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História Com amor, Anna - Capítulo 3


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Capítulo 3 - Blackout


Anna Albuquerque 

A semana tem passado rápido, ando ignorando Adam e ele parece fazer o mesmo comigo, por mais errado que esteja. Niall pegou uma gripe por conta do tempo frio, me deixando entre o alívio por não falar mais sobre o que ocorreu no início da semana e a loucura de correr de um lado para o outro atrás de tudo o que ele fazia quando estava aqui. Hoje é sexta feira e a nevasca está ainda mais forte, olho para o relógio que aponta meia hora para o meu horário de saída e suspiro aliviada pelo fim de mais uma semana de trabalho. Mas o sino toca. O maldito sininho que anuncia alguém entrando soa por toda a livraria. 

- Acredito que, por sua expressão, acreditou que eu não voltaria. - mesmo se eu fosse cega, ainda saberia de quem se trata. 

- Não vou mentir, está certo. - coloco as mãos para cima e sorrio. - Espero que esteja aqui para me dizer que amou o livro que levou. 

- Não só para isso, mas para comprar outro e ver a gerente bonita desse lugar. - seu lábio se estica lateralmente e a covinha de uma das bochechas surge. Abro a boca para contestar a última afirmação, mas ele me interrompe. - Entretanto, tenho uma reclamação a fazer.

- Cuidado com o que diz, Dom Casmurro é uma das minhas obras favoritas. - ameaço enquanto tento segurar um sorriso. 

- Por que raios o autor não deu uma certeza no fim da história?! Eu fiquei maluco. - suas mãos vão para seu rosto, me fazendo rir. 

- Essa é a graça. Me diz, Capitu traiu Bentinho? - espremo os olhos, querendo lhe dizer que apesar de não ter resposta certa, é melhor que ele dê a que eu quero. 

- De jeito nenhum! Ele era maluco, inseguro… - interrompe as características quando analisa minha expressão. - Concorda comigo. - sua pergunta sai como uma afirmação e eu me vejo mostrando os dentes de novo. 

- Que livro procura agora? - pergunto nos encaminhando para as prateleiras cheias das mais diversas obras. 

- Algum que não tire minhas noites de sono. 

- Mas esses são minhas especialidades! 

Perco a noção do tempo diante do corredor de literatura clássica, entre elas, Shakespeare. Discutimos sobre algumas obras do inglês que já lemos e eu dou uma pequena sinopse sobre algumas que ele não leu, deixando seus olhos brilhando como a de uma criança em uma loja de doces. Se eu tivesse conhecido Harry como o filho de um dos empresários mais bem sucedidos da Inglaterra, talvez não acreditasse que ele ame tanto o mundo da literatura. 

- Vai levar Hamlet, então? - balanço o livro no ar e ele assente animado. - Você vai amar.

Caminho em direção ao balcão e começo com o protocolo de vendas no computador, mas não termino, pois a energia de toda a livraria simplesmente cai, nos deixando na escuridão. 

- Merda. - Harry sussurra e ouço-o tateando os bolsos, provavelmente atrás de seu celular. - Vou ligar a lanterna. 

- Por favor. - tento não demonstrar meu incômodo por não estar vendo nada, mas sei que falho. - O que aconteceu? - pergunto mais para mim mesma do que para ele, que agora segura seu celular e ilumina um pouco o ambiente.

- Parece que a nevasca piorou. - se aproxima da vidraça da livraria e eu sou obrigada a fazer o mesmo para contemplar toda a tempestade de neve do lado de fora. - É um blackout. 

- Era tudo o que eu mais queria em uma sexta feira. - acabo sendo mais irônica do que queria, o que faz com que Harry me olhe com uma de suas sobrancelhas levantadas. 

- Achei que a felicidade em estar preso com você seria recíproca. - leva a mão sobre o peito para demonstrar estar ofendido, mas tudo que faço é rir e me sentar em um dos sofás dispostos pela livraria. Ele faz o mesmo. 

- Sei que está brincando, Harry, mas tenho namorado. 

- Oh. - é tudo o que sai de sua boca, um som de surpresa. - Eu não estava brincando. Isso me pegou de surpresa. 

- Já esclareci, de qualquer forma. - dou de ombros. 

- Mas eu não tenho ciúme. - e mais uma vez o sorriso sacana molda seus lábios.

- Harry… - uso meu melhor tom para adverti-lo e ele parece achar graça. - Falando no diabo… - suspiro ao ver o nome de Adam brilhar em meu celular e hesito em atender. 

- É suposto que a ligação de um namorado causasse mais felicidade. - o de olhos verdes observa enquanto alterna seus olhos de mim para o celular em minhas mãos. Me recuso a olhar para ele, finalmente atendendo. 

- Onde você está? - é a primeira coisa que ouço 

- Fiquei presa na livraria, está um caos lá fora, caso não tenha percebido.

- Não use esse tom comigo. - bufo irritada com a autoridade em sua voz. - E tem alguém com você?

- Alguns clientes ficaram presos comigo. - não minto totalmente, apenas na quantidade de pessoas. 

- Eu vou dormir, não faça barulho quando chegar

Desligo em sua cara, fazendo o mesmo com o celular em seguida. Estou sentindo enjôos só por ouvir sua voz e imaginar sua postura arrogante, o que me faz acreditar que talvez não exista mais amor. Desde que brigamos pela última vez, todo dia em que não falei com ele, senti a paz que há tempos não sentia. 

- Está tudo bem? - acordo dos meus pensamentos com a mão de Harry passando diante dos meus olhos, de um lado para o outro. - Não parece ter sido uma conversa agradável, se me permite observar.

- É complicado… - suspiro cansada. - Mas não quero mesmo falar sobre isso.

- Tudo bem, vamos falar sobre outras coisas. - ele encosta sua cabeça sobre o encosto do sofá. - Deixe-me pensar… além de ler, o que mais você gosta de fazer? 

- Boa pergunta. Gosto de sair, dançar, conhecer gente nova, culturas novas, apreciar uma boa bebida, cozinhar sem que seja uma obrigação e escrever. - fecho os olhos enquanto falo, pois faz tanto tempo que não faço algumas dessas coisas, que a memória me é um tanto nostálgica. - E você?

- Uau, você escreve? - assinto com a cabeça, torcendo para que ele não me peça para ler nada do que já escrevi. - O que, exatamente? 

- Gosto de escrever sobre tudo um pouco, mas confesso que os romances são meus favoritos, apesar de nunca ter tido uma boa base quando se trata de relacionamentos. - brinco com minha corrente de prata enquanto o respondo. - Mas você não me respondeu sobre as coisas que gosta de fazer. 

- Você é tão interessante que me sinto envergonhado por falar sobre mim. 

- Acredite, não tem absolutamente nada de interessante na minha vida, apenas luto pela sobrevivência, como um filhote de tartaruga que acabou de ser desenterrado. - digo na intenção de fazê-lo rir e consigo, mas nunca falei tão sério em toda minha vida. - O que gosta de fazer, Harry? 

- Ok, vamos lá… - coça a nuca. - Gosto muito de ler, de criar e, consequentemente, de trabalhar. Trabalho em uma empresa de publicidade e gosto tanto do que faço que deixa de ser uma obrigação. - não escondo o sorriso ao perceber sua animação. - Adoro fazer bolo, conhecer lugares novos e viajar para outros países. E é basicamente isso, pois estou escondendo o fato de que amo jogar vídeo game e andar pelado em meu apartamento para não te assustar. 

Gargalho com sua confissão e tenho a certeza de que ele adora usar de seu humor criativo para ganhar mulheres. 

- Apesar de descobrir mais do que eu gostaria, devo admitir que não há nada de desinteressante no senhor. - uso um tom cordial, fazendo uma risada rouca escapar por sua garganta. 

- Impressão minha ou a senhorita está flertando comigo? - seu rosto se aproxima perigosamente do meu e eu posso sentir seu hálito de… cigarro? 

- Não flerto com fumantes, senhor. - me afasto o suficiente para enxergar todo seu rosto contorcido em uma careta. 

 - Merda. - sussurra pra si mesmo antes de conferir seu próprio hálito. - Juro que não é um vício. 

- É um hábito? Como andar pelado? 

- Não, andar pelado é um vício. - reviro os olhos e decido levantar, me aproximando novamente da vidraça que dá acesso a rua. - Minha mãe costuma dizer que somos privilegiados por podermos apreciar a beleza de uma tempestade de neve. 

- O sonho da minha mãe era ver isso. - sorrio um pouco nostálgica, mas o breve silêncio de Harry demonstra um desentendimento da parte dele. 

- Vocês moravam onde? E por que “era”? - ouço-o se aproximar até que esteja ao meu lado. 

- No Brasil. - sorrio ao lembrar do clima quente e das praias maravilhosas que visitei em meu país. - Minha mãe faleceu faz alguns anos. 

- Eu sinto muito. - me arrepio com sua mão fazendo movimentos carinhosos em minhas costas. - E seu pai? 

- Não sei praticamente nada sobre ele, a não ser que é um homem rico que mora em Londres e esbanja sua babaquice por aí. - suspiro para tentar me acalmar. - Ele abandonou minha mãe assim que soube da gravidez. Ela suspeitava que ele talvez tivesse uma outra mulher aqui, mas nunca teve certeza. 

- Não sabe o nome dele? 

- Nunca tive a curiosidade, mas agora que ela se foi… 

- Você gostaria de saber. - ele completa o que não sou capaz de dizer. - E é por isso que está aqui. 

- É por isso que vim parar aqui, mas cheguei há dois anos e parece que nada do que eu prometi fazer, eu fiz. - olho para ele de canto de olho e percebo sua atenção em mim. - Sinto como se tivesse perdido minha identidade, entende? 

- Não sei se entendo, mas posso imaginar. - sinto sinceridade em todas suas palavras. - De dez coisas que eu pudesse pensar em te dizer, onze seria alguma besteira, tendo em vista que não passo de um garoto de vinte e seis anos mimado pelos pais. Mas eu espero que você encontre sua essência e entenda o que te fez sair do foco. Você é uma boa pessoa, Anna, merece mais do que realmente tem. 

Abro a boca para respondê-lo, mas desisto assim que a luz volta tanto do lado de dentro, quanto de fora da livraria, fazendo com que dê para enxergar a neve caindo muito mais lentamente do que antes. Suspiro aliviada por finalmente poder sair desse lugar, por mais legal que Harry seja, não vejo a hora de tomar um banho e poder descansar. Ele me oferece uma carona, mas para evitar futuras confusões, me despeço dele do lado de fora do meu local de trabalho e agradeço por sua intenção. Durante todo o caminho em que vou caminhando sobre a grossa camada de neve, penso sobre toda minha conversa com Harry e o que ele quis dizer com "merece mais do que realmente tem". Estou ficando louca ou ele insinuou algo sobre meu relacionamento? Não, não deve ser. Tampouco dei detalhes sobre minha relação com Adam. Decido por fim deixar todas essas coisas de lado e me concentrar em subir o elevador sem enlouquecer. 

Será um longo final de semana. 



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