1. Spirit Fanfics >
  2. Change Of Time >
  3. Know Nothing

História Change Of Time - Capítulo 21


Escrita por:


Notas do Autor


AAAAAAAAA, voltei super rápido, né? Obrigada pelos mais de 52.5K (lá no wattpad) de leituras, vocês são incríveis, geniais, maravilhosos, blindados, donos da poha toda que é meu coração!!!

E segue a playlist da fic no spotify, fiz essa MERDA com capinha e descrição a toa não VAI LÁ SEGUE E VAREETAAAA as músicas tudo lá o///

-> Temos três songs pra esse capítulo:

- Wicked For Days - Spells and Curses

- Friends - Ed Sheeran

- Feeling you - Harrison Storm

Capítulo 21 - Know Nothing


Fanfic / Fanfiction Change Of Time - Capítulo 21 - Know Nothing

Por vezes, o paradoxo socrático “só sei que nada sei” — e suas diversas formas em diferentes traduções — é citado por falantes leigos que talvez se contradigam no momento do ato pelo simples fato de carregarem a ignorância sobre o valor semântico por trás do mesmo.

Segundo relatado por Platão — seu discípulo —, o filósofo Sócrates, ao encontrar-se em meio à questão “Quem é o homem mais sábio da Grécia?”, por fim “presenteou” a humanidade com a tão famigerada citação.

A lógica componente consiste em que admitir a imprecisão do saber, já denota mais sabedoria do que aquele que pressupõe ter ciência do desconhecido. Se você não finge ter o conhecimento sobre certa coisa e admite não saber este algo que de fato não sabe, você já está certo, sobre esse ponto, ao menos.

Para que se possa evoluir é necessário aceitar o fato de que há mais para se aprender. Ser um tantinho mais sábio, engloba, primeiramente, reconhecer a dimensão da própria ignorância.

Julho de 2014

— O que houve, Lauren? Está me assustando. — Na realidade Camila já estava assustada desde o momento no qual atendeu aquela ligação e ouviu a voz esbaforida de Lauren pedindo por ajuda.

— Não fala com ninguém, vai pro seu quintal dos fundos, eu to chegando. — Desligou e Camila não teve tempo de contestar.

A latina mal chegou ao seu quintal e Lauren estava caindo do alto de sua cerca, acabara de pular e a proteção de madeira não era tão baixa assim. Enquanto gemia no chão, sendo mirada por olhos arregalados perdidos em focos chamativos, ela esfregava a parte do braço que recebeu todo o peso de seu corpo na queda.

— Uma ajudinha aqui, por favor? — pediu, estendendo a mão, irritada porque Camila parecia só saber ficar parada no meio do gramado.

— O que aconteceu?? Por que… O que houve com seu rosto?

A cara de espanto de Camila piorou e se transformou em uma de raiva após Lauren explicar rapidamente o que havia acontecido. Contou da briga costumeira com o pai que só a deixou ir até sua casa se fosse treinar até que desse o horário correspondente. Contou como chegou à quadra perto da praia porque não queria ver a cara dele e como não treinou um segundo sequer já que no primeiro momento no qual chegou lá, encontrou com Vero e Lucy.

Sentadas no banquinho da praça — Vero sentada à frente de Lucy e encostada em seu peito — aproveitavam o tempo que tinham antes que Verônica tivesse que ir para a faculdade. Por alguns segundos, Lauren as observou e sorriu acenando, estava feliz por elas, e ao mesmo tempo queria tanto que aquilo acontecesse em sua vida também. Sabia que seria uma ilusão, mas não podia controlar ver-se assim, com Camila, algum dia.

Mas o sorriso bobo das três, que se cumprimentavam, logo se desfez quando um homem mal encarado se aproximou e começou a provocá-las com comentários homofóbicos. Lauren já não era a pessoa mais passiva do mundo para muitas coisas, mas seus nervos ferviam de imediato com situações como aquela. O homem começou a gritar e xingá-las, chegando cada vez mais perto com um comportamento agressivo, até que empurrou Lucy pelo ombro, chamando sua atenção e fazendo Verônica quase cair.

Lucy e Lauren se entreolharam antes da namorada gentilmente — porém de forma rápida — desencostar Vero de seu peito e se juntar a Lauren que já havia dado e tomado um soco do homem. Como dizia a avó da jogadora, “ele pode ser grande, mas não é dois.”.

Lauren explicou cada detalhe de como o homem apenas correu ao aparecerem policiais que faziam a ronda por ali e irem para delegacia prestar queixa. Lauren precisou acompanhá-las, foi um processo demorado e por isso chegou ofegante e atrasada. Camila, com um misto de sensações, a levou escondida para o andar dos quartos a fim de cuidar de seus machucados. Esse era o pedido de ajuda.

— Ai, CAMILA! Isso dói!

— Fica quieta! — rebateu irritada enquanto passava maquiagem sobre a marca roxa em seu olho. — Não doeria se você não se metesse em brigas. — Lauren resmungou algo baixo. — O que você tá reclamando aí? Tá errada, sabe-se lá o que podia ter acontecido com você, Lauren. Precisa se controlar, vocês são muito inconsequentes.

— Queria que eu tivesse deixado? A gente ganhou, ok? No fim ele era só um bêbado homofóbico.

— Queria que você se importasse um pouquinho só com você e saísse de lá, procurasse ajuda, não sei, mas qualquer coisa é melhor do que pensar que você é a mulher maravilha.

— Eu não podia ver ele fazendo isso e não fazer nada, ok? Eu não sou essa pessoa.

— Só não quero que você se machuque, se acontece algo com você eu… — Suspirou afastando o pior de sua cabeça. — Eu nem sei o que faria. — Soltou o ar que prendia.

Lauren, que vinha recebendo provas e constatações há dias do descaso de Camila com ela, de certa forma entendia toda aquela preocupação, mas queria ao menos algum indício de que poderia haver algo mais. — Por que se importa tanto, Camila? — Olhou diretamente em seus olhos, em uma real indagação, enquanto a latina os capturou e travou a mão que levava a maquiagem, à metade do caminho de seu rosto.

— Porque… Porque somos amigas, não? É o que os amigos fazem. — Suspirou e passou a espalhador com força na pele dela, tamanho nervoso que sentia.

— Ai!

— Viu, fica quieta, Simon já deve estar aí e eu ainda não terminei.

— Se ele vir isso talvez me deixe fora até da próxima temporada, que é a mais importante pra garantir uma bolsa e nem pensar isso pode acontecer. — assumiu temerosa.

— Então se prepara pra jogar, “Cristiana Ronalda”, porque parece que não aconteceu nada com você. — Camila a admirou, satisfeita com seu trabalho para esconder aquelas marcas.

Lauren olhou no espelho após ignorar seu comentário e aquilo estava ainda melhor do que quando Keana o fazia, Camila parecia boa em tudo o que colocava as mãos, mesmo que fosse atrapalhada. Lembrou-se da pequena em relação a esportes e adotou que o certo seria dizer em “quase tudo” o que fazia, rindo internamente.

— Obrigada, eu… Estou até bonita. — Alargou um sorriso agora de frente para ela, o coração um pouco mais rápido devido a proximidade.

Camila negou com a cabeça e chegou ainda mais perto para admirar o resultado de suas habilidades com a maquiagem, colocando uma mão na linha do maxilar dela, acariciando a fina camada de maquiagem. — Você é linda. — Sorriu genuinamente enfatizando o verbo. A verdade saindo por sua boca como em tão poucas vezes.

— Acha mesmo? — balbuciou Lauren, estavam perto o suficiente para que ela não conseguisse emitir sons conexos.

Não que Camila realmente estivesse em plena capacidade de conseguir entender perfeitamente alguma coisa àquela altura, mas quando questionada, apenas sentiu a porta ser aberta em um solavanco, cuidando para afastar-se rapidamente da jogadora.

— Camila, você não vai… — Sinu disse e deixou a frase morrer no meio do caminho, notando uma áurea diferente no quarto. Surpresa, simplesmente continuou. — Lauren, eu não sabia que havia chegado.

— Eu tive que vir rápido ao banheiro, cheguei agora. — Sorriu indo abraçá-la, enquanto Camila apenas coçava a cabeça e olhava em outra direção pensando no que poderia ter acontecido caso sua mãe não chegasse.

As três acabaram por descer, Camila passou esquivando-se do olhar suspeito de Sinu que não comentou nada.

Março de 2019

— É claro que não existem só flores. Às vezes podemos julgar não sabermos de nada. Mas até isso tem sua vantagem, tem seu lado bom, admitir não saber algo é uma atitude sábia. Para aprendermos e evoluirmos, precisamos admitir, inclusive o que não sabemos e encontrar esse caminho de equilíbrio. Por mais que você se sinta assim, perdida em um mar de espinhos, você precisa encontrar a flor em meio a eles.

Ela ouvia seu terapeuta enquanto o entregava a folha de papel que ele a pediu, claro, com toda a atenção, tinha que fazer seu dinheiro valer a pena. Queria respostas rápidas mas cada vez mais parecia que as coisas corriam como tartarugas em esteiras elétricas.

— Hm, dessa vez você fez um sorriso. — Ela assentiu à constatação óbvia do terapeuta sobre seu desenho. — Por que?

— Eu a vi outro dia e… Ela estava rindo. Eu tinha quase me esquecido como era a risada dela. E agora, parece que eu nunca vou esquecer. — Ele a olhou por cima dos óculos óculos com expressão de paisagem e esperou que ela continuasse. — Eu fiz o exercício, eu coloquei no papel, eu externei e ainda assim não foi embora, nem um pouquinho. Aqui, agora, eu não preciso nem fechar os olhos pra ouvi-la de novo e de novo. Acho que não está funcionando.

— Você sente que não está funcionando?

— Eu não estou tendo uma recaída, não sinto o mesmo por ela, ok? — Respondeu perdendo ligeiramente o controle e erroneamente sentindo-se atacada.

— Eu não disse isso. Perguntei sobre as tarefas. Você acha que as tarefas não estão funcionando? — repetiu calmo, toda a paciência do mundo emanava dele, Camila tinha certeza.

Suspirou. — É… Acho que a linha de tratamento TCC* não está funcionando comigo, talvez eu devesse procurar um psicólogo com outra abordagem como a Freudiana, igual você já sugeriu.

— Mencionei, apenas. — corrigiu-a sutilmente. — Mas sim, talvez. Não por causa do insucesso de uma única tarefa, mas porque não julgo inválida qualquer outra linha de tratamento psicológico. Cada um tem suas subjetividades, Camila. O que você pensa sobre isso? — explicou-se e questionou, dando ênfase no “você”, queria saber a opinião dela sobre.

— Não sei. Só sei que minha cabeça está atordoada, tenho milhões de tarefas no estúdio e ainda sou obrigada a decidir um tema para um evento social do qual eu nem sou responsável mas todos acham que podem me delegar funções no meu trabalho. — disse embolando um assunto no outro, pegando a bolsa a seu lado e fechando o ziper.

— Já falamos sobre isso mas podemos falar mais se você quiser. — Ele levantou-se, já sabia que aqueles sinais dela diziam que iria embora e nada poderia impedi-la. — Só isso? Só o seu trabalho é sua queixa de agora? — Perguntou-a, com a cara que ela odiava, parecia tirar dela aquilo que nem ele mesmo sabia que estava fazendo.

— Eu não me sinto mais da mesma forma sobre ela. Passou, eu só não gosto de sentir nostalgias. — Quis deixar claro, olhava o tapete felpudo sob seus pés no chão. — E mais nada. É só isso que sei. — Sorriu amarelo rapidamente caminhando em direção à porta e já deixando aquela sala para trás.

Julho de 2014

Já era a sétima vez que Lauren pegava no celular e ria respondendo uma mensagem de texto. Camila sabia porque havia contado e rolado os olhos em cada uma delas enquanto Simon e Sinu, sentados à sua frente na mesa, engataram em uma conversa animada como se não houvesse amanhã.

Haviam acabado de jantar, estavam curtindo o início da digestão, cada um, a seu modo. Camila esticou os olhos para a esquerda, finalmente enxergando o nome “Sarinha” no celular de Lauren e os milhões de emojis de risada na mensagem. Bufou, com um sentimento contraditório ao que aquele risinho de Lauren sempre a deu.

— Oh, eu esqueci, querido, vou prepará-las agora. — Sinu respondeu quando Simon mencionou sobre as caipirinhas que Sinu havia falado tanto ao telefone antes do jantar.

— Eu vou! — Camila respondeu, levantando-se de supetão, carregando mais sentimentos raivosos do que poderia, qualquer coisa para não explodir o que não poderia em cima de Lauren, da mãe e de Simon.

Enquanto se levantava, Lauren a observou com o canto do olho e deu um meio sorriso, travando o celular e o colocando de volta no bolso, suas suspeitas estavam se confirmando. Voltando seu olhar ao casal apaixonado, percebeu que era estranho ver o treinador daquela forma, mas ela entendia perfeitamente o que acontecia com ele. Só não era obrigada a ficar ali de vela para dois pais que pareciam ter rejuvenescido vinte anos e, que agora se levantavam e começavam a dançar como dois adolescentes excitados.

Não queria ficar ali, estava sobrando, porém ainda não sabia em que pé estavam as considerações de Camila sobre a situação delas. De qualquer forma, havia instalada uma espécie de trégua, não? Ao menos foi disso que se convenceu a partir do momento que levantou sem ser notada e já estava ali, encostada no portal que dava para a cozinha, olhando Camila de costas para si, muito concentrada em parecer assassinar frutas.

Play Wicked For Days - Spells and Curses

Seu coração batia audivelmente contra os braços cruzados no peito. A língua molhou os lábios carnudos observando o pecado personificado que era Camila. Mas distraiu-se logo em seguida, rindo, enquanto a outra parecia querer descontar toda sua raiva no preparo da bebida.

Mesmo tão perto, haviam obstáculos invisíveis entre elas ali, Lauren sabia e conseguia enxergar com o coração cada um deles. Camila fez questão de erguer um por um com rapidez demasiada, sabia também.

Mas uma consequência de construções feitas às pressas, sem alicerce, é que elas ficam frágeis, débeis e podem ruir facilmente.

E Lauren tinha vantagens: sempre foi uma atleta, havia entrado em um briga mais cedo e pulado um uma cerca consideravelmente alta. O que seriam mais alguns muros para pular aquele dia?

— O que o pobre limão fez pra você? — Camila apenas parou de esmagar com ódio enquanto resmungava, pareceu assustar-se, mas não virou em um só momento. Logo, não viu que Lauren se aproximava consideravelmente por trás, até que a voz soou por trás de seu ouvido esquerdo. — Não sabe fazer caipirinha, não é?

— Eu estou fazendo, não estou? Volta pras suas mensagens tão divertidas. — debochou sem nem medir as palavras. Lauren a ignorou, soltou um riso mudo vendo uma Camila teimosa estragar mais um limão. Deu mais um passo à frente, já sentindo o cheiro gostoso do cabelo dela, inspirando sem fazer qualquer som, achando que Camila não havia notado sua proximidade.

— Se continuar assassinando o limão assim, vai ficar amargo. — A voz rouca saía da boca que agora estava praticamente a pé de sua orelha. Camila deu um pequeno pulo, suspirou devagar, cada pequeno músculo de seu corpo havia tencionado e desmanchado ao som rouco daquela voz. O hálito quente vibrando nas partículas de ar e batendo em sua nuca era uma tortura para sua sanidade mental.

E ali estavam, seus muros carecidos de alicerces, precariamente erguidos, num idôneo e previsível desmoronamento.

But who am I to scream?

I'd bow at the altar that brought you to me

(Mas quem sou eu para gritar?

Eu me curvaria no altar que trouxe você para mim)

Ao ver que ela não diria nada ou sequer moveria sua mão direita com o macerador, encostou o corpo atrás do dela, quase pressionando-o contra o balcão.

If you'd let me stay, I would

And surrender to you despite signs from fate that say:

(Se você me deixasse ficar, eu ficaria

E me renderia a você, apesar dos sinais do destino que dizem:)

Levou sua mão esquerda de encontro a dela e a apertou com leveza por cima do copo, ao mesmo tempo que com a direita levava sua outra mão de encontro ao copo. Suas mãos agora eram as dela, movendo com delicadeza a fim de ensinar o que ela mostrava tanta dificuldade em fazer.

She's been wicked for days

Playing all her wicked little games

(Que ela tem sido perversa por dias

Fazendo todos esses joguinhos perversos)

— Você precisa aplicar a pressão certa. — A voz da jogadora saía quase falha, como um sussurro, já que todas as suas forças estavam concentradas em não deixar-se cair. Tentava explicá-la a pressão que deveria usar contra o limão enquanto a que sentia em seu interior parecia mais que certa. Começou a esmagar o limão suavemente com as mãos dela abaixo das suas, só o suficiente para não deixar a bebida amarga demais. Seus braços, por consequência também de aninhavam, com os pelos eriçados de Camila agora esmagados pela pele branca. — Viu? Você precisa pressionar e girar com a pressão correta. — Continuava a ensiná-la baixinho, o queixo quase apoiado entre a curva do pescoço e os ombros, para que pudesse enxergar o que fazia.

I'm not afraid of love

ever since I lost in a sense

So just make me believe

That our relationship runs off more than denial

(Eu não estou com medo do amor

desde que eu me perdi, de certa forma

Então apenas me faça acreditar

Que nosso relacionamento ultrapassa a negação)

Camila mentiria se dissesse que sabia o que se passava fora de si, já que havia fechado os olhos, arrebentando todas as suas forças para não demonstrar que ofegava. E ofegaria vergonhosamente, assim como seu interior.

I hear the voice of my defeat

You map it out with the stars that nourish me

I give in to the craze

So willingly, to spite my own face

(Eu ouço a voz da minha derrota

Você a mapeia com as estrelas que me nutrem

Eu me entrego à loucura

Tão voluntariamente, contrariando a mim mesma)

Tudo parecia em câmera lenta: as mãos quentes dela guiando as suas com firmeza e delicadeza invejáveis, suas costas sendo perfeitamente preenchidas pelo corpo dela devido aos movimentos em uma luta constante por autocontrole, a rouquidão alucinante penetrando seus ouvidos e derretendo seus sentidos um a um.

But she weaves all things together

She is the earth after all

She breathes moonbeams and ember

She's the rise of the fall

(Mas ela ornamenta todas as coisas juntas

Ela é a terra depois de tudo

Ela respira raios de Lua e brasa

Ela é a ascensão da queda)

Suas pernas não responderiam, tinha certeza. Estava perdida e, como num sonho, não sabia como havia chegado àquele ponto, ou como sair de um labirinto que parecia ter sido feito para ela. Ela não sabia de mais nada.

She's been wicked for days

And I know it, I know it, I know...

(Ela tem sido perversa por dias

E eu sei disso, eu sei disso, eu sei...)

— Lauren… — suplicou num sussurrar, engolindo em seco, a expressão contraída devido a força que fazia para suportar não virar-se e cometer mais um futuro arrependimento.

A mais velha, ao ouvir seu nome em uma súplica, quase foi capaz de sentir a dor por trás daquela voz, ainda que fosse delicioso saborear seu nome nos lábios dela. Mas aquilo não era o tom ou a maneira correta.

Naquele exato momento, um pensamento cortou a mente de Lauren, um que a fazia simplesmente cogitar não ter nascido. Será que Camila se sentia desconfortável por algum tipo de repulsa a ela agora? Será que estava sendo invasiva e inconveniente? Será que Camila se sentia dividida entre a relação de amizade delas e uma repulsão?

Fazia sentido. Ela pediu distância, não queria que a olhasse ou tocasse. Será que estava enojada?

Foi soltando, contra todas as suas vontades, suas mãos e desprendendo seus corpos, bem devagar, era a maior velocidade que conseguia, tentando não acreditar em nenhuma daquelas infernais indagações e jogando-as para longe, ainda que uma pulga atrás da orelha tivesse ficado no subconsciente, instalando uma pequena tristeza em seu interior.

Já na metade do caminho, afastou-se de vez rapidamente quando ouviu a voz grossa às interrompendo.

— Meninas, onde voc-... — Simon parou sua fala constrangido com a tensão que flagrou naquele balcão.

<Fim da música.>

— Agora é só por gelo e a cachaça. — Lauren disse depressa, tentando disfarçar. Camila apenas estendeu a mão depressa para pegar o gelo, deixando algumas pedras caírem sobre o balcão de tanto que tremia. Ambas ainda tentavam controlar o peito subindo e descendo acelerado.

— Eu… — Pigarreou. — Vocês não deviam mexer com álcool, vão pra sala ajudar Sinu, deixem que eu faço isso. — Se o treinador parecia constrangido, elas estavam muito mais.

Não precisaram de qualquer insistência, precisavam era dissipar aquela áurea e o fizeram. Seus olhos não se encontraram diretamente nos próximos minutos enquanto Lauren ia ajudar Sinu com o vaso que haviam quebrado sem querer e Camila fora direto para o banheiro.

Ao final, tudo parecia ter corrido sem nenhuma tragédia. Todos pareciam ignorar qualquer tipo de evento que pudesse ter causado algum constrangimento.

Simon bateu as mãos no bolso se certificando que a chave do conversível estava ali. Se despediu das meninas com um humor totalmente diferente do treinador impaciente e turrão. Ele havia se mostrado uma manteiga derretida, da qual a fonte de calor fora uma latina cozinheira de mão cheia que havia conquistado seu coração. Lauren o entendia bem de certo modo.

Ofereceu carona para Lauren, mas devido a necessidade de maquiar-se antes de sair pela manhã, achou mais viável aceitar o convite de Sinu para dormir lá, claro, escondendo suas intenções. A matriarca se encarregou de convencer Clara — que inacreditavelmente estava em casa — a deixar que a filha ficasse na casa das Cabello.

Sinu deixou as meninas no quarto e disse para terem juízo, depositando um beijo na cabeça de cada uma e olhando uma última vez antes de sair completamente. Elas se olharam rapidamente, Sinu nunca havia falado aquilo, em nenhuma das vezes que Lauren dormira lá. Deram de ombros no fim.

Lauren olhava para baixo, ajeitando a barra da blusa emprestada de Camila, que exalava aquele cheiro tão gostoso dela. Se controlou em não levar o tecido até o nariz, mas como uma recompensa do universo, aquele cheiro inebriante invadiu com força o quarto quando Camila entrou após tomar banho.

Deu-se alguns segundos de apreciação, desviando seu olhar dela o máximo que podia. Quando o silêncio se tornou desconfortável, juntou toda sua falta de jeito com a situação e tentou melhorar o ambiente.

— Obrigada por não se importar, Keana poderia me maquiar, mas Lucy não quer que ela saiba. — Deu de ombros.

— Tudo bem, sem problemas. Amanhã já vai estar melhor e você vai poder inventar uma desculpa pro dia seguinte. — Sorriu fraco enquanto retirava o edredom que cobria a cama, explicitando o fato de que Lauren só dormiria ali aquele dia.

A morena estendeu uma manta em cima do tapete, o tecido mal havia encostado no chão depois de voar com o movimento dos braços dela quando sua atenção foi chamada.

— O que está fazendo? — Camila a olhou, era uma pergunta da qual sabia a resposta.

— Meu cantinho pra dormir. Tem outro travesseiro aí?

— Não quer dormir na cama? — indagou Camila, olhando-a diretamente como se seu olhar pudesse falar e pedir para que ela não respondesse com sonsice.

— Não, claro que não, você tá na sua casa, não tem nada a ver você dormir no chão. — sorriu amarelo se fazendo de desentendida com os verdes presos ao chão.

— Você sabe o que quero dizer, Lauren.

E então a morena a encarou, deixando um pequeno silêncio passear entre seus olhares.

Camila continuou intrépida. — Comigo na cama. — Lauren pronunciou um “achei que” que logo foi cortado pela latina. — Não é como se nunca tivéssemos feito isso antes. Tem espaço pras duas, você sabe. — Referiu-se a todas as outras vezes que ela havia dormido lá, compartilhando o mesmo espaço que Camila. E a latina, de alguma forma, estava revelando que ao menos naquilo, seu pedido de distanciamento encontrava uma trégua, não queria ver Lauren dormindo no chão, não havia necessidade de ninguém dormindo no chão. Ao menos era isso o que pensava.

Lauren ponderou um pouco. Não sabia mesmo o que era aquela onda de aberturas sendo dadas para si, mas não queria recusar. E não seria nada demais, nada diferente do que já haviam feito todas as vezes que Lauren dormiu lá. Ainda que todas elas não tivessem sido noites fáceis. Ao menos não para si e Lauren sabia que essa seria ainda mais complicada.

Mas ela não era a pessoa que recusaria a oportunidade.

Pegou sua coberta do chão, sentindo o tecido macio em suas mãos enquanto passava pelo mesmo local onde haviam dançado sem música. Deu uma travada no lugar, lembrando e sacudindo a cabeça para ignorar.

Camila deitou-se de costas para ela e esperou que Lauren ocupasse espaço atrás de si. Mas, a primeira coisa a tocá-la foi aquele cobertor, que a jogadora tentava com toda destreza cobrir em seu corpo na cama. Assim que o calor da dançarina estava completamente impedido de sair por aquele pano, Lauren juntou seu calor ao dela debaixo do cobertor, mantendo o máximo de distância possível.

A morena estava de frente para as costas dela, com a cabeça deitada de leve em algumas pontas de cabelo que se espalhavam pelo travesseiro e exalavam o cheiro de rosas. Tantas coisas passavam por sua cabeça, mas não conseguia definir exatamente a loucura que aquele dia havia sido.

— Não vou fazer nada que não queira. — Lauren sussurrou como se pudesse ver o rosto dela, que agora mordia o lábio inferior. Tendo Lauren ali tão perto, ela começava a pensar que talvez fosse necessário realmente alguém dormir no chão. — Pode virar, não quero que tenha dores por ficar na mesma posição a noite toda. — Suspirou. — Não precisa ter medo de mim, Camz. — arriscou por fim.

— Não estou com medo de você. — disse. “Estou com medo de mim.”, ocultou. — Por que eu teria medo da minha amiga? — Tentou disfarçar e reforçar uma realidade que enfiava em sua goela abaixo.

Play Friends - Ed Sheeran

We're not, no we're not friends,

nor have we ever been

(Nós não somos, não, nós não somos amigos,

e nunca fomos)

— Por que não se vira, então? Eu sei que odeia dormir virada pra esse lado. Eu conheço você.

Touché.

Camila não disse uma só palavra, Lauren a conhecia bem, sabia que sua sentença era verdadeira, odiava dormir para aquele lado. Decidiu que se fosse sustentar aquilo, precisava mostrar que estava tudo bem. Virou-se devagar, quase dizendo com o corpo o quanto temia aquele ato.

Mas no momento em que realizou estar de frente para ela, tão perto, foi incapaz de abrir os olhos.

We just try to keep those secrets in a lie

(Nós só tentamos manter esse segredo em uma mentira)

Lauren viu finalmente sua face que levava os olhos cerrados, tão linda, tão inalcançável. Queria que sua ilusão fosse real e aquele ciúme óbvio de Sara fosse por algo a mais que perder a amizade que tinham. Queria, em seus desejos egoístas, que Alessandro não existisse e junto o sentimento que Camila tinha por ele, queria que fosse por ela. Mas, de todas as coisas que queria, a última era que Camila sentisse medo de si. Sentia-se um ser repugnante só de pensar na possibilidade da latina sentir nojo dela e por isso pedir toda aquela distância. Era tão estranho como pôde sofrer duas possíveis consequências do mesmo preconceito na mesma noite. Precisava mostrar que Camila podia confiar nela.

And if they find out, will it all go wrong?

And heaven knows, no one wants it to

(E se eles descobrirem, vai dar tudo errado?

E Deus sabe, ninguém quer que isso aconteça)

— Abra os olhos, Camz. Eu sei que a trégua não inclui voltarmos ao que éramos antes, não vou nem te encostar. — Pediu calma, baixinho, mas a outra não moveu um músculo sequer, fazendo Lauren suspirar pesado e virar-se de costas para ela, sentindo-se um ET.

Não era culpa dela, se abrisse os olhos e encontrasse os seus, seria um caminho sem volta.

So I could take the back road

But your eyes will lead me straight back home

(Então eu poderia escolher um caminho mais fácil

Mas os seus olhos me guiam direto para casa)

A raiva foi o sentimento que por muitas vezes em toda aquela situação, dominou Lauren, mas naquele instante, tudo o que ela sentia não tinha nome, mas se pudesse promover algum para tal definição, “tristeza” seria a palavra mais adequada. E agora, de cara para a parede e de costas para sua perdição personificada, tentava aliviar aquele pensar se forçando a dormir.

And if you know me like I know you

You should love me, you should know

(E se você me conhece, como eu te conheço

Você deveria me amar, você deveria saber)

Os olhos de Camila finalmente se abriram, mais seguros agora, encontrando o cabelo da jogadora deixando parte de sua nuca descoberta. Derramou uma pequena lágrima contra o travesseiro admirando as madeixas cor de noite. O pensamento era ligeiro como sua respiração, alternando entre todos os seus desejos reprimidos à sua frente e a vontade de não ter nenhum deles.

Friends just sleep in another bed

And friends don't treat me like you do

Well I know that there's a limit to everything

But my friends won't love me like you

(Amigos apenas dormem em camas separadas

E amigos não me tratam como você me trata

Bem, eu sei que há um limite para tudo

Mas meus amigos não me amam como você)

Levou sua mão até próximo ao cabelo da outra, sustentando suas ações no “quase”: quase a tocou, quase deslizou seus dedos pelas mechas brilhantes e sedosas, quase desceu o dorso dos dedos por sua nuca, quase alastrou os mesmos pela extensão das costas dela, simulando realmente cada movimento, mas fazendo todo o percurso a um mísero centímetro de distância da pele dela. Sem tocar, ao ponto de tocar, presa no “quase”.

Lauren, ainda não que não recebesse aquele carinho de verdade, arrepiou-se sentindo algo, quase como uma sensibilidade aguçada e duvidosa, numa conexão inexplicável. Duvidosa porque pensava ser uma alucinação reflexiva de seus desejos. Mas já estava cansada de sonhar acordada.

We're not friends, we could be anything

If we tried to keep those secrets safe

No one will find out if it all went wrong

They'll never know what we've been through

(Nós não somos amigos, poderíamos ser qualquer coisa

Se tentássemos manter esses segredos a salvo

Ninguém descobriria se tudo desse errado

Eles jamais saberiam de nada do que passamos)

Quando Lauren se remexeu um pouco, Camila voltou sua mão rapidamente e virou o rosto de encontro ao travesseiro, mordendo-o com toda força que pôde, tentando expulsar aquela tensão em cada músculo do corpo para não fraquejar e render-se àquela força invisível transbordando dela sobre a cama.

Aguardou uma hora daquela tortura angustiante de seu querer deslizando e esquivando no último segundo de suas concretizações até que Lauren tivesse estabilizado a respiração serenamente e dormido. Engoliu em seco e passou sua mão, devagar, pela cintura dela, abraçando seu corpo finalmente em uma conchinha confortável com a qual conseguiu dormir. No mesmo instante, Lauren levou sua mão à dela, num gesto automático e inconsciente.

Isso era o que Camila pensava, mas, Lauren, ainda acordada, pensava o mesmo sobre ela.

Ainda que “soubesse” ser um ar falso, ainda podia respirá-lo, isso a fez exprimir um meio sorriso, penoso sobre si mesma, mas o suficiente para permitir que dormisse também.

And that's why friends should sleep in other beds

And friends shouldn't kiss me like you do

And I know that there's a limit to everything

But, Oh, my friends will never love me like you

(E é por isso que amigos devem dormir em camas separadas

E amigos não deveriam me beijar como você me beija

E eu sei que há um limite para tudo

Mas, oh, meus amigos nunca me amarão como você)

Sabiam que no outro dia tudo voltaria ao que era antes, a trégua acabaria junto com a noite do jantar, como já estava acontecendo. Mas, naquela noite, poderiam se apoiar no pretexto da conciliação temporária, no subterfúgio deleitante de sua efêmera quebra de divergência.

Naquela noite ninguém acordou, não houveram pesadelos ou crises de ansiedade. Naquela noite, foram como dois anjos que compartilhavam a mesma nuvem, dormindo no infinito.

<Fim da música.>

Março de 2019

— Vamos comigo, por favoor!!! — Lauren apertava as duas mãos em mais uma súplica por um pouco da diversão de um brinquedo que as deixava de cabeça para baixo ao menos duas vezes.

— Lauren, eu não subo nisso, não adianta. Pode ir você. Eu fico aqui te esperando nochão, segura. — Passou a mão levemente pelo queixo dela que logo acima levava um bico pidão descontente.

— Ir sozinha não tem graça, viemos juntas. — Contraiu as sobrancelhas grossas mais uma vez, tentando fazer com que ela mudasse de ideia.

— Não, obrigada, estou muito bem com meus órgãos no lugar. — Sorriu irônica, ainda que levasse um bom humor visível em conjunto com aquela negação.

— Que dramática essa menina. — Revirou os olhos verdes bem humorada. — Não fomos em nenhum brinquedo desde que chegamos.

— Fomos no carrossel. — disse a escritora, olhando-a com falsa indignação.

— Nenhum brinquedo decente. — Elevou uma das sobrancelhas grossas reforçando a última palavra. Estavam no parque de diversões há pelo menos uma hora e o único brinquedo no qual Halsey aceitou ir foi o carrossel. “Condiz com meus limites.”, disse ela.

— Já disse que eu tenho medo, peixinho. — explicou mais uma vez e era ela quem fazia um bico enorme dessa vez. Sua cara desgostosa estava pedindo por compreensão, quando usava o apelido ao qual Lauren já havia se acostumado. Não era o tipo de diversão que a agradava, certamente, mas queria que a morena fosse em todos que quisesse e se divertisse o quanto pudesse.

— Tudo bem, vai. — disse Lauren, pegando sua mão meio sem jeito, depois de um segundo conseguindo finalmente entrelaçar seus dedos. — Vamos no carrossel de novo. — Halsey deu um sorriso no mesmo instante e acompanhou Lauren completamente satisfeita dessa vez.

Desde o primeiro encontro das duas na semana anterior, passaram os dias sem muitas novidades, sem muito contato ou coisa parecida. Lauren queria ir devagar, dar tempo para sentir saudades ou vontades. Halsey não parou um só segundo, o trabalho preencheu seu tempo como nunca aquela semana, do contrário,aquele passeio ao parque teria acontecido muito antes.

Lauren a olhava e ficava impressionada com o quanto eram diferentes para cada coisa. Halsey partia seu humilde pedaço de pizza com garfo e faca enquanto Lauren pegava o seu, gigante, com papel e o mordia acabando com quase metade dele.

A escritora negou sorrindo do resquício de cebola grudado no rosto da outra enquanto Lauren tentava tirá-lo fazendo um malabarismo com a língua. A escritora era tão meticulosa que provavelmente aquilo nunca aconteceria consigo.

Minutos antes de irem embora, pediu que passassem pela praia, para caminharem um pouco. Até então, nenhuma objeção por parte de Lauren, era algo que geralmente agradava muito alguém que cresceu em Miami Beach: a praia. Mas não mediu as consequências daquele ato. O estresse começou quando seu pé pisou na areia a primeira vez.

Play Feeling you - Harrison Storm

I couldn't give you a warning

But I felt it all over me

(Eu não poderia te dar um aviso

Mas eu senti tudo aquilo sobre mim)

Lauren arrepiou-se inteira, levemente, a mesma sensação do dia do primeiro encontro com Halsey naquela rua quase deserta possuía seu corpo lentamente, pouco a pouco. Pensou em desistir e voltar mas a loira já a puxava para afundar um pouco mais os pés na areia macia.

I hope you come where I’m going

And babe my hands are free

(Eu espero que você venha aonde eu vou

E amor, minhas mãos estão livres)

O estômago reclamava e não era por fome, mesmo que não tivesse gastado todos os tickets de pizza, a sensação de mal-estar era causada pelas lembranças, que pareciam ultrapassar o cérebro e chegar instalando-se em cada sistema de seu corpo.

Mais alguns passos e a curvatura da extensão de areia, céu e mar revelaria aquele rochedo tão familiar, onde descobrira o amor e a si mesma outrora, de tantas formas distintas.

Onde um dia jurou nunca deixar aquele amor ir.

Falling so hard

Swimming through stars

And maybe that’s alright

(Caindo com tanta intensidade

Nadando através de estrelas

E talvez esteja tudo bem)

Quão vazias e frágeis poderiam ser suas juras? Era o que rondava sua cabeça enquanto seu corpo tratava de espalhar em si aquela sensação etérea da presença dela. Como se tivesse culpa, ainda deixava aquele mal estar ter seu espaço e se alastrar. Parecia estar por todos os lados, ao passo que a voz de Halsey contando algo sobre seu trabalho ia ficando cada vez mais distante, ainda que estivesse a seu lado. Não era justo com nenhuma das duas.

I’m feeling you

Every single way

(Eu estou sentindo você

de todas as maneiras possíveis)

Como em poucos momentos circunstanciais da vida, era evitável ver aquele rochedo com o caminho escondido de pedras. E se ela podia evitar, então evitaria.

I’m feeling you

Ain’t no other way

(Eu estou sentindo você

Não há outro jeito)

Aquele lugar era pesado demais, abarcava memórias demais. Memórias essas que já deveriam estar no passado, mas a cada passo que dava, pareciam ficar mais recentes, como se o tempo avançasse ao contrário, como se os ponteiros do relógio retrocedessem. Sair dali começou a ser uma necessidade.

Ninguém se concede a chance de conhecer alguém novo com o objetivo de retroceder.

There was a time I remember

Breathing air like this

But that was when I was younger

Didn’t know what I had I’d miss

(Houve um tempo do qual me lembro

Respirando ar como este

Mas isso foi quando eu era mais jovem

Não sabia que perderia o que eu tinha)

E como se o destino fosse de encontro ao seu clamor, o bolso da calça vibrou ainda que o sinal mal funcionasse naquele ponto da praia, salvando o ápice daquela aflição que estava porvir. Tateou o bolso pedindo para que Halsey parasse um pouco.

Ao tirar o celular, alguns objetos — que julgou serem apenas notas de compras — caíram do bolso e foram levados com o vento.

Aquela ligação jamais seria identificada porque além de ser um número restrito, a ligação caiu. E o aparelho não tocou mais aquela noite, mas foi a deixa perfeita para que voltassem ao carro. Para o alívio de Lauren.

A morena abriu a porta do automóvel mais tranquila e ficou de pé olhando para o alto em um gesto automático. Praguejou-se ao perceber.

I won’t let you go

I mean it

Believe it, ohh

(Eu não vou deixar você ir

Quero deixar claro

Acredite, ohh)

Do outro lado Halsey entrava prontamente no veículo e apenas aguardava que a jogadora fizesse o mesmo, enquanto sintonizava algo que julgou ser do gosto dela na rádio. Logo Lauren engoliu um suspiro, entrando em seguida e trocando a rádio que tocava a música “black” da banda Pearl Jam. Com certeza não ajudava em nada. Halsey não disse nada, pensou ter errado na escolha mas não quis perguntar. A outra sorriu para ela com um silêncio limitado à superfície, um sorriso que respondia a pergunta de se estava sentindo alguma coisa, um sorriso que respondia “nada”. Mas, por dentro, quase gritava. Sentia tudo.

I’m feeling you

I won’t let you go

Ain’t no other way

(Eu estou sentindo você

Eu não vou deixar você ir

Não há outro jeito)

Ao contrário da percepção de Lauren sobre um possível desavanço temporal, o tempo na verdade avançava, chutando o traseiro de Camila em direção àquela descida que exigia o cuidado ao que estava acostumada. Pedra por pedra, cada pedaço daquele rochedo guardava um sentimento diferente. E em todas as noites nas quais se permitia unir-se a elas, presenciava aquele mar abaixo de si, conectando todos aqueles fragmentos de rocha, de uma ponta da extensão a outra, fazendo de tantos sentimentos, um só.

Por tanto tempo, correr para longe era sua única atitude para com o que não conseguia lidar e, agora, emaranhar-se envolta das migalhas do tempo parecia a única coisa que sabia fazer.

I’m feeling you

I won’t let you go

Every single way

(Estou te sentindo

Eu não vou deixar você ir

De todas as formas possíveis)

Todos precisam dar ao próprio coração um descanso. Seja pelo excesso ou pela falta.

Ela respirava o ar da noite sentindo a areia abraçar seus dedos como amigos que não se veem há anos. O pensamento pairou sobre sua cabeça, tudo era meio nublado, parecia agir no piloto automático. “É só um lugar, só uma lembrança, só um srriso, só um passado, Camila, que ficou para trás.”. E a areia afundando seus pés iam contando uma história contrária que ela automaticamente negava e afastava para sua própria sanidade mental.

Existem dias que são piores. Às vezes não há uma grande razão para isso. Às vezes os astros apenas estão estrategicamente alinhados. Às vezes a cena de um filme, uma música, uma fragrância — talvez —, te impregne com uma nostalgia específica em um dia específico. Talvez uma consulta com o seu terapeuta ou ter visto seu passado em carne e osso sorrindo pela rua te impregne.

I’m feeling you

I won’t let you go

(Eu estou sentindo você

Eu não vou deixar você ir)

Mas foi com a certeza de que nem todos os dias eram de luta que continuou caminhando, avistando algumas pegadas na praia agora praticamente deserta. Suspirou olhando-as, provavelmente de um casal. Poderiam ser apenas duas pessoas que acabaram de se conhecer, dois amigos, uma mãe e um filho, mas gostava de criar fantasias românticas em sua cabeça, assim como as do livro que havia lido em seu lugar secreto minutos atrás.

Foi quando seus olhos se estreitaram para aquilo preso na areia, fazendo seu coração pular. Os planetas haviam tramado algo para aquele dia, tinha certeza.

Abaixou-se abusando de um misto contrastante de receio e ânsia, juntando-se a uma aflição que rodopiava dentro do corpo, uma sensação que a fazia fechar os olhos e sugar cada partícula possível de oxigênio.

Era um pedaço de fio vermelho. Sorriu com o canto da boca, sem humor. Era óbvio, era previsível que não importava quantas vezes não subestimasse e respeitasse a lei de Murphy, que se privasse de dizer a frase proibida “não pode piorar”, sempre poderia de fato piorar.

Que ser humano é perseguido por um objeto e não por alguém? Ok, de alguma forma, havia alguém. Uma perseguição que havia dado um descanso a seu interior e agora voltava a assombrá-la. Mas se dependesse dela, aquela ferida não seria aberta, queria a cicatriz fechada. A intenção é que cicatrizes, ainda que sejam marcas, não causam mais dor. Era difícil cicatrizar algo do qual não tinha controle.

I’m feeling you

I won’t let you go

Ain’t no other way

(Eu estou sentindo você

Eu não vou deixar você ir

Não há outro jeito)

O fio parecia lã porém mais resistente, levando amarrado a si um bilhete de pizza e um de “montanha russa”. Mesmo que sua vida e emoções já estivessem como em uma, desejou o divertimento de ir em uma montanha russa novamente, não ia a um parque de diversões há tanto tempo. Teria ido com Dinah há poucos dias atrás, mas era o único dia que tinha para aquela saída de rotina mensal com o noivo.

Como Alessandro jamais de atreveria a aventurar-se em um brinquedo tão emocionante, deixou-se invejar um pouco o casal que teria usado aquele bilhete para irem juntos à montanha russa antes de perdê-lo. Talvez estivesse certa afinal, talvez as pegadas fossem de um casal.

Mas o grande foco, do objeto, da noite e de seus pensamentos, era aquele pedaço vermelho com o qual brincava entrelaçando em seus dedos das mãos. Admirava inconscientemente como uma obra de arte.

— É isso! — falou para si mesma.

Foi com o foco nele que ela se inspirou ao ponto de pensar na solução para uma das decisões que demandavam sua opinião sobre o evento de seu trabalho, desde a semana anterior. Estava tirando sua paz. Ela viu a oportunidade de unir duas paixões, em tempos e vertentes diferentes.

Aquele dia havia terminado bem, ao menos. E a vida se tratava disso, um dia após o outro. No fim, talvez seu terapeuta tenha razão:  talvez realmente exista uma forma de encontrar uma flor em meio a um mar de espinhos.


Notas Finais


*TCC: Entre as abordagens da psicologia, existe a TCC (Terapia cognitivo-comportamental), uma forma de psicoterapia que se baseia no conhecimento empírico da psicologia, na qual o psicólogo busca compreender principalmente as questões ligadas aos pensamentos, às emoções e aos comportamentos do paciente.
*Freudiana (Psicanálise): A teoria da psicanálise busca entender o funcionamento da mente humana e parte do princípio de que os processos psíquicos são, em boa parte, inconscientes. Ou seja, para a psicanálise, nós não temos consciência de vários fatores que definem nossas emoções e comportamentos.
---------------------------------
E aí?? O que acharam? Muito chato e enjoativo porque só teve camren? POR FAVOR DIGAM. Eu adoro os comentários e vocês sabem. Ah! Vocês gostam das indicações de música ou tá bem horrível? foram 37 musicas até agora e tem mais de 200 na playlist. Estão detestando algo até agora? Falem comigo porque eu sou carente :((( e dramática aushuahus vou pôr a culpa no meu ascendente SIM kkkk se eu escrevi alguma besteira, me perdoem ;P
Me abracem no tt e no ig: @shegayaqui e @sheniasoilho. Até o próximo! :9


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...