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História Come to the past - Capítulo 36


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Notas do Autor


Ai esse capítulo... Acho que larguei meu coração em algum lugar e esqueci de ir buscar.
Eu respondo os comentários assim que arrumar minha comida
Espero que vcs gostem o/

Capítulo 36 - Trinta e cinco


“Você sabe o que aconteceu. Você sabe. Você não pode me desprezar mais do que eu me desprezo.”

- Albus Dumbledore

 

Harry nunca foi do tipo conselheiro, esse posto era ocupado exclusivamente por Hermione, já que ele e Rony eram tão imprestáveis ajudando a si mesmos quem dirá outra pessoa e ele já tinha ouvido vezes sem conta que não tinha muito tato, só era melhor que Ron, mas até aí, segundo Hermione, até uma colher de sopa tinha mais tato que o amigo, então não era um grande elogio para Harry.

A grande questão naquele momento é que ele queria falar alguma coisa ou perguntar, mas não fazia a menor ideia de como fazer.

Ele estava na biblioteca sozinho, o que era particularmente novo, já que Dorea sempre ficava o pastorando por ali, mas naquele dia, assim como nos dois anteriores, ela tinha sentado em uma mesa afastada com Charlus e eles estavam conversando baixinho. De onde estava Harry conseguia os ver sorrindo um para o outro e isso era bom. Ele queria que aquilo desse certo, pois isso significava que o futuro não estava indo para um caminho tão ruim, ele só não fazia ideia de como aquilo tinha acontecido no caminho natural do tempo, antes dele vir e atrapalhar tudo.

Mas Dorea não era o ponto. Ela estava com Charlus, o que era bom e era bom também que Harry tivesse um tempo sem tantas pessoas ao seu redor falando, então ele estava aproveitando aquele tempo sozinho para fazer seus deveres o que era uau, considerando como Hermione sempre tinha que ameaça-lo para fazê-los, mas ali não tinha quadribol ou Hagrid, então não era como se ele tivesse um monte de outras coisas para fazer e era realmente penoso ver os jogadores voando sem estar lá no meio deles.

Harry sentia falta de voar.

Toda a questão começou quando Pollux sentou na cadeira de frente para o Harry sem dizer nada. Ele só chegou, sentou e retirou os livros da bolsa e começou a escrever e tudo estaria bem se não parecesse que tinha algo terrivelmente fora de lugar. Aquela não era a primeira vez que eles sentavam juntos na biblioteca ou mesmo a primeira vez dos dois sozinhos.

Enquanto ele podia chamar Dorea de sua melhor amiga – e ele não fazia, pois sempre que pensava nesse termo se sentia traindo Hermione e Ron – ele não sabia como denominar Pollux e a relação que eles tinham. Ele era amigo de Dorea, mas Pollux estava sempre ali e esteve por perto quando Harry se sentia absolutamente sozinho e desamparado e ele lhe dava essa sensação de que não estava realmente tão sozinho assim. Mas chamar Pollux de amigo era atravessar uma linha que ele não sabia se podia e se colocando para pensar nisso pela primeira vez, sem ignorar tudo que sentia, Harry percebeu o motivo daquilo.

Pollux seria pai de Cygnus, avô de Sirius e seu padrinho não tinha nada de bom para falar sobre esses homens. Então é, Harry ainda guardava algum tipo de mágoa pelo garoto a sua frente, porque ele vinha de uma família purista, com valores tão absurdos que era degradante, porque ele teria filhos e netos e ele não os protegeria. Porque ele se aliaria ao bruxo das trevas mais perigoso que já existiu, não se dignaria a marcar sua pele, pois ele era importante demais para isso, mas o apoiaria e daria a chance dele chegar muito mais longe.

É, Harry não conseguia chama-lo de amigo.

O que francamente era absurdo de tão hipócrita e Harry sabia disso, pois como podia julgar Pollux quando tão satisfatoriamente continuava beijando Tom? Ele gostava de Pollux e não conseguia encaixar o homem das falas de Sirius naquela pessoa sentada a sua frente, sabia como ele tinha sido criado, o que os pais dele defendiam e como essa provavelmente, era a única forma de ver as coisas que ele conhecia. Só era muito difícil pensar no que poderia acontecer no futuro, que aquela pessoa protetora que Pollux era ali se transformaria em um dos monstros de Sirius.

Daquela posição ele o lembrava muito Sirius, os cabelos pretos jogados para frente do rosto, o nariz bem feito, as maças do rosto proeminentes, a única coisa que distorcia a imagem de Sirius era que Harry achava que seu padrinho nunca tinha estado tenso assim, pelo menos não nos seus anos em Hogwarts quando tinha os amigos ao seu redor e era tão popular.

Me diga o que está errado. Me deixe ajudar.

As palavras se formavam dentro da mente dele, mas sua língua parecia pesada e sem força.

Harry queria acreditar que se a garota Crabbe não tivesse chegado ele teria tido coragem de perguntar.

— Isso é uma forma de vingança por seus pais o obrigarem a casar com a minha irmã? — A garota falou assim que se sentou na cadeira vazia da mesa deles.

— O que?  — Pollux perguntou com a expressão inalterada.

— Ele. — Ela nem ao menos se dignou a olhar para Harry, apenas o indicou com um movimento de cabeça.

— O que você quer? — Pollux soltou um suspiro antes de falar, aparentando um cansaço que não possuía antes.

— As pessoas estão falando, você saiu para uma confraternização com seus amigos, o provável futuro noivo da sua irmã e um mestiço, mas sem a sua noiva.

— Ela não ia querer ir.

Harry parou de fingir que continuava a ler e passou a escutar a conversa claramente. Ele já estava sentado ali, se queriam privacidade que fossem para outro lugar.

— Não importa, era sua função tê-la convidado para que ela pudesse recusar.

Aquilo não fazia o menor sentido para Harry e pelo visto para Pollux também não, mas outra coisa chamou a sua atenção. A menção de que Pollux tinha uma função o rosto dele se contraiu.

Não era como se Harry pudesse perguntar algo para ele naquele momento, então guardou isso no fundo da sua memória e continuou a escutar a conversa dos dois. Eliza, foi como Pollux a chamou, parecia muito irritada com a pretensa falta de interesse do garoto em sua irmã, mas da última vez que Dorea tinha lhe falado sobre isso disse que o irmão estava realmente tentando uma aproximação.

Claro que em algum ponto o assuntou convergiu para Harry e no motivo deles gastarem tanto tempo com um “mestiço simplório que não tinha dinheiro ou nome e consequentemente não poderia acrescentar em nada”, Pollux parecia tão mais irritado agora que Harry teria temido pela menina se ele ao menos pudesse se importar com ela.

A coisa sobre andar com os Black é que isso dava algum moral sobre a pessoa, a fazia quase intocável. Não era que ninguém mais olharia feio para Harry, mas tirando Avery e isso porque ele era um babaca, os insultos que geralmente eram dirigidos aos outros não iam para Harry e ele sabia que isso vinha exclusivamente de sua amizade com os irmãos. Mas estranhamente Eliza Crabbe não se importava com quem Harry tinha amizade e ela o olharia como se ele fosse um ratinho pequeno, insignificante e nojento, era ruim, é claro, mas melhor que a falsidade dos outros.

Eliza deveria ter treze ou quatorze anos e tudo nela era pequeno, sua estatura, seu corpo magro, suas mãos delicadas, mas nada nela passava fragilidade. Ela olhava para Harry com altivez e para Pollux com desprezo, ela respirava e soltava o ar com tanta raiva como se o oxigênio a ofendesse por não aceitar ficar em seu corpo para sempre. Ela tinha essa áurea de coragem e determinação que ele tinha visto em poucos sonserinos e lembrando que ela estava ali em nome da irmã Harry achou que ela não poderia ser tão ruim assim.

— Vamos nos casar de qualquer forma, eu a conhecendo ou não, nós dois querendo esse casamento ou não. Que diferença faz?

A garota espalmou as mãos na mesa e se levantou tão irritada e com o rosto demonstrando toda a fúria que sentia. Harry achava que ela poderia atacar Pollux ali mesmo sem nem apelar para a varinha, com suas pequenas mãos, mas a fúria foi contida, o rosto ficou sem expressão, embora Harry soubesse que os olhos dela deveriam estar brilhando de ódio. Era assim que os puros-sangues funcionavam, eles tinham que se aturar, pois suas famílias formavam alianças por décadas e séculos e eles, adolescentes irritadiços, não poderiam simplesmente sair se atracando por Hogwarts apenas porque se odiavam.

Ele não percebeu que estava segurando o ar até expeli-lo quando Eliza se afastou da mesa deles, com suas mãos cerradas e ombros tensos.

— Ser um Black é fazer sacrifícios. — Harry repetiu algo que tinha ouvido Pollux falar antes, não foi mais alto que um sussurro, mas Pollux o ouviu mesmo assim, ele não respondeu nada, no entanto.

Pollux se casaria com aquela garota desagradável, havia algo de errado na relação dele com a irmã mais velha e ele tinha sido fundamental para o arranjo do quase noivado de Charlus e Dorea, mesmo que a ideia não o deixasse totalmente feliz. Ainda assim ele andava por aí como se não houvesse qualquer problema, como se tudo estivesse perfeito. Um monte de alunos do sétimo ano estava falando sobre suas futuras carreiras, até mesmo os sonserinos, mas Pollux nunca falou nada a respeito. Quando Pollux tinha falado sobre seus sacríficos Harry tinha agido como se isso não fosse nada, porque ainda havia muita mágoa, porque Sirius tinha sido rejeitado e tratado com desmazelo por aquela família e deixado sem nada se não fosse os Potter e um parente, porque Harry estava muito preso em sua própria dor para conseguir reconhecer a de outra pessoa.

Ele queria dizer que Pollux não deveria fazer nada daquilo, dane-se os Black e sua linhagem, ele era inteligente e poderia conseguir uma forma de se sustentar depois de Hogwarts. Dinheiro nenhum valia viver em uma prisão. Harry queria dizer aquilo, tudo aquilo, ele queria mostrar que havia outra vida, uma vida mais livre e boa, sem tanto peso. Mas a boca dele continuou fechada, porque sim, ele gostava de Pollux e queria vê-lo feliz, mas acima de tudo ele amava Sirius e uma parte sua morreria se aquele futuro morresse. Talvez quando o Chapéu Seletor disse que ele se daria bem na Sonserina não estivesse de todo errado, pois lá estava ele, tão nobre e valente grifinório, colocando sua felicidade afrente de alguém e embora ele sentisse uma pontada de culpa sabia que não faria nada para mudar isso e soube ali que condenaria Pollux a um casamento infeliz se isso garantisse ter Sirius em sua vida.

 

Havia algo de surpreendentemente maravilhoso em ser invisível, em ser apenas um na multidão. Ele sabia que não tinha ninguém observando seus movimentos, ninguém olhando na sua direção para ver o que o Menino-que-sobreviveu estava fazendo. Sendo invisível ele poderia fazer qualquer coisa, como só sentar, comer, sorrir e ser parte de todo o barulho e animação. A guerra que acontecia lá fora parecia distante e ali ele poderia esquecer que ela existia, ele também poderia ignorar todo o resto e só se concentrar nas vozes e risadas.

Desde o seu primeiro ano em Hogwarts ele tinha sido parte do time de quadribol, então desde o primeiro momento tudo sobre quadribol importou para Harry, todos os jogos, inclusive aqueles que não eram de sua casa. Era uma forma de avaliar o time rival, de ver suas jogadas, de aprender seus truques, ele ficava feliz com as derrotas que beneficiavam seu time e irritado com as vitórias. Mas ali Harry era apenas um feliz – não tão feliz assim – espectador.

Ainda era essencialmente doloroso assistir um jogo e não estar lá no meio, ele adorava quadribol, o ritmo, se sentir pertencente a um grupo, a animosidade dos jogos, o turbilhão de emoções, a vibração de quando o pomo era capturado. Era o único momento onde ser encarado por dezenas de olhos não o incomodava, quando escutar seu nome sendo gritado aquecia seu coração ao invés de revirar seu estômago.

Ele tinha perdido tudo aquilo.

Mas talvez o que ele mais sentia falta era de voar, de estar alto no céu longe de todos os problemas, do barulho. Lá no alto nada poderia lhe alcançar, ele, o céu, as nuvens, eles eram parte do universo. Ele era um ponto insignificante do mundo, poeira vinda das estrelas, não o Eleito, não a pessoa destinada a destruir o mal, ele não era nada lá em cima, ao mesmo tempo em que era tudo.

Naquela tarde Sonserina tinha jogado contra a Corvinal e pelo que tinha entendido as águias tinham vencido nos últimos três anos, então Bill tinha tomado como tarefa pessoal garantir que isso não acontecesse pelo quarto ano seguido, por isso era primordial que a Corvinal perdesse esse jogo e isso levava ao motivo do Salão Principal ter virado um pandemônio, porque a comemoração do campo passou para lá.

Era realmente divertido assistir tudo aquilo como se fosse a primeira vez. Sonserina estava animada e eles nem escondiam isso, a Corvinal ficou amuada na mesa, a Grifinória não sabia se comemorava a derrota da Corvinal, o que por um lado era ótimo que eles tivessem perdido, mas comemorar seria ficar do lado da Sonserina e que tipo de absurdo seria esse? Lufa-Lufa parecia dividida em consolar uma e comemorar com a outra.

Por isso que Harry não conseguia parar de sorrir, porque seus amigos estavam com expressões confusas, ora pareciam que iam levantar e ir abraçar os sonserinos, ora ficavam amuados como os corvinais. Harry tentou um discurso sobre espírito esportivo, mas em seguida foi atacado por ervilhas, então agora ele só sorria. Na mesa da Sonserina, os sempre orgulhosos e centrados alunos pareciam ter libertado seu espírito animal. Professor Dippet parecia ter desistido em gerar ordem e simplesmente deixou que eles ficassem como quisessem e fizessem todo o barulho que desejassem. Havia pessoas sentadas na mesa, como adolescentes bagunçados normais.

Quer dizer, Harry nem sabia que Lestrange poderia sorrir e é, talvez ele tenha ficado encarando Malfoy por muito tempo depois do garoto dar uma gargalhada, mas foi só porque o som foi inesperadamente alto e feliz, não tinha nada a ver em ele ser esplendorosamente bonito e que o ato de sorrir acentuou ainda mais essa beleza divina. Tom estava lá no meio, era como um risco cinzento no meio do arco-íris, ele tinha a expressão de enfado como se quisesse estar em qualquer outro lugar.

Ele ainda observava Tom quando o professor Dippet levantou e tentou chamar a atenção dos alunos, muitos nem mesmo perceberam o homem levantar, quem dirá falar alguma coisa.

— SILÊNCIO! — Dessa vez a voz magicamente ampliada deve ter sido ouvido até na Floresta. — Peço a atenção de todos agora.

Aqueles que estavam em pé foram se sentando devidamente e depois de mais alguns segundos um silêncio caiu no Salão Principal, todos esperando pelo que o Diretor diria. O homem parecia estar suando, ele olhava para frente e para um papel que segurava, depois virou-se para falar com um dos professores, ele parecia muito agitado.

— É com muita alegria que informo a vocês que hoje, depois do que deve ter sido uma batalha memorável, o bruxo das trevas Gellert Grindelwald foi derrotado.

O burburinho começou a crescer novamente e Harry viu Dippet tentando controlar os alunos, sabia que ele falava alguma coisa ainda, pois via a boca dele mexendo, ele via as expressões incrédulas e felizes das pessoas ao seu redor quando a notícia foi se assentando, mas ele via tudo isso como se tivesse fora de seu corpo. Grindelwald foi derrotado... Uma batalha memorável... Harry sentiu o ar fugindo de seus pulmões, ele olhou novamente para o tablado dos professores, todos eles conversavam entre si, Dippet já tinha se sentado. Havia uma cadeira vazia.

Dumbledore.

— Harry? Harry, qual o problema? — Charlus perguntou, o enorme sorriso foi sumindo do rosto dele e preocupação tomou lugar. — Harry?

Harry não sabia qual era o problema, ele sentia que havia algo de errado no seu corpo, sabia que agora estava em pé, mas não lembrava de ter levantado, sentia as mãos suando, o coração batendo acelerado e a respiração se tornando irregular. Ele só conseguia pensar nas palavras de Dippet, ele só conseguia pensar em Dumbledore.

Ele seria o bruxo a derrotar Grindelwald.

Ele venceria.

Ele viveria.

Então Harry entendeu de onde vinha o seu temor, o que fazia seu coração bater tão rápido e ele sentir que sua alma queria fugir do corpo. Coisas terríveis acontecem com aqueles que mexem com o tempo, ele lembrava-se das palavras de Hermione como se ela tivesse acabado de dizê-las e a verdade delas o atingiu como se ele colidisse em um muro de concreto.

Em toda a sua dor e fúria Harry tinha jogado Dumbledore para aquela batalha, ele sabia que o professor encontraria seu destino em algum momento aquele ano, ele só tinha que esperar, não deveria interferir. Mas ah, ele estava sempre tão irritado quando tinha uma chance de estar sozinho com o professor e sempre que estava assim as palavras saiam erradas. E se ele tivesse mexido com o futuro? E se Dumbledore tivesse ido antes do tempo? Harry tinha lido sobre aquela batalha, claro que sim, duvidava que houvesse alguém no mundo mágico que não tivesse se deleitado com os livros que descreviam aquele momento épico, mas ele não conseguia se lembrar de detalhes importantes como a data. Harry nunca se preocupou com algo banal como datas.

Ele não sentia o chão embaixo dos seus pés, seguia andando mesmo assim, fazendo o percurso que tinha feito várias vezes aquele ano. Não sabia se estava indo para o lugar certo, mas não importava, ele só tinha que ir, andar em direção a algo. Tinha o Mapa do Maroto escondido no malão, evitava andar com ele pelo Castelo, porque nunca poderia explica-lo e temia perder uma das poucas heranças que tinha do pai, padrinho e Remus, por isso o mantinha seguro. Mas ele vasculharia aquele lugar até acha-lo.

Empurrou as portas que sempre estavam escancaradas para receber qualquer aluno, arriscou-se para dentro e subiu os poucos degraus que levavam para a sala privativa do professor. Ele nunca tinha estado em qualquer lugar assim antes, nunca tinha olhado onde os professores viviam, ele nem sabia onde Dumbledore dormia quando era diretor ali, mas até aí ainda tinha um monte de coisas que ele não sabia sobre o professor.

Ao empurrar a porta Harry se deparou com uma pequena sala, que já era entulhada de coisas como seria a sala do diretor dali cinquenta anos, a iluminação vinha de um lustre no teto e da lareira deixando o ambiente quente e sentado numa poltrona estava Dumbledore.

Bem, ele estava jogado na poltrona, seria a forma mais correta de colocar.

Harry fechou a porta e só então o professor pareceu ter notado que não estava mais sozinho. Ele nunca tinha visto o homem tão... Ele pensou na palavra, a recitou mentalmente, mas não podia repeti-la, pois ele nunca poderia descrever Dumbledore assim.

— Professor? — Harry disse baixinho, se sentindo como um garoto novamente.

— Ah, Harry. — Dumbledore soou tão íntimo, como tinha soado uma vez quando Harry era alguém importante para ele. — Imagino que você já saiba.

Harry pensou que poderia começar a chorar bem ali, porque Dumbledore estava vivo, porque ele não tinha arruinado tudo, mas principalmente porque o professor parecia estar com seu coração partido e só então Harry percebeu o que ir em direção a essa batalha deveria ter custado ao homem.

Foi como aquele dia em maio, quando os alunos acordaram para mais um dia de aula sem saber que ao fim da noite eles estariam tendo que proteger o Castelo contra Comensais da Morte e Voldemort e que muitos deles morreriam. É assim que começavam os grandes dias, os dias que ninguém nunca conseguia esquecer, como algo normal? Eles não deveriam ter algum tipo de aviso, um trovão, algumas nuvens escuras, trombetas? Qualquer coisa, menos aquela normalidade seguida de um grande acontecimento.

Grindelwald tinha sido derrotado, ele estava preso em Nurmengard, ficaria trancafiado durante toda a sua vida. Dumbledore se tornaria o herói do mundo mágico, amplamente reconhecido como o maior bruxo do século, aquele que enfrentou o mal e venceu, aquele que triunfou e lá estava seu prêmio, o espólio de guerra, o pote de tesouro no fim do arco-íris.

As relíquias da morte estavam novamente embaixo do mesmo teto, ali estava a Varinha das Varinhas, nas masmorras a Pedra da Ressurreição e na Torre da Grifinória a Capa da Invisibilidade, elas fariam de seu detentor o Senhor da Morte. Harry nunca entendeu bem esse conceito e depois não importava mais, ele não tinha ganhado nenhum poder especial e ele não queria ser senhor de nada, muito menos da morte.

Harry tinha forçado seus pés a se moverem e andou até parar de frente ao professor sentando na cadeira ao lado dele, a varinha em cima da mesa atraiu sua atenção de imediato, foi impossível não pegá-la. A varinha saberia que um dia ela o pertenceu? O tempo era algo tão incompreendido ainda, o que foi e o que ainda seria... Harry seria o dono dela ainda ou aquilo nunca tinha acontecido? Tantos foram aqueles que morreram para conseguir empunhar aquele objeto de incrível poder, tantos sucumbiram tentando protege-la, ignorando que o real poder estava dentro deles e que ela, aquela varinha poderosa e amaldiçoada, era apenas um instrumento.

Harry a soltou em cima da mesa.

Dumbledore o olhava curioso.

 — Você sabe o que ela é. — Não foi uma pergunta.

— Ela teve muitos nomes no decorrer da história, a varinha anciã, varinha do destino, varinha da morte, mas claro o nome mais popular é-

— Varinha das Varinhas. — Dumbledore completou. — Me pergunto o que devo fazer com ela...

— Empunhá-la, ela é sua agora. A lealdade dela lhe pertence, será sua até sua morte.

— Ou até que eu seja derrotado.

Harry deu uma risadinha descrente.

— Acho que nós dois sabemos como isso é improvável que aconteça. O senhor acabou de derrotar o bruxo das trevas mais perigoso dos últimos tempos, quem seria tolo de erguer a varinha contra você?

Dumbledore não respondeu, no lugar o olhou atentamente fazendo Harry perceber por onde os pensamentos dele andavam. Ele teve vontade de rir ainda mais, pois nunca em qualquer realidade Harry achava que poderia erguer a varinha contra Dumbledore. Mesmo com rancor, com a mágoa e a tristeza dentro de cada uma de suas células, ele ainda era Dumbledore, ele ainda era alguém que Harry quase podia chamar de família. Ele era alguém que Harry amava.

O silêncio caiu pesado entre os dois e Harry usou esse tempo para olhar melhor o professor. Havia alguns pontos chamuscados nas vestes dele, o tecido estava rasgado em vários lugares e deveria ter tido um corte profundo no braço direito, pois havia uma gigantesca mancha de sangue.

— Eu quase posso pensar que você está preocupado comigo. — Dumbledore disse, o olhar dele tinha recobrado alguma vivacidade.

— Eu... — Harry queria dizer que sim, é claro que ele se importava. Ele era tão importante em sua vida, é claro que ele não queria vê-lo machucado. A noite na torre de astronomia ainda o afligia...

— O senhor é um grande enigma, Senhor Hunter.

Harry não conseguiu olhá-lo. Ele não conseguia encarar aquele homem e não ver o seu Dumbledore, pois sabia que se erguesse os olhos só o que veria eram dúvidas, suspeitas e nada da afeição e carinho que o professor lhe dignava. Harry não era ninguém, nada além de um aluno mediano igual a centenas de outros, a única coisa que o fazia de diferente era a desconfiança que tinha gerado ao seu redor e nesse patamar ele sabia que disputava um lugar com Tom.

— O senhor pode me chamar de Harry.

Quando Dumbledore o chamava, anos atrás, ele fazia com uma familiaridade enervadora, era como Remus, Molly, Arthur, Sirius, todos os adultos que ele amava em sua vida o faziam também. Harry não era mais uma pessoa estranha, ele não era Potter – ou Hunter – ele era só Harry.

— Eu ainda não sei se o senhor apenas tinha uma fé cega de que eu venceria ou se estava me empurrando para uma batalha torcendo para que eu perdesse.

Harry o olhou alarmado.

— Eu jamais... — As palavras se perderam dentro da sua garganta. — O senhor... — Ele puxou o ar e o soltou lentamente, buscando acalmar seu nervosismo. — O senhor é o melhor bruxo que já conheci, o único que poderia parar Grindelwald, o único capaz de derrota-lo.

— Há sussurros em todos os lugares, Senhor Hunter. — Dumbledore ignorou o pedido por chama-lo pelo primeiro nome, a recusa foi como um punhal entrando em Harry. — Muitos parecem acreditar que o senhor é um seguidor ferrenho de Grindelwald, entrando aqui como um espião.

Pela primeira vez ele se sentia ameaçado na presença do professor. O punhal fincou mais profundamente.

— O que o senhor acha, professor?

— Eu acredito que o senhor esconde algo, há mais na sua história e em você e eu sinto como se fosse algo que arrebataria todos nós. Eu sei que o senhor viveu coisas terríveis eu seu passado, ninguém conseguiria fingir o terror de seus pesadelos ou a dor que eu vi em seu rosto, eu sei que algo aconteceu aqui dentro desse Castelo, algo que quebrou as proteções que o senhor tinha colocado para lhe proteger desses horrores e por isso o senhor decidiu que morrer era melhor. Eu vejo sua amizade com os irmãos Black, algo nunca antes conquistado em tão pouco tempo e com alguém tão... não pertencente ao mundo em que eles nasceram e isso só traz mais perguntas que respostas, pois o senhor pode ter algo realmente especial e único, como pode ser apenas extremamente manipulador e talvez por isso mantenha, para total surpresa, devo acrescentar, uma relação tão próxima com o Senhor Riddle.

Harry engoliu em seco. Dumbledore falava com secura, sem emoção e seus olhos era quase hostis. Ele sentia os olhos arderem pelas lágrimas querendo vir. Dumbledore estava vivo, bem e o repudiava.

— Mas eu sei também que o senhor é íntegro e um grande defensor dos direitos dos nascidos trouxas, que o senhor não regula suas amizades baseado em algo frívolo como dinheiro ou status sanguíneo. — Ele parou um momento refletindo. — Ou isso tudo pode ser uma farsa muito bem engendrada.

Algo dentro de Harry se partia completamente ali. Matar alguém era a única forma de partir a alma? Porque Harry sentia que a sua estava em pedaços.

— O senhor poderia conquistar minha confiança, no entanto. Eu quero acreditar que você é a boa pessoa que aparenta ser, Harry. Eu quero acreditar que é bom, honrado e que teria lutado contra alguém como Grindelwald se tivesse tido a chance.

Harry conhecia aquele homem, ele era uma parte tão importante da sua vida, ele foi tão importante por tanto tempo e ele o amava tanto, quase tanto quanto amava Sirius e Remus. Quando ele morreu Harry sentiu que uma parte dele tinha ido para sempre junto com o professor, indo embora junto com o lamento de Fawkes, sido perdido para sempre.

Ele fechou os olhos deixando as lágrimas caírem livres por seu rosto, não se importou de tentar esconder. Ele tinha conhecido um homem uma vez, ele tinha lindos e inteligentes olhos azuis e o olhava com carinho, cuidado e amor. Ele tinha onze anos e era surpreendente que alguém pudesse direcionar esse tipo de olhar para ele, o homem tinha falado sobre seus pais e na voz dele seus pais soavam tão bem. Nos anos seguintes ele continuaria conhecendo esse homem, ele se tornaria um tutor e amigo, ele ocuparia um dos lugares mais importantes em sua vida e quando ele morreu... Depois, através de memórias, ele conheceria outro homem, ele vestiria o mesmo rosto, mas os olhos dele agora eram sérios e carregavam uma enorme frieza, a voz dele não era mais cálida e gentil, era seca e áspera. Aquele homem era manipulador, mentiroso... Ele tinha escondido um enorme segredo de Harry, o tinha enviado para a morte sem qualquer aviso e preparação, simplesmente esperava que ele estivesse pronto quando o momento chegasse e ele estava, pois ele tinha se tornado um soldado obediente e morte e sacrifício não era nada em comparação a todo o resto.

Mas ele não era um soldado mais e quando ele ergueu os olhos sabia que estava de frente para aquele outro homem, o manipulador, e isso quebrou o que talvez restasse do coração de Harry.

— O que eu teria que fazer? — Ele perguntou mesmo assim.

— Você sabe que eu tenho ressalvas quanto a Tom, mas não conhece meus motivos. — Ele era tão jovem ainda. Onde estava a bondade, o amor? Seria preciso ele viver duas guerras para conseguir se tornar o homem que Harry tinha conhecido? — Eu acredito que o Senhor Riddle tem um grande potencial, mas que se mal supervisionado pode acarretar terríveis consequências.

— O senhor quer que eu o espione?

Dumbledore não respondeu, mas estava claro sua intenção. Harry nunca poderia fazer isso, ele nunca trairia Tom assim, Dumbledore deve ter percebido isso no rosto dele, pois uma careta de desagrado se formou no seu.

— Muitos não sabem sobre isso, Harry e eu lhe contar só demonstra que em certo nível confio em você. — Ele tentava manter aquele tom de voz professoral e Harry se viu tentado a manda-lo chamar pelo sobrenome novamente. Aquele homem diante dele não merecia pronunciar o nome que seus pais tinham lhe dado. — Eu conheci Grindelwald quando tinha dezoito anos.

O professor esperou o choque que viria com essa revelação, mas Harry não se alterou e o professor o olhou duramente, mais uma vez com suspeita.

— Ele chegou a vila onde eu e minha família morávamos. Ele era brilhante, muito inteligente e eu... Eu tinha me formado com honras...

Ele continuou a contar sua história, por muito tempo Harry desejou ouvir aquilo, mas em outro tempo, quando ele ainda era um Potter, quando ele podia demonstrar seu assombro e fazer todas as perguntas que sabia que aquele homem diante de si jamais responderia e não importava mais, pois Harry estava tão longe de ser aquele menino.

Ele falou sobre como Grindelwald conseguia transformar os piores cenários em algo aprazível, como ele deturpava a verdade e enfeitava as mentiras para parecem belas, como era conquistador e como em pouco tempo Dumbledore passou a compartilhar desses sonhos loucos. Ele não falou sobre Ariana e Abeforth e Harry não achou que ele iria, Dumbledore simplesmente disse que um dia despertou de seus devaneios, que percebeu o seu erro e felizmente tudo ainda era remediável, nenhum dano tinha sido feito.

Ariana tinha morrido, Harry queria dizer, você falhou com sua família, você os abandonou por um estranho. Você é um monstro também.

— Eu vejo em Tom o mesmo fogo que eu via em Gellert, a mesma ambição, os mesmos desejos e a mesma força para concretizá-los. Eu já estive no seu lugar, Harry, eu já olhei para um rapaz e menti para mim mesmo.

— Pare! Nós não estamos na mesma posição, Tom não é Grindelwald e eu não sou você.

A comparação... As lágrimas ardiam mais fortes agora porque se recusava a voltar a chorar. Harry os tinha comparado uma vez, eles tinham a mesma idade de Dumbledore quando estavam caçando as horcrux. Eles estavam arriscando suas vidas, ele tinha dito a Hermione naquele dia, eles estavam quase morrendo todos os dias, seja por causa de dementadores, comensais ou de fome e Dumbledore, ele tinha uma família, ele tinha pessoas a quem dar amor e resolver virar as costas a tudo isso por causa de um homem. Harry não achava que poderia desprezá-lo até chegar aquele momento.

— Meu caro rapaz-

— Não! Eu não ignoro quem Tom é, os seus desejos e ambições, eu sei exatamente quem ele é, o que ele é. A diferença aqui é que eu não sou você. — Harry não aguentava mais ficar sentado.

— O que isso quer dizer? — Dumbledore levantou também.

— Você foi combustível para o fogo de Grindelwald. Diga-me, professor, o que o senhor fez quando Gellert falou sobre seus planos de conquista? O que o senhor fez quando ele falou de suas ambições e desejos? — Ele esperou por uma resposta que nunca viria. — Sim, eles podem ser parecidos, mas a principal diferença entre os dois é que Tom tem a mim.

E aquilo pareceu tê-lo atingido, Dumbledore chegou a dar um passo para trás, Harry não sabia o que o professor estava vendo, ele só sabia que não havia nada em seu peito que não fosse dor.

— Seus erros, seus fracassos, não meus, nunca meus. Nunca carregarei a culpa que você carrega, nunca carregarei o sangue em minhas mãos. Cada pessoa que eu vi morrer partiu porque eu não tinha poder para impedir, eu teria morrido por elas, por cada uma delas se tivesse me sido dada a chance, enquanto você abandonou seu próprio sangue. Você sonhou como um homem desesperado, queria alcançar um prêmio e não poupou esforços para consegui-lo. Você não fechou os olhos para o que Grindelwald fez, você apenas olhou para o outro lado, fingindo que não era nada demais, mentindo que ele não era tão ruim e perverso. Sabia que ele mataria trouxas e quem se colocasse em seu caminho, mas isso não importava, não é? Não. Você foi um tolo. Meu amor nunca me cegaria como o seu fez com você, eu nunca ficaria ao lado de alguém como Grindelwald como você ficou.

Harry falou tudo muito rápido e não sabia se Dumbledore tinha entendido metade do que dissera, mas o rosto dele estava lívido.

— Use-a. — Apontou para a varinha em cima da mesa. — Ela é seu prêmio, é a única das três que o senhor irá encontrar, é a única que merece, o prêmio mais insignificante, a menos extraordinária delas. Só alguém digno pode reunir as três e nós dois sabemos que você não é.

Ele saiu daquela sala, seus pés davam passadas rápidas querendo tomar a maior distância que podia do homem que ele deixou lá. A tristeza de Harry pareceu consumi-lo por inteiro e todo o ar que ele jogava para seus pulmões não eram o suficiente. A dor que ele sentia naquele momento era indizível, não há nenhuma palavra que pudesse dar forma ao que ele sentia, era como ver alguém morrer diante de seus olhos sem poder fazer, era como ouvir os gritos de sua mãe logo antes dela morrer, era como ver Sirius passando pelo véu. Tudo de uma vez, era pior, porque ele já tinha visto aquele homem morrer, ele tinha ficado de joelhos no chão ao lado do corpo, tinha chorado sua morte e agora chorava um outro tipo de perda, algo para o qual seu coração não estava preparado.


Notas Finais


Tem alguém vivo depois disso? Pq eu n sei como estou. Tem uma angustia e uma vontade de pegar o Harry e levá-lo para longe...

P.S.: Então, foi criado um grupo p história. Quem se interessar é só acessar -> https://chat.whatsapp.com/CcnkROsawMd8HEnhX7jZl9


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