História Colors [Malec] - Capítulo 20


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Categorias As Crônicas de Bane, Os Instrumentos Mortais, Shadowhunters
Personagens Alexander "Alec" Lightwood, Aline Penhallow, Catarina Loss, Céline Herondale, Clary Fairchild (Clary Fray), Isabelle Lightwood, Jace Herondale (Jace Wayland), Jocelyn Fairchild, Lady Camille Belcourt, Maryse Lightwood, Max Lightwood, Personagens Originais, Ragnor Fell, Robert Lightwood, Simon Lewis, Stephen Herondale
Tags Alec Lightwood, Clace, Colors, Lemon, Magnus Bane, Malec, Malec Longfic, Shadowhunters, Sizzy, Tmi, Yaoi
Visualizações 946
Palavras 4.565
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Crossover, Drama (Tragédia), Famí­lia, Festa, Ficção, Ficção Adolescente, Fluffy, Lemon, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Universo Alternativo, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Uma da manhã, meu Deus KKKK
Olha o lado bom, acordou com att (que auto estima é essa San? É felicidade mesmo).

Eu não sei nem o que dizer sobre esse capítulo, então...

Enjoye. ❤️

Capítulo 20 - Take Me To Church


Fanfic / Fanfiction Colors [Malec] - Capítulo 20 - Take Me To Church

Eu não vou tremer

Eu não irei me abalar

Eu sou feito de pedra

Eu não irei quebrar

Born Ready, Zayde Wolf. 


Magnus estacionou o carro — um Sandero preto — e respirou fundo. Alec não havia dado uma palavra desde que saíram de casa, mas Magnus não o culpava. Alec olhava pela janela, os letreiros dourados "Vara de Família de New Americana". Ele sequer acreditava que aquele dia, após tantos meses sendo praticamente perseguido pelo pai, sabendo sobre a mãe apenas pelo que sua Isabelle podia contar. Alexander não sabia, até aquele momento, o quanto sentia falta dos tempos em que eles eram, realmente, uma família. Em como tudo mudou em um ano. Era dezembro, e Alec, entretido, sequer percebeu as folhas morrendo no outono, ou nascendo na primavera, ou o sol invadindo o céu na chegada sútil do verão. Ele fechou os olhos com força. Iria enfrentar pela última vez, e não estava só, mas realmente não sabia o que esperar. Seu pai sempre dizia que iria recorrer, e Alec sequer sabia o motivo dele recorrer por um filho ao qual denominava uma aberração, mas ele estava.

Alec observou de soslaio quando Magnus vasculhou a pasta em busca de algo. Alec viu então, do que se tratava. Uma semana após a conversa que haviam tido na ponte, Magnus havia lhe arrumado um emprego. Alec sorriu, o beijou e se deitou com ele, feliz, ao ver o site que Magnus havia lhe feito — demonstrando o total talento dele com computadores, como James havia lhe dito —, para exibir suas fotos. Em dois meses — de outubro para dezembro — Alec não dependia mais de Magnus. Ele já havia cobrido casamentos, ensaios de gestantes e pré wedding's, e realmente, sentia satisfação consigo. Ele analisou, enquanto encarava o tribunal pela janela fumê do carro do namorado, em como sua vida havia melhorado sem eles. Sem sua família, ou o que deveria ser sua família. Não deveria estar sendo tão difícil cortar os laços de uma vez, pensou Alec. Mas estava, muito. Talvez por que no fundo, ele tinha esperança que seu pai se arrependeria, sua mãe acordaria ou sua irmã pudesse fazer algo. Mas, Alexander também sabia o que diziam sobre esperança: traz tristeza eterna.

Ele apertou o cordão que Magnus havia lhe dado, e puxou o ar pela última vez antes de destravar a porta. Ele teria que deixar o cordão ali, dentro do carro, mesmo não o tendo tirado sequer para dormir nos últimos meses. Aquilo havia se tornado um símbolo material da devoção de Magnus para com ele, era importante e único.

— Ei, anjinho — Magnus o chamou, e Alec piscou duas vezes seguidas, como quem quisesse se situar — Vamos recapitular?

Magnus nunca sentiu tanto medo de uma audiência. Ele defendia assassinos, acusados de assassinato, ele solucionava crimes e inebriava a justiça, e era bom com isso, mas se sentia a ponto de morrer sem ar, com uma simples audiência de emancipação. Seria quase toda baseada em necessárias mentiras. Alec era ainda menor, e Magnus nem em seus sonhos mais sujos deveria toca-lo da maneira que fazia quase todas as noites, ou ama-lo da maneira que fazia em cada segundo que respirava. Mas não foi algo que ele pediu, foi algo que ele lutou contra, até perceber que estava vencido naquela guerra de corações, e Alec havia saído vencedor. Seu Alec. Os olhos azuis haviam voltado a brilhar, e a beleza apenas aumentava a cada dia. Ninguém machucaria Alec, por que ele se certificaria que isso não acontecesse. Magnus ainda não havia conhecido Robert pessoalmente, e ele sabia que Alec tinha medo do que ele poderia fazer, mas havia prometido que não iria fazer nada, e cumpriria. Sempre cumpriria para Alexander.

— Sou solteiro. Moro com o Connor, e ele está trabalhando por isso não pôde vir. — Connor havia concordado em ajudar, quando soube toda história; para o juiz — que ironicamente, ou não, era Imasu —, Alec morava com Connor, e havia o conhecido em uma palestra na escola, fato que Ragnor confirmaria caso necessário — Trabalho de fotógrafo free Lancer, que basicamente é a única verdade aqui. Estou pedindo a emancipação por ser agredido pelos meus pais. — a última frase foi um sussurro tão baixo, que Magnus sabia que não escutaria se não estivesse tão perto — Tudo certo?

Magnus baixou a cabeça no volante, e fechou os olhos.

— Vamos conseguir juntos. — Magnus falou, temeroso com o que podia acontecer — Acredite em mim, darei meu melhor.

Alec sabia que ele realmente daria. Mas não era disso que tinha medo, não era isso que o assustava. Era simplesmente, ver toda a sua família sentada do outro lado, separados, suas esperanças sendo destruídas e a constatação de que tudo havia desabado antes mesmo de ser construído. Medo do que seu pai usaria e faria; era mais que um fato que a religião era uma máscara que Robert usava de forma torta, transgredindo as partes que lhe atevia e agradava, e descartando as que o determinava fazer coisas que não queria fazer.

Mas então, Alec olhou para os próprios pulsos. Existiam cicatrizes — feitas pelo seu pai, feitas por ele — e em sua linha V, que seguia perfeitamente pelo seu abdômen. Ele olhou para Magnus, e viu seu porto seguro ao seu lado. Magnus, Magnus, Magnus. Sempre ele, desde que ele havia chegado. Disposto a fazer o melhor que podia, disposto a dar tudo que tinha. Alec enfrentaria, por que Magnus estava ali. Ao seu lado. Como havia prometido. Sempre.

— Aqui, o cordão. — Alec o entregou, e Magnus sorriu fraco observando o M impresso no anel que pendia como pingente — Eu não me importo com o que acontecerá lá. Eu estou com medo, Magnus, muito. — confessou Alec — Mas, você está aqui, agora. Não é?

Magnus sorriu, e olhou para os lados. Alguém ve-los, colocaria tudo a perder.

— Sim, estou. — Magnus falou, chegando mais perto ao constatar que aquela era uma rua vazia — Sempre estarei, meu Alexander. Meu Alec.

— Seu. — Alec o respondeu de volta.

E o beijou.

•••

Isabelle estava parada no corredor, diferente de tudo o que Alec já havia visto. Seus pais não estavam com ela, e ela parecia perdida. Alec pensou bem, na verdade, todos eles estavam. Ela só tinha quinze anos, e estava perdida naquele mar de confusão. Alec sentiu-se culpado, novamente. Ela ergueu os olhos negros, e ele palpitou. Sua irmã, sua menina. Lightwood sempre juntos, eles diziam, e agora, estavam mais distantes do que Alec imaginou que estariam um dia. A dor de ver Isabelle com aquele vestido formal e saltos em um tribunal por sua culpa, fez a boca amargar e a necessidade de nicotina dar o ar de sua graça. Alec mordeu os lábios, e percebeu que realmente Isabelle estava sozinha, mas caminhava até ele agora. Ela parecia guardar segredos, mas quem não guardava? Ele mesmo guardava vários. Magnus havia o deixado ali, dizendo que iria ver os papéis e entregar as evidências. Ele também estava sozinho, mas nunca sozinho, pois se tinham.

— Alec — Izzy o chamou, e ele sorriu largo, por que estava realmente feliz em vê-la — Eu sinto tanta sua falta.

Ela o abraçou, ficando na ponta dos pés mesmo de salto, e fazendo Alec recordar as noites em que eram crianças travessas, comendo brigadeiros e vendo desenhos, um dia Barbie, outro dia Ben 10, e assim não brigavam por que cediam. Alexander lembrava de achar Isabelle pequena e frágil, e por isso, abrir mão de suas noite de desenhos para ver mais Barbie e mais princesas. Ele morava naquele abraço, nas lembranças de uma adolescência — ou quase — juntos. De quando olhavam garotos juntos, e da cara de Isabelle quando Alec beijou Tyler, mesmo que ele realmente não quisesse. Da cara de felicidade da irmã quando confessou envergonhado que não era mais virgem, e que Magnus era simplesmente incrível na cama. Ele lembrou da própria felicidade ao ver Isabelle presa nos braços de Simon, sorrindo como nunca fazia em casa. Somos a metade de um mesmo todo, ele havia a dito.

— Eu também, minha pequena. — ele respondeu de volta, sentindo a saudade lhe rasgar o peito; Isabelle o apertou mais, e chorou, e Alec não entendeu tal ato, mas não a impediu.

— Preciso te contar algo. — Izzy falou um pouco ofegante pelas lágrimas, se afastando, e Alec se sentiu vazio — Não me odeie, por favor.

Ele sorriu. Como Isabelle podia acreditar que Alec a amaria menos? Nada do que ela fizesse o faria cometer tal loucura.

— Eu nunca faria isso. — ele disse passando um conforto na voz que não sentia.

Isabelle olhou para cima, nos olhos do irmão, e Alec viu medo. Ele sabia identificar medo, ele sentia muito.

— Eu vou depor contra você. — ela falou rapidamente, e ele deu dois passos para trás, se sentindo atingido.

O ar sumiu, e os olhos inundaram. Ele imaginava os motivos, mas não fazia doer menos. Não, ele estava rasgando todas as cicatrizes curadas. Aquilo doía, demais.

— Como? — foi o que consegui expressar.

— Eles estão me obrigando, Alec. — a voz de Isabelle beirava desespero — Vem sendo um inferno de Dante. Você não está mais lá, mas eu estou. Eu preciso... Eu só tenho quinze anos e...

— Isso dói. — Alec sussurrou — Dói para um caralho.

— Me perdoe. — Isabelle implorou — Me perdoe.

Alec a olhou, e não sentia ódio. Ele queria protege-la, apenas isso. Guarda ela e cuidar, tirar ela daquele inferno, pois ele sabia, conhecia como era. Mas não se moveu, ou falou, ou sentiu algo externamente. Estava paralisado demais, para sentir algo.

E com os olhos brilhando dor, Isabelle se afastou.

•••

O olhar de nojo de Robert queimava sua pele pálida. Era como sentir estilhaços após o que Isabelle havia dito. Lâminas pequenas e afiadas perfurando a pele, e a firmeza em se manter impassível escapando pelos dedos. Alec queria fugir dali, queria escapar, queria apenas voltar para a noite passada, no colo de Magnus, o escutando sussurrar e se sentindo útil, vivo, livre. Totalmente diferente do que se sentia sob os olhares inquisidores de seus pais, do juiz, do promotor, e de qualquer presente naquele tribunal.

Era objetivo, o juiz Morales iria analisar os fatos apresentados a ele, iria escutar argumentos, iria analisar racionalmente, e dar um veredito que mudaria a vida de um jovem por completo. Ele não sentiria o que Alec sentiu, não era a mesma coisa. Eram os sentimentos, as dores, os traumas de Alexander decididos pelo bater de um martelo. Ele nunca se sentiu tão impotente diante algo. Nem quando sua pele era ferida, as ofensas ditas e o sangue pingava, ele não se sentia fraco como se sentia agora, prestes a chorar.

— Você está bem? — Magnus sussurrou, totalmente diferente do namorado que Alec conhecia; ele mudava quando sentava naquelas cadeiras: duro, sério, obstinado.

Ao que Alec podia ver, todos mudavam diante daquele tipo de situação.

— Minha irmã vai depor contra mim. — Alec respondeu em outro sussurro — Isso está doendo.

Magnus parecia perplexo, e Alec sabia que aquela era a reação normal para uma situação como aquela.

— Ainda vamos conseguir. — Magnus sussurrou de volta, mas Alec percebeu que nem ele tinha mais certeza do que estava prometendo, então não respondeu.

— Caso 005, dia vinte e dois de dezembro de dois mil e dezete — a voz de Imasu era dotada de um sotaque aparentemente latino, o que fez Alec se perguntar em um relance se todas as pessoas que Magnus conhecia eram estrangeiras; o próprio Alec era — Pedido de emancipação feito por Alexander Gideon Lightwood, requisitado perante a lei de Alicante por Magnus Bane.

Silêncio. Ninguém se manifestou, e Alec acreditou ser o padrão. Era um lugar que impunha desespero e respeito. Era um lugar onde ele não queria estar.

— Isabelle Sophia Lightwood, sente-se. — ele chamou, e uma Isabelle curvada e temerosa sentou-se obedecendo.

Basicamente, Isabelle apenas obedecia. Alec queria de verdade, tirá-la dali. A verdadeira Dollhouse, eles eram. Pose com seu irmão, Alec cantarolou mentalmente, você não quer ser uma boa irmã?

Stephen, que era pai de Jace e advogado de Robert naquele caso, e também um membro ativo da igreja do pastor, ajeitou o paletó e pareceu encarar Magnus por um instante, dando um sorriso de escárnio em seguida. Magnus conhecia a estratégia, mas não estava coagido. Estava com ira. Sede de sangue, implorando para que de sangue alguém o enchesse.

— Você pode me contar como era na sua casa, antes do seu irmão sair? — Stephen questionou, e seu olhar coagia Isabelle, mas passava despercebido por todos ali, por que aquela era a intenção.

— Éramos uma boa família. — Izzy gaguejou, pigarreou e sentiu o ar faltar; ela sentia que traia o irmão, mas que escolha teria? Sua pele fina e delicada, marcada por pequenas brancas cicatrizes mostravam o quanto de escolha diante daquilo ela estava tendo — Meu pai nunca fez as coisas que ele alega. Estávamos bem. Isso é tudo.

Stephen pareceu perceber que não tiraria mais nada sem Isabelle entrar em colapso e vomitar ali, então deixou que ela saísse.

— Não é o que aparece aqui, nos laudos. — Imasu falou enquanto lia um papel que Alec reconheceu ser anotações de Catarina — Existem hematomas no rapaz, e um histórico de agressões verbais e físicas, além de um diagnóstico de transtorno causado por pressão psicológica. Como o senhor defende isso?

Stephen parecia não ter reação, mas não cedeu, não quando recebeu um olhar do homem sentado na cadeira, acusando o próprio filho, que poderia matar caso olhares possuíssem esse poder.

— Veja bem, meritíssimo, as consultas do jovem Lightwood não eram assistidas. E apesar de não ter dúvidas sobre a boa conduta da doutora Loss, como saberemos se ele estava realmente falando a verdade? Como saberemos se de fato, tudo isso ocorreu ou não foi o desejo de um jovem rebelde de se livrar de regras que não apreciava? Como saberemos, pois, se isso são fatos ou são imaginação de adolescente? Adolescentes só vêem o próprio lado, meritíssimo. Além de que, olhe bem para ele. Como, por exemplo, acha que ele conseguiu dinheiro para pagar um advogado tão caro, e abertamente...

Magnus levantou em um ímpeto e encarou Imasu. Eles se conheciam, dividiram anos e a cama juntos, Imasu tinha plena consciência que mais uma palavra dita, e Magnus quebraria aquele tribunal. No sentido literal da palavra.

— Protesto. — Magnus falou entre dentes; Stephen havia falado demais, dito demais, humilhado e coagido demais, e Alec se segurava para não chorar, apertando os dedos um no outro, se sentindo sujo por estar tão exposto — Ele está denegrindo o meu cliente. E a mim, diga-se de passagem, pela insinuação.

Imasu suspirou, Magnus pode enxergar.

— Protesto acatado, senhor Bane. — ele virou-se para Stephen, que parecia atônito — Segure mais suas palavras, senhor Herondale. Aqui é um tribunal, não um ringue de luta. As coisas que falou sobre o rapaz...

— Perdão pela minha conduta, meritíssimo. — Stephen se corrigiu rapidamente — Mas não suporto injustiças, como essa que meu cliente, através do próprio filho está sofrendo. Um pai exemplo, marido, pastor e advogado como nós. Sempre presente, sendo caluniado dessa maneira.

Alec fechou os olhos, e uma lágrima caiu.

"Você é uma abominação, eu tenho nojo de você." As palavras o rodeavam sem piedade, e ele quis vomitar. Isabelle chorava, de fato, e Alec queria caminhar para o mesmo fim. As surras, tapas, negligência... Como seu pai podia ser tão podre?

As veias pularam no braço de Magnus, e Alec viu ele cerrar o punho embaixo da mesa.

Pessoas desesperadas tomam medidas desesperadas, Alexander sempre havia escutado tal frase, mas estava prestes a saber o que significava na prática.

Ele pegou de forma discreta, uma caneta e um papel na pasta de Magnus, ignorando o fato de Stephen estar praticamente lhe humilhando em pleno tribunal.

"Peça um recesso". Era o conteúdo do bilhete, e Magnus o olhou confuso. Alec sabia ler aquele olhar, lhe perguntando o motivo, o que ele pretendia, mas ele apenas sorriu ladino em resposta.

Era algo que teria que agradecer ao seu pai no futuro: a frieza adquirida em frente ao sofrimento. A capacidade de pensar mesmo com sua alma dilacerando aos poucos.

— Recesso. — Magnus falou simplista, e Imasu o encarou de volta.

— Recesso de meia hora. Voltaremos quando... Os ânimos esfriarem.

O barulho do pequeno martelo soou, e Alec sorriu entorpecido em ódio. Como há muito tempo não se sentia.

— O que vai fazer? — Magnus perguntou quando saíram da sala.

— Confie em mim.

Não era suficiente, mas teria que servir.

•••

O espelho tomava toda a parede, e Alec se contemplou. Quebrado. Destruído. No sentido mais vulgar, fodido, e nem era do jeito que gostava. Teria que dar certo, teria que dar, por que ele não iria voltar para o inferno novamente. Não quando havia descobrido que era humano, e não parte de uma máquina.

E depois de meses bem, com um código restaurado, Alec sentiu que havia uma falha em seu código novamente.

Robert entrou no banheiro, e Alec se certificou que estivessem sozinhos. Era seu momento. Ele seria quebrado, humilhado, mas com a certeza que não sentiria aquilo novamente. Um guerreiro. Fortalecido no próprio sangue, na própria dor. Testado no fogo, havia provado que sabia lutar.

— Belo show. — Alec falou ironicamente — Só queria um motivo verdadeiro para aquilo.

Robert pareceu revirar os olhos, e o estômago de Alec revirou ao perceber que tinha manias que seu pai também tinha.

— Você não vai me humilhar. — Robert falou com simplicidade, como se estivesse ensaiado — Ele é um ótimo advogado, mas o que ele vai usar em sua defesa se tudo foi refutado? Não irei passar por isso por que você decidiu que era gay, Alexander.

Perfeito, Alec pensou. Continue, ele implorou internamente.

— É só sua reputação? Eu sou uma pessoa, eu sou seu filho. — uma coisa que Alec era excelente era em dramatizar — Deveria me amar, deveria me proteger, mas está pagando alguém para me humilhar em um tribunal. Eu sou seu filho, não percebe o peso disso?

— Eu não fiz uma abominação, Alexander. — Robert falou entre dentes; o controle se esvaiu dele tão rápido, que Alec se questionou se ele sentiu falta de humilhar o filho — Eu tenho nojo de você, e isso não mudou. Mas você carrega meu sobrenome, e não vai denegri-lo. Eu não me arrependo de cada surra, cada marca, cada gota de sangue derramada na cerâmica do escritório e de cada coisa dita. Deveria ter aceitado quando estava implorando para salva-lo em nome de Deus, deveria ter escolhido sua família a seu pecado, sua nojeira, sua promiscuidade. Mora com um homem como você, gente dessa raça. Como você paga esse rapaz? Ele é jovem... — Alec permaneceu impassível, apesar de lágrimas correrem seu rosto; era necessário, ele repetia mentalmente; necessário — Você me enoja, você e seu pecado me faz doente. Mas não irei permitir que o diabo que em ti habita destrua tudo que construí com esse sobrenome que carrega. Você vai voltar para casa, filho. — a palavra usada com ironia pesada quebrou o último caco inteiro do coração do jovem Lightwood — E lhe mostrarei que foi uma péssima ideia ter saído.

A porta bateu após o pai, e Alec checou o celular. Seis minutos. Áudio perfeito.

•••

Magnus caminhava de um lado ao outro no corredor, tentando aplacar a própria raiva. Ele queria socar a cara de Robert até que os olhos azuis que ele ostentava — totalmente diferente do de Alexander — se tornasse roxo, e então chuta-lo até que sangue saísse pela boca dele. Magnus analisou que ele havia descrito um assassinato por espancamento, e a ideia lhe pareceu incrivelmente boa.

Haviam passado dez minutos desde que Alec sumiu, sem dizer para onde ia, mas Magnus tinha ideia da pessoa que ele, seu anjinho, estava, e isso fazia seu sangue ferver. Além de tudo, estava sem Vicodin a horas, seu humor não estava dos melhores. Magnus sabia que era agressivo por natureza, mas era diferente quando as coisas atingiam Alec. Parecia doer três vezes mais, até se tornar insuportável sentir. Vê-lo ser humilhado daquela forma, inundou Magnus de um ódio totalmente primitivo, de modo que ele mataria a primeira pessoa que cruzasse seu caminho apenas para descontar.

Ninguém machucaria Alec, enquanto ele estivesse lá. Isso era a única certeza, e Magnus a usava como uma luz para seu caminho.

Alec apareceu em seu campo de visão, e tudo que Magnus queria era abraça-lo e beija-lo e faze-lo sentir bem. Dizer a ele que ele era importante, a melhor coisa do mundo, o sorriso mais precioso. Mostrar a Alec que existia um lado onde não era só dor, existia amor, existiam eles.

Alec chorava, e Magnus queria chorar também. O entristecia, a tristeza de Alec.

— Preciso que faça algo para mim. — Alec falou com a voz firme, mesmo chorosa; tão forte, Magnus pensou, tão extraordinário.

— Peça, e eu movo até o inferno. — Magnus o respondeu firmemente, e Alec sorriu de lado.

Magnus viu mais de si mesmo naquele gesto, do que gostaria. Alec era puro, e ele estava o corrompendo, mas afastou o pensamento para longe.

— Eu vou mata-lo! — Magnus exclamou após escutar o áudio que Alec havia feito — Saia da minha frente Alexander, eu vou matar seu pai!

Alec o segurou pelos ombros, e Magnus sentiu os ossos amolecerem. Era sempre daquela forma quando Alec o tocava. A mínima pele que fosse, ou até nenhuma — já que estava coberta pelo tecido fino da camisa social branca apertada — era o suficiente para fazer o coração vibrar em mil estações.

— Calma, Anderson Silva. — Alec falou rígido e Magnus virou a cabeça confuso — Isso é sério? Campeão brasileiro de MMA? — Magnus ainda parecia confuso, e Alec revirou os olhos — Como assim?

— Eu gosto de tiros. — Magnus respondeu — Não de luta.

— Certo, isso não importa agora. — Alec falou rapidamente — Preciso que dê um jeito do juiz incluir isso nas minhas provas.

Magnus deu um passo para trás, e piscou. Era restritamente proibido o recebimento de novas evidências após o início do julgamento. Mas era Alec. Ele daria seu jeito, se seu menino fosse sair daquele inferno.

— Preciso que saiba que irei precisar... — Magnus não pôde terminar, Alec o entendeu.

— Pode seduzi-lo, desde que não ultrapasse limites de fidelidade. — o tom ameaçador de Alec o fez tremer e ao mesmo tempo sorrir.

— Eu prometo.

•••

Não era o papel que Magnus se sentia orgulhoso de desempenhar, mas lá ele estava, procurando o juiz pelas pessoas, desesperado. Magnus respirou fundo quando encontrou, e acenou para Imasu que automaticamente sorriu para ele.

Magnus quis vomitar. Mas se manteve firme. É o Alec, será seu, sem culpa, ele repetia mentalmente.

Ajeitando a camisa, e colocando seu melhor sorriso, Magnus agiu. Não era a primeira vez.

— Quanto tempo. — a voz estava rouca e desceu dois tons, e Imasu ergueu os olhos para encara-lo.

O sorriso que Magnus carregava, lhe enrubeceu as bochechas.

— Você não me ligou.

— Querido... A vida está complicada agora. — nem de longe era uma mentira.

— Não temos muito tempo. — Imasu disse olhando o relógio e Magnus agradeceu — Diga o que quer.

Magnus riu largo, mesmo sem vontade. Era parte de seu papel, e ele sabia desempenhar.

— Inclua isso nas evidências. É recente, e desbanca a defesa. — foi um bom resumo, Magnus acreditou — Por favor.

— Por que se importa tanto? — existia ciúmes na voz de Imasu, um ciúme que ele não tinha direito de sentir.

Por que o amo, Magnus pensou mas não podia dizer.

— Ele é jovem, Imasu. E já passou por tanto. Nós... Sempre fomos livres. Não sabemos o que é isso, mas tenha empatia. — os dedos deslizaram pelo ombro do Juiz, delicado e superficial — Eu sei que é contra as regras, mas estará salvando uma vida. Não deveríamos quebrar todas as regras se esse fosse o objetivo?

— Sabe que só farei isso por que é você. — Imasu falou em uma voz baixa — Por que eu..

— Shh... — Magnus pediu, sabendo o que ele diria — Não quero ouvir.

Ele entregou o celular na mão do juiz, e se assegurou que tudo estivesse certo. Seria hoje.

•••

Meia hora nunca tinha passado tão devagar. Alec se sentia a ponto de um ataque cardíaco ou uma asfixia. Magnus havia lhe garantido que daria certo. Mas quando algo havia dado realmente certo? Até eles, no início, havia dado totalmente errado.

Ele estava sentado ao lado de Magnus, encarando o juiz que estava visivelmente culpado.

— Reabrindo o caso 005, com a apresentação da defesa. — Imasu falou de modo codificado, e Alec se sentiu irritado; ele sabia que estava irritado por que Imasu já havia dormido com Magnus, e não porque a voz dele era de fato irritante, mas não conseguia evitar os ciúmes — Temos uma evidência em áudio. Iremos repassar agora.

— Protesto. — Stephen falou rapidamente, e Magnus demonstrou medo — Quando foi inclusa?

— Duvidando da minha integridade, doutor? — Alec também aprendeu que se, você é advogado, desvia de perguntas com outras perguntas; Magnus sempre fazia aquilo com ele — Você não acha que já denegriu pessoas o suficiente?

Stephen apenas se recolheu, e Alec tamborilou os dedos pela madeira mogno.

O áudio iniciou, e os queixos caíram, inclusive o do pai. A dor de escutar aquelas palavras não existia mais, não diante daquilo. Não diante do sabor doce da vitória. As pessoas podiam chamar Alec de louco pela reação que ele estava tendo, mas se ele era louco como sempre diziam, uma demonstração não faria mal. O olho direito foi piscado em direção de Robert e Magnus sorriu para ele em um sorriso jamais visto antes. Orgulho. O orgulho nos olhos e no sorriso de Magnus o aqueceu o coração. No fim, Magnus havia se tornado o que importava. Ele havia se tornado tudo.

— Acredito que seja o suficiente, meritíssimo. — Magnus finalizou, soltando um desdém em direção a Stephen.

— Isso foi... Horrível, para dizer o mínimo. — Imasu parecia recobrar a postura — Diante das evidências mais que claras aqui apresentada, declaramos diante desse tribunal, Alexander Gideon Lightwood, emancipado. — o martelo bateu dando a sentença, e Alec chorou.

Não de dor. Não de desgosto. Não de ódio. Não de nojo de si mesmo.

De felicidade.

Ele estava livre. Finalmente, livre. Como se todas as cicatrizes estivessem sendo fechadas, como se todas as lágrimas derramadas pelo caminho estivessem sendo secadas. Como se Alec pudesse se vizualizar com quinze anos, chorando e sangrando. Ele, hoje, abraçaria aquele garoto e diria que a dor o fez mais forte. A dor o fez real. A dor o fez quem é, e ele era bom. A dor lhe trouxe o amor. Da dor ele foi feito, mas para dor não retornaria.

Livre, finalmente. Não existia outra palavra para definir.

Alec estava livre. 


Notas Finais


Finalmente, Deus todo poderoso!

Comentem, deixem sua opinião, eu amo vocês haha

Xoxo, Veridia.


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