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História Change - Capítulo 15


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Capítulo 15 - Deixa eu te falar


Valquíria sentiu o corpo pesar e uma terrível mistura de sensações. Impotência, desespero,dor, negação da realidade.

Sentou no chão ainda com a carta em mãos e olhou as garrafas que haviam ficado ali. Chorou amargamente e bebeu dois goles da bebida proibida. Queria secar a garrafa e cair desmaiada ali, acordando horas depois e percebendo que tudo não passou de uma mentira.

- Não. Não pode ser. Como eu não vi? Como?

De repente muitos pontos começaram a se ligar na cabeça dela. Lembrou do dia em que o pai voltou mais cedo para casa, e recordou cada segundo daquele fatídico dia.

- Mas, é verdade. Papai jamais iria me deixar casar se soubesse que era ele. Quando ele chegou pegou só ela dentro do escritório. Ele fugiu, ou se escondeu em algum lugar.

Imaginou a tragédia que teria se seguido se o pai tivesse pego Loki naquele dia.

Lembrou de seu marido tinha a perversa mania de julgar todos por seus erros, e de fato ela havia achado estranho que ele não tivesse julgado sua irmã quando Valquíria lhe contou o que ela fez.

Tantas vezes sentiu algo apitando dentro de si e ignorou os sinais, simplesmente por achar absurdo demais.

- Por que ele disse que amava? Eu não pedi pra ele dizer aquilo. Afinal, por que eu estou chorando se ele não me importa?

E dito isto chorou ainda mais.

- Por que mana?

Largou a garrafa e se levantou. Não iria ficar ali chorando o dia inteiro. Não queria nem saber o que ele tinha para lhe dizer. Lavou o rosto, pegou um vestido e foi até a casa dos pais saber o que eles queriam de tão urgente. Sua mente mergulhou de vez no estado de negação.

Loki andava até um lugar distante onde havia combinado de encontrar Edilene. Durante a festa ela lhe fez um sinal para irem conversar na rua e lhe cobrou uma resposta da última carta que lhe mandara. Ele recebeu a carta e guardou no baú, esquecendo de ler. Ela ficou furiosa pois o assunto parecia ser grave, e ele preferiu que se encontrassem fora dali para não levantar suspeitas. De qualquer jeito agora ele saberia o que diziam aquelas linhas.

Avistou-a no fim da rua encolhida e olhando para os lados com medo.

- Demorou.

- O que você quer? É bom que seja algo sério, não somos mais solteiros para ficarmos nos encontrando.

- É algo sério. Por que não leu a carta? Estou desesperada. As pessoas estão começando a notar.

- Notar o que? Como eu ia ler se você me manda algo justamente quando eu me separei da sua irmã e perdemos um filho?

- Ah é, a minha irmã. Chorou tanto pro pai e pra mãe que você traía ela. Idiota como sempre.

Loki respirou fundo.

- Você quer falar da Valquíria?

- Esse filho aqui é seu.

A revelação abrupta fez Loki ficar sem chão.

- Que?

- É isso que diz a carta. Que eu havia feito as contas e esse bebê é seu. Eu preciso de ajuda por que eu casei há três meses e minha barriga está crescendo rápido demais. Quando chegar a hora da criança nascer vai ser muito antes do previsto. Eu estou desesperada.

Loki estava escorado em uma parede, completamente desnorteado.

- O que você está me dizendo?

Ela o puxou pelo colete.

- Não finja que não entendeu! Eu dormi com meu marido antes de casar para que ele pensasse que me violou e tivesse que casar comigo. Só que a criança não é desse dia, é da última vez que nos encontramos. Vai nascer um mês antes do previsto! E grande, saudável. Do tamanho de nove meses. E se ele for pálido e dos olhos verdes como você?

Loki era o deus da trapaça. Sempre foi um grande estrategista e articulador,e agora não sabia o que dizer.

Ele se levantou sem entender direito o que fazia e se virou para ir embora, ao que Edilene o segurou.

- Você está indo embora? E eu? O que eu faço? Foram cinco anos Loki, não finja que nada aconteceu, o que é que eu faço?

Loki se virou aterrorizado e disse com sinceridade como poucas vezes fizera na vida:

- Eu não sei.

E andou de volta para casa anestesiado.

Valquíria chegou na casa dos pais e os questionou sobre o assunto confidencial.

Seus pais sentaram na sala com ela.

- Não vão chamar a Brenna?

- Ainda não filha.

- Por que essa cara pai?

- Valquíria, eu estou doente. Muito doente. Acho que não vou durar até sua irmã fazer 15 anos.

Aquilo era um baque vindo diretamente ao peito de Valquíria, o segundo daquele dia.

- Como assim não vai durar? Você não é uma mercadoria pra durar. Você é uma pessoa.

Sua mãe Interveio.

- Queremos sua ajuda para encontrar um marido para sua irmã. Você estando na família mais importante de Asgard pode encontrar o melhor marido para ela.

Valquíria arrancou a dor de seu peito como se arrancasse uma flecha. O momento exigia uma força que ela não tinha, mas haveria tempo para desabar quando estivesse sozinha.

Seguiu conversando com seus pais com uma naturalidade que os fez estranhar.

Seu pai se retirou e foi trabalhar, ficando só ela e a mãe ali.

- Mãe. Se vocês querem a minha ajuda eu vou ajudar, mas tem que ser do meu jeito.

- Como assim Valquíria?

- Eu vou falar com ela fracamente. E vou explicar pra ela coisas que a senhora devia ter me dito e não disse.

- Valquíria olha lá o que você vai fazer..

- Não é comigo que devia se preocupar mãe. Eu aprendi com surra que levei.

Sua mãe estranhou o tom de voz da filha e seu palavreado, mas depois conversaria com ela. Valquíria subiu até o quarto da irmã e a encontrou abatida.

- Veio falar comigo sobre meu casamento?

- Oi mana. Não vim falar sobre casar, vim falar de um monte de coisas que você tem que saber.

Valquíria não pôde deixar de notar o jeito da irmã falar, defensiva como isso fosse evitar o choque de realidade que levaria, tal qual ela no dia em que o pai a levou até a taberna.

- Brenna, eu vou te fazer uma pergunta e exijo que me diga a verdade.

A menina parou de pentear os cabelos e olhou amedrontada para a irmã.

- Brenna você ainda é virgem?

- Sou mana.

- Você nunca deu um beijo em alguém? Nunca deixou que um homem tocasse em você? Você sabe que toques estou me referindo?

O olhar dela era de dúvida, como se tentasse entender o que estava ouvindo.

- Irmã, daqui quatro dias você faz 13 anos. O seu corpo vai mudar e você não vai mais ter corpo de criança, suas roupas vão mudar, seu jeito, e não adianta querer retardar isso. A largada foi dada e não pode parar. Não tem como voltar atrás. O pai e a mãe querem casar você, e me pediram pra achar um bom marido. Eu vou achar sim, mas não vou deixar você casar sem saber nada como foi comigo.

- Mas mana, eu não quero casar. Eu quero correr, brincar, eu não quero ser adulta ainda. Eu tenho medo só de pensar em ficar pelada na frente de um homem. Eu não sei o que fazer!

Era cômico, há poucos meses ela estava nesta situação, cheia de dúvidas e sem ninguém que a ajudasse, e agora estava ali aconselhando a irmã.

- Bom, primeiro eu quero saber quem são suas amigas. O que elas falam pra você? Alguma delas namora? Do que vocês brincam?

- A gente brinca de boneca, de várias coisas.

- A partir de agora seus modos tem que mudar. Suas roupas agora não vão mais ser delicadinhas,você vai se vestir como uma mulher. O seu corpo vai começar a chamar atenção dos homens e isso pode assustar, mas é normal. Você tem que aprender a se maquiar e vai começar a usar pulseiras, anéis, gargantilhas.

- Mana, posso te perguntar uma coisa?

- Pode.

O rosto da irmã ficou vermelho e Valquíria percebeu o que ela queria saber.

- Como é a noite de núpcias? É bom?

- É horrível. E não pense que eu estou mentindo pra te assustar. É horrível mesmo. Você tem que ficar sem roupa na frente de alguém que mal conhece e o ato em si, além de constrangedor - por que você não sabe o que fazer - é doloroso. Dói demais.

- Mas é sempre ruim? De onde vem aquele sangue?

- Olha, o que você precisa saber é se comportar. Se alguém vier te dizer para namorar escondido ou algum homem te prometer amor e te pedir pra você se entregar não faça! Fique sempre perto do pai e da mãe, converse com suas amigas mas não fique chamando atenção dos homens. Quando um homem quiser formar uma família com você, ele virá atrás. Não caia em histórias de amor proibido por que o fim de mulher descabaçada não é nada bom.

- O que é mulher descabaçada?

- Mulher que não é mais virgem. Eu vou procurar o melhor marido que puder encontrar para você, mas mesmo que eu encontre o melhor homem do mundo, ainda vai haver diferenças entre vocês. No início vocês vão ter que se adaptar um ao outro. Suas personalidades são diferentes e vai haver muitas brigas, mas com o tempo tudo se ajeita. Eu sei que você não está entendendo nada agora, mas logo você estará casada e vai se impressionar com a rapidez com que amadureceu.

Valquíria dizia para a irmã que após um período de ajustes o casamento se ajeitava. Ela só não sabia até onde ia a verdade naquela frase e onde já começava a ironia.

- Você terá um tempo para aprender a se comportar como adulta e se preparar para casar, mas é bom que seja rápido, por que você vai se casar.

Loki chegou em casa ainda sem rumo, mas já conseguindo disfarçar. Subiu para o quarto e não encontrou Valquíria, ao voltar para a sala encontrou sua mãe.

- Mãe, cadê a Valquíria?

- Saiu perto do meio-dia. Foi ver os pais.

Loki agradeceu mentalmente por não encontrar a esposa, pois precisaria de algum tempo para colocar as ideias em ordem e manter a postura firme para que ela não desconfiasse de nada. Abriu o armário e foi direto ao baú.

Ao puxar a porta viu as cartas reviradas e o envelope fechado não estava ali. Os envelopes mais antigos e os mais novos estavam misturados e os cadernos estavam fora de ordem na pilha. Sentiu um medo tão grande que tremeu por dentro, em seguida sentiu um forte calor.

No meio da pilha bagunçada, o envelope fechado agora estava aberto e amassado. Olhou para o chão e viu a garrafa da bebida mais forte com alguns goles a menos.

Não podia ser, era demais para um único dia.

Ensaiou durante horas o que diria quando Valquíria retornasse, mas a apreensão só fazia aumentar e nem sinal dela durante a tarde. Milhares de pensamentos faziam sua cabeça ferver. Lembrava da noite em que ela quis repetir a dose e ele acabou estragando tudo, lembrava da noite que passaram juntos e de como ficara com vergonha de ter manchado o corpo dela. E de repente esses pensamentos felizes davam lugar às brigas e trocas de ofensas entre os dois, ele fazendo a esposa chorar.

Mas agora não era uma simples briga, não era outra das tantas noites fora de casa ou alguma palavra mal colocada. Era um filho com uma mulher que não era ela, e ela havia perdido um filho dele.



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