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História Comethru. - Capítulo 1


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Notas do Autor


TO DE VOLTA ME SEGURA
Não estou postando fanfic de madrugada. Até eu estou surpresa…

ENFIM, vamos para os avisos, bem rapidinho mesmo ok? NÃO PULA ISSO AQUI QUE EU SEI QUE VOCÊS PULAM!

Essa fanfic vai tratar de assuntos sérios, assuntos que podem servir de gatilho para alguém. Se você é sensível a esse tipo de conteúdo, eu recomendaria não ler.
Não, a fic não vai ser pesada, só abordará assuntos mais delicados.
Não sei se vou postar o segundo capítulo, estou postando esse aqui de teste, já que estou testando um novo estilo de escrita e não estou acostumada…
O primeiro capítulo é bem básico mesmo. Já que ele é o capítulo que apresentará os personagens, a rotina, etc…

Af vamos parar de enrolar né? Espero que gostem, de coração!

Boa leitura! ;)

Capítulo 1 - Frustrante


Fanfic / Fanfiction Comethru. - Capítulo 1 - Frustrante

Estava frio onde Sasuke morava, era inverno afinal.

Mas seu escritório era acolhedor, já que o aquecedor estava ligado.

Encarava o computador com as mãos entrelaçadas, rente ao rosto. Nervoso.

Não conseguia pensar em nada.

Nada!

É claro que já havia passado por bloqueios criativos antes, mas não deixava de ser frustrante toda vez que acontecia.

Tomou seu café em goladas, jogando o copo descartável na cesta de lixo ao pé da mesa, junto com o entulho de bolas de papéis amassados que se acumulava.

O clima quente do estúdio se misturava com o cheiro de café barato e folhas de caderno.

Na sala ao seu redor, as folhas eram jogadas ao chão misturadas com seus instrumentos.

Isso incluía sua guitarra, violão e teclado.

Ao canto também havia uma bateria que não usava a tempos. Baterias não eram seu forte.

Na sua frente, três monitores. Cada um mostrando algo diferente.

Em um estavam o programa de edição, no outro os instrumentais.

E o último Sasuke separava para suas pesquisas.

Suspirou frustrado, sentindo o incômodo se alojando em seu âmago.

Passou as duas mãos no rosto várias vezes.

 

-Mas que merda. - Disse entre um suspiro frustrado.

 

O que queria escrever?

O que chamava a sua atenção?

O que queria transmitir na sua música?

O que…o que…o que…

A verdade é que Sasuke queria gritar, surtar. Trancar aquele estúdio e não voltar nunca mais.

Naquele ponto, sequer se importava se transmitiria alguma coisa ou não. Apenas queria conseguir escrever algo… qualquer coisa.

As faixas nunca eram o suficiente, as letras eram fracas, nunca achava o arranjo certo.

Retirou o microfone da sua frente e esfregou o rosto mais uma vez.

Estava prestes a apagar mais uma das mil faixas que não dera certo quando seu celular vibrou sobre a mesa.

Respirou muito fundo, era a milésima vez que mandavam mensagem.

Tudo relacionado ao trabalho, é claro.

Se perguntava por que ainda não havia colocado aquela merda no silencioso.

Mas para seu alívio, não era seu assessor.

Era Sakura, que também era sua melhor (e única) amiga.

“está ocupado?” ela dizia.

Sakura era acostumada a perguntar toda vez que mandava alguma coisa. Sua agenda não era uma das mais disponíveis, afinal.

“Sinceramente? Nem eu sei.” respondeu.

Estava a horas naquele lugar sem fazer nada que realmente fosse produtivo.

Aquilo era tão frustrante…

Seu celular vibrou novamente, desta vez por conta de uma ligação.

 

-Alô

-Ainda está no estúdio?

 

Havia barulho no outro lado da linha. Provavelmente, Sakura estava em um lugar movimentado.

 

-Infelizmente - Encostou na cadeira, deixando o celular em cima da mesa, no viva voz. - Aonde você ‘tá?

-Acabei de terminar uma sessão de fotos. - Suspirou. - Você anda muito confinado Susanoo, eu fico preocupada.

 

Ele brincava com uma caneta, a girando entre os dedos.

Estalou a língua. Odiava ser chamado pelo nome artístico. Ela sabia disso.

Suspeitava que era apenas para o irritar.

 

-Já disse pra não me chamar assim. Susanoo é o cara legal dos palcos. - jogou a caneta sobre a mesa, girando-se na cadeira com os pés. - Fora deles, ele é apenas um produtor fracassado que não consegue fazer o próprio trabalho.

 

Riu desanimado. Não conseguiria falar sobre aquilo sem ser de forma irônica, cômica até.

É. Talvez estar no buraco fosse mesmo cômico.

Mais pessoas tumultuavam do outro lado da linha, falando coisas que Sasuke não conseguia entender. Sakura não riu.

 

-Deixa eu adivinhar, ainda está se torturando com as letras, não é?

 

Havia se passado seis meses desde sua última música, que não fora nenhum hit. Sem contar os mais de dois meses de bloqueio.

Ao todo, eram mais de oito meses parado, sem conseguir produzir uma linha sequer.

E um ano sem lançar nem mesmo um mini-albúm.

A pressão que a mídia botava sobre si era agoniante.

Seu público sempre na expectativa de que ele voltaria com algo incrível, as gravadoras desistindo dos seus projetos falhos e a empresa sempre lhe empurrando novas músicas em pré-produção.

Se sentia confinado, pronto pra explodir.

 

-É. Mais ou menos isso.

-Você tem que sair um pouco. Pegar um ar, sair desse estúdio, andar pelas ruas. Não adianta nada ficar trancado em casa batendo a cabeça.

 

Revirou os olhos, por mais que Sakura não pudesse vê-lo.

 

-Nossa, que ótimo conselho, nunca ouvi este antes.

-Ah vai se foder. - Ela resmungou. - Estou tentando ajudar.

 

Suspirou, largando a caneta sobre a mesa.

 

-Desculpa. É que não tem sido um dia muito bom.

-Vamos sair então! Te liguei pra isso. - Mudara de assunto. - Eu te busco, pode ser?

-E posso saber aonde a madame quer me levar?

-Na cafeteria Yamanaka. É um lugar bem calmo, não são muitas as pessoas que frequentam. Acho que você vai gostar.

 

Analisou a proposta por um tempo, girando-se na cadeira de um lado pro outro.

Talvez aceitasse o pedido. O café que fazia na sua cafeteira não era lá dos melhores.

Olhou em volta. As paredes do estúdio parecendo quer engoli-lo. A quanto tempo estava ali? Umas cinco horas?

Sentiu que não seria assim tão ruim sair um pouco, mesmo que fosse apenas para tomar um café.

Talvez realmente estivesse confinado de mais.

Em tese, não poderia sair para qualquer lugar público sem acompanhamento de alguém da empresa.

 

-Certo…vou me arrumar. Me ligue quando chegar.

 

Mas Sasuke estava no limite.

 

De banho tomado. Sasuke matava o tempo na sala, usando o celular.

Não tinha muitos com quem pra conversar, e achava desconfortável trabalhar por meio de uma tela tão pequena.

Mas não queria ficar trancafiado dentro do seu estúdio, que ficava na última porta do andar de cima.

Alguns diriam que aquela casa era pequena de mais para alguém com tanto dinheiro. Mas Sasuke nunca gostou de casas grandes. Ali moravam apenas ele e seus dois gatos, Amaterasu e Magekyo.

Apesar de ter escolhido um condomínio caro e bem restrito a visitas, para não ter problemas com sasangs e paparazzis o perseguindo. Ao menos fora o que a empresa sugerira na época.

A amiga lhe mandou uma mensagem dizendo que estava no portão. Ela provavelmente fora impedida de entrar, já que não avisara nada ao seu porteiro.

Mesmo que Sakura já tenha o visitado mais vezes que o seu próprio irmão.

“Já estou indo” foi o que respondeu antes de pegar seu sobretudo.

Também verificou a comida dos gatos antes de fechar a porta.

Saía de casa com um chapéu preto tapando a parte de cima do rosto. Não nevava, mas o vento gelado o pegou, como um tapa na cara, ao sair para a calçada.

Ainda usava um cachecol que cobria até o nariz. Seu caderno de anotações – que sempre carregava consigo – estava no bolso do sobretudo.

Focava no som que seus sapatos faziam ao pisar. A cabeça sempre baixa.

Um maldito costume que teve que aprender quando começou a ser reconhecido nas ruas.

Não que não gostasse dos seus fãs, eram eles que proporcionavam todo o apoio e compravam seus álbuns afinal.

Mas Sasuke nunca fora bom em se relacionar com as pessoas, Susanoo era bom.

Já Sasuke nunca soube como reagir quando alguém o parava para tirar uma foto ou dar um autógrafo. Mesmo depois de anos na carreira.

Alguns achariam besteira, mas para ele, interpretar um personagem era imensamente mais fácil.

Susanoo era, na verdade, um pouquinho do que Sasuke desejava ser fora dos palcos.

O barulho da buzina o tirou do transe. Levantou a cabeça o suficiente para ver o mustangue vermelho da amiga estacionado no portão.

Usava um óculos escuros, mesmo que o tempo estivesse nublado. O cabelo rosa choque amarrado em um coque no topo da cabeça.

Seu braço estava para fora da janela, e a música era alta o suficiente para escutá-la até mesmo de onde estava.

 

-Você está terrível.

 

Esta foi, literalmente, a primeira coisa que escutou ao entrar no carro.

 

-Eu sei Sakura. Tenho espelho em casa.

-Não, é sério. Suas olheiras estão horríveis, que horas você vem acordando?

 

Respirou fundo, retirando o chapéu e ajeitando o cachecol no pescoço.

Apoiou o antebraço na porta do carro. Observava os prédios e as pessoas que passavam rápido do lado de fora.

Tentava tirar alguma coisa do que via.

Mães com seus filhos, árvores sem uma folha sequer, restaurantes lotados, pessoas agasalhadas…

 

-Acho que vou ligar para o Itachi. - Disse Sakura, de repente. - Você não parece estar se cuidando.

-Sakura! - Disse mais alto do que pretendia. -Eu estou bem! Mas que merda.

 

Odiava aquilo. Como odiava

Não era como se já não tentassem se meter na sua vida o suficiente.

 

-Será que você não pode deixar de fazer o papel de “assistente” por cinco minutos?

-Eu estou fazendo o papel de amiga Sasuke! - Ela abaixou a música, provavelmente pronta pra iniciar uma discussão, mas Sasuke estava cansado de mais para aquilo.

 

Voltou a olhar a janela, tentando fugir do assunto.

Não queria ter raiva da amiga, mas era inevitável sentir uma pontada toda vez que ela se preocupava daquele jeito.

Não era nenhuma criança. Sabia o que estava fazendo.

 

-Você se lembra da última vez que--

-Eu lembro. - A interrompeu, virando para frente. - Eu lembro. bem. da última vez. Sakura. - Disse pausadamente entre um longo e cansado suspiro.

 

“A real pergunta é: Quando é que você não me lembra disso?”, Mas Sasuke se segurou.

A garota então, deve ter – finalmente – percebido o quanto aquele assunto o incomodava.

 

-Certo...desculpe.

 

Sasuke não respondeu.

 

Se arrependeu assim que botou os pés pra fora do carro.

A cafeteria não estava cheia, como Sakura mesmo havia dito, mas tinha gente o suficiente ali para deixá-lo desconfortável.

O aroma gostoso e café e salgados o atingiu assim que abriram a porta. Ninguém parecia notar sua presença. O que era bom.

Sua música tinha um estilo próprio e atingia um nicho muito específico de pessoas. Então os “riscos” de ser reconhecido em algum estabelecimento eram menores.

Ao menos era isso que Sakura dizia quando tentava convencê-lo a sair de casa.

Sentaram-se em uma mesa rente a parede, sem janelas próximas. Ali dentro era quente e a iluminação dava ao lugar um tom alaranjado e aconchegante.

 

-Boa tarde, posso anotar o pedido? - Um atendente se aproximou com a caderneta de anotações e, por impulso, Sasuke abaixou a cabeça.

-Vou querer o número doze, por favor. - Sakura apontava o cardápio.

-Um café preto sem açúcar pra mim. - Disse logo em seguida, ajeitando o cachecol no pescoço.

 

De relance, conseguia ler o nome “Rock Lee” gravado no crachá de identificação do rapaz.

 

-Um cappuccino e um café sem açúcar. - Murmurou, anotando no bloco antes de se dirigir ao balcão.

 

Sakura se espreguiçou, jogando os braços em cima da mesa para tentar chamar a sua atenção.

 

-Nossa, a agência ‘tá me matando de tanto trabalhar. Tsunade diz que ainda tenho que perder seis centímetros de cintura caso eu queira entrar no projeto que ela está organizando. - encostou a testa na mesa, choramingando. - Eu não aguento mais.

 

Disse cansada.

Sasuke torceu o nariz.

Como modelo, Sakura tinha tantos problemas quanto. Talvez até mais problemas que Sasuke.

A cada dia que passava, a amiga parecia estar cada vez mais magra, e isso o preocupava de mais, mesmo que ela dissesse que era normal, e que estava apenas cumprindo com o trabalho dela.

Para Sasuke, aquilo parecia um absurdo. Mas a amiga não parecia querer ceder desse sonho estúpido.

Vendo por outro lado, via que seu bloqueio não era nada perto do trabalho de Sakura, e talvez tenha se sentido mal por achar que aquilo que estava passando era um problema.

 

-Olha, no carro. - Passou a mão no rosto, apoiando os cotovelos na mesa. - Me desculpe por ter me estressado, eu não venho fazendo nada certo ultimamente.

 

Ela negou, suspirando.

 

-Ei, olha aqui. - Estalou os dedos rente ao seu rosto, o obrigado a encará-la - Já te disse, isso não é sua culpa. Bloqueios são normais, todo bom artista passa por isso.

 

Ela sorriu, tentando encorajá-lo de alguma forma.

Passou a língua na parte interna da bochecha. Sakura não o entendia.

Sasuke já perdera completamente a confiança que tinha nos seus outros projetos. Que não eram muitos, por sinal.

Não tinha autoconfiança pra seguir com nada. Cada vez mais confinado nos fundos do seu estúdio, tentando desesperadamente criar alguma coisa.

Sentiu a mão tremer, e respirou fundo pra tentar se acalmar.

No final, apenas assentiu para Sakura, sem ao menos ter prestado atenção no resto das coisas que dizia.

Ela não parecia convencida, mas não voltou a tocar no assunto.

Sequer se passaram dois minutos de conversa quando a porta da cafeteria se abriu bruscamente, o sino sobre a porta chegou a tocar mais de uma vez. Sakura teve que se virar pra conseguir ver.

Outros clientes também viraram para olhar.

Era um rapaz. Loiro e descabelado, que ofegava bastante como se tivesse corrido muito até chegar ali.

Sakura voltou a olhar pra frente, murmurando algo como “garoto louco”, ou algo assim.

O rapaz ajeitou inutilmente o cabelo, andando apressado para a cozinha atrás do balcão.

 

-Êê Uzumaki, atrasado de novo ein! - Disse um dos atendentes que servia alguma mesa próxima.

 

Voltou a prestar atenção na mesa de madeira.

Suspirou fundo. Aquelas últimas semanas vinham sendo extremamente exaustivas.

Sentia os olhos arderem e lacrimejarem quando piscava. Estava com tanto sono…

 

-Onde você estava? - Ouviu a garota do balcão perguntar. Não deveria ficar ouvindo a conversa dos outros, mas não era sua culpa se eles falavam de forma tão alta e afobada.

-Desculpa, desculpa. - disse uma voz masculina. Era bonita.

 

No início de sua carreira, Sasuke pegara esse habito para se divertir. Era inevitável comparar as vozes que ouvia a sua volta, no dia a dia, e analisar qual delas seria boa para um single…

Na verdade, ele não fazia isso a muito tempo. Era como se a brincadeira tivesse perdido a graça.

-Eles me liberaram tarde hoje, desculpe. - disse a voz, se embolando em uma explicação que não se deu o trabalho de tentar entender.

-Tá, tá, tudo bem, eu já entendi. - Ouviu um suspiro. -Ao menos leve esses pedidos para aquelas mesas… - Sasuke foi gradativamente fechando seus olhos, e não prestava mais atenção em nada. Sakura murmurava uma coisa ou outra, o som das suas unhas batendo incessantemente na tela do celular.

Sentia seu corpo afundar no sobretudo. Será que se fosse pra casa agora, ele conseguiria dormir?

 

-Desculpe o incômodo. - Disse a mesma voz anterior. Ouviu o barulho das xícaras sendo postas na mesa. - O pedido não demorou, né?

-An? Ah, não. - Sakura respondeu, distraída. - Não demorou não. Obrigada.

 

Abriu os olhos, os sentindo arderem de novo. A xícara já estava na sua frente e já conseguia sentir o cheiro do café forte.

 

-Vão querer mais alguma coisa?

 

Levantou a cabeça, que parecia pesada como o resto do corpo.

Era o mesmo garoto de antes.

Agora, o vendo de perto, percebia que era bem bronzeado para uma cidade onde o sol nunca aparecia. O cabelo loiro fora preso em um coque para tentar, inutilmente, arrumá-los. Eles pareciam naturais.

Tinha “Naruto Uzumaki” escrito no crachá.

É, ele não era dali. Não tinha como ser.

Aquilo talvez fosse uma conclusão meio óbvia.

 

-Não, obrigado. - Respondeu. A voz saindo mais rouca e cansada do que pretendia. Ele assentiu no mesmo minuto e se afastou, indo para outra mesa.

 

Sakura finalmente largou o celular, estressada, e levantou cuidadosamente sua xícara.

 

-O que foi? - Sasuke perguntou.

-O desgraçado do Orochimaru marcou mais uma sessão pra mim no próximo fim de semana, sem me avisar! - Ela respirou fundo, colocando a xícara de volta no pires, sem tomar nada. - Eu avisei que ainda não estava no peso. Agora ele espera que eu perca mais três quilos em quinze dias? – Ela bufou, passando a mão no rosto. - Filho da puta. - Murmurou.

 

Sasuke respirou fundo, vendo a amiga apoiar a testa na mão.

Odiava, odiava o emprego de Sakura. Não entrava na sua cabeça como alguém aceitava trabalhar assim, o quanto uma pessoa podia se sacrificar pela sua profissão…

Já tentara conversar com ela no passado, mas sinceramente? Conselhos de nada valiam vindo de alguém que sequer dava conta do próprio trabalho.

 

-Você sabe bem a minha opinião sobre isso, não sabe?

-Sasuke. - Ela suspirou, se recompondo, voltando a olhá-lo. - Se não posso falar do seu trabalho, então por favor não fale do meu. Sim? - Ela arqueou as sobrancelhas. Sasuke engoliu em seco. Para alguns, aquilo teria sido bem rude. Mas não era como se ele se importasse de qualquer forma.

-Que seja.

 

Levou a xícara aos lábios, tomando lentamente para não queimar a língua. Sentiu alívio quando o gosto forte e amargo desceu pela garganta, o esquentando.

A outra mão ainda segurava o caderno dentro do bolso, com suas páginas rasgadas e rabiscadas. Sentia a palma suar.

O alívio durou muito pouco e a angústia subiu pelo peito. O incomodando.

Aquela sensação terrível que vem à barriga quando tem algo faltando. Era tanta pressão sobre si, tantas pessoas trabalhando a seu favor, e onde estava? Parado ali, quando podia estar no seu estúdio.

Sentiu o estômago embrulhar.

Sua respiração já estava vacilando e teve que fechar os olhos.

Certo… Inspira. Respira.

Tá tudo bem…

Sakura, alheia ao que acontecia, empurrou a xícara para o lado sem sequer ter tocado no cappuccino. Que esfriava.

 

-Não vai tomar?

-Não. - Ela disse, pegando a carteira dentro da bolsa. - Não posso me dar esse privilégio. Tenho uma sessão em quinze dias.

 

Aquilo de novo. Sasuke bufou.

 

-Sakura.

 

Ela levantou o indicador, o impedindo de continuar.

 

-Nem. Um. Pio. - Ela se levantou, suspirando. - Desculpa Sas, eu tenho que ir. Aquela cobra não para de me incomodar. - Enfiou o celular na bolsa, com raiva. - Promete pra mim que vai tentar dormir quando chegar em casa? Você ‘tá acabado. Pede pro seu motorista vir te buscar, tá? Não pegue Úber de jeito nenhum.

 

Revirou os olhos. Sakura era tão hipócrita…

Ela segurava sua mão, o olhado com aqueles olhos autoritários.

Teve vontade de bocejar.

 

-Tá, tá. Prometo. - Livrou sua mão, a enxotando. - Vai logo, vai. Some. - Brincou, mesmo que não estivesse no seu melhor humor.

-Idiota. - Ela riu antes de se dirigir ao balcão pra pagar seu pedido.

 

Saiu sem olhar pra trás.

Ouviu o flash de uma câmera ser ativado em algum lugar. Paparazzis, talvez.

Respirou fundo, não querendo dar palco a suas paranoias. Mas nem morto que ele se atreveria a olhar em volta e dar de cara com alguém lhe apontando uma câmera.

Sasuke era um produtor tão medíocre, não entendia como as pessoas ainda se interessavam pela sua vida.

Sua cabeça doeu de novo, e teve que tomar outro gole de café. Retirou sua mão junto do caderno do bolso, que já estava com o formato de seus dedos marcada na capa de couro.

Folheou aquele pequeno bloco, vendo todas as suas anotações antigas e sem significado. Páginas amassadas de tanto passar a borracha, algumas rasgadas no canto.

Já passou o tempo em que Sasuke se achava uma pessoa organizada. Ah tempos não parava para arrumar sua casa, seu quarto, seu estúdio...

Talvez se não fosse pelas diaristas, (E acredite, Sasuke odiava depender delas para manter sua casa em pé), ele não daria conta.

Foi para uma folha em branco. A observou por alguns segundos, os olhos focados nas linhas caindo aos poucos. Sasuke apoiou o ombro na parede, em uma posição mais confortável.

Não tinha nada pra escrever ali. Se não conseguia pensar em nada nem dentro do estúdio, ali, naquela cafeteria, seria igual.

Fechou o caderno com mais força do que planejava, chamando a atenção de algumas mesas próximas.

Mais sons de cliques e flashs vindos de algum lugar que Sasuke se recusou a procurar.

Frustrante. É, era essa a palavra.

Bufou, deixando o caderno na mesa.

O café dentro da xícara balançou. Sasuke apoiou a cabeça na parede, acompanhando sua bebida esfriar em cima da mesa.

Estava tão…tão cansado.

 

-Senhor… está tudo bem?

 

Acordou no surto.

Abriu os olhos doloridos. Sentia o pescoço doer.

Demorou alguns segundos para lembrar onde estava.

Se ajeitou rapidamente, sentindo as costas estalarem. Tinha dormido? Por quanto tempo?

Mas que merda.

 

-Desculpa,é que o senhor já está ai a algumas boas horas. Fiquei preocupado.

 

Coçou os olhos, sentindo os dedos gelados.

O lugar já não estava tão bem iluminado como antes, e o garoto loiro de antes o encarava sem jeito.

Os cabelos completamente bagunçados e, agora, presos inutilmente em um rabinho mal feito. O coque de antes devia ter se desfeito durante o dia.

 

-Meu superior pediu para ver se estava tudo certo, então…

-Que horas são? - Perguntou, o interrompendo. A voz rouca arranhando sua garganta.

 

Viu-o pegar o celular no bolso do uniforme, ajeitando uma das mechas longas que caía sobre os olhos.

 

-Hm..sete e meia, senhor. - Disse em um sotaque estranho, provavelmente estrangeiro.

 

Arregalou os olhos, se inquietando na cadeira.

Caralho ele estava ali a duas horas?!

Se levantou de supetão, assuntando o garoto, que recuou um pouco.

Seu celular lotado de mensagens de Kakashi, seu manager. Perguntando onde estava, porque não atendia, e que ele estava atrasado.

Atrasado…pra que?

A entrevista para a rádio estava marcada pra quando mesmo?

Porra, Sasuke estava fodido.

 

-Está tudo bem?

-Está. Está tudo ótimo. - Pegou sua carteira apressado, se embolando na hora de abri-la e lhe entregando uma quantia provavelmente muito maior do que o café que tomara. - Pegue, é pelo café. Obrigado. Eu.. - Olhava para a saída, apreensivo. - Preciso ir.

-Ah..é.. - O garoto olhou para o dinheiro e depois para Sasuke, que já estava quase na porta. - Moço, espera! E o seu troco?

-Pode ficar. - Abanou uma das mãos. - Não preciso.

 

Sasuke passou pela porta tão desesperado que sequer lembrou que estavam no inverno. O vento bateu com violência em seu rosto o fazendo arfar, escondendo rapidamente o nariz no cachecol.

Tinha perdido seu chapéu na confusão, mas não se deu o trabalho de procurá-lo.

Olhou em volta com os olhos cerrados, identificando o carro do seu motorista.

Sakura deve o ter avisado assim que partiu. Ela sabia que se dependesse dele, voltaria pra casa a pé.

Pensar que tinha o feito esperar por tanto tempo fez seu estômago embrulhar ainda mais.

Merda, era sempre ele que fodia com o trabalho de todos, não é?

Entrou no carro ignorando os olhos do homem no banco da frente, murmurando apenas um “para a empesa.”. A ordem fora acatada sem nenhum comentário.

Assim que o carro começou a ganhar velocidade, recostou no banco sentindo todo seu corpo afundar. Estava esbaforido, a respiração desregulada e o coração batendo na garganta.

Que lindo, havia perdido metade de um dia.

Sasuke não sentia nada. Na verdade, a raiva era o sentimento que mais predominava.

Aquela coisa ruim presa na garganta, que fazia seus dedos ficarem ansiosos e sua perna inquieta, obrigando-a ir pra cima e pra baixo em movimentos nervosos.

Respirou fundo, tentando aquecer as palmas e manter-se quieto. Kakashi falaria um monte na sua cabeça, como sempre.

Bom, não era a primeira vez que ele esquecia das coisas. Vinha acontecendo muito ultimamente.

Naquele momento, Sasuke se lembrou porque nunca saia de casa.

 

 

Conseguia ver a empresa de longe. O grande prédio iluminado de vidro.

Pararam na porta, e um dos seguranças abriu a porta pra si. Sasuke sentiu o vento gelar seu nariz, não queria sair do carro.

Sempre se sentiria desconfortável ao passar por aqueles corredores. Nunca fora o ser mais sociável do mundo, mas as vezes achava que todo aquele desconforto era um pouco de mais. Não era normal, era?

Lembrou de quando conseguiu, há um ano atrás, convencer seu manager a deixá-lo montar um estúdio na própria casa, assim, não precisaria comparecer a empresa no dia a dia.

As vezes se arrependia de ter concordado com aquilo, era como se, a partir daquele momento, não tivesse mas controle sobre sua própria vida.

Fora a empresa que criara seu nome, sua imagem, sua reputação. Bancou seus projetos, músicas, organizou suas turnês. Controlavam sua renda.

No final, Sasuke sempre esteve preso a eles, desde o início de sua carreira.

Os contratos foram criados com algum intuito, afinal.

Bom, podia ser pior, ao menos ainda tinha liberdade para produzir suas próprias músicas.

A sala de Kakashi era no nono andar, e Sasuke fora acompanhado junto de dois seguranças. Estavam o deixando desconfortável.

Saíram do elevador e dobraram os dois corredores de sempre.

A porta se abriu e seu estômago voltava a embrulhar, por mais que tentasse manter a pose de imparcialidade.

Os dois homens que o seguiam permaneceram do lado de fora.

Kakashi permanece sentado enquanto o observava avançar pra dentro da sala e se sentar na cadeira à frente da mesa.

Não falaram nada. E Sasuke evitava contato visual.

O maneger suspirou, se recostando na poltrona e cruzando os braços. Ele não parecia bravo, mas Sasuke tinha anos de convivência com ele. Sabia que estava.

 

-O que eu faço com você Susanoo… - Ele suspirou.

 

Em outro momento, Sasuke o corrigiria. Mas não queria o deixar mais irritado.

 

-Me desculpe Kakashi, eu estava…

-Eu já sei aonde você estava. - interrompeu, empurrando seu próprio celular sobre a mesa. - Você não lê as notícias?

 

E seu estômago voltou a embrulhar assim que identificou o seu rosto e o de Sakura na capa de um site sensacionalista. Eram fotos daquele dia.

Estremeceu.

Sabia que tinham sasaengs naquele lugar. Stalkers que faziam de tudo pra conseguir informações pessoais suas e as vendem para sites como aquele. Mas não esperava que elas fossem assim tão rápidas.

 

“(…) A modelo Sakura Haruno saiu esta tarde acompanhada do suposto namorado e, minutos depois, saiu desacompanhada. Pessoas no local afirmam que ela parecia estar estressada. Segundo fontes, a modelo fora buscá-lo na porta de sua casa, e o rapaz que a acompanhava foi identificado artisticamente como ‘Susanoo’, o cantor e compositor que esteve em turnê pela Coreia no ano passado...”

 

Sasuke não quis continuar. A raiva borbulhava, fazia seus dedos formigarem.

Sentiu um nó formando na garganta. Empurrou o celular de volta para o homem, que ainda o encarava antipático.

Sentia-se enjoado. Não sabia o que pensar.

Definitivamente aquela não era a primeira vez que pessoas o perseguiam para conseguir dinheiro em seu nome. Era por isso que não podia sair sem que a empresa soubesse.

A mídia era uma grande transmissão de Tv, e surpreendentemente, sua vida era o programa principal.

 

-O assessor da Haruno me contatou. Vão processá-los por difamação e injúria. - Ele pausou, se ajeitando sobre a mesa. - E, claro, a empresa também já está cuidando disso pra você.

 

Ou, como Sasuke traduziria: “A empresa já está arrumando a merda que você fez.”

Abriu a boca pra falar, mas não conseguia pensar em nada. A noticia ainda o incomodava.

 

-Agora. - O maneger se levantou, caminhando calmamente envolta da mesa, mantendo as mãos atrás do corpo. - Imagine como foi ter que explicar para a rádio que você não pôde comparecer por indisposição para, horas depois. - ele pigarreou. - Surgir uma matéria sensacionalista dizendo que, na verdade, o senhor Susanoo estava tomando um café com a namorada. - De soslaio, viu-o parar perto da janela, observando o movimento lá de baixo. - Você nos causou algumas complicações rapaz…

 

Sentiu um gosto amargo na boca, e o coração estava inquieto. Sua perna tremia.

Sabia disso, sabia que estava errado.

 

-Por favor, da próxima vez que for se expor ao público, nos contate. É assim que conseguimos evitar que situações assim aconteçam.

 

Ou “Não quebre as regras novamente para não termos que lidar com seus problemas”.

Sasuke não disse nada, tão pouco Kakashi, que continuava a encarar o lado de fora, enquanto ele ainda tentava manter a perna quieta.

 

-Você terá uma música em parceria. Eu já garanti a sua presença. - Disse depois de um tempo, enjoado de ver a vista do lado de fora e voltando a se sentar. - Hinata Hyuuga, conhece?

 

 

Assim que abriu a porta, seus gatos correram para o seu pé, miando insistentes e esfregando-se entre suas pernas.

Respirou fundo, sentindo o peito e a cabeça doer de forma insuportável. Se arrastou para a cozinha para tomar água. Sentia a garganta seca.

 

“Você está a quase um ano sem conseguir produzir nada rapaz, até quando continuara tentando? A empresa já ofereceu muitas chances.” Kakashi havia lhe dito. “Agora, vamos aproveitar o hype da Hyuuga para subir seu nome e, se realmente estiver a fim de recompensar o transtorno que nos causou hoje, eu recomendaria aceitar a proposta desta vez.”

 

É. Sasuke não conseguiria mais fugir, não tinha saída.

Era sufocante, tudo aquilo era sufocante.

Saber que usaria o nome de outra pessoa para subir na indústria lhe trazia um gosto amargo na boca.

Sentia os ombros caírem, as luzes refletindo o piso branco da cozinha faziam sua cabeça doer de forma insuportável e uma indisposição horrível se alojou no peito enquanto virara o copo de água na boca. Não tinha vontade de fazer nada.

Subiu arrastado para seu quarto, no andar de cima. Seus gatos ainda miavam, tentando chamar sua atenção enquanto corriam escada acima.

Os corredores estavam mergulhados na escuridão, mas Sasuke não sentiu vontade de acender as luzes na esperança da dor em sua cabeça diminuir.

Se sentia suado, cansado e sujo, mas seu corpo estava pesado de mais para evitar cair na cama, ainda com o sobretudo que esqueceu de tirar na entrada. Afundou o rosto no travesseiro, retirando os sapatos com os pés.

Sentiu quando patinhas começaram a caminhas por suas costas.

Se aquilo fosse em outro momento, se Sasuke passasse pela mesma situação, talvez passaria a noite chorando de frustração.

Ou talvez apenas algumas lágrimas rolassem soltas pelo rosto.

Mas o Sasuke de agora já não tinha vontade de chorar. Talvez nem conseguiria.

A verdade é que ele não sentia nada além de cansaço.

Talvez dia seguinte ele conseguisse escrever alguma coisa. Mandaria mensagem pra Sakura quando acordasse, Naquele ponto, ela já teria lido as notícias e, provavelmente, deveria estar se sentindo mal por tê-lo levado a cafeteria.

É. Faria isso.

Estava quase caindo no sono, entrando naquele vale entre a consciência e a sub. Quando um pensamento avulso veio a mente, como um alerta.

Então Sasuke se levantou rápido, tão rápido que caiu no chão, fazendo seus gatos chiarem assustados e saírem correndo do quarto.

Se sentou, passando a mão na cabeça. O coração na boca.

Colocou a mão nos bolsos, não sentindo nada.

Puta que pariu.

Sasuke havia esquecido seu celular e seu caderno na cafeteria.


Notas Finais


Vamos lá…
Me digam o que acharam POR FAVOR. Críticas construtivas, qualquer coisa.
Eu AMO comentários. Interagir com vocês me deixa de coração quentinho…
Ah sim, e por favor, me corrijam se eu vier a escrever alguma besteira. Como são assuntos muito delicados, eu temo transmitir alguma ideia errada. Então ficaria grata se vocês me corrigissem caso isso aconteça. Pode ser?
Obrigada por ler até aqui, espero mesmo que tenham gostado.


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