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História Cidade Murada - Capítulo 6


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Notas do Autor


Alerta de: monólogo gigante
boa leitura :)

aviso: a partir deste capítulo, as narrações serão em terceira pessoa :3

Capítulo 6 - A Verdadeira História


Fanfic / Fanfiction Cidade Murada - Capítulo 6 - A Verdadeira História

(Alexa) 

Estava muito frio quando Nico e Josh foram buscá-la.

Alexa se sentia confusa e com medo.

Com medo das coisas que descobriu no Fórum Norte, com medo das consequências destas coisas e com medo do Nico descobrir que Rick é o assassino de Ray Lotus.

Ela estava com uma louca vontade de mandar Josh encostar o carro e contar toda a verdade a Nico ali mesmo, naquele túnel escuro e assustador, mas a coragem lhe faltava, além disso, as falas de Rick ecoavam em sua cabeça, a perturbando constantemente sempre que ela pensava em contar a verdade a Nico.

Ela estava tão absorta nestes pensamentos que nem se perguntou o motivo de Josh estar levando ela para as Favelas Baixas.

De qualquer forma, ela só queria dormir. Dormir era a única chance de esquecer tudo, mesmo que por pouco tempo.

— Alexa, como foi lá? — Nico perguntou, Alexa se encolheu no banco do carro.

— Foi estressante. — respondeu com a voz cansada. — Rick me disse que uns guardas reais queriam me matar e que matariam você, o Mike e a Jules. — ela conseguiu esconder o medo que sentira ao dizer tudo isso. — Aliás, o Mike e a Jules estão bem?

— Sim, eles também foram abordados por homens da guarda real. — Nico respondeu, Alexa encarou Josh.

— Tio Josh, o que você tá fazendo por aqui mesmo? — ele encarou a menina pelo retrovisor central.

— Eu e o Paul sabemos de tudo. Certo, Nico? — eles se encararam por um curto período de tempo, Nico soltou um suspiro sôfrego.

— Estávamos jantando quando eles invadiram a minha casa. Nós fugimos, mas a mamãe ficou. Eu não sei o que houve com ela e não temos coragem o suficiente para voltar até à minha casa e ver, deve ser óbvio que eles não estão mais lá. Enfim, o jantar foi uma merda. — disse triste, fiquei séria. — Eu estou esperando uma ligação do papai, ele trabalha lá, ele pode tirar a minha mãe de lá, assim espero. — abri a boca para dizer algo, mas nada saiu, quer dizer, saiu isso aqui:

— O seu pai vai salvar ela? — perguntou séria.

— Gente, fiquem calados. — Josh disse assustado. — Estão ouvindo? Esse é o som que quero ouvir até chegarmos às Favelas Baixas.

— A sua voz? — Nico perguntou, Josh o encarou irritado.

— O silêncio! Agora, fiquem calados senão vocês irão andando. Essa noite foi tão louca que eu estou sentindo uma enxaqueca dos infernos. — disse como se fosse um velho rabugento.

— Tá bom, tio. — Alexa disse.

O resto do caminho até a pousada da Zã foi um completo silêncio graças a irritação de Josh.

Nico e Alexa ficaram o caminho todo envoltos na mais profunda seriedade e tristeza. Nico com medo da mãe ter partido dessa para pior e Alexa tentando encontrar forças para contar a Nico a verdade sobre Rick.

Ao chegarem à pousada da Zã, Josh estacionou o carro em frente à pousada. Os três saíram e encontraram Mike, Chester e Jules os esperando.

Alexa sorriu assim que viu uma assustada e emocionada Jules, que correu rapidamente em sua direção e a envolveu em um abraço apertado e sufocante, coisa que normalmente a Alexa reclamaria, mas ela estava muito feliz de ter visto a sua melhor amiga novamente.

— Sua vaca, não faz mais isso comigo. Fiquei preocupada. — Jules disse no meio do abraço.

— Também fiquei com medo de perder você. — desfizeram o abraço. — De perder todos vocês. — Chester e Mike deram um abraço nela.

— Ainda bem que você está bem. — Chester disse sorrindo.

— Concordo. Eu já estava me preparando para tomar o seu lugar no grupo. — os três riram.

— Tentar imaginar o Mike sério é impossível. — Alexa disse.

— Você que diz. — desfizeram o abraço.

— Então essa é a famosa Alexa. — uma mulher negra parecida com a Anna apareceu e cumprimentou a Alexa. — Eu sou a Zã, prefeita da Favela Baixa e proprietária dessa pousada. — encarou Alexa com um meio sorriso.

— Você é a prefeita!? — Mike perguntou no grito, Zã fez que sim com a cabeça e soltou a mão de Alexa. — Não creio.

— Pois é, garoto, eu sou a prefeita. — encarou a todos e fez sinal de que ia voltar para dentro da pousada. — Vamos, Alexa, vou mostrar o seu quarto. — todo mundo começou a entrar na pousada.

— Eu posso ficar com ela? — Jules perguntou meio envergonhada.

— Não vejo problema. — Alexa disse sorrindo.

— Você se importa de ficar sozinho? — Jules perguntou ao irmão.

— Nem um pouco. — respondeu sorrindo. — Até porque eu posso fazer umas coisas que não gosto de fazer na sua frente. — olhou para Zã. — Zã, vocês são contra fumaça que não seja de incêndio? — todo mundo parou de andar.

— Você não vai fazer o que eu estou pensando, não é, Mike? — Jules perguntou com um pouquinho de raiva, Mike a encarou com um olhar inocente.

— Não fica com raiva, irmãzinha. Foi meu psicólogo que recomendou. — ele respondeu encarando Zã.

— Tudo bem, mas use apenas na janela, por favor. — Zã disse, Mike sorriu como se fosse uma vitória. — Esse é o quarto de vocês. — a chegada ao quarto foi tão rápida que quase ninguém notou.

Centenas de "boa noite" foram ditos por todos até Alexa e Jules finalmente fecharem a porta do quarto e se jogarem em suas camas.

No lado de fora, Zã voltou para a recepção onde estava a moça ruiva.

— O que você vai fazer? — Nico perguntou a Mike, eles dois e Chester estavam no corredor.

— Você sabe. — sorriu travesso. — Se quiser é só vim no meu quarto, tchau. — Mike entrou no seu quarto.

— Você não está pensando nisso, certo? — Chester o perguntou.

— Não. Eu só quero dormir. — disse entrando no quarto, seguido de Chester.

Alexa e Jules não conversaram muito por causa da recusa de Alexa em manter uma conversa. Na verdade, ela estava apenas cansada demais para conseguir manter uma conversa, tudo o que ela precisava era de uma bela noite de sono e de um belo sono, diga-se.

Josh foi para o quarto do marido e ambos dormiram após conversarem sobre aleatoriedades. Ambos também estavam cansados da loucura que foi aquela noite e só queriam descansar, o mesmo de Chester e Nico, que dormiram instantaneamente, a única exceção fora Mike, que ficou acordado durante boa parte da noite.

//

(Chester)

Chester havia acordado cedo porque lembrou da revelação de Nico no jantar e resolveu tirar satisfação com o seu pai mais fofoqueiro: Paul. O plano era o seguinte: fazer Paul confessar o que Nico queria falar no jantar, Chester achou que seria uma tarefa fácil, mas se enganou.

— Pai, conta, por favor, ele é o meu melhor amigo. — implorou para o pai, que estava em uma cadeira de massagem que havia na recepção da pousada.

— Pois pergunte para ele. — Paul perguntou sem se importar muito. — Que massagem relaxante, ah. — disse satisfeito, Chester encarou o pai com raiva e decidiu tentar mais uma vez.

— Conta logo, por favor, eu só quero saber mesmo, eu não conversar com ele sobre isso, eu não vou dizer que você me disse, só me conta, por favor! — disse velozmente.

— Eu não entendi o que você falou, essa massagem tá uma delícia. — sorriu como se estivesse em um sonho agradável.

— Eu só quero saber o que Nico iria dizer no jantar! — disse com raiva.

— Chester, vai almoçar e deixa o papai fazer a massagem dele em paz, por favor. — Paul disse gentilmente.

— Desculpa o incômodo. — começou a andar em direção ao corredor dos quartos. — Porra. — disse irritado.

Ele andou até o quarto dos seus pais para ver se Josh estava lá. Se não havia funcionado com Paul, poderia funcionar com o Josh, certo? Errado.

— Mas, pai, eu quero saber. — suplicou.

— Droga, Chester, é um assunto pessoal. Quer saber, pergunte a ele. — alguém começou a bater na porta, era Mike.

— Abre essa merda aqui! — berrou batendo freneticamente na porta, Josh lançou um olhar a Chester e o mesmo foi abrir a porta, Mike entrou. — Josh, a gente precisa ir a superfície. — disse de forma dramática.

— Eu até imagino o motivo. — Josh disse abotoando a sua flanela.

— Se for roupas, então imaginou certo. Precisamos ir as nossas casas pegar roupas. — Josh encarou Mike.

— Você aceita ir comigo? — Mike fez uma careta pensativa e encarou o teto.

— Eu não tenho nada para fazer mesmo.

— Isso foi um sim ou não?

— Tá, Josh, eu vou, eu vou. — disse impaciente. — Quando iremos?

— Deixa eu terminar de me arrumar e aí iremos, tá certo? — Mike fez que sim com a cabeça.

— Tudo bem. Oi, Chester. — disse e saiu do quarto.

— Eu queria ir também. — Chester resmungou.

— Você não pode ir conosco. — encarou o pai com indignação.

— Por quê? — perguntou com raiva.

— Porque dois é o bastante e isso pode ser perigoso. — parou de pentear o cabelo e encarou Chester. — E eu não quero colocar a vida do meu filho em perigo, entendeu? — beijou a testa dele. Chester havia entendido, mas estava com raiva mesmo assim. — Agora, vai lá no seu pai e peça a chave do carro para ele, por favor. Eu não sei o que me deu para deixá-lo tomando conta da chave do carro. — disse sorrindo.

— Tá, eu vou lá. — Chester disse e saiu do quarto, indo até Paul, que ainda estava na cadeira de massagem, que tremia muito, e pedindo a chave a ele, que lhe entregou assim que a cadeira parou de tremer.

//

(Alexa)

Após uma noite de sono muito bem-vinda, porém, pessimamente aproveitada, Alexa acordou ainda pela madrugada, assim ela esperava pois ela não tinha relógio e seu celular estava descarregado, além disso, não havia como saber se era dia ou noite nas Favelas Baixas sem ser pelas horas pois o lugar é subterrâneo e a luz solar não chega lá de forma alguma.

Cansada, porém, desperta, Alexa foi ao banheiro do quarto e tomou um rápido banho, um banho proveitoso que a fez esquecer brevemente do Fórum Norte.

Como não havia outra roupa, ela vestiu a mesma, enxugou seus cabelos volumosos e se jogou na sua cama novamente pronta para dormir de novo, só que o sono não vinha de jeito nenhum.

Alexa deitou reta na cama e encarou o teto marrom do quarto da pousada de Zã, aliás, Zã era uma pessoa que não saía de sua cabeça por causa da semelhança dela com Anna, tudo era idêntico, as exceções eram a altura e a personalidade. Anna também era uma pessoa que a preocupava e a enchia de perguntas, ela queria muito saber o que aconteceu com a mulher que, tecnicamente, salvou a sua vida. Além dela, havia mais uma incógnita chamada Rick, ela não fazia ideia de onde ele estava, se ele estava vivo ou morto, ela não sabia de nada, mas ela queria saber. O problema? Não havia como.

Com uma carinha abatida, ela encarou a pequena janela de vidro do quarto e andou até a mesma. Ela abriu a janela e sentiu a brisa leve da madrugada e o frio dos inúmeros ar-condicionados espalhados pela parede de terra que cerca das Favelas.

Ela se permitiu até sorrir pois o vento e o frio daquela madrugada estavam realmente agradáveis, porém...

— Alexa, por que você está acordada? — Jules perguntou com uma voz sonolenta. Alexa se virou para trás e viu Jules sentada na cama coçando os olhos e soltando um longo bocejo.

— Eu estou sem sono, desculpa ter te acordado. — disse fechando a janela.

— Não precisa se desculpar, eu não estava com sono mesmo. — se espreguiçou de uma forma intensa. Alexa a encarou incrédula.

— Imagino. — andou até a sua cama.

— Você está bem? — Jules a encarou preocupada, Alexa se sentou na sua cama.

— Só estou com um pouco de dor de cabeça, a minha noite foi agitada. — inventou uma desculpa.

— Entendo, eu e o Mike tivemos uma noite bem agitadinha, também. — Jules se levantou e se sentou na cama de Alexa. — Então, o que você descobriu lá? — Alexa ficou nervosa, mas disfarçou bem.

— Quase nada. — pela demora em sua resposta, Jules pensou na hipótese de Alexa estar mentindo.

— Sério? — Jules a encarou seriamente. — O que você esconde, Alexa? — Alexa se tremia de medo.

— Desde quando você é tão perceptiva? Merda. — disse um pouco irritada.

— Tudo bem, não precisa me contar se não quiser, embora alguma hora você irá falar. Fica calma. — abraçou a amiga de lado.

— O Rick é o assassino. — Jules desabraçou Alexa e a encarou surpresa.

— O... Pai do... Nico? — perguntou confusa.

— Sim, ele me contou tudo, palavra por palavra, ele iria me matar, sabia? Essa era a missão dele. — disse triste, Jules se sentia desnorteada.

— Eu não o conheço muito bem e não sei do que ele é capaz, mas você o conhece a mais tempo que eu. — disse isso de forma aleatória. — Você tem certeza disso, Alexa? É uma acusação grave.

— E eu iria brincar com uma situação dessas, Jules? — elevou o tom de voz. — Desculpa, eu só estou nervosa. — Jules se sentou ao lado dela na cama.

— Eu entendo, você o conhece desde criança, né? — Alexa concordou que sim com a cabeça. — Deve ter sido um choque enorme. — a abraçou de lado mais uma vez. — Ei, por que ele queria matar você?

— O Extermimium. — Jules ficou assustada.

— Isso foi a mesma coisa que Adam Ierg disse a mim e ao Mike e foi a mesma coisa que a mãe do Nico disse a ele. — ficou pensativa. — Alexa, precisamos descobrir urgente o que é esse Extermimium e o que temos a ver com isso.

— A única coisa que sabemos é que envolve nossas mortes.

— E a outra coisa que sabemos é que envolve Ray Lotus. — elas se entreolharam com medo.

— Que situação. — Alexa disse se levantando da cama.

— Alexa, você já conversou com o Nico sobre isso? — a negra encarou Jules incrédula.

— Eu não tenho coragem de dizer nada a ele. Ele é meu melhor amigo e eu sei que a reação dele não será a das melhores. — disse triste.

— Mas você precisa falar para ele. Quanto mais cedo melhor. — Jules tentou encorajar a amiga, mas não funcionou.

— Eu não quero ser a responsável por deixar o Nico em cacos. Você não tem noção do quanto ele venera o Rick, Jules, e não é um simples segredo. — se sentou na cama novamente com a mãos no cabelo.

— Eu sei, mas você sabe que essa é a coisa certa a se fazer, não sabe?

— Sei, o problema é que não me sinto preparada o suficiente para contar. Na verdade, eu ainda não digeri essa informação muito bem. — Jules entendeu a amiga e decidiu para de pressioná-la.

— Tá. Se não quiser, não conte, sem pressão. — se levantou da cama de Alexa e foi para a sua. — Agora eu vou ficar refletindo na minha cama sobre o Rick, devo admitir que estou chocada com essa informação, enfim, boa noite, Alexa. — disse se deitando na cama sua cama.

— Boa noite, Jules. — Alexa se cobriu inteiramente com o lençol e ficou pensando na vida e nas coisas que passou no Fórum Norte, enquanto Jules dormia pensando nas coisas ditas por Alexa.

//

(Chester)

— Eu não posso mesmo ir? — Chester estava pedindo para o pai pela milésima vez, enquanto Josh e Mike andavam até o carro.

— Pela enésima vez, não. — Josh disse sério. — Chester, eu te amo, mas, por favor, vai se ocupar. — encarou o filho com um meio sorriso. — O tédio tá te afetando, vai comer alguma coisa, sei lá, puxe um papo com a Zã.

— Vamos logo, Josh. — Mike gritou de dentro do carro.

— Tá. — Chester disse e deu um rápido abraço no pai. — Traga as roupas que eu te falei, entendido? — Josh revirou os olhos. — Não esquece nenhuma.

— Não vou, dá um beijo no seu pai por mim e tchau. — Josh entrou no carro, que partiu logo depois.

Chester viu o carro indo ao longe e voltou para a pousada, onde encontrou Zã e a senhora ruiva conversando e rindo feito duas amigas de longa data. Ele se aproximou sorrateiramente.

— Eu posso conversar com você? — perguntou a Zã, ela o encarou e pediu gentilmente que a moça ruiva fosse para outro lugar. Quando a moça finalmente saiu do caixa, Zã falou:

— Sobre?

— Você parece ser uma pessoa bem vívida, parece já ter passado por muita coisa e...

— Seja direto, tenho coisas a fazer.

— Certo, é... Você sabe algo sobre a Floresta Quebrada? — Zã encarou o teto.

— Sim, eu já estive nesse lugar maldito. — disse com nojo, Chester perguntou com timidez:

— Como é lá?

— É normal, mas é assustador e as árvores são repletas de espinhos e os animais são super estranhos, diria exóticos. — Chester ficou cada vez mais curioso.

— Sem querer sem um enxerido, mas já sendo, o que você foi fazer lá? — Zã soltou uma gargalhada.

— Foi um dia icônico, porém, desesperador. Eu e a Resistência Favelada fomos até Estância em uma fracassada tentativa de diálogo com aquele rei maldito. — disse com raiva.

— Pelo visto, você não gosta muito do Lesson. — ela bateu com a mão na mesa do caixa.

— Eu sou obrigada a ter empatia por aquele crápula? Não mesmo. Ele é um péssimo governante. Vocês, os lá de cima, não percebem isso porque são privilegiados. — disse com um ar de tristeza. — Ah, Chester, se você soubesse a diferença que é viver aqui embaixo e viver lá em cima... Você se assustaria. — Chester a encarou com um olhar de curiosidade.

— Aqui é um lugar tão ruim assim? Essa pousada parece o máximo. — Zã soltou uma risada triste e encarou Chester com um olhar saudosista.

— A linda e bela inocência. — tocou brevemente no rosto do garoto. — Chester, eu sou a prefeita e eu sou privilegiada, diferente do resto dos moradores. Esse bairro aqui é o Centro, mas existe uma parte das Favelas que ninguém ousa entrar: Candala. — o garoto ficou curioso.

— O que tem de tão... O que tem em Candala?

— Candala é a personificação da desgraça humana. É uma definição assombrosa, mas é a que mais se encaixa. É um lugar pobre, sem infraestrutura, com pessoas à beira da morte, é um local cheio de viciados... Chester, Candala é uma depressão.

— Por que você não tenta mudar isso? Você é a prefeita, oras. — disse com indignação, Zã o encarou com vontade de chorar.

— Chester, você tem uma noção de como as Favelas Baixas surgiram? — o garoto ficou pensativo.

— Eu não faço a menor ideia. Na verdade, tem a versão que nos contam na escola, mas eu sempre a achei estranha e cheia de furos.

— É porque a versão da escola é estranha e cheia de furos. — ela respirou fundo. — Yoz, o primeiro rei de Früh, mandou construir um lugar subterrâneo para acabar de vez com as coisas que ele e grande parcela da sociedade achavam "erradas", assim nasceu a Favela Subterrânea. Inicialmente, iria ocorrer um extermínio em massa. Pobres, negros, gays, deficientes, enfim, todas as pessoas consideradas "erradas" foram mandadas para a Favela, todas seriam executadas, mas uma pessoa mudaria o rumo disso tudo: Atenas.

— Ela é a filha de Yoz, certo? A família real me deixa bastante confuso. — Zã acenou que sim com a cabeça e continuou a contar a história:

— Atenas descobriu o plano do pai em criar uma sociedade livre de "erros" e não aceitou nada daquilo, pelo contrário, ela o contestou. Na época, ela tinha apenas 19 anos e era uma soldada bastante eficiente. Assim, Atenas declarou guerra ao pai para se aliar aos "erros" da sociedade e lutar por eles. A guerra ficou conhecida como "A Guerra Errática". Essa guerra não teve grandes consequências para Atenas, ela apenas acabou com os planos do maligno pai de ter uma sociedade perfeita. O problema viria mais para frente.

— Spät é o problema, né? E tem outra versão, né? — Zã acenou que sim. — Uau.

— Senta que ainda tem história. — pigarreou. — Atenas descobriu que o pai ainda almejava a "sociedade perfeita" e decidiu se rebelar, negando sua herança real e criando o próprio distrito: o distrito de Spät. E aqui começa a Guerra Civil de Früh. De um lado: Atenas e os revolucionários; do outro, Yoz e o exército. Atenas só conseguiu ganhar essa guerra graças a impopularidade de Yoz e graças a um ato extremamente marcante que culminou no fim de um mandato autoritário e no fim de uma guerra sangrenta: a morte de Yoz. Atenas matou o próprio pai. — Chester deu um pulo, o susto foi grande.

— Não nos falaram isso na escola, Zã. — ela deu um meio sorriso.

— Querido, a escola omite tanta coisa, mas a verdade é essa: Atenas matou o pai pelo bem das Favelas Baixas e por Spät e acho que por ela mesma. O problema mesmo é a bomba que assumiu o trono: Lesson. Ele é um homem mimado, histriônico e sem nenhum afinco para governar. Ele é um político impopular, mas se você dizer isso, você está praticamente morto, coisa que não se faz em uma democracia. — Chester ficou pensativo.

— O que isso tem a ver com Candala? — Zã baixou a cabeça e respirou fundo.

— Praticamente tudo. Quando Atenas descobriu que o pai iria exterminar as pessoas da Favela Subterrânea, já era tarde demais. O plano de Yoz era um genocídio gradual, mas as pessoas trazidas para cá haviam se multiplicado e se espalhado a exaustão, isso criou divisões sociais e grupos. As pessoas que moram em Candala são a parcela mais miserável da população daqui, geralmente são viciados em drogas e pessoas com baixa escolaridade, e o pior é que a maioria são negros e todos descendem das pessoas que Yoz trouxe forçadamente para cá. Os moradores da Favela Alta são os mais privilegiados, porém, sofrem de problemas. Yoz trazer os "erros" da sociedade para cá transformou esse lugar em um erro. — Chester estava tentando entender o que Zã queria dizer. — Eu adoraria que esse lugar nunca tivesse existido, quantas vidas seriam poupadas de viver em Candala? Quantas vidas seriam poupadas de viver aqui caso Yoz não tivesse uma ideia completamente preconceituosa e antiquada? Tentar mudar e tentar melhorar Candala não adianta. Os moradores se recusam a mudanças e detestam gente de fora. Ah, Chester, as Favelas Baixas é a personificação da desigualdade social e o mais engraçado disso tudo? A Zona Sul fica ali em cima. — seus olhos estavam começando a marejar. — A parte mais rica da cidade fica acima da parte mais pobre da cidade. Eu não tenho nem palavras para descrever isso. — disse revoltada, porém, triste.

— Por que Spät não ajuda vocês? — perguntou triste.

— Eles tentam. Atenas e Mitchell tentam, porém, toda ajuda é barrada antes de chegar até nós. Graças ao Tratado de Albuquerque, que conseguimos há poucas semanas, a esperança de que possamos sair desse status quo de pobreza constante é gigantesco. — Chester a encarou triste.

— Eu não sabia que a história desse lugar era tão trágica assim, eu não sei nem o que dizer, Zã. — Zã o encarou com um sorriso triste.

— Não precisa, Chester, você é só um garoto, você é da superfície, você é privilegiado, ter pena de nós não irá mudar nada. Palavras não mudam muita coisa, depende do contexto e neste não se aplica, mas as ações mudam e é destas duas coisas que precisamos: ação e mudança. O chato é que o caminho para que isso aconteça não é fácil. Com tanta propaganda negativa sobre as Favelas decolando na superfície, a vontade de mudar até morre. — ela falava tudo com um pesar gigantesco, como se fosse uma espécie de desabafo.

— Não desista, Zã, você e a Resistência não podem desistir das Favelas. — ela o encarou esperançoso.

— Eu sei, eu deveria lutar pelo meu lar, mas lutar cansa, sabia? E lutar com palavras e não com ações cansa mais ainda. — suspirou. — Não acredito que estou desabafando com um garoto que conheci não faz nem dez horas. — disse abobalhada.

— Não tem problema, eu gosto de ouvir as pessoas falarem. — sorriu.

— Resumindo tudo que eu te contei, que não foi pouca coisa, as Favelas Baixas é o abismo da desigualdade social. Mesmo com Spät tentando nos ajudar, eles não ajudam muito, e a monarquia de Lesson nos nega praticamente tudo. Você vê algum nativo das Favelas saindo daqui para a Zona Sul? Você vê negros na Zona Sul? A sua amiga, a Alexa, eu a conheço porque ela é da família Talahasse, que descende de alguns membros da família real, logo, são privilegiados, queria poder dizer o mesmo das pessoas daqui. Sabe por que os seus pais estão vivos ainda? Porque ambos são estilistas de uma grife de roupas renomadas e chiques, o privilégio de vocês é a riqueza. Desculpa, Chester, mas é isso. — fez um breve silêncio. — Sem verba e contando com as poucas migalhas que chegam de Spät, esse lugar parece estar condenado e discursos clichês como "não desista" não irá mudar quase nada. — disse envolta de uma forte tristeza. — Como eu odeio Yoz e como eu odeio essa monarquia maldita. — disse com raiva.

— Eu entendo a sua revolta.

— Compreender é diferente de entender. — se levantou do balcão. — Mãe, cuida do caixa, por favor. — a moça ruiva apareceu. — Chester, vamos comer algo, você parece está com fome. — a barriga do garoto roncou e ele soltou uma risadinha besta.

— Tá, e eu preciso de mais histórias, Zã, eu quero compreender o mundo em que eu vivo, eu quero entender as coisas, questioná-las se preciso for. — ela o encarou e sorriu.

— As melhores pessoas são assim. — fez um rápido carinho nos cabelos do garoto.

//

(Alexa)

— A Muralha de Früh é uma construção feita para nos proteger e tem um formato de círculo, circundando toda a cidade de Früh. — a professora de história iniciava a aula. — A muralha tem quase 70 metros de altura e é impossível escalá-la pois ela é repleta de sensores de movimentos e ela é vigiada 24 horas por dia pelos mais diversos guardas reais. — uma garota levantou a mão. — Diga, Alexa.

— Por que não podemos subir? — a professora encarou a garota seriamente e tentou pensar em uma resposta a altura. — É por que venta muito?

— É perigoso, não podemos sair da cidade murada, o que tem além da muralha é um mistério, um mistério que não podemos solucionar, um mistério que só os maiorais da monarquia sabem, teoricamente. — a professora estava nervosa.

— Professora, algum dia a gente vai poder sair dessa cidade? — um aluno perguntou inquieto.

— Eu quero sair dessa cidade, aqui é um lugar bem chato e monótono. — uma aluna falou com desinteresse.

— A gente bem que podia fazer um complô para pular a muralha como forma de matar tédio, o que acham? — um aluno "popular" disse, um falatório se iniciou.

— Não! Não importa o que aconteça, nunca tentem pular a muralha, vocês não lembram dos sensores de movimento e a permissão que a guarda real tem de matar qualquer um que ouse escalar não importa qual seja a sua classe social? Pois é. — ela parecia nervosa.

— O que será que a monarquia esconde além da muralha? — Alexa perguntou a professora, que ficava cada vez mais nervosa a cada palavra dita pelos alunos.

— Eles não escondem nada, Alexa. — disse trêmula.

— Então por que não podemos subir ou pular a muralha?

— Porque é perigoso! Qual parte disso você não entendeu? Qual parte disso vocês não entenderam? — ela estava ficando com raiva.

— Isso não faz sentido. — uma aluna falou.

— Não questionem, apenas obedeçam. — disse seriamente. — Abram na página 237, vamos falar sobre a Guerra Civil de Früh.

Alexa acordou assustada após ter se lembrando de uma aula com sua professora de história sobre a história da cidade murada.

Ela olhou para o lado e viu que Jules não estava mais lá.

Ela se espreguiçou e saiu do quarto, encontrando um corredor vazio. Como estava com muita fome, decidiu ir até o pequeno restaurante da pousada. Ao chegar lá, encontrou Zã e Chester sentados em uma mesa comendo macarronada, enquanto conversavam sobre alguma coisa e, pelo olhar de ambos, parecia ser bem sério.

Embora não quisesse se intrometer, Alexa estava muito entediada e decidiu andar até os dois.

— Bom dia. — disse gentilmente se sentando na cadeira ao lado de Chester.

— Bom dia. — Zã e Chester falaram ao mesmo tempo.

— Sobre o quê conversam? — os dois se entreolharam. — O cardápio, por favor! — disse para o garçom.

— Sobre Früh. — Chester respondeu. — Sobre as coisas erradas que nos contam sobre a cidade na escola. — a garota ficou curiosa.

— Tipo o quê? — Zã encarou o teto.

— Muita coisa. — respondeu e bebeu água em um copo. — Enfim, Chester, eu já vou indo. Nos vemos mais tarde. — Alexa e Chester deram tchau com as mãos e Zã voltou para a recepção da pousada.

— Você tá bem? — Chester perguntou para Alexa.

— Mais ou menos, tive uma noite de sono ruim. — bocejou. — Chester, você lembra da Professora Marina? — o garoto ficou pensativo.

— Lembro, a estagiária de história, ela vivia se tremendo e tomando café.

— Você sabe por que ela saiu da escola? — Chester parou de comer e ficou encarando a Alexa.

— Você não soube? Ela foi demitida, a diretoria alegou que o método de ensino dela era "ruim", eu não achava que ela ensinava mal, ela só se tremia muito. — disse sorrindo, Alexa lembrou do sonho que teve.

— Quando que ela foi demitida?

— Início do ano. — Alexa tomou um susto. — Perto do fim do mês, acho que por volta do dia 27 de janeiro. — a aula sobre a muralha de Früh foi no dia 26... — Alexa, você tá bem? — ele ficou preocupado com a amiga.

— Chester, o que você acha que tem depois da muralha? — o garoto ficou confuso.

— Por que está me perguntando isso? — ela o encarou seriamente nervosa.

— Eu tive aula com ela um dia antes de ela ser demitida e ela nos falou sobre a muralha de Früh.

— Conta mais.

— Foi uma aula que tomou contornos estranhos por causa dos questionamentos dos alunos. Ela nos disse que o que há além da muralha é um mistério que só as pessoas do alto escalão da família real sabem. — ele a encarou sério.

— Onde você quer chegar?

— Eu acho que a Marina foi morta por saber e falar demais.

— Alexa, por que isso agora? — a garota encarou o cardápio.

— Eu não sei, eu só tive um sonho que foi uma lembrança do último dia que a Marina deu aula e... Porra, não é estranho não sabermos o que existe além da muralha? — perguntou frustada.

— Não necessariamente, nós temos uma vida perfeita aqui. — lembrou das coisas ditas por Zã. — Digo... — ficou triste.

— O que será que existe de tão misterioso além daquela maldita muralha e por que eles escondem isso de nós? Nós nem sabemos a quanto tempo aquela muralha existe. — disse com raiva.

— Será que a gente pode comer? Depois a gente conversa sobre isso. — encarou o prato de comida farta a sua frente. — Alexa, eu... Eu preciso ir em um lugar, você pode vir comigo? — ela estranhou o pedido.

— Para onde vamos?

— Para Candala.


Notas Finais


bjs do K :3


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