História Coletânea de Contos que Talvez Lhe Ajudem - Capítulo 1


Escrita por: ~ e ~gabbyxx

Postado
Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Contos, Deus, Dualidade, Emoções, Jesus, Morte, Sentimentos, Vida
Visualizações 71
Palavras 2.116
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Aventura, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Lírica, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Caros leitores, esse é o primeiro conto que escrevo na vida, então perdoem-me se não está muito bom. Tenho ideia para outros, mas preciso de motivação, então ajudem-me comentando. Obrigado desde já e boa leitura.

Capítulo 1 - Metade de mim (Rick Cruz)


Todos nascemos pela metade. É normal, completamente. É por esse motivo que fazemos de nossa mãe na infância nosso santo complemento. Entretanto quando crescemos, tendemos a continuar pensando que são pessoas que nos completam. Que são pessoas, que igualmente incompletas, irão magicamente nos completar. Estamos todos muito enganados, e até descobrirmos isso as assinaturas de divórcio continuarão sendo escritas, os crimes passionais continuarão sendo cometidos, o bullying continuará dando fim a vidas extraordinárias.... Tudo porque nós sentimos que algo falta dentro de nós, assim acabando por colocar nossa esperança em outra pessoa defeituosa que, obviamente, não irá mudar nada desse sentimento. Há homens que demoram décadas para reconhecer seu vazio parcial. Outros acabam por morrer com ele. “Dois erros não formam um acerto”, já foi dito, mas quem tem ouvidos para ouvir?

Além do mais, quem sou eu se não mais um que se enganou?

Experimentei encontrar aquilo que faltava dentro de mim durante a infância e juventude, obviamente. Eu era feliz, pois eu sentia uma segurança no peito, como se com um abraço invisível tudo dentro de mim estivesse no lugar certo. Por muito tempo achei que minha mãe era quem me transmitia aquele sentimento. Ela se foi depois de um tempo, e pude sentir que aquilo apertou ainda mais forte, como num movimento consolador. Mas depois cessou, não mais senti aquela cola que fazia tudo dentro de mim firme, quente e aconchegante. Tinha de encontrar o causador desse sentimento. Achei ter encontrado mais tarde nas namoradinhas ou nos amores verdadeiros, mas ainda não era. Não era isso. Eu sentia como se estivesse tentando enganar a mim mesmo quando desistia de continuar procurando aquilo de que tinha uma saudade inconceituável no peito, sem ao menos conhecer o objeto causador da mesma. Mas com o tempo as preocupações da vida, misturadas às palavras frias e insensíveis de pessoas vazias, que talvez algum dia já tivessem sido como eu, mas não mais, convidaram-me a acreditar que o que eu procurava na realidade não existia, fora um sonho infantil criado pelo meu inconsciente para lidar com a perda da minha mãe. E, apesar de não fazer sentido por esse sentimento existir desde antes dela morrer, acabei por me deixar aceitar essa explicação e apagar todo resquício de esperança que eu tinha de encontrar minha completude.

Meu mundo desde então tornou-se uma dualidade perfeita entre infelicidade e pessimismo. Eu podia chorar tardes inteiras e sofrer com meus próprios pensamentos inconscientes vindos da culpa por ter desistido de procurar o que me faltava, ou podia simplesmente motivar outras pessoas desistir de tal aventura imprudente, como tinha sido ensinado a fazer.

Mas de alguma forma consegui ser admirado. Meu pai trabalhava muito, e usava disso como desculpa para não existir em minha vida. Afinal, era moda usar dessa desculpa na época. Quantos homens infelizes e enterrados abaixo de seus erros serão necessários até que se entenda que o trabalho também não é o que falta para preencher o vazio com o qual viemos para esta terra?

Eu estava perdido em mim mesmo, buscando respostas às perguntas que deixei de fazer. Por muito tempo acreditei que aquilo dentro de mim fosse não um vazio, e sim um espaço preenchido pela escuridão derivada de uma natureza diabólica. E com esse pensamento eu sustentava a ideia de ser um monstro, um demônio imperdoável. E acertei, aquele lugar deveria ser preenchido por uma força maior que os mortais. Eu apenas não conseguia ver na época, ou será que fingia não ver?

Apenas sei que essa natureza começou a afetar minha cabeça ocupada com pensamentos supérfluos e desnecessários que me fizeram cometer meus piores pecados. Eu me tornei agressivo como um animal, leviano, e indiferente com a destruição que causava a mim mesmo com minhas próprias...garras. Não conseguia mais ver diferença entre felicidade e tristeza, e as dúvidas não respondidas que sempre tive começaram a ser usadas como combustível para minha insanidade.

Aquilo que mais chegava a completar minha metade fugiu de mim, e com razão.

Vivi sozinho por muito tempo, com a rotina de dormir – que fique claro que não descansava, tudo que eu fazia era fechar os olhos até que chegasse a hora de abri-los para um novo pesadelo – e pensar em todas as coisas repugnantes e irritantes existentes nesse mundo. Uma das que mais me tirava do sério eram as igrejas e seus cartazes utópicos. Elas prometiam o paraíso na terra, prometiam tudo que os homens poderiam querer para disfarçar a falta do que mais falavam: Deus. Adquiri um ódio imensurável pelos hipócritas que entravam e saiam pelos seus portões, pelos mentirosos que subiam e desciam de seus palcos. Sim, palcos, pois o que faziam eram shows de entretenimento, mais um meio tirar o foco do que deveriam pregar. Malditos, eu pensava, como podiam falar-me que um deus tão bom havia mudado a vida deles se tinham uma vida idêntica à minha. Vidas pela metade, caminhos não trilhados por completo. Mas, apesar desse meu ódio, um dia tive a necessidade de entrar num desses templos, só não sei dizer se procurando respostas ou encrenca.

A elite da hierarquia daquele lugar conhecia minha pessoa, e principalmente meu bolso. Me bajularam, quase que me idolatraram. Senti uma mistura de nojo com ego inflado. Dei a carne aos abutres, chutei algumas cadeiras em sinal de meu desgosto por aquele lugar e saí daquele inferno o qual não me acrescentou em nada. Exceto...por um sentimento que quase não reconheci. Aquela saudade. Apesar de querer muito acreditar, fiz de tudo para esquecer daquilo novamente.

Mas os dias se passavam e aquilo não saia da minha mente. Eu necessitava de algo que parecia inalcançável através de qualquer meio humano.

Então foi que conheci o sabor dos entorpecentes. O cheiro, o toque. Meus sentidos se tornaram dependentes de todo aquele material. Emagreci, como era óbvio, e aquelas drogas me tranquilizavam enquanto tiravam qualquer pensamento de dentro da minha cabeça. Não sei dizer se elas completaram a parte vazia que eu carregava ou se acabaram por me fazer composto puramente de trevas por dentro, como eu já acreditava ser. De qualquer jeito, eu paguei para fechar os olhos e estar alheio a tudo e todos, inclusive a mim mesmo.

Meu pai descobriu e me expulsou de casa. Perdi meus bens e meu antigo lar. Só não perdi minha alma porque não conseguia mais nem mesmo proferir as palavras para vende-la ao diabo quando pensei em fazer isso.

Me vi tornado um selvagem, um jovem questionador agora virado apenas em pele, osso e frustração. As noites eram milhares de vezes mais longas que os dias, e eu agradecia, porque odiava tudo que ousava ter brilho, ódio se tornou minha prioridade. Eu não conseguia amar. Vivia vagando entre os becos, furtando para sobreviver, revirando lixos como um vira-lata. Toda minha humanidade já não existia mais. Ou assim pensava.

Foi numa dessas noites. Estava chovendo, e eu levava meu corpo para um abrigo qualquer. Minha alma, fétida e completamente apodrecida, estava agitada. Os trovões nunca haviam me assustado tanto quanto naquela noite. Em algum momento, não lembro ao certo, eu caí no chão por causa da fome. Por um instante meu cérebro voltou a funcionar e me questionei “por que levantar? ”. Se havia algo que ainda eu produzia em meu corpo eram lagrimas, e elas se misturaram aos pingos de chuva que caiam. Chorava por todos aqueles dias, meses, anos que havia passado desperdiçando a vida. O que era a vida? O que era o sentimento de estar vivo? Eu não conseguia lembrar. Eu estava perto de uma área rural – não sei onde exatamente. Vaguei tanto sem rumo que acabei me perdendo completamente – em uma rua pouco movimentada. Pela primeira vez em muito tempo desejei que amanhecesse, pois a noite me apavorava agora. Queria ver o dia. Ele me traria um pouco de paz.

Foi então que a chuva falou. Sim. Ela, por meio de seus pingos que tocavam em meu rosto, acalmaram meu corpo que ao mesmo tempo que queimava, tremia, e de certa forma limparam minha alma e me lembraram daquele sentimento, aquele abraço que dizia “tudo vai ficar bem” de minha infância. Minha mente se esclareceu, literalmente. Uma luz tão forte que pensei ser um relâmpago me pegando, mas não ouvi trovão algum. Essa luz diminuiu, e, dentro de minha mente, fez brotar a imagem de um caminho, uma estrada reta e estreita, beirando um mar escuro, cujo fim era impossível de ver, pois a cada metro andado se mostrava mais claro o caminho. Eu estava no início dela, de pé, e podia ver seu fim percebia várias placas durante o caminho. “Eu vejo cada cicatriz que você traz. Cada um de seus motivos de ter se tornado tão frio”. “Não acredite nas mentiras que te contaram, eu sei que você está com medo, mas confie”. “Esse é o caminho de volta para casa, você poderá trilha-lo todo amanhecer para me encontrar”. “EU ESTOU BEM AQUI”.

Ao ler essa última placa, ouvi uma voz a lendo, e não era a minha. Na verdade, não era nenhuma voz que eu algum dia conheci, mas ao mesmo tempo eu sabia que já havia sentido ela ecoando em meus ouvidos. Eu lembrei mais uma vez daquele sentimento de quando criança, e era ele de quem eu tinha saudade, eu soube. A voz veio do fim do caminho. Tentei correr até lá, mas então o clarão desapareceu e me vi em um carro de ambulância. Desmaiei.

Acordei no hospital com meu pai ao meu lado. Ele se arrependeu de sua atitude e foi me procurar algumas semanas depois do dia em que me expulsou de casa, mas não me achou. Contatou as autoridades sobre meu desaparecimento e ainda alguns amigos dele saíram para me procurar por conta própria. Por quase 2 meses procuraram sem sucesso, até que um amigo dele me viu atirado no chão da estrada divide nosso estado do estado vizinho. Eu estava muito mal, com feridas profundas, meu corpo extremamente fraco, fora meu estado psicológico. Eu nunca me senti tão bem em toda minha vida.

Meu pai estava preocupado comigo, como se esperava, mas por dentro eu sabia que estava bem, mesmo se meu corpo aparentasse o oposto. Eu finalmente achei a resposta. Nascemos pela metade, crescemos pela metade, e temos de seguir até encontrar o dono daquela voz, daquele sentimento. Parece tão óbvio quando descobrimos. E eu estava feliz sem nenhuma razão. Tinha todas para não estar, e elas vinham a minha cabeça a todo instante, mas eu não conseguia dar a elas importância enquanto me lembrava de tudo que vivi, de minha desistência. Foi então que mais uma vez falou comigo, a voz. Ela me contou as vezes que eu pensei estar só e que ela esteve comigo. Quando minha mãe morreu; todas as noites silenciosamente perturbadoras que passei com meus pensamentos; quando na rua, desamparado. Ele era quem me lembrava de minha busca, porque ele também queria que eu o encontrasse para ele poder me encontrar. Sutilmente, ele se mostrava presente o máximo que podia, o máximo que eu deixava em meu ceticismo. Agora, sinceramente, eu estava completo.

Não precisei sair do hospital, não precisei dar muito trabalho para o meu pai, não precisei sequer explicar para ele o porquê de tudo isso. Ele soube o que eu queria e meus motivos em meu primeiro olhar quando acordei. Eu já me sentia completo.

Eu não conseguia falar, mas conseguia mexer a mão, sendo então capaz de escrever. Falei com ele minha última aventura e ele não me olhou com o desdém de outrora, como se falasse bobagens. Ele me olhou com lagrimas nos olhos e disse que eu tinha encontrado todas as respostas que eu precisava para viver. Estranho ele falar isso sendo que tudo que eu menos queria agora era viver nessa terra pobre da luz que eu tinha experimentado. Tudo que eu queria era voltar àquele lugar e correr sem parar até que todos os espações dentro de mim se preenchessem daquela luz e eu me tornasse um com ela, e ela comigo.

Despedi-me de meu pai terreno com muito amor, contando tudo que vivi sob os olhos desatentos dele sobre o filho e depois de alguns dias, me libertei das correntes para voar sem limites até aqueles braços que por muito tempo desejei dentro estar. Pulei para dentro do amor de meu pai celeste e nunca mais me senti pela metade.

Às vezes penso que estou sonhando e que logo acordarei, como criança, e que tudo isso será um grande sonho que deverei seguir para o resto da vida, espalhando a resposta a todos que perguntam.

Se isso for um sonho...todos deveríamos dormir um pouco.

 


Notas Finais


baseado nas musicas:

Metade de mim, de Rosa de Saron
https://www.youtube.com/watch?v=N9bbvcVGYFc

Right here, de Ashes Remain
https://www.youtube.com/watch?v=evGfjA_dSyY


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