História Coletânea de Contos que Talvez Lhe Ajudem - Capítulo 2


Escrita por: ~ e ~gabbyxx

Postado
Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Contos, Deus, Dualidade, Emoções, Jesus, Morte, Sentimentos, Vida
Visualizações 42
Palavras 2.186
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Aventura, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Lírica, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 2 - Um amor para esquecer (RickCruz)


Um coração perdido entre paixões não correspondidas sonhava naquele crepúsculo de junho. O som dos fortes trovões era abafado pelas paredes da igreja e seus jovens fiéis. Fiéis a quem? A um deus o qual usam de desculpa para seus festejos e seus pecadinhos juvenis. Foi num desses festejos que nosso protagonista, aqui nomeado de poeta, foi pela primeira vez à esses templos. Ele não esperava nada além de conhecer um pouco mais o Deus em que ele cria, no fim conheceu alguém, alguém que tomou o lugar dEle em seu coração por longos e longos meses. Ele conheceu Mirian.

Não é completamente adequado dizer “conheceu” porque ele apenas a viu, e, por alguma razão, ele a amou. Talvez fosse o sentimento de solidão do dia nublado, talvez tenha sido o vazio deixado pela duvida do que faltava na sua vida para que fosse feliz. Talvez tenham sido aqueles olhos, talvez o sorriso sapeca, ainda quem sabe seus cabelos de coloração entre castanho e ruivo. Não é certo, normalmente não tem explicação as dores do amor. O que era fato é: como amante platônico profissional, ele já fazia juras de amor a ela em sua mente.

Aquela noite foi simbólica. De nada teve a ver com a divindade verdadeira, e sim com mais um ídolo mortal que nascia no peito do pobre iludido. Ele não trocou uma palavra com a moça, um olhar, por receio de sofrer com a tão conhecida dor da não-correspondência. Ele via-a sorrir, imaginando quando seria o motivo dos mesmos. Daquele dia em diante, o deus que ele buscava, achou ter encontrado.

A cada fim de semana que se sucedia, mais iludido o poeta ficava. Seu passado, permitir-me-ei de conta-lo em resumo: filho entre duas famílias, costumava refletir sobre quem fora, quem era e quem poderia ser, mesmo que não soubesse responder nenhuma dessas questões. Cresceu com as pessoas ao redor ditando seu futuro como se já estivesse escrito nas páginas da vida com sangue, e elas condenavam o rapaz ao mesmo destino que tinham como delas. Em meio à esse caos, ainda arranjava tempo de amar. Sempre há tempo para o amor, principalmente amar sozinho, sem que o amado não saiba. Era o melhor, assim não fazia o outro sofrer com seu destino, com o monstro que viam nele. Amava por inteiro a menina da época, até que ela o machucasse inconscientemente ou fosse embora. O pior: amava mais que a si mesmo. Como dizem, sua baixa autoestima era bem alta. Amou por volta de 10 meninas, mas seu coração foi roubado apenas por 4, sendo uma delas Mirian. Todas as anteriores haviam o desapontado, suas dores eram sentidas quase que fisicamente, mas nunca se importava de retornar à ilusão do amor platônico perfeito.

Em julho houve um acampamento com todos os jovens, e ele foi meio forçado, mas depois sentiu que aquilo foi a melhor coisa que tinha acontecido. Depois de dois dias, de todas as atividades acabarem, na hora de recolher os materiais, ele, em um ato de gentileza, pegou as cobertas da moça para levar ao ônibus. Ela então soltou a seguinte sentença ás suas amigas: “Isso que é homem de verdade”.

Pense, caro leitor, o que nosso personagem enamorado não deve ter pensado. Brilhou a esperança de um amor correspondido em sua alma.

Igreja, depois disso, tornou-se o ponto de encontro com sua deusa. Lá ele tinha o direito de vê-la de longe, tão inalcançável quanto um anjo. Ela mal sabia seu nome, mal sabia quem ele achava que sabia ser. Começaram a conversar pela internet em agosto. Quer dizer, ele mandava sete mensagens para então ela mandar uma depois de alguns dias. Haviam os preciosos momentos em que conversavam sobre assuntos religiosos de fato. Claro, houveram pouquíssimas ocasiões em que conversaram pessoalmente, ele muito tímido, fazendo questão de parecer indiferente, desinteressado, quando seu coração batia ao ritmo do nome dela. Ele temia muito, por ambos os lados dessa paixão. Deus tornou-se o padre que, em sua mente tão terrivelmente apaixonada, havia unido os dois em matrimônio em algum lugar entre o impossível e o irreal.

Como era doloroso para nosso personagem quando algum outro jovem mais corajoso ia ter com ela. Mesmo que fosse uma relação de amizade e ele não tivesse nem sequer motivos racionais para sofrer, sofria. Raiva, tristeza, queda.

Ela era como uma princesa. Ele era filho de pessoas trabalhadoras, pessoas que estavam lutando para subir de classe, enquanto ela era já nobre, era realmente inalcançável para ele, que não se via digno de uma dama tão elevada, não via justiça num amor que resultaria na queda daquela estrela. Cada vez mais ele via que não queria machucá-la com seu futuro. Nisso resume-se o verdadeiro amor: preferir machucar a si mesmo para impedir a dor de quem se ama. Isso, porém, não o impedia de amá-la, não mesmo. Pelo contrário, ele via seu martírio com bons olhos, como se fosse alterar a realidade e fazer possível tudo que sonhava.

Ele escrevia sobre ela em seu diário. Quase todos os dias, era ela o foco de sua vida tão ordinária. O que impressiona não só a ti, leitor, mas a mim também, é o mistério do amor anterior a esse. O que teria acontecido para que acabasse? O que haveria nos diários dele antes de Mirian? Páginas quase vazias, pensamentos quase suicidas, palavras quase apagadas.

Ele escrevia poemas para ela. O poeta se alimentava dessa emoção para sobreviver. Poeta esse que muito chorou no fim dessa história. Uns versos que escreveu fora:

Senti algo no coração

Louco, estranho, sem razão.

Acéfalo me achava, subitamente,

Já que Deus dizia “ame ela”, simplesmente.

 

Insano me sentia,

Já que mal te conhecia,

E mesmo sem compreender esta nova emoção

Decidi, de repente, te entregar meu coração.

 

Não sei se sente o mesmo sentimento,

Mas saiba que só teu sorriso alivia meu tormento.

Assim posso seguir adiante,

Lhe amando, M...

Em novembro, depois de certa amizade virtual, ele deu um presente de aniversário para ela. Um pequeno macaco de pelúcia. Ele queria demonstrar amor sem parecer tão visível, mas acho eu que não deu muito certo. Ela não havia ido no dia, então ele deu para a irmã dela entrega-lo. A irmã olhava para ele com um sorriso que todos sabemos o que significava: ela desconfiava de algo a mais. Ele sentiu-se envergonhado, mas mesmo assim continuou. Ele passou muitas noites felizes e muitos dias sorrindo quando Mirian respondeu suas mensagens dizendo que havia amado o presente.

O fim de ano passou, ele sofria de problemas internos, confrontos contra si mesmo. Mas apesar de sua batalha, nunca parou de olhar para ela, buscar a ela no coração quando sentia medo, tristeza ou felicidade. Ela definitivamente havia se tornado seu objeto de adoração.

Em fevereiro, era aniversario dele, e na igreja recebeu muitos abraços e congratulações, mas nenhum, digo e repito, nenhum teve tanto valor para ele quanto o de Mirian. Um simples abraço que fez ele...nem mesmo eu, o narrador, consigo compreender o suficiente para descrever o que ele sentiu. Imagine o como se sente alguém que conseguiu tocar as estrelas, em especial a estrela mais brilhante do seu céu particular.

Continuou com essa vida por outros meses. Escrevia sobre ela, pensava nela, vivia para ela. Na igreja, onde o ideal é procurar por Deus, ele procurava por ela, só tinha sentido ir lá para ir vê-la. Ele conseguia enganar até mesmo a si próprio nessa questão. Ela era como uma droga para ele. Ele usava, mas não admitia ser viciante, estar o matando aos poucos. Também poderia ser comparado a um feitiço, como se com aquele simples olhar de junho ela tivesse lançado um encanto que o fez perder a noção do seu amor anterior.

Em agosto ocorreu mais um acampamento, e ele foi por ela, principalmente. Foram dois dias de muita emoção. Num dia, ele via ela, amava ela em secreto, sentia ciúmes dela, e no dia seguinte, ele tinha a “comprovação divina” da veracidade da sua loucura nas palavras de uma pastora, que dizia que Deus cumpre suas promessas, e para ele aquilo era já uma promessa divina.

Acho desnecessário dizer que ele chorou muitas noites orando por ela, pelo futuro e pela coragem que lhe faltava para falar com ela sobre o que sentia. Tentava encontrar um meio, mas nunca parecia ser o momento, nunca parecia ser o certo. Algumas poucas vezes, utópicas, parecia que ela também gostava dele, mas em outras parecia não o conhecer, ou quem sabe foi má interpretação minha de seu doce olhar.

Nesse segundo novembro, o poeta foi para um acampamento diferente, só com homens que queriam ter um encontro oficial com Deus. Foi e lá, não parou de pensar que aquilo seria muito bom para seu futuro...com ela. O dia que voltaram era aniversário dela. Ele estava decidido: iria falar com ela pessoalmente naquele mesmo dia, abraça-la e quem sabe ter uma conversa que iniciasse uma amizade mais forte, para mais tarde terem mais intimidade e....

Não deu certo. Ele não o fez. Ele não conseguiu.

Ele via sua amada. Tão bem arrumada, bela. Mas talvez tenha sido isso que o amedrontou. Ele viu que eram de classes demasiadamente diferentes, e enfim lembrou-se daquele pensamento de o que é amar.

Ele já choraria só por tal acontecimento, mas além disso, sua mãe proibiu que fosse mais na igreja. Ela havia descoberto as imundices que tentavam esconder, mas ele não via. Tudo que ele via na igreja era sua amada. Ainda, por algum motivo, Mirian perdeu seu contato virtual, e nunca mais puderam falar pela internet. Ele chorou, xingou, brigou por meses. Sua obsessão era tanta que passou o fim do ano e o início do seguinte em depressão. Parecia que as cores do mundo haviam desaparecido, e as emoções da vida...nem havia vida naquele corpo.

Uma amiga dele o ajudou a passar disso sem desistir de respirar. Ele não deixou de pensar em Mirian. Passaram-se seis, sete meses e ele, mesmo sem vê-la, ainda a amava. Era de cortar o coração vê-lo guerreando no seu íntimo por algo que no fim se mostraria vazio. E ele sabia que era doentio seu sentimento, mas era um dos únicos que tinham sobrado. Deus estava intimamente ligado a ela para o poeta.

Quanto mais os dias passavam, mas ele enlouquecia. Escrevia cartas sem a intenção de enviá-las, escrevia versos sem a intenção de recitá-los. Chegou a transcrever suas conversas virtuais à punho para o papel, com o fim de ter sempre consigo aquelas palavras que eram como uma bíblia pessoal. Sonhava alto. Literalmente: sua maior fonte de alegrias eram os sonhos com Mirian, onde ele ainda podia vê-la e, às vezes, tê-la.

Agora a história tem uma mudança brusca, assim como as vidas têm: O poeta começou em abril a amar outra garota – a mesma que lhe ajudou em fevereiro. Ele sentia-se culpado por isso, parecia trair sua ilusão. Para quem já enfrenta o problema de dividir opiniões com várias vozes dentro de sua cabeça, dividir seu coração era deveras mais difícil. De certa forma, era como um resgate inconsciente. Ele estava tentando se libertar do feitiço. Mas também pareceria uma armadilha infernal para que ele não tivesse seu final feliz um dia. Era confuso, e ele orava, chorava, sem respostas.

Coincidentemente num fim de semana de junho, dois anos depois do início dessa narrativa, chegou a vez de ele ajudar sua amiga, protege-la, e, mesmo confuso, sacrificou seu amor para ficar ao lado de Giulia. Não que essa não fosse um bom partido, ele que não conseguia saber o que queria de verdade.

Giulia o amava fazia quase um ano, amor verdadeiro, tão verdadeiro que dava pena dela ao assimilar que não era correspondida na mesma medida. O poeta também se culpava, seja por ter tomado uma atitude precipitada, seja por não corresponder a um amor tão valioso.

Ainda para piorar sua situação – porque sempre que não pode piorar, piora - Mirian havia retornado com seu perfil virtual, e agora ele podia falar com ela. Dúvida maldita, cruel.

Ele não suportou mais. Enviou uma carta virtual para ela, desabafando tudo. Falando de todos os seus sentimentos, mas não da forma que imaginas. Ele não era um canalha. Ele pediu para que Mirian acabasse com essa ilusão dele, quebrasse ele por dentro para que Giulia o reconstruísse da forma certa. Eis que irei transcrever a mensagem de Mirian:

“Olha, eu peço perdão se um dia dei a entender que gostava de você, não queria te fazer mal. Na verdade, eu gosto de outra pessoa. Eu espero que você seja muito feliz com essa Giulia que realmente te ama. ”

Essas poucas palavras, queimaram, fazendo-o chorar piegas de desolação e sentimento de liberdade, simultaneamente. Finalmente o encanto estava quebrado, finalmente ele estava liberto para amar quem merecia ser amada com todas as suas forças.

O feitiço foi retirado, e ele só foi voltar a sofrer da dor do amor por Mirian hoje, no dia do aniversário dela, enquanto transformava essa infortunada história em narrativa para entreter uns poucos leitores que se interessarem. 

 


Notas Finais


Baseado em:

Fatos reais.

Here without you, de Three Doors Down
https://www.youtube.com/watch?v=lF2xItHW7dI

Down, de Jason Walker
https://www.youtube.com/watch?v=M8He7KJwhqc

Over and over, de Three Day Grace
https://www.youtube.com/watch?v=tmzOGSmlK3E


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...