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História Colcha de Retalhos - Capítulo 2


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Notas do Autor


Procure nas gavetas, nas caixas e no seu armário.
Veja se tem em mãos tudo o que é necessário.

Capítulo 2 - Capítulo 2 - Separe os materiais


Senti meu corpo ficar mais pesado à medida que eu subia as escadas do pequeno e velho apartamento em que morava com minha irmã e nossos gatos na região periférica da cidade. 

A primeira coisa que notei quando abri a porta foi Caju deitado na nossa mesa e Panqueca mordendo sua orelha por trás. Caju imediatamente veio me receber com carinhos exagerados por minhas pernas, enquanto Panqueca me olhava com um desgosto habitual dela, era como se cuspisse na minha direção “voltou pra quê?”.

Eu tinha encontrado aquela dupla no meu primeiro mês morando aqui, estava voltando de um dia inteiramente chuvoso quando encontrei os dois pacotinhos encolhidos no ponto de ônibus em que normalmente eu descia. Ao me aproximar, Caju saltitou na minha direção, todo comunicativo e faminto do jeito que é, enquanto Panqueca se mantinha arredia atrás do banco, sibilando, trocando juras de ódio e xingando a mim e ao irmão por ser tão idiota.

Eu os trouxe para casa num impulso. Um dos gatos veio de bom grado, a outra felina teve que vir escoltada no casaco grosso, impossibilitando, assim, de causar mais ataques de arranhadura e mordedura. 

Ana Maria pirou assim que os viu. Gritou tanto comigo que ouvi um dos vizinhos do andar de baixo questionando se deveria chamar a polícia. Aos pranto, implorei que ficassem só aquela noite e com um bico do tamanho de um tucano minha irmã mais velha aceitou. Aquela noite já faz mais ou menos dois anos.

Joguei-me no nosso sofá de dois lugares e de quarta mão, que rangeu feito um grito engasgado pelo meus 85 quilos, olhando para um ponto fixo de uma manchinha na parede confessei, com a voz toda borocoxó:

-Eu fracassei novamente, meninos. 

E foi assim que Ana Maria me encontrou quando retornou do hospital naquele fim de sexta-feira. 

Com os cabelos loiros, cacheados e longos, as pernas finas e compridas, a silhueta esculpida e o olhar cortante de uma escorpiana, minha irmã se aproximou do meu corpo moribundo com um suspiro cansado. 

-Porque você não me atendeu?

-Você sabia que se fosse uma boa notícia eu teria retornado. 

Ela parecia cansada, mais do que nos dias anteriores, os ombros tombados, suas olheiras mais pronunciadas e os olhos em uma máscara neutra que nunca me enganou. 

-Desculpe, Má. - Dei-lhe um olhar pesaroso sincero. - Essa entrevista em particular foi muito ruim, eu só precisava de um tempo. 

Descontente com minhas justificativas, ela acenou uma única vez e sumiu pelo nosso minúsculo corredor. Ouvi a porta do seu quarto abrir e então ela caminhar até o único banheiro da casa e se trancar nele. 

Eu só conseguia pensar o quanto minha irmã tinha uma personalidade que se assemelhava completamente com Panqueca, nossa felina mais felina de todas, com quem desenvolveu uma relação completamente singular: ambas faziam o que queriam, quando queriam e o quanto bem queriam. Aprendi depois de muito custo que caso eu quisesse uma resposta, insistir não era um bom caminho.

Então fiz o que fazia de melhor para aqueles momentos: fui para cozinha. 

Ao som da minha playlist favorita, abri a porta da geladeira enquanto me requebrava por inteira com Dorgival Dantas no último volume, dono de meu xote favorito. Do balcão americano os dois gatos esparramados no granito gelado me encaravam, Panqueca com todo desprezo que seu corpinho conseguia enquanto Caju  tinha os olhos curiosos e quase risonhos na minha direção. 

-Eu sei que você ama um forró, Panqueca - Cantarolei na direção dela. - Você ia se acabar lá no Nordeste. 

Seus olhos azuis me fuzilaram em resposta e me peguei gargalhando. 

Aproveitando pratos já feitos anteriormente optei por fazer um escondidinho meio quiçobô, como diria minha mãe, juntando o frango recém desfiado com uma macaxeira já cozinhada há algum tempo, tudinho do que sobrou. 

Toda vez que eu cozinhava eu me sentia mais próxima de casa. Eu quase poderia ouvir a voz rouca de minha avó no pé do meu ouvido, perguntando com desconfiança o que eu estava colocando, enquanto minha mãe estaria pronta para dar vários mil pitacos diferentes e tia Rita me observaria com um olhar inquisidor. 

-Porque você está sorrindo desfiando frango? - Minha irmã me questionou ao chegar na nossa minúscula cozinha, seus olhos procuraram meu celular até encontrá-lo ao lado dos gatos e, com uma satisfação que me deixava rangendo os dentes, tratou de trocar a música imediatamente. Ela odiava quando eu preenchia o silêncio com forró.

-Lembrando de casa. - Dei de ombros, desejando não ligar para seu mal humor. Já bastava meu dia abençoado, eu só queria deitar na minha cama e recomeçar amanhã.

Ana Maria revirou os olhos, muito mais interessada em bisbilhotar algo da geladeira e com a cabeça lá dentro ela retrucou:

 -Essa é a sua casa. - Era um tom que não abria debate, mas eu não era conhecida por silêncios. 

-Casa é um conceito amplo, Má. Que sorte da gente ter mais de uma. - Minha voz tinha um tom notável de mágoa, mas não desgrudei da realização do meu prato. - A maioria são lembranças boas. Tenho certeza que você lembra de quando…

Porém minha irmã, não surpreendentemente, não estava disposta a ouvir e interrompendo-me falou numa voz falsamente controlada:

-Se você estava tão feliz lá não teria corrido para cá, não é?

Deixei o pacotinho de queijo ralado na pia de mármore para olhá-la nos olhos. Nós duas tínhamos herdado os mesmos olhos âmbar, nossa única semelhança física. 

-Eu acredito que você teve um dia bosta hoje, Ana Maria, e acredite… Eu também! - Falei uma oitava mais alto. - Você, mais do que ninguém, sabe os motivos pelos quais eu vim, então se quiser começar essa assunto bosta no nosso dia de bosta, então queira brigar na sua cabeça! - Bati as mãos sem querer no pacotinho de queijo ralado fazendo alguns pedacinhos se espalharem pelo chão e Caju pular da bancada, para farejá-los. 

Passaram-se um ou dois momentos, nós duas observando o gato avaliar a comida no chão, enquanto Daylight do Maroon 5 preenchia cada canto da nossa modesta cozinha, Caju, depois de uma avaliação cuidadosa, decidiu voltar para o lado da sua irmã, sem sequer lamber um dos pedacinhos do queijo.

-Vou colocar a mesa. 

Concordei em silêncio, tratando de recolher a sujeira, pensando que se tivéssemos um cachorro este chão já estaria limpo.  

Foi quando coloquei a travessa de vidro no forno que nós voltamos a nos fitar novamente. Seus olhos tinham um tom de culpa que me deixava estranhamente encabulada. 

-Desculpe, Lêlê. - Soou tão baixo que eu mal escutei. 

-O que foi que você disse? 

Limpou a garganta, sua postura jamais vacilando. Anos de balé né amores. 

-Eu disse… Desculpe, Helena. - Repetiu um pouco mais alto.

Um sorriso largo se estendeu em meus lábios.

-Um pedido de desculpas saindo de você?- Minha boca aberta fez com que uma carranca se formasse em seu rosto. 

-Você é ridícula. - Má revirou os olhos e já estava se afastando da cozinha quando pulei em sua direção. 

-Eu preciso averiguar se você não foi substituída por um metamorfo, Ana Maria!

Comecei um ataque de cócegas em suas costelas, seu ponto fraco desde que éramos crianças, fazendo com que seu corpo rígido sapateasse no lugar e suas mãos tentassem me esbofetear. E entre risadas ela gritou:

-Sai daqui, Helena! - Mais tapas na minha direção. - Seus alunos de 7 anos são mais maduros que você!

Quando sua mão atingiu minha cabeça eu me afastei, rindo também.

-Completamente louca. - Minha irmã revirou os olhos, mas também sorria. 

Nós não éramos de abraços. Nunca fomos. Não era aquele amor que fazíamos questão de declarar mensalmente, quiçá semestralmente. Alguns dias eu queria jogar Ana Maria na caixinha de areia dos gatos e tinha certeza que ela gostaria de suturar minha boca por alguns dias ou semanas, mas aqui estávamos nós. Tão distante e tão em casa. Tendo a certeza ferrenha que tínhamos uma a outra. 

-Obrigada por cozinhar meu prato preferido. - Sorriu, o primeiro sorriso que chegou aos seus olhos desde que chegou. 

-É uma comemoração ao nosso dia ruim. 

E caminhando no sentido contrário da nossa sexta-feira desastrosa nós rimos da minha entrevista com o diretor Babaca, do meu zíper aberto, de sua chefe horrorosa que tinha derramado o café no computador da UTI e dos nossos gatos que nos encaravam como se fôssemos duas alienígenas. 

***

Aos sábados à tarde eu me encontrava com Gustavo. 

Nós dois tínhamos nos conhecido na primeira aula do mestrado, mas nos tornamos realmente próximos uma semana depois, quando um professor fez uma piada homofóbica e racista e ele o respondeu na frente de todos, numa classe que deixaria rainha Elizabeth II no chinelo. 

Homem, preto, vindo da periferia e gay. Gustavo já tinha alcançado sua taxa de comentários preconceituosos para uma (ou treze) vida(s) inteira(s) e não levava nenhum desaforo pra casa. Nenhunzinho. 

Eu gostei dele no primeiro momento, mas ao nos tornarmos próximos eu passei a amá-lo. Com tudo de mim, do jeito que costumava amar. 

Todos os sábados nos encontrávamos. Para qualquer coisa, desde ajudar em trabalhos, assistirmos filmes horríveis, fazermos algum exercício físico ou simplesmente comprarmos a melhor casquinha de chocolate do mundo da sorveteria do bairro dele. Como hoje. 

-Não faz essa cara para mim, Lena. - Ele nem sequer olhava na minha direção, concentrado demais na sua casquinha.

-Você nem sabe que cara eu estou fazendo. - Desviamos de um ciclista idoso que parecia iniciante no guidão, andando no meio da calçada próxima ao seu prédio. 

-Não preciso. - Mas entre uma lambida e outra, ele me fitou de canto de olho, soltando um suspiro alto. - Você sabe que estava certa quanto ao Leonardo. 

Esperei seu tempo em silêncio.

Eu sabia que ele e o Leonardo estavam num relacionamento conturbado há poucos meses. O Léo era um cara legal, não me entendam errado, era educado, gentil e sabia fazer meu amigo feliz, mas não era o suficiente. Manter um relacionamento por debaixo das cobertas por tanto tempo era exaustivo e totalmente na contramão da personalidade do Gustavo: tão orgulhoso de ser quem é. 

-Acho que ele nunca quis nos assumir. Segundo ele seria um escândalo na família, ele seria considerado um anti-cristo ou algo assim. - Deu de ombros. - Era como se nosso amor fosse algo ruim para ele. Errado, sujo. 

Abri a boca para rebatê-lo no mesmo momento que fitamos o senhor aventureiro fazer um zigue zague totalmente não natural com a bicicleta, o guidão sambando nas suas mãos. Prendemos a respiração e só soltamos quando ele conseguiu voltar ao controle e fazer a curva na esquina. Soltamos nossa respiração presa em uma lufada. 

-Porra. - Gustavo olhou na minha direção, os olhos tristes ainda lá, mas a voz aliviada. - Ainda bem que não caiu, você sabe que eu odeio sangue. 

-Acredite em mim, eu lembro exatamente de você desmaiando quando me cortei descascando batata lá em casa.

Ele soltou sua risada alta e espalhafatosa, fazendo os cantos dos meus lábios saltarem também. 

-E sobre o Léo… 

-Não precisa. - Ele murmurou ainda num sorriso com prazo de validade curto.

-Você é incrível, Gus. Você é forte e é dono de um dos corações mais maravilhosos que eu já conheci. - Meus olhos começaram a arder. Droga de personalidade de manteiga derretida. - Eu tenho todo o orgulho desse mundo de ser sua amiga. - Funguei. - E… - Minha casquinha começou a escorrer pelas minhas mãos. - Você merece alguém que queira gritar aos quatro cantos que te tem como companheiro. 

-Helena, meu bem… - Ele retirou a casquinha da minha mão. Abri a boca para pedí-la de volta, mas ele jogou na lixeira mais próxima. A minha e o que restou da dele. 

Um grande desperdício, eu diria. 

-Eu ainda queria, sabe…

Gustavo me puxou pelos ombros até ele. E nos mantemos nesse abraço desajeitado e grudento por mais tempo que em qualquer outro das nossas vidas. 

-Eu te amo, mas você estava derramando esse sorvete no meu tênis novinho. Tinha que lhe parar. 

A dona da risada espalhafatosa dessa vez fui eu. 

***

Na segunda-feira eu já estava no meu modo vamos-a-luta novamente. Mas não as 7 horas da manhã, é claro. Que foi exatamente o horário que meu celular começou a tocar como um louco.

Soltei um xingamento tão alto que até mesmo Caju, que tem o costume de dormir ao meu lado, saiu correndo. 

Amaldiçoando os céus, a Terra e todos os outros 8 planetas (sim, Plutão é planeta no meu coração sim e fim de papo), eu tentava a todo custo desativar o alarme do meu celular às cegas. 

Nada. Ele continuava tocando escandalosamente. 

-Filho do canso!

Foi quando ergui o tronco para desativar aquele maldito que notei que eu jamais escolheria uma música assim para me acordar. Eu me amava ao ponto de me acordar com sonzinhos de flauta e cachoeira. 

Era alguém me ligando. Alguém com número desconhecido me ligando.

E mais fula ainda da vida, eu consegui a proeza de atender no último toque. 

-Eu espero que seja uma questão de urgência. Morte, fogo, desabamento ou eu ganhando na loteria! - Gritei para o desconhecido. 

Uma tosse do outro lado da linha. Abri a boca para mandar para… 

-Senhorita Helena deGroot? 

Meu coração parou de bater. Eu juro que sim, leitor, Acredite em mim.

Eu talvez não teria reconhecido aquela voz dos infernos, mas definitivamente eu reconheceria aquela voz dos infernos com aquela entoação vergonhosa do meu sobrenome. Em qualquer planeta que eu estivesse.

E bem agora eu queria estar em Plutão (quem vier disser que Plutão não é planeta vai levar uma na cara). 

-Helena? - Impaciência. 

Ai. Meu. Deus. 

Tia Rita, orai por mim. 

Tentei me desembolar dos meus lençóis chutando, como se isso fosse a razão da minha língua presa. Chutei com tanto afinco que caí de bunda no chão.

-Cabrunco! - Sibilei entre os dentes.

-Perdão… Acho que liguei errado. - Aquela voz. Aquele homem maldito. 

-Não, não… - Decidi ficar no chão mesmo. O lugar mais seguro. - Desculpe a demora eu tinha acabado de… Voltar de uma corrida matinal. - Sim, pessoas que tinham o controle da vida faziam corridas matinais. - Posso ajudar em algo?

-É o diretor da Escola Cora Coralina. Bernardo Monteiro. 

Eu sei quem você é, seu desgraçado, não precisa me ligar para dizer que encontrou um professor com o perfil para sua escola maldita. Por mim enfiava você e essa escola no...

-Em que posso ajudá-lo, senhor? - Usei meu tom de voz mais profissional que minha dignidade no chão permitia. 

Ouvi um suspiro rápido do outro lado da linha. 

-Temos uma vaga disponível para início imediato. A senhorita teria interesse?

Lembra quando disse que meu coração parou de bater? Bem, aquilo foi mentira comparado ao que senti agora.

Certo, acredito que talvez eu tenha uma arritmia. Chegou o momento de parar de fugir do cardiologista. 

-Quando eu começo? - Falei num sopro de voz.

-Consegue chegar as 9?

Olhei pro relógio do celular. 7:05.

-No mais tardar 9:15.

-Perfeito. - Ele soava aborrecido demais para o uso desta palavra. - Você assina o contrato e as 9:30 você leciona sua primeira aula. Traga os documentos.

-Cer…

Ele desligou. Bem assim. Na minha cara. 

A despedida saiu de moda?

Caju me olhava de esguelha no corredor. Olhando para seus olhos azuis eu comecei a processar.

Eu tinha conseguido.

Eu consegui um emprego! 

As lágrimas caíam da minha face como criancinhas no tobogã em um dia de verão. 

Puxei meu gato bobão para o colo e pulei tanto com ele que eu escutei gritos vindos da vizinha lá debaixo. Não me importei com dona Clotilde. Não me importei que Caju parecia que iria vomitar e nem mesmo com o sentimento de desprezo que senhor Bernardo Monteiro deveria estar sentido ao ter me contratado. 

Estava tão feliz que iria começar a trabalhar com o que eu sonhava desde sempre que nada mais importava. Seriam meus primeiros alunos como professora contratada. Já conseguia imaginar os olhares jovens de julgamento na minha direção. Adolescentes de 17/18 anos que iriam me encarar com uma necessidade louca de enfiar tudo na cabeça para ter seus rostos estampados nos outdoors. 

Corri para o banheiro saltitando e ainda ouvindo resquícios dos gritos da vizinha lá de baixo. 

-Eu consegui dona Clotilde! - Gritei de volta entre risadas descontroladas. - Não vamos nos separar da senhora tão cedo!


Notas Finais


Nas minhas histórias sempre têm bichinhos haha ♥
Espero que tenham gostado. As coisas irão se desenrolar se enrolando cada vez mais a partir daqui.


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