História Come What May - Capítulo 1


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Categorias La Casa de Papel
Personagens Professor, Raquel Murillo
Tags Álvaro Morte, El Profesor, Itziar Ituño, La Casa De Papel, Lisboa, Raquel Murillo, Sérgio Marquina
Visualizações 183
Palavras 4.380
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Romance e Novela
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


oi, amores!
adivinha quem deveria estar atualizando a longfic mas não consegue PARAR de escrever one-shots em reação à terceira parte? eu mesma.

mais uma vez, essa história será dividida em duas partes porque eu simplesmente não consigo não dar um final minimamente feliz pras coisas que escrevo. eu espero que vocês gostem!!

vou tentar postar a próxima parte bem rapidinho, mas me digam nos comentários o que vocês esperam? ajuda a inspiração demaissss. hahahah beijinhos bbs me contem tudo ♥️

ps.: a música que inspirou essa fic foi “come what may”, do filme moulin rouge. recomendo demais porque essa musica é simplesmente tudo. <3

Capítulo 1 - The Greatest Thing


Fanfic / Fanfiction Come What May - Capítulo 1 - The Greatest Thing

Never knew I could feel like this

Like I've never seen the sky before

A mente de Sergio funciona vinte e quatro horas por dia. Até mesmo quando está dormindo, seus sonhos são vívidos e bem elaborados e ele raramente os esquece pela manhã. Culpa a própria solidão — quando se é assim tão só, uma mente vazia pode ser perigosa. 

Por vezes, Sergio sente-se cansado. Tenta se distrair com exercícios físicos e origâmis, concentrando-se unicamente em terminar um passo de cada vez. Na maior parte do tempo, funciona. 

Mas durante o plano na Fábrica Nacional de Moeda e Timbre, nem mesmo exercitar-se e dobrar papéis tão metodicamente lhe aquieta a mente. 

E é por isso que quando Raquel o beija naquela fatídica noite no hangar, Sergio se assusta. Se assusta porque, pela primeira vez em meses, em sua cabeça há apenas um pensamento: beijá-la de volta. 

É ela quem toma a iniciativa; claro que é, porque— porque Sergio jamais iniciaria nada. Não porque não o deseja, mas porque não consegue usá-la dessa forma. Não sabe como. 

No fundo, a parte de si que é o Professor sabe que deveria. E a princípio, ele tenta. Ganhar a confiança da inspetora responsável pelo caso é como ganhar a loteria, e se Sergio pudesse discutir a situação com Andrés, como discutiram tantas vezes cada detalhe do plano, sabe exatamente o que seu irmão diria: use-a. Use-a e esteja sempre um passo na frente da polícia. Eles não terão a menor chance. 

Mas então ela o beija, e o mundo inteiro muda de cor. 

De repente, ele não é mais o Professor, muito menos Sergio Marquina — ele é Salvador Martín, Salva, essa terceira pessoa que nem ele mesmo conhece mas deseja se tornar como nunca antes desejou algo na vida. 

E... E se é ela quem lhe sorri envergonhada, se é ela quem sobe na ponta dos pés e o segura pela nuca e lhe beija tão delicadamente, então— então não é tão mau assim, não é?

Porque é ela quem o faz, assim como foi ela quem tomou todas as iniciativas até aqui. É ela quem segura sua mão no Hanói e é ela quem lhe fita com estrelas nos olhos, e Sergio não tem outra opção além de beija-la de volta. É impossível. Ele é (normalmente) um homem forte, mas com ela olhando-o dessa forma e tocando os lábios nos dele e rindo entre os beijos que lhe dá é— é impossível. Ninguém é tão forte assim. 

Raquel tira sua gravata e quando Sergio se dá por si os dois já estão no sofá e, nesse momento, no exato momento em que ela encaixa as pernas sobre as dele, ele percebe que nunca alguém lhe quis dessa forma. Nunca uma mulher lhe beijou com tanta antecipação ou lhe pareceu tão bonita a ponto de fazê-lo desejar parar o tempo só para poder observá-la — só para poder analisar seu rosto e seu corpo e memoriza-la na mente e ter certeza de que não a esquecerá. 

Sergio tem medo de esquecê-la. 

Porque não é possível que isso vá durar, certo?

Want to vanish inside your kiss

Faz então a única coisa que parece correta: pega-a pelo rosto e lhe beija de novo e— de novo, o coração batendo tão alto que ele escuta-o pulsar no próprio ouvido. Desfaz o zíper de sua saia sem pensar e então — e então é isso, a inspetora com quem seu alterego faz jogos psicológicos todos os dias, a mulher cuja vida Sergio vasculhou de cabo à rabo — nua em sua frente. 

Sentiria-se culpado se lhe desse tempo. Mas então sua boca está na dele outra vez e suas mãos lhe envolvem o ombro e ela desliza sobre ele com um sorriso nos lábios e o tempo... O tempo desaparece. 

***

Suddenly the world seems such a perfect place

Suddenly it moves with such a perfect grace

É a melhor noite de sua vida. 

Saber disso assim com tanta clareza o assusta. 

Claro que o assusta, porque por mais que Salva saiba se entregar de peito aberto a todo esse sentimento que surge, Sergio não faz ideia de como lidar com isso. 

Não faz ideia, mas ao mesmo tempo, é tão fácil estar ali que parte do medo se esvai assim que ela acorda e imediatamente se achega em seu ombro, perguntando se algo o preocupa, sorrindo como se não houvesse plano ou polícia ou uma mãe doente para cuidar. 

É tão fácil falar com ela e lhe contar a história de seu pai, ainda que fantasiada atrás da falsa cidra ecológica, que Sergio percebe que, naquele momento, fará o que for preciso para que isso dure o máximo possível. 

Porque é claro que ela o deixará. É apenas uma questão de tempo. Em todos os cenários que Sergio desenha na cabeça, em nenhum ela fica. Seria loucura e, afinal de contas, é o que ele merece, claro, mas... Mas será assim tão errado querer prolongar esse sentimento até o último segundo? Será que seu maior pecado é esse — se apaixonar por ela e desejar que dure?

“Vamos,” ele se vê dizendo mesmo assim. “Raquel, eu não quero que isso se acabe.”

Ele está sendo egoísta, e o sabe. Não é justo pedir tanto. Não é justo esperar que Raquel faça as malas e fuja com ele para uma praia paradisíaca do outro lado do oceano, como se já se conhecessem há anos e não há cinco dias. E que ainda por cima leve sua família com ela.

Mas o propõe mesmo assim. Permite-se esse momento de egoísmo e sente o coração dobrar de tamanho quando Raquel perde o ar e, com a voz trêmula e emocionada, diz que sim. 

Parece irreal. Tão irreal que Sergio pensa estar sonhando. 

Mas quando encontra seu olhar, tudo o que vê é sinceridade e emoção e— como isso pode não ser verdade?

“Não me imagino fazendo outra coisa.”

Ele segura sua mão e encontra-a no meio do caminho em um beijo que tem gosto de promessa. Sente o corpo inteiro arrepiar, e a única coisa que consegue dizer é “vale?”; ao que ela responde com um “sim,” mais um sim, rindo como uma adolescente e Sergio— 

Sergio não faz ideia de onde tirou tanta sorte. Mas espera com tudo o que tem que ela não se esgote. 

***

Suddenly my life doesn’t seem such a waste

Ela chega a Palawan e, mais uma vez, desconstrói tudo o que Sergio conhece. 

Ele esperou. Esperou pacientemente, por 365 dias. E é óbvio que ela chega quando ele já havia perdido as esperanças. 

Ela chega e lhe ensina coisas que Sergio jamais pensou que aprenderia. 

Ensina-o sobre amor. 

Sergio teve um ano para se acostumar com a ideia de que, muito provavelmente, não a veria de novo. Mas aí ela o encontra — segue suas coordenadas e o encontra e, sem aviso prévio, transforma seu mundo mais uma vez. 

Ele a observa dormir enquanto todos esses pensamentos lhe passam pela cabeça. Leva uma das mãos até seu rosto, tão pacífico em seu sono, e sorri quando ela começa a despertar. 

Raquel abre os olhos devagar. Percebe o que ele está fazendo e esconde o rosto no travesseiro, virando-o de modo que sua bochecha encaixa perfeitamente na palma da mão de Sergio. 

O Professor mal percebe que continua a sorrir feito um bobo. 

“Perdão, eu— não queria te acordar.”

Ela deposita um beijo em sua mão. “Gosto de acordar assim.”

Sergio não sabe definir a sensação que lhe invade em momentos assim. Contenta-se em senti-lo. 

Ao fundo, bem de longe, ouve um barulho de algo pesado caindo no chão, seguido da risada alta de Paula e um “shhh!” provavelmente exclamado por Mariví ou Angela, a amorosa ajudante que contrataram para ajudar na casa. 

Os dois riem juntos. 

No fim das contas, Raquel não só lhe mostra o que é amar e ser amado — também faz o favor de ensiná-lo o que é amar uma família. 

Sergio sempre pensou que não levava jeito com crianças, mas se aproximar de Paula é tão natural que é como se ela sempre tivesse sido parte de sua vida. Também nunca pensou que era possível gostar tanto assim de sua sogra, mas Mariví o surpreende com suas piadas indecentes e seu bom humor quase inacreditável e, sem nem tentar, conquista-o o coração. 

Quando os sinais da doença começam a se agravar, Sergio sofre assim como sofreu com sua própria mãe. 

A diferença é que agora a dor é dividida. 

“Quer café?” Ele sussurra, silenciando a própria mente, os dedos se embolando nos cabelos de Raquel. 

Hmmm, uhum.” Ela se espreguiça, puxando o edredom envolta de si. 

Sergio ri com a cena, desejando entrar debaixo das cobertas com ela. Mas ao invés disso, dá um beijo em sua testa e se levanta, caminhando em direção à cozinha. 

No meio do caminho, enquanto esfrega os olhos, tromba com Paula no corredor. Os dois quase caem no chão. 

“Ei! Cuidado!” Ele ri, abaixando-se para ficar da mesma altura que ela. “Bom dia, cariño,” Paula sorri, ainda de pijamas, a calça comprida demais arrastando no chão. “E esses pés descalços, hein? Vai pegar um resfriado!”

Ela olha para baixo, evitando olhar para ele, envergonhada — mas com um sorriso levado no rosto. 

Sergio não resiste e, rindo com a cena, pega-a no colo. Sente o coração derreter quando duas pequenas mãozinhas imediatamente lhe agarram o pescoço, e dá um beijo estalado na bochecha rosa da menina. 

“Quer me ajudar a preparar o café? Sua mãe merece um café da manhã diferente hoje, o que acha?”

Ela faz que sim com a cabeça, animada, e Sergio ri junto com ela mais uma vez. 

Sergio tem rido bastante nos últimos tempos. 

Enquanto coloca Paula com cuidado em cima do balcão da cozinha, mais uma vez um sentimento inexplicável de gratidão o invade. O que constroem em Palawan é uma família; algo que Sergio jamais se atreveu a sonhar. 

Raquel lhe dá tudo o que ele jamais se atreveu a sonhar, e ele não sabe nem como começar a falar sobre isso. 

It all revolves around you

Sergio retorna ao quarto com uma bandeja nas mãos e Paula pendurada nas costas. 

A menina pula no colchão assim que o alcança, agarrando Raquel pelo tronco e acordando-a de vez. Sergio detesta acordá-la — Raquel tem o sono leve e raramente dorme bem. Mas decide que dessa vez, só dessa vez, não vai machucar.

“Ei, meu amor,” diz, a voz ainda carregada de sono. Sergio não se cansa de observá-las; o quanto Raquel suaviza a voz perto da filha, ou a forma com que ela lhe abraça como se não acreditasse que o mundo foi capaz de lhe dar algo tão perfeito. “Por que ainda não tirou esse pijama, filha? Já já está na hora da escola!”

Paula ri e olha para Sergio, como se os dois dividissem algum tipo segredo — ou uma piada interna. 

“Mamãe, hoje é sábado.”

Raquel olha-a desconfiada. Sergio segura o riso enquanto ela agarra o relógio da mesa de cabeceira e solta uma gargalhada, verificando que a menina está certa. 

“Sua mãe perdeu a noção do tempo, filha.”

“É que ela anda se cansando demais, sabe?” Sergio finalmente entra na conversa, sentando-se na beirada do colchão e colocando a bandeja ao seu lado. 

Raquel, que ainda não havia reparado, olha-o com surpresa. 

“Sergio...”

“Olha mamãe, eu que cortei os morangos!”

Sergio ajeita os óculos. Não consegue parar de sorrir. “É verdade, eu só monitorei.”

Raquel abraça a filha, afundando o rosto em seu pequeno ombro. “Vocês me mimam demais,” ela pausa para olhar para ele. “E por que isso tudo? Quero dizer, qual é a ocasião?”

Com isso, Sergio sente o coração quebrar um pouco. Será que Raquel nunca teve alguém que lhe preparasse uma refeição só pelo prazer de fazê-lo? Será que ela apenas esperou esses gestos de carinho em datas importantes, ou sempre achando que teria de fazer algo em troca?

Os cantos dos lábios se Sergio se curvam num sorriso um pouco triste, e ele responde: “preciso ter motivos pra fazer algo especial pra você?”

Os olhos da ex-inspetora suavizam. Ela encontra sua mão e, com cuidado para não derrubar a comida, puxa-o para si. Paula tapa os olhos e exclama “ewwww!” quando ela o beija, os fazendo gargalhar ao se afastarem. 

“Claro que não,” Raquel diz. “Obrigada.”

Sergio, satisfeito, responde com mais um beijo. 

Paula responde com mais protestos.

***

And there’s no mountain too high

No river too wide

Raquel precisa de um banho. 

Precisa de um banho e de roupas novas. Sua pele queima, e ela quer tirar o casaco — mas suas mãos estão presas acima da cabeça e ela está sozinha. Não há ninguém para ajudá-la. 

Sente vontade de gritar, mas ao mesmo tempo desconfia que sua voz não sairia da garganta. Seu corpo dói tanto que ela mal consegue analisar o lugar que está.

Fecha os olhos e tenta pensar em qualquer outra coisa que não seja a dor. Fecha os olhos e, para o seu desespero, a primeira coisa que vê é o rosto de Paula. 

Sente-se a pior mãe do mundo. 

Mas não tem tempo para sentir pena de si mesma, então balança a cabeça e obriga o pensamento a ir embora. Pelo menos por agora. 

E é aí que escuta a voz de Sergio ecoar em sua mente. 

“Saia daí. Saia daí! Raquel!”

“Estou indo. Saia daí!”

A culpa lhe invade mais uma vez. 

Se ela tivesse subido na árvore, se tivesse conseguido seguir a droga do plano e não tivesse improvisado, talvez agora eles já estivessem juntos de novo. Sergio não pensaria que ela está morta, e ela não estaria amarrada pelos braços, sentindo a pele queimar de dentro para fora. 

(Alicia deve ter lhe dado algum remédio, algum medicamento horrível que a faz ter vontade de arrancar a própria carne fora. Sua ex-colega não tem problema algum em ser cruel.)

Raquel tem medo do que Sergio fará quando descobrir que ela está viva. Meu Deus, ela espera que ele não se entregue. Como ela espera que ele não se entregue. 

Por que é o que ele estava prestes a fazer, não é? 

Sergio é um homem complicado e, apesar de não saber esconder muito bem o que sente, era ótimo em não falar absolutamente nada sobre. Muitas vezes Raquel desejou que ele apenas lhe falasse o que se passava por aquela cabeça. Quantas vezes ela não desejou que ele respondesse seus incontáveis, vulneráveis “eu te amos”? Quantas vezes ela não esperou que ele lhe dissesse que ela não estava louca, que eles realmente se apaixonaram e que o que estavam construindo em Palawan era o início de uma vida inteira?

Mas ao ouvi-lo correr sozinho no meio de uma floresta desconhecida, pronto para se entregar para a polícia e tira-la dali, Raquel não tem dúvidas. Nunca deveria tê-las tido. Hoje ela entende o que deveria ter entendido há tanto tempo — que as atitudes de Sergio sempre falaram por ele. 

Raquel nunca deveria ter sido tão apegada às palavras. 

Tenta se encostar na parede atrás de si, mas não a alcança. Fecha os olhos com mais força e, surpreendendo até a si mesma... Reza.

Reza para um Deus que nem sabe se acredita. Reza por Paula, por sua mãe, reza pelo grupo e pela sanidade de Sergio.

Por favor, que ele continue seguro. Que essa gente não o alcance, que ele continue se escondendo e que— que ele não precise passar por nada, nada disso. Por favor. Proteja-o.

Reza porque é o que lhe resta.

Perdida nos próprios pensamentos, se transporta para Palawan. 

Sing out this song and I’ll be there by your side

Ainda pode sentir o cheiro de café fresco, de pão torrado e maresia. 

Ainda tem a imagem perfeita em sua memória de Paula pendurada nos ombros de Sergio enquanto os dois lhe serviam comida pela manhã. 

Se Raquel pudesse, se tivesse apenas um desejo, desejaria voltar no tempo. 

Storm clouds may gather and stars may collide

But I love you

Until the end of time

Pensa na última noite que dividiu com Sergio. Pensa no plano de fuga e na forma com que ele a segurou firme nos braços quando terminaram. Se Raquel se concentrar bem, ainda consegue sentir aqueles longos dedos enrolados em seu cabelo, aquela respiração ofegante contra seu pescoço, e uma mão impaciente lhe pressionando a cintura. 

Se não estivesse sentindo tanta dor, sorriria com a lembrança de seu corpo trêmulo, suas costas suadas e seus lábios entreabertos tão próximos aos dela. 

Percebe que aquela noite foi a última que se sentiu leve. Sente raiva de si mesma quando não consegue enxugar a lágrima que escorre pelo queixo. 

Pensa, de repente, em Ángel. O que ele diria se a visse nessa situação? “Está arruinando a sua vida, Raquel”. 

Pensa em Suárez e na raiva em seus olhos. Pensa na arma apontada em sua cabeça e na sensação de ver a própria morte diante de si. 

“Está arruinando sua vida, Raquel.”

A porta se abre e Raquel sente o corpo inteiro arrepiar. O som do salto de Alicia batendo no chão ecoa tão alto que faz seus ouvidos doerem. Jamais o diria em voz alta, mas o medo percorre cada uma de suas veias. 

Se pudesse voltar no tempo, Raquel pensa, morreria mil vezes — mas jamais daria a essa gente o que eles querem. 

Come what may

I will love you until my dying day

 

***

Quando o Professor toma conta, Sergio muitas vezes se transforma num grande idiota. 

Diz coisas que se arrepende, coisas que jamais diria em outras circunstâncias. Principalmente a Raquel. 

E naquela árvore, sozinho, ouvindo sua voz assustada pelo rádio — tudo o que Sergio deseja é apagar aquela discussão e nunca ter dito a ela palavras tão cruéis. 

Então pela primeira vez em dois anos, abre o coração. 

Sente-se estúpido por precisar se esconder atrás de um rádio para fazê-lo, mas ao mesmo tempo, ouvir as reações de Raquel acalenta seu coração. Sua respiração baixinha, suas risadas abafadas, a voz embargada por conta das lágrimas— Sergio é capaz de ver com clareza suas expressões sem nem precisar fechar os olhos. 

Everyday I love you more and more 

E então, tudo muda. 

Raquel é descoberta, os fazendeiros não concordam sobre ajudá-la ou não e a polícia chega. 

A polícia chega e Sergio se esquece completamente do plano. Se esquece do Banco e de sua vingança e não pensa nem por um segundo antes de descer da árvore e correr

Listen to my heart, can you hear it sing?

Telling me to give you everything

Enquanto corre, há apenas duas coisas em sua cabeça. 

A segunda, a imagem perfeita de Raquel sentada na praia— ela e Paula, as duas com os pés descalços no mar, lhe encarando com olhos tão convidativos que Sergio não tinha nem a opção de não se juntar a elas. 

Mas a primeira — a primeira é o que, mais tarde, viria a lhe tirar o sono: as palavras de Raquel, repetindo-se como gritos em seus ouvidos: “você arruinou minha vida”. 

Suas pernas não parecem obedecê-lo. Ele corre, mas não rápido o suficiente. Não tanto quanto deveria. 

“Raquel, estou indo. Estou indo! Saia daí!”

E então, tiros. 

Tudo a sua volta se torna cinza. 

***

Sergio não sabe como arruma forças para subir de novo na árvore, mas o faz. Está esperando Marselha com a nova van que usariam daqui pra frente e, no momento, sente medo de desmaiar e cair do tronco que o segura. A oito metros de altura talvez o estrago não fosse tão grande e, sinceramente, parte dele sente que é o que merece. 

Mal teve tempo de chorar. 

Fecha os olhos e sente um alívio imensurável percorrer seu corpo inteiro quando ouve a voz de Palermo no fone. 

“Professor,” uma pausa. Sua voz soa cansada. “Me copia?”

“Diga, Palermo.”

“Agimos como o combinado. O portão está fechado, a polícia não entrou. Deu certo.”

Sergio suspira fundo. Consegue soltar um “ótimo” entre os dentes, cansado demais até para falar. 

Então Palermo muda totalmente o tom. 

“Sergio.” Seu amigo praticamente sussurra, e o Professor congela por um momento. Ouvir alguém lhe chamar pelo nome normalmente o tira de seus transes, mas agora é apenas estranhamente reconfortante. “Como você está?”

Ele encara um pedaço de folha seca a sua frente. Não faz ideia de como respondê-lo. 

“Não sei, Palermo.” Sergio sente o início de lágrimas furiosas queimarem o fundo dos olhos. Sua garganta aperta, e é difícil respirar. “Não sei.”

Ouve a respiração do assaltante do outro lado da linha, ofegante. “Vamos vingar tudo isso, Professor,” a voz de Palermo, cheia de raiva, faz seu coração bater mais rápido. “Já começamos.”

Sergio não sabe como responder. Quando se dá conta, o que está dizendo é:

“Ela morreu porque se negou a dizer aonde eu estava. Eu disse para ela falar, Palermo, eu- eu disse. Mas... Mas agora—”

Palermo pausa. Sergio mal percebe o que acabou de admitir. 

“Está dizendo que colocou a todos nós em risco para salvá-la?”

Sergio engole o nó que lhe sufoca a garganta. “Eu—”

“Quem diria,” ele o interrompe. “Logo você, Sergio Marquina... Pois bem, não faça mais nenhuma loucura, sim? Quando sairmos daqui conversamos sobre isso. Porque escute o que eu estou dizendo, Professor: se nós morrermos aqui, eu volto do puto inferno pra te levar conosco.” Ele pausa. “Corto.”

E então está sozinho com seus pensamentos mais uma vez. 

As palavras de Palermo o afetam mais do que ele gostaria de admitir. A sensação de impotência lhe toma conta, e ele chora. Permite que as lágrimas desçam e encosta a cabeça no tronco atrás de si e, finalmente, chora

Lidará com Palermo depois. Por agora, não tem forças para mais nada. 

“Não sei onde está o Professor.” 

A voz dela ainda é tão nítida em sua cabeça que é quase torturante. 

“Você arruinou minha vida.”

“Não sei onde está o Professor. Não sei.”

Ele leva a mão até o coração, os dedos cerrados em um punho, como se tentasse arrancar toda aquela dor dali. Mas é impossível. Assim como é impossível fechar os olhos e não ver o rosto bronzeado de Raquel em Palawan. Assim como é impossível não pensar na vida que jogou no lixo com tanta facilidade. 

É impossível não pensar em Paula e em Mariví e— meu Deus, como falar isso para elas? Como ele será capaz de olhar nos olhos daquela doce criança que ele aprendeu a amar como uma filha e dizer que a sua mãe está morta — e que a culpa é dele? 

Como olhar para os olhos confusos de Mariví e lhe explicar que Raquel não voltará? Que ele mal sabe o que fizeram com o corpo dela, que mal poderão se despedir? 

Sergio tira os óculos e aperta os olhos com o polegar e o indicador e chora tão furiosamente que sente medo de alguém ouvi-lo. 

Eu cuidarei delas, Raquel. Prometo que cuidarei delas. 

Abaixo da árvore, ouve o som de um carro. 

“Professor, me copia?” Ouve a voz de Marselha em seu ouvido. “Aqui embaixo já está tudo limpo. Já pode descer.”

Mas por algum motivo, Sergio não consegue respondê-lo. Não ainda. 

Limpa as lágrimas com as mãos trêmulas. Quando coloca os óculos de volta no rosto, eles estão embaçados e sujos e não o ajudam a enxergar melhor — então ele leva a mão até o bolso para pegar um lenço. 

Mas junto com o lenço, encontra três pedaços de papel. Três origâmis: dois pássaros vermelhos e, escondido entre as asas de um deles, um pequeno barquinho de papel branco. 

As lágrimas voltam com a mesma violência. 

“Professor, me copia?” Marselha repete, mas Sergio não ouve uma palavra do que ele diz. “Tenho uma coisa para te dizer, mas prefiro falar pessoalmente.”

Encara aquele pedaço de papel e, sem processar nada do que Marselha diz, percebe que não faz ideia do que fazer com aquilo. Não faz ideia do que fazer com uma lembrança tão bonita num momento tão desesperador. 

“Professor?” Marselha insiste. 

E Sergio jura por Deus que pode senti-la ali com ele.

“Não, não,” ele diz enquanto toma suas mãos nas dele, guiando-a e ajudando-a a completar os movimentos corretos. “Essa dobra precisa ficar encima dessa marca aqui. Está vendo? Se ficar muito para esquerda ou muito para a direita, o resultado final sairá torto.”

Raquel assente, concentrada e empenhada em aprender o hobby preferido de Sergio. 

“Assim, certo?”

Ele observa enquanto ela termina a pequena obra de arte. 

“Perfeito,” sorri, satisfeito. “Você tem talento.”

Raquel morde o lábio, o olhar travesso já fazendo-o se sentir desconcertado antes mesmo dela se levantar e jogar uma das pernas por cima ele, sentando-se no seu colo. 

“Ou talvez seja o professor que me ensinou.”

Sergio nunca se acostumará com a forma que a voz de Raquel parece descer dez oitavas quando ela está assim— seus olhos fixos em seus lábios, os dedos rápidos costurando seus fios.

E talvez seja a meia garrafa de vinho que dividiram antes de começar a dobrar papéis, ou a magia que Palawan parece ter em tardes preguiçosas assim — mas Raquel, antes de beijá-lo, morde seu lábio inferior e sussurra contra ele: “sabe que eu te amo, não é?”

Seu coração pula e ela ri quando o sente bater por debaixo da palma da mão que tem apoiada em peito. Sergio não responde — mas ama-a da única forma que sabe como. Com os origâmis já esquecidos, ama-a com as digitais que passeiam pelas curvas de seu corpo, despindo-a devagar; com os lábios lhe percorrendo os ombros e o pescoço; com os braços segurando-a firme e apaixonadamente, mantendo-a ali com ele. 

Enquanto ela lhe beija e lhe retira a camisa com tanta calma e familiaridade, uma letra de uma música antiga que Sergio já não ouvia há anos lhe passa pela mente. Ele sorri entre os beijos e sente-se o homem mais feliz do mundo quando ela sorri de volta. 

The greatest thing you'll ever learn

Is just to love 

And be loved in return



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