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História Chalé Escarlate - Capítulo 1


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Notas do Autor


Feliz páscoa guys!
Espero que vocês possam se "divertir" com essa one e que ela compense meu atraso nas atualizações. A capa linda foi feita pelo @Listyo e é maravilhosa né?

!!ATENÇÃO, PARA UMA BOA EXPERIÊNCIA LEIA A ESTORIA DESDE O COMEÇO!!

Beijos e boa leitura >33

Capítulo 1 - A garota do casaco vermelho.


 

Slakevill era um desconhecido e misterioso vilarejo localizado ao Sul do Texas, dentro de uma floresta. Haviam poucas famílias morando ali, crianças, adultos e idosos. Acima de tudo, jovens. Entre esses jovens, havia Sakura Haruno. 

A garota possuía lindos olhos esverdeados, a pele macia, um longo cabelo rosado e um corpo magro, quase esquelético. Ela morava em um chalé com mais sete familiares, os mais velhos sempre saciavam-se das refeições enquanto os mais novos se alimentavam das sobras. Por ser um vilarejo desconhecido e muito longe da cidade grande, a única forma de alimento era a caça e as plantações que cada família fazia. Enquanto os homens caçavam, as mulheres cuidavam das crianças e do lar. 

Não havia trens para transportá-los e os poucos cavalos eram usados somente para a colheita. Os forasteiros eram raridade em SlakeVill, todos ali se conheciam. A última pessoa a aparecer por ali havia sido um jovem, de vinte e poucos anos. Ele se chamava Sasuke Uchiha. E encantava toda e qualquer mulher que o conhecesse, incluindo Sakura Haruno.

A garota era recheada de pretendentes que em sua maioria  eram velhos. Mas Sakura não atraía quase todos os rapazes da pacata cidadezinha apenas por sua aparência invejável. Ela era extremamente doce e bondosa, além de ser muito ingênua.  Às poucas moedas que ela conseguia produzindo cestas de madeira a mão eram doadas para a igreja, para ajudar os necessitados. A Haruno simpatizava com qualquer um, todos se encantavam por ela.  Exceto Sasuke Uchiha, o dono de seus sonhos mais perversos.

Ele era diferente, pois não demonstrava admiração e desejo por ela igual aos outros. Isso frustrava-a. O Uchiha sempre parecia indiferente quanto a ela, todavia sempre encarava-a fixamente por longos minutos quando se aproximava. Ela nunca entendia seus gestos, nunca conseguia decifrar seu olhar intrigante. Ele parecia querer algo dela, mas não conseguia decifrar o que era. 

O pequeno vilarejo estava se aproximando aos poucos da época de inverno.  Uma época tão detestada e tenebrosa para todos.  Os poucos animais desapareciam da floresta para começarem o estado de hibernação, dificultando o alimento dos camponeses. Às colheitas nem sempre eram rentáveis, então eles tinham que se virar com pouco e se preparem para muitos doentes e mortes devido ao frio congelante. 

A escola, igreja e os comércios fechavam por um longo período de tempo. Às mulheres corriam contra o tempo para costurarem novos e aconchegantes casacos para as crianças, que eram as mais frágeis. A maioria desses casacos eram feitos pela família Haruno. 

Elas possuíam uma tradição passada de geração em geração, até que no aniversário de dezessete anos de Sakura, sua mãe, avó e tia deram a ela um lindo casaco vermelho-sangue com um grande capuz. Desde então a garota nunca saia de casa sem ele, era o seu bem mais precioso.  Deixando-a mais linda do que qualquer outra. Por baixo do casaco vermelho, ela trajava uma fina camisola branca e usava botas de couro feitas manualmente por Naruto Uzumaki, seu melhor amigo. 

Certa manhã, uma semana antes da grande tempestade de neve começar, a garota estava distribuindo agasalhos pelo vilarejo com um carrinho de madeira. O frio gélido e cálido da manhã soprava seus fios rosados aos quatro ventos, os lábios rosados estavam tremendo disfarçadamente enquanto recebia as crianças com um sorriso carregado de ternura. 

— Deus abençoe você moça. —  Um pequeno garoto que aparentava ter uns sete anos abraçou-a e em seguida pegou um casaco azul e correu na direção oposta. Ele pulou no colo de uma mulher mais velha e rapidamente vestiu o agasalho, sorrindo e acenando para a Haruno.  — Obrigado! — Ele gritou de longe e entrou dentro de um chalé junto com a mulher. 

— Tem pra mim também? — a voz estridente chegou aos ouvidos dela, acariciando-a com um tom decidido e ao mesmo tempo brincalhão. Uma mão tocou em seu ombro levemente por cima do casaco vermelho, ela se virou para o dono da voz já sabendo de quem se tratava.  Reconheceria aquela voz em qualquer lugar. 

— Naruto!? — Sakura pulou em seu pescoço e o abraçou, aconchegando-se nos braços quentes e grandes do Uzumaki. Ele a apertou em deleite, beijando-lhe o topo da cabeça. — Pensei que estava trabalhando com o seu pai. Fora do vilarejo. 

— Pois é, eu estava. Consegui ser liberado mais cedo. — O loiro encarou o carrinho de madeira atrás dela e sorriu de orelha a orelha. — Você se superou dessa vez, tem muitos casacos. — Ele disse revirando o carrinho. — Posso levar alguns? 

— A vontade, tem para todos os tamanhos. — A garota sorriu ajeitando os fios rosados que se agitavam conforme o vento batia contra sua face. — Aliás…  — suas bochechas adquiriram um tom avermelhado.  — você tem visto o Sasuke desde que voltou? Ele sumiu por um tempinho. 

 

— Olha, eu realmente não sei. — O loiro deu de ombros após escolher três agasalhos marrons. — Talvez ele esteja na casa dele passando frio, nunca vi ele pegar algum casaco com a sua família. Ele nunca está agasalhado, principalmente agora que o inverno está quase aí. Estranho né? 

Sakura entortou os lábios tentando se lembrar das vezes em que viu o Uchiha com qualquer outra roupa que não fosse sua costumeira regata preta que vivia exibindo seus hipnotizantes músculos. Nada veio à sua memória. 

— Estranho mesmo.  

— Enfim, valeu pelos casacos. — O loiro retirou uma moeda do bolso e depositou na mão dela. — Eu sei que não precisa pagar, mas eu faço questão. Agradece a tia Mebuki por mim. — Ele vestiu um dos agasalhos escolhidos. 

— Pode deixar. — A Haruno sorriu vendo-o se distanciar aos poucos. Novamente, estava sozinha.  Ela caminhou por entre algumas árvores e pinheiros, tentando alcançar o máximo de famílias possíveis. 

Ao final da distribuição, a garota cogitou levar algum agasalho até Sasuke. Mas rapidamente descartou a ideia, estava envergonhada demais. Eles nem se falavam tanto, ajudá-lo poderia denunciar o quanto se importava com o moreno. Não queria parecer uma boba. Se ele sentisse frio, provavelmente daria um jeito. 

Ela caminhou de volta até sua casa que estava bem no meio do vilarejo. Era velha e pequena, mas aconchegante apesar dos pesares. Sorriu ao ver a casinha resistindo ao vento forte que começava a ficar mais violento a cada minuto, torcendo para que os homens da família tivessem realizado uma boa caça. Também rezava para que as sobras fossem duradouras para o dia seguinte.  

Ela seguiu até o batente com o carrinho de mão e bateu firmemente as botas no carpete improvisado da porta. Deixou o carrinho de lado sem qualquer coisa dentro  e levou a mão trêmula até a maçaneta, forçando-a para dentro. 

O ar quente e abafado se fez presente no ambiente, graças à pequena lareira no canto da sala. Sakura retirou o capuz e dependurou em um prego atrás da porta e logo em seguida retirou as botas cobertas de neve. Sua mãe e tia estavam à beira do fogão movido a lenha, enquanto sua avó estava sentada na cama tricotando, coberta por uma manta vermelha. Tudo se encontrava num único cômodo, inclusive um banheiro. Às pinturas davam vida aquele lugar, desenhos feitos nas paredes por Sakura e seu pequeno primo de dez anos.

Aquele lugar era sua casa, por mais pequena e mínima que fosse. Havia apenas uma janela na casa inteira que estava barrada por pedaços de madeira que haviam sido pregados graças a chegada do inverno. O caldeirão de sopa em cima do fogão denunciou que eles teriam um grande banquete, fazendo-a salivar. 

— Sakura! Você voltou! — O pequeno Youko agarrou suas pernas quase derrubando-a. — Você levou os casacos para os meus amigos? Viu que o tio Kizashi conseguiu caçar uma corça? — Ele deu pulinhos de alegria ao redor dela.

— Quantas perguntas Youko! — Sua tia voltou a mexer a sopa. — Deixe sua prima se acomodar, não incomode. 

— Não tem problema, tia Toniry. — Sorriu abaixando-se para ficar na altura do menino.  —  Conseguiram uma corça? — ela soou surpresa. — Isso é um milagre, ainda mais agora. 

— Não é? — o menino retrucou lambendo os lábios. A última vez que tiveram um jantar tão promissor havia sido a tanto tempo atrás.  — O tio disse que ele também encontrou um lobo na floresta, ele lutou e quase morreu!  

Sakura arrepiou-se instantaneamente. Um frio mortal percorreu sua espinha. 

—  Que horror Youko! — a mãe do menino fechou a panela, olhando para ele de forma ameaçadora. — Não repita essa barbaridade, seu tio não enfrentou lobo nenhum. 

— Mas ele disse que sim. — Ele bateu o pé decidido do que estava falando. — E tem muitos lobos na floresta, mas o seu pai é muito mais forte que eles, prima Sakura. 

— Aquelas bestas nem devem ser nomeadas. — A mulher de cabelos castanhos caminhou até ele e lhe puxou a orelha. 

— Ai! Mas é verdade, mamãe! — ele choramingou acariciando a orelha puxada. Enquanto isso, Mebuki estava lavando a louça e sua avó tricotava rindo da filha mais velha brigando com seu neto.   

— Não me interessa o que o Kizashi disse, aqueles monstros devorariam qualquer um que fosse para o lado norte da floresta. — Toniry sentiu as pernas fraquejarem somente ao mencionar. — Agora no inverno, eles estão mais famintos do que nunca. Não existe piedade no vocabulário desses demônios, uma luta não é algo para se orgulhar e muito menos emocionante, menino!  

Sakura refletiu sobre as palavras da tia. Realmente, muitos caçadores que se arriscaram no lado norte da floresta jamais voltaram vivos.

— Desculpa. — O garoto abaixou os olhos, arrependido. 

— Enfim, nunca devemos ir até o território deles. Ninguém é poupado, independente de quem seja. — A terceira mulher mais velha da família voltou ao fogão e suspirou pesadamente ao notar que a lenha usada para alimentar o fogo estava acabando.  — Sakura querida, você pode ir até a floresta pegar mais lenha para o jantar? — A Haruno sempre apanhava lenha no lado Sul da floresta, nunca no lado norte. — Seu pai e seu tio foram limpar a corça, usamos quase toda a lenha para esquentar a sopa. Vamos precisar de mais. 

— Tudo bem. —  Sakura respondeu ainda absorta em seus pensamentos, disse quase automaticamente. — Já estou indo. 

Ela caminhou pacientemente até sua cesta de madeira feita à mão e vestiu seu casaco vermelho, calçou as de couro e saiu. 

 

 

 

Os mais altos pinheiros estavam congelados. Alguns galhos partiam-se ao meio conforme a doce menina avançava mais adiante pela floresta. O vento soprava incessantemente, os arbustos antes verdes e vividos agora estavam brancos, totalmente cobertos pela neve. Às pegadas de Sakura rapidamente desapareciam em meio a nevasca. 

Um branco tranquilizador preenchia o lugar. Ela encarava ao seu redor, vendo apenas neve e mais neve.  Algumas árvores estavam congeladas e outras acumulavam neve em algum tronco. A rosada passava cuidadosamente por baixo de cada uma, temendo que caísse em sua cabeça. 

A capa vermelha era arrastada pela neve, a cor sangue contrastava com o branco espalhado pelo chão. Tornando Sakura o ponto mais visível naquela imensidão branca. Se locomovia com dificuldade, não queria escorregar mas também estava lenta demais, a neve soterrava seus pés, assim como havia feito com as tocas de animais.

Apertou a cesta contra o peito, segurando de maneira firme. Até ali não havia encontrado lenha alguma, pois provavelmente haviam sido soterradas. Andando mais adentro da floresta, alguns animais pararam para encarar a figura vibrante andando, os esquilos olhavam-na fixamente e outros animais também. Alguns coelhos passaram a segui-la pulando sorrateiramente atrás da mesma por pura curiosidade. Sakura sorriu ao notar a presença deles, olhando pelo canto do olho o quanto eram fofos.

De repente, a garota chegou até a costumeira bifurcação no meio da floresta. Haviam dois caminhos distintos, um caminho mais aberto que levava até a zona norte da floresta enquanto o outro era mais restrito e levava até a parte Sul. Sakura sempre optava pelo caminho restrito, que era além de tudo, seguro. 

Mas justo naquele momento, uma árvore estava caída no meio do caminho que ela sempre seguia. Uma grande árvore, alta demais para que ela pudesse escalar. Ela possuía espinhos afiados em seus galhos rudes, deixando a menina nervosa. 

Haviam dado uma missão a ela, Levar lenha ao chalé para que a corça fosse esquentada e para mantê-los aquecidos pela noite que se aproximava. Logo o sol iria se pôr, o frio congelante e mortal invadiria o chalé deixando sua avó e o pequeno Youko passando frio. O jantar seria gelado com exceção da sopa. A carne tão abençoada seria crua. 

Como poderia deixá-los na mão apenas por uma simples árvore barrando seu caminho? Ela faria o que havia sido mandado. Encarou temerosamente o caminho mais aberto que levava até o lado norte.  Onde era infestado por lobos. 

Quase desistiu de tal ideia, mas novamente imaginou seu pequeno primo batendo os dentes de frio, sendo protegido somente por uma manta velha. Ele provavelmente morreria. E ela seria a culpada. 

Reunindo toda a coragem que possuía até então, ela deu o primeiro passo em direção ao caminho que nunca seguia. Ela ultrapassou as árvores da entrada cobertas por gelo e viu que naquela parte da floresta tudo era inexplicavelmente mais verde.  

Logo na metade do caminho, ela encontrou alguns pedaços de lenha bem pesados. Colocou os pequenos pedaços na cesta e seguiu caminho adiante, havia muito pouco para mantê-los aquecidos.  A essa altura, ela notou que os coelhos haviam parado de acompanhá-la. A partir da bifurcação, eles não seguiram-na mais. Isso provocou uma pequena agitação em seu ínfimo. Uma mistura de medo e dúvida perante ao desconhecido.

Quando estava definitivamente na zona Sul, ela chegou até uma clareira onde a neve era pouca e às árvores congeladas não existiam. Tudo estava parcialmente verde e ao se aproximar, havia muita madeira. Mais madeira do que poderia carregar. Era compreensível afinal ninguém entrava ali.

Ela sorriu e logo se abaixou para colher o máximo que podia. Após encher a cesta decidiu que já havia ficado tempo demais naquela área proibida. Antes que ela tivesse a oportunidade de se levantar, alguns arbustos se mexeram com brusquidão. Como se algo tivesse passado entre eles. 

Sakura mordeu seu lábio, tentando regular sua respiração. Seu instinto de sobrevivência se revirava em seu estômago, implorando para que ela saísse correndo dali. Mas não podia fazê-lo, se fosse realmente algum animal com certeza iria alcançá-la. Ela estava longe demais da bifurcação para correr e conseguir sair ilesa.

Na esperança de que fosse somente uma impressão ou algum camponês, ela suspirou baixinho e se levantou cautelosamente. Encarou ao redor com mais medo do que nunca havia sentido antes. 

 — Alguém está aí? — Ela rezou internamente para que algum ser humano saísse dos arbustos dizendo ‘sim’.  Mas nada aconteceu.

Ela começou a caminhar de volta para o local que havia vindo. Mas sentia olhos em si, alguém estava observando-a, tinha certeza disso. Alguém acompanhava seus passos minuciosamente, escondido entre os arbustos. 

Quando já estava na metade do caminho, não conseguiu se controlar e começou a correr. Correr tão rápido quanto podia com aquela capa.  Algo notou isso e começou a correr atrás de Sakura, ela não sabia o que era. Estava desesperada demais para olhar para trás. Mas presumiu que era um lobo, um predador faminto que estava encarando-a antes de dar o bote. Ele não tardaria em devorá-la como sua tia havia dito. 

Tinha entrado naquela área por sua família, apenas por eles. Agora estava encrencada, com medo de morrer por ser bondosa demais. 

Chegou até a bifurcação, começando a rever as árvores cobertas de gelo e o chão banhado em neve. Ela imaginou que o lobo pararia a perseguição, mas não. Mesmo depois de passar pela divisória ele continuou correndo atrás da Haruno, sua  refeição. Por um mínimo segundo ela conseguiu visualizar a pelagem daquele ser. Preto, um pelo tão preto e brilhante quanto assustador.

Continuou correndo em direção ao vilarejo, temendo por qualquer obstáculo que pudesse aparecer. Num determinado momento do percurso, não escutou mais os arbustos se mexendo ou os galhos pelo chão quebrando. Aquela coisa parecia tê-la deixado em paz, mas ainda sim ela continuou correndo. Por um grande milagre e controle sua cesta não havia caído e tudo estava em ordem. 

Com euforia em plenos pulmões ela correu mais rápido ainda, a fera havia sido deixada para trás, entretanto não devia baixar a guarda. Seus pés moviam-se automaticamente pelo chão, flutuando sobre a neve.

Seus passos rápidos levaram-na até a saída da floresta, deixando que ela corresse somente pela trilha de terra, num vasto campo aberto. Era como uma pintura. Uma garota rápida correndo com um capuz balançando ao vento, sua expressão assustada denunciava o quanto almejava sair dali. A neve ao redor, os animais encarando-a correr, tudo parecia acontecer em câmera lenta. 

Até que seu corpo magro chocou-se em algo duro. Fazendo-a cair sentada no chão. A cesta virou, deixando que toda a lenha fosse espalhada aleatoriamente. Ela se levantou ficando de joelhos no chão, pouco se importando com a dor em suas nádegas graças ao impacto. 

Seus olhos esmeralda subiram pelo obstáculo que havia parado-a. Sasuke encarava Sakura friamente, com seus ônix concentrados na figura dela. Não possuía expressão alguma, quase igual a um ser vazio. 

— Sasuke?! — Ela corou. — Algo estava me seguindo, precisamos sair daqui! — A garota passou a recolher a lenha e colocá-la na cesta rapidamente. 

— O que está fazendo aqui, Sakura? — Ele respondeu com um olhar enigmático.

A rosada o avaliou de cima a baixo, vendo que ele usava apenas uma calça moletom e uma regata preta. Como poderia usar apenas aquilo sem estar tremendo de frio? 

— Eu vim colher lenha. — Por um momento, uma grande dúvida surgiu em seus pensamentos. Algo que a fez estremecer da cabeça aos pés. — Aliás, o que você está fazendo aqui? 

Um longo silêncio se seguiu. Ambos se encaravam sem desviar a atenção. A rosada parecia acanhada, estava intimidada demais para dizer algo mais. 

O Uchiha parecia desvendar cada segredo de sua alma com apenas aquele olhar. Ele parecia bem acomodado, olhando-a de cima enquanto a garota ainda estava no chão. Sua face não demonstrava qualquer emoção em relação a situação. 

Minutos e minutos se passaram antes que ele resolvesse falar alguma coisa. Precisamente, cinco minutos. Os cinco minutos mais demorados da vida de Sakura. 

— Garotas ingênuas não deveriam andar sozinhas pela floresta. — Ele disse, simplesmente. — É perigoso. 

— Você fala como se conhecesse a floresta como a palma da sua mão. — Ela debochou, tentando apaziguar a tensão que havia se instalado. 

— Não volte aqui Sakura. — Ele se virou para a direção da clareira, de onde a garota havia vindo. — Acima de tudo, não venha até mim. 

— Você enlouqueceu? — Ela se levantou desajeitadamente e foi na direção do moreno, segurou seu braço e o encarou nos olhos. — Vamos embora! Tem um lobo aqui! — Gritou.

— Isso é normal, já que estamos na entrada da floresta. — Ele deu de ombros, afastando a mão dela. — Eles estão famintos, alguns não conseguem comida o suficiente para todo o inverno. Então sabe o que eles fazem com garotas tolas como você? — Sakura prendeu a respiração, sentindo as íris dele focadas em seu corpo magro e pálido.  O moreno passou a língua nos lábios cheios, olhando-a com desdém. — Eles devoram. 

Era como se Sasuke estivesse falando aquilo diretamente para ela. Como um aviso prévio do que aconteceria se ela voltasse até aquele lugar.

Uma agitação se formou abaixo de seu ventre, fazendo-a imaginar as piores coisas para uma moça de família. Sasuke riu de soslaio, balançando a cabeça em negação. 

— Eu… 

— Estou falando sério. — Ele trincou o maxilar. — Se for esperta vai seguir meu conselho.  — Ele começou a caminhar até a clareira. — Não volte aqui. Senão… — as ônix escuras caíram novamente sob a garota de capuz vermelho. — será devorada pelo lobo. 

Ele adentrou os arbustos, sumindo de sua vista rapidamente. Sakura ainda encontrava-se atônita demais para ir atrás dele. Mas de uma coisa ela tinha certeza, ele era um lobo.  Muitos boatos sobre lobisomens circulavam pelo vilarejo, ela acreditava em todos eles.

E mesmo que tivesse sido aconselhada pelo moreno a ir embora e não voltar, Sakura não conseguia seguir seus instintos. Por mais louco que parecesse, Sasuke Uchiha iria comê-la. E ela mal podia esperar para que isso acontecesse. 

 

 

Os dias se passaram devagar, a cada minuto Sakura não conseguia pensar em qualquer outra coisa que não fosse o discurso do Uchiha. Ou melhor, pensar nele por completo. Sasuke dominava seus pensamentos como uma droga. O rapaz parecia estar presente em qualquer lugar que ela fosse. 

Como poderia amá-lo tanto? Tanto ao ponto de se imaginar fazendo qualquer coisa por ele. Como poderia sentir tantas coisas distintas ao pensar sobre ele sem sequer se falarem tanto? Ele a fascinava. 

Ela nunca conseguia decifrar aquele olhar.  Ele parecia sentir algo por ela, mas não aparentava ser amor. E mesmo que fosse, ela nunca saberia. Só podia estar enlouquecendo, queria vê-lo novamente. Mesmo apesar do aviso, ela ainda queria encontrá-lo. 

Cinco dias se passaram desde o encontro de ambos na floresta. O fatídico encontro. A Haruno passava noites e noites acordada se recordando daquele corpo musculoso. Daquele olhar excitante, daquela voz hipnotizante. Sasuke se assemelhava muito a um lobo, isso explicava o fato dele não sentir frio e de estar na floresta. 

Naquele dia ela conseguiu chegar com a lenha em casa. Sua família teve um grande banquete depois de muito tempo, a corça estava deliciosa e o chalé estava quente, todos aquecidos e felizes. Enquanto comia, ela só pensava no quanto se sacrificou para que aquilo fosse possível. Nada mais prendia sua atenção na mesa, nem mesmo a carne macia e farta em seu prato.

Naquela noite ela foi dormir mais cedo. Antes de se deitar, olhou por uma das brechas das tábuas pregadas na janela, encarando a escuridão da noite. Nunca almejou tanto poder ir e vir sem precisar comunicar a sua família. Nem havia falado do acontecido na floresta, eles certamente iriam proibi-la de sair do chalé. 

E claro que haviam notado o estranho comportamento da garota, principalmente sua avó que era muito mais observadora que os outros. Mas Sakura se recusava a falar qualquer coisa sobre aquilo. Fazia de tudo para obedecer ao bendito aviso, mas não conseguia. Ela precisava de uma aventura. De algo que a fizesse sentir-se mais viva, mais jovem. 

Então no sexto dia — poucas horas antes da imensa tempestade de neve que se aproximava — ela saiu de casa vestida com seu capuz para encontrá-lo. Calçou decididamente as botas de couro, beijou Youko na bochecha e disse que iria pegar mais lenha e que logo estaria de volta. 

Sua avó estava dormindo, assim não podia impedi-la. Seus pais e seus tios estavam trabalhando nas plantações, ela voltaria antes deles chegarem. Ao menos presumia isso. 

— Mas e se a vovó acordar? — o pequeno garoto apontou para a idosa deitada sobre a cama, roncando alto. 

— Diga que eu fui pegar mais lenha. — Sakura destrancou a porta tentando não provocar ruídos. 

— Isso não faz sentido. — Youko retrucou. — Temos muita lenha, para o inverno todo na verdade. — Ele apontou para a enorme pilha de madeira ao lado da cama. — Você não precisa ir. 

— Você é só uma criança. — Sakura respondeu elevando um pouco o tom. — Você não tem noção de quantidade ainda, quando crescer vai entender isso. — A rosada cruzou os braços. — Quer que a gente passe frio? — ele negou. — Ótimo. 

— Promete que vai voltar antes do anoitecer? 

— Prometo. 

A mulher fechou a porta do chalé deixando o garoto lá dentro com seus pensamentos incisivos.  

Ela levantou o capuz e segurou firme na alça da cesta para que ela não voasse. Os flocos de neve caiam mais rápido e grossos do que antes, caindo sobre o casaco vermelho. Os poucos camponeses estavam todos em suas casas ou colhendo nas plantações que eram bem distantes dali. Ninguém veria-a saindo para a floresta. 

Ela chegou até a trilha que agora era composta somente por neve, a terra estava muitas camadas mais abaixo. Não havia os esquilos de dias antes nem mesmo os coelhos, os animais tinham de fato desaparecido. 

Ela apertou o passo, caminhando o mais rápido que podia enquanto segurava sua capa para não arrastá-la no chão. Chegou até a bifurcação vendo que a enorme árvore ainda estava caída ali, só que coberta por neve e mais neve. Ela virou-se para o caminho aberto e avançou de maneira confiante e com um sorriso no rosto.  Noites antes a menina constatou que o lobo que a perseguia era o Uchiha. Então não havia pelo que temer, afinal. 

Avistou a clareira diante de si após andar por um bom tempo. A lenha que ela não tinha conseguido carregar ainda estava jogada ali. A neve densa e grossa estava mais forte naquele local junto com enormes rajadas de vento. Subitamente, Sakura sentiu um frio inexplicável. Isso era estranho, no outro dia tudo estava tão verde e vivo. Agora tudo parecia morto e triste, o vento batia em seus cabelos como ondas, nem o casaco vermelho era capaz de esquentá-la. Se arrependeu na hora de ter ido até lá. O que deu em sua cabeça? Iria morrer congelada por pura tolice. 

Ela não esperava que lá a tempestade de neve estaria tão rigorosa. Provavelmente já teria paralisado se não estivesse com seu manto e com as botas pesadas. Seus dentes brancos começaram a bater devagar, a neve começou a cair mais e mais, o vento frio era cruel e certeiro com seu corpo magro. A capa balançava descontroladamente, deixando-a ainda mais exposta. 

Até que escutou um uivo do outro lado da floresta, atrás de si. Um uivo rouco e amedrontador que pareceu encorajá-la a correr. Pior do que morrer de frio era morrer estraçalhada por algum animal faminto em meio aquelas árvores. Novamente, outro uivo só que mais perto dela, quase colado aos seus ouvidos. 

Sakura se abraçou tentando ficar menos desconfortável. Segurou sua capa ao seu redor e começou a andar desajeitadamente, quase caindo. Seus lábios começaram a ficar roxos, seu rosto estava mais pálido que o costume e sua visão estava embaçada devido aos flocos de neve que caiam em seus cílios. O vento chicoteava-a com precisão. 

Nem mesmo sua imensa vontade de correr era capaz de ajudá-la naquele momento. 

—  Socorro Deus…  — Sussurrou sem forças. 

Ela ficou caminhando em meio aquele desespero por uma hora. Seus pés estavam no automático, pois ela nem sentia-os mais. Suas costas estavam doloridas, qualquer movimento brusco seria capaz de quebrá-la em mil pedaços. Às pontas dos dedos tremiam segurando na capa juntamente com seus dentes. Os lábios estavam mais roxos agora, seu cabelo rosado ainda se agitava conforme ela avançava. Era como um cadáver. 

Após tanto tempo de sofrimento, finalmente ela observou um chalé do outro lado de um riacho congelado. Era pequeno e a madeira dele era avermelhada. Ela conseguiu visualizar a chaminé, saia fumaça. Ela caminhou esperançosa até o pequeno lado completamente congelado e atravessou temerosa. Foi até a frente da pequena morada e levou a mão trêmula até a porta. Batendo três vezes. 

A porta abriu sozinha e ela foi invadida por uma sensação quente e acolhedora. Ela focou sua visão na sala iluminada pelo fogo da lareira, a poltrona aconchegante e a sombra escura ao canto da sala. A escuridão ocultava uma sombra animalesca e alta. Os olhos vermelhos e flamejantes encaravam-na ameaçadoramente. 

Às grandes bolas vermelhas não desviaram-se dela um minuto sequer.  A rosada ainda tremendo sentiu-se quente. Era como se seu corpo tremesse de frio, mas sua cabeça senti-se outra coisa, uma sensação estranha. Seu ventre se agitou involuntariamente e ela teve certeza de quem era aquele chalé. Também teve a certeza de quem estava escondido na escuridão, encarando-a. 

A sombra do animal aos poucos foi se levantando, mudando de formato. Os olhos escarlate ainda permaneciam vidrados nela enquanto aquilo se multava aos poucos, às orelhas deram forma a um cabelo negro e uma sombra humana tomou a forma final. Uma figura alta e mais intimidante que a do lobo. Sasuke estava ali. 

— Eu disse para não vir aqui. — A voz rouca e conhecida soou nas sombras. Sakura se arrepiou de excitação e não se incomodou mais com o frio do lado de fora. Nem fez questão de fechar a porta. Ali dentro era como uma fogueira para o seu corpo. — Tire a roupa. — A voz mandou. Sem contestar ela obedeceu. Retirou a capa vermelha rapidamente deixando que ela voasse para fora do chalé e se enroscasse em uma das árvores. Seu bem mais precioso não parecia importar naquele momento. — Agora você será devorada pelo lobo. Garota ingênua. 

 Às íris esverdeadas brilharam em expectativa, ansiando pelos próximos minutos. Precisamente, cinco minutos.  Ele precisou de apenas cinco minutos para devorá-la por completo. Em seus pensamentos a garota ansiava pelo toque do lobo mau. Dentro do lobo, seu instinto de sobrevivência implorava para provar de sua carne. 

Mesmo que não fosse exatamente da forma como ela havia imaginado. 


 

O Uchiha manuseava o machado com maestria, acertando-o com precisão no pequeno toco de madeira. Os flocos de neve caiam mais devagar agora, os cidadãos caminhavam despreocupadamente pelo vilarejo distribuindo cartazes de desaparecimento. Cartazes com o rosto angelical de Sakura Haruno. 

O moreno parecia o mais despreocupado entre todos eles. Cortando a madeira com um sorriso de canto, com a expressão serena e até mesmo intrigante para alguém que sabia exatamente do que havia acontecido com a rosada. 

Os músculos relaxados dentro da regata preta realçaram a postura indiferente do mesmo. Ele usava a mesma roupa de sempre, era estranho mas ninguém parava para prestar atenção, tinham coisas mais importantes para se preocuparem. Ele olhou de soslaio para a pilha de madeira cortada, decidindo que já estava com uma boa quantidade. Ele depositou o machado no ombro, passando a mão desocupada pela testa. 

Enquanto secava seu suor, de repente, um homem saiu do meio da floresta correndo. Ele parecia apressado e ao se aproximar mais do lugar onde Sasuke estava, ele notou que se tratava de Naruto Uzumaki. O loiro possuía pequenos resquícios de lágrimas no canto dos olhos, suspirando descompassadamente.

Ele vestia uma calça de pano velha junto com um casaco marrom feito de lã. Quando parou de correr, se colocou na frente de Sasuke, depositou as mãos no joelho tentando recobrar os batimentos ritmados.  Logo em seguida, ele desabou a chorar. Chorava ao ponto de soluçar de tristeza. Às lágrimas caiam sobre a neve como gostas de chuva.

Ainda encarando-o sem esboçar reação, Sasuke ficou parado focado na figura frágil e sensível do Uzumaki.  Quando o rapaz conseguiu se controlar, ele ficou de pé e passou a limpar as próprias lágrimas, dizendo em meio a soluços dolorosos.

— Encontraram a Sakura. — Ele apertou o tecido do casaco, rasgando-o por tamanha força. — Quer dizer, pelo menos o que sobrou dela. 

— O que? 

— A minha amiga. — Ele explicou. — Ela tinha desaparecido ontem de tarde, lembra? — O moreno assentiu. — Encontraram o cadáver dela. Ela foi morta. 

— Hum… — Sasuke murmurou fingindo sentimentalismo. — Quem matou ela?

— Lobo. Ela foi morta por um lobo. Foi praticamente estraçalhada.  — Naruto voltou a chorar descontroladamente. Era como se tivessem arrancado um pedaço de si. — Acharam ela dentro de um chalé no meio da floresta, na zona norte. Tinha sangue pra todo lado Sasuke. — Ele se tremia ao lembrar da cena. — Eu vi tudo, a vó dela está passando mal. — Ele contava tremendo. — Os fios do cabelo dela estavam pelo chão… 

— Eu sinto muito Naruto, de verdade. — Ele depositou uma mão no ombro do amigo. — Mas por que ela foi pra lá? Todo mundo sabe que a maioria dos lobos estão loucos atrás de uma única oportunidade para se alimentarem. Ela foi porque quis.

—  Isso não é verdade! Algo atraiu ela pra lá, Sakura nunca faria isso sem motivo. — Naruto praticamente gritou. — Estão pensando em colocar isso no jornal como “Chalé Escarlate" — Soou indignado. — Esses filhos da puta não tem sequer consideração pela família? Por mim? 

— Se acalme Naruto.

— Calma nada! Minha amiga foi morta por um lobo, alguém levou ela pra lá. Enganaram ela, agora nem tem mesmo um corpo para velar. — O Uzumaki abriu a mochila rapidamente retirando um enorme casaco vermelho de lá. — Esse era o casaco que ela estava usando, achei enroscado em uma das árvores pelo caminho. — Os olhos azuis parecia possessos de raiva como se algo sombrio e infeliz estivesse possuindo-o. — Me diz que isso não é estranho Sasuke, alguém mandou ela tirar isso daqui. Não é conveniente ela ter tirado um casaco no meio da tempestade de neve para em seguida ser morta? 

— Talvez isso possa servir de lição para que ninguém mais entre lá. — O lenhador falou calmamente, tentando apaziguar a dor do outro. — Garotas ingênuas não deveriam andar sozinhas pela floresta. — Ele disse, simplesmente. — É perigoso. 

Naruto atirou-se nos braços de Sasuke pondo-se a chorar automaticamente, enquanto o casaco vermelho era apertado contra suas lágrimas. A peça estava com o doce e inconfundível cheiro de Sakura. 

— Eu vou para casa. — Ele ainda soluçava sem pausa. Era tão próximo de Sakura ao ponto de imaginá-la como uma irmã mais nova. — Tentar descansar. 

— Isso. — Encorajou-o. — Espero que fique bem. — Ele sorriu de maneira irônica, como sempre. Aquele era seu costumeiro sorriso. 

Ele observou o rapaz dar às costas em passos lentos, caminhando lentamente até o chalé da família Namikaze. Alguns minutos depois, a família de Sakura saiu de dentro da floresta, todos estavam chorando. A avó estava sendo carregada por alguns homens dali, enquanto um pequeno garoto gritava em meio ao choro de seus familiares. 

Sasuke estalou a língua dentro de sua boca voltando para dentro de sua morada com a lenha que havia cortado. Ele ficou feliz de saber que cumpriu o desejo de Sakura. Ela finalmente havia sido devorada pelo lobo como tanto queria.

 

“Eles estão famintos, alguns não conseguem comida o suficiente para todo o inverno. Então sabe o que eles fazem com garotas tolas como você? — Sakura prendeu a respiração, sentindo as íris dele focadas em seu corpo magro e pálido.  O moreno passou a língua nos lábios cheios, olhando-a com desdém. — Eles devoram.”

 



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