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História Change Of Time - Capítulo 18


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Notas do Autor


TEM MUSICA, ENTÃO JÁ PREPARA.
Eaeeee, chuchus, PASSAMOS DE 33K DE VIEWS LÁ NO WATTPAD \o/ OBRIGADA A VOCÊ QUE COMPARTILHOU A FIC NO TWITTER OU DEU RT NO FIXADO LÁ NO MEU <3 @sheniasoilho pra quem quem ainda não deu e quer dar essa força.
Particularmente eu adorei esse capítulo. Acho que vocês vão entender o pq. Mas não criem expectations. E como C e L pedem em várias músicas delas: vamos comunicate, vamos falar sobre isso! Então comentem pra eu saber o que estão pensando, chuchus. <3
Temos duas músicas pra esse capitulo que vocês já sabem que tá na playlist da fic no spotfy, no meu perfil AQUI e eu indico quando é pra dar play:
-> White flag – Bishop Briggs
-> Never Say never - The Fray
Se ainda não leu, se liga lá na One que eu fiz e me responde a pergunta sobre ela no final, dá lá sua opinião que eu quero saber! É só ir no meu perfil, se chama Rewrite History. Bom, chega de enrolação. Aproveitem o capítulo e se gostarem, comentem!

Capítulo 18 - Akai Ito


Fanfic / Fanfiction Change Of Time - Capítulo 18 - Akai Ito

Muito conhecida no oriente, a antiga crença chinesa de “Akai Ito” — que, em sua tradução, significa “Fio vermelho do destino”—, revela o poder das forças de atração do universo sobre duas pessoas fadadas uma a outra.

Diz a lenda que os deuses amarram um fio vermelho no tornozelo de dois humanos, invisível aos olhos, tornando-os almas gêmeas um do outro para todo o sempre.

Como exprimem seus célebres versos:

“Um fio invisível conecta os que estão destinados a conhecer-se…

Independentemente do tempo, lugar ou circunstância…

O fio pode esticar ou emaranhar-se,

mas nunca irá partir.”

Como divindade encarregada por colocar o fio nos humanos, tem-se “Yuè Xià Lǎorén”, o antigo deus do casamento e do amor. Acredita-se que ele mora na lua e aparece apenas à luz do luar. Há também quem diga que seu lar é o obscuro, como o submundo de Hades, o deus do reino dos mortos. Mas há quem encontre nisso a sua beleza, afinal, há rios de poesia em ser um deus que faz questão de surgir sob os encantos da lua.

Quanto mais perto uma da outra, mais as almas emaranhadas alcançam o âmago de seu propósito como amantes, o desígnio de um laço marcado pelo destino.

Por outro lado, quanto mais longe estiverem um do outro, quanto maior for esse espaço, maiores serão os sentimentos de amargura, tristeza, aflição e sofrimento.

Para duas moradoras da calorosa Miami não seria diferente, talvez um pouco ainda mais profundo, já que a definição de distância, para os fios do destino, não se resume apenas ao sentido físico da palavra.

Julho de 2014

— Eu me recuso, não vou fazer parte disso, você precisa escolher, Camila: ou um ou outro. — Lauren havia colocado com certa seriedade as opções à escolha dela, recebendo um olhar indeciso.

— Eu não consigo! Vai ficar faltando algo. Por que não posso ficar com os dois? — Estava dividida entre duas alternativas, as quais sempre manteve juntas, mas agora, sob o olhar de uma irredutível Lauren, precisava abrir mão de uma.

— Porque é claramente uma tentativa de suicídio e quem discorda é nazista! Eu não quero que você morra daqui a um ano, está fora de cogitação. Escolhe: ou leite com açúcar ou leite com achocolatado, os dois juntos são uma bomba calórica. Sua mãe sabe que você se envenena desse jeito?

— Você é muito exagerada. Sabe, não sabe? — Recebeu o olhar de indignação da morena, lendo claramente toda a preocupação por sua saúde que ele transmitia através dos verdes que a prendiam tanto. Para a jogadora, com todas as suas dietas em casa devido ao condicionamento físico que precisava, aquela mistura tão comum para uma amante de coisas doces (como Camila) era como uma tentativa de se matar aos poucos. A preocupação com a latina havia se tornado parte de si e, no fundo, Camila adorava aquilo. — Ok, boba. Achocolatado, já que não tenho direito de ter os dois. — escolheu, rolando os olhos e em seguida colocando a língua entre os dentes que formavam um sorriso sapeca, enquanto Lauren negava com a cabeça em desaprovação.

Camila a admirava colocar o leite no copo com cuidado e as colheres de achocolatado milimetricamente medidas. Perdia o olhar entre aquelas mãos girando o líquido e a face concentrada dela, lembrando-se de alguns dias atrás quando tudo o que faziam em seu quarto era dançar.

Naquele instante um arrepio frio a cortou a espinha e fecharia os olhos se não estivesse hipnotizada por olhar o pequeno sorriso de canto que despontava nos lábios carnudos da outra por ter finalmente terminado de fazer a mistura, entregando-a a Camila, incapaz de desviar os olhos daquela boca.

— O que foi? Minha boca tá suja? — questionou Lauren, percebendo que Camila não parava de encarar.

A latina prontamente foi até ela, sem deixar de fixar-se aos dois pedaços de mal caminho que agora se encontravam entreabertos. Com a aproximação repentina e a direção daquele olhar, Lauren parecia se fazer sólida no mesmo lugar, seu coração bombeando cada vez mais forte sem saber qual a intenção de tudo aquilo.

Quase como um movimento excruciantemente vagaroso para Lauren, Camila elevou a mão direita para tocar exatamente o lugar que, em um dia não muito distante, acabou beijando-a por um desencontro de movimentos quando assistiram o pôr do sol no terraço do colégio. O desencontro mais gostoso que já tivera. Foi impossível Lauren não lembrar do mesmo momento.

Finalmente Camila esfregou o polegar ali devagar, enquanto o os outros dedos tocavam delicadamente o rosto e pescoço pálidos dela, causando uma onda de calor que abrangia todas as outras partes de seu corpo.

As engrenagens dentro dela estavam a todo vapor, perdia o controle de suas ações mas o medo de perder a noção do que fazia a freava, a privou da capacidade de raciocinar mas a devolveu as rédeas do controle momentaneamente, impedindo-a de ceder àquele impulso que crescia dentro dela.

— Pronto. — A latina voltou a si rapidamente assim como ao banco no balcão para tomar seu achocolatado que já acumulava o pó no fundo do copo. Suspirou pensando em suas ações, parecia se mover sozinha.

Naquele momento, Lauren agradeceu pelo que quer que fosse que a havia sujado.

O que ela não sabia é que não havia absolutamente nada sujo em sua boca.

Março de 2019

O campo de visão abre e fecha vagarosamente, perdendo o aspecto embaçado ao passo que esfrega levemente olhos cansados e tenta levantar-se, desistindo logo em seguida, tamanha explosão de dor que acontecia dentro de sua cabeça.

Gemeu e resmungou, voltando a apoiar a cabeça no travesseiro estrategicamente posto abaixo dela. Sentiu o cheiro forte de café e então deu-se conta: não estava em casa.

O cobertor que tampava até a metade de sua barriga era confortável mas igualmente desconhecido em relação a tudo naquele quarto. Percorreu os olhos pelo lugar tentando recordar-se de qualquer lampejo de memória antiga, mas não encontrou nada.

Havia uma estante enorme e cheia de livros a frente, uma mesa de escritório ao canto da parede e mais livros em cima dela. A cama de casal estava completamente arrumada no lugar onde não havia dormido, intocada.

— Bom dia, peixinho! — A mulher diz, sentando-se na ponta da cama com duas xícaras com líquido quente na mão.

— Onde eu tô? O que aconteceu? Por que… Por que você tá aqui? — Despejou as perguntas que rondavam sua cabeça com toda aquela dor.

— Não lembra de nada, né? — Lauren confirmou que não, meio envergonhada. — Ao menos lembra quem eu sou? — Questionou inclinando uma das canecas com um líquido quente para ela, dizendo ser um chá que a ajudaria a ficar melhor da ressaca. Se a mulher quisesse fazê-la mal, já teria conseguido, então Lauren aceitou de bom grado. Um pouco mais sã e desperta, confirmou que se recordava de tê-la conhecido brevemente no vôo a caminho de Miami, mas escondeu o fato de ter esquecido seu nome. A mulher suspirou satisfeita com ao menos tê-la marcado de alguma forma, preparando-se para as explicações enquanto Lauren sorvia um pouco do chá. Até que era gostoso. — Ok, caso típico, você bebeu todas ontem, quis dirigir, eu te impedi e te trouxe pra cá porque você disse que não daria seu endereço pra uma estranha, o que te tornaria alguém muito prudente se não fosse o fato de logo depois aceitar ir pra casa dessa mesma estranha. — Despontou um sorriso no rosto, bebericando de sua caneca que continha café.

Lauren emudeceu e só conseguia praguejar-se mentalmente.

— Dia difícil? — perguntou a outra, esticando as sobrancelhas em compadecimento.

A morena esfregou a mão livre no rosto assentindo com a cabeça, a vergonha exposta na coloração avermelhada que suas bochechas brancas ganhavam. — Mais um pra coleção, esse veio com força.

Olhou-a com mais afinco naquele momento, a mulher mantinha uma expressão serena, como quem tem a vida inteira sob controle. Reparou na beleza intrigante da combinação de seu cabelo curto e loiro, que juntamente com a boca e maçãs do rosto ressaltadas, a pintavam um ar angelical, que era logo destruído com seu olhar letal, ainda que exprimisse simpatia.

Tendo em vista o lugar onde ela estava quando foi encontrada, pensou que era quase impossível a loira à sua frente ter estado lá e não gostar de mulheres, ou no mínimo ela não tinha preconceitos, logo, um questionamento latente em Lauren precisava ser sanado e muito provavelmente não seria mal interpretado. — Nós…— Apontou para si e depois para a outra, questionando se haviam tido algum envolvimento sexual, não se lembrava realmente de nada depois de certo ponto da noite.

— Oh, não. — disse. “Infelizmente”, pensou. — Eu não faria nada com você naquele estado. E você também não conseguiria. — Riu dela, forçando Lauren a rir também da própria desgraça ao reparar que o sorriso dela era admirável, tão branco que fazia sua cabeça doer ainda mais só de olhar. Ela tinha sua beleza.

— Nossa, eu tô me sentindo tão mal, não sou assim. Me desculpe, de verdade. Me desculpe por tudo… — Estreitou os olhos e esticou uma sobrancelha, mostrando que não recordava-se do nome da mulher.

— Uau, tivemos uma noite de amor juntas e agora que amanheceu você nem ao menos lembra o meu nome? — Levou a mão em direção ao peito esbanjando indignação.

— Mas você disse que nós não… — Lauren, assustada e envergonhada, mal terminou a frase e foi cortada pela risada da outra.

— Eu só estou brincando com você, peixinho, relaxa. — A jogadora soltou o ar que havia prendido ao ouvir aquilo e sorriu também, bebendo o chá que estava realmente bom. — Pode me chamar de Halsey. — disse. A loira possuía uma presença leve, como alguém que passa autoconfiança.

— Peixinho?

— Ah, é, você não lembra… Assim que viu a mesinha de centro da minha sala, você deitou nela e começou a imitar um peixe, foi no mínimo muito interessante, você juntou as mão acima da cabeça e ficou se tremendo como um peixe que está fora da água dizendo “olha, eu sou um peixinho, eu me afogo no meu próprio mar.”. — contou Halsey, recebendo uma expressão incrédula de Lauren. — Ah, vamos, não se julgue tanto, eu achei até bem poético, inclusive peço permissão pra usar. Daí depois você ficou em pé na mesa, me chamou de algum nome que eu não entendi, “Amis, Emis”, rimava com isso, eu acho, mas sua língua estava enrolada demais pra eu entender, então começou a fazer um strip tease cantando “Man! I Feel Like A Woman” da Shania Twain. E por mais que eu adore essa música e estivesse achando aquilo tudo muito hilário eu não deixei você passar da jaqueta. Então eu te trouxe pra cama e você capotou. Tirei seus sapatos, te cobri e fui pro sofá. Agora estamos aqui. — completou simples, colocando sua caneca ao lado da de Lauren na cabeceira da cama.

A vergonha e o arrependimento não poderiam ser maiores. A morena perdeu a conta de quanto tempo afundou seu rosto nas duas mãos sem saber com que cara olharia para a mulher à sua frente de novo até juntar-se a ela e rir de si mesma.

Ao que parecia, ao menos havia tido algum momento de diversão na noite passada, só queria poder se lembrar. E infelizmente era claro que, por mais que aquele tempinho ali conversando com a mulher estivesse sendo prazeroso, por dentro aquelas centelhas de dor pela noite anterior ainda queimavam, mesmo lento, mesmo mais fracas.

— Olha, eu juro que nunca tinha feito algo assim na vida. Não sobre o peixe… — Coçou atrás da cabeça, embaraçada, vendo halsey esticar um sobrancelha provavelmente pensando nas entrelinhas daquela afirmação.

— Olha, foi a minha primeira vez também. — incitou uma analogia a sexo, brincando com ela. — Foi ótimo ter perdido a virgindade com você. — salpicou, não perdia tempo.

Lauren riu encabulada e ela mudou de assunto para que a tensão se dissipasse.

Passaram mais algum tempo esclarecendo fatos da noite anterior mas como Lauren não queria tomar mais tempo dela do que já havia tomado, fez questão de ir embora logo.

Deixou claro o quanto estava extremamente grata por tudo, não podia definir a sorte que foi encontrar justamente Halsey lá, sabe-se Deus o que poderia ter acontecido se acaso a escritora não aparecesse.

Passou pelo corredor sendo guiada até a sala pela dona do lugar, descobrindo pela segunda vez — já que a primeira não constava em sua memória consciente — aquele cômodo, constatando que o chá, além de gostoso, ajudou realmente na dor de cabeça enquanto tentava se recordar do que aconteceu e ver que não se lembrava de nada.

Halsey apanhou do chão a jaqueta que Lauren havia rodado e jogado num canto da sala, fazendo-a esfregar a mão na testa praguejando-se em seguida.

A dona dos olhos verdes pediu desculpas mais um milhão de vezes e pegou o telefone dela, como uma forma de encontrá-la quando pensasse em algo para compensar, por mais que se recusasse a aceitar, e pediu para que anotasse o seu novamente, já que o havia perdido.

Finalmente a porta se fechou atrás da morena, que pegou as chaves do carro, já virando aquela página e se sentindo melhor para começar a fazer o que precisava em seu dia. Anotou mentalmente muitas coisas que não podia mais se permitir fazer, ainda que isso não fosse garantia de nada.

Halsey ainda estava de pé próxima a sua porta, um sorriso no canto dos lábios e os olhos perdidos em cima da mesa de centro. Na mão o celular agora com o número de Lauren e na cabeça mil e uma ideias de uma história para escrever. Negou com a cabeça ainda sorrindo ao pensar que gostou um tanto demasiado de viver aquela madrugada.

Julho de 2014

O sol novamente persistia em espalhar seus raios desbotados pelos corpos despojadamente vestidos, que corriam de um lado para o outro no pátio da Miami Sun School.

O dia do jogo final da temporada de basquete havia finalmente chegado e todos pareciam estar eletrizados. Dinah conseguiu um lugar de comentarista junto ao aluno do segundo ano, Zain Malik, que vinha narrando todos os jogos do último ano.

Ally e Keana faziam uma votação com o restante do grupo para decidirem quais seriam os pompons usados para a torcida do jogo, que mantinham as opções limitadas às cores do colégio.

Keana virou os olhos disfarçadamente quando Lauren e Camila gritaram juntas em uníssono a mesma cor e começaram uma brincadeira interna depois de risadas. Uma empurrava a outra em implicância e voltavam a sorrir. Dinah e Normani disseram que elas pareciam ser a mesma pessoa, o mesmo que Ally e Troy diziam sobre a loira e a jogadora, e logo em seguida Brad dizia sobre o casal. As risadas correram soltas com o fim da cadeia, fazendo os passantes lançarem olhares curiosos. Era o que o grupo mais fazia a maior parte do tempo junto: rir de tudo.

Brad deixou bem claro que o aniversário de sua “deusa” Lauren seria comemorado em sua casa, quando finalmente ocorreria a tão planejada festa. Parecia que a espera havia aumentado a expectativa nos estômagos das pessoas, a ansiedade borbulhava nos sorrisos enquanto passava pela mente de cada um a cena de como seria uma noite de diversão com os amigos. Quem, no auge de sua adolescência, não gosta de comida, música e bebida de graça? Fora todas as outras vantagens que uma festa tem a oferecer. Se tratando do aniversário da estrela titular Jauregui, a euforia pela reunião se tornava ainda maior.

Não muito tempo depois, o diretor Roger Gold, enfiado em seu terno conservador marrom e usando sua típica gravata vermelha, bateu a porta de seu carro, a cara de poucos amigos já era comum, não haviam sorrisos a quem não lhe interessava, mas algo em seu caminho o interessava: Lauren Jauregui. Passando pelo grupo de amigos da jogadora, rapidamente um sorriso amarelo se formou. Chamou a atenção de todos com a cara fechada, apressando-os para irem à reunião geral que seria no salão principal e ao se dirigir às jogadoras, lá estava o sorriso convenientemente aberto novamente, desejando um ótimo jogo e dizendo que a escola contava com elas naquele dia, para darem seu melhor, terminando com um “vai Miami Sol!” enquanto subia os polegares em sinal positivo. Que patife. Um velho retrógrado e ganancioso que claramente só se importava com o próprio umbigo.

Elas apenas acenaram e sorriram de volta. Foi o suficiente para o estômago de ambas revirar, a diferença era que a negra assumia o nervosismo.

O salão estava quase preenchido com todos os alunos que agradeciam por estarem ali ao invés de terem que aturar qualquer aula chata na qual provavelmente dormiriam. A única fileira com uma sequência ideal de cadeiras consecutivas vazias estava quebrada pelo fato de Louis Tomlinson — um dos garotos mais nerds e presidente do clube de matemática — estar ocupando justamente a cadeira do meio. Dinah se aproximou com uma expressão de poucos amigos que fez o garoto tremer e ajeitar os óculos que caíam na face. Ela não precisou dizer nada ao parar na frente do garoto e colocar as mãos na cintura, levantou uma das sobrancelhas olhando para baixo a fim de encará-lo. Ele, engolido pela sombra dela, encolheu os ombros e olhou para o resto do grupinho, esperando onde aquela cena iria dar. Engoliu em seco entendendo o que ela queria e sorriu sem graça enquanto levantava mais rápido que uma bala indo para um dos bancos vazios do outro lado perto do palco, dizendo que era melhor ele sair dali e deixar que ela e os amigos sentassem juntos.

— Dinah, você é péssima. — Normani disse rindo da situação e acomodando-se em uma das cadeiras, não havia sido maldade, não era nada demais realmente, o garoto se intimidou sozinho.

— O que? Eu só tava tentando lembrar o nome dele pra perguntar se ele podia deixar a gente sentar aqui, mas ele já fez isso sem eu ter o trabalho, que bom. Depois vou agradecer, garoto sensato, eu gosto assim. Será que tenho chance? — respondeu à Normani, sentando também e colando os pés na cadeira da frente.

— Você acabou com qualquer uma ao assustar ele desse jeito. — Normani deu de ombro jogando alguns amendoins na boca acomodando-se a seu lado. Dinah roubou o pacote com o tira gosto fazendo cara de poucos amigos.

Lauren se intrometeu na conversa que já estava escutando desde que sentara do outro lado da loira com Camila a seu lado. — E nem adianta, poste, ele é gay, super apaixonado pelo capitão de futebol.

— Harry Styles? — Dinah questiona, embalada na história.

— É, dizem que eles têm um rolo escondido que, sabemos que não é tão escondido assim. O papo que rola é que o diretor Roger já quase expulsou Louis do colégio por ter pego os dois se beijando no corredor, você sabe como ele é homofóbico. Mas não o fez porque Harry ameaçou parar de jogar e o diretor não queria perder o financiamento esportivo que o jogador traz pra escola, mesmo que o futebol não seja tão visado aqui, ainda assim é dinheiro. Não duvido nada que esse velho esteja roubando essas verbas. — Ally contou o que sabia da história, sempre muito atenta aos detalhes.

— Nossa, a vida do Harry deve ser uma merda. — Lauren comentou, se identificando vagamente com o peso das responsabilidades que o jogador carregava, já que ela trazia para Miami Sol School 70% de toda a verba esportiva arrecadada.

— Faz muito sentido, quando eu chamei o Harry pra festa, ele disse que levaria alguém, talvez seja o Louis. Enfim, todos estão convidados de qualquer forma. — Brad comentou bem humorado, antes do diretor começar o pronunciamento no palco.

O diretor deu início a um discurso entediante segundos depois de fazer os presentes cantarem o hino do colégio, findando o burburinho. Lembrou sobre as regras da escola e expôs sua total desaprovação a quem descumprisse seus preceitos, assim como as cabíveis penalidades em detenção.

— E finalmente, chamo aqui a nossa campeã, do tão renomado nome conhecido por todos, Lauren Jauregui! — chamou-a, afastando-se levemente da tribuna, sorrindo e batendo palmas assim como o restante das pessoas.

A morena sorria como quem tinha o mundo nas mãos, mas Camila conhecia a verdade por trás daquele olhar, ela via seu medo de falhar, de decepcionar a todos, de não corresponder às expectativas. E não era o que aparentava a todos, a jogadora parecia confiante, inabalável e a latina já havia se deixado levar por esse fator uma vez. Até conhecê-la realmente.

Apertou de forma contida sua mão e sorriu, desejava com o olhar toda a calma que Lauren prontamente entendeu e sentiu, como uma compressa morna em dias gelados. Inspirou aquele olhar acalentador e levantou-se, agora com tudo o que precisava para fazer seu pronunciamento.

— Obrigada, galera. Ah, eu não preparei algum discurso… — disse após dar duas batidinhas no microfone limpando a garganta. — Mas, como capitã do time, em nome da família Jauregui, do time de basquete feminino e do treinador Simon, eu gostaria de convidar a todos e estender o convite aos demais da família, os namorados e namoradas, os amigos e amigas para presenciarem hoje mais uma incrível vitória de final de temporada! — Todos gritaram e aplaudiram, refletindo o fato de Lauren ser adorada por todos de graça, sem grande esforço, mesmo que muitos ali só quisessem realmente armar uma algazarra. Camila ficou de pé e assobiou com os amigos, ver Lauren naquela posição a dava um estranho orgulho, uma coisa forte no peito, como uma alegria nova que ia se instalando. — Vai Miami Sol!!

Após alguns informes a mais de Roger, a apresentação das líderes de torcida e o prêmio de matemática entregue à Louis — a contragosto do diretor —, a reunião deu-se por finalizada e todos foram obrigados a voltar às suas atividades escolares.

No final do corredor secundário, o silêncio reinava conforme Camila dava passos desastrados de alguém tipicamente atrasada, até que um burburinho se fez audível ao fundo. Ouvir por trás de portas não era de seu feitio, mas quando viu que se tratava de Verônica, não se impediu de parar por um instante e identificar o que acontecia.

Na própria sala da enfermaria, uma voz masculina altiva ruía em direção à futura enfermeira, enquanto a mesma apenas encolhia-se cada vez mais.

O campo de visão era estreito e não deixava a dançarina ver o homem, mas não era preciso, a voz do inspetor Larry Rudolph era inconfundível. Ele falava sobre não admitir comportamentos “transviados” nas limitações do colégio, essas “condutas desalinhadas” seriam punidas severamente caso ele “as pegasse outra vez”. Foi então que ouviu Lucy intervir e dizer que um abraço não era nenhum tipo de comportamento ilegal. Até então, não sabia que estavam as duas ali.

Finalmente Camila entendeu do que se tratava quando ouviu o inspetor dar um último aviso sobre as duas juntas, irredutível. Se perguntava se havia alguém no quadro de funcionários que salvava aquele lugar. Talvez sua mãe, mas ela não sabia, tendo em vista tudo o que um dia aconteceu... O que sua mãe diria sobre duas pessoas do mesmo sexo juntas?

Correu para afastar-se de lá tanto quanto daqueles pensamentos.

~

— Sabe quem veio com meu pai pro jogo e não é minha mãe? — Lauren andava pelo corredor a caminho do vestiário quando encontrou Camila que passou a ir a seu lado jogando conversa fora. Ao passarem pela máquina de bebidas, a jogadora socou-a novamente para conseguir um refrigerante para a latina.

— Uau, alguém é amigo do seu pai? — zombou, recebendo uma gargalhada gostosa da outra. — Não faço idéia. — O estalo da lata de coca-cola se abrindo concluiu sua resposta.

Lauren pensou ser uma trouxa por achar encantadora a forma como os dedos dela se posicionavam para abrir a bebida. Suspirou escondida.

— O filho do pastor. — Na mesma hora o sorriso da latina desapareceu como pitada de sal em água. — Eu só queria que minha mãe parasse de insistir nisso. — desabafava com desânimo, tentando desenrolar qualquer assunto que não fosse o jogo que aconteceria dali a alguns minutos.

— E ele tem alguma chance ou é como Brad? — questionou Camila, rindo e limpando com a língua uma gota do líquido que escorreu pelo canto da boca. Lauren acompanhou todo o movimento, a resposta já formulada em sua boca sendo reforçada.

— Não mesmo. — Suspirou disfarçando outra vez, os gestos de Camila faziam seu coração pulsar. Não só o coração, definitivamente.

— Então por que está suspirando forte assim? — Perguntou a latina, Lauren sendo pega no pulo.

Pararam de frente, os castanhos inquisitivos nos verdes almejando respostas. Lauren tentava manter a calma, assim como a que pairava no ambiente vazio daquele corredor anterior à entrada dos vestiários.

— P-porque e-eu tô nervosa com o jogo. — gaguejou, recebendo da outra uma expressão compreensiva. — Sabe, medo de falhar.

— Não se preocupe, a cidade inteira só te odiaria por acabar com o record que a sua família traz pra escola há tantos anos. — Camila disse dando de ombros e logo em seguida rindo do revirar de olhos verdes.

— Você sempre me motivando, ein?! — Empurrou de leve o ombro dela em implicância. Camila agarrou seu pulso no movimento e o enlaçou com um fio vermelho.

— Não que eu ache que você precisa mas isso é pra dar sorte. — explicou, depositando um beijo tenro no nó que acabara de dar. Lauren, absorta naquela sensação que a invadia, sorriu devagar e prendeu seus olhos nos castanhos quando eles a requeriam. — Eu sei que você é capaz de vencer elas mesmo com as duas mãos nas costas. Você é capaz de coisas que nem sabe, você pode tudo, Lauren Jauregui.

Algo dentro de Lauren, naquele exato momento, dançando naquelas palavras, algo que a maltratava, uma barreira invisível criada dentro dela, foi quebrado em mil pedaços. Ela sentiu o golpe interno, o estardalhaço e, Camila, olhando dentro de seus olhos, sabia que algo havia mudado.

— Obrigada por isso. — Mais um suspiro. — Reserve um tempo pra mim depois que vencermos o jogo. — Sua voz chegou a ser tão próxima ao ouvido dela que se olhasse para a pele da nuca, veria milhões de arrepios. Mas Camila fez questão de disfarçar.

— Assim que se fala!! Lauren Jauregui marca o ponto da vitória e a torcida vai a loucuraa!! — brincava de imitar o narrador e fazer o grito da torcida com as duas mãos na boca, arrancando risadas da morena à sua frente. A inquietação em seu peito não a largava sequer um segundo. Então, Lauren se inclinou novamente e dessa vez não se conteve em deixar um beijo casto na têmpora dela, voltando rápido o suficiente para ver Camila sorrindo de olhos fechados.

Queria poder beijá-la em outro lugar.

Pareciam duas almas gêmeas, que nunca perderiam a capacidade de elevarem uma a outra em níveis inimagináveis, que tinham o poder e, talvez, quem sabe, a missão de se completar.

Minutos depois, já preparada para a grande partida, Lauren foi chamada pelo pai, para as considerações finais antes de entrar em quadra.

— Tá vendo esse sete aqui? — Mike apontou para o número marcado em seu peito. — O que ele significa?

— Honra, garra e vitória. — respondeu Lauren, o discurso mais que fixado em sua mente, desde que ganhara a primeira camisa do time. Seu pai fazia questão de lembrá-la o significado daquelas palavras a seu próprio modo.

— Isso mesmo, honre o nome da nossa família, jogue com toda a garra que tiver e vença como o astro que você é, lembre-se sempre: — ela virou-se para não olhá-lo nos olhos enquanto dizia junto a ele a mesma frase soberba que a fazia repetir sempre. — “Ninguém brilha mais que o sol”. — Ele puxou o queixo dela para que o olhasse com um pouco mais de força além do normal. — Você é a estrela desse time, Lauren, tem olheiros aí, quero que consiga uma bolsa, você tem o potencial pra isso. A bola é sua, o jogo é seu, o time é seu, a vitória é só sua. Não decepcione. — Largou-a e partiu sem olhar para trás, sentar em seu lugar guardado pelo filho do reverendo.

Lauren começava a suar, um nervoso que partiu tão rápido quanto começou assim que ela mirou o fio vermelho em seu pulso. As palavras de Camila a enchiam de força, a que ela precisava para terminar de amarrar o cadarço e com ele toda sua confiança em si mesma.

Apesar de ainda se abalar pela pressão de Mike, ela tentava manter aquelas imagens positivas na cabeça.

Era tão fácil acreditar em Camila e no que ela dizia. Quase inacreditável.

Lucy a deu um tapa leve no pescoço a chamando para se juntar às meninas, já que ela parecia estar em outro mundo. Um mundo de pele bronzeada, olhos cor de castanha e cabelos ondulados como o mar. Um mundo que habitava seus pensamentos e a ela não pertencia. E ainda assim, tornava seu próprio mundo um lugar melhor.

Ajeitou o fio no pulso e se juntou às demais.

Enquanto o time se preparava, Alessandro esperava encostado na porta de seu carro caríssimo para saber o que a namorada queria lhe dizer, como havia mencionado na mensagem que recebera há poucos segundos.

Assim que sua silhueta juntou-se a dela naquele estacionamento por onde passavam várias pessoas animadas com a partida que começaria em poucos minutos, foi possível perceber de longe que aquela não estava sendo uma conversa extremamente amigável.

— É sempre a mesma coisa, já é a terceira vez na semana, Camila.

— Teríamos um tempo juntos hoje se você ficasse pra assistir o jogo.

— Sabe que a aula de agora eu não posso perder, a próxima sim, mas não vai dar de novo, né. Poxa, eu vou pra longe por meses, nem parece que você vai sentir minha falta.

— É claro que vou, eu nem queria que você fosse se não se tratasse do que você sempre quis, eu sei que é um sonho seu esse intercâmbio, não fale como se eu não me importasse.

— É o que tá parecendo e quer saber? Vai assistir seu jogo, depois conversamos. — Abriu a porta do carro com a velocidade que refletia toda sua irritação.

Camila suspirou revirando os olhos, não queria e não iria pensar naquilo aquele dia, era a noite de Lauren, depois se resolveriam e tudo voltaria ao normal. Ao menos foi o que ela pensou quando pontuou aquilo em sua cabeça com total tranquilidade.

As jogadoras fizeram uma fila indiana dando início a caminhada para a quadra, as gargantas em uníssono respondendo — ao comando da capitã Jauregui — as perguntas motivacionais de uma espécie de ritual de grito de guerra sobre a vitória e quem elas eram.

O som estridente do tênis arrastando em quadra era completamente abafado pelos amantes do esporte que se espremiam nas arquibancadas lotadas. E também pelo som da voz de Zayn que saía da caixa de som e percorria cada canto do lugar. Dinah, em seu papel de comentarista, fazia realmente comentários sobre a noite, sobre o jogo, mas ao modo dela, é claro.

— Que bunda enorme a jogadora Kordei está nos apresentando hoje nesse uniforme, senhores! Sensacional. — Dinah soltou mais um de seus comentários, fazendo a platéia rir e Normani jogar a bunda em sua direção rapidamente. Zayn corou no mesmo instante que Dinah aproveitou para dizer ao garoto “só não ganha da Camila”. Ele precisou concordar.

Não era a primeira vez que Lucy participava de uma final, mas era a primeiríssima vez que sua avó e seu irmão estavam juntos, ali, no meio de toda aquela multidão, olhando somente para ela. Lucy sentiu o calor acalentador daquele carinho que os dois emanavam em sua direção apenas com o olhar.

Não se sabia que mudanças estavam acontecendo no universo, mas desde que Keana havia entrado em sua vida, de alguma forma mágica as coisas começaram a melhorar. Sua avó havia apresentado melhora, Arthur não se sentia mais tão só, suas notas haviam melhorado, estava conseguindo controlar a raiva que todo o trauma de ter perdido os pais a causou e, por mais incrível que fosse até para si mesma, suas passagens pela detenção eram poucas e nenhuma por “exatamente” mau comportamento. E por fim, estava em trégua com sua arqui inimiga de anos, nunca em vida pensou que pudesse deixar a raiva de lado.

Existem pessoas que chegam e, apesar de não ficarem, nos ajudam a consertar coisas imprescindíveis na vida. Olhou para Keana que estava pulando com seus pompons e sorriu, ela sabia o quanto devia a ela e a líder de torcida sorriu de volta, como quem deixa claro o quanto, no fim, elas não se deviam nada, o quanto tudo estava bem e o que não estava iria ficar. Direcionou sua cabeça para sua família e dessa vez Verônica estava lá, segurando o pequeno Arthur, o que a fez abrir um sorriso imenso e as portas para que uma lágrima solitária escorresse. Tratou de limpá-la rapidamente, não gostava de demonstrar fraquezas.

Apesar de todos os pesares, sua família estava completa. E todas as etapas para chegar àquele momento foram necessárias.

Finalmente a última jogadora das Miami Sol entrou em quadra fazendo grande parte da plateia se levantar e aplaudir, rendendo a Dinah mais um comentário animado.

— Finalmente a mulher de quem todos gostariam de arrancar um pedaço! Vai ficar em falta folhas A4 nas lojas de Miami depois desse jogo! — A voz da loira sai pelas caixas de som e inunda o lugar com risadas. Lauren a olha e estende os dois dedos do meio, colocando a língua para fora.

Mas não havia mentido, todos estavam eufóricos apenas com a presença dela: amigos com cartazes, parentes, fãs desconhecidos e até olheiros.

Olheiros. As pessoas a quem Mike fazia questão que Lauren impressionasse estavam lá, à espreita, prontos para agarrarem sua jogadora mais talentosa e enviá-la direto para a universidade, com uma bolsa integral e a chance de representar o time universitário.

Lauren observou a plateia dando uma corrida de preparação pela quadra após receber o “arrasa” das meninas da torcida, piscando para Keana como era de praxe. Vasculhou todos os cantos, viu seu pai com o filho do pastor ao lado, viu seus amigos mais a esquerda e quase se deixou cair em tristeza. Porém, sim, ela estava lá.

Camila chegava alucinada, seu coração demonstrando que havia corrido quase mais do que podia suportar, seus olhos encontrando Troy que havia guardado seu lugar ao lado dele e Brad, mas logo procurando um par de orbes verdes que a haviam acabado de achar.

E ambos os olhos se estreitaram, dando lugar às marcas faciais de dois sorrisos largos, sorrisos que conversavam, sorrisos que se reconheciam quando Lauren esticou seu pulso e apontou para o fio vermelho.

As Sol se reuniram para as últimas considerações de Simon, estavam preparadas, unidas, mais fortes que nunca, principalmente por poderem contar com o “trio maravilha”, como eram chamadas Normani, Lucy e Lauren pelos corredores. Eram a equipe imbatível.

Quem seria o outro time? As Tigers, antiga rivalidade num jogo de amor e ódio, Lauren entendia isso muito bem. Mas não importava, porque elas eram as Miami Sol e, independente de qualquer coisa, não entravam em quadra para perder.

— E é dado o apito da partida pelo árbitro, Kordei garante a bola para as Sol, e Lauren Jauregui já arrisca uma cesta de três pontos. E ela maaarca!! Já começamos pegando fogo. — Zayn narrava com perfeição fazendo voz típica de narrador.

— Se esse juiz é dado eu não sei, mas eu queria dar… Meu telefone pra ele. — Dinah solta e o árbitro se distrai por alguns segundos ficando completamente vermelho. Zayn já está arrependido de tê-la convidado.

Camila comemorava gritando e batendo palmas a cada cesta de Lauren, seus olhos brilhavam vendo a desenvoltura dela e a pele branca ficando vermelha pelo esforço ou pelos empurrões que recebia. “Trágico e sexy.”, ela pensou, mas logo sacudiu a cabeça afastando os pensamentos.

Quem a conhecesse agora e visse aquela Camila do primeiro jogo, diria que não eram a mesma pessoa. O fato não era que ela gostava mais do jogo em si, apesar de isso também ser uma verdade. Mas não era isso.

E de certa forma, ela sabia.

— Cesta fenomenaaal das Tigers!!! Se protejam porque as felinas do basquete estão soltas, pessoal! — A voz do narrador soava e todos vibravam, uns em comemoração, já outros, em desapontamento.

— Mas essas “gatinhas” vão queimar no nosso sol. Pega fogo, cabaré! — Dinah comentava gritando emocionada e Zayn já havia desistido de tentar explicar que a comentarista precisava ser tão imparcial quanto ele. Era claramente impossível.

As únicas pessoas que não deixavam sequer transparecer uma expressão eram os olheiros e Mike, apreensivo com a dificuldade que a filha estava enfrentando. Seus olhos corriam soltos, vira e mexe, para os olheiros em suas anotações e expressões vazias em meio a uma massa de pessoas exaltadas.

— Nossa, essa garota marcando a Lauren não dá um descanso. — Camila comentou com Troy parando para comemorar outra cesta das Sol, as deixando empatadas novamente com as Tigers.

— É Zendaya, dizem que é apaixonada pela Lauren, mas pelo visto: paixões, paixões, jogos à parte. — Troy contou o que ficou sabendo por Ally, certa vez.

— Apaixonada? — Acabou perguntando mais para si mesma, os gritos de comemoração de todos abafaram sua voz e disfarçaram sua reação. Interrogativa e negativa demais. Seu coração gelou por milésimos de segundos sem sua permissão.

— Vamos, vamos, vocês vão me matar do coração! — Simon gritava, atento ao jogo, tentando dar força ao seu time. Ele via o quanto estava difícil, já haviam testado três estratégias e a terceira foi a que mais deu certo, ainda que não estivessem conseguindo uma vantagem significativa. O jogo seguia empatando e desempatando em seguida, sempre com as Tigers na frente, o que já dava indícios de qual seria o resultado final se continuassem no mesmo curso.

Brad gritava com a boca cheia de cachorro quente e levantava a mão pro ar reclamando da falta injusta marcada nas suas amigas.

Mike acompanhava tudo sem mudar um milímetro de sua expressão séria, havia esquecido tudo e todos, para ele só existiam os olheiros e o desempenho de Lauren, que não estava nada bom. A cada vez que ela o olhava, propositalmente ou não, ele deixava claro como água a repreensão e a pressão em seus olhos. Diferente do que ele queria, isso desmoronava o desempenho dela, sem nem sentir. A cada jogada ela ia perdendo o ritmo e se perdendo ainda mais. Não estava jogando mal, ainda era a melhor do time, mas nem de longe estava sendo seu melhor.

Havia chegado a hora de marcar o último ponto, o desempate, o gran finale, precisava estar alerta, se não havia conquistado sua bolsa até agora, essa seria sua última chance.

— Vocês estão sentindo o mesmo que eu? Faltando apenas cinco segundos para a tentativa de ponto da vitória, os dois times têm grandes chances de levar para casa o título vencedor de toda a temporada.

— Eu acompanho os jogos desde sempre e preciso dizer, a gente nunca teve um jogo tão emocionante, tô ansiosa pelo desfecho disso. — Dinah fez o primeiro comentário julgado como “decente” por Zayn, que começou a pensar ter sido uma boa ideia chamar a loira. — Então Normani mata elas com a bunda! — Gritou a última parte voltando a seu estado normal fazendo Zayn bater com a mão na testa. Durou tão pouco.

O treinador, que tirava o boné e passava um pano já úmido para secar a testa a cada minuto, pediu um tempo para armar a última jogada e conversar com o time mais uma vez.

— E então vocês passam pra Lauren e ela encesta. Começa e termina com ela, entenderam? — Ele dizia as últimas palavras com o time reunido em um círculo de forma que a informação não saísse dali. As meninas assentiram e uniram suas mãos no meio do círculo, gritando seu bordão em uníssono “Vai, vai, Miami Sol!” e voltando a quadra.

As luzes fortes que saíam dos holofotes pareciam eletrizar o corpo de Lauren enquanto se posicionava para o início daqueles últimos segundos. Suas pernas cansadas e sentidos que foram se esvaziando com o passar da partida a denunciavam que não seria o suficiente.

Parou em frente a Zendaya, que brincava com seu sorriso safado e convencido ao mesmo tempo, certa de que, se não podia ter o coração da capitã Jauregui, ao menos o jogo ela ganharia.

Play White flag – Bishop Briggs

As meninas da torcida faziam sua dança ensaiada e mandavam vibrações positivas, mas Lauren nem ao menos as ouvia. Começou a pensar em tudo que teria que aguentar ao perder aquela partida, os esporros de seu pai, o desapontamento do treinador, dos amigos e da cidade inteira. A chance de uma bolsa para a faculdade passando depressa por seus olhos e indo direto para Zendaya.

Olhou em volta, tantas pessoas para desapontar, a fazia não ver mais sentido em tentar. Viu os olhos atentos de Arthur e a avó de Lucy na plateia, olhou para a garota que estava à sua esquerda uns passos mais atrás e recebeu o polegar dela estendido passando confiança, desejou que aquela trégua nunca se perdesse, mesmo que pensasse que o jogo estivesse perdido.

Seguida da garota à sua frente, ela se abaixou e posicionou sua mão no joelho, quando sentiu um pedaço de algo sendo esmagado em sua pele: o pedaço de fio que sobrou e ficou pendurado no nó que Camila lhe deu.

No mesmo instante, Lauren olhou para Camila na platéia, que tinha uma das mãos entrelaçada para cima com Troy, torcendo por ela. A olhava diretamente, a latina abaixou sua cabeça em confirmação e Lauren se lembrou daquelas palavras.

“Eu sei que você é capaz de vencer elas mesmo com as duas mãos nas costas. Você é capaz de coisas que nem sabe, você pode tudo, Lauren Jauregui.”

Oh, won't wave my white flag, no

This time I won't let go

I'd rather die

Than give up the fight

(Oh, não vou balançar minha bandeira branca, não

Desta vez eu não vou deixar ir

Eu prefiro morrer

Do que desistir da luta)

Seu peito se elevou e desceu em um suspiro de força. Sorriu para ela naquele mesmo momento, conseguiu escutar a plateia gritando seu nome, olhou os cartazes com seu número e uma estrela ao lado. Todos contavam com ela porque podiam contar, não havia o que temer. Ela era uma estrela, como o Sol. Como Dinah mencionara em seu descontrole: Ela faria aquela quadra queimar.

Don't you know I ain't afraid to shed a little blood

Smoke, fire, flares are going up, flares are going up

(Você não sabe que eu não tenho medo de derramar um pouco de sangue

Fumaça, fogo, chamas estão subindo, chamas estão subindo)

Quando voltou a encarar Zendaya segundos antes de ser reiniciado o jogo, a rival lhe mandou um beijo provocativo com os lábios mas logo torceu as sobrancelhas. A expressão de Lauren havia mudado, seus olhos já estavam distintos, escuros, transbordavam confiança e poder. Ainda havia alguém intimidada ali, mas não se chamava Jauregui e não levava o número sete no peito.

Eram apenas cinco segundos. Os segundos decisivos. E ela não desistiria de ir até o fim.

Cinco.

A jogada foi feita como planejado e Lauren correu para receber a bola e encestar.

Quatro.

Normani atravessou duas jogadoras das Tigers com seu fenomenal crossover, fazendo uma delas escorregar sozinha.

Três.

A bola foi lançada para Lauren com um passe de ombro atrapalhado.

Dois.

Lauren recebeu a bola perfeitamente, as mãos sentindo a textura do material, pronta para seu arremesso, não havia marcação.

Estava a ponto de lançar a bola em direção a cesta quando viu Arthur e Maria, abraçados e com os dedos cruzados na arquibancada. Se distraiu tempo suficiente para que Zendaya chegasse em sua frente. Não seria um grande problema, mas em alguns flashes que não duraram milésimos de segundos, a história de Lucy passou por sua cabeça, de como seus pais morreram com ferragens atravessadas pelo peito, da promessa que ela havia feito a sua avó de entrar para a faculdade e dar um futuro decente a ela e ao irmão, pensou em como ela se revoltou pela morte dos pais e ainda assim era a que mais merecia aquela bolsa de estudos.

Talvez os olheiros precisassem enxergar Lucy.

Sentiu o chão embaixo de si lhe dar forças, como se a terra pudesse lhe enviar cargas elétricas de consentimento e incentivo. Seu interior gritava que isso era o melhor a ser feito quando, com um passe de peito rápido, a posse da bola já estava nas mãos de Lucy.

Um.

Lucy engoliu em seco mal dando tempo para que todos pudessem expressar seu olhar surpreso. No final o que realmente ficava era a esperança e foi ela que tamborilou no coração de cada um ali durante aquele segundo que pareceu uma eternidade.

Uma gota solitária de suor escorria vagarosamente do cabelo de Lucy caindo por sua sobrancelha enquanto a bola lançada de suas mãos rolava pelo ar.

Tudo parecia estar em câmera lenta, os sons pareceram sumir, a bola cor de barro molhado detinha a atenção de todos.

As sobrancelhas de esticavam em ansiedade e a expectativa era enorme, com a cesta cada vez mais perto daquela esfera de ar, todos prendiam sua respiração.

Nenhum ruído sequer havia no ambiente quando aquele “frenk” gostoso da bola em contato rápido com a parte de dentro da rede da cesta foi a única coisa a ser escutada.

Zero.

O grande relógio mostrou o fim do jogo.

E, de repente, os gritos voltaram. Massivos, atrapalhados, uns em cima dos outros. Todos aplaudiam de pé, gritavam, assopravam apitos, até que passaram a invadir a quadra.

Lauren correu e agarrou Lucy pelas pernas, a levantando, ainda mantinha a expressão desacreditada quando foi colocada no chão e a camisa sete levantou as mãos para bater com as dela.

De repente ambas estavam sendo levantadas pela equipe e parte da torcida, juntamente com Normani, que teve papel fundamental durante todo o jogo. Eram um mar de gente e elas três acima de tudo como o Sol.

O treinador gritava com tudo o que tinha acabando de perder a voz por completo, se sentia extasiado e orgulhoso, aquele momento era o ápice de tudo pelo que ele batalhava dia após dia.

— Ganhooou!!! Ganhooou!! Vitória da Miami Sooool! Exaaatamente no úuultimo segundo, meus amigos, que jogada incrível!! Lucy marcou o ponto da vitória. Inacreditável o que acabamos de presen… — Zyan tentava narrar com emoção contida quando foi cortado por Dinah que roubou seu microfone, mesmo já tendo um.

— É MIAMI SOL NELAS, PORRA!!! AAAAH!! GANHAMOS! PUTA QUE PARIU! — Dinah gritou e logo correu para a quadra, queria pular e jogar as amigas para o alto também.

Zendaya e as outras jogadoras já saíam de quadra para darem espaço às campeãs.

Brad, Troy e Keana jogavam as meninas para o alto enquanto Ally nem se atrevia porque sabia que poderia ser pisoteada, preferiu ficar ao lado de Camila.

Lauren, do alto, olhou para a arquibancada e viu ali o pontapé inicial daquela virada de jogo: a pessoa mais incrível que já conheceu na vida, a garota que a dava inspiração para viver. Sorriu e concordou quando Camila disse em gestos que a esperaria lá fora.

Mais ao lado viu seu pai, que só estava esperando que ela virasse para si. Ela esperou qualquer parabenização pela vitória, que não veio. Ele simplesmente negou com a cabeça e saiu de lá. Ela sabia o porquê, mas o motivo dela era bem maior.

Ela virou o rosto para onde estavam Maria e Arthur, chorando copiosamente de emoção junto com Verônica por tanto orgulho de Lucy. Aquilo ali era quase melhor que a vitória. Finalmente voltou-se para a jogadora que olhava sua família e chorava também. A mais nova jogadora encarou Lauren de volta e agradeceu com um gesto de cabeça, os olhos vermelhos e um sorriso sutil. Lauren retribuiu o gesto da mesma forma e sabia que depois daquela noite gloriosa, havia adicionado várias coisas à sua lista do Naikan.

E a noite mal havia começado.

Fim da música.

Já não havia mais quase ninguém na quadra, Lauren saía com seus cabelos úmidos do vestiário, exalando seu perfume pós banho, a pele dela cheirava a essência de baunilha por si só.

Zendaya, que estava encostada em um dos cantos do portão da quadra, descruzou seus pés e ajeitou sua coluna enquanto conversava com Camila e seus olhos notavam a campeã se aproximando.

— Se conhecem de onde? — Lauren não se conteve em deixar escapar. Quando viu, já havia perguntado. Rápido demais. Intenso demais. Droga, ela precisava disfarçar melhor. Sua sorte é que havia sido ignorada.

— Olha só se não é a ganhadora não só da partida, mas também do meu… Ah, deixa pra lá, não vou finalizar essa piada. — Olhou rapidamente para a latina que não tirava os olhos de Lauren e sorriu de canto. — Parabéns pela vitória, foi muito legal o que você fez no fim. Eu não conhecia esse seu lado humilde, Jauregui. — disse, se privando do tom galanteador de sempre, usando a deixa da despedida e virando-se para ir embora.

— Eu fiz tudo o que eu podia, mas não deu pra finalizar, você foi muito rápida. — Mentiu, fazendo a garota travar sua caminhada e virar-se para um último comentário.

— Ambas sabemos que eu não teria chegado a tempo. Não sei o porquê não quis fazer aquela cesta, mas se foi por algum motivo nobre, eu admiro você ainda mais. Qualquer coisa sabe onde eu estou. — Piscou para ela e virou-se para a outra. — Tchau, Camilinha, até uma outra vez.

Camila não conseguiu entender direito sobre o que elas falavam no fim daquele assunto mas achou melhor não se meter, ainda era custoso para lembrar que cestas não podiam ser chamadas de gols. Se absteve a apenas acenar e olhar para Lauren, que nesse momento dava um autógrafo a uma menina.

— Uau, tá famosa! — brincou, vendo a garotinha ir embora e que a jogadora não sorria.

— “Camilinha”? Vocês já se conheciam? — Lauren franziu as sobrancelhas mas logo tentou disfarçar suavizando a expressão.

— Sim, claro, tem uns 3 minutos. — Camila ri e Lauren permanece séria. — Você está cheirosa.

Pronto, bastou aquilo para desmontar qualquer armadura que havia feito tanto esforço para colocar. Sem reação, sua respiração acelerou seu coração quando Camila entrelaçou sua mão na dela.

— E então o que queria fazer de tão especial agora que ganharam o jogo? — A dançarina questionou, olhando com ansiedade o rosto que parecia de porcelana se iluminar.

Nos desejos pré-programados de Lauren, apenas queria passar um tempo com ela, comemorar ou chorar caso perdessem. Encontrava em Camila seu ponto de paz e agora, ela também era responsável por aquela energia que agitava os ossos de Lauren e contraía seus músculos para fazer aquilo. Ela acreditava que seria capaz de fazer tudo, exatamente como a latina havia lhe mostrado.

— Me acompanha a um lugar? — Apertou suas mãos como se pudesse passar um pouco daquela eletricidade que sentia. Não precisou de resposta para guiá-la até o que queria finalmente voltar a fazer.

Mal rodou o relógio quando aquela paisagem tão íntima delas surgiu à frente, após uma caminhada gostosa, onde Lauren se gabava para irritar Camila que a empurrava rolando os olhos e voltando a sorrir.

Aquela noite, em contrário a seus estados de humor, estava calma e aconchegante, a Lua parecia bordar raios por todo o céu, como um sorriso que podia iluminar a vida, a noite e qualquer escuridão. Elas não seriam capaz de ver naquele instante e naquele lugar do planeta, mas sabiam que por trás de todo aquele esplendor, havia o Sol, iluminando e namorando a grande esfera brilhante. O amor deles às iluminava.

Lauren enxergava a poesia em cada mínimo detalhe da noite e de Camila, tudo graças a ela. Com esse fato e seu coração ainda saltando pela boca por terem chegado correndo no último minuto, ela parou para descansar apoiada em seus joelhos quando Camila pulou em suas costas em uma falsa implicância por não tê-la esperado.

A brisa flutuava o cheiro da maresia acariciando os pulmões de ambas, que não paravam de suspirar desde o momento prestes a encostar os pés, definitivamente, na areia.

— Então era isso que você queria? Ver a praia? — Falava entrecortado, recuperando o fôlego como podia já descendo das costas da jogadora.

— Desde que você e eu estivemos aqui as últimas vezes, eu ainda estava com medo do mar. — Camila assentiu, lembrando de ter respeitado o fato de todas as últimas vezes nas quais Lauren não quis chegar muito perto da água. Pediu que prosseguisse, a vendo elevar o pulso com a pulseira vermelha improvisada. — E hoje, quando olhei pra esse negócio que você me deu, eu lembrei das suas palavras e do quanto eu acredito em você, do quanto você me faz acreditar em mim. Percebi que eu sou capaz de fazer tudo, aquilo que eu realmente quero, independente do que acham, mesmo quando eu mesma acho que não consigo, Camz. Se eu consegui me sair bem no último momento do jogo foi por sua causa. — Olhava diretamente nos olhos dela, prendendo os orbem pardos agora brilhantes de emoção.

Talvez não conseguisse colocar metade das intenções do que ela representava em sua vida em simples palavras. Certamente sabia que teriam perdio o jogo, que estaria um caos agora se não fosse por ela.

Camila suspirou, pela noite, pela beleza dela e por tudo que acabara de ouvir. Não estava emocionada só pelo crédito que lhe foi dado, aquela banalidade não mexia com seu interior, mas o que Lauren havia conquistado a fez sentir-se a pessoa mais abençoada do universo. — Não foi eu, foi tudo só você, você que con-

— Shiu! Não terminei! — Cortou-a, rindo do tapa no ombro que levou em seguida e do biquinho que despontou nos lábios de Camila. — Eu quero que corra comigo outra vez, aqui, igual aquele dia no qual você me apresentou nosso lugar secreto. Graças a você, não estou mais como medo do mar, Camila, sinto que posso tudo, de verdade. Então, agora quero que seja perto das ondas, quero me sentir livre com isso outra vez e quero que seja do seu lado. Pode fazer isso comigo? — Pegou em seu queixo levemente, num carinho sutil e fulgaz, impensado, que causou uma gostosa onda de calor interna.

— Posso fazer o que quiser com você, campeã. — brincou em tom irônico, aceitando e entrelaçando sua mão a dela, sem desviar seus olhares um milímetro sequer.

A verdade por trás daquelas palavras escondia os segredos disfarçados do que sua boca dizia. Camila era a primeira a dizer que Lauren não precisava temer nada, que o medo era desnecessário, que não era relevante. Mas a verdade era dura e doía: ela era cheia de medos. Medo de quem ela estava se tornando, medo do que estava sentindo, medo do desconhecido e de tudo o que ela queria tanto conhecer. Mas o maior medo de todos era o de perder tudo aquilo. Ela não queria a jogadora longe de si, ela não queria afastar seus medos se isso fosse afastar também o alvo de seus desejos. Ela não queria que Lauren a deixasse sem sua presença na vida dela. Então ela consumia tudo o que podia daquilo enquanto era capaz de ignorar seus receios.

Começaram a arrancar os calçados atrapalhadas e permitiram que a euforia os espalhasse pela areia deixando o cuidado de encontrá-los depois, no esquecimento.

Finalmente tocaram os pés na areia macia, que preenchia os espaços entre os dedos, trazendo aquela sensação tão acolhedora à memória.

Dizem que o destino é dono de si mesmo. Que mesmo para os descrentes, ele está sempre lá, armando suas arapucas e brincando de deus. Há quem diga que o destino é o próprio Deus, ou vice-versa.

Independentemente do que fosse, naquela noite, aquelas duas meninas correndo na praia, banhadas pela fusão do amor entre o Sol e a Lua — como acreditavam —, estavam sendo exatamente quem queriam ser e estavam exatamente onde queriam estar.

Lauren olhou uma vez mais para sua mão entrelaçada à de Camila quando o resto de onda tocou seus pés até o calcanhar, fluindo de volta para o mar, apenas para ter certeza de que não estava sozinha.

E mais: era ela ali. Não como queria ter, mas como lhe apetecia. O que ela não sabia era que enquanto corria, o coração de Camila batia frenético dentro do peito e, nem de longe, a culpa seria apenas do esforço físico.

As ondas molhavam seus pés e levavam todas as cargas que não lhes pertenciam. Os sorrisos se multiplicavam e não precisavam de convite ou aviso, vinham assim, do nada, mas de forma alguma inconvenientes.

Elas ora andavam e ora corriam, chutando a água que fazia respingar para todos os lados as onda que vinham e iam. Pareciam duas crianças e, no fundo, suas crianças interiores brincavam ali, juntas.

Estavam lado a lado quando a falta de ar as obrigou a se acalmarem. Em um rompante, Lauren chutou a água em direção ao rosto de Camila sem a intenção, fazendo-a fechar os olhos e a cara junto. A jogadora entrou em estado de alerta e não precisou uma palavra de Camila ser dita para saber que precisava correr.

A perna direita de Lauren atingiu o primeiro passo ao mesmo tempo que a esquerda de Camila a seu lado.

Elas poderiam ter corrido cem metros, talvez mais, talvez um pouco menos. Quem poderia saber? Mas o destino, o mar, o céu, os astros ou o que quer que fosse, não deixaram aquilo passar de três míseros passos.

A onda que atingiu os pés de ambas no terceiro passo lado a lado, era incomum. Ainda que tivessem se afastado um pouco do mar, essa onda alcançou uma parte da areia ainda seca, realmente muito incomum. Mas o mais interessante era o presente do destino que ela trazia: um fio vermelho com duas ponteiras velhas e quebradas.

O fio se prendeu no tornozelo de Lauren quando a outra ponta já havia acabado de emaranhar-se no tornozelo de Camila.

Sem poder se segurar, o corpo da jogadora, travado repentinamente, desequilibrou-se e quase conseguiria recuperar-se se Camila também não tivesse seu pé travado, fazendo-a cair por cima da jogadora com tudo. O corpo de Lauren atingiu os resquícios de areia molhada, mas quase sem dor, a não ser pelo momento no qual, no embolar da situação, a fez soltar uma lufada de ar por ter seu peito pressionado pelas mãos espalmadas da dançarina.

A duas passaram a mirar seus pés e enxergar o que era aquilo.

Um cadarço vermelho.

Play Never Say never - The Fray

Após rirem brevemente da situação, os dentes desapareceram nas faces agora difíceis de ler. O rosto de Camila estava deitado sobre o peito de Lauren quando a jogadora começou a contrair seus músculos, não mais pela temperatura daquela areia, mas por ter a garota culpada por sua insanidade ali, com o corpo completamente sobre o seu.

Respirar ficava cada vez mais insustentável.

Quando, enfim, os rostos de ambas se encararam, dando partida ao entendimento de onde e como estavam, um olhar estava refém do outro.

Some things we don't talk about

Rather do without

And just hold the smile

(Há algumas coisas sobre as quais não falamos

Melhor continuarmos sem

E simplesmente segurar o sorriso)

Camila se apoiava no braço esquerdo, seu rosto acima do dela, que levava aqueles verdes tão intensos a fazendo esquecer que havia uma imensidão azul de água ali. Qual mar seria maior que uma galáxia inteira?

A sua pulsação quebraria qualquer medidor, Lauren sentiu que seu peito poderia machucar o dela com seus batimentos.

A apenas uma inspiração de distância, a jogadora estremeceu pendendo seus olhos para baixo, para aqueles lábios rosados que, entreabertos, soltavam o ar quase com fúria sobre os seus. Estava hipnotizada.

Picture you're the queen of everything

Under your command

I will be your guardian

(Imagine que você é a rainha de tudo

Sob seu comando

Eu serei o seu guardião)

Era uma tortura tê-la tão perto e tão distante ao mesmo tempo. Pulsava-lhe ardentemente a ideia de tomá-la para si.

Mas sabia que precisava levantar-se, não queria se arrepender de nada, não queria perder Camila, não queria acabar com a melhor coisa que tinha. Seria como viver em ar rarefeito.

Inclinou-se para frente fazendo menção de quem se levantaria.

E ela se levantaria, mas a mão de Camila segurou rapidamente seu rosto, a fazendo voltar devagar com o corpo para a areia, para onde podia ser contemplada e sentida por ela. Era uma súplica gestual subentendida que implorava para que ela não a deixasse. A encarava e sentia cada vez mais a respiração acelerar pelas veias e o coração disparado.

A interrogação que surgiu em Lauren logo dissipou-se pelo olhar fulminante da latina que se inclinava em sua direção cada vez mais. Seu coração parou por dois segundos e voltou mais forte e rápido que nunca, ele estava em pânico.

Arfava, suava e tremia enquanto seus desejos se exprimiam em sua face, em uma expressão de quase dor, tamanha luta interna.

When all is crumbling

I'll steady your hand

(Quando tudo estiver desmoronando

Vou segurar firme a sua mão)

Camila aliviou a pressão inicial que fez com os dedos, derramando um carinho leve sobre seu rosto, sentindo cada fração de toque, vendo Lauren fechar os olhos para senti-los também. Não havia jeito algum de explicar o quão palpável estavam seus sentimentos.

Seus arrepios na espinha eram como um aval de que não havia escapatória, não haviam saídas ou pontos de fuga, havia chegado ao fim do labirinto e todos os caminhos a levavam até ali, até ela. Como uma rainha, ela mandava ordens quietas de submissão apenas com o olhar.

Don't let me go

Don't let me go

(Não me deixe ir

Não me deixe ir)

Não pôde conter seus estímulos, seus nervos e seu coração gritando e impulsionando-a a se aproximar cada milímetro mais dos lábios carnudos a sua frente, seu corpo se inclinava sozinho, devagar, tanto quanto sua capacidade de mover-se a permitia.

Engoliu em seco uma última vez com dificuldade, seu hálito já se encontrando para dançar com o dela no vento, seus olhos varrendo as distâncias entre os verdes e a boca abaixo de si, alternadamente e rápido, como batia seu coração.

Ela não aguentava mais, cerrando as pálpebras, sentia que estava perto, muito perto. Não pensava, não via nada, era como se desde que nascesse, apenas existisse para aquele momento.

Rendeu-se explodindo na sensação mais arrebatadora que já sentiu em toda a vida quando pressionou seus lábios nos dela com gentileza. Não sabia que cabiam tantas borboletas dentro de alguém, dentro de si.

Ainda sem profundidade, apertou com delicadeza aquela maciez um pouco mais, como se tentasse reduzir o espaço entre elas, como se fosse capaz de fundir-se àquela sensação, a ela.

Era tão diferente, tão macia. Tão… gostosa.

Lauren, em resposta, apertou-a contra si pela cintura, segurando-a como se nunca pudesse escapar. E ela não deixaria mesmo, ela não a deixaria escapar nunca, conseguia mostrar isso apenas com a pressão que seus braços faziam ao redor dela, tomando-a como se pudesse possuí-la e tomá-la em um só gole.

Estava confinada naquela prisão.

E, céus, ela faria conhecer o inferno quem se atrevesse a libertá-la.

As sobrancelhas se tornavam pedintes, assim como sua pele que esquentava ao ponto de evaporar os respingos d’água, precisava de mais quando entreabriu a boca na dela a procura de sua língua. Aprofundou o beijo mergulhando-se nela cada vez mais, vasculhando cada recinto do prazer que estorcegava todo seu corpo, descobrindo um misto de sensações que nunca achou ser capaz de sentir em um beijo.

Seus lábios vacilavam um no outro, sorvendo o sabor que encerrava todas as pendências. As línguas se resvalando devagar, dando total passagem a gemidos contidos e inaudíveis.

Por vezes elas se esgueiravam na ilusão de que não havia nada no mundo além delas. Iam se entregando a seus instintos mais febris, as bocas que já pareciam se conhecer, tomando consciência de sua dependência mútua e reivindicando seu lugar em seu resvalo.

Tinham o encaixe, o ritmo, a melodia e a sincronia perfeita, capaz até de chegar a assustar. Suas almas não se fundiam, elas eram a própria fusão de almas.

A sensação era como mil estrelas explodindo dentro de seu peito. “Então é assim, o encontro, a felicidade do Sol e da Lua.”, sentiu Lauren.

Extremamente nítido cada centelha interna, como um motor entrando em combustão, gelando os membros débeis e fracos, o peito que ardia em calafrio, em desejo, em ânsia e gritava pelos poros pedindo por mais.

Qualquer espectador externo diria que eram apenas duas jovens apaixonadas se beijando na praia, mas havia muito mais por trás. Porque é impressionante como o destino age de formas tão heterogêneas e igualmente astutas. Um dia, num passado não tão distante, ela não sabe, mas aquele cadarço pertencia a Camila. Se ele não tivesse sido arrancado de seu tênis por uma brincadeira de Dinah, se ela não o tivesse jogado para fora da janela do carro, se ele não tivesse sido encontrado por duas crianças que brincavam ali, se elas não o tivessem jogado ao alto, ele não teria batido no olho machucado de Lauren, ela não o teria jogado de volta na rua, exatamente no lugar onde acabaria, por outros milhões de pequenos e grandes fatores, na água do mar, exatamente naquele dia, precisamente naquele instante. O fio do destino havia traçado seu curso, havia emaranhado-se nos dois caminhos que, naquele momento, eram finalmente um só.

Era incontrolável o desvendar de seus desejos, não havia espaço para o temor que existia e era real. Tal fator, tão desprezível naquele momento, fora deixado em segundo plano. Todas as lacunas de espaço eram preenchidas pelo despimento de seus corações, arrevezados por um fio invisível, incapaz de se romper.

E agora, não havia mais escapatória — se é que algum dia ela existiu — não havia passo atrás, elas estavam exatamente onde deveriam estar. Elas eram a própria lenda de Akai Ito.


Notas Finais


Eaí, gente, como foi o cap? ALLYLUIA que rolou esse beijo!! Nem eu aguentava mais. Kkk Me diz o que vc achoooou. Eu não sei se vocês gostaram desse beijo, eu acho que fui ruinzinha, mas foi tudo que deu pra fazer, é a primeira vez que escrevo um beijo. Então vou melhorar, amém? Amém. Até o próximo \o/
Tt e ig: @sheniasoilho


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