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História Chama acesa - Capítulo 37


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Capítulo 37 - Fundo do poço


Acordei com uma ressaca de querer morrer, e essa não era a parte ruim do dia; eu me encontrava num sítio muito diferente do meu. Este continha as mesmas dimensões que o meu quarto, porém, contava com um ambiente mais agradável e harmônico; comparado ao meu, não era nada sombroso. Pelo contrário, as paredes, por exemplo, iam de tons pastéis irritantemente fofos, que variavam entre o rosa bebê ao lilás, enquanto acima da cabeceira, possuía um papel de parede com vários desenhos de rosas.

Eu conhecia muito bem cada cômodo daquele apartamento que estava, e também à quem pertencia, ou melhor dizer, morava.

— Você acordou. — Priya se surpreendeu ao me ver despertada, no instante em que colocou os pés em seu quarto.

Ela, a propósito, trajava uma longa camiseta com estampa de um panda. Achei a cara dela.

— O que aconteceu? — eu ousei perguntar, com medo de qual fosse sua resposta.

Será que eu fiz mais outra burrada?

Inclinei-me para frente, com bastante dificuldade, para poder me sentar. A dor de cabeça que eu sentia era insuportável, porém, não se comparava com o cansaço do meu corpo.

— Não imaginei que se esqueceria... — ela hesitou, abaixando os olhos, e me deixando ainda mais apavorada. — Foi tão insignificante assim para você, Olívia?

Entreabri a boca enquanto meus olhos se arregalavam, imaginando o pior com aquela sua questão. Oh, medusa, diga-me que isso não é verdade! Qualquer pessoa, menos a Priya! Ela era a minha amiga, caralho! Como eu posso ser tão...!

Engoli nervosamente em seco, tentando controlar o tremor das minhas mãos ao pressioná-las com força no lençol da cama. 

— Priya...? A gente...? Eu e v-você...? Diz para mim que eu não fiz uma coisa dessa!

A garota ergueu os olhos para mim com uma expressão de decepção, e mexeu a boca num jeito entristecido. Ela parecia que ia chorar, mas, aquela sua reação durou o tempo exato para que eu me sentisse mais péssima do que já estava fisicamente, até que, seus lábios se curvaram num sorriso traiçoeiro, e ela se desatou ao risos, inclinando a cabeça para trás para facilitar suas gargalhadas.

— Você acreditou! — ela festejou, ainda aos risos, e eu franzi o cenho sem entender nada.

— Como assim? É mentira?

A garota meneou a cabeça, limpando uma lágrima que escorria por conta da sua risada contagiosa. Peguei um travesseiro e atirei nela, que conseguiu, por pouco, desviar a tempo. Não consegui conter um sorriso. 

— Tem como me deixar mais péssima, sabia? Sua safada! 

Ela piscou para mim e fez um gesto com a cabeça para que eu a seguisse.

— Vamos para a cozinha. Você precisa curar essa ressaca.

Soltei um suspiro longo antes de afastar o cobertor de mim.

— Cadê minhas roupas?

— Você vomitou ela toda.

Rolei os olhos, ponderando no meu nível de bêbada. Só podia ser o mais alto e estúpido.

Desci da cama, tomando um susto com a camisola azul transparente muito... Sensual, que trajava. Eu odiava aquele tipo de vestimenta, mas, não ousei dizer isso para a garota.

— O que eu fiz ontem? — inquiri quando nós nos sentamos na mesa. — Espera. Vou buscar meu celular.

— Deixa que eu vou. Fica aí, tomando vitamina.

— De abacate? Eca! — neguei, fazendo uma careta.

Priya riu.

— Tem café, se preferir. — ela avisou, e me deixou sozinha por um instante para ir buscar meu aparelho. No tempo em que eu despejava o líquido fumegante e preto na xícara de café, e beliscava uns docinhos que havia sobre a mesa, Priya regressou com o meu celular. — Aconselho a não olhar sua caixa de mensagens, principalmente, a do Castiel.

Empalideci. 

Aquele comentário só me fez querer matar minha curiosidade em ver o que diabos eu tinha na minha caixa de texto. Desbloqueei a tela do celular, e encontrei várias mensagens nas notificações, logo, cliquei no aplicativo de mensagens, encontrando por lá, um monte de SMS, tanto recebidos, quanto enviados, de alguns dos meus contatos, e outros de desconhecidos. 

— Eu dei meu número para desconhecidos? 

— Não... — Priya hesitou novamente, coçando a nuca. — Você meio que anunciou seu número no palco da boate.

Dei um tapa na minha própria testa.

Saí excluindo os números que não me eram interessantes, deixando apenas aqueles que eu conhecia. Havia mensagens enviadas até para a Adèle. Minha nossa! O que merda eu fiz?

Cliquei na janela dela para ver o que tinha lhe mandado, e encontrei por lá apenas uma mensagem e uma foto, avisando que eu não voltaria nem tão cedo, provavelmente, a Priya quem deve ter enviado aquilo. E a garota sequer respondeu. Ignorei aquilo, e segui para o próximo. Haviam SMS de quase todos as pessoas do nosso grupo social, e todas elas continham contextos de surpresa e espanto, porém, a maioria já tinham sido lidas.

— Leu minhas mensagens, Pri?

Ela encolheu os ombros, mas, não negou.

— Queria saber porque todo mundo estava me ligando...

— E você descobriu? 

Sua boca se curvou num meio sorriso, para logo depois, ela assentir.

— Você contou para todo mundo sobre mim e a Adèle. Inclusive, a Candice e o Simon estão para chegar, para me dar um apoio. 

— Merda! — bradei, pousando minha cabeça na mesa. — Eles devem odiar a Adèle agora, e ela à mim!

— Ela merece um pouco disso.

Sacudi a cabeça, enquanto mordia o canto da minha bochecha. Eu devo ser a pessoa mais horrível que conheço agora. Inspirei fundo e voltei minha atenção para o meu celular. Por ora, existia dois contatos que me deixou com os pelos da nunca em pé; Castiel e Nathaniel. Lembrando do que esse último fez, decidi clicar na janela do primeiro e... Merda! Haviam inúmeras mensagens.

— Eu mandei isso tudo para o Castiel e ele nem me respondeu? 

— Você também ligou para ele, e ele também não atendeu, porém, isso não te impediu de deixar vários recados. Acho que ele... te bloqueou. — a garota me lançou um olhar de consolo, e eu soltei um breve suspiro fatigante. 

Fui subindo as mensagens para ver tudo do início. A maioria delas era idiotas demais, outras, eram atrevidas. Havia aquelas em que eu o insultava por ele ter ido explanar para o Nathaniel sobre o que fizemos na floresta, como também as que eu estava quase implorando para que ele voltasse. Ver aquelas merdas só me fez querer pular da janela daquele prédio, ou enfiar uma faca no meu peito, de tão vergonhoso e humilhante que eram. Eu devia estar me prestando àquele papel mesmo? Pois, em minha mente, pensei que não.

Abandonei o celular, decidindo comer algo para matar minha fome e recuperar minhas forças, enquanto Priya ia me contando sobre o que diabos eu havia feito na noite anterior.

A garota me contou que eu bebi como uma alcoólatra, e como se não existisse mais o amanhã, antes de ter criado uma crise existencial por ter sido ignorada pelo Castiel. Contou que eu soquei o Kevin, um dos caras metaleiros que estava nos perseguindo desde que entramos na boate, isso porque ele tentou me beijar a força, e depois tentou me fazer beijar a Priya. 

Em seguida, eu subi no palco, peguei a guitarra de um dos integrantes de uma banda que estava tocando por lá, e passei à tocar como uma louca e desequilibrada, no entanto, todo mundo adorou. Ela falou também do quão eufórica e fora de si eu estava, ao ponto de sair abraçando todo mundo que não conhecia dali e, em seguida, veio a parte de eu ligar para o Castiel constantes vezes, até o ponto de ir para as mensagens.

Eu não queria ficar para ouvir o que os meus amigos iriam dizer para a Priya sobre o caso dela com a Adèle, mas, a garota insistiu. Na verdade, ela me obrigou a permanecer ali, e pensando em como a minha melhor amiga estava com essa história, principalmente, em relação à mim, achei que fosse melhor ficar mesmo, por um tempo, no apartamento da tal garota. 

Candice e Simon chegaram antes do almoço, e nos ajudaram a fazer a comida, aliás. Só decidimos conversar após comermos, e arrumarmos tudo. Priya começou contando sobre as raízes da história, e como ela se sentia a cada vez que a Adèle saía com outra garota, enquanto Candice ia fazendo algumas anotações. Quando a própria terminou de falar, esperamos, com ansiedade, a outra garota terminar com sua análise.

— Bem, eu não tenho certeza de nada, mas, vendo toda essa situação, eu vou partir para o caso da Adèle. — ela iniciou, e nós concordamos. — Eu acho que... A Adèle está reprimindo suas emoções. Digamos que, ela está ignorando o que sente, que pode ser um grande vazio incompreensível para os demais, como também à feições que ela tem por alguém. 

Ela pode estar usando as saídas com várias garotas para esquecer alguém que gosta muito, como também pode achar que o amor que ela venha sentir por alguém não é o suficiente para si e para a pessoa. Sabe quando achamos que não merecemos alguém ou vice e versa? Ela pode estar nessa linha. 

Sair com várias garotas em um curto tempo pode ser como uma forma de distração para ela, ou pode ser como uma maneira que ela encontrou para tentar preencher o buraco que ela tem no peito.

Enquanto ouvia aquilo, a imagem do Castiel surgiu na minha mente, que foi apagada quando eu decidi regressar ao caso da Adèle. Eu também possuía um buraco no meu peito, mas, nem por isso eu saía com várias pessoas... Ah, não, Olívia! Não fales uma bobagem dessa sendo que tu não tem noção alguma de como a sua amiga se sente.

— E porque ela não confessa quem é a pessoa que ela gosta? — Priya questionou, incompreendida.

— Acho que ela tem medo de admitir o que sente, ou medo de ser uma perda de tempo sentir isso por alguém, seja lá qual for a pessoa. 

— A Olívia não está errada. — Candice concordou comigo. — A gente precisa compreender também os motivos dela, antes de lhe atirar pedras. E quanto ao caso em si, se ela e você, Priya, fizeram um acordo para o que existir entre vocês não for nada de suma importância, então, acredito que você é quem tenha se dado esperança demais. Eu sei que é trágico não ter seus sentimentos correspondidos, mas, a gente não pode obrigar o outro a gostar de nós. 

— Mas, eu esperava ao menos que ela... sei lá, fosse compreensível. 

— Ela ao menos tentou terminar o que vocês tinham? — foi a vez do Simon se intrometer.

A garota assentiu.

Soltei um suspiro. Estava preste a dizer algo, quando meu celular começou a tocar. Era o Castiel me ligando. Meu coração palpitou. Peguei meu celular com tudo e sumi para o quarto.

— Oi.

Só liguei para responder sua pergunta; foi a Adèle quem contou para o Nath sobre a gente, e eu só confirmei. 

— O quê? 

Ele desligou, em seguida.

Bufei, mais de cansaço do que de irritação. Duas coisas que aprendi na vida era que, ser esnobe era maravilhoso, porque você passava a imagem de quem não dava a mínima para qualquer coisa ou alguém, mesmo sendo uma mentira das grandes, agora, ser esnobada era muito péssimo, ainda mais quando se tratava da pessoa que você se importava. Castiel estava pior do que na época em que o conheci, e era irritante ter que assumir o papel de quem procurava quem.

Naquele dia, eu decidi dar um tempo em perturbá-lo, e esperei que ele me respondesse. Tive que ficar no apartamento da Priya por uma semana, somente até tomar coragem para ver a cara da Adèle, e esse tempo em que fiquei distante, foi o mais duradouro e depressivo, porque eu estava saindo mais para beber, estava mais desanimada, e me sentia sozinha, mesmo com a presença da Priya.

Na faculdade, aliás, estava estressante com a aproximação da apresentação do TCC, e quanto ao nosso grupo, estava mais desunido do que nunca. Todo mundo se encontrava decepcionado com a Adèle, tirando a Candice e... Eu. Embora eu não tivesse esquecido as coisas que ela fez, pude compreendê-la com o passar dos dias. 

Por outro lado, tinha aqueles que estavam surpreendidos pela revelação do Simon; o garoto finalmente se assumiu bissexual, e também, assumiu seu amor platônico pelo Alexy, o que deixou um Morgan muito irritado, a ponto de proibir que os dois se falassem. Portanto, houve alguns à favor, e outros contra, o que gerou uma confusão daquelas, fazendo qcada um ir para um lado.

No final, só sobraram, nós quatro mesmo.

No sábado em que voltei para o meu apartamento, tentei ficar o máximo possível no meu quarto, para evitar de esbarrar com a minha amiga, porém, a noite, foi o período em que ela decidiu trazer uma de suas paqueras para lá, e eu não gostei nada disso, preferindo sair dali antes que surtasse.

Fui até um supermercado mais próximo e comprei uma garrafa pequena de Vodka com os únicos trocados que tinha no bolso. Enquanto tomava dose por dose, decidi ligar para o Castiel, e ele atendeu.

Oi, Olívia. O que você quer?

— Lysandre? Cadê o Castiel? 

Meu irmão suspirou do outro lado da linha.

Ele saiu.

— Para onde? E com quem? — eu quis saber, desconfiada. 

Olívia, eu tenho que desligar agora. A gente se fala depois.

— M-mas...? 

Lysandre desligou sem nem mesmo me dar tempo de terminar a frase. Recolhi os ombros, inconformada, e virei a garrafa de uma vez só, ignorando o gosto horrível daquela bebida. Eu estava cansada daquilo, cansada de ser ignorada. Por que diabos ele não me retornava? O que ele queria que eu fizesse? Fosse até ele? Mas não tinha como fazer isso! Nem se eu pudesse!

As minhas lágrimas vieram como um golpe certeiro e me fizeram transbordar. Tudo estava doendo, tão lento, tão profundo, que era difícil de respirar. Eu me encolhi no banco da praça e abracei minhas pernas com bastante força, enquanto soluçava involuntariamente, num choro que não parecia ter fim.



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