uma espelunca!"- exclama Tao. - "Quer dizer, ele literalmente está caindo aos pedaços." - acrescenta depois de receber olhares enfezados dos outros na mesa.

- "Realmente, essa é a verdade. Mas é tudo o que eu posso pagar por enquanto. O salário que ganho na sorveteria não é lá essas coisas." - diz Baekhyun soltando um suspiro contido.

Baekhyun nunca frequentara a escola.

Tudo o que aprendera fora nos livros que tinham no abrigo. Não era nenhum gênio, mas sabia ler e escrever e fazer cálculos básicos de matemática, além de conhecer bastante sobre história geral e filosofia, seu assunto predileto.

Também estava sempre informado sobre os acontecimentos pelo mundo por ler diariamente o jornal que acabava sendo deixado de lado na pensão em que morava.

Sabia que não tinha muitas qualificações para tentar a sorte em outro emprego, quem sabe tentasse algum vestibular quando o aluguel atrasado e a refeição do dia deixassem de ser prioridades em sua vida.

- "Sabe, Baek, tem um quarto sobrando no apartamento que eu divido com o Jumnyeon e o Yixing”. - diz Jongdae enquanto os outros citados balançam a cabeça em concordância. - "Não é muito grande, mas é bem limpinho e confortável. O aluguel não é tão caro também, ainda mais por dividirmos entre nós. O que você me diz?" - termina lançando um olhar otimista ao atendente.

Baekhyun é surpreendido com a proposta.

Já havia imaginado a possibilidade de dividir um apartamento com alguém, mas ainda não havia encontrado pessoas dignas de confiança e nem que o quisessem como morador.

- "Não posso te dar uma resposta definitiva agora, mas é uma ótima oportunidade. Obrigado por oferecer." - responde com um sorriso gentil nos lábios.

- "Se você quiser, pode passar as noites lá no clube por enquanto." - sugere Kris ao terminar seu vigésimo pedaço de pizza. - "Lá tem sofás confortáveis, banheiro e até uma mini cozinha. Posso te dar minha chave reserva se topar."

Todos assentem em concordância, Kyungsoo comentando como não havia pensado nisso antes.

Era uma proposta tentadora, de fato. Qualquer lugar soava mais confortável do que sua cama dura em seu quarto mofado, e estar perto de seus queridos livros apelava para Baekhyun.

Concordou em passar a noite de hoje lá , e quem sabe as próximas até que conseguisse se mudar da pensão.

Olhou para a fatia de pizza marguerita em seu prato e sorriu involuntariamente.

Talvez a sorte tenha finalmente resolvido lhe fazer uma visita.



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