História Colors - Capítulo 12


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Categorias Inazuma Eleven (Super Onze)
Personagens Afuro Terumi (Aphrodi), Amemiya Taiyou, Kia Hiroto, Kirino Ranmaru, Matsukaze Tenma, Personagens Originais, Shindou Takuto, Shirou Fubuki, Tsurugi Kyousuke
Tags Acromatopsia, Arte, Autismo, Boyxboy, Cegueira De Cores, Cromofobia, Fobia De Cores, Romance, Saúde Mental, Shindouxkirino, Shindouxtenma, Sinestesia, Slash, Transtorno Bipolar, Tsurugixtenma, Yaoi
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Palavras 4.532
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção, Ficção Adolescente, Lemon, LGBT, Romance e Novela, Shonen-Ai, Shoujo (Romântico), Slash, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Gravidez Masculina (MPreg), Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Aqui está a segunda parte 😊

Capítulo 12 - Dez - dois


O caminho de casa foi rápido, talvez porque eu não estava a prestar atenção nele, completamente ocupado pela causa do meu franzir de sobrolho, para o que me estava a deixar pensativo e naquilo que as pessoas normalmente chamavam de nas nuvens. 

A minha casa estava vazia como era de se esperar quando entrei, seu silêncio sendo quebrado pelos meus passos no chão e minhas ações nos móveis. Tomei um duche assim que cheguei, usando o tempo por baixo de chuveiro para limpar a cabeça e pôr-me centrado para estudar; eu não podia ficar a pensar em Ranmaru o tempo todo. 

Mas talvez tê-lo feito não tivesse sido boa ideia porque minha mente simplesmente arrefeceu demasiado. Eu não estava a conseguir fazer nada de todo outra vez, eu repetia e repetia e falhava como acontecera na aula de artes, tudo o que eu fazia travando em sua linha de raciocínio e até mesmo no seu inato que era pensar.

Me ouvi a mim próprio a levantar distantemente no abafado dos meus ouvidos, meus passos a moverem-se apressados no chão, meus olhos fecharem-se e meu corpo encolhendo-se em si próprio. 

A sensação de aperto no meu peito me dizia o que estava acontecer tal como a respiração ofegante que se transformou em total incapacidade de ventilar. Minha cabeça doía, martelava, alto em meus ouvidos, meu nariz só cheirava e sentia dor, afiada. 

Era uma crise e ela estava agarrada ao meu pescoço me estrangulando e não querendo largar, me dizendo que eu deveria fazer como ela queria ou então tudo ficaria pior; eu sabia que não podia lutar contra ela então cedi. 

Mas havia algo forte no meu pescoço, gritando na minha pele que começou a cortar sob a pressão, que me fez gritar até eu não poder ouvir a mim próprio porque eu simplesmente não conseguia mais gritar.

" Respira. Pelo nariz, respira. " havia um frio dizendo o que eu devia fazer, que a cada vez que falava se tornava de alguma forma nítido. " Respira. "

Tentei me mover, minhas mãos desesperadas sobre a pressão em minha boca, meus olhos embaçados não vendo nada mais do que distorções. Mas a pressão resistiu, forte em sua insistência de me manter quieto. 

Só que eu não queria ficar quieto, eu não queria aquela pressão, eu não queria espelhos em minha carne atrás de me fazer sangrar, eu não queria sentir dor. 

" Não. Respirar, jovem. " cerrei os olhos ao som, o frio e a dor me fazendo estremecer em choque, " Vamos, rapaz. " o frio parecia estar a suplicar, desespero agarrado a minha boca chamando por mim. 

" Rapaz, eu preciso da tua ajuda nisto. " o frio estava a saber também a amoras, doce no meio do caos, necessitado por minha atenção que estava algures perdida dentro de mim. 

Isso me fez ceder, ir atrás da capacidade de entender o que era dito, de fazer das palavras algo além de apenas ecos no ar, " Isso, mais uma vez, respira. " 

Repeti a ação que ele pedia, a ardência em meu peito quase me fazendo desistir de tentar forçar o ar a entrar e sair de dentro de mim. 

" De novo. " o frio repetiu-se e eu o segui em cada uma das suas repetições, a sensação de ter novamente o peito num tamanho em que meu coração pudesse caber servindo de incentivo. " Ótimo. Agora vamos contar de zero até dez enquanto respiras, está bem?"

O fiz seguindo cada número, me obrigando a levar o ar o mais fundo a cada avanço da sua contagem que somente me fez de facto sentir o seu efeito com o seu fim próximo. 

" Agora vou afastar a minha mão, está bem? " o frio, que finalmente me apercebi que era um homem, indagou relaxando lentamente o seu aperto quando assenti. 

Ele o fez devagar, um dedo de cada vez, seu toque cortante se afastando levantando a sua pressão para longe tanto da minha boca como da minha nuca que não parava de queimar. 

" Agora abre os olhos. " ele pediu após um período em silêncio, sua presença um pouco distante. Respirei profundamente desta vez deixando o ar sair pela minha boca, seu arrastar um incómodo na minha garganta arranhada. 

Pisquei os olhos tentando me adaptar a luz, a imagem desfocada a minha frente levando muito mais do que esforço para se fazer nítida. 

" Sentes-te melhor? " o homem de cabelos brancos a minha frente indagou depois de vários segundos a olhar-me. 

Assenti com a cabeça, meus olhos estudando o que eu podia apanhar da figura que eu sabia dizer que não me era estranha pois eu já a tinha visto pela vizinhança. 

" Ótimo. " ele acenou positivo com a cabeça, " Mas não estás nada bem. Não paras de sangrar. " ele disse apontando o lado direito do seu rosto que eu segui no meu ao encontro de um vermelho agressivo. 

O sangue me fez rolar os ombros em desconforto, a sua imagem por mim tão odiada me fazendo cerrar os olhos. 

" Não te alarmes. Não é nada grave. " o ouvi dizer se aproximando, " Podes confiar em mim. " 

Olhei para si que me sorria, um sorriso pequeno que não teve de facto nenhum efeito em mim para além da sensação de estar num hospital pronto para receber más notícias maquilhadas de boas. 

" Eu posso tratar disso, só tens de vir comigo. " ele falou me estendendo a mão que eu apenas encarei com o meu corpo imóvel naquilo que eu sabia que era o receio de tocar em alguém tão doloroso, de ser tocado por alguém tão doloroso. 

" Oh, tu não queres tocar-me. Eu entendo. " ele falou num magenta vívido que se afastou de mim enquanto dava de ombros, " Mas isso não muda o facto de que temos de tratar dessa ferida e dar uma vista de olhos no teu pescoço. " 

" Podes levantar-te sozinho, não podes? " assenti positivamente com a cabeça apesar de ter minhas dúvidas quanto a isso, " Então vamos. " ele deu-me as costas e começou a caminhar, seus passos cessados em menos de um metro, " Vamos, rapaz! " 

Ele falou novamente sorrindo outra vez, mas agora de um jeito preguiçoso. Isso me fez sentir a vontade e rolar os ombros para trás, havia algo na preguiça dos sorrisos que me deixava confortável, algo muito além da sua sinceridade. 

Me levantei quando ele voltou a caminhar seguindo atrás de si naquilo que foi uma distância de apenas quatro casas da minha. 

Entrámos em sua casa que era igualzinha a minha se não pelas cores e pela decoração cheia de tons pastéis, o design moderno do nosso bairro se manifestando como um parâmetro para todas as casas. 

" Senta-te. " ele disse apontando para o único móvel para se sentar da sua sala inteira, uma cadeira solitária que olhava para a televisão desligada. " Volto já. "

Me encontrei com uma certa dificuldade em fazer como me tinha sido dito, meus pés agarrados ao chão por tempo suficiente para que o meu vizinho se pudesse afastar e entrar em outro cómodo e voltar. 

" O que foi, tens medo de cadeiras? " ele indagou divertido em minha boca assim que me viu ainda em pé, "  Bem, não te preocupes, ela não é a do Busby. Apesar de quase ter sido." franzi o sobrolho para suas palavras sem saber do quê e quem ele estava a falar — a moção me fazendo perceber que a minha testa parecia um playground de dor. 

" Vai. Senta-te. " à sua insistência me sentei na cadeira mesmo sem conseguir ignorar a sensação de solidão que ela me dava, vazio. 

Ele parou a minha frente com uma caixa de primeiros socorros maior do que eu estava habituado a ver — que eu já tinha visto apenas por uma vez quando paramédicos entraram as pressas em minha casa e eu me tornei invisível por muito do que eu estava habituado a ser —, cheia de itens que ele provavelmente nunca utilizaria em pequenos acidentes domésticos. 

" Tu tens o hábito de bater com a cabeça? " ele indagou repentinamente com o seu magenta curioso após terminar de limpar o meu rosto com as suas mãos cobertas de látex, seus movimentos em sua caixa para buscar mais algodão. 

Sua pergunta me pegou um bocado desprevenido, meus olhos se arregalando em resposta antes de eu baixar a cabeça e murmurar algo como resposta verbal, " Não. Eu... Eu normalmente não o faço. " era verdade, bater com a cabeça era algo que eu deixara de fazer com constância aos dez anos de idade quando aprendi da pior maneira que aquela não era de todo a melhor maneira de lidar com o caos. 

" Estás a dizer que só acontece quando ficas naquele estado? " ele indagou enquanto me fazia erguer o rosto com um leve toque em meu queixo, seu cenho franzido. 

" Não. Também não. Normalmente eu me consigo controlar antes disso acontecer. É só que desta vez eu não me apercebi do que estava a acontecer até ser tarde demais. " minha voz continuava em murmúrio tal como os movimentos dos meus dedos uns contra os outros cheios de desconforto quanto ao rumo que a nossa conversa tomava; eu não queria falar disso. 

" Hmmm... " o ouvi murmurar milésimos antes de eu encolher-me para ardência e para a dimensão que me apercebia que o ferimento na minha testa tinha. " É mesmo feio. " ele disse se dedicando apenas ao canto da minha testa. 

" Shindou... Certo? Como o teu pai? " eu assenti a sua dúvida que cessara seus movimentos, a sua pergunta fazendo arder as minhas mãos. " Shindou-kun, a tua mãe te pôs em algum tipo de tratamento? " 

" Sim, ela pôs. " inspirei pausando sem muita certeza de qual seria sua reação ao que eu diria a seguir. As pessoas normalmente tinham tendência a esfriar toda a vez que eu falava daquilo, e eu não entendia porquê, "Eu vejo médicos. "

" Que tipo de médicos? "

" Ambos uma psiquiatra, um psicólogo e uma terapeuta. " 

" E essa psiquiatra deu-te alguma medicação? " o seu magenta estava neutro em minha boca tirando o seu sabor natural a tomates. 

" Sim. " assenti antes de continuar com o facto de que eu já não cumpria com essa medicação, " Mas o Dr. Fubuki, o meu psicólogo, pediu que ela cortasse todas as medicações. Ele diz que já está na hora de eu aprender a enfrentar o mundo por contra própria sem depender de medicamentos. " falei pensando no que o Dr. Fubiki falara no dia em que dissera que dali em diante não haveriam mais medicações apesar da relutância da minha psiquiatra que ainda me chamava para conversas para saber do meu estado. 

" E tem funcionado? " ele se manteve neutro baixando os braços, suas mãos mexendo no rolo de gaze que ele desenrolava num tamanho demasiado grande para um ferimento que eu podia dizer que tinha mais profundidade do que extensão. 

" Sim, tem. Eu... Eu sinto que ao ser obrigado a puxar por mim mesmo está me ajudando a saber viver mais do que com a medicação apesar de saber que ela me faz falta. Às vezes eu sinto vontade de pedir para voltar a usar, mas não digo nada. " 

" Sabes, tu não te devias calar quanto a isso. Se sentires que chegaste a um ponto em que não consegues mais puxar pede o que achares que te vai ajudar mesmo que isso talvez atrase a oportunidade de poder viver uma vida normal. A tua saúde é mais importante. " ele falava enquanto pressionava esparadrapo contra a minha testa. 

" Ainda está a sangrar. Mas vai passar. Como eu disse: não é nada grave. " ele suspirou franzindo o cenho e dando de ombros. " Mas, posso ver-te o pescoço? " assenti baixando a cabeça e inspirando lâminas afiadas no ar com a pontada fervente que me correu com o movimento. 

Ele me tocou pressionando em seguida numa dor que me fez, muito rápida e instintivamente, afastar-me de si. " Parece que te andaram a pisotear. " foi a única coisa que ele disse antes de me largar, a voz em um murmúrio pensativo e desgostoso, sua atenção sendo voltada para a sua caixa de primeiros socorros e a livrar-se das luvas em suas mãos que sim exibiam o vermelho do meu sangue. 

" Vem comigo." ele chamou caminhando em direção a cozinha para onde segui sem questionamento algum como se estivesse em algum tipo de modo automático. 

Ele apontou para a pia dizendo que eu deveria lavar as mãos, e talvez o rosto e o pescoço, mas não a t-shirt porque essa precisaria de uma máquina de lavar para voltar a ficar apenas azul. 

O fiz acabando arrepiado com a água tão fria que me deixou com os dentes insuportáveis de manter juntos de tão fracos que eles pareciam sob sua pressão. 

" Toma. " o homem de cabelos brancos falou me entregando um pequeno frasco amarelado que não se fazia pesado na mão e que carregava como identificação um nome bastante complicado para eu tentar sequer pronunciar. " São para as dores que vais começar a sentir quando os teus níveis de endorfina baixarem de verdade. " 

" Deverias tomar um agora para evitar a festa desnecessária nos teus nervos. Vai dar-te um bocado de sono, mas olhando para as tuas olheiras, sono é algo com que te receito. " ele falava enquanto caminhava para a ponta do balcão onde havia um jarro de água, " Com água ou sem água? "

" Com água. " assenti olhando para os três comprimidos que haviam dentro do frasco e tirando um. 

" Pergunto porque a minha falecida esposa tomava os comprimidos sem água. Ela o justificava com a desculpa de que se podia engasgar mais facilmente tomando-os com água do que a seco. Tu deverias ter visto a cara de convencida que ela fez quando o teu pai disse a mesma coisa. A partir daquele dia eles se tornaram bastante próximos o que fez muito bem ao teu pai. " 

Ele suspirou naquilo que foi uma mistura confusa de sabores na minha cabeça que queria ao todo ignorar toda a vez que ele mencionava-o como se ele fosse algum tipo de presença constante em nossas vidas, algo que eu sabia que não era. Que havia deixado de ser há bastante tempo atrás. 

" Obrigado. " agradeci lhe entregando o copo depois de beber toda água que estava a temperatura ambiente em meu corpo e me livrou dos calafrios mas se mostrou incapaz de abafar os meus ouvidos. 

" Muito bem. Não sentes mais nada, certo? Tonturas ou algo do género? " ele indagou colocando o copo sobre o balcão e eu neguei com a cabeça num movimento que me fez fechar os olhos para mais uma pontada. Ele murmurou algo como resposta.

Ele chamou-me a caminhar de volta a entrada da casa onde me deixou só por alguns minutos em frente a porta. Nesse meio tempo, olhando para baixo, apercebi-me do quão frios os meus pés descalços estavam. Tal como a primavera. 

" Toma, são para ti. " o magenta do meu vizinho falou colocando um par de chinelos no chão, " É capaz de não te servirem como deve ser, mas o trabalho deles com certeza fazem na perfeição. " 

Enquanto ele falava calcei o par de chinelos um bocado maiores que parecia quente e amarelo como a praia, o cheiro do mar fraco em minhas narinas. 

" Muito obrigado. " falei ainda olhando para os meus pés. 

" Não tens de quê. " o ouvi dizer naquele sabor de quem fazia pouco caso de algo, como se meus agradecimentos fossem de todo desnecessários. 

Fizemos o caminho de volta para a minha casa em passos vagarosos como o céu que escurecia no brilho das primeiras estrelas. Elas pareciam excitadas com a expetativa de algo como sempre, como quando eu era criança e ele sempre me convencia a pedir um desejo a primeira estrela que visse mesmo comigo a dizer que aquilo era uma parvoíce porque estrelas não realizavam desejos. Ele sempre se ria daquilo e uma vez disse que eu teria muita dificuldade quando levasse alguém de quem gostasse ao Tanabata. Eu dizia que nunca gostaria de ninguém porque as pessoas que amamos magoavam. Era engraçado como naquela época era somente a minha mãe à quem aquelas palavras se dirigiam. 

" Estás bem, Shindou-kun? " olhei para longe do céu quando o magenta com traços de amoras soou em meus ouvidos, minha atenção voltada para o homem ao meu lado. Assenti. Ele acenou também positivo com a cabeça continuando os poucos passos que faltavam até minha casa em silêncio. 

A porta estava encostada apesar de visivelmente aberta, mas nada que chamasse muita atenção numa rua morta como a nossa, algo a que agradeci aos bocados de consciência que sempre perduravam em minha mente não importava a situação. 

Me encontrei a hesitar em entrar por um momento, a razão que me fizera sair correndo porta a fora ameaçando superlotar-me em forma de lembranças que durante todo o dia de hoje não me paravam de assombrar em forma de tudo e nada. Mas mesmo assim entrei seguindo atrás do homem de cor magenta que silenciosamente entrou pela casa com pés descalços e passos cuidadosos insistindo em acompanhar-me até ao meu quarto dizendo que queria certificar-se de que me deitava e dormia em vez de perder-me na loucura dos estudos que estavam a deixar os jovens loucos ultimamente, principalmente os pré-universitários. 

Sentei-me na minha cama sob o olhar atento e um sobrolho franzido do homem que estreitou os olhos após olhar em volta do meu quarto. A minha escrivaninha estava uma bagunça e o chão a frente dela também. Suspirei. 

" Precisas de mais alguma coisa? " ele indagou quando me ouviu a respirar profundamente, sua curiosidade se instalando no meu pulso onde eu me agarrava. 

" Não eu... " murmurei antes de pausar e me levantar, " Muito obrigado. " pedi com o máximo de respeito que a pontada no meu pescoço me permitia, minha postura um bocado trémula. 

" Eu já disse que não tens de quê. " ele suspirou com a voz de um certo modo preguiçosa, " Não te deves preocupar com isso, mas sim com dormir, e dormir bem. Parte do que aconteceu é com certeza resultado de noites mal dormidas. " ele disse dando um passo para frente para colocar uma mão no meu ombro, " Agora põe-te direito. "

Fiz como o seu magenta disse me pondo direito e olhando para si. Eu realmente me estava a sentir agradecido pelo que ele fizera por mim, tanto agora como no passado como eu me havia acabado de lembrar com a sensação de que esta cena era um grande déjà vu, algo que já havia acontecido e se perdido algures na minha cabeça, mas mesmo ele tendo me ajudado em dois momentos péssimos da minha vida eu não fazia ideia de qual era o seu nome, ou melhor, eu me havia esquecido. E não tinha coragem alguma para perguntar. 

" Se está tudo bem já posso ir-me embora. " ele largou-me e caminhou por alguns passos antes de pausar, " Já agora, se começares a sentir tonturas ou vertigens vai ao hospital. E se não conseguires vem para a minha casa, eu te levo. " 

" Obrigado. " voltei a agradecer com a cabeça baixa, isto realmente já havia acontecido antes. Sangue, hospital, os meus desastres pessoais, tudo. E ele agindo com o mesmo sabor de amoras que agora. A única diferença era realmente o facto de que eu estava mais velho e ele também. Eu não era mais um miúdo. 

" Descansa. " ele falou uma última vez antes de sair me certificando que trataria da porta — isso fez-me agradecer uma vez mais. 

Fiz como ele disse, pus-me a descansar. Livrei-me da minha t-shirt e das minhas calças e me aproveitando do facto de que ainda estava usando lençóis mais pesados por causa do inverno simplesmente envolvi-me e enrolei-me neles pelas horas seguintes em que os comprimidos tiveram efeito. 

Ele tinha razão quando dissera que eles me dariam sono, pois eles me deram — mais do que um bocado — por longas horas que eu tinha certeza que se teriam estendido se não tivesse sido pela interrupção melódica em meus ouvidos que tentaram em seu máximo ignorá-la até não mais conseguirem. 

" Ei... " vi o kobi borrado da minha mãe arrastar-se leve em minha visão, sua suavidade apenas perdendo para a superioridade do toque em meus cabelos, " Preparei algo leve para comeres, vem jantar. " ela disse e olhei para o relógio na minha mesa de cabeceira, já passavam das onze da noite. Eu não comia àquela hora. " Ignora as horas. " 

Ela estava sorrindo branco entre lábios róseos que carregavam em si o fantasma de um vermelho mal apagado. Aquele vermelho não era comum, era como o das atrizes de cinema, intenso e forte; ela havia estado com ele. 

Minha mãe levantou-se primeiro da minha cama caminhando em direção a porta, seus passos pausando para ela se voltar para mim, seu sorriso ainda ali, ofuscante como o sol na escuridão da noite. 

Desviei o olhar olhando para longe dele, eu estava a detestar o facto de que ele me estava a aquecer, ele não deveria. Não com aquele vermelho que eu já não via há muito tempo. 

Mas me sentei quando a porta se fechou, meu corpo pesando toneladas e meus olhos implorando para serem fechados, um pedido que nem cerrar os olhos me estava a ajudar a ignorar. Isso quase me fez desistir de tentar levantar-me e voltar a deitar-me, dormir estava sendo ótimo principalmente depois de dias sem o fazer direito, mas não cedi, levantei-me e caminhei em passos arrastados pelo quarto atrás dos meus pijamas que eu havia dispensado no início da noite antes de continuar a arrastar-me escadas abaixo para a sala de jantar. 

Quando cheguei no nosso lugar de refeições diárias minha mãe tinha colocado sobre a mesa uma caixa de primeiros socorros que ela insistiu em usar antes de me servir. A deixei fazê-lo sabendo que se ela queria mudar o curativo que eu tinha era porque ele não estava de todo apresentável. Eu estava certo. 

Ela serviu-me depois disso, uma sopa de legumes cheia do sabor do grito desesperado das cigarras no verão e de lembranças de um inverno cheio de uma cozinha duvidosa quando ela se tinha ido embora por um tempo maior do que o necessário para fazer compras; eu quase não comi. 

Tentei ignorar o facto de que franzir o sobrolho em pura rejeição fazia a minha testa arranhar e ameaçava pôr a minha cabeça a martelar e sentei-me para comer sem  cerimónias tirando os agradecimentos que eu sempre fazia antes de comer, só aí me apercebendo de como estava com fome depois de um dia inteiro sem comer nada de facto. 

" O senhor Aizawa, o homem que te ajudou, contou-me sobre o que aconteceu mais cedo. " minha mãe começou, devagar, enchendo os meus pés da sensação de ovos sendo esmagados. " Eu... Tu estás a deixar-me preocupada, filho. Preocupada e com medo. Com medo desta sensação de que simplesmente estamos a andar para trás, a voltar para um ponto que parecia termos saído há bastante tempo. " 

Ela pausou, seu kobi flutuando em minha visão como se ela ainda estivesse falando, ecoando em meus ouvidos atrás de abafar suas palavras seguintes. 

" Eu sei que é por causa dele. De nós. Por tudo ter sido demasiado repentino e acredita em mim quando digo que essa não era de todo a minha intenção, que largar uma bomba desta dimensão para ti sem a preparação adequada é algo que eu não me atreveria a fazer, mas, aconteceu. Eu me descuidei e tu viste. Demasiado cedo. E as coisas não estão a acontecer como eu tinha planeado. Para falar a verdade sinto que estamos a desmoronar. Está tudo sendo rápido e eu queria que fosse devagar. Que tu descobrisses 'ele' antes de 'nós'. Que tu tivesses de te adaptar à ele antes sequer a ideia de te adaptares à nós se construísse na tua cabeça porque eu sei que as coisas são mais difíceis assim, deste jeito. E eu peço desculpas por isso, muitas, mas... Mas já que o estrago está feito, eu... Eu quero pedir-te algo que é: tentares. Eu peço que tentes, Takuto. Eu quero que o faças. Não por mim, mas por ti. Por vocês. Pela vossa relação de pai e filho que fui eu quem destruiu. Eu quero que tu tentes tê-lo outra vez como pai, que... "

" Ele não é meu pai. " eu não sabia dizer quando fora que a minha visão se tornara uma pintura caótica de tons de kobi e castanho com cores se sobrepondo para todos os lados, mas eu também não seria capaz de o fazer com a minha visão tão embaçada. " Ele não é... Ele não é meu pai! " eu estava carregado mas era verdade, o meu pai havia morrido há cinco anos atrás quando eu me apercebera de que alimentar falsas esperanças não me levaria a lugar nenhum. Que aquela fantasia na minha cabeça havia queimado dois anos antes quando acordei e não havia mais ele. 

" Takuto... " ela não disse nada, ou talvez meus ouvidos deixaram de ouvir, eu não sei. A única coisa que sei era que os meus pés se estavam a mover sobre o assoalho que gritava sob a pressão implorando para que eu parasse, mas eu não me importava, eu não me conseguia fazer importar porque eu não sabia como fazê-lo, como sair daquele sentimento de sufocamento que me fazia sentir medo e me fazia... Me fazia incapaz de não pensar em tudo que eu havia, depois de muito tempo e esforço, conseguido reprimir naquele lugar da minha mente para onde tudo de mau ia e eu me certificava que ali ficava, tudo e todos, desde ele à ela. Como havia sido por grande parte da minha vida. 

Mas não agora. Agora estava tudo inundado, haviam águas para todos os lados. Águas cheias das imagens do dia em que acordei e me preparei. Que sentei e tomei o meu pequeno almoço. Que continuei sentado e esperei. E esperei. Por dez, vinte, trinta minutos. Por uma, duas, três horas. Até que fui ao quarto deles e bati, e bati, e bati, e bati até que a figura da minha mãe abrisse a porta e me dominasse, mas por mais que a sua sombra sempre me amedrontasse eu estava falando, perguntando onde ele estava, dizendo que estávamos atrasados, que mais um pouco e eu não poderia assistir as aulas. 

A sua resposta sendo o eco mais assustador que os meus ouvidos alguma vez ouviram, " Ele foi embora. " 


Notas Finais


Bem, espero que tenha gostado e desculpa qualquer erro 😊😊


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