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História Chuva de verão - Capítulo 8


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Notas do Autor


Estamos aqui com mais um capítulo. Aproveitem ^-^.

Capítulo 8 - A lanchonete da esquina


À medida que uma alta buzina tocara na rua, joguei meu corpo para o lado a fim de desviar do soco que certamente não viria fraco. Pedro, mesmo com seu corpo aparentando fraqueza, possuía uma força vantajosa. Não era tão avassaladora, mas suficiente para causar uma dor considerável. O cachorro preto e branco não tardou em desferir outros socos em minha direção. Estava totalmente impressionado com meus reflexos. No entanto, a alegria de estar ileso fora quebrada quando Pedro atingiu em cheio minha bochecha esquerda.

Cambaleei, aturdido, ainda encarando-o.

— V-você só sabe resolver as coisas assim, não é?

Sem obter resposta, recebo outro soco na bochecha direita. Ao tentar alguma defesa, o punho de Pedro já atingira meu estômago. Comecei a ficar tonto e minha visão estava turva. Os sons do vento e dos carros pareciam distantes.

— …é… — disse Pedro, rindo. — Você é mesmo um co-

Fora interrompido com um chute em seu rosto. O cachorro recuou para trás, com seu sorriso desfazendo-se completamente. Não gostava nada de estar lutando fisicamente com outra pessoa, ainda mais com meu primo. Mas, dada a situação, nada mais importava; restava me defender. Endireito meu corpo, tentando controlar minha tênue fraqueza e focar em Pedro, que estava avançando, os punhos já armados.

Sendo mais ágil, chutei seu estômago e seguidamente o soquei perto de seu olho direito.

— Ágil… — disse, ofegando. — Para um fraco como você, até que doeu.

Em segundos, após falar, Pedro trapaceou: pegara o banco que se localizava perto do sofá e golpeou -me duas vezes. Uma na cabeça, me fazendo gritar de dor e liberar um fio de sangue pela boca. O outro me atingira no pescoço.Após os agonizantes golpes, fui surpreendido com socos em todo meu rosto. Juraria que estava sendo atacado por outra pessoa se não soubesse que era Pedro. Ele, depois de se cansar, recuara. Minha visão estava totalmente embaçada. Os sons da rua, já distantes, pareciam inexistentes. Não tinha dúvidas: fui nocauteado. Antes de perder a consciência, vi Pedro me observando, nervoso. Seus olhos transpareciam medo e arrependimento. Toda a dor que estava sentindo pareceu desaparecer junto à meu olhar.

● ● ●

Quando recobrei os sentidos, senti uma dor enorme. Todo o meu corpo parecia dolorido. Com o esforço de olhar ao redor, percebi que estava em minha cama. Vagarosamente, ergui minha cabeça para a janela e observei o esbelto alvorecer.

"Seria mais fácil encarar essa briga como um pesadelo se não fossem essas dores..." — pensei, levantando-me com muita dor e tontura.

Minha camisa ainda estava com fragmentos de meu sangue. Com um tremendo esforço, tomo um banho e troco as minhas roupas. As dores me davam a sensação de que estava aprendendo a andar: tomava cuidado à cada passo, evitando movimentos precipitados e desnecessários.

Desci a escada apoiando-me na parede, motivado pelo gostoso cheiro do café.

Ao chegar na cozinha, vejo minha mãe pondo na mesa um bolo, os pães, a garrafa de café, a manteiga e o iogurte. Ao passo que seu olhar encontrou o meu, o seu sorriso categórico das manhãs sumira. Já sabia ela do que acontecera na noite anterior? Provavelmente, pois não via explicação por ter acordado na cama, apenas se o meu primo houvesse me colocado lá.

Sentei silenciosamente, com o semblante notavelmente tristonho. Uma cadeira fora puxada ao meu lado. Ali estava Pedro. Mesmo com seu rosto e olhar expressando arrependimento, não falou nada. A raiva que se apoderou de mim noite anterior tinha ido embora. Agora, só me restavam pensamentos vazios e expectativas cruéis.

Já não era bem visto por quase toda a família, exceto pelos meus avós já falecidos. Claro, era amado por meus pais. Faziam de tudo por mim. Porém, às vezes não me defendiam para manter sua integridade na família.

"Porque a palavra da verdade é duramente omitida pela imagem da aparência…"

Olhei novamente para minha mãe, que sentara seriamente à mesa.

— Por que vocês fizeram isso? — perguntou, tentando manter a calma. Nitidamente se percebia  que ela estava fazendo um esforço tremendo.

Pedro ficou cabisbaixo. Eu, suspirando e com os olhos por algum motivo úmidos, tomei coragem para falar.

— Foi uma briga desnecessária, só isso...uma briga...é normal acontecer entre a gente.

— Normal? — mamãe alteou a voz.

— Sim, s-sim, tia… — explicou Pedro, suando.

— E você, Pedro, falarei com sua mãe. É assustador! Olha o estado de vocês! — nos olhou, seu semblante ardendo em fúria. — Eu quero saber por-que-brigaram — perguntou novamente, enfatizando as últimas palavras.

"Você não parece tão forte e decidido igual ontem, Pedro…". — refleti, olhando o cachorro ao meu lado suar e até tremer diante de minha mãe.

— O gato comeu a língua de vocês? — vociferou. — Respondam!!!

A calma de minha mãe já havia partido. Lançava um olhar dilacerante a cada um de nós, que estávamos calados e impotentes.

— Então tá!!! — levantou. — Nada justifica isso mesmo! Peter, você foi indiscutivelmente o mais machucado! Mas não adianta se explicarem, porque ambos se machucaram…e feio.

Ela foi até o balcão, furiosa. Pegou o celular, digitou ferozmente um número e esperou ser atendida. Aproveitei aquele momento para ir a sala, em silêncio.

— Peter… — chamou meu pai, que estava assistindo televisão.

— Não…não quero conversar... — falei em baixo tom.

— Patrick!!! — gritou uma voz enfurecida da cozinha. — Venha aqui!

Num sobressalto meu pai levantou e fora para a cozinha. Estava sozinho, finalmente. Recostei meu corpo na almofada e fitei tediosamente o teto. Uma maré de sentimentos me inundavam. Cogitei inúmeras vezes em ir conversar com Max, ou então ir novamente a sua casa. Me livrar de uma vez daquele pesadelo. Se eu visse pelo menos o seu sorriso, seria o suficiente para me aliviar.

"Ah…aquele belo sorriso..."

Fui cambaleando ao quarto, ainda com muitas dores. Corri meu olhos por todo o quarto e encontrei meu celular embaixo da cama. Estava decidido a mandar uma mensagem para Max. Todavia, ao encarar a ofuscante tela, hesitei, como sempre fazia.

"Preciso ficar feliz. Não vou me remoer por causa de algo que já passou. Basta as dores e marcas físicas. " — ri para mim mesmo. Minha animação havia retornado.

"Oláa" — enviei a mensagem para Max.

"Oi Pit, tudo bem?" — respondeu depois de dois minutos.

"Tudo sim. E você?"

"Que bom. Eu? Estou ótimo! O que você vai fazer hoje?"

"Acho que nada…não faço nada nos domingos."

"Hm...estava pensando em ir na lanchonete, comer uma torre de batatas fritas. Quer vir comigo?"

"Sim, sim. Eu vou."

"Está bem, quando eu for me arrumar, aviso."

Meu rosto transbordava de alegria. O rubor o qual eu já estava acostumado cobria minha feição e minhas orelhas estavam curvas, como sempre.

● ● ●

Enquanto me arrumava, observava o clima lá fora. O céu parecia estar nublado e com pouco sol. Mais tarde, consequentemente, a temperatura iria baixar.

Para não ser abordado com perguntas, saí sorrateiramente. Como a lanchonete ficava na esquina, não via preocupação em ir. Caso perguntassem, iria dizer que estava na lanchonete. Afinal, era comum para mim e a meus pais ir lá.

Entrei, procurei Max pelas mesas e o vi sentado próximo a parede, olhando o celular.

— Hm…olá — disse, ao me sentar, sorrindo. Max imediatamente me encarou, com seu corriqueiro sorriso.

— Oii, Pit! Que bom que tenha vindo. Eu já pedi! Chega em uns dez minutos. — fitou novamente o celular, parecendo procurar algo. — Ei, vem aqui. Quero mostrar uma coisa.

Já que estava sentado defronte a ele, não poderia ver. Por isso, meio desajeitado, se sentei ao seu lado.

— Aaah — disse gargalhando. — É normal ela mandar essa figurinhas. — olhava alegre para as mensagens aleatórias e divertidas.

— Ela me achou e adicionou em todas as redes sociais, só pelo meu nome, e ainda conseguiu número.

— Como?

— Talvez Leonardo tenha dado a ela. — comentou, balançando a cabeça. — Hmm…eu não tenho seu número! — olhou-me estarrecido.

— É mesmo… — disse sem graça.

— Poderia me passar, Pit?

— C-claro. — digo, com um pouco de vergonha. O rosto de Max havia sido tomado por uma feição fofa e descontraída.

O olhar de Max se assemelhava a alguém mirando flores apaixonadamente. A uma pessoa apaixonada pelo espaço observando a lua cheia. Pela primeira vez, olhei para o rabo de Max. Ele estava agitado, assim como o meu. Para falar a verdade, não prestava muito atenção neste detalhe nas pessoas. Minha mãe dizia que olhar essa parte era uma atitude mal-educada, assim como analisar as orelhas e os pelos de alguém. Contudo, era inevitável. Evitar aquele pelo macio, as orelhas pontudas e modestas, o rabo balançando a todo momento, características comuns aos lobos, cachorros, gatos…

— Hm…eer…terra para Pit.

— Aaah, o número! — passei meu número a ele, ato que jurei que havia feito há minutos atrás. — É normal eu viajar assim, sabe…nos pensamentos.

— Entendo. Eu sei disso. Mas eu me assustei um pouco, sabe? Você estava me olhando como se fosse uma estátua. — disse rindo. Seu rosto, para minha surpresa, com um certo rubor.

Pelo visto, Max também andava preso aos pensamentos. Meus machucados, que eu pensava que iriam passar despercebidos, vieram à tona.

— E esses ferimentos? Não tinha visto… — indagou.

— Nada demais. Ei... e aquele jogo? — respondi, tentando desviar o assunto.

— Ei, Pit…não fuja do assunto, por favor. O que houve? Parecem machucados feios.

— Eram piores. Estão sarando.

— Eu te vi ontem! Você não estava com eles. E parece que não foi fruto de um acidente. — neste momento, estava torcendo para que o garçom chegasse e nos trouxesse a torre de batatas fritas, a fim de aliviar a tensão. — O que foi isso? Ou melhor, quem fez isso?

— Eu e Pedro brigamos. — disse, engolindo em seco.

— Pedro??? Ah…sabia…mas você? Não imagino você utilizando a força física para resolver alguma coisa. E sei disso porque você mesmo disse uma vez. — disse, enfatizando o nome de Pedro com certa fúria.

— Foi por legítima defesa.

— Entendo. Não o julgo, Pit.

Max estava claramente tristonho. Deveria estar imaginando o que aconteceria caso ele estivesse no momento.

— Você é um grande amigo, Max…mas não tinha como você adivinhar isso. Agradeço sua preocupação. — disse, parecendo deduzir seus pensamentos.

— Oh, obrigado… — sorriu intensamente. — Você também é.

Correspondi o seu sorriso. Mesmo que ele ainda estivesse com raiva de Pedro, demonstrava alegria perante mim.

Ao chegar a torre de batatas, atacamos igualmente. Ambos estávamos com muita fome. A batata, como sempre, impecável. Crocante e bem temperada, com o cheddar e um molho que desconheço o nome em cima.

Depois das fartas e suculentas batatas, me encostei na cadeira, satisfeito.

— Muito bom! — exclamei.

— Muito, muito bom! — completou Max.

Ficamos algum tempo em silêncio. Após o breve descanso, olhei o relógio com certo desdém.

— Obrigado por ter me convidado.

— Ah, disponha. — sorriu. Sorri também, desajeitado, em conta de meu estômago estar super cheio.

— Como seus amigos disseram, você é mesmo fofo. — comentou, rindo, com suas orelhas para baixo.

— Ha...ha.. — fiquei altamente envergonhado.

Minhas orelhas se atentaram para fora da lanchonete. Ouvia-se pingos e rajadas de ventos intensas.

— Ei, não vamos poder ir agora, acho... — disse a Max, olhando o clima.

— Por que?

Apontei a rua lá fora com a cabeça.

— Está…chovendo.


Notas Finais


Estão na lanchonete e...está chovendo.
:)


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