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História Cazuza mora ao lado - Capítulo 36


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Capítulo 36 - É hora de voltar pra casa.


Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. “Só respire!” Ecoava na minha cabeça enquanto o táxi pouco a pouco parava na porta da minha casa.

Ao descer do carro, meu pai me recepcionava na porta e com ele uma senhora de cabelos grisalhos da qual eu não conhecia. 
 

— Enfim, em casa! — Ele exclamou com um sorriso sádico.

Estremeci.

— Bom, essa é a dona Sônia e ela vai cuidar de você enquanto eu estiver fora,  já que pelo visto sua mãe não tem sido alguém com disciplina o suficiente pra você. — continuou a falar com deboche.

— Muito prazer, dona Sônia! — a cumprimentei, com a voz partindo.

— Prazer. — ela respondeu de forma seca.

Dona Sônia possuía uma postura física rígida e que muito provavelmente também era a sua postura pessoal. Desde o momento em que eu havia a visto quando olhei pela janela do carro, ela não tinha dado ao menos um sorriso. Sempre séria, fria, sucinta.

Minha mãe, em protesto, não a cumprimentou. Apenas me pegou pela mão, cuidadosamente, e foi entrando comigo em casa.

Com cautela tentei espiar pela visão periférica o Cazuza ou alguém de sua casa, mas não conseguia fazer isso de forma tão discreta a fim de burlar meu pai e a minha nova carcerária.

Entrando em casa, pedi minha mãe para ir até o quarto descansar, porém rapidamente meu pai retrucou:

— Tá cedo. Senta no sofá e assiste uma televisão.

Eu sabia o porquê dele não me deixar ir até o meu quarto, mas não conseguia entender como alguém conseguia ser tão extremamente autoritário e repulsivo.

Minha mãe me ajudou a sentar no sofá e, solidária, sentou ao meu lado. Dona Sônia foi em direção à cozinha preparar um café para meu pai e ele sentou-se no outro sofá para me observar e observar a minha mãe.

 — Gostou da surpresa? Pelo menos você não vai mais precisar ir e voltar da escola sozinha, filha! Vai ter uma companhia com você pra tooooodo o lugar! — ele continuava a me provocar, talvez com o objetivo de que eu explodisse e ele finalmente me matasse, que era provavelmente o que ele queria fazer.

Eu engoli seco. Tentava lutar contra as lágrimas, mas era muito difícil. Por um momento as idas às missas com a minha mãe pareciam ser confortantes, já que mentalmente eu pedia para que alguém que me protegesse me ajudasse ao menos sobreviver mais aquele dia em meio a um inferno particular. 
 

— Pai, posso ir ao banheiro? — murmurei, tentando esconder a voz de quem gostaria muito de chorar.

Ele assentiu.

Fui caminhando até lá e, por sorte, Dona Sônia estava dentro dele; então pude aproveitar a oportunidade para perguntar:

— O banheiro do térreo tá ocupado, posso ir no do meu quarto?

Meu pai revirou os olhos.

— Vai! Se é tão urgente, vai! Mas volta logo!

Contive meu alívio para não expressar suspeitas e fui pouco a pouco subindo as escadas. Meu corpo ainda doía muito e meu emocional sentia como se meus ombros suportassem o mundo. Tudo doía. Tudo ia mal. Não imaginava que um momento que tinha me trazido tamanha felicidade iria se transformar em dor física e medo; mas é essa a fragilidade da vida, tudo muda e se ressignifica numa fração de segundos.

Ao chegar no meu quarto, me aproximei da janela e imediatamente o vi. Ele estava sentado na cama, olhando em direção a minha janela.

Sua expressão ao me ver foi de choque e dor. Ele não podia acreditar que meu pai tinha me causado tamanha violência. Em pouco tempo, de expressão de assustado tornou-se uma expressão de indignado, ao ponto de que eu conseguia palpar sua raiva mesmo do outro lado de uma janela.

— Eu vou aí! Eu vou pegar esse filho da puta! — Cazuza tentava me gesticular.

Desesperadamente neguei com a cabeça e pedi por favor, em forma também de gestos, para que ele não viesse até a minha casa.

E foi então que eu vi o menino. Sim, pois o homem tão festeiro, valente, destemido e que tinha garra para mudar o mundo, também era um menino. E o menino se debulhou em lágrimas. Cazuza chorava de soluçar. Ele me apontava e chorava, chorava e chorava.

Pouco tempo depois Dona Lucinha entrou no quarto, muito provavelmente por ter ouvido seu choro, e ele a mostrou apontando para mim o que tinha acontecido. Com pesar, ela abaixou a cabeça.

— Vem, filho! Vem! — Consegui ler em seus lábios enquanto ela o levava pelo braço a outro cômodo da sua casa.

Ao ver a cena, foi a minha vez de chorar. 
 

As lágrimas vinham não só por ter visto o Cazuza desabar, mas porque eu não podia estar perto dele para consolá-lo. Eu só queria estar em casa e minha casa era ele.



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