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História Como agarrar uma herdeira - Bughead - Capítulo 1


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Notas do Autor


Boa leitura

Capítulo 1 - Um


con.tu.ber.nal (substantivo). Aquele que vive debaixo do mesmo teto; companheiro de habitação, camarada.

A ideia de Chuck Blossom como meu contubernal me dá urticária.

– Do dicionário pessoal de Elizabeth Trent  Cooper

Hampshire, Inglaterra

3 de julho de 1814

Elizabeth Cooper não tivera a intenção de atirar em Chuck Blossom, mas o fizera, e agora ele estava morto.

Pelo menos era o que ela pensava.

Sem dúvida havia bastante sangue.

Escorria pelas paredes, encharcando o chão, e as roupas de cama estavam tão manchadas que seriam irrecuperáveis.

Elizabeth não entendia muito de medicina, mas tinha quase certeza de que um corpo não poderia perder tanto sangue e ainda permanecer vivo.

Ela estava bem encrencada agora.

– Maldição – resmungou.

Embora fosse de origem nobre, nem sempre fora criada em circunstâncias particularmente nobres e, às vezes, seu linguajar deixava um pouco a desejar.

– Homem estúpido – disse ela para o corpo no chão. – Por que teve que se atirar em cima de mim daquele jeito? Por que não deixou essa ideia de lado? Eu disse ao seu pai que não me casaria com você. Disse a ele que não faria isso nem se você fosse o último idiota da Grã-Bretanha.

Elizabeth quase bateu o pé tamanha a sua frustração. Por que as palavras que dizia nunca saíam da forma como pretendia?

– O que eu quero dizer é que você é um idiota – prosseguiu, e Chuck, como era de esperar, não respondeu – e que não me casaria com você mesmo se fosse o último homem da Grã-Bretanha e... Ah, maldição! Por que estou conversando com você, afinal? Está completamente morto.

Elizabeth gemeu. Que diabo deveria fazer agora? O pai de Chuck provavelmente retornaria em apenas duas horas, e não era necessário um diploma de Oxford para deduzir que Hall Blosson não ficaria satisfeito ao encontrar o filho morto no chão.

– Dane-se o seu pai – afirmou ela. – No fim das contas, é tudo culpa dele. Isso não teria acontecido se ele não tivesse ficado tão obcecado em conseguir a qualquer custo uma herdeira para você...

Hall Blossom era o tutor legal de Elizabeth, ou ao menos seria pelas próximas seis semanas, até ela completar 21 anos. Elizabeth vinha contando os dias até 14 de agosto de 1814 desde 14 de agosto de 1813, quando fizera 20 anos. Agora só faltavam quarenta e dois dias. Quarenta e dois dias e ela finalmente teria o controle da própria vida e do próprio destino. Elizabeth não quis nem pensar quanto de sua herança já havia sido desperdiçado pelos Blossom.

Ela jogou o revólver na cama, levou as mãos aos quadris e continuou encarando Chuck.

Então... ele abriu os olhos.

– Aaaaai! – Elizabeth deixou escapar um grito alto, deu um salto e pegou o revólver.

– Sua va... – começou a dizer Chuck.

– Não ouse completar a frase – avisou ela. – Ainda tenho um revólver.

– Você não seria capaz – declarou ele, tossindo, a mão no ombro ensanguentado.

– Perdão, mas as evidências parecem indicar o contrário.

Chuck cerrou os lábios finos e praguejou com violência, então lançou um olhar furioso para Elizabeth.

– Eu disse ao meu pai que não queria me casar com você – sibilou. – Meu Deus! Imagine só... Ter que viver ao seu lado pelo resto da vida. Eu ficaria louco. Se você não me matasse antes, é claro.

– Se não queria se casar comigo, não deveria ter tentado me forçar a ceder às suas investidas.

Ele deu de ombros, mas logo uivou quando o movimento intensificou a dor em seu ombro. A expressão de Chuck era de fúria quando falou:

– A senhorita tem bastante dinheiro, mas, se quer saber, não acho que valha a pena casar com você por isso.

– Faça a gentileza de dizer isso ao seu pai – retrucou Elizabeth, irritada.

– Ele ameaçou me deserdar se eu não me casasse com você.

– E você não poderia enfrentá-lo pelo menos uma vez nessa sua vida patética?

Chuck grunhiu ao ser chamado de patético, mas, devido a seu estado enfraquecido, não pôde fazer muito mais para reagir ao insulto.

– Eu poderia ir para a América – murmurou ele. – Com certeza os selvagens seriam uma opção melhor que você.

Elizabeth o ignorou. Ela e Chuck se estranhavam desde que Elizabeth fora morar com os Blossom, um ano e meio antes. Chuck era uma marionete do pai, e os únicos momentos em que mostrava alguma personalidade eram quando Hall não estava em casa. Infelizmente, a personalidade dele costumava ser cruel e mesquinha e, na opinião de Elizabeth, muito desinteressante.

– Acho que agora terei que salvar você – resmungou ela. – Com certeza não vale a pena ser enforcada por sua causa.

– Que gentileza a sua.

Elizabeth tirou a fronha de um travesseiro, embolou o tecido – de linho da melhor qualidade, provavelmente comprado com o dinheiro dela – e o pressionou contra o ferimento de Chuck.

– Temos que estancar o sangramento – falou.– Parece ter diminuído – observou Chuck .

– A bala atravessou o ombro?

– Não sei. Está doendo como o diabo, mas não sei se dói mais quando a bala atravessa direto ou quando fica presa no músculo.

– Imagino que as duas formas sejam bastante dolorosas – admitiu Elizabeth. Ela levantou um pouco a fronha e examinou o ferimento. Então, virou o corpo dele com delicadeza para examinar as costas. – Acho que atravessou. Você também tem um buraco na parte de trás do ombro.

– Posso mesmo contar com você para me ferir duas vezes.

– Você me atraiu para o seu quarto sob o falso pretexto de precisar de uma xícara de chá para um resfriado e tentou me desonrar! O que esperava? – retrucou Elizabeth, ríspida.

– Por que diabo você trouxe um revólver?

– Eu sempre carrego um revólver – rebateu ela. – Faço isso desde... ora, não importa.

– Eu não teria ido até o fim – resmungou Chuck.

– Como eu iria saber?

– Ora, sabe que nunca gostei de você.

Elizabeth pressionou o curativo improvisado contra o ombro ensanguentado de Chuck talvez com um pouco mais de força do que o necessário.

– O que eu sei – devolveu ela, irritada – é que você e seu pai sempre gostaram muito da minha herança.

– Acho que desgosto mais de você do que gosto da sua herança – grunhiu Chuck. – Para início de conversa, você é mandona demais, nem sequer é tão  bonita e tem uma língua afiada como uma faca.

Elizabeth cerrou os lábios. Se tinha um modo áspero de falar, não era culpa dela. Aprendera rapidamente que sua personalidade era sua única defesa contra o desfile de péssimos tutores que fora forçada a suportar desde a morte do pai, quando tinha apenas 10 anos. Primeiro fora George Cooper, primo em primeiro grau do pai. Ele nem era tão ruim, mas certamente não sabia o que fazer com uma menina tão nova. Então George sorrira para ela uma vez – apenas uma vez, entenda –, disse que tinha sido um prazer conhecê-la e largou-a em uma casa de campo com a babá e a governanta, ignorando-a.

Mas George morrera, e a guarda de Elizabeth passara ao primo em primeiro grau dele, que não tinha qualquer parentesco com ela nem com o pai dela. Niles Wickham era um velho avarento e cruel que vira na tutelada uma boa substituta para uma criada e imediatamente entregara a Elizabeth uma lista de tarefas mais longa do que o braço dela. Elizabeth cozinhara, limpara, passara a ferro, polira, esfregara e varrera. A única coisa que ela não fizera fora dormir.

No entanto, Niles engasgara com um osso de galinha, ficara completamente roxo e morrera.

A Corte de Justiça ficou um tanto perdida a respeito do que fazer com Elizabeth, que, aos 15 anos, parecia bem-educada e abastada demais para ser jogada em um orfanato. Assim, a guarda dela foi passada para Clifford Blosson, primo em segundo grau de Niles. Clifford fora um libertino que havia considerado Elizabeth atraente demais para o bem dela, e foi nessa época que Elizabeth criou o hábito de carregar uma arma o tempo todo.

Porém Clifford tinha o coração fraco, então Elizabeth só tivera que morar com ele por seis meses antes de comparecer ao funeral do homem e ser levada para morar com Claudius , o irmão mais novo dele.

Claudius bebia muito e gostava de usar os punhos, o que fez com que Elizabeth aprendesse a correr rápido e a sumir de vista. Clifford sem dúvida tentara apalpá-la em qualquer ocasião possível, mas Claudius era um bêbado cruel e quando a acertava... doía. Elizabeth também se tornou especialista em sentir o cheiro de bebida alcoólica até do outro lado de um cômodo. Claudius nunca levantava a mão para ela quando estava sóbrio.

Mas, infelizmente, era raro que estivesse sóbrio e, em um de seus ataques de fúria, Claudius chutou o cavalo com tanta força que o animal revidou. O coice acertou direto na cabeça. A essa altura, Elizabeth estava mais do que acostumada a se mudar, por isso, assim que o médico cobriu o rosto de Claudius com o lençol, ela fez as malas e esperou que a Corte decidisse para onde seria mandada a seguir.

Logo se viu morando com o irmão mais novo de Claudius, Hall, e com o filho dele, o mesmo Chuck que sangrava diante dela naquele momento. A princípio, Hall parecera ser o melhor de todos até ali, mas Elizabeth percebeu rapidamente que o atual tutor não se importava com nada além de dinheiro. Depois que ele se dera conta de que a tutelada vinha com uma bela herança, decidira que Elizabeth – e o dinheiro dela – não lhe escaparia. Chuck era apenas alguns anos mais velho que Elizabeth, por isso Hall anunciou que os dois se casariam. Chuck e Elizabeth não gostaram do plano e deixaram isso claro, mas Hall não se importou. Ele atormentou o filho até Chuck concordar. Então, passou a se dedicar a convencer Elizabeth de que ela deveria se tornar uma Blossom.

Por “convencê-la”, entenda-se gritar com ela, esbofeteá-la, deixá-la com fome, trancá-la no quarto e, por fim, mandar Chuck engravidá-la, para que Elizabeth tivesse que se casar com ele.

– Prefiro dar à luz um bastardo do que um Blossom – resmungou Elizabeth.

– O que disse? – perguntou Chuck.

– Nada.

– Você sabe que vai ter que ir embora desta casa – disse ele, mudando abruptamente de assunto.

– Acredite em mim, isso está bem claro.

– Meu pai me disse que se eu não a engravidasse, ele mesmo cuidaria disso.

Elizabeth chegou muito perto de vomitar.

– Como? – indagou, a voz trêmula, o que não era normal.

Até mesmo Chuck era preferível a Hall.

– Não sei para onde você pode ir, mas precisa desaparecer até seu vigésimo primeiro aniversário, que é... quando? Em breve, eu acho.

– Daqui a seis semanas – sussurrou Elizabeth. – Exatamente seis semanas.

– Pode fazer isso?

– Me esconder?

Chuck assentiu.

– Não tenho escolha, não é mesmo? Mas precisarei de dinheiro. Tenho alguns trocados, mas não terei acesso à herança até o meu aniversário.

Chuck estremeceu quando Elizabeth afastou a fronha do ombro dele.

– Posso lhe arranjar algum – disse ele.

– Eu lhe pagarei. Com juros.

– Ótimo. Você precisa partir esta noite.

Elizabeth correu os olhos pelo quarto.

– Mas essa bagunça... Temos que limpar o sangue.

– Não, esqueça isso. É melhor eu deixar você escapar por ter atirado em mim do que por eu simplesmente não conseguir fazer o que deveria.

– Um dia você vai ter que enfrentar seu pai.

– Será mais fácil com você longe. Há uma jovem absolutamente impecável a duas cidades daqui que pretendo cortejar. Ela é tranquila e pacata, e nem de perto tão magra quanto você.

Elizabeth imediatamente sentiu pena da pobre moça.

– Torço para que tudo dê certo para você – mentiu ela.

– Não, não torce. Mas não me importo. Na verdade, não importa o que pensa, desde que vá embora.

– Sabe de uma coisa, Chuck? É exatamente assim que me sinto a seu respeito.

Surpreendentemente, Chuck sorriu e, pela primeira vez em dezoito meses desde que fora morar com a geração mais nova dos Blossom, Elizabeth teve uma sensação de camaradagem com aquele rapaz que era tão próximo dela em idade.

– Para onde irá? – perguntou ele.

– É melhor não saber. Dessa forma, seu pai não poderá arrancar nada de você.

– Bem pensado.

– Além do mais, não faço ideia. Não tenho nenhum parente, você sabe. Aliás, foi por isso que acabei vindo para cá. Mas depois de dez anos tendo que me defender de tutores sempre tão atenciosos, acho que consigo me virar no mundo lá fora por mais seis semanas.

– Se existe alguma mulher capaz disso, é você.

Elizabeth ergueu as sobrancelhas.

– Ora, Chuck, isso foi um elogio? Estou pasma.

– Não chegou nem perto de ser um elogio. Que tipo de homem iria querer uma mulher que consegue se cuidar muito bem sozinha?

– O mesmo tipo de homem que conseguiria se cuidar muito bem mesmo sem o pai – retrucou Elizabeth.

Chuck fechou a cara e virou a cabeça na direção da escrivaninha.

– Abra a gaveta de cima... não, a da direita...

– Chuck, aqui ficam suas roupas de baixo! – exclamou Elizabeth, fechando a gaveta com força, enojada.

– Quer o dinheiro emprestado ou não? É aí que escondo.

– Bem, sem dúvida ninguém iria querer olhar aqui – murmurou ela. – Talvez se você tomasse banho com mais frequência...

– Meu Deus! – bradou Chuck, impaciente. – Mal posso esperar que vá embora. Você, Elizabeth Trent Cooper , é a própria filha do demônio. É uma praga. Uma peste. Uma...

– Ah, cale a boca! – Elizabeth abriu a gaveta outra vez, aborrecida com as palavras duras dele.

Ela não gostava mais de Chuck do que ele gostava dela, mas quem não se incomodaria de ser comparada a gafanhotos, insetos e sapos, à peste negra e a rios se transformando em sangue?

– Onde está o dinheiro?

– Na minha meia... não, na preta... não, não essa preta... sim, ali, perto do... sim, essa.

Elizabeth encontrou a meia em questão e sacudiu dela algumas notas e moedas.

– Santo Deus, Chuck, você deve ter uma centena de libras aqui. Onde conseguiu todo esse dinheiro?

– Venho economizando há algum tempo. E surrupio uma ou duas moedas todo mês da escrivaninha do meu pai. Como não pego muito, ele nunca percebe.

Elizabeth achava difícil acreditar naquilo. Hall Blossom era tão obcecado por dinheiro que era estranho a pele dele não ter ficado da cor das cédulas de libra.

– Pode pegar metade do que tem aí – disse Chuck.

– Só metade? Não seja idiota, Chuck. Preciso me esconder por seis semanas. Posso vir a ter despesas inesperadas.

– Eu posso vir a ter despesas inesperadas.

– Você tem um teto sobre a sua cabeça! – irritou-se Elizabeth.

– Posso não ter mais se meu pai descobrir que a deixei fugir.

Elizabeth era obrigada a concordar com isso. Hall Blossom não ficaria satisfeito com seu único filho. Ela devolveu metade do dinheiro.

– Muito bem – disse, enfiando sua parte no bolso. – Conseguiu estancar o sangramento?

– Você não será acusada de assassinato, se é isso que a preocupa.

– Talvez seja difícil para você acreditar, Chuck, mas não quero que morra. Não quero me casar com você, e com certeza não ficarei triste se nunca voltar a olhar para o seu rosto, mas não quero que morra.

Chuck a encarou com uma expressão estranha e, por um momento, Elizabeth pensou que ele iria dizer algo gentil em retribuição (pelo menos algo tão gentil quanto ela dissera). Mas Chuck apenas bufou.

– Tem razão. Acho mesmo difícil acreditar.

Naquele momento, Elizabeth decidiu deixar de lado qualquer vestígio de sentimentalismo e saiu pisando firme em direção à porta. Já com a mão na maçaneta, anunciou:

– Eu o verei em seis semanas... quando vier tomar posse da minha herança.

– E devolverá o meu dinheiro – lembrou ele.

– E devolverei o seu dinheiro. Com juros – acrescentou ela antes que Chuck o fizesse.

– Ótimo.

– Por outro lado – disse Elizabeth, mais para si mesma –, deve haver um modo de conduzir os negócios sem que seja necessário encontrar os Blossom outra vez. Eu poderia fazer tudo por meio de um advogado, e...

– Melhor ainda – interrompeu Chuck.

Elizabeth bufou alto, muito irritada, e saiu do quarto Chuck nunca mudaria. Era um rapaz rude, egoísta e, mesmo sendo um pouco mais gentil que o pai... ora, ainda era grosseiro e desajeitado.

Ela desceu às pressas o corredor escuro e subiu um lance de escadas até seu quarto. Era engraçado como seus tutores sempre lhe davam quartos no sótão. Hall fora pior que a maioria e a relegara a um canto poeirento, com o teto baixo e calhas fundas. Mas, se a intenção dele fora desanimá-la, tinha falhado. Elizabeth  amava seu quartinho aconchegante.

Era mais perto do céu.

Ela podia ouvir a chuva cair no telhado e ver os galhos das árvores se encher de flores na primavera. Os pássaros faziam ninhos do lado de fora da janela e era comum avistar esquilos correndo pelo parapeito.

Ela começou a jogar os pertences favoritos dentro de uma bolsa, mas parou para espiar pela janela. Fora um dia sem nuvens e, naquele momento, o céu estava muito claro. O fato de aquela ser uma noite estrelada parecia, de algum modo, combinar com o momento. Elizabeth guardava poucas recordações da mãe, mas lembrava-se de se sentar no colo dela do lado de fora de casa, nas noites de verão, para olhar as estrelas.

– Olhe aquela – sussurrava Alice Trent Cooper. – Acho que é a mais brilhante do céu. E olhe para lá. Consegue ver a Ursa? – Aqueles momentos sempre terminavam com Alice dizendo:

– Cada estrela é especial. Sabia disso? Sei que às vezes todas parecem iguais, mas cada uma é especial e diferente, assim como você. Você é a garotinha mais especial do mundo. Não se esqueça disso.

Elizabeth era jovem demais na época para perceber que Alice estava morrendo, mas agora se sentia grata pelo último presente da mãe. Não importava quão triste ou desolada estivesse – e os últimos dez anos haviam lhe dado muitas razões para se sentir assim –, ela só precisava olhar para o céu para ficar em paz. Se uma estrela brilhasse, ela se sentia segura e aconchegada. Talvez não tanto quanto se sentira aquela menininha no colo da mãe, muitos anos antes, mas pelo menos as estrelas lhe davam esperança. Elas resistiam, então Elizabeth também poderia resistir.

Ela examinou o quarto uma última vez para se certificar de que não deixara nada para trás, jogou algumas velas de sebo na bolsa, para o caso de precisar, e saiu. A casa estava quieta; todos os criados haviam ganhado a noite de folga – possivelmente para não haver testemunhas quando Chuck a atacasse. Era típico de Hall pensar à frente. Elizabeth só ficava surpresa por ele não ter tentado essa tática antes. Ele provavelmente achara, a princípio, que conseguiria fazer com que ela se casasse com o filho sem recorrer à desonra. Porém, agora que o aniversário de 21 anos de Elizabeth se aproximava, Hall começava a ficar desesperado.

E Elizabeth também. Se tivesse que se casar com Chuck, morreria. E não se importava nem um pouco em soar melodramática. A única coisa pior que a ideia de vê-lo todos os dias pelo resto da vida era ter que ouvi-lo todos os dias pelo resto da vida.

Elizabeth seguia pelo saguão em direção à porta da frente quando percebeu o novo candelabro de Hall pousado majestosamente sobre uma mesa lateral. Ele vinha se gabando da peça a semana toda. Prata de lei, dissera. O mais elegante trabalho artesanal. Elizabeth gemeu. Antes de se tornar tutor dela, Hall não podia arcar com candelabros de prata de lei.

Era irônico, na verdade. Elizabeth teria ficado feliz em compartilhar sua fortuna – até mesmo em doá-la – se houvesse encontrado um lar com uma família que a amasse, que se importasse com ela. Alguém que visse nela algo além de um burro de carga com uma conta bancária.

Em um impulso, Elizabeth tirou as velas de cera de abelha do candelabro e as substituiu pelas velas de sebo que levava na bolsa. Se precisasse acender uma vela em suas andanças, queria poder sentir o aroma doce da cera de abelha que Hall reservara para si.

Ela correu para fora de casa, grata pelo clima quente.

– Foi bom Chuck não ter decidido me atacar no inverno – murmurou, descendo pelo caminho que levava à entrada da propriedade.

Elizabeth teria preferido cavalgar – qualquer coisa que a fizesse ir embora de Hampshire o mais rápido possível –, mas Hall mantinha apenas dois cavalos, que naquele momento estavam atrelados à carruagem que o levara ao carteado semanal na casa do escudeiro.

Elizabeth tentou enxergar o lado bom da situação e lembrou a si mesma que poderia se esconder com mais facilidade se estivesse a pé, apesar de ser a forma mais lenta. E se esbarrasse com salteadores...

O pensamento a fez estremecer. Uma mulher sozinha chamava muita atenção. E seus cabelos Dourados-claros pareciam refletir toda a luz do luar, mesmo que a maior parte deles estivesse enfiada debaixo de um chapéu. Havia pensado em se vestir como um rapaz, mas não tivera tempo. Talvez devesse seguir pela costa até o porto mais próximo, sempre cheio. Não era tão distante. Ela conseguiria viajar mais rápido pelo mar e ficaria longe o bastante para que Hall não pudesse encontrá-la no período de seis semanas.

Sim, teria que ser para a costa. Mas não seguiria pelas estradas principais.

Alguém poderia vê-la. Elizabeth rumou para o sul e passou a cortar caminho por um pasto. Eram apenas 25 quilômetros até Portsmouth. Se andasse rápido a noite inteira, alcançaria o porto pela manhã.

Então conseguiria comprar uma passagem em um navio que a levasse para outra parte da Inglaterra. Não queria deixar o país, afinal, precisaria reclamar sua herança em apenas seis semanas.

Mas o que deveria fazer naquele meio-tempo? Estivera afastada da sociedade por um período tão longo que nem mesmo sabia se estava qualificada para qualquer tipo de trabalho mais nobre.

Achou que talvez pudesse ser uma boa governanta, mas provavelmente levaria as seis semanas que tinha apenas para encontrar uma vaga. Então... ora, não era justo aceitar a posição de governanta e abandoná-la poucas semanas mais tarde.

Elizabeth sabia cozinhar, e seus tutores com certeza haviam se certificado de que aprendesse a limpar a casa. Talvez pudesse trabalhar em troca de um teto e comida em alguma estalagem pouco conhecida e muito fora do caminho.

Ela assentiu para si mesma. Fazer limpeza para estranhos não era uma atividade das mais atraentes, mas parecia ser a única esperança de Elizabeth para garantir sua sobrevivência nas próximas semanas. Mas não importava o que fizesse, precisava se afastar de Hampshire e dos condados vizinhos. Trabalharia em uma estalagem, mas teria que ser bem longe de Thornhill Blossom .

Então ela apertou o passo na direção de Portsmouth. A relva sob seus sapatos era macia e seca e as árvores a protegiam da vista da estrada principal. Não havia muito movimento naquela hora da noite, mas cautela nunca era demais. Elizabeth andava rapidamente e o único som que ouvia era o dos próprios passos conforme as botas encontravam o solo. Até que...

O que tinha sido aquilo?

Elizabeth se virou, mas não viu nada. O coração dela acelerou. Poderia jurar que ouvira alguma coisa.

– Foi só um ouriço – sussurrou para si mesma. – Ou talvez uma lebre.

Mas não viu nenhum animal, e não se tranquilizou.

– Apenas continue a andar – ordenou a si mesma. – Você precisa chegar a Portsmouth pela manhã.

Ela retomou a caminhada, tão acelerada agora que sua respiração começou a ficar cada vez mais ofegante. Então...

Ela se virou de novo, a mão indo instintivamente para o revólver.

Dessa vez com certeza ouvira alguma coisa.

– Sei que está aí – disse em um tom desafiador que não demonstrava o nervosismo que sentia.

– Mostre seu rosto ou permaneça escondido como um covarde.

Ela ouviu um farfalhar e um homem emergiu de entre as árvores. Estava todo vestido de preto, da camisa às botas – até o cabelo era preto. Era alto, de ombros largos, e definitivamente o homem de aparência mais perigosa que Elizabeth já vira.

E ele tinha um revólver apontado bem na direção do coração dela.


Notas Finais


Jughead?

Com amor sah


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