História Como As Águas do Rio - Capítulo 1


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Histórias Originais
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Palavras 2.063
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção Adolescente, Romance e Novela, Slash
Avisos: Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 1 - Prólogo - Daquela Vez Que Eu Disse Oi


O sinal tocou, indicando o intervalo, e ela veio na minha direção. Eu fiquei em alerta e o meu corpo enrijeceu. Minha ansiedade sempre disparava quando qualquer pessoa vinha falar comigo, mas com ela as coisas triplicavam. Minha cabeça ficava uma bagunça, pensando obsessivamente em como me comportar, no que dizer, o que não dizer, como sentar, como ser... Ironicamente, eu queria que ela falasse comigo, mas eu também gostava de ser invisível. Ela parou na minha frente, enquanto eu olhava confuso. 

— E aí, Max? — ela perguntou. Ela estava sorridente. E bonita, como sempre.

— Tudo bom, Flavinha? — falei. Ela passou a mão nos cabelos e um cheiro de rosas se espalhou no ar ao redor. Os cabelos dela tinham crescido bastante desde o começo do ano, e eles agora tinham mexas platinadas que contrastavam com os fios castanhos. 

— Continua tudo marcado para hoje? 

— Continua, sim. — eu disse. Eu não era do tipo que colava ou passava cola. Nunca. Para a Flávia, eu tinha resolvido abrir uma exceção. — É só você fazer como eu te falei. Eu vou sentar perto de você, aí, quando eu terminar a prova eu vou deixar as respostas anotadas para você. 

— Vai estar tudo na ordem, né?

— Isso mesmo. Não esquece de apagar depois que você pegar, beleza? 

— Pode deixar. Ai, muito obrigada, amigo! — ela disse, me dando um abraço. Era um daqueles abraços em que a parte de baixo do corpo ficava parada, enquanto a pessoa se estica para frente, de longe. Eu senti mais uma vez o cheiro dela. Um sentimento caloroso me encheu. Eu estava feliz em poder ajudar a garota de quem eu gostava. 

A Flávia foi encontrar as amigas dela, comer, essas coisas... Eu continuei sentado na sala, quieto. Não era muito fã das multidões da cantina. Eu tinha sorte quando não era obrigado a sair da sala. Me sentir fora de contexto já era a minha realidade, e depois da experiência que eu tinha tido na minha escola antiga, eu tentava ao máximo passar despercebido. Minhas manhãs no intervalo consistiam, geralmente, de ouvir música e ficar no celular. Ninguém ligava, na real. A sala ficava vazia, e eu gostava de ficar andando de um lado ao outro, às vezes cantando. A sensação de estar naquela sala enorme completamente sozinho me trazia paz. Já fazia um tempo que eu tinha desistido da ideia de apresentar o meu eu verdadeiro aos outros. Eu tinha aprendido que as pessoas iam criar imagens de você, quer você quisesse ou não, então era mais produtivo evitar o desgaste de combater isso. Eu geralmente era visto como uma fonte de informação ambulante. Hoje era um dos dias em que eu era mais popular: era dia de prova. De repente, todo mundo queria conversar comigo, todo mundo era legal. Parte de mim sabia que esse também era o interesse da Flávia, mas a única parte que eu queria ouvir me dizia que talvez, só talvez, isso fosse uma maneira de nos aproximar. Eu gostava da Flávia por diversos motivos. Ela era inteligente, e isso me atraía. Ela era linda, e isso também me chamava à atenção. A Flávia também tinha uma desenvoltura que eu não tinha. Ela transitava entre todos os grupos da sala sem nem precisar fazer esforço. A gente já se conhecia havia mais de um ano, e eu considerava ela minha amiga. Ela sempre me tratava com gentileza e sempre sorria. Claro, ela também ria quando eu era o alvo de piadas, mas eu preferia ignorar, da mesma maneira que eu ignorava as piadas. Eu não tinha grandes problemas com os outros alunos, mas não era como se eles fossem todos meus amigos. Eu era calado e esquisito. Eu gostava de coisas que ninguém mais parecia gostar, e eu tinha uma conversa que não encontrava parceiros facilmente. Mesmo que isso já fosse isolante o suficiente, não era a causa de nada, mas um sintoma. A sensação de estar sozinho no mundo já andava comigo desde pequeno. Quer fosse pela maneira que a minha mente funcionava ou qualquer outra coisa, eu sempre parecia estar observando tudo por trás de um vidro, e nada parecia familiar. A minha própria companhia sempre foi a minha melhor companhia; a que menos me cansava. Ainda assim, eu tinha os meus amigos. De uma altura assustadora de um metro e cinquenta e cinco centímetros minha amiga Amanda me observava. 

— Vai ficar aí o dia inteiro? — ela perguntou, se aproximando. Ela sentou-se em frente a mim. 

— Vou. O meu lugar é aqui. — respondi. Ela fez um barulho de desaprovação. — O que é isso no teu olho? 

— Lente de contato. Gostou? — ela falou, abrindo bem os olhos. Normalmente, os olhos dela eram castanhos, assim como os meus, mas agora estavam acinzentados por conta das lentes. Eu tinha que admitir, ela ficava bem com elas.

A Amanda era baixinha, mas era bem assustadora. Ela adorava ser assustadora. Ela era branca como um fantasma, magrela, tinha longos cabelos de um preto intenso, e quase nunca sorria para os outros. Os únicos momentos em que eu a via sorrir era quando alguma coisa engraçada acontecia com alguém, ou quando nós dois fazíamos piadas. No geral, ela mantinha uma cara fechada. Parte do visual durona dela, sabe? A Amanda adorava usar preto, e estava quase sempre com a jaqueta de couro dela. Não havia muita surpresa para se desembrulhar com ela. Ela tinha uma aparência Rock Girl, e era. Eu não conseguia conversar com muita gente, e ela não queria conversar com gente nenhuma. Nós éramos perfeitos um para o outro. Além dela, eu tinha mais um amigo, chamado Felipe. Nós três formávamos uma escadinha. A Amanda embaixo, baixinha, eu no meio, com os meus modestos um metro e setenta e sete, e o Fe no topo, aos um metro e oitenta e cinco centímetros. Ele era magro, alto, e simples. Um cara pacífico. Não era de muitas palavras, mas conversava bem mais do que eu. O Fe também podia ser chamado de nerd, mas como ele era amigo de uns carinhas que faziam bagunça, ninguém falava dele dessa maneira. Quando ele cansava de mim e da Amanda ele passava a manhã com os outros garotos. 

— Ficou bonito. — falei. — A Flavinha vai pegar cola minha hoje. 

— Sério? Cara, tu é muito idiota. Ainda tá achando que ela vai te querer? 

— E por que não, Amanda? Eu sou tão horrível assim?

— Não foi isso que eu quis dizer. Você tá ótimo. Tenho certeza de que vai achar alguém. Só que você não é o tipo da Flávia. 

— Eu poderia ser. Tipos mudam. 

— Não mudam, não, menino! Tipo é o que a gente gosta. Não tem como mudar. A Flávia gosta dos caras saradões, com cara de modelo. E você se veste desse jeito. — ela disse, puxando as minhas roupas. Eu vestia roupas muito largas, mas confortáveis. Honestamente, eu pegava a primeira coisa que eu encontrava. Suponho que, junto com os meus óculos, não era o visual mais agradável.

— Ei! Eu tenho músculos também! — falei, empurrando a mão dela.

— Então eles estão muito bem escondidos, meu querido. E ainda assim, tu veste essas roupas feias. 

— Ah, deixa as minhas roupas, garota! Eu estou vindo à escola, não a um desfile de moda.

— Não significa que você não possa cuidar mais da aparência. Especialmente se quiser conquistar alguém como a Flávia. Apesar de que, eu acho, ela tem namorado. No mínimo um peguete.

— Com certeza deve ter. Ela é bonita demais para estar solteira.

— E isso não te incomoda? 

— Não. 

— Vai ser corno? 

— Não é desse jeito. 

— Você faz o que quiser. Os erros são seus. Mas se eu posso te dar um conselho... Não deixa ela se aproveitar de você, não. A Flávia só te procura quando quer alguma coisa. 

— Pode deixar comigo. Eu tô sentindo que as coisas vão mudar. 

— Se você tá dizendo... — ela falou. A Amanda usava uma linha bem intensa de delineador, e as sobrancelhas dela eram bem grossas, o que só estava dando mais ênfase ainda aos novos olhos dela. Os lábios dela também eram bastante vermelhos, então ela nunca usava batom. — Bom, eu vou comer. Daqui a pouco é hora da prova. Depois a gente se vê. 

— Beleza. Te amo! — eu disse. A Amanda detestava coisas melosas, e eu adorava mexer com ela. Ela resmungou.

— Deixa de ser gay. 

— Silêncio, cachorro homofóbico! — eu disse, em referencia ao meme.  

***

As provas correram sem problemas. Eu terminei as minhas rápido até, mas tive que esperar até o final para ir embora. Parte do meu plano envolvia esperar que a maior parte dos alunos já tivesse ido embora. Quando a Flávia me deu o sinal eu me levantei, entreguei a prova e saí. O meu coração estava acelerado. Aquele não era o tipo de coisa que eu fazia. Eu não tinha certeza se a Flávia conseguiria pegar as respostas, se eu tinha feito tudo certo ou se o professor iria nos pegar no flagra. Eu não sabia, caso ele pegasse, se ela iria manter meu nome fora disso. Eu sentei do lado de fora da sala e esperei pacientemente. A escola inteira já estava começando a limpar bastante. Nós tínhamos ficado até os últimos minutos mesmo. Eu balançava a perna freneticamente. Ansioso. Ficava repassando repetidamente a imagem de tudo dando errado. Mesmo com o medo de ser pego, minha maior preocupação era não conseguir satisfazer a minha promessa para a Flávia. Eu queria muito que tudo desse certo. Dali a pouco ela e o professor saíam da sala. Eles conversavam normalmente. 

— Pois então é isso. — ele disse a ela. A Flávia sorriu e assentiu com a cabeça.

— Obrigada, professor! A gente se vê amanhã. 

— Até! Tchau, Max!

— Até mais, professor! — eu respondi. O professor seguiu e a Flávia virou para mim. — E aí, Flávia? Conseguiu? 

— Consegui! Ele quase que viu, mas eu consegui esconder a tempo. — ela falou, e me deu um sorriso que se estendia até os seus olhos cor de mel. 

Eu respirei, aliviado. — Ainda bem! Você lembrou de apagar? 

— Claro! Ele estava checando as cadeiras. Muito obrigada, Max! Você foi perfeito. 

Eu fiquei sem graça, mas dei um sorriso. — O que é isso? Sempre que precisar pode contar comigo. — A Flávia sorriu para mim, e nós começamos a andar em direção à saída. 

— Ai, que bom que acabou! Agora só falta mais um dia. Você sabe de mais alguma coisa? Matemática? — ela perguntou. 

Eu queria oferecer toda ajuda que eu pudesse. Quanto mais eu pudesse fazer por ela melhor. No entanto, o ato de passar ou pedir cola me assustava. Eu sempre tinha a impressão de que o professor estava olhando diretamente para mim. Eu pensei por um segundo... Mesmo indo bem em todas as matérias, eu preferi mentir, para evitar estresse. 

— Essa é a minha melhor matéria. No resto eu sou mais ou menos. — eu disse. Eu torci para que ela não se ofendesse ou ficasse desapontada. 

— Entendi... Tudo bem. Qualquer ajuda serve. Se souber de qualquer coisa, é só me avisar, beleza? 

— Tá certo. Você vai para casa agora? — perguntei. Nós tínhamos chegado à saída da escola e agora estávamos no estacionamento. 

— Vou. Você também?

— É, sim. Para que lado você tá indo?

—Eu vou para lá... — ela disse, apontando o caminho atrás de mim. 

— Ah, legal! Eu também vou para esse lado. Vou pegar o ônibus para lá. Vamos?

— Mas é que eu tenho que passar na casa da minha tinha antes, e ela mora pro outro lado. Pode ir. A gente se vê amanhã, tá bom?

— Que pena... Então a gente se vê amanhã. Que bom que eu te ajudei!

— Você é maravilhoso. — ela disse, com uma risada acolhedora. — Até amanhã! 

Eu segui o meu caminho, mas ficava olhando para trás, até que já não pudesse mais vê-la. Eu sabia que a Amanda tinha dito aquelas coisas, mas a Flávia era tão legal, e cada vez mais parecia que eu poderia me aproximar dela. Talvez as pessoas só tivessem a ideia errada dela, como a Amanda. Ela não me parecia essa garota superficial. As pessoas podiam nos surpreender às vezes. Eu já conversava com ela havia tanto tempo, e tinha sido ela que se aproximou de mim quando eu cheguei. Agora nós estávamos mais próximos. Eu não via razão por que não acreditar. Eu iria investir na Flávia e, quem sabe, de amigo eu passasse a outra coisa a mais. 



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