1. Spirit Fanfics >
  2. Como Agarrar uma Herdeira - Fillie >
  3. Capítulo ll

História Como Agarrar uma Herdeira - Fillie - Capítulo 2


Escrita por:


Notas do Autor


OLHA EU AQUI DE NOVO HUEHUEHUE

VIM TRAZER MAIS UM CAPÍTULO DESSA HISTÓRIA MARAVILHOSAA

ESPERO QUE GOIXTEM ❤

Boa Leitura amados! 💖 (desculpa ae os erros, obg ❤)

Capítulo 2 - Capítulo ll


pug.naz (adjetivo). Disposto ao combate; que   tem o hábito de brigar; brigão.

Posso ser pugnaz quando acuada.

  – Do dicionário pessoal de Millie Trent Brown

     Finn Wolfhard não sabia bem como imaginara que seria a aparência da mulher, mas com certeza não era aquela. Achara que seria suave, recatada e manipuladora. Em vez disso, a jovem à sua frente estava parada muito ereta, os ombros para trás, encarando-o nos olhos.

     E tinha a boca mais intrigante que ele já vira. Finn sentia-se incapaz de descrevê-la, a não ser pelo fato de que o lábio superior se arqueava do modo mais delicioso e...

      – Poderia apontar esse revólver para outro lugar?

     A pergunta interrompeu o devaneio de Finn, que ficou estarrecido pela falta de concentração.

      – A senhorita gostaria disso, não é mesmo?

      – Ora, sim, na verdade, gostaria. Tenho um probleminha com revólveres, se é que me entende. Não exatamente com a arma em si. Eles são bons para alguns propósitos, imagino.... para caçar e coisas do gênero. Mas a ideia de tê-los apontados para mim não me agrada muito, e...

      – Quieta!

     Ela se calou.

     Finn examinou-a por um longo instante. Algo estava errado em relação à mulher. Maddie Ziegler era espanhola... bem, metade espanhola, pelo menos, e aquela moça parecia inglesa da cabeça aos pés. Os cabelos não poderiam ser descritos como louros, mas com certeza eram de um tom acastanhado, e mesmo no escuro da noite ele conseguia notar que seus olhos eram castanhos.

     Sem falar da voz, que deixava transparecer um leve sotaque da elite britânica.

     Mas ele a vira se esgueirar para fora da casa de Joseph Sartorius. Na calada da noite. Quando todos os criados haviam sido dispensados. Só podia ser Maddie Ziegler. Não havia outra explicação.

     Finn – e o Departamento de Guerra, que não era bem seu empregador, mas lhe passava missões e uma ordem de pagamento ocasional – já estava atrás de Joseph Sartorius havia quase seis meses.

     As autoridades locais sabiam fazia algum tempo que Sartorius contrabandeava mercadorias da França e vice-versa, mas só recentemente tinham começado a suspeitar de que ele permitia que espiões de Napoleão usassem seu pequeno barco para transportar mensagens diplomáticas junto com as cargas habituais de conhaque e seda.

     Como o barco de Sartorius zarpava de uma pequena enseada no sul da costa, entre Portsmouth e Bournemouth, o Departamento de Guerra a princípio não prestara muita atenção às suas movimentações. A maior parte dos espiões atravessava por Kent, que era muito mais perto da França. A localização aparentemente inconveniente do barco de Sartorius acabara sendo um excelente estratagema, e o Departamento de Guerra temia que as forças de Napoleão o estivessem usando para as mensagens mais importantes. Um mês antes, haviam descoberto que o contato de Sartorius era uma tal Maddie Ziegler: meio espanhola, meio inglesa e cem por cento letal.

     Finn estivera de tocaia a noite toda, desde que soubera que todos os criados de Sartorius tinham ganhado a noite de folga – um gesto incomum para um homem tão notoriamente mesquinho quanto Joseph Sartorius. Era óbvio que havia algo em andamento, e as suspeitas de Finn foram confirmadas quando ele viu a jovem se esgueirar da casa, protegida pela escuridão da noite. Ela era um pouco mais nova do que ele imaginara, mas Finn não permitiria que a feição inocente da mulher o detivesse.

     Maddie Ziegler devia cultivar aquela aparência de desabrochar da juventude de propósito. Quem iria suspeitar que uma jovem dama tão adorável fosse culpada de alta traição?

     Os cabelos longos da jovem estavam puxados para trás em uma trança, o rosto tinha a cor rosada de uma pele bem lavada, e... E a mão delicada estava sendo lentamente enfiada no bolso.

     Os instintos apurados de Finn assumiram o controle. O braço esquerdo dele disparou a uma velocidade impressionante e afastou a mão dela do alvo enquanto ele se inclinava para a frente.

     Finn jogou o peso todo em cima dela e os dois caíram no chão. O corpo da jovem era macio sob o dele, a não ser, é claro, pela rigidez do metal do revólver no bolso da capa dela. Se Finn pudesse ter tido alguma dúvida da identidade da dama, agora não tinha mais. Ele pegou a arma dela, enfiou-a no cós da calça e se levantou, deixando-a deitada no chão.

      – Muito amador, minha cara.

     Ela pareceu ainda um pouco atordoada, então murmurou:

      – Bem, sim. É de esperar, já que não sou uma profissional nesse tipo de coisa, embora tenha alguma experiência com...

     As palavras ficaram abafadas em um murmúrio ininteligível, e Finn não teve certeza se a jovem falava consigo mesma ou com ele.

      – Estou atrás da senhorita há quase um ano – disse Finn com rispidez.

     A frase chamou a atenção dela.

      – Está?

      – Não que eu soubesse sua identidade até o mês passado. Mas agora que a capturei, não vou deixá-la escapar.

      – Não vai?

     Finn a encarou, confuso e irritado.

     Qual era o jogo daquela mulher?

     – Acha que sou idiota? – perguntou ele, ainda mais irritado.

     – Não – retrucou ela. – Acabei de escapar de um covil de idiotas e estou bastante familiarizada com a raça, e o senhor é completamente diferente. No entanto, estou torcendo para que não seja um excelente atirador.

     – Eu nunca erro.

     Ela suspirou.

      – Sim, era o que eu temia. O senhor parece ser esse tipo. Bem, se incomoda se eu me levantar?

     Finn alterou a posição do revólver que empunhava em menos de um milímetro, apenas o suficiente para lembrá-la de que estava mirando em seu coração.

      – Na verdade, acho que prefiro que fique no chão.

      – Tive a sensação de que iria preferir – murmurou ela. – Suponho que não vá me deixar seguir meu caminho.

     A resposta dele foi uma gargalhada.

      – Temo que não, minha cara. Seus dias de espiã estão terminados.

      – Meus dias de... meus o quê?

      – O governo britânico sabe tudo a seu respeito e sobre suas conspirações traiçoeiras, Srta. Maddie Ziegler. Acredito que vá acabar descobrindo que não vemos espiãs espanholas com bons olhos.

     O rosto dela era a imagem perfeita do espanto. Por Deus, a mulher era boa.

      – O governo sabe sobre mim? – perguntou ela. – Espere um momento, sobre quem?

      – Não banque a tonta, Srta. Ziegler. Sua inteligência é bastante conhecida tanto aqui quanto no continente.

      – De fato é um elogio muito gentil, mas temo que haja algum engano.

      – Não há engano nenhum. Eu a vi deixando Sartorius House.

      – Sim, é claro, mas...

      – No escuro – continuou ele –, quando todos os criados haviam sido dispensados. Não percebeu que estávamos observando a propriedade, não é?

      – Não, é claro que não – retrucou Millie, a expressão totalmente confusa. Alguém estivera observando a casa? Como ela não percebera? – Há quanto tempo?

      – Duas semanas.

     Isso explicava tudo. Ela passara as duas últimas semanas em Bath, cuidando da tia solteirona de Joseph, que estava doente. Só retornara naquela tarde.

      – Mas foi tempo o bastante para confirmar nossas suspeitas – continuou ele.

      – Suas suspeitas? – repetiu ela.

     De que diabo ele estava falando? Se fosse louco, ela estaria bastante encrencada, porque o revólver ainda estava apontado para o peito dela.

      – Temos informações suficientes para acusar Sartorius. Seu testemunho vai assegurar que ele seja enforcado. E a senhorita, minha cara, vai aprender a amar a Austrália.

     Millie arquejou, os olhos se iluminando de prazer. Joseph estava envolvido em algo ilegal?

     Ah, que maravilha! Perfeito! Ela deveria ter imaginado que ele não passava de um canalha desprezível. A mente de Caroline estava em disparada. Apesar do que o homem de preto dissera, ela duvidava que Oliver tivesse feito algo terrível o bastante para ser enforcado. Mas talvez fosse mandando para a cadeia. Ou forçado à servidão.

Ou...

      – Srta. Ziegler? – chamou o homem, ríspido.

     O tom de Millie era animado e ofegante quando ela perguntou:

      – O que Joseph anda fazendo?

      – Pelo amor de Deus, mulher, já cansei dessa sua encenação. Venha comigo. – Ele se adiantou com um grunhido ameaçador e agarrou-a pelos pulsos. – Agora!

      – Mas...

      – Nem mais uma palavra a menos que seja uma confissão.

      – Mas...

      – Basta! – Ele enfiou um pedaço de pano na boca de Millie. – Terá bastante tempo para falar mais tarde, Srta. Ziegler.

     Millie tossiu e grunhiu furiosamente enquanto o homem amarrava seus pulsos com um pedaço de corda áspera. Então, para espanto dela, ele levou dois dedos à boca e soltou um assobio alto. Um glorioso cavalo negro irrompeu das árvores, os passos longos e graciosos.

     Enquanto ela ainda se encantava com o animal – que devia ser o mais silencioso e bem treinado da história da criação –, o homem a colocou sobre a sela.

      – Iiii, xirrr... – grasnou Millie, absolutamente incapaz de falar com o pedaço de pano enfiado na boca.

      – O que foi? – O homem ergueu o olhar para Millie e percebeu o modo como as saias estavam enroladas nas pernas dela. – Ah, suas saias. Posso cortá-las, ou a senhorita pode dispensar o decoro.

     Ela o encarou com severidade.

      – O decoro se vai, então – disse ele, e levantou as saias de Millie para que ela pudesse montar no cavalo com mais conforto. – Lamento por não ter pensado em trazer uma sela lateral, Srta. Ziegler, mas acredite em mim, tem muito mais com que se preocupar agora do que com o fato de eu ver suas pernas nuas.

     Ela o chutou no peito.

     A mão dele se fechou dolorosamente ao redor do tornozelo dela.

      – Nunca – disse ele, irritado – chute um homem que está apontando um revólver na sua direção.

     Millie empinou o nariz e olhou para o lado oposto. Aquela farsa já fora longe demais.

     Assim que se livrasse daquela maldita mordaça, contaria àquele bruto que nunca sequer ouvira falar da tal Srta. Maddie Ziegler. E faria com que a força da lei se abatesse sobre ele com tanta força que o homem imploraria pelo nó do carrasco na forca.

     Mas, enquanto isso, teria que se contentar em atormentar a vida dele.

    

     Assim que o homem montou no cavalo e se acomodou atrás dela na sela, Caroline enfiou os cotovelos nas costelas dele. Com força.

       – O que foi agora?

     Ela deu de ombros, com ar inocente.

      – Mais um movimento como esse e vou enfiar um segundo trapo em sua boca

            ...

     Meia hora mais tarde, um Finn Wolfhard muito desconfiado apeou em frente a Seacrest Manor, perto de Bournemouth, em Dorset. Maddie Ziegler, que fizera tudo menos atirar nos dedos dos pés dele quando fora encurralada na planície, não mostrara a mínima resistência durante todo o trajeto até a costa. Ela não se debatera nem tentara escapar.

     Na verdade, ficara tão quieta que o lado cavalheiro de Finn – que erguia a cabeça educada com frequência demais para o gosto dele – sentiu-se tentado a remover a mordaça.

     Mas ele resistiu ao impulso de ser gentil. O marquês de New York, seu amigo mais próximo e parceiro frequente no combate ao crime, já lidara com a Srta. Ziegler antes e avisara a Finn que ela era ardilosa e letal. A mordaça e as cordas que amarravam seus pulsos não seriam removidas até que a mulher estivesse devidamente trancafiada.

     Finn tirou-a do cavalo e segurou-a com firmeza pelo cotovelo enquanto a levava para a casa dele. Havia apenas três criados ali – todos muito discretos –, e estavam acostumados a visitantes estranhos no meio da noite.

      – Suba as escadas – grunhiu ele, empurrando-a pelo saguão.  Ela assentiu alegremente – alegremente?!? – e acelerou o passo.

     Finn conduziu-a até o andar de cima e empurrou-a para dentro de um quarto pequeno, mas confortavelmente mobiliado.

      – Só para garantir que a senhorita não pense em escapar – avisou ele com rudeza, levantando duas chaves –, a porta tem duas trancas.

     Millie limitou-se a olhar para a maçaneta, sem esboçar qualquer reação.

      – E são mais de 15 metros de altura até o chão. Logo, eu não recomendaria que tentasse a janela – acrescentou Finn.

     Ela deu de ombros, como se nem por um momento tivesse considerado a janela como uma opção viável de fuga.

     Finn a encarou com irritação por causa da despreocupação que a jovem demonstrava e prendeu os pulsos dela à coluna da cama.

      – Não quero que tente nada enquanto eu estiver ocupado.

     Ela sorriu para ele – o que era um feito e tanto com a mordaça suja na boca.

      – Maldição – murmurou Finn.

     Ele estava absolutamente confuso com ela, e não gostava nem um pouco da sensação. Finn se assegurou de que as amarras estavam seguras e começou a inspecionar o quarto para se certificar de que não havia deixado à mostra qualquer objeto que a mulher pudesse usar como arma.

     Ouvira dizer que Maddie Ziegler era habilidosa, e não planejava ser lembrado como o tolo que a subestimara.

     Finn colocou no bolso uma pena e um peso de papel antes de empurrar uma cadeira para o corredor. Não achava que ela fosse forte o bastante para quebrar a peça de mobília, mas caso Maddie conseguisse de algum modo arrancar uma das pernas da cadeira, as farpas da madeira já seriam uma arma perigosa.

     Ela o encarou com interesse quando ele voltou.

      – Se quiser se sentar – disse Finn secamente –, pode usar a cama.

     Ela inclinou a cabeça de um modo irritantemente simpático e se sentou. Não que tivesse muita escolha, afinal suas mãos estavam amarradas à coluna da cama.

     – Não tente me conquistar sendo cooperativa – avisou ele. – Sei tudo a seu respeito.

     Ela deu de ombros.

     Finn bufou, irritado, e virou as costas para ela enquanto terminava de examinar o quarto.

    Por fim, quando ficou satisfeito achando que o cômodo daria uma prisão aceitável, encarou Maddie com as mãos nos quadris.

      – Se tiver qualquer outra arma, é melhor entregá-la agora, já que terei que revistá-la.

     A jovem recuou, com uma expressão de horror virginal, e Finn ficou satisfeito por finalmente ter conseguido abalá-la. Ou então ela era uma atriz bastante prodigiosa.

      – Está carregando alguma arma? Eu lhe garanto que serei bem menos delicado se descobrir que tentou esconder algo.

     Ela fez que não com a cabeça freneticamente e estirou as cordas, como se tentasse se afastar dele o máximo possível.

      – Também não vou gostar de fazer isso – resmungou Finn.

     Ele tentou não se sentir um ogro enquanto ela fechava os olhos com força, a expressão carregada de medo e resignação. Finn sabia que as mulheres podiam ser tão más e perigosas quanto os homens – sete anos de trabalho para o Departamento de Guerra o haviam convencido desse fato básico –, mas ele nunca se acostumava àquela parte do trabalho. Fora criado para tratar as mulheres como damas, e revistar uma mulher contra a vontade dela era contrário a tudo em que acreditava.

     Finn soltou um dos pulsos dela para que pudesse remover a capa e começou a revistar os bolsos. Não encontrou nada interessante, a não ser por 50 libras em notas e moedas, o que parecia uma soma insignificante para uma espiã tão conhecida. Então voltou sua atenção para a pequena bolsa de viagem que ela levava e esparramou o conteúdo sobre a cama.

     Duas velas de cera de abelha – só Deus sabia para que ela queria aquilo –, uma escova de cabelos de cabo de prata, uma pequena Bíblia, um caderno de capa de couro e algumas roupas de baixo que ele não conseguiu se forçar a macular com seu toque. Finn achava que todos mereciam certa privacidade, até mesmo espiãs traiçoeiras.

     Ele pegou a Bíblia e folheou-a rapidamente, para se certificar de que não havia nada escondido entre as páginas. Satisfeito pelo fato de o livro não conter nada inconveniente, jogou-o de volta sobre a cama, notando com interesse que ela se encolheu ao vê-lo fazer isso.

     Em seguida Finn segurou o caderno e o examinou. Apenas as primeiras páginas continham algumas anotações.

      – “Contubernal” – leu ele em voz alta. – “Plácido. Diacrítico. Caprichar. Diérese.” – Finn ergueu as sobrancelhas enquanto lia. Três páginas cheias de palavras dignas de menção em Oxford ou Cambridge. – O que é isso?

     Ela moveu o ombro na direção da boca, indicando a mordaça.

      – Está bem – falou Finn com um breve aceno, e pousou o caderno ao lado da Bíblia. – Mas antes de eu retirar a mordaça, terei que... – Ele se interrompeu e bufou, aborrecido. Os dois sabiam muito bem o que Finn teria que fazer. – Se não resistir, poderei ser mais rápido – avisou ele, carrancudo.

     Todo o corpo dela estava tenso, mas Finn tentou ignorar a aflição da jovem enquanto a apalpava rapidamente.

      – Pronto, terminamos – disse ele, a voz brusca. – Devo dizer que estou surpreso por não estar carregando nada além daquele revólver.

     Ela o encarou carrancuda em resposta.

      – Vou retirar a mordaça agora, mas, se gritar, ela voltará para o lugar na hora.

     A jovem assentiu brevemente e tossiu quando ele retirou a mordaça.

     Finn se apoiou contra a parede em uma postura insolente e perguntou:

      – E então?

      – De qualquer forma, ninguém me ouviria se eu gritasse.

      – Isso é verdade – concordou ele. Seus olhos se desviaram para o caderno com capa de couro e ele o pegou. – Agora, imagino que vá me contar de que se trata isto.

     Ela deu de ombros.

      – Meu pai sempre me encorajou a expandir meu vocabulário.

     Finn a encarou, incrédulo, e voltou a folhear as páginas. Era algum tipo de código. Tinha que ser. Mas ele estava cansado e sabia que se ela confessasse alguma coisa naquela noite não seria nada tão comprometedor quanto a chave para um código secreto. Por isso, jogou o caderno sobre a cama e disse:

      – Conversaremos mais a respeito amanhã.

     Ela deu de ombros mais uma vez, daquele seu modo irritante.

     Finn cerrou os dentes.

      – Tem algo a dizer em sua defesa?

     Millie esfregou os olhos e lembrou a si mesma que precisava permanecer nas boas graças daquele homem. Ele parecia perigoso e, apesar do óbvio desconforto que deixou transparecer ao revistá-la, ela não tinha dúvidas de que a machucaria se considerasse necessário para sua missão.

     Fosse ela qual fosse.

     Millie sabia que estava jogando um jogo perigoso. Queria permanecer ali naquela casa confortável pelo maior tempo possível – certamente era um abrigo mais quente e seguro do que qualquer lugar que pudesse pagar. No entanto, para isso, teria que deixar que aquele homem continuasse a acreditar que ela era aquela tal Maddie. Não tinha ideia de como conseguir isso, não sabia falar espanhol e com certeza não sabia como uma criminosa deveria agir ao ser presa e amarrada à coluna de uma cama.

     Ela imaginou que Maddie tentaria negar tudo.

      – Pegou a pessoa errada – disse, sabendo que ele não acreditaria e, ao mesmo tempo, sentindo um prazer travesso por saber que estava dizendo a verdade.

      – Rá – grunhiu ele. – Com certeza consegue pensar em algo um pouco mais original para dizer.

Ela deu de ombros.

      – Acredite no que quiser.

      – Parece que a senhorita tem muita autoconfiança para alguém que está claramente em desvantagem.

Ele tinha certa razão, admitiu Millie. Mas se Maddie fosse mesmo uma espiã, seria uma mestra nas bravatas.

      – Não aprecio ser amarrada, amordaçada, arrastada pelo campo e atada à coluna de uma cama. Muito menos – provocou – ser forçada a me submeter ao seu toque insultuoso.

     Ele fechou os olhos por um momento.

     Se Millie estivesse menos atenta, poderia até ter pensado que o homem sentia algum desconforto. Então ele reabriu os olhos e a encarou com uma expressão dura e distante.

      – Acho difícil acreditar que tenha chegado tão longe em sua profissão sem nunca ter sido revistada, Srta. Maddie.

     Millie não sabia o que responder, portanto apenas o encarou com severidade.

      – Ainda estou esperando que fale.

      – Não tenho nada a dizer.

     Pelo menos isso era verdade.

      – Talvez reveja sua opinião depois de alguns dias sem água e comida.

      – Planeja me deixar na penúria, então?

      – Sim, isso já dobrou homens mais fortes antes.

     Millie não considerara essa hipótese. Sabia que ele gritaria com ela, pensou até que poderia bater nela, mas nunca lhe ocorrera a possibilidade de ele a deixar sem água nem comida.

– Vejo que essa alternativa não lhe entusiasma – disse ele, lentamente.

– Me deixe em paz – retrucou ela, irritada.

Precisava bolar um plano. Precisava descobrir quem diabo era aquele homem. E, acima de tudo, precisava de tempo.

Millie o encarou e disse:

– Estou cansada.

– Não duvido disso, mas não me sinto muito inclinado a deixá-la dormir.

– Não precisa se preocupar com o meu conforto. É pouco provável que eu me sinta descansada depois de passar a noite amarrada à coluna da cama.

– Ah, isso – disse ele e, com um passo rápido e um movimento ágil, libertou-a.

– Por que fez isso? – perguntou ela, desconfiada.

– Porque eu quis. Além do mais, a senhorita não possui armas, dificilmente conseguiria me dominar fisicamente e não tem como escapar. Boa noite, Srta. Ziegler.

Ela ficou boquiaberta.

– Está indo embora?

– Eu lhe desejo uma boa noite.

O homem se virou e saiu do quarto, deixando-a com os olhos grudados à porta.

Millie ouviu as chaves girando nas duas fechaduras antes de recuperar a compostura.

– Meu Deus, Millie – sussurrou para si mesma –, onde é que você foi se meter?

Seu estômago roncou, e ela desejou ter comido alguma coisa antes de ter fugido naquela noite. O sequestrador dela parecia ser um homem de palavra e, se ele dissera que não lhe daria água nem comida, ela acreditava nele.

Millie correu para a janela e olhou para fora. Ele não mentira. Eram pelo menos 25 metros até o chão. Mas havia um peitoril e, se ela conseguisse encontrar algum tipo de receptáculo, poderia recolher água da chuva e orvalho. Já passara fome antes, sabia que conseguiria suportar.

Mas sede era bem diferente.

Ela encontrou um pote pequeno, cilíndrico, usado para guardar as penas na escrivaninha. O céu ainda estava claro, mas já sabendo como era instável o tempo na Inglaterra, Caroline imaginou que havia uma chance razoável de chover antes do amanhecer, por isso colocou o pote sobre o peitoril só para garantir.

Em seguida foi até a cama e recolocou os pertences na bolsa. Graças aos céus seu sequestrador não percebera o que estava escrito dentro da Bíblia. A mãe deixara o livro para ela antes de morrer e o homem certamente iria querer saber por que o nome Cassandra Trent estava na primeira página. E a reação dele ao pequeno dicionário pessoal dela... santo Deus, ela teria problemas para explicar aquilo.

Então Millie teve a mais estranha das sensações.

Ela tirou os sapatos e se levantou da cama, caminhando em silêncio, os pés enfiados nas meias, até chegar à parede que dava para o corredor. Em seguida se aproximou mais até alcançar a porta, dobrou o corpo e espiou pelo buraco da fechadura.

Arrá! Como imaginara. Um olho arregalado preto a espiava de volta.

– E boa noite para você! – disse Millie em voz alta.

Então pegou o chapéu e pendurou-o na maçaneta a fim de tapar o buraco da fechadura. Não queria dormir usando o único vestido, mas com certeza não iria despi-lo se houvesse a possibilidade de ele estar olhando.

Millie o ouviu praguejar uma vez, então duas. E logo os passos do homem ecoaram conforme ele se afastava pelo corredor. Millie ficou apenas de anágua e se enfiou na cama.

Ficou olhando para o teto e começou a pensar.

Depois começou a tossir.


Notas Finais


Beijux 😘❤


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...