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História Chat Noir: O Ladrão de Corações - Capítulo 5


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Capítulo 5 - Madrugando


             

A madrugada era sempre muito mais produtiva. As trevas atraíam a inspiração e, junto dela, toda a criatividade como um canal para a obra de arte que era confeccionada na luz dourada daquela cozinha durante as altas horas da madrugada.

Adrien só adquiriu esse hábito de ficar acordado muito tempo durante a noite e acordar sempre às tardes depois que desistiu de sua carreira de modelo. Cada vez que acordava junto com o Sol, ou era proibido de se lambuzar num bolinho qualquer, ele sentia que estava mais feliz nos momentos em que ficava sozinho e escrevendo alguns esboços e poesias rudimentares, mas doces do que viriam à ser os seus últimos romances já lançados que rondam as livrarias do mundo e a Internet.

Estava ele sentado à mesa da cozinha no maior conforto com uma caneca de chocolate quente e com os dedos praticamente bailando sobre o teclado de seu notebook. Estava escrevendo um novo capítulo de seu romance – capítulo este que poderia ser alterado em alguns trechos, ou até mesmo reescrito para atingir o nível máximo de seu perfeccionismo.

De vez em quando, Adrien dava uma paradinha, bebia um pouco de seu chocolate quente e revia o que acabara de escrever. Aquele capítulo todo já tinha sete páginas até o momento presente ao passo que Adrien ainda tinha muito em sua mente para escrever. Já havia decidido que este novo romance seria um só e não uma saga. Talvez, aquele seria o livro mais longo que iria escrever na sua vida. Estava colocando todas as suas energias nele em cada página e em cada palavra.

O único problema de escrever nessas altas horas da madrugada era o gato que não largava de seu pé em nenhum momento.

-Eu estava pensando com meus botões.-Chat Noir diz enquanto estava sentado bem em cima da mesa da cozinha e olhando para a Torre Eiffel na janela.-Há uma grande reflexão filosófica sobre o momento em que estamos dirigindo um carro: estamos indo pra frente, ou o mundo está indo pra trás?

Adrien parou de teclar no notebook e olhou para Chat Noir por um momento.

-Você consegue ser mais inteligente do que isso...-Adrien diz tão logo voltou à teclar freneticamente.

-Claro.-Chat abriu um sorriso bobo e convencido.-Eu posso driblar códigos de acesso dos melhores cofres do mundo sem nenhum tipo de falha, conheço as histórias, lendas e controvérsias por trás de cada tesouro inestimável e também sei quando alguém está fazendo de tudo para me evitar... Só para não cair na tentação.

Essa última parte fez os dedos de Adrien pararem sobre o teclado. Estava tudo bem nos últimos cinqüenta minutos e logo agora aquele gato maluco resolveu provocar o pobre loirinho.

Ele saltou da mesa rapidamente e se abaixou ao lado do loiro, passando o braço negro por cima do encosto de sua cadeira.

-É sempre um grande escândalo quando vazam fotos de modelos deliciosos na Internet.-Chat está dizendo.-Ou quando alguém encontra, por acaso, o filme pornô de algum fisiculturista gostosão. Felizmente, eu nunca tive uma conexão direta com nada disso, mas posso dizer que foi divertido fazer eles perderem a cabeça até caírem nos meus encantos.

-Mas é claro, Chat Noir. Qualquer conexão sua com o mundo exterior é indireta.-Adrien rolou os olhos verdes.-Quando ainda estão planejando, você já está pondo o seu plano em ação.

-É por isso que aquele mosquete francês da Primeira Guerra é um dos meus maiores orgulhos.-Chat piscou um dos olhos verdes e sorriu bem sapeca.

Adrien apenas apertou a região entre as sobrancelhas com os dedos e voltou à digitar em seu notebook. Enquanto isso, Chat Noir se sentou na cadeira ao lado e pegou um manuscrito do loiro para ler.

-Mas é uma pena mesmo...-Chat murmurou tranquilamente.-Aquele cara parecia um lenhador gostoso do Canadá... Com uma ascendência francesa, talvez. Acho que até hoje ele não conseguiu me esquecer.

-Você sabe que nenhum desses homens com quem você transou e roubou coisas dele são reais, não sabe?-Adrien questionou seriamente.

O gato apenas o olhou de forma vazia tão logo abriu um sorriso bobo.

-Não sei...-Chat deu de ombros e cruzou os braços atrás da cabeça.-Que tal você me dizer?

Por sua vez, o loiro afastou o notebook sobre a mesa e voltou-se para o gato ao seu lado.

-Olha, tudo o que está acontecendo aqui não passa de algum tipo de alucinação minha.-Adrien está dizendo.-Há vários casos de escritores brilhantes que tinham históricos psiquiátricos, ou algum envolvimento com drogas e acabavam tendo alucinações e delírios com suas histórias e personagens. Há escritores que tinham tanta fixação por um personagem que confundia o seu próprio nome com o dele e, se eu não me engano, li em algum lugar que o Gato de Cheshire veio como uma alucinação das fortes enxaquecas que Lewis Carroll tinha. No meu caso... Eu devo ter algum tipo de transtorno psicológico não-diagnosticado que pode ser decorrente do estresse da minha antiga carreira de modelo e agora eu ando alucinando com você porque simplesmente tive uma fixação em criar alguém como você. Mas a verdade é que nenhum desses personagens são reais e você também não é real. Em última análise, eu estou apenas tendo uma conversa com uma alucinação minha que só existe na minha mente. Você não existe, Chat Noir, entendeu?

Depois de todo aquele discurso, o gato negro pareceu ficar realmente atingido de forma emocional. Ele até descruzou os braços atrás da cabeça e pareceu tremer o lábio como se fosse chorar diante dessa chocante revelação de sua verdade inescapável.

Então, ele riu.

Riu como se tivesse ouvido a piada mais hilária do mundo. Riu tanto que quase ficou sem ar e ainda ficou socando a mesa da cozinha com força. Por outro lado, Adrien ficou com uma carinha fofamente inocente de quem não estava entendendo nada daquilo e muito menos não encontrando a graça nisso tudo.

-Ai... Ai...-Chat riu um pouco mais e até lambeu os lábios.-Você é hilário, Adrien. Continue assim e você será o maior humorista de Paris.

Como se fosse zombaria descarada, o gato negro se levantou da sua cadeira e saiu andando da cozinha, deixando o garoto loiro com carinha de tacho.

-Esse garoto...-Chat sussurrou e riu de novo.

:

Je ne veux pas travailler
Je ne veux pas déjeuner
Je veux seulement oublier
et puis je fume

Edith Piáf era quem ditava a trilha sonora da madrugada no rádio em cima da bancada da cozinha. Decididamente, Adrien já havia alcançado o auge de sua virada da madrugada e faltavam poucas horas para o dia amanhecer – mas ele sequer estava com vontade de parar.

O loiro estava sentado à mesa da cozinha. Havia dado uma parada para descansar seus dedos e mãos do árduo trabalho de ficar teclando naquele notebook. Ele o desligara e deixara recarregando na tomada por enquanto. Adrien estava relendo alguns esboços de idéias que, até o momento presente, eram boas e tentadoras, mas bastava um novo momento de epifania em sua mente para que cada uma dessas idéias sofressem novas transformações como a natureza através das estações do ano.

Je ne suis pas fière de ça
Vie qui veut me tuer
C’est magnifique
Etre sympathique
Mais je ne le connais jamais

Adrien estava comendo uma uva de uma feira da Bastilha e sua doçura roxa invadia sua boca de maneira forte e ao mesmo tempo suave como uma transição perfeita de intensidade de sabor. Ele se espreguiçou na cadeira da mesa e colocou os pés sobre outra por perto enquanto relia alguns trechos de um manuscrito de um capítulo futuro que planejava passar para o notebook.

Tudo estava na maior paz quando aquele gato irritante e sensual apareceu de novo. Ele se sentou numa cadeira ao lado de Adrien e permaneceu quieto. O loiro nem lhe deu atenção.

-Eu gosto quando você é todo metrossexual.-Chat Noir se pronunciou subitamente.-Você está sempre milimetricamente limpinho, lisinho, delicioso, lindo e com roupas da moda. Não é à toa que essa cueca ainda está cheirando ao sabonete do seu banho de hoje...

Ao ouvir isso, o garoto loiro levantou sua cabeça e olhou para o lado. O gato negro estava bem ali na maior lascívia cheirando sua cueca Calvin Klein azul escura com aqueles dedos de garras de gato.

-Quantas vezes eu já te disse pra não mexer no meu cesto de roupa suja?!-Adrien esbravejou e arrancou a cueca das garras do gato.

-Roupa suja? Onde?!-Chat começou a rir.-Você toma banho tão bem e nem parece suar uma gota. Essa cueca dá impressão de que acabou de ter a etiqueta da loja arrancada porque está limpinha, macia e com cheiro de sabonete.

-Que seja!-Adrien rebateu.-Só quero que pare de pegar as minhas roupas. Até parece que quer sair pela rua à noite com roupas minhas.

-E por quê não?-Chat riu um pouco.-Seria muito melhor do que ficar enfurnado nesse apartamento o dia todo. Entenda que eu sou uma pessoa que precisa ver gente, que precisa bater perna por aí. Mas você fica me aprisionando aqui dentro toda maldita noite, o que não é tão ruim assim até porque um ponto positivo em tudo isso é que eu posso te ver sem roupa sempre que quiser e eu fico mais... Atiçado.

Adrien franziu o cenho de raiva. Por outro lado, Chat sorriu sensualmente e soprou um beijo para ele com os lábios.

-Se eu te deixasse sair daqui, eu nem sei se você voltava tão cedo.-Adrien está dizendo.-Vai que você decide invadir o Louvre e roubar a Mona Lisa?

-Não. Tudo, menos Mona Lisa.-Chat choramingou, todo dramático.-Aquela cara séria de quem está pensando muito me assusta. Se for para roubar algo artístico e de grande fama no mundo todo, eu roubaria a Esfinge. Ela é um gatinho com rosto de faraó. É menos assustador.

O que os ouvidos do loirinho captaram causaram uma reação totalmente diferente em seu corpo. Adrien tapou a boca com a mão e a cueca junto, mas acabou rindo de todo o jeito. Ao ver isso, Chat Noir sorriu todo orgulhoso por fazer aquele loiro gostoso rir de suas maluquices.

-Chat Noir!-Adrien diz, rindo.-Já não parou pra pensar que, às vezes, você não faz muito sentido?

-E quem disse que eu preciso fazer sentido, loirinho?-Chat abriu um sorriso sapeca e provocante.-É por isso que eu sou um docinho.

Após rir muito, Adrien acabou se calando e ficou sorrindo para Chat Noir. O gato trocava com ele o mesmo sorriso – só que mais pervertido.

-Olha...-Adrien sussurrou, ainda sorrindo.-Mesmo você sendo irritante e muito tarado... Eu ainda gosto de você... Mesmo que você tenha saído da minha mente, ou sei lá o quê... Você é alguém legal, Chat.

-Você me fez assim, sua delícia.-Chat soprou-lhe outro beijo.

-Tá. Já deu.-Adrien virou o rosto e riu.

-Já que é assim.-Chat debruçou-se sobre a mesa da cozinha.-Eu tenho uma idéia genial.

-É? E qual seria?-Adrien sorriu em diversão.-O Groupe Caisse d’épargne?

-Dinheiro não é meu negócio.-Chat responde.

Adrien riu.

-Eu falo de coisa melhor.-Chat está dizendo.-Vamos vestir roupas da moda, saímos numa sexta-feira às 19h. Jantamos um peixe suculento num restaurante chic, bebemos um tinto delicioso e aí vamos fazer um passeio tranqüilo à margem do Sena sob o brilho das luzes de Paris. Que tal?

Este foi o fim da picada – sem dúvidas.

-Chat.-Adrien ecoa.-O que você descreveu foi um encontro romântico. Eu não estou afim de você.

-Pode falar o que quiser, Adrien. Pouco importa.-Chat deu de ombros.-Escreva o que eu digo: mais cedo, ou mais tarde, você vai voltar atrás e pedir para sair com o gato mais quente e gostoso de Paris. Se você fizer manha, eu aceito na hora. Do contrário...

Adrien apenas rolou os olhos verdes e enfiou na boca outra uva doce. Com Chat Noir, o que ele tinha era uma clássica, irritante e até mesmo hilariante relação de amor e ódio.

E nada mais.

:

Já eram 5h54 da manhã. O Sol ia nascer dali há três horas.

Quando a noite se tornar dia, Chat Noir não estaria mais ali. Adrien não sabia dizer se sentia bem com isso. Por um lado, ele ficava aliviado por não ter mais ninguém o provocando repetidamente. Por outro lado, ele se sentia meio desanimado por não ter alguém que o provocasse, pois era isso que divertia suas madrugadas tão silenciosas de escritor.

Após ter escrito tanto, finalmente Adrien começou a sentir o feitiço do sono seduzindo ele direto para a cama. Deixara todas as suas coisas na cozinha e foi arrastando os pés até o seu amado quarto. Chegando lá, ele despiu-se de sua regata cavada e da sua calça de moletom, largando tudo pelo chão mesmo.

O loiro subiu na cama, engatinhou até o seu centro e desabou ali. Estava exausto. Dali em diante iria dormir durante o amanhecer, a manhã toda e até o início da tarde. Seriam longas horas de sono profundo e, é claro, não demorou muito para que o grande escritor de romances best-sellers Adrien Agreste acabasse adormecendo.

Ele adormeceu em poucos instantes, mergulhando dentro de seu próprio corpo e perdendo-se no mundo dos sonhos de sua mente tão criativa e enérgica.

No entanto, ainda havia alguém acordado por ali.

Chat Noir estava sentado numa cadeira estofada perto da janela. Com os cotovelos apoiados nos joelhos, ele observava Adrien dormindo sobre a cama só de cueca como um delicioso belo adormecido.

Cautelosamente, ele se levantou de sua cadeira e puxou o cobertor macio para cobrir o escritor. Chat acariciou os cabelos loiros tão rebeldes de Adrien e se afastou tão logo se sentou em sua cadeira novamente.

Para o resto da madrugada, Chat Noir ficaria ali observando aquele que tanto amava até que desaparecesse no advento da luz da manhã.



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