História Cilada Para Um Marquês - Capítulo 8


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Categorias Orgulho e Paixão
Personagens Aurélio Cavalcante, Julieta Sampaio Bittencourt "Rainha do Café"
Tags Aurieta
Visualizações 37
Palavras 4.934
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Romance e Novela

Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 8 - Capítulo 8


Escândalos & Canalhas

Junho de 1833

COMPROMISSOS DA CINDERELA BORRALHEIRA: DESPERTAR... BANHAR-SE... FLERTAR?

***

A noite caiu e Aurélio a deixou dormir por várias horas antes de solicitar uma banheira e água fria, para então, quando ela começou a se remexer debaixo das cobertas, pedir água quente. Depois que o vapor se elevou da banheira de cobre e as mulheres que carregaram os baldes foram pagas, ele esperou que Julieta acordasse. Ele a observou de seu lugar, encostado na parede do quarto pequeno, seu foco no rosto feminino à luz da vela enquanto Julieta emergia do sono profundo e o conforto do descanso dava lugar à dor no ombro. A dor da realidade.

Aurélio se perguntou se seu pai já estaria morto. A carta de Agnes pedia urgência. Era possível que Aurélio já fosse o Duque de Lyne. Talvez ele tivesse perdido sua chance de dar a última e punitiva palavra para o homem que o castigou a vida inteira. Que arruinou sua chance de ter uma família. Felicidade. Amor.

Uma lembrança surgiu, espontânea. Aurélio no labirinto de cerca-viva da propriedade Lyne, com seu pai atrás dele, revelando-lhe o mapa.

“Segunda à esquerda e primeira à direita, depois primeira à esquerda e primeira à direita. Até o centro”, o duque disse, estimulando-o a continuar. “Vá em frente. Até o centro.” Aurélio seguiu em frente e, no centro, seu pai lhe contou a história de Teseu e o Minotauro.

“Quem somos nós?”, Aurélio perguntou.

“Teseu, é claro!”, o duque exultou. “Grandes heróis!”

Aurélio desencostou da parede com a lembrança. Heróis. Que mentira de merda. Ele se aproximou de Julieta. Não podia mais perder tempo com aquela garota que estava se revelando um ciclone de escândalos. E Londres dizia que ela era a irmã Sampaio mais sem graça e entediante. Ele soltou uma risada abafada ao pensar nisso. Se pudessem vê-la agora, dormindo com um ferimento de bala no ombro, usando uma identidade falsa, em cima de um pub no meio do nada... Julieta Sampaio não tinha nada de entediante.

Ela iria se casar. Por que diabos ela não lhe contou isso desde o começo? Aurélio sabia como eram as mulheres que desejavam se casar por amor. Ele tinha sido o amor em questão, certa vez.

Quem era o amor de Julieta? Se ela estava fugindo de Londres para o exílio, com planos específicos de um futuro com esse sujeito chamado Robbie — embora Aurélio questionasse a masculinidade de um homem adulto que use o nome Robbie —, por que não tinha lhe dito isso?

Robert seria um nome melhor para o marido dela. Mais viril. Com mais probabilidade de cuidar dela. Não que Aurélio se importasse com isso.

Enquanto pensava, Julieta franziu a testa e sua respiração ficou mais rápida. Ela acordaria logo e detestaria o que o despertar lhe traria.

Aurélio sentou-se ao lado dela na cama. Dizendo a si mesmo que estava só verificando a temperatura de Julieta, ele colocou o dorso da mão na testa fria dela e sentiu alívio quando viu que ela não estava febril. A ruga no centro da testa dela ficou mais pronunciada e, sem conseguir se segurar, ele alisou aquele vinco entre as sobrancelhas com o polegar.

Ela se acalmou com o toque, e Aurélio ignorou o prazer que sentiu ao mover a mão para o rosto dela. Ele não queria ser o bálsamo dela. Julieta era um problema e ele já tinha bastante disso sem ela... Mas Aurélio não retirou a mão.

“Julieta”, ele pronunciou suavemente o nome dela, dizendo para si mesmo que só queria acordá-la para o banho que ela parecia desesperada para tomar e não porque desejava ver seus profundos olhos castanhos. Ela suspirou e acomodou o rosto na mão dele, mas não acordou.

“Julieta”, ele repetiu, ignorando o fato de que gostou do som do nome dela em seus lábios, ignorando o fato de que não devia continuar com a carícia, mas continuou. Ele se maravilhou com a maciez da pele dela, os fios sedosos das sobrancelhas, a sombra escura de seus cílios na pele clara, o tom rosado dos lábios...

Ele tirou a mão como se a tivesse queimado e se pôs de pé num pulo. Não devia reparar na cor dos lábios dela.

Julieta tinha pedido um banho e ele o providenciou. Essa era toda a interação dos dois naquele momento. Ele precisava manter suas mãos — e observações — para si mesmo.

“Julieta”, ele disse com voz mais alta e firme. Ela abriu os olhos e deu de cara com ele. “Seu banho”, ele anunciou.

Puxando as cobertas até o queixo, Julieta olhou para a outra extremidade do quarto.

“Trouxeram enquanto eu dormia?” 

“Sim.”

“As pessoas me viram?”, sua voz não era mais alta que um suspiro. 

“Isso importa?”, ele sorriu.

“Mas é claro!”, ela arregalou os olhos.

“Não viram. Eu coloquei o biombo ao lado da cama.”

 “Obrigada”, ela aquiesceu.

“Mas eu a vi”, ele disse, incapaz de não provocá-la. “Isso não a incomoda?” 

“Você não conta”, ela respondeu. Aquelas palavras não caíram bem.

“Como é que é?”

“Você não gosta de mim.”

“Não gosto?”

Julieta meneou a cabeça.

“Não. Você já enumerou seus motivos”, ela fez um esforço para se sentar e estremeceu. “Mas você fez o possível para eliminar o motivo mais ofensivo, e eu o agradeço.”

“Não tenho nada contra você.” 

“Que bela declaração.”

Aurélio gostava de Julieta quando ela não era irritante. Ele decidiu mudar de assunto.

“Eu também consegui um vestido para você.”

O olhar dela recaiu no vestido cinza e simples pendurado no biombo. Ela acenou a cabeça em aprovação. “Você pode chamar Mary?” 

“Por quê?”

“Preciso de ajuda.”

“Eu posso te ajudar.” 

“Não com isso”, Julieta negou com a cabeça. 

“Que é o quê?”

“Meu lorde, não posso tomar banho com você”, ela protestou corada.

Ela não pretendia que aquela declaração o provocasse. Cristo, ela estava coberta pelos restos de sua aventura — sangue, gim, terra e Deus sabe mais o quê. E é claro que banhos exigem a ausência de roupa. Mas por algum motivo, a sugestão tácita da nudez dela o deixou rígido e excitado no mesmo instante. Ela iria se casar, maldição.

“Eu posso ajudar”, ele insistiu, sabendo que estava sendo grosseiro sem necessidade.

“Não”, ela sacudiu a cabeça. 

“Por que não?”

Ela olhou para Aurélio como se ele fosse um imbecil. “Você é um homem.”

“Pensei que eu não contava.” Julieta revirou os olhos. 

“Nisso você conta.” Ele deveria ter feito o que ela pedia. Ir chamar a outra garota e deixar as duas cuidarem do banho. Mas os últimos dias deixaram Aurélio com disposição para criar ainda mais polêmica. 

“Ela não pode vir.” 

“Onde ela está?”, Julieta estranhou. 

“No quarto que eu estou pagando, como você pediu.” 

“Você mereceu isso por dizer que éramos casados sem minha permissão.” 

“Eu devia esperar que você recuperasse a consciência para definir nosso relacionamento?” 

“Você poderia ter dito a verdade”, ela disse.

“Mesmo?!”, ele exclamou. 

“Você acha que isso teria ajudado na sua situação?” Ela suspirou, e Aurélio viu que tinha ganhado.

“Estamos no meio da noite e Mary tem que cuidar de duas crianças”, ele disse com naturalidade. “Se você quer um banho, terá que aceitar minha ajuda.” Ela apertou os lábios e pousou os olhos na banheira fumegante. 

“Você não pode olhar.”

“Eu não sonharia em fazer isso.”

Aquela deve ter sido a mentira mais deslavada que ele já contou. Mas de algum modo ela acreditou, anuindo e afastando as cobertas para se levantar da cama. Julieta ficou de pé, com o topo de sua cabeça na altura do queixo dele. Aurélio resistiu ao impulso de ajudá-la a atravessar o quarto.

“Como se sente?”, ele perguntou, percebendo a rouquidão na própria voz. Ele pigarreou.

“Como se tivesse levado um tiro, eu acho.” 

“Espertinha”, ele arqueou uma sobrancelha. Ela sorriu. 

“Meu ombro está dolorido e eu sinto como se tivesse dormido por uma semana.”

Ele foi até a lareira que ardia ao lado da banheira e pendurou uma chaleira sobre as chamas.

“Mais chá para quando você tiver se banhado”, ele disse, voltando-se para ela. “Tem comida também.”

Tais palavras provocaram um ronco baixo nela, e Julieta levou as mãos à barriga. Suas faces ficaram vermelhas e Aurélio sorriu. 

“Então você está com fome?” 

“Parece que sim.”

“Comida depois do banho, e então o chá. Depois, você vai dormir.” 

“Você é bem autoritário”, ela o encarou. 

“É um talento que tenho.”

“Talento que combina com você ser chamado de Rei.” 

“Nome é destino.”

Ela ignorou isso e passou por ele a caminho da banheira alta de cobre. 

“Obrigada”, ela agradeceu, virando-se.

Aurélio voltou ao seu lugar junto à parede, braços cruzados, observando-a com atenção.

“Não tem de quê.”

Julieta estendeu a mão, os dedos longos riscando a superfície da água quente enquanto suspirava de alegria pelo banho. O som ecoou pelo quarto — prazer puro e autêntico. Uma delícia.

Aurélio ficou rígido. Ele não estava interessado no prazer daquela mulher. Só precisava convencer seu próprio corpo disso.

Como se alguém pudesse convencê-lo de que não estava interessado no modo como a camisola emprestada aderia aos seios dela, como ficava mais larga na cintura e colava nas curvas dos quadris e das coxas. Ele também não tinha interesse no que mais aqueles dedos poderiam tocar.

Aurélio levantou os olhos e encontrou os dela, fixos nele. Ele tossiu. “Não vai tomar seu banho?”

“Vou, assim que você virar de costas”, ela franziu o cenho. “E se você precisar de ajuda?”, ele não queria virar de costas.

“Não vou precisar”, ela meneou a cabeça. 

“Mas pode precisar”, Aurélio semicerrou os olhos. 

“Então você vai estar a poucos passos de distância. Pronto para agir como meu salvador, ainda que não queira.”

Ele fez uma careta ao ouvir isso e se virou, como ela pediu. De todo modo, assistir a Julieta se despindo seria a mais elevada forma de masoquismo, visto que ele não tinha intenção de tocá-la. Virar de costas era mesmo o melhor a fazer. Só que não. Aquilo era a mais absoluta tortura.

Ele percebeu seu erro de imediato, no momento em que ela começou a tirar a camisola, com o som do tecido deslizando sobre a pele, a respiração acelerando enquanto Julieta lidava com a ferida, o som contido, quase inaudível quando ela deve ter mexido o braço dolorido.

“Você precisa de ajuda?”, ele perguntou, as palavras destoando no quarto silencioso.

Ela ficou um instante em silêncio antes de emitir sua resposta suave. “Não.”

Ele pigarreou.

“Tenha cuidado com o braço.” 

“Eu tive.”

Tempo passado. Cristo. Os ombros dela estavam nus.

No momento em que esse pensamento surgiu, ele ouviu a prova, o farfalhar do tecido sendo forçado pelos quadris, o som rítmico que o fez pensar em como ela os movimentava para facilitar a passagem. Rebolando.

Ele crispou os punhos e se apoiou na parede, sua imaginação correndo solta. A respiração dela acelerou um pouco, mas não tanto quanto a dele. Nem de perto tão acelerada quanto o coração de Aurélio. Nem de perto tão acelerada quanto a pulsação em outras partes dele.

Então ele ouviu o som das pernas do banco de madeira arranharem o chão quando Julieta subiu nele, e depois entrou na banheira e afundou na água com um suspiro glorioso, chocante, enquanto mergulhava em seu prazer puro e autêntico. Aquela era, de longe, uma das piores noites da vida dele.

Aurélio precisou de toda energia de que dispunha para não se virar. Para não ir até ela. Para não olhar para a maldita banheira e sorver aquela visão de Julieta, corada e rosada pelo calor. Pelo olhar dele.

Cristo. Ele não a queria. Mas queria. Ela iria se casar. Com um caipira chamado Robbie.

Onde diabos ela o teria conhecido? Por que estava planejando casar com alguém de Cúmbria? Ele enfiou as mãos nos bolsos. Aurélio não se importava. Ela era sem graça, respeitável e desinteressante... Mentiroso.

E então Julieta começou a se lavar e o marquês segurou o impulso de rugir de frustração ao ouvir o som da água na pele dela, na banheira, chapinhando e escorrendo enquanto ela se banhava. Ele imaginou braços e pernas aparecendo acima da borda da banheira enquanto um tecido molhado deslizava por sobre a pele clara e perfeita. A cabeça dela inclinada para trás enquanto lavava o pescoço e o peito, as mãos se movendo lentamente, com prazer infinito, por todo o corpo, acima e abaixo da água, sobre curvas e vales, para baixo e mais abaixo, até o tecido desaparecer e restar apenas a mão, com aqueles dedos penetrando na umidade de um tipo diferente... 

“Por que chamam você de Rei?” 

Aurélio quase saltou para fora da própria pele ao ouvir a voz dela. Ele fechou os olhos, apertou ainda mais os punhos, esforçando-se para encontrar as palavras. 

“É o meu nome.” barulho de água.

“Seus pais o batizaram de Rei?”

Ele exalou, desejando que aquele banho acabasse logo. “Reider.”

“Ah...”, ela emitiu e ficou quieta por um longo momento, parada também. “Que nome diferente.”

“Minha família se orgulha de ser diferente.”

“Uma vez eu estive no Castelo Lyne” A lembrança do lar de sua infância não foi bem recebida por Aurélio. Ele não fez nenhum comentário, mesmo assim ela continuou. “O duque abriu a propriedade para visitação por algum motivo. Havia um labirinto no jardim”, ele percebeu o sorriso na lembrança que ela tinha do lugar em que ele próprio havia pensado há pouco. “Minhas irmãs e eu passamos metade do dia perdidas lá dentro — eu encontrei o centro e passei uma ou duas horas lendo ali. Elas não conseguiram me encontrar.”

“Ele é considerado um dos labirintos mais difíceis da Grã-Bretanha”, ele disse. “É impressionante que você tenha encontrado o caminho até o centro. Quantos anos tinha?”

“Sete? Oito? Foi mágico! Você deve ter adorado viver ali quando criança.” O labirinto existia há gerações, cuidado com perfeição e quase nunca usado. Aurélio passou incontáveis tardes explorando as voltas e os meandros do labirinto, despistando professores e governantas sem dificuldade. A única pessoa que sempre conseguia encontrá-lo era seu pai. Ele pigarreou. 

“Era meu lugar favorito em toda propriedade.” 

“Imagino que sim. Era incrível.”

Havia reverência nas palavras dela e, por mais que não quisesse, Aurélio logo a imaginou ali, junto à fonte no centro do labirinto, com a estátua de mármore do Minotauro erguendo-se furioso acima dela. Aurélio pensou que, se estivesse com Julieta no centro do labirinto hoje, ela não estaria lendo.

Ele passou a mão pelo cabelo ao pensar nisso. Nunca estaria com ela ali. Nunca. Depois que ela estivesse bem, Aurélio se livraria dela. Finalmente. “Você viaja para casa com frequência?”

Por que ela tinha que puxar conversa? Assim ficava difícil ouvir a água batendo no corpo dela. “Não”, ele rilhou os dentes. 

“Oh”, ela disse, decerto esperando que ele falasse mais. “Quando foi a última vez que esteve lá?” 

“Quinze anos atrás.” 

“Oh”, ela repetiu, dessa vez mais suave, mais surpresa. “Por que vai até lá agora?”

“Você não lê as colunas de fofocas, não é?”, ele perguntou. Não era isso que as damas de Londres faziam entre bordados e chá?

“É verdade, e isso deixa minha mãe muito preocupada”, ela respondeu e Aurélio pôde ouvir o sorriso na voz. Ele quis olhar para ver se, de fato, ela sorria. “Mas eu não gosto do modo como falam das minhas irmãs.” 

“Você é muito leal.”

O olhar dela ficou distante.

“Não devia me incomodar tanto. Afinal, minhas irmãs adoram os BOATOS SAMPAIO. Elas estão o tempo todo competindo para ver quem produz a notícia mais escandalosa.” 

“Quem está vencendo?” Uma pausa no movimento da água indicou que ela mudou de posição na banheira.

“Hoje em dia é a Seline. A que está noiva de Mark Landry. Você o conhece?” 

“Conheço.”

“Bem, A Folha de Escândalos noticiou, várias semanas atrás, que o Sr. Landry ensinou Seline a cavalgar em uma deslumbrante égua preta, e depois a presenteou com o mesmo animal, o que fez meu pai exigir que os dois se casassem.”

“Por causa de um presente extravagante?”

“Porque o nome da égua é Godiva, o que sugere que Seline teria aprendido a cavalgar nua nos estábulos da propriedade Landry.” 

“Isso parece mentira”, ele observou.

“Para mim parece desconfortável. Cavalgar nua?”

Havia um sorriso na voz dela quando Julieta respondeu. Aurélio riu.

“Não preciso dizer”, ela acrescentou, também rindo, “que Seline adorou essa história ridícula. E o Sr. Landry também.”

“Ninguém pode dizer que Mark Landry não é um homem ousado.”

“E é provável que seja por isso que ele e minha irmã combinam tão bem”, ela respondeu. “Creio que você já tenha comprado cavalos dele.” 

“Comprei, e frequentamos o mesmo clube.”

“Acho difícil acreditar que Landry seja bem-vindo no White’s”, Julieta comentou. “Nunca o ouvi dizer alguma frase que não incluísse algo chocante.” 

“Não é o White’s”, Aurélio explicou. “Nós frequentamos o mesmo cassino.” 

“Oh... Nunca parei para pensar nos cassinos.”

“Você gostaria de lá”, ele disse. “Cheio de fofocas e escândalos... e tiroteios não são impossíveis naquele local.” Julieta riu.

“Creio que eu não seria bem recebida. Como já deixamos claro, não sei fofocas o suficiente para manter uma conversa." Houve uma pausa antes que ela insistisse. “E voltando a nós dois, por que você está indo para o Castelo Lyne?”

A leveza desapareceu do quarto com a pergunta dela, e por um longo momento Aurélio não respondeu, pois não queria perder o clima. Mas já tinha desaparecido.

“Meu pai está morrendo.”

Ela parou de se movimentar no banho. O silêncio tomou conta do ambiente ao redor deles, pesado e ensurdecedor. “Oh”, ela repetiu. “Eu sinto muito.” Ele se endireitou ao perceber a sinceridade na voz dela.

“Eu não sinto.”

Por que era tão fácil contar a verdade para Julieta?

Ela ficou em silêncio por longos minutos, a água parada à volta dela. “Não sente?”, ela perguntou, afinal. 

“Não. Meu pai é um cretino.”

“E você está voltando mesmo assim?”

Ele refletiu sobre a pergunta de Julieta e então pensou no pai, o homem que arruinou seu futuro tantos anos atrás. Que tinha pegado e destruído a única coisa que Aurélio queria. Que transformou a vida inteira de Aurélio em um projeto de vingança — a destruição da única coisa que o velho duque sempre quis. “Ele me chamou. E eu tenho algo para dizer ao meu pai.”

Mais tarde Aurélio não saberia dizer por que contou isso para ela. Mais silêncio. Então vieram palavras suaves. 

“Eu terminei.” 

Graças a Deus! Aurélio não se virou quando ela se levantou na banheira, nem mesmo quando ouviu a água esparrinhar ao redor dela quando Julieta voltou à banheira com um gritinho. Nem mesmo quando isso aconteceu uma segunda vez. Ele contabilizou quantias incríveis de crédito por todo aquele decoro cavalheiresco. 

“Algum problema?”, foi só o que ele perguntou. 

“Não”, ela disse e o som se repetiu mais uma vez. 

Ele arriscou um olhar por sobre o ombro. Foi um erro. Ele só conseguiu ver a cabeça dela por sobre a borda da funda banheira de cobre, mas se as faces dela serviam de indicação, Julieta estava limpa, rosada e perfeita. 

“Não olhe!”, ela exclamou. 

“Qual é o problema?” 

“Eu...”, ela hesitou. “Não consigo sair.” 

O que aquilo queria dizer? “Por que não?”, ele perguntou.

“Está muito escorregadio”, ela disse, a voz desanimada. “E meu ombro... não consigo me apoiar neste braço.”

É claro. Ele só podia estar sendo punido pelo universo! Aurélio se virou, já tirando o paletó.

“Não se vire!”, ela exclamou, afundando abaixo da borda da banheira.

Ele a ignorou e foi até ela, e sua frustração se manifestou como irritação enquanto ele enrolava as mangas da camisa.

“Posso lhe garantir, milady, que não desejo ajudá-la tanto quanto você não quer ser ajudada.”

Isso era verdade, ainda que por motivos um pouco diferentes do que ela poderia supor. Julieta olhou por cima da borda. “Bem, você não precisa ser grosseiro.” Outro homem poderia sentir uma pontada de remorso por ela tomar sua declaração como insulto e não como necessidade de autopreservação. Embora as mãos dela estivessem colocadas em posições críticas para esconder suas partes mais íntimas, não tiveram o efeito desejado. Na verdade, aquilo atraiu a atenção dele para a longa mecha sinuosa de cabelo escuro e tentador que descia pelo ombro dela até a água, e que o fez desejar, ardentemente, tocá-lo. E substituí-lo por seus lábios.

Aquilo era loucura. Aurélio manteve os olhos no rosto dela. Era necessário, se ele quisesse manter a sanidade. “Eu vou levantar você.” 

Julieta arregalou os olhos. “Mas eu estou...” 

“Tenho ciência da sua situação, milady.” Talvez se usasse o honorífico, ele não se sentiria tão inclinado a juntar-se a ela na banheira.

“Feche os olhos”, ela pediu. 

“Não.” 

“Por que não?” 

“Porque eu não quero derrubá-la de cabeça no chão. Se você quer olhos fechados, sugiro que feche os seus.”

Antes que Julieta pudesse argumentar, Aurélio se debruçou e a levantou, derramando água, que encharcou a camisa e as calças dele antes de formar uma poça no chão do quarto. Ela guinchou enquanto era erguida, e de fato fechou os olhos ao mesmo tempo que suas mãos procuravam os ombros dele para se equilibrar. Foi uma reação instintiva ao ser erguida, Aurélio não teve dúvida, mas foi um erro mesmo assim, pois com as mãos nos ombros dele, o resto dela ficou sem cobertura. O resto do corpo macio e rosado dela. Ele não estava mais olhando para o rosto dela. Julieta abriu os olhos e percebeu, e sua pele já rosa ficou escarlate.

“Ponha-me no chão!” Ele obedeceu, como se Julieta estivesse em chamas, e ela imediatamente se enrolou em uma toalha. “Você disse que não ia olhar!” 

“Não”, Aurélio a corrigiu. “Eu disse que não queria olhar.”

Julieta se afastou dele e foi para o outro lado da cama. Ela fez isso sem pensar, é óbvio, pois a lembrança da pele dela corada combinada à cama não ajudava a dissuadi-lo de seus pensamentos. Não que Aurélio agiria de acordo com o que pensava. Ele não queria Lady Julieta, maldição... Bem, ele a queria. Mas ele não queria desejá-la.

“Isso é apenas um argumento semântico.”

Ele tinha falado em voz alta? Não. Ela se referia ao olhar dele.

“Madame”, ele disse com seu tom de voz mais sério. “Nenhum homem bom da cabeça honraria essa promessa.”

“Um cavalheiro honraria”, ela apertou a toalha ainda mais à sua volta. Ele riu, e sua frustração tornou o som áspero.

“Posso lhe garantir que não. Nem mesmo o padre mais devoto.” Ela apertou os lábios, analisando-o.

“Você está molhado”, Julieta observou. “Sugiro que vá procurar roupas secas.”

Ele tinha sido dispensado. Por uma mulher altiva que não vestia nada além de uma faixa de tecido. Um homem mais fraco teria ido embora. E Deus sabe que Aurélio deveria ter ido. Ele deveria ter dado a ela tempo para se vestir e entrar debaixo das cobertas. Ter lhe permitido alguns momentos para saborear sua limpeza. Ter ido buscar comida para ela. Ter se recomposto.

Um cavalheiro teria feito tudo isso. Mas Aurélio não era um cavalheiro. Como se não tivesse sido ruim o bastante ele ter que sofrer a tentação dos sons de Julieta tomando banho, ele teve então que segurá-la, completamente nua, e fingir que não foi tocado por essa experiência, quando, na verdade, tinha sido muito tocado, como suas calças molhadas faziam questão de revelar.

Ele não tinha pedido por nada daquilo. Por ela. Ela o exasperou. E agora, mesmo sabendo que não deveria, Aurélio queria devolver a exasperação.

“Roupas secas, então”, ele disse, e se divertiu com o modo como ela aquiesceu, a vitória aparecendo nos olhos castanhos até o momento em que ele tirou a camisa para fora da calça e a puxou pela cabeça. A vitória se dissolveu em choque.

“O que você está fazendo?!”, ela praticamente guinchou. 

“Vestindo roupas secas”, ele respondeu

“Seria melhor se você fizesse isso no seu próprio quarto!”

“Este é o meu quarto”, ele apontou para o pequeno baú junto à parede. Ela arregalou os olhos.

“Você tem compartilhado o meu quarto?”

“Mais do que isso”, ele a provocou. “Não reparou que só tem uma cama?” Julieta ficou boquiaberta. 

“Você não faria isso...” 

“Eu não fiz”, ele admitiu. “O fedor, lembra?” Era mentira. Ele esteve preocupado demais que Julieta pudesse não acordar mais para conseguir dormir. Mas ela não precisava saber disso. Julieta estava sendo irritante demais para que ele lhe contasse. Em vez disso, ele baixou as mãos até o fecho de suas calças, e adorou o modo como o olhar dela acompanhou seu movimento.

“Uma dama não olharia, Julieta.” No mesmo instante ela levantou os olhos para o rosto dele e seu rosto ficou vermelho. Se Aurélio não estivesse tão irritado com ela, estaria se divertindo com aquilo. “Acho que está na hora de você se virar.”

Ela não se virou, e Aurélio pensou que ela era mais forte do que parecia, aquela garota que diziam ser sem graça e desinteressante. Ela o fulminou com os olhos.

“Eu não vou fazer nada disso, seu canalha horrível e arrogante. Este é o meu quarto, onde você está tomando suas liberdades canalhistas.” Ele ergueu uma sobrancelha, irônico.

“Canalhistas não é uma palavra.” Ela não hesitou.

“Tenho certeza de que, se as pessoas que inventam palavras o conhecessem, veriam que essa palavra precisa existir! Da mesma forma que eu as inspiraria a inserir desdivertida no dicionário.” Ela fez uma pausa e se empertigou, atingindo sua altura máxima. “Sugiro que encontre outro quarto para si, meu lorde. Você não é bem-vindo aqui!”

A raiva tomou conta dela, aquela mulher estranha e surpreendente. Ela estava diante dele, molhada e ferida, e ainda assim era uma guerreira.

Ele a queria. E isso era perigoso demais. Para eles dois. Ele estava ali para mantê-la viva. E só.

Aurélio foi até a lareira e serviu chá, deixando que o silêncio ocupasse o espaço entre os dois antes que ele se aproximasse dela, rodeando a cama e encurtando a distância entre eles enquanto Julieta mantinha sua posição, com a postura ereta, punhos fechados segurando o tecido à sua volta. A mão dele passou por ela e colocou a xícara fumegante no lugar do pote de mel sobre a mesinha de cabeceira, momento em que seu peito nu quase tocou nela.

Foi com grande esforço que ele evitou tocá-la. Mas naquele instante ela não recuou, mesmo sabendo que o coração dela deveria estar martelando como o seu. Julieta ergueu o queixo, mas não falou, apesar da emoção no olhar. Desconfiança. Irritação. E mais alguma coisa que ele não ousou nomear. “Sente-se”, ele disse, a ordem severa ecoando pelo quarto 

“Por quê?”, Julieta perguntou, olhando de soslaio para a cama. 

“Porque eu jurei que você não morreria sob minha guarda”, ele mostrou o pote. “E eu pretendo manter a promessa.” A atenção dele caiu sobre a ferida no ombro dela que, ainda bem, continuava sem demonstrar sinais de infecção. Ou o médico maluco tinha muita sorte ou era muito inteligente.

“Eu sou capaz de fazer isso, meu lorde.” Ele ignorou a recusa dela. 

“Sente-se.”

Ela se sentou, mantendo o tecido apertado à sua volta enquanto ele mergulhava os dedos no mel. O silêncio os envolveu e os dois assistiram aos dedos dele trabalhando. A viscosidade do mel não era nada comparada à maciez da pele dela. Aurélio achou que já tinha passado bastante mel, mas não conseguia parar de tocá-la, e continuou a espalhar o bálsamo pelo ombro dela. Desejando que não fosse apenas o ombro. Desejando que fosse todo o seu corpo, aquela pele imaculada, bela, rosada, insuportavelmente macia. Ele estava perdendo o controle e achou melhor procurar um assunto seguro. “Quem é Robbie?” Houve uma pausa. 

“Robbie?” Na verdade, ele não queria falar sobre o outro homem. Não quando ela estava diante dele, limpa, nua e renovada depois do banho, cheirando a verão. 

“Sim. Robbie. Seu noivo.”

O olhar dela voou para o dele assim que aquelas palavras foram ditas. Foi confusão que ele enxergou ali? Desapareceu antes que Aurélio pudesse ter certeza.

“Claro... Robbie. Nós nos conhecemos desde crianças”, ela disse superficialmente.

“Quem é ele?”, Aurélio perguntou. 

“Ele é o padeiro de Mossband.” Um padeiro. Provavelmente imenso de gordo e sem pescoço. 

“E você vai abrir uma livraria.”

Ele tinha terminado. Deveria parar. Ela aquiesceu com um movimento afetado.

“Eu vou abrir minha livraria.”

Seria a vida perfeita para ela. Casada, dona de uma livraria. Ele a imaginou desgrenhada e coberta de pó, e a cena o agradou demais.

Aurélio ergueu os dedos e olhou para eles, que brilhavam com o mel. Ela também olhou.

“Você deveria lavá-los”, ela sugeriu em voz baixa.

Ele deveria. Havia uma banheira cheia de água a poucos metros de distância.

E uma bacia e água limpa ainda mais perto. Mas ele não foi até nenhuma delas. Em vez disso, levou a mão à boca e lambeu o mel dos dedos, encarando Julieta. Desejando que ela desviasse o olhar.

Ela arregalou os olhos. Que ficaram misteriosos. Mas não vacilou. Foi então que Aurélio soube... Se ele a beijasse, ela não o impediria. E se ele a beijasse, não conseguiria parar. Irmã Perigosa, de fato. “Tem um vestido para você”, ele disse. 

“Eu... eu não entendi.”

“Um vestido”, ele repetiu, virando-se e vestindo a camisa pela cabeça antes de acrescentar, “e botas”. Ele escancarou a porta. “Calce as malditas botas.” E assim ele saiu do quarto.


Notas Finais


Eu estava postando um capítulo por dia, mas hoje deu vontade de postar mais


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