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História Como responder uma rosa amarela? - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Único


 Não haveria, naquele mundo ou em qualquer outro, uma forma satisfatória de externar as contínuas explosões internas sentidas por Fukami, em seu interior. Na mente, coração, irradiando por todo o psicológico, e somente ali.

De certo, sua expressão devia transmitir a mesma seriedade, como se aquilo fosse apenas normal, esperado.

Mas não era.

Quer dizer, os professores haviam dado a ideia, na semana anterior. Algo relacionado ao dia dos namorados, mas não se limitando somente a isso. Uma oportunidade para presentear alguém querido, transmitir seus sentimentos através de algo, preferencialmente uma planta.

Pois bem, Fukami pensou que ganharia um ramo de nove horas, ou a flor de cera da ciumeira, no máximo, a depender do humor e disposição de Memoca. Mas não.

Foi com uma desconfiança regada de incredulidade e, finalmente, alegre conformismo que avistou a planta sobre sua mesa.

Uma rosa amarela. Grande, fofa, com suas pétalas vivas e firmes. Ele a tocou como se fosse feita de ar, algo frágil para seus dedos.

O cartãozinho cor de creme atado ao caule firme levava o nome na letra bonita de Wadanohara.

Ela o havia dado. Não tinha engano, com aquela letra.

Imediatamente, ele se sentiu envergonhado por não ter feito o mesmo. Quer dizer, devia ter adivinhado. Ou, pelo menos, apenas seguido o próprio conselho, e se adiantado em fazer alguma coisa para ela, em vez de apenas lamentar sua covardia por não ter se declarado no dia 14.

Ao seu redor, as flores ainda eram distribuídas aos montes — Samekichi presenteou o principal alvo de seu interesse com uma rosa azul porcamente tingida, e foi recebido com uma rosa clara tão bonita quanto a moça.

Não se afetou. Tinha uma prova de seus sentimentos em mãos, também.

Ele esperou ansiosamente o fim do horário letivo, e quase não precisou do toque de dispensa para sumir rua abaixo, em direção à floricultura da cidade.

Em questão de minutos, depois de uma rápida corrida, adentrava a lojinha de esquina, que exibia seus arranjos de flores nas vitrines com canteiros internos.

O sino dos ventos tocava suas notas sutis graças à brisa leve. E o rapaz atrás do balcão automaticamente voltou toda a atenção para si, o cliente novato e único naquela pequena sala.

— Pois não? — disse, com um sotaque forte das terras quentes entre norte e oeste. Era um loiro de pele bronzeada e mãos vermelhas. O polvo já o havia visto por aí.

— Eu... estava procurando uma flor... — falou. Foi um idiota, talvez, mas em sua defesa, ele precisava de muito esforço para não sorrir como um bobo alegre. E também não tinha a mínima noção do que procurava. Samekichi havia dado a cor azul e recebido uma rosa. Ele queria fazer melhor.

Percebendo sua dificuldade, o florista tentou se adiantar.

— é pra presentear uma pessoa amada? No sentido romântico da coisa.

Ele acenou, concordando. Conteve o impulso de olhar para trás, não havia ninguém além dos dois, lá dentro, e mesmo se houvesse... seus sentimentos só diziam respeito a si e a quem quisesse se relacionar, provavelmente.

— A rosa vermelha é um clássico incomparável, nesses casos não tem como errar.

— Ah... se é assim...

O demônio fez um gesto com a mão, chamando Fukami até uma porta no fim do cômodo.

Adentraram; havia mesas e folhas por todo o lado, e áreas descobertas por onde canteiros verdejantes afloravam. Ele abriu a porta da estufa colossal no outro extremo, e em segundos, estavam de frente para prateleiras de flores coloridas.

O vendedor apontou o brasão da escola, costurado na farda do polvo antes de iniciar a procura ao item desejado — Uma galera da sua escola veio aqui atrás de flores.

— Ah... os professores fizeram a proposta. Quem quisesse, podia se expressar com uma planta...

— E você vai se declarar...

— Mais ou menos. — E sem jeito, mexia insistente no cabelo, passando para trás da orelha. Se não estivesse tão feliz, provavelmente ia querer se enterrar no primeiro vaso que visse. — Eu vou dar uma resposta.

— Com um “sim”, creio eu. — Cara, para onde a conversa estava se encaminhando?

Não importava. Fukami estava feliz. Até havia se permitido sorrir um pouquinho.

— Sim.

— E que flor a pessoa te deu, exatamente?

— Uma rosa amarela.

E, de costas, o funcionário quase riu. Era uma confusão comum, numa época como aquela.

Comum e problemática. Ele quase sentiu pena. Não podia simplesmente deixar o cliente carregar algo tão inconveniente.

— Você não pode responder amarelo com vermelho. — Disse, se virando quando teve certeza de que não ia mais rir. — Ela significa amizade sem possibilidade de namoro.

Um tiro teria doido menos.

Automaticamente, Fukami sentiu a garganta secar e o suor rápido se formar na nuca.

— E as outras cores? O rosa e o azul...

— Azul é amor profundo. A rosa é gratidão, afetividade e romance.

E a expressão do polvo pareceu, por um momento, vir de um sofrimento intenso. O vendedor se tensionou, numa resposta involuntária.

— Ah... bem, me desculpe. — Murmurou. Não sabia o que dizer. Como devia processar as palavras? — Eu não vou...

— Oh tudo certo. como achar melhor. — Ele largou o botão vibrante tão rápido quanto.

Mas apesar de tudo, Fukami ainda queria devolver o favor.

— A margarida...

— Inocência, fortalecimento... Mas se me permite, a Alstroemeria está relacionada à amizade...

— Bem, pode ser...

De volta à parte principal da loja, o rapaz embalou o caule verde com um papel seda do mesmo tom branco da flor.

— Um momento... — Disse, sumindo na mesma porta e voltando pouco tempo depois. Trouxe consigo uma haste cheia de pequenas flores perfumadas. — Lavanda. Representa calma, solidão. Fica por conta da casa, ok?

Fukami aceitou, levemente surpreso. — Obrigado, moço...

O vendedor sorriu pequeno. — Pode me chamar de Vendetto. Posso saber seu nome?

— Fukami...

— Certo, Fukami. Eu vou plantar zínias nos canteiros da praça do cemitério, nesse sábado. Apareça, caso queira afogar as mágoas. A gente toma um sorvete depois. Prometo.

Fukami desconhecia o motivo de tanta sensibilidade direcionada a si, mas estava disposto a aceitar.

— Certo. muito obrigado... Até lá.

— Até.

Seus olhos se encontraram além das vitrines transparentes. Pareceu um tanto mágico, eles sentiram.

Fukami recolheu as sementes da lavanda. O cheiro ameno não demorou a se transformar em seu novo aroma preferido.



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