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História Coisas Quebradas - Capítulo 1


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Notas do Autor


Eu não pretendia postar essa história.
Ela estava pronta desde começo de dezembro do ano passado, revisada e tudo, mas eu não tinha gostado do resultado. Algo nela que não me agradava. Não me parecia verdade. Hoje resolvi reler, cortei muita palavra desnecessária, percebi que escrevo uma porção delas, mas ainda não sentia nada. Até que mudei algumas palavras no parágrafo final e tudo pareceu fazer sentido.

À titulo de curiosidade vou deixar o primeiro final da história nas notas finais. Talvez ele agrade alguns mais do que o escolhido por mim. E no fim, esteja livre para ficar com aquele que mais lhe tocar para chamar de seu.

Capítulo 1 - Capítulo Único


Fanfic / Fanfiction Coisas Quebradas - Capítulo 1 - Capítulo Único

 

 

Quanto tempo passamos submersos em nosso mar de silêncio eu não saberia dizer. Talvez anos. Ela de pé, próximo à janela; eu, largado na velha cadeira da salinha de jantar. Quanto tempo já não via seu rosto, era a pergunta que me faria se desgrudasse meus olhos do chão. Ela lá, fitava o mundo do lado de fora, tentada a partir, seduzida pela parca luz do sol que escapava por entre as nuvens cinzentas; eu cá, ouvia o gotejar sutil da chuva fina contra a janela e desejava que a noite chegasse porque meus olhos ardiam com toda aquela claridade.

E as horas se foram. Perdidas entre o vazio que nos afastava.

Fomos despertados pelo som de um quadro partindo-se contra o piso de madeira, o prego que o sustentava não fora mais capaz de suportá-lo. Eu ergui meus olhos, temendo que ela finalmente tivesse tido a coragem para atravessar a vidraça; ela voltou-se para o interior da nossa casinha, porque pensou que eu houvesse quebrado. Não sei ao certo como foi que percebemos o que tinha de fato acontecido, mas tudo o que me lembro daquele instante é de um brilho desfocado cintilando em seu rosto delicado — talvez porque eu tivesse chorado.

Em seguida, um prolongado respirar que dilatou o tempo arrastando os segundos. Eu cá, atrás das grades da minha própria prisão, estendendo meus braços para enxugar suas lágrimas, incapaz de alcançá-la; ela lá, esvaziando seus pulmões, uma fogueira morrediça, lançando sobre mim seu brilho enfraquecido e seu calor que outrora beijava minha pele com tanto ardor, incapaz de me aquecer.

— Eu sempre odiei esse quadro — disse ela, ressentida.

Sua voz estava tão frágil.

— Eu nunca gostei dele também — disse eu, relanceando um olhar para a bagunça ao meu lado.

Talvez se tivéssemos sido sinceros um pouco antes não houvessem cacos para juntar na sala de jantar. Mas já não havia conserto.

Recostei a cabeça na parede, voltando minha atenção para garota em frente à janela, percebendo como a luz desenhava com carinho sua silhueta. E mesmo incomodado com o brilho, não pude me desviar dela.

Ela fungou, levando as mãos ao rosto para enxugar as lágrimas.

— Devíamos tentar sair daqui. A casa está desmoronando — ela disse.

Eu sabia, é claro.

Ambos sabíamos.

Tudo tinha se tornado cristalino antes mesmo do quadro quebrar. Ele apenas nos lembrou daquilo que havíamos esquecido.

— Talvez ainda possamos ser felizes, lá fora — ela falou, mais para convencer a si mesma do que para me fazer enxergar.

Ela tinha razão.

E tinha o direito.

Mas não era tão fácil.

— Por que não espera a chuva passar? — Perguntei, apoiando meu cotovelo sobre a mesa empoeirada ao meu lado, esbarrando numa pilha de papeis e alguns tocos de velas.

— Porque chove aqui dentro também...

Sua respiração densa não deixou que concluísse tudo que pretendia dizer.

Ela afastou-se da janela, caminhando em minha direção, cada passo fazendo o piso ranger, até que puxou uma cadeira para si e sentou-se há poucos centímetros de mim.  O vento soprou mais forte sobre nós. O temporal parecia se agitar conforme as coisas se encaminhavam para um final previsível.

Mas talvez a tempestade não existisse lá fora. Talvez...

— Olha, eu sei o que a casa significa pra você — ela começou, mas então sua voz perdeu força e ela desviou olhar para a casa aos pedaços. O papel de parede começou a se soltar do outro lado da sala. — Porque ela significa para mim também.

Havia sinceridade em suas palavras, embora elas rastejassem de sua boca como um cadáver para fora do túmulo.

Ela respirou fundo novamente, tentando encontrar um pouco de coragem em cada molécula de oxigênio que podia tragar. Mas assim que tentou recomeçar, desistiu.

Seus olhos cansados vieram se juntar aos meus num abraço carinhoso, novas lágrimas lhe fugiram do controle, mas desta vez eu estava próximo o suficiente para impedi-las de queimar sua pele adocicada.

— Eu não queria... — ela começou outra vez, mas silenciou-se, incapaz de prosseguir. — A culpa foi minha?

— Não — respondi. — Ninguém teve culpa.

Ela desviou o olhar outra vez, esforçando-se para manter o choro sob controle.

— Eu amava a casa que tínhamos construído — ela disse.

Eu sabia.

— Eu sei.

— Mas agora ela está tão...

— Eu sei...

— Eu sei — disse ela, tornando a me olhar.

Ela procurava algo, talvez alguma resposta. Eu tinha minha cota de coisas a dizer, mas elas não caberiam na sala... ou não ficariam na casa. Era mais certo que atravessariam as frestas na parede.

De algum modo ela sabia... não o que havia, não sobre o que estava oculto, mas sobre as celas que me faziam prisioneiro.

O maldito ralo abismal.

Estavam lá, mas não de verdade. As coisas que jaziam no fundo do baú... muitas delas já se confundiam, ou se tornavam apenas borrões. A outra parte era composta de coisas grandes demais para que eu fosse capaz de trazer à tona sozinho. Um buraco negro que tragava tudo.

Talvez fosse ele devorando a casa agora.

— Você se culpa — disse ela.

— Não. Ninguém teve culpa.

Mas talvez se eu tivesse feito diferente...

— Ninguém teve culpa.

Devorei as desculpas. Mandei o choro pelo mesmo ralo por onde empurrei todas as outras coisas. Nem ali...

Precisava entender, tudo era tão confuso. Mesmo agora, nada é claro. Mas eu gostaria que pudesse ter dado certo.

De qualquer forma ela tinha razão.

— Precisamos ir — disse ela — antes que nenhum de nós consiga escapar. Não há como salvar a casa. Do lado de fora talvez ainda tenhamos uma chance para nos reconstruir — suas mãos pequenas envolveram as minhas, um último pedido.

Mas eu estava tão cansado.

— Vá na frente — sugeri.

E ela partiu. Devagar, os chinelos arrastando-se no chão. Parou à porta, seus olhos cheios de compaixão.

— Foi bom quando começou, não foi?

— Foi perfeito — respondi.

E de repente estava sozinho.

Então me levantei da cadeira, indo de encontro a janela. Não precisava dela ali, naquela parede, não queria olhar para fora. Precisava faxinar a casa antes de deixá-la. Então fechei as cortinas, a porta... e caminhei na escuridão até a mesinha.

Sentei-me ali, acendi umas velas e encontrei os velhos papeis amarelados, à meia-luz vomitei os cacos de um coração quebrado, fragmentos de um pesadelo interminável e os demônios escondidos dentro daquele velho baú. Tudo que era confuso, tudo que à princípio me parecia grande demais. Alguns foram mais fáceis que outros, mas no final, tudo estava lá, amontoado diante de mim.

Quanto tempo levou? Não saberia dizer. Naquela velha casa o tempo passava de uma forma diferente.

Então percebi que ainda tinha algo a fazer. Não podia deixar aquelas velhas páginas às traças. Num ímpeto quis queimá-las no mesmo fogo sob o qual as escrevi. Ver morrer ali tudo aquilo que me devorava de dentro para fora, que a chama se alastrasse pela casa depois que eu cruzasse a porta da frente. Tudo o que restaria eram as cinzas daquilo que um dia eu chamei de lar.

Coisas quebradas que o fogo desfez e a chuva levou.

Mas nada é tão simples...

Era minha casa.

Então assoprei a chama.

Apaguei a vela.

E tranquei a porta.

 

 


Notas Finais


Escrevi na mesma época de "E eu nem gosto de chá", não sei se isso significa alguma coisa.
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Se fosse indicar uma música, gostaria que fosse

I Remember, Damian Rice e Lisa Hannigan
https://www.youtube.com/watch?v=mYPCYboEpmk

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Eis o final original:

"No final, percebi que ainda restava algo a fazer. Não podia deixar aquelas velhas páginas às traças. Então as queimei, no mesmo fogo sob o qual as escrevi. E vi morrer ali tudo aquilo que me devorava de dentro para fora. A chama se alastrou pela casa logo depois que cruzei a porta da frente, primeiro consumiu a mesa, em seguida engoliu o chão. Quando me dei conta, tudo o que restava eram cinzas daquilo que um dia eu chamei de lar.

Coisas quebradas que o fogo desfez e a chuva levou."

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Enfim, muito obrigado por ter lido até aqui.
Qualquer crítica, sugestão ou correção, por favor não tenha receio de comentar.
Grande abraço e até mais!


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