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História Como Carpas na Chuva - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Yo! Tudo bem? Jesus, eu simplesmente amei escrever essa fanfic, espero que vocês também curtam. Será uma two-short.
Meus agradecimentos à @Naliet, tanto pelo plot como pela capa maravilhosa! A betagem foi feita pela @xHasashi, que me deu conselhos valiosos em relação à escrita da fanfic!
Muito obrigada por cuidarem desse bebê, vocês arrasam <3
Sem mais delongas, boa leitura ^^

Capítulo 1 - Um


O impacto de um grafite com a borracha suja e danificada de Tsu poderia ter sido no mínimo frustrante. Grunhiu silenciosamente enquanto tirava — o que um dia havia sido o gás de sua lapiseira — da superfície gélida de sua borracha. Seus dígitos poderiam facilmente se carimbar com o material, mas saber o que restava do grafite era mais importante.

Ao seu lado, Yaoyorozu permanecia com uma postura ereta invejável. Para Asui, talvez fosse assustador como a caneta de Momo balançava no caderno harmoniosamente com a voz do professor de ictiologia. Não, não era assustador, era bizarro. Enquanto isso, as costas de Tsuyu estavam curvadas e inertes, brincando com uma borracha e gastando mais o pouco de grafite que tinha.

Aquilo poderia facilmente ser uma aula produtiva.

Apertou o botão de pressão da lapiseira, e para seu descontento, nada saia de lá.

— Merda. — Praguejou em um tom que nem mesmo ela poderia ouvir.

O suspiro da esverdeada denunciava nada mais do que decepção. Levou a mão no bolso esquerdo da saia, mexendo os dedos freneticamente em todos os lugares do tecido branco à procura de algumas moedas, a papelaria deveria estar aberta até as seis e mesmo que fosse liberada às cinco, o seu bolso decidiria tudo.

Suas sobrancelhas se juntaram quando não ouviu quaisquer tintilares das moedas. Engoliu em seco quando lembrou do dinheiro que deixou na mesa antes de sair do quarto. Se ela gostaria de gritar de raiva por sua memória? Por Deus, nem queira saber.

Jogou sua cabeça na carteira com cansaço, levantando ligeiramente e encarando o seu maior inimigo na universidade: o relógio. Os anjos pareciam estar em coro, cantando os mais belos arranjos quando viu que faltavam menos de dez minutos para dar o pé da falação de Aizawa e as etiquetas de Yaoyorozu.

Seus olhos verdes e pálpebras cansadas rapidamente mudaram quando mirou a porta da sala de aula, Asui olhou para os lados completamente alerta, e talvez com uma pontinha desespero. Na janelinha da porta, Uraraka estava com o rosto quase colado ao vidro com um sorriso de orelha a orelha e mãos grudadas a superfície.

Para qualquer um, aquela cena era digna de um filme de terror.

Tsu balançou a cabeça, fitando a outra com apreensão. Ochako riu, fazendo gestos com a mão para que viesse até lá.

Ela havia enlouquecido?

Negou com a cabeça, mas lá estava ela, fazendo caras e bocas e desviando sua atenção. Revirou os olhos quando se deu por vencida, guardando a lapiseira e borracha astutamente na bolsa que carregava.

Sinceramente, Asui se sentia uma espécie de espiã de filmes de ação, correndo disfarçadamente entre carteiras e um professor concentrado em fazer atrito entre giz e quadro. Ochako fez um coração com as mãos antes de sair da janela e dar licença para que Tsuyu abrisse a porta de madeira discretamente.

— Tsu! — Uraraka mais gritou do que sussurrou. 

— O que aconteceu? — Ela questionou. A outra deu de ombros, com um sorriso jocoso.

— Temos trabalho a ser feito, minha fiel escudeira! — Antes de Asui tivesse sequer chance de responder, teve uma das mãos puxadas por Uraraka. Não segurou suas queixas enquanto segurava a alça da bolsa com a mão disponível.

– Você poderia me ajudar, não é?

— Calma, garota, não há tempo para explicações! — A castanha respondeu, correndo pelos corredores do prédio, descendo as escadas e ignorando a presença do elevador. Àquela altura, Tsu já havia desistido de reclamar e se concentrou em decorar o caminho traçado por Ochako, que ainda segurava sua mão.

Asui não entendeu muito bem quando pararam na cozinha do refeitório, tampouco quando Uraraka havia aberto a geladeira. Ela não se preocupava com um flagra? O que ela faria se alguém chegasse lá?

— Chega mais, Tsu! – O transe dela foi embora. — Tá afim de iogurte de morango?

A esverdeada arqueou uma sobrancelha quando viu o semblante sorridente da outra. Riu anasalado enquanto Ochako começou a caçar colheres de plásticos na cozinha deserta.

— Você é impossível. — Admitiu Tsuyu com um meio sorriso, indo em direção a geladeira e apanhando uma das caixinhas cor-de-rosa.

 — Ah, vai dizer que não gostou?

— Me tirou de uma aula de ictiologia pra caçar iogurte. – Escutou uma risada da castanha, que lhe estendeu uma colher.

— Perdão, grandeza, mas eu não pude evitar.

— Muita impulsividade, Ochako, muita impulsividade...

Sentaram no grande frigobar, não abrindo a embalagem por completo, mas compensando com grandes colheradas. Asui não conseguiu evitar emitir como amava aquele sabor, e para a felicidade de Uraraka, ela não tinha mais argumentos.

— Não vai nem me agradecer? — Em meio aos sorrisos, a outra cutucou levemente o braço de Tsuyu com o cotovelo.

Asui balançou a cabeça.

— Não tem medo de alguém aparecer? Sabe, não seríamos tão penalizadas, mas isso é proibido para os universitários. — Ela deu mais uma colherada da mistura cor-de-rosa.

— Não estamos mais na escola. — Tsuyu passou as esmeraldas para ela. Seu cabelo estava preso em um coque desengonçado, e a regata preta coberta de pelo de gato não apagava a beleza. Era até louco, mas ela conseguia ficar bela de qualquer jeito.

Tsu balançou a cabeça, dissipando os pensamentos.

 — Isso não apaga o fato de que algum funcionário da cozinha não te dê um puxão de orelha.

— Ah, eu duvido muito que alguém venha até aqui tão cedo. — Ochako dava as últimas raspadas de iogurte. No mesmo momento, Asui a fitou desconfiada.

— Vem cá, você matou alguém? — A pergunta quase a fez engasgar.

Uraraka ampliou os olhos ante a pergunta da melhor amiga, negando copiosamente. Logo, o constrangimento se transformou em uma crise de risos impertinente, levando os questionamentos de Tsu ao cubo.

—Então, a enfermaria é logo ali e... — Asui apontou para a direção oposta da cozinha.

— Não seja boba! — Bradou Ochako entre risadas espalhafatosas. Até poderia achar graça da situação da amiga, foi quase impossível não conter o indício de um sorriso em seus lábios.

— Então vamos embora, a essa altura todos já devem estar indo pra casa, e nós estamos aqui furtando iogurte.

— Iogurte de morango. — Ela corrigiu.

— Furtando iogurte de morango.  

Ochako sorriu.

O alinhamento e o brilho do sorriso de Uraraka aquecia seu coração, de algum modo, o fazia bater mais rápido.

Malditas sejam as borboletas no estômago!

Ochako sabia mais do que ninguém como eriçar e arrepiar Asui Tsuyu com apenas um olhar e um sorriso. Era desesperador como aquilo começava a crescer a cada dia que passava. Sentimentos indesejados, que não seriam correspondidos e acabariam com os laços de amizade.

Asui Tsuyu poderia afirmar que, com certeza, Friendzone não é para amadores.

 — Respondendo sua pergunta. — O segundo transe de Tsu fora desfeito. — Essa semana é o festival das estrelas, não lembra?

Uma lâmpada ascendeu-se para Asui.

— Ué, não era daqui três semanas? — Tsu estava com um semblante ainda mais confuso, mas não deixando de saborear o iogurte.

— Minha nossa, esse curso de biologia está te deixando com memória de peixe, Tsu.

Antes que percebesse, Uraraka deixou de lado a embalagem, apanhando uma polaroide rosada, uma Instax Mini que havia ganhado no natal passado. Sem cerimônias, ergueu o braço esquerdo até os ombros de Tsuyu, apontando a câmera em seguida.

— Sorria!

Click!

Asui franziu o cenho novamente, observando a melhor amiga se animar com a foto que se revelava em poucos segundos. Quando a foto saíra, Uraraka a abanou, erguendo um canto dos lábios, se aproximando de Tsu.

— Não estamos lindas? — Mostrou a fotografia.

— Eu poderia estar melhor se você me desse uns cinco segundos. – Àquela altura, Asui já tinha raspado a embalagem, e de cima do frigobar, procurava a lixeira mais próxima.

— Ah, nada a ver! Veja, você está maravilhosa. — Uraraka sibilou a última palavra, levantando a foto.

Ela não estava ruim, mas também não estava boa. Notas na média nunca foi algo que Tsu admirava, mesmo que brincasse com grafite.

— Me diz, como você sabia o horário que os funcionários iam embora? Porque tipo, amanhã é véspera do festival. — Questionou a esverdeada.

Ochako deu de ombros.

— Deku.

Asui Tsuyu murchou.

Ouvir o nome do garoto não era nem de longe uma coisa boa. Midoriya Izuku não passava de um jogador de lacrosse metido a famosinho no campus! Não é como se ele tivesse a melhor das reputações, ser um babaca jogador não era uma coisa tão boa assim.

Para sua infelicidade, em algumas aulas ao ar livre, era obrigada a ver todos os jogadores na quadra treinando. Chegava ser até assustador como eles tentavam ser “sexy” para as outras turmas, e nem comentaria de como era desagradável escutar Momo falando do tanquinho de Todoroki Shouto.

— Ele te falou isso? — A cara de Tsu lutava para esconder o desagrado.

— Sim. — Ela deu uma pausa. — Na verdade, um amigo dele disse para ele, que disse pra mim e eu estou dizendo pra você neste exato momento.

— Midoriya já veio roubar comida daqui também? — As palavras dela demostravam um profundo tédio.

Ochako avaliou a melhor amiga sob suas sobrancelhas curtas e modeladas.

— Você está bem?

Ela não abriu a boca pra responder, mais concordou com um simples ruído de sua garganta.

Uraraka guardou a polaroide na bolsa e a foto no bolso, descendo do frigobar e jogando a embalagem no lixo. Virou-se, apoiando as mãos no grande balcão, mas olhando para Asui.

— Ele está na frente do prédio, com algumas pessoas do time de lacrosse.

— Nossa, alojamento universitário é uma droga — Asui disse baixinho demais.

— O quê?

— Nada. — Disfarçou, retesando os ombros. — Então, você está realmente gostando dele?

O silêncio e as diversas feições de Uraraka chegavam a ser agoniantes!

Não, não. Tomara que não...

— Talvez. — A expressão apaixonada de Ochako fora péssima.

— Como assim? — perguntou num fio de voz.

— Estamos nos conhecendo! É, eu acho que é isso mesmo. E sei lá, talvez eu goste um pouco dele.

Ok, isso é ruim.

Por dentro, Tsuyu estava desanimada demais para estar frustrada. Porém, para si, se Ochako estivesse feliz tudo bem.

Ela podia tentar lidar com isso, não era?

Quando as duas deixavam a cozinha, era possível ouvir a algazarra dos alunos nos andares superiores.

— A loja da Mizuko está aberta até meia-noite. Quer ir escolher um kimono? — Ochako perguntou. Talvez Asui estivesse tão decepcionada consigo mesma por ter que aturar o jogador de lacrosse que demorou um pouco para responder à pergunta da melhor amiga.

— Ah, nem sei se vou pra esse negócio. Uma noite de filmes me parece bem mais tentador.

— Uma noite de filmes sempre é melhor do que qualquer coisa. — Uraraka deu uma risada, que mais parecia música para os ouvidos da esverdeada. — Mas é 7 de julho, poxa.

— É só por isso que eu deveria ir?

A castanha fechou os olhos, suspirando dramaticamente.

— Um festival...

— Não me convenceu.

— Com barraquinhas de comida...

 Um sorriso ladino surgiu no rosto de Ochako quando notou o silêncio de Asui.

— Pois é Tsu, pense nos dangos quentinhos, yakisoba bem temperado... — Ela se sentia o próprio diabo no ombro da melhor amiga. E de lá, uma ponte das comidas favoritas de Tsuyu foi listada sem quaisquer problemas.

— Jesus, cale a boca...

— Eu acho que vai ter uma só de geleias. — Certo, aquele fora o estopim para Tsu, que para o contento da outra, rendeu-se.

Ochako celebrou, abusando feio de suas cordas vocais que poderiam facilmente estar inflamadas no dia seguinte e beijou a bochecha da amiga. Foi rápido, mas o suficiente pra Tsu abrir um sorriso largo, se divertindo com o entusiasmo da melhor amiga.

— Pela comida! — Assegurou Asui.

— Você vai ser a garota mais perfeita desse festival, pode anotar! — A esverdeada deu uma risada debochada.

— Boa sorte, meu grafite acabou.

— Você não tem caneta? — Ela deu de ombros, escutando a amiga rir anasalado.

— Antes de comprar qualquer roupa, você precisa frequentar papelarias, sabe? — De repente, ela abriu a bolsa espaçosa, tirando de seu estojo, um conjunto de grafites 2B.

Espessura 0.7.

Uraraka lhe fitou carinhosamente, e novamente as borboletas bateram asas. Tsu agradeceu, guardando a pequena caixinha no bolso direito da saia branca. O calor durou pouco, acabou no mesmo momento em que ouviu as risadas desafinadas do time de lacrosse. O almoço de Asui subiu-lhe à garganta quando viu Midoriya envolver Uraraka com os braços. Não, nem de longe era algo que ela gostaria de presenciar. O sorriso singelo da outra não era bom sinal.

— Bebê, como você está? — Para Asui, “bebê” não deveria existir em um vocabulário amoroso. Não era intimidade demais pra um “estamos nos conhecendo”?

— Melhor agora, mozão. —  A resposta de Ochako foi lamentável.

 “Mozão”? Horrível!

Demorou até que notassem a presença da pequena, já que Midoriya Izuku não estava acompanhado de todos os membros do time de futebol. Bakugou e Todoroki conversam entre si, ignorando a “melosidade” — lê-se palhaçada — do “casal”.

O semblante de Asui Tsuyu estava franzido em desgosto, falhando copiosamente na tarefa de manter uma expressão neutra. E entre risadas, Midoriya resolveu abrir o bico.

— Como vai, é...?

— Asui. — Respondeu rapidamente.

 Quer namorar minha melhor amiga e não sabe nem o meu nome? Revoltante.

— Como vai, Asui? — I jogador questionou com entusiasmo.

— Não poderia estar melhor. — Mentiu, mas Deku a esqueceu rapidamente.

— Então meu benzinho, quer ir comigo no festival? — Convidou o jogador.

A cara de Tsu estava completamente torcida quando a garota havia aceitado, depois de muitos “apelidos carinhosos” e idiotas.

 Eca.

Após mais falatório, especificamente sobre como os treinos de Midoriya eram pesados e como ele era um coitadinho, elas saíram do campus. Uraraka se voluntariou de motorista em sua caminhonete com tons alaranjados. Engraçado imaginar o quão diferente era vê-la em posse de algo dessa cor, principalmente por ser tão explícito o quanto ela gostava de rosa. 

Asui se apossou no rádio, e comandando a música do veículo, colocou músicas pop antigas demais para a década atual. Mas quem caralhos resiste a uma nostalgia? Ela pensou o mesmo, agitando Ochako no trajeto, que foi incrível, para dizer o mínimo.

Sem tensão, sem iogurte de morango e sem jogadores idiotas. Para ela, estava excelente, até o farol lhes dar um feixe de luz vermelho e Uraraka parou o carro, pigarreando.

— Algum problema?

— Olha, eu sei que pode parecer estranho, mas depois de comprar o que precisamos, podemos comprar pão.

A reação de Tsuyu? Indecifrável. O silêncio? Estranho demais.

— Pão?

— Eu sei, bizarro, mas só se você quiser. – A outra suspirou.

— Céus Ochako, não sei o que diabos está inventando, mas eu tenho que ir de qualquer jeito, não? Quem está com o carro é você.

— Que insensível! — Fingiu tristeza e Asui revirou os olhos. Não bastou segundos para que voltasse a rir.

— É brincadeira. — Ela replicou, abrindo um sorriso. — Vamos logo, daqui a pouco eu desisto desse festival.

Em meio as gargalhadas e um sinal verde, o carro cantou pneu. O som estava alto, e a caminhonete de Uraraka não poderia estar mais animada! Esta animação que se estendeu até virarem à esquerda depois de dois quarteirões, chegando à loja de roupas.

Asui sentiu calafrios quando viu todos aqueles kimonos expostos. Não, moda não era a praia dela. Quando entraram, foi possível ouvir o jazz que tocava ao fundo; o lugar era iluminado, com tons neutros, e o que deixava tudo colorido eram as peças de roupa. Ochako achava aquilo lindo demais para ser verdade.

Logo, Mizuko chegou, Tsuyu poderia estar incerta sobre os seus gostos, mas aquela dupla — que mais parecia um esquadrão da moda — estava sempre lhe dando conselhos. Com uma ponte de roupas, ela foi ao provador. Guardou a saia, verificando cuidadosamente se o grafite ainda permanecera naquele mesmo local.

Um por um, os vestiu com o cenho franzido. Contudo, saia de lá para a avaliação minuciosa de Uraraka e Mizuko. As gurus da moda amavam cada visual, cor e detalhe. O impasse era a modelo, que não se agradava com nenhum.

Por acaso eu vandalizei alguma cruz para parar aqui?

O último era um verde oliva, misturado com sedas sintéticas, envolvido por uma faixa estampada em marrom. Mesmo que não admitisse, aquele era o que ela mais gostaria de provar. Colocou a peça com mais carinho comparado aos outros excessivamente coloridos.

Quando olhou no espelho, Asui gostou do que viu. Foi impossível conter o indício de um sorriso em seus lábios.  

Ela estava incrível!

— Tsu, morreu aí dentro? — Chamou Ochako. Foi neste instante que Asui percebeu como demorou se admirando no espelho. Com razão, é claro.

Sorriu antes de se virar e abrir a cortina, dando as caras para a dupla. Apenas pela sua feição, dava pra saber o quão satisfeita ela estava.

Uraraka piscou os olhos, era como se o kimono fosse feito exatamente para ela. O tamanho, cores, tecido...Tudo era Asui Tsuyu! Involuntariamente, a castanha abriu um sorriso cheio de dentes, deslumbrada com a vista que tinha. Sua amiga sempre era fã de blusões combinados com saias neutras, vê-la assim era algo diferente demais.

 Mas ela não podia negar o quão linda estava.

— Meu Deus... — Balbuciou baixinho.

O nervosismo de Tsu apenas aumentava com o silêncio que Ochako emitiu. Os olhares da dupla estavam a matando! É claro, não pôde notar o encanto e brilho nos olhinhos castanhos, mas decidiu quebrar o silêncio:

— E esse?

A melhor amiga deu uma risada nasal.

—  É perfeito! — Ela bateu palmas.

Em questão de segundos, ela levantou-se do assento estofado, olhando diretamente para Mizuko.

— Vamos comprar este! — havia muito entusiasmo em sua voz.

Asui prendeu a respiração quando sua melhor amiga voltou os olhos para si. Ela caminhou até Tsuyu com calma, colidindo com suas mãos aos seus ombros.

— Ochako, você está me assustando. — Tsu forçou um sorriso, vendo os lábios da amiga se esticarem ainda mais.

— De acordo com a revista “eu”, você é a pessoa mais linda do ano, amiga! — Deu um abraço apertado, escutando agradecimentos. Por mais que sentisse suas bochechas esquentarem, o termo “amiga” doía. Doía demais.

— Doçura! — se voltaram na direção de Mizuko. — Pode ir se trocando, eu vou embrulhar o kimono pra você, tudo bem?

Asui assentiu, o fazendo em seguida. No provador, deu uma última olhada e suspirou quando tirou a peça, trocando pela saia branca com grafites no bolso direito. Quando saiu, Ochako estava com uma pilha de kimonos, tão coloridos quanto as escolhas de Mizuko!

Ela manejou a cabeça de um lado para o outro, contudo, o sorriso estava intacto. Sentou-se no mesmo assento, e lá estava Uraraka, com um desfile atrás do outro. Tsu batia palmas praticamente todas as vezes em que a mesma saia de trás da cortina.

— Vocês são amigas a muito tempo? — Perguntou Mizuko e Tsu lhe olhou com gentileza.

— Sim, desde o ensino fundamental. — Ela estranhou o riso da atendente.

— Deve ser ótimo ter uma melhor amiga, não é?

— É ótimo. — Exceto pelo fato em que não podiam se beijar, sussurrar coisas no ouvido ou escrever poemas românticos.

Sim, esse era o único defeito na amizade das duas.

A cortina se moveu novamente, e desta vez, Uraraka quase saltitava de alegria com um kimono cor-de-rosa, recheado de estampas florais. O mundo de Tsuyu poderia ter congelado por apenas alguns segundos, mas eles foram capazes de atingir mais ainda o seu coração. Era até fascinante perceber que ela apenas afundava a flecha que o cupido havia mirado em seu coração, mesmo que não percebesse.

Piscou os cílios, mascarados por um rímel fraquinho, apostava fielmente que Mizuko estava quase dizendo “feche a boca, senão entra mosca”, e logo juntou os lábios novamente, os curvando em um sorriso.

Não algo completamente surpreendente que Uraraka Ochako escolher um kimono rosa. Não quando se a garota vivia usando aquela cor. No caixa, a castanha fez o favor de pagar pelas duas peças de roupa, ignorando completamente as queixas e controversas da Asui.

Saíram da loja com duas sacolas e com uma garota de olhos verdes reclamando ante a nota que havia saído do bolso de Uraraka.

— Tsu, relaxa!

— Faz assim, eu te pago no final do mês, tá bom? — Uraraka torceu o nariz.

— Credo, não vou te cobrar nada.

— Você sabe o preço daquilo?

— Sim, me ensinaram matemática na escola. — Colocou um braço envolvendo os ombros de Tsuyu. — É só um presente.

— As pessoas se presenteiam no festival das estrelas?

— Não faço a mínima ideia, mas se sim, o meu está bem aqui. — Deu tapinhas na sacola, Asui negando.

— E o que eu posso te dar em troca? — o semblante de Uraraka ficou pensativo.

Entraram na caminhonete.

— Que tal a sua companhia? — A castanha respondeu, dando partida no veículo.

Tsu nada respondeu, mas ligou o rádio novamente. Enrugou o cenho quando o carro parou em frente a uma padaria. Também estranhou quando Uraraka pediu que esperasse alguns minutos, para depois voltar com uma baguete em uma embalagem sem graça.

— Não acredito.

— Segura. — Ochako pediu, e sem rodeios, entregou o pão no colo da amiga, que mantinha uma expressão confusa.

O acelerador funcionou novamente.

— Vem cá, qual é a sua intenção com isso? – Asui perguntou.

— Conhece a ponte vermelha? — Uraraka não tirou os olhos do trânsito.

— A que fica perto da praça?

— Bingo!

Tsuyu teve que fechar os olhos. Não queria perguntar o porquê daquilo.

— Por quê?

Uraraka deu de ombros, assegurando que quando chegassem lá, ela saberia. Asui bufou e fez questão que amiga ouvisse. Não deu atenção para isso, mas foram uns bons minutos dirigindo. Tsu arqueou uma sobrancelha quando a outra estacionou o carro, e da janela, era possível ver uma construção vermelha de perto.

As duas saíram da caminhonete com o saco de pães na mão, cruzando as ruas com cuidado para que pudessem ir até a ponte. Não é como se Tsu estivesse completamente a par da situação, mas teve algumas hipóteses.

— Então... O que estamos fazendo aqui? — Indagou Asui.

—  Viemos pelo bem da natureza, minha cara! — Agora foi a vez da esverdeada de juntas as sobrancelhas. Retomando a caminhada, elas andavam pela madeira avermelhada e bem construída.

Uraraka parou, apoiando os cotovelos no corrimão emadeirado. Os olhos brilharam quando olhou para baixo. Tsuyu tombou a cabeça para o lado, e sua melhor amiga lhe fez um gesto para se aproximar. Com a embalagem da baguete em mãos, ela deu passos incertos. Quando abaixou o queixo, sua boca se entreabriu.

Era por volta de dez da noite, e a lua cheia já brilhava vigorosamente, e iluminava boa parte da cidade. Em especial, um lago.

Abaixo da ponte vermelha, um lago de águas calmas e azuis, que vistas a olho nu pareciam transparentes. E nadando tranquilamente, carpas de todas as cores e formas. O cardume era colorido e encantador, sarapintando o lago ligeiramente.

E então Tsu percebeu o motivo do pão e a ponte, rapidamente sacou um pedaço do pão, dividindo novamente em dois. Cutucou a melhor amiga com o cotovelo, lhe dando o alimento das carpas.

Pelas poucas aulas de ictiologia que prestara atenção, aquelas eram Carpas Koi. Quando criança, Asui sonhava com algum peixe daquela espécie em seu aquário, e lembrava de como a internet as mostrava.

Mas ao vivo era diferente.

A pigmentação das escamas era coisa nova e encantadora demais para ser real, as policromadas sempre foram as favoritas do público, mas ela gostava mais das que eram pintadas com vivaz. As matizadas eram as rainhas!

— Uau. — Asui disse baixinho, jogando micro pedaços do pão em sequência.

— Ainda me acha maluca? Quero dizer, ninguém deve comprar uma baguete enorme às dez da noite, ainda em dia de semana.

Tsuyu sorriu.

— Desculpa por isso. — Ela fitou os peixes mais uma vez. — Realmente, uma maluca não traria aqui, não é?

— Acho que não. — Não tirou os olhos castanhos do lago quando sacou sua Instax novamente, dessa vez, tirando uma fotografia das carpas.

Deviam ter ficado por ali por mais quinze minutos, conversando sobre cores, ou como a sombra da árvore ao lado delas poderia ser refrescante no verão. Uraraka se assustou quando viu as horas, e era mais que certo que já deveriam estar debaixo das cobertas do alojamento.

O pão já estava pela metade, e sabiam que as Carpas Koi teriam, no mínimo, uma semana de fartura. Com três refeições por dia. Em instantes, já estavam voltando para a universidade, e o coque de Ochako estava mais bagunçado ainda. E agora, sua regata também possuía migalhas de pão. Porém, a opinião de Asui continuava a mesma:

Uraraka ainda ficava bela.

Asui Tsuyu estava perdida, sem mapa em nenhum dos bolsos de sua saia branca. Já tinha perdido a conta de quanto tempo estava escondendo esses sentimentos, e mesmo assim, ainda não conseguia afastá-los. Se ela agia de modo suspeito? Se esforçava para que a resposta fosse não.

Possivelmente pensava que amar a melhor amiga fosse um crime, e a sentença fosse perpétua. Sem direito a julgamento, ela sabia que não deveria estar sentindo aquilo, porém não havia mais solução. Não quando sente o quão difícil é resistir à pele e lábios que parecem tão macios.

Ela amava todos os jeitos e penteados que as madeixas castanhas poderiam suportar, o jeitinho de Uraraka era especial e exclusivo. E mesmo com blusas e regatas que nunca conheceram um ferro de passar, era Ochako quem as vestia e que dava forma.

Já havia tentado se relacionar com outros caras, mas sabia que quando sentia uma vontade de recuar constante, soube que os sentimentos que tinha por Uraraka Ochako não eram passageiros. E o mais importante: aquilo não era uma fase.

Asui não era jovem ou velha demais para amar, era difícil aceitar que sim: ela estava apaixonada por sua melhor amiga.

Não é como se ela escolhesse quem amar, só podia sentir as batidas do seu coração acelerarem quando ouvia a sua voz, como o calor do abraço dela era aconchegante. Ou como o cheirinho de baunilha era bom.

Ela nunca contaria. Nunca contaria como Uraraka significava tudo.

E talvez, fosse melhor assim.

 


Notas Finais


Então, meus anjinhos, foi isso.
Novamente, agradeço as meninas pela betagem, plot e capinha! Obrigada Spotify por incluir Girl in Red e Hayley Kiyoko na minha playlist pra serem a minha maior fonte de inspiração para escrever isso aqui KKKKK quem amou bate palma.
Brincadeiras à parte, obrigada especialmente a você, leitor, por ler até aqui!
Nos vemos na próxima. ^^


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