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História Céu de Pipas - Capítulo 11


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Notas do Autor


Boa leitura!

Capítulo 11 - Pipas celadon


A semana se passa mais rápido do que posso perceber. Talvez tenha algo a ver com o trabalho e com todo o meu novo estilo de vida. 

Na prisão, os dias pareciam se arrastar tão lentamente que eu acreditava que, quando finalmente saísse, já teria acontecido pelo menos uns quatro apocalipses, e que o resto da humanidade já teria renascido diversas e diversas vezes. 

Mas não. Foram apenas cinco anos mesmo.

Meros cinco anos. 

Agora, as pessoas pedem comida e “caronas” por aplicativos, assim como podem controlar suas contas bancárias pela internet também. Quem tem celular, claro. 

As televisões ficaram ainda mais finas, assim como os celulares, que estão cada vez menores e mais modernos. 

Agora também dá pra ver qualquer filme que quiser pela internet, que por sua vez, é o principal meio de comunicação mundial. 

Mas eu só noto essas coisas no sábado, enquanto estou passeando com Sakura, Suigetsu, Deidara, Sarada e Boruto por Manchester, às oito da manhã. Todos eles queriam fazer umas compras, então acabamos saindo mais cedo do que o esperado para evitar a multidão de gente que sempre vai a Manchester no fim de semana, já que é a maior cidade do condado. 

Enquanto vamos passando pela calçada em frente às vitrines de várias lojas, percebo as televisões, celulares e outros aparelhos extremamente modernos expostos com seus preços atrás dos vidros. 

Caraca, os celulares estão cada vez mais caros. Mas talvez seja consequência da inflação mundial também. 

Ninguém com quem eu trabalho parece ter celular, exceto Kakashi, claro. O que é bem estranho, considerando que durante minha adolescência inteira eu convivi com pessoas que nem sabiam o que era viver sem um celular. Meus colegas de escola, meus professores, e até eu mesmo e meu irmão.

E o mais notável: nenhum deles nem parece interessado em ter um. Porque eles passam direto por essas lojas tecnológicas e vão para as que realmente interessam. 

Tipo a loja de roupas pra crianças, em que tanto Sakura quanto Suigetsu querem dar uma olhada para comprar roupas para Boruto e Sarada. 

Mas o que é mais interessante nisso tudo: eu só notei a falta de um celular agora, depois de quase duas semanas de liberdade novamente. 

Acho que Papi estava certo, no fim das contas. A prisão realmente muda algumas pessoas. 

— Temos que comprar roupas decentes pra você. — Suigetsu resmunga com Boruto no colo, enquanto circulamos pela loja infantil dando uma olhada. — Seus pais são dois cafonas. 

O pirralho ri, concordando. 

— Desde quando você é estilista de moda? — Deidara debocha, andando um pouco mais atrás, segurando as sacolas com panelas novas que Kakashi pediu a ele que comprasse para o Pakkun. 

— Não preciso ser estilista para ter bom senso na minha cara. Pelo amor de Deus, Naruto é o único idiota no mundo que gosta de laranja. — Suigetsu retruca pra ele. 

Ninguém abre a boca pra discordar disso. 

Olho em volta do jeito mais casual que consigo, notando as câmeras em pontos estratégicos na loja. Decido deixar minhas mãos pra fora dos bolsos o tempo todo, porque tenho quase certeza de que os vendedores já devem ter notado a minha tornozeleira, e devem estar monitorando cada passo meu dentro do recinto. 

Olho para Sakura e Sarada, um pouco mais afastadas olhando as roupas de bebê e decido ir até elas, caminhando devagar enquanto Deidara e Suigetsu mostram umas camisas para Boruto, querendo que ele escolha uma que goste. 

Sakura está olhando algumas jardineirinhas em vários tons de verde, teoricamente na sessão masculina. 

— Você não curte muito rosa? — pergunto num tom curioso quando me posto ao lado dela. 

— Curto sim. — ela responde e mexe a cabeça, indicando o próprio cabelo desbotado. — Senão não teria tacado essa cor na minha cabeça. Inclusive preciso até retocar, já que está quase todo loiro de novo. — ela ri um pouco de si mesma. 

Olho para Sarada no braço dela, que está com uma chupeta na boca enquanto brinca com aquele coelho de pelúcia nas mãos.

Mordo os lábios, tomando coragem para falar. 

— Posso fazer uma pergunta um pouco indiscreta? 

Sakura para de mexer nos cabides de roupas infantis e me olha, erguendo uma sobrancelha. 

— Acho que pode. — ela diz, e dá pra ver que está curiosa. 

— Por que você nunca compra roupas rosa pra ela? — indico Sarada no colo dela. 

— Não sei se entendi sua pergunta. — parece meio confusa. 

— É que… — penso um pouco antes de explicar melhor. — Quando eu vi vocês pela primeira vez, achei que Sarada fosse um menino, porque estava toda vestida de azul. E é tipo… uma cor que todo mundo sempre veste bebês do sexo masculino. 

Sakura ergue as sobrancelhas, entendendo onde quero chegar. 

— Eu nunca vi ela usando roupas rosa. — acrescento. 

Ela parece pensativa enquanto continua me encarando. Por fim, ela se vira e puxa a etiqueta de uma das jardineiras verdes que estava olhando, querendo mostrar pra mim o preço. 

— Dá uma olhada nisso. — ela diz. E eu olho. 

Trinta e cinco libras e uns quebrados. 

— Agora vem cá. — ela faz um sinal para que eu a siga pela loja enquanto vamos até a sessão feminina, onde a maioria das roupas é rosa. Vários tons diferentes de rosa. 

Ela anda pela sessão inteira, até encontrar uma jardineirinha específica e me mostrar a etiqueta com o preço também. 

A primeira coisa que noto é que é um modelo exatamente igual àquele verde que ela estava olhando antes. Só que essa é rosa. 

Porém custa sessenta e duas libras. 

Arregalo os olhos automaticamente. 

— “Coisas de menina” são muito mais caras. — ela diz com um sorriso irônico, mas sinto que não está debochando de mim, mas da loja.

Da sociedade. Do próprio sistema. 

Estou chocado, ainda mais quando olho melhor a roupa, constatando que sim, é exatamente igual àquela de antes, só mudou a cor. 

— E infelizmente não cabe no nosso bolso, né nanica? — ela pergunta sorrindo para Sarada, que só a olha e faz uns sons como se estivesse respondendo, mas a chupeta na boca abafa a maioria deles. — Pode segurar ela pra mim rapidinho? Quero buscar uma cesta.

Assinto com a cabeça, ainda meio chocado. Ela me entrega Sarada, e eu a pego meio atrapalhado e nervoso, mas a fixo no meu braço enquanto Sakura se afasta pela sessão, procurando uma cesta. 

Sarada parece um pouco surpresa por estar no meu colo, mas não parece irritada nem chateada com a mãe por ter lhe largado comigo. Ela só continua olhando em volta, como se estivesse fascinada com a loja ao nosso redor. 

— Eu posso segurá-la, se quiser. — falo quando Sakura volta, já com a cesta num dos braços. 

Ela parece um pouco surpresa, mas apenas assente com a cabeça e nós voltamos para a sessão masculina, onde tem roupas de todas as cores, exceto rosa. 

#

Por trabalhar com coisas artesanais, Papi sabia um monte de coisas que eu jamais teria imaginado existir na vida inteira. Tipo... que existem uma infinidade de cores secundárias. 

Ele conhecia um monte de tonalidades diferentes para cada cor. As tonalidades de verde eram as que ele mais sabia, e eu era o único que gostava de escutá-lo falar sobre isso. 

No meu primeiro verão na prisão, fiquei observando-o durante os dias em que deixavam-no fazer pipas para o pessoal da prisão. Era uma tarefa mais complicada do que parecia, já que não davam tesoura nem nada afiado que pudesse ser usado como arma, então ele tinha que fazer tudo com as próprias mãos mesmo.

— É quase como voltar pra porra da idade da pedra. — ele resmungou enquanto estávamos sentados numa das mesas e blocos de pedra, na área externa da prisão, na primeira semana do verão. 

O céu estava bem azul, cheio de nuvens brancas e fofinhas, e tinha uma brisa gostosa e quentinha, que nos confortava depois da primavera chuvosa pelo qual tínhamos acabado de passar. 

Ele estava recortando pedaços do papel seda enquanto fazia a estampa da pipa. 

— Normalmente eu conseguiria fazer isso tudo em vinte minutos. — ele explicava enquanto amassava o papel diversas vezes, para fragilizar bem a área que queria, e depois usava uma régua para cortá-lo certinho. — Mas aqui demora uma hora pra fazer uma única pipa. 

— Bom… — comentei pensativo. — Pelo menos é algo para matar o tempo. 

— De fato. — ele resmungou enquanto começava a pregar as pontas do papel nas varetas finas de madeira, começando a dar forma para a parte planadora da pipa. 

Eu apenas ficava olhando ele fazer essas coisas, já que não queria tomar seu trabalho, e muito menos atrapalhá-lo. 

— Que verde é esse? — perguntei apontando o papel seda que ele tinha acabado de cortar.

— Celadon. — ele respondeu sem nem hesitar, concentrado na tarefa, não querendo correr o risco de rasgar aquele papel, porque era fino demais. 

— Parece cinza, dependendo de como se olha. — comentei. — A maioria dos caras provavelmente vai achar que é cinza. 

— Só tem gente sem cultura nesse lugar. — ele ironizou. 

Ele estava fazendo pipas para que eu e outros presos pudéssemos empinar nas tardes mais ventiladas daquele verão. Era uma das poucas diversões que os guardas deixavam que tivéssemos naquela estação, já que obviamente não podíamos fazer os outros tipos de diversão que as pessoas geralmente fazem durante essa época do ano. 

Papi gostava disso, porque o fazia ter uma atividade para passar o tempo. E também, porque lembrava um pouco de sua antiga vida antes daquele lugar. 

— Já decidiu qual cor você quer? — ele perguntou indicando os outros papéis seda ali ao lado.

Não tinha muita variação de cores. O pessoal da prisão tinha comprado só cinco pacotes diferentes de papel seda, apenas para dar uma diferenciada e dizer que estavam nos “mimando”. Tinha celadon, amarelo, azul marinho, preto e vermelho vinho. 

— Pode ser qualquer um. — respondi dando de ombros. 

— Escolha uma cor para sua pipa, garoto. — ele retrucou. — Nós dividimos a mesma cela. Eu priorizo mais o seu pedido do que dos outros panacas desse lugar. 

Mordi o lábio inferior. 

— Pode ser celadon mesmo. É o mais bonito desses daí. 

#

Ainda estou pensativo sobre a questão do rosa enquanto estou sentado nas cadeiras de plástico do corredor, do lado de fora da sala de Kabuto. Dez minutos atrás, mijei dentro de um copo e entreguei pra ele, e agora ele finalmente veio me entregar o papel com os resultados. 

Agradeço e sigo para a sala de espera, aguardando que Orochimaru me chame. Depois de uns cinco caras, finalmente chega minha vez. 

— Próximo!

Assim que me sento em frente àquela escrivaninha repleta de coisas, naquela salinha minúscula dele, já coloco as cinquenta pratas na mesa. Ele pega e enfia logo na gaveta onde guarda toda a grana que será repassada para o governo. 

Dá uma olhada no papel com meus exames. Não diz nada, então acho que está tudo certo mesmo. 

— Você bebeu ou fumou essa semana? — ele faz as perguntas só para garantir mesmo, enquanto começa a preencher o meu relatório semanal. O primeiro de cinquenta e um que terei que fazer durante o próximo ano inteiro. 

— Não. — respondo, tentando passar tranquilidade, embora esteja um pouco nervoso. 

— Trabalhou todos os dias sem falta?

— Sim. 

— Esteve na rua depois das onze da noite?

— Não. 

Ele desvia os olhos do computador e me encara, daquele jeito sério e desconfiado. 

— Certeza?

Assinto com a cabeça. 

Ele ainda me encara por dois segundos antes de voltar a olhar para o computador. Pega minha ficha e digita algumas coisas. Espera por um minuto e depois começa a olhar atentamente para o que está na tela. 

Tenho certeza de que ele está olhando o histórico da minha tornozeleira e checando os horários, pra ter certeza de que não estou mentindo. 

É óbvio que ele não confia em mim.

Ninguém confia em ex-presidiários. E ele já deve trabalhar há tempo suficiente com isso pra não confiar cegamente na palavra de gente como nós. 

Mas o que ele vê parece deixá-lo satisfeito, pois logo depois retoma para as outras perguntas costumeiras. 

Me faz perguntas sobre o trabalho, sobre meu salário, sobre meus colegas e vizinhos. 

Tudo parece bem automático, então com certeza ele faz essas mesmas perguntas todos os dias, várias e várias vezes, para os caras como eu. Já parece até ter decorado de cabeça, porque antes mesmo que eu responda às vezes, ele já está digitando e cravando as respostas. 

— Eu tenho uma pergunta. — falo quando ele já está assinando uma pequena fichinha de papel. Meu comprovante de comparecimento da condicional. — Tenho alguma restrição relacionada à internet?

— Como assim? — ele questiona, concentrado enquanto termina de assinar seu próprio nome. 

— É que eu queria saber se posso fazer uma pesquisa na internet pra saber onde meu irmão está. — explico com a voz baixa, temendo que ele me brigue. 

— Não pode visitar seu irmão enquanto estiver de condicional. — ele retruca enquanto me entrega a ficha, finalmente me encarando sério de novo. 

— Mas posso ao menos pesquisar o nome dele na internet? Ou isso é uma violação? Eu quero ao menos saber em que prisão ele está. 

— Não sofra por antecipação, Sasuke. — ele diz de um jeito estranho. Pelo tom, parece até que está tentando ser legal comigo, como se estivesse me dando um conselho. — A melhor coisa que pode fazer agora é andar na linha para garantir que você possa visitá-lo no ano que vem. Isso, claro, se ele não tiver morrido em nenhuma briga de prisão. 

Arregalo os olhos, alarmado com essa possibilidade. 

— Você esteve lá dentro. — ele diz, ainda bem sério. — Então sabe como as coisas funcionam. 

É, eu sei. E é disso que mais tenho medo. Das paranoias que minha cabeça me provoca. 

— Precisa pensar primeiro em você, depois nos outros. — ele acrescenta enquanto me levanto devagar da cadeira de plástico. — Acho que a prisão já te mostrou isso. 

Mal me virei para sair da sala e ele berra:

— Próximo!

#

Aos quatorze anos, acho que eu era o único que não tinha namorada da minha turma. 

No fim da aula, sempre que eu me dirigia para sair do colégio, olhava em volta e via aquele monte de caras se agarrando com as garotas de forma quase selvagem, já que os nossos hormônios estavam no estágio de ápice. 

Às vezes eu até me assustava com isso. Ia guardar alguns livros no meu armário e tinha um desses casais se pegando à pouca distância. Eu ficava olhando para a garota, que estava sendo jogada contra as portas do armário enquanto o cara praticamente a esmagava daquele jeito, beijando com tanta força e voracidade que me fazia pensar se esse negócio de beijo era pra ser daquele jeito mesmo. Parecendo tão babado e dolorido. 

Caramba, coitadas das meninas. 

Mas talvez fosse só uma percepção minha, né? Talvez elas gostassem desse tipo de coisa. 

Nenhuma delas nunca quis me beijar mesmo. Elas preferiam aqueles tipos de cara. Os babacas que as jogavam contra a parede e não se importavam se elas estavam a fim de se pegar ou não. 

No fim, eu que era o esquisito daquele mundo mesmo. 

#

— Você não sabia que roupa de menina é mais cara? — Deidara perguntou surpreso depois que eles foram me buscar em frente ao prédio da condicional. Sakura deveria ter contado pra ele. — É cara pra porra. Sorte do Naruto que tratou de fazer um moleque. Azar da madame aí. 

— Ai, cala a boca. — Sakura bateu no braço dele, embora estivesse rindo. 

— Ei, eu tô dirigindo. — ele retrucou, embora também estivesse se divertindo. 

— Você é ridículo. — Sakura resmungou, de bom humor. Estava no banco de trás com Sarada e Boruto. Eu e Deidara estávamos nos bancos da frente enquanto ele dirigia o Kurama até o bairro onde Suigetsu estava, em sua reunião dos viciados anônimos. 

Deidara estacionou o carro em frente à praça do bairro, que ficava a um quarteirão de distância do prédio onde Suigetsu estava. Eles tinham combinado de se encontrarem lá antes de voltarmos para Waterfoot, mas como Suigetsu não estava ali ainda, então decidimos esperar. 

Deidara saiu do carro junto com Boruto e foram dar uma volta pela praça, pro moleque gastar um pouco de energia, já que já tinha começado a reclamar e fazer birra por idiotices. 

Sakura e eu saímos do carro mas decidimos ficar sentados no capô. Sarada estava dormindo na cadeirinha do banco de trás. 

Embora já estivesse perto do meio dia, o céu estava nublado e parecia já ser mais tarde. 

Um típico dia nublado e cinzento de outono. 

Fiquei olhando para as árvores da praça, notando que algumas folhas já estavam amarelando. Em breve, estaria tudo alaranjado, antes de finalmente caírem com a neve de dezembro. 

— Ino vai te chamar pra um encontro amanhã. — Sakura diz, do nada. 

Olho pra ela, confuso e surpreso. 

— O quê? — indago. 

— É sério. — ela ri. — Ela me contou. Mas não se exalte, não vai ser nada espalhafatoso. Provavelmente vai ser pra tomar um sorvete ou algo assim. 

Pisco várias vezes, olhando de forma arregalada pra ela. 

Sakura está dizendo isso com a maior calma do mundo enquanto tenta acender um cigarro, só que o vento frio não está deixando o fogo de seu isqueiro acender. 

— A Ino? Mas… — começo a pensar rapidamente. — Eu tive a impressão de que ela gostava do Gaara. Ou… 

— Mas ela gosta. — Sakura responde e bufa irritada, vendo que o cigarro não vai acender de jeito nenhum. — Por isso mesmo que estou falando pra você não se empolgar tanto. É só pra fazer ciúme no Gaara e ver se ele fica esperto. 

Continuo sem entender. 

— M-mas por que eu? — pergunto, gaguejando. Percebo que minhas mãos tremendo de nervosismo, não de frio. 

— Deve ser porque você é um dos poucos héteros do rolê. — Sakura comenta, rindo um pouco enquanto olha para Deidara, correndo junto com Boruto pela praça ali perto. De repente, ela para e me olha séria. — Espera, você é hétero, né?

— S-sim. 

— Ah, que susto. — ela parece respirar aliviada. — Pensei que tivéssemos todos viajando.  

Engulo em seco, nervoso pensando nisso agora. 

— Mas relaxa. Se divirta. — ela diz, encostando as costas no vidro do painel do carro, meio que deitando. — É bom que você já tira o atraso e dá uns beijos. — ela comenta rindo um pouco. — Deve estar com saudade de fazer isso, depois de cinco anos, né? Quem sabe role até algo mais quente. A Ino é meio fogosa. E eu digo isso no bom sentido, já que a gente é bem amiga. 

Engulo em seco de novo, olhando para minhas próprias mãos, sem conseguir respondê-la. 

E ela nota isso. 

— Sasuke? 

Não consigo olhar pra ela. 

— Sasuke? — ela se endireita, sentando novamente. — Você já transou antes, né?

Fecho meus punhos sobre o colo, mordendo os lábios. Não consigo erguer a cabeça nem pro lado, mas pelo canto do olho, vejo que Sakura está me olhando atenta.

O meu silêncio a deixa surpresa, porque ela saca a resposta. 

— Espera, você… — ela parece chocada. — Mas você… já beijou pelo menos, né?

Sinto minha boca totalmente seca. 

De uma forma muito surpreendente, eu consigo reunir força suficiente para erguer minha cabeça e encará-la. Sinto que estou tremendo. 

Sakura está me olhando de forma surpresa, como se não acreditasse no que acabou de constatar. 

— Você nunca beijou ninguém antes, Sasuke? — ela pergunta baixinho. Alguns fios de seu cabelo estão voando em frente ao seu rosto por conta do vento frio de outono. 

Eu não consigo fazer mais nada a não ser olhá-la. Nem mesmo consigo negar com a cabeça.

Mas não preciso, porque ela já entendeu. 

— Caramba… — ela murmura, me encarando de volta. 

— É deplorável, eu sei. — digo baixinho, voltando a olhar pra minhas mãos sobre o colo. 

Sakura parece ficar pensativa durante o minuto seguinte, e eu sinto seu olhar sobre o meu rosto ainda. 

De repente, ela ergue a mão com a pulseira de pedrinhas amarelas e segura meu queixo, puxando meu rosto para voltar a se erguer e olhar pra ela. 

Pisco de forma confusa, voltando a encará-la. E aí ela começa a aproximar seu rosto do meu. 

Arregalo os olhos instantaneamente. 

— Relaxa. — ela sussurra com o rosto já a centímetros do meu. — Não é tão difícil assim. Feche os olhos. 

Demoro dois segundos para fazer isso. Estou tremendo de nervosismo, e acho que ela sente isso. 

Suas mãos vão para o meu pescoço, e seus dedos seguram na minha nuca. 

De olhos fechados, primeiro sinto sua respiração quente batendo no meu rosto. E no segundo seguinte, sinto seus lábios encontrando os meus num toque suave. 

Fecho os olhos com ainda mais força, prendendo a respiração enquanto sinto meu próprio coração se acelerando de maneira quase desesperada. 

Será que ela consegue ouvir esses meus batimentos?

Ela tenta se mexer, mas os meus lábios cerrados não permitem. Então ela se separa de mim e se afasta um pouco. 

Levanto as pálpebras só o suficiente para ver que ela ainda está com o rosto próximo ao meu. 

— Você tem que abrir a boca. — Sakura cochicha, ainda com as mãos na minha nuca. 

De forma confusa, eu paro com a rigidez nos lábios e os entreabro. 

Sakura fecha os olhos e se aproxima de novo, voltando a me beijar. 

Fecho os olhos também, dessa vez sentindo sua boca se movendo devagar sobre a minha. Não demoro a sentir sua língua passando pelos meus lábios e adentrando em minha boca. 

E surpreendendo a mim mesmo, isso não me deixa mais tenso ainda. Só me relaxa. 

Eu sinto o gosto dela na minha língua. 

Tabaco. E chiclete de cereja. 

O chiclete que a vejo mascando de vez em quando. 

Agora eu sei de que sabor é. 

Uma das mãos dela desce pelo meu corpo até encontrar uma das minhas. Ela segura meus dedos e leva minha mão em direção à sua cintura, onde eu toco de forma automática, quase instintiva. 

Mas não faço nada, a não ser segurar firme ali, apertando apenas um pouco, tocando-a por cima da blusa. 

Nossas bocas continuam se movendo devagar uma contra a outra. Entrelaço minha língua na dela. 

E de forma esquisita, eu sei que nosso beijo não é nada parecido com aqueles que eu vi acontecerem no colégio, quando era adolescente. 

Não é violento. Não é cruel. Não é invasivo. 

É só um beijo. Calmo e tranquilo. 

E quando acaba, eu fico alguns segundos sem entender o que está acontecendo. Abro os olhos e vejo Sakura se afastando lentamente. 

E demoro até conseguir ver o resto do mundo ao nosso redor, porque só conseguia enxergá-la. 

— Pronto. — ela sussurra como se fosse um segredo, me encarando. — Agora você já sabe beijar. 

Pisco lentamente. Minha mão ainda segura a cintura dela. Mas ela não a tira de lá. 

Celadon. 

É a cor dos olhos dela. 

Estando tão próximos, consigo distinguir perfeitamente a tonalidade daquele verde. 

— Tia ‘Sakula’! — Boruto grita enquanto se aproxima correndo de nós. — ‘Ola’ o que eu peguei ‘pa’ você. 

Ele para em frente ao capô do carro e ergue uma florzinha laranja, que provavelmente acabou de pegar de algum arbusto da praça. 

— Ah, que linda. — Sakura se esgueira até descer e ficar de pé na calçada, escapulindo do meu toque. Ela pega a flor da mão dele. — Obrigada, querido. 

Olho mais adiante e vejo Deidara andando devagar na nossa direção.

Algo na expressão séria dele indica que nos viu. 

Mas de qualquer forma, ele não comenta nada. 

Nem naquele momento, nem na viagem de volta para Waterfoot.


Notas Finais




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