História Como se livrar de uma vampira apaixonada - Capítulo 1


Escrita por:

Postado
Categorias Em Família
Tags Clara, Em Família, Marina
Visualizações 77
Palavras 4.453
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Comédia, Ficção, Ficção Adolescente, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Ola, meninas! boa tarde eu to aqui novamente para continuar esta historia.
vou avisar a voces que eu nao conseguia continuar com o capitulo seguinte porque eu perdi a senha da outra conta
entao eu decidi novamente postar a historia.. com outra conta entao vamos comecar de novo!

Capítulo 1 - Capitulo 1


CAPÍTULO 1
Na primeira vez que a vi, uma névoa pesada e cinzenta parecia se agarrar ao
milharal, com faixas de neblina deslizando entre as plantas quase mortas. Era um início de manhã sombrio e eu estava esperando o ônibus escolar para o primeiro dia de aula, cuidando da minha vida, parada no fim da estradinha de terra que liga a casa de fazenda onde moro à estrada principal que leva à cidade.
Eu pensava em quantas vezes, nos últimos 12 anos, tinha esperado aquele ônibus. Estava fazendo cálculos de cabeça quando notei a presença dela.
Então, de repente, aquele trecho familiar de asfalto pareceu terrivelmente desolado.
Ela estava parada sob uma enorme faia que ficava do outro lado da estrada, os braços cruzados na frente do peito. Os galhos baixos e retorcidos da árvore se enroscavam em volta dela, camuflando-a sob ramos, folhas e sombras. Mesmo assim dava para ver que ela era alta e usava botas e um sobretudo escuro que parecia uma capa.
Senti um aperto no peito e engoli em seco. Que tipo de pessoa fica parada debaixo de uma árvore, ao amanhecer, no meio do nada, usando uma capa preta?
Ela deve ter percebido que eu a notei, porque se mexeu um pouco, como se decidisse se deveria ficar ou ir embora. Ou atravessar a estrada.
Eu nunca havia me tocado de como ficara vulnerável todas aquelas manhãs, esperando sozinha ali fora, mas, naquele momento, essa constatação me atingiu como um soco no estômago.
Percorri com os olhos toda a extensão da estrada, o coração martelando. Cadê aquele ônibus idiota? E por que, afinal, meu pai precisa ser tão a favor do transporte coletivo? Por que não posso ter um carro, como quase todo colega do último ano do ensino médio? Mas, não, eu tinha que “compartilhar a viagem” para salvar o meio ambiente. Quando eu for sequestrada por aquela menina estranha e ameaçadora que está debaixo da árvore, é capaz de papai insistir para que minha foto de desaparecida seja impressa apenas em papel reciclado.
Na preciosa fração de segundo que perdi sentindo raiva do meu pai, a estranha saiu de onde estava, debaixo da árvore, e se moveu na minha direção. E no momento exato em que o ônibus, graças a Deus, surgiu no topo do morro uns 50 metros adiante, eu poderia jurar que a ouvi dizer “Marianne”.
Meu antigo nome... O nome que recebi ao nascer, na Europa oriental, antes de ser adotada e trazida para o Brasil, onde fui rebatizada como Marina Meirelles... Ou talvez eu estivesse ouvindo coisas, porque a palavra foi abafada pelo som de pneus
sibilando no asfalto molhado, por engrenagens rangendo e pelo chiado da porta que o motorista, o velho Sr. Demétrio, abria para mim. Eu te amo, ônibus número 23. Nunca me senti tão feliz por entrar nele.
Com seu grunhido usual, “Dia, mari”, o Sr. Demétrio engrenou o ônibus e eu fui cambaleando pelo corredor, enquanto procurava um lugar vazio ou um rosto amigo em meio aos passageiros sonolentos. Às vezes era um saco morar na zona rural da Goiânia. Os adolescentes da cidade ainda deviam estar dormindo àquela hora, na segurança de suas camas.
Encontrei um assento bem no fundo e me deixei cair, com um suspiro de alívio. Será que estava exagerando? Talvez eu estivesse imaginando coisas ou minha cabeça estivesse confusa de tanto assistir àquele programa sobre os bandidos mais procurados do país. Ou, talvez, a estranha quisesse mesmo me fazer mal. Girando o pescoço, dei uma espiada pela janela de trás e... meu coração se apertou.
Ela continuava lá, mas agora estava na estrada, cada uma de suas botas plantadas de um lado da faixa amarela, os braços ainda cruzados, observando o ônibus se afastar. Olhando para mim. “Marianne...” Será que eu tinha mesmo escutado a menina me chamar usando aquele nome esquecido havia tanto tempo?
E se ela conhecesse esse fato obscuro, o que mais aquela estranha de cabelos escuros escondida em meio à névoa saberia sobre meu passado?
Mais do que isso: o que ela estava querendo comigo no presente?
***
– Quer ouvir um resumo do verão que passei na colônia de férias? –
perguntou minha melhor amiga, Vanessa ferreira. Ela deu um suspiro, abriu a pesada porta de vidro da Escola e disse: – Crianças com saudade de casa, queimaduras de sol, urticária e aranhas enormes nos chuveiros.
– Parece que foi horrível trabalhar de monitora – comentei, solidária, ao entrarmos no corredor familiar, que cheirava a desinfetante e cera recém-aplicada. – Se serve de consolo, eu ganhei pelo menos dois quilos trabalhando de garçonete. Comia um pedaço de torta sempre que tinha uma folga.
– Você está com um corpão. – a Van não deu bola para minha reclamação. – Já seu cabelo...
– Ei! – protestei, alisando meus cachos desobedientes, que pareciam mesmo estar se rebelando na umidade do fim de verão. – Fique sabendo que passei uma hora com o secador e usei um “bálsamo de alisamento” que me custou uma semana de gorjetas... – Parei de falar ao perceber que Vanessa estava distraída, sem me escutar. Acompanhei seu olhar pelo corredor, na direção dos armários.
– E por falar em corpão... – disse ela.
Santiago spadaro, que morava numa fazenda perto da minha, lutava com o novo segredo do seu armário. Franzindo os olhos para um pedaço de papel na mão, girou o disco e chacoalhou a maçaneta. Uma camiseta branca nova em folha fazia seu bronzeado de verão parecer especialmente intenso. As mangas se apertavam ao redor dos bíceps volumosos.
– Santiago está incrível – sussurrou Vanessa enquanto nos aproximávamos do meu vizinho. – Deve ter entrado para uma academia ou sei lá o quê. E não é que ele fez luzes?
– Ele juntou fardos de feno o verão inteiro sob o sol, Van – sussurrei de volta. – Ele não precisa de academia. Nem de água oxigenada no cabelo.
Santiago levantou os olhos enquanto passávamos e sorriu ao me ver. – Oi, Marina.
– Oi – respondi. Depois me deu um branco.
Vanessa se intrometeu e evitou um silêncio constrangedor.
– Parece que deram o segredo errado a você – disse ela, apontando com a cabeça na direção do armário de Santiago, ainda fechado. – Já tentou dar um chute nele? Santiago ignorou a sugestão.
– Você não trabalhou ontem à noite, Mari?
– Não, saí da lanchonete. Era só um emprego de verão. Ele pareceu meio desapontado.
– Ah. Bem, então acho que vou ver você só na escola.
– É. Com certeza vamos fazer algumas matérias juntos – completei, sentindo minhas bochechas esquentarem. – A gente se vê. Praticamente arrastei Vanessa pelo corredor. – Que papo foi aquele? – perguntou ela quando nos afastamos. Ela olhou para Santiago por cima do ombro.
Meu rosto ficou ainda mais quente. – Como assim?
– Santiago todo triste porque você saiu da lanchonete. Você ficando vermelha...
– Ih, nada a ver. Ele apareceu umas vezes perto do fim do meu turno e me deu carona para casa. A gente conversou um pouco... E eu não estou vermelha.
– Verdade? – O sorriso de Vanessa era presunçoso. – Você e Santiago, hein? – Não foi nada de mais – insisti.
Os olhos de Vanessa brilhavam. Ela sabia que eu não estava sendo completamente sincera. – Esse ano vai ser bem interessante – previu ela. – E por falar em interessante...
Ia começar a contar à minha melhor amiga sobre a estranha amedrontadora no ponto de ônibus, mas, no momento que pensei nela, os pelos da minha nuca se eriçaram, quase como se eu estivesse sendo vigiada. “Marianne...”
A voz suave e profunda ecoou no meu cérebro, como se fosse um daqueles pesadelos de que não nos lembramos muito bem ao acordar.
Cocei a nuca. Talvez eu contasse a história a Vanessa mais tarde. Ou talvez a coisa toda simplesmente sumisse da minha memória e eu nunca mais voltasse a pensar na menina. Era provavelmente o que iria acontecer. Mas a sensação esquisita não passou.
– Esta matéria será muito estimulante – prometeu a Sra. Francisca,
borbulhando de entusiasmo enquanto entregava a lista de leitura de literatura inglesa do terceiro ano, que ia de Shakespeare a Bram Stoker. – Vocês vão simplesmente adorar os clássicos que escolhi. Preparem-se para um ano de sagas épicas, romances de acelerar o coração e confrontos de grandes exércitos. Tudo isso sem precisar pôr os pés para fora da Escola.
Pelo jeito nem todo mundo ficou tão extasiado com confrontos de exércitos e corações acelerados quanto a Sra. Francisca, porque ouvi um monte de gemidos enquanto a lista circulava pela turma. Minha cópia chegou pelas mãos de meu eterno tormento, Felipe Dormand, que havia se sentado na carteira à minha frente como uma enorme bola de gosma. Fiz uma avaliação rápida da lista. Ah, não. Ivanhoé, não. E Moby Dick... quem tinha tempo para Moby Dick? Este deveria ser o ano em que eu teria uma vida social. Para não mencionar Drácula... dá um tempo. Se havia uma coisa que eu odiava eram historinhas macabras sem qualquer embasamento na realidade ou na lógica. Esse era o território dos meus pais e eu não tinha interesse em entrar nele.
Lancei um olhar rápido para Vanessa, sentada do outro lado do corredor, e vi pânico e sofrimento nos olhos dela também.
– “Uivantes”? Essa palavra existe? – sussurou ela.
– Não faço ideia – respondi. – A gente procura depois.
– Também quero que vocês preencham esse mapa das carteiras – continuou a Sra. Francisca, suas sapatilhas chiando no chão da sala. – O lugar que escolheram para se sentar vai ser o mesmo o ano todo. Estou vendo alguns rostos novos e quero que vocês conheçam uns aos outros o mais depressa possível, portanto não troquem de lugar.
Afundei na cadeira. Maravilha. Eu estava destinada a passar um ano inteiro aturando os comentários imbecis e maldosos que Felipe  Dormand certamente faria sempre que se virasse para entregar alguma coisa. E Fernanda Cerqueira, a líder de torcida nojenta, havia ficado com a carteira logo atrás de mim. Eu estava encurralada entre duas das pessoas mais perversas da escola. Pelo menos Vanessa  estava ao lado. E, olhando para a esquerda, vi que Santiago  tinha encontrado uma carteira perto da minha. Ele sorriu para mim. Acho que poderia ter sido pior. Mas não muito.
Felipe se virou para trás e jogou o mapa dos lugares para mim.
– Pega aí, Pacotão – zombou ele, usando o apelido que me dera no jardim de infância. – Ponha isso no mapa.
É. Imbecil e maldoso, exatamente como eu havia previsto. E só faltam 180 dias de aula.
Pelo menos eu sei escrever o meu nome – alfinetei. Babaca.
Felipe girou para a frente com uma careta de desprezo e eu enfiei a mão na mochila para pegar uma caneta. Quando fui escrever o nome, vi que a caneta estava seca, provavelmente porque tinha ficado sem tampa o verão inteiro. Dei uma sacudida nela e tentei de novo. Nada.
Comecei a me virar para a esquerda, achando que talvez Santiago pudesse me emprestar uma caneta. Mas, antes mesmo de pedir, senti um tapinha no ombro direito. Agora não... Agora não... Pensei em ignorar, mas a pessoa insistiu.
– Com licença, você precisa de um instrumento de escrita?
A voz rouca e profunda, com sotaque europeu, vinha de trás. Não tive escolha a não ser me virar. Não!
Era ela. A menina do ponto de ônibus. Eu teria reconhecido em qualquer lugar a roupa estranha – o sobretudo, as botas –, para não falar de sua altura imponente. Só que dessa vez ela estava bem perto. O bastante para eu ver seus olhos. Eles eram tão escuros que pareciam negros e se cravavam em mim com um jeito tranquilo e um tanto irritante. Engoli em seco, congelada na cadeira.
Será que ela tinha estado na sala o tempo todo? Nesse caso, por que não a notei antes? Talvez porque ela estivesse um pouco afastada do resto de nós. Ou porque o canto que ela ocupava parecesse mais escuro, já que a luz fluorescente sobre a carteira dela estava apagada. Mas era mais do que isso. Era quase como se ela criasse a escuridão. Isso é ridículo, marina... Ela é uma pessoa, não um buraco negro...
– Você precisa de um instrumento de escrita, não é? – repetiu ela, estendendo o braço, um braço comprido e moreno, para me oferecer uma brilhante caneta dourada. Nada a ver com as Bics de plástico que todo mundo usava. Só pelo modo como reluzia dava para ver que era cara. Quando hesitei, uma expressão de irritação atravessou seu rosto aristocrático e ela balançou a caneta para mim. – Você reconhece uma caneta, não é? Não se trata de um objeto familiar?
Não gostei do sarcasmo nem de como ela havia surgido perto de mim duas vezes num mesmo dia, vindo do nada, e fiquei olhando, estupidamente, até que Fernanda  Cerqueira se inclinou para a frente e beliscou meu braço. Com força. – Só assina o mapa, Mariana, beleza? – Aiê!
Esfreguei o que iria virar um hematoma, desejando ter coragem de dar um fora em Fernanda, tanto por me beliscar quanto por trocar meu nome. Mas a última pessoa a se meter com Fernanda Cerqueira acabou se transferindo para uma outra,  escola católica da região, para se ter ideia de como Fernanda havia infernizado a vida dela na escola. – Anda logo, Mariana – repetiu Fernanda, ríspida. – Tá, tá.
Com relutância, estendi a mão para a estranha e aceitei a caneta pesada. Quando nossos dedos se tocaram, tive a sensação mais bizarra de todas. Tipo um déjà vu trombando com uma premonição. O passado colidindo com o futuro.
Então ela sorriu, revelando os dentes mais perfeitos, alinhados e brancos que eu já tinha visto. Eles brilhavam. Acima dele a luz fluorescente se acendeu por um instante, piscando como um relâmpago. Isso foi esquisito. Minha mão tremeu um pouco enquanto eu escrevia o nome no mapa de lugares. Era idiotice pirar daquele jeito. Ela era só outra aluna. Obviamente recém-chegada. Talvez morasse perto da nossa fazenda. Devia estar esperando o ônibus, como eu, e de algum modo não conseguiu embarcar. Seu surgimento meio misterioso na sala de aula – pertinho de mim – provavelmente também não era motivo para alarme.
Olhei para Vanessa procurando a opinião dela. Estava na cara que estivera esperando que eu fizesse contato. Com os olhos arregalados, balançou o polegar na direção da menina, falando sem som: “Ela é uma gata!” Gata?
– Tá maluca? – sussurrei. É, a menina era tecnicamente belíssima. Mas também era aterrorizante com o sobretudo, as botas e a capacidade de se materializar perto de mim parecendo vir de lugar nenhum.
– O mapa, anda! – resmungou Fernanda atrás de mim.
– Toma. – Passei o mapa por cima do ombro e, quando Fernanda  puxou o papel da minha mão, ganhei um corte fino, porém profundo. – Ai!
Sacudi o dedo que ardia e sangrava, depois o enfiei na boca, sentindo o gosto salgado na língua, antes de me virar para o lado e devolver a caneta. Quanto mais depressa, melhor... – Aqui, obrigada.
A menina que gerava sua própria escuridão olhou para os meus dedos e percebi que meu sangue tinha sujado sua caneta cara.
– Ah, desculpa – falei, enxugando a caneta na minha perna, por falta de lenço de papel. Eca. Será que essa mancha vai sair da minha calça jeans?
Seu olhar acompanhou meus dedos e achei que ela estivesse sentindo repulsa por eu estar sangrando. Mas vi algo bem diferente de nojo naqueles olhos pretos. E então ela passou a língua devagar sobre o lábio inferior. O que é que foi aquilo?
Joguei a caneta para ela e me ajeitei na cadeira. Eu devia trocar de escola, como a garota que se meteu com Fernanda. Vou para aquela escola católica. É o jeito. Não é tarde demais...
O mapa dos lugares voltou à Sra. Francisca  e ela leu os nomes, depois levantou a cabeça com um sorriso que se dirigia para além da minha carteira.
– Vamos dar as boas-vindas a nossa nova aluna de intercâmbio, Clara... – Franzindo a testa, ela olhou de novo para o gráfico. – Vlas -car-po- nni . Falei certo?
A maioria dos alunos teria apenas murmurado “É, tudo bem”. Quem se importaria tanto com um sobrenome?
A minha perseguidora, é claro.
– Não – retrucou ela. – Não está certo.
Atrás de mim ouvi uma cadeira raspando no linóleo e então uma sombra se ergueu acima do meu ombro. Os pelos da minha nuca se eriçaram de novo.
– Ah – gemeu a Sra. Francisca, parecendo um tanto intimidada enquanto uma adolescente alta usando um sobretudo preto de veludo avançava pelo corredor. A senhora ergueu um dedo cauteloso, como se fosse mandar que se sentasse, mas a morena passou direto.
Ela pegou um marcador no suporte ao lado do quadro branco, tirou a tampa com autoridade e escreveu a palavra Vlascarponni  numa letra floreada.
– Meu nome é Clara  Vlascarponni  – anunciou, apontando a palavra. – Vlas-car-pó-nni. Dando Ênfase na sílaba do meio, por favor.
Cruzando as mãos às costas, ela começou a andar de um lado para o outro, como se fosse a professora. Fez contato visual com cada aluno da sala, obviamente nos avaliando. Pela expressão dela, senti que fomos considerados um tanto medíocres.
– O sobrenome Vlascarponni é bastante reverenciado na Europa oriental – disse, em tom de sermão. – É nobre. – Ela parou de andar e cravou seus olhos nos meus. – Um nome da realeza.
Eu não fazia ideia do que ela estava falando.
– Isso não faz “cair a ficha”, como vocês costumam dizer? – A pergunta era para a turma em geral, mas ela continuava me olhando. Meu Deus, seus olhos são negros mesmo. Encolhi-me, olhando para Vanessa, que estava se abanando e me ignorando. Era como se estivesse enfeitiçada. Todo mundo estava. Ninguém se mexia nem abria a boca.
Contra a vontade, voltei a atenção para a adolescente que havia se apoderado da aula de literatura inglesa. E era quase impossível não olhá-la. O cabelo brilhoso e comprido de Clara  Vlascarponni  parecia deslocado no estado de goiânia, mas combinaria muito bem com as modelos européias  das revistas Cosmopolitan de Vanessa. Ela era alta e magra como uma modelo, também, com maçãs do rosto definidas, nariz reta e queixo delicados. E aqueles olhos... Por que ela não parava de me olhar? – Gostaria de nos contar mais alguma coisa a seu respeito? – sugeriu finalmente a Sra. Francisca.
Clara vlascarponni se virou para encará-la e tampou o marcador com um estalo firme. – Na verdade, não.
A resposta não foi grosseira, mas ela também não se dirigiu à Sra. Francisca como uma aluna. Foi mais como alguém do mesmo nível.
– Tenho certeza de que adoraríamos saber mais sobre suas origens – insistiu a Sra. Francisca. – Parece mesmo interessante.
Mas Clara Vlascarponni  tinha voltado sua atenção para mim. Afundei na minha cadeira. Será que todo mundo está vendo isso? – Vocês saberão mais sobre mim no momento oportuno – disse Clara. Havia uma leve frustração em sua voz e eu não entendi por quê. Mas isso me assustou. – É uma promessa – acrescentou ela, me encarando. Pareceu mais uma ameaça.
**
– Viu como a estrangeira estava secando você na aula de literatura
inglesa? – berrou Vanessa  quando nos encontramos depois das aulas. – Ela é muito linda e está a fim de você! E é da realeza. Apertei o pulso dela, tentando acalmá-la. – Van, antes de você comprar um presente para o nosso casamento “real”, tenho que dizer uma coisa apavorante sobre essa menina supostamente muito linda.
Minha amiga cruzou os braços, incrédula. Dava para ver que Vanessa já tinha uma opinião formada sobre Clara vlascarponni, baseada totalmente em belas curvas pernas longas  e traços finos.
– O que você poderia saber sobre ela que fosse apavorante? Nós acabamos de conhecer a garota.
– Na verdade eu a vi hoje cedo. Aquela garota, a Clara, estava no ponto de ônibus. Me encarando.
– Só isso? – Vanessa revirou os olhos. – Talvez ela venha para a escola de ônibus. – Não veio.
– Então ela perdeu o ônibus. – Ela deu de ombros. – Isso é idiota, mas não é apavorante.
– É mais esquisito do que isso – insisti. – Eu... eu acho que ela disse o meu nome. No momento em que o ônibus apareceu. Vanessa pareceu confusa.
– Meu nome antigo – esclareci. Minha melhor amiga inspirou fundo. – Certo. Isso pode ser meio esquisito. – Ninguém sabe aquele nome. Ninguém. Na verdade nem Vanessa sabia muito sobre o meu passado. A história da minha adoção era um segredo bem guardado. Se fosse revelado, as pessoas iam me achar uma aberração. Sem dúvida eu me sentia uma aberração toda vez que pensava na história. Minha mãe adotiva, que era antropóloga, tinha ido estudar uma seita clandestina e exótica na região central da Romênia. Estava lá com meu pai para observar os rituais da seita, esperando escrever um de seus artigos reveladores sobre subgrupos culturais. Mas as coisas se complicaram lá na Europa oriental. A seita era um pouco esquisita demais, um pouco fora do comum demais, e alguns aldeões romenos formaram uma conspiração, decididos a dar um fim àquele grupo. À força.
Pouco antes do ataque, meus pais biológicos me entregaram, ainda bebê, aos pesquisadores brasileiros que estavam de visita, implorando que me levassem ao Brasil, onde eu ficaria em segurança.
Eu odiava essa história. Odiava o fato de que meus pais biológicos eram pessoas ignorantes, supersticiosas, que foram iludidas a ponto de entrarem para uma seita. Eu nem queria saber como eram os rituais. Sabia que tipo de coisas minha mãe estudava. Sacrifícios de animais, culto às árvores, virgens jogadas em vulcões... Talvez meus pais biológicos estivessem envolvidos em algum tipo de bizarrice sexual. Talvez por isso tivessem sido assassinados.
Quem sabia? Quem queria saber?
Nunca pedi detalhes e meus pais adotivos não me forçaram a saber mais do que já sabia. Eu me sentia feliz em ser Marina Meirelles, brasileira. Para mim, Marianne Dragomir não existia.
– Tem certeza de que ela sabia o seu nome? – perguntou Vanessa. – Não – admiti. – Mas achei ter ouvido.
– Ah, Mari. – Vanessa suspirou. – Ninguém conhece esse nome. Você provavelmente imaginou a coisa toda. Ou então ela disse uma palavra que se parece com Marianne. Olhei atravessado para Vanessa.
– Que palavra se parece com Marianne? – Sei lá. Que tal “mármorea”? – Fala sério.
Mas até que isso me fez rir. Fomos andando até a rua para esperar que minha mãe viesse me pegar. Eu tinha telefonado na hora do almoço dizendo que não ia pegar o ônibus para casa.
Vanessa fez sua última tentativa.
– Só estou dizendo que talvez você devesse dar uma chance a Clara. – Por quê?
– Porque... porque ela é  tão gata... E alta – explicou Vanessa, como se altura fosse prova de bom caráter. – E já mencionei que é européia?
O velho fusca enferrujado da minha mãe chegou chacoalhando junto ao meio-fio e acenei para ela.
– É. É muito melhor ser perseguida por uma européia alta e gostosa do que por um brasileiro de estatura mediana.
– Bom, pelo menos Clara está prestando atenção em você – fungou Vanessa. – Ninguém nunca presta atenção em mim.
Chegamos até o fusca e abri a porta. Antes que eu pudesse dizer “oi”, Vanessa me empurrou de lado, se inclinou para dentro e declarou: – Mari está namorando, Dra. Meirelles!
– Verdade, Marina? – perguntou mamãe, demonstrando surpresa.
Foi minha vez de empurrar Vanessa para fora do caminho. Entrei e bati a porta, deixando minha amiga do lado de fora. Vanessa  acenou, gargalhando, enquanto mamãe e eu nos afastávamos da calçada.
– Um namorado, Marina? No primeiro dia de aula?
– Na verdade "namorada" quer dizer não é minha  namorada – resmunguei, prendendo o cinto de segurança. – É uma aluna esquisita de intercâmbio que andou me seguindo.
– Marina, tenho certeza de que você está exagerando. Os adolescentes costumam ser socialmente desajeitados. Na certa você está interpretando mal um comportamento inocente.
Como todos os antropólogos, mamãe acreditava que sabia tudo sobre as interações sociais humanas.
– Você diz isso porque não viu a garota hoje cedo no ponto de ônibus – argumentei. – Ela estava parada com um sobretudo preto enorme... E aí meu dedo sangrou e ela lambeu a boca...
Quando falei isso mamãe pisou no freio com tanta força que minha cabeça quase bateu no painel. Um carro atrás de nós buzinou furioso. – Mãe! Qual é o problema?
– Desculpe, Marina – disse ela, parecendo meio pálida. E acelerou de novo. – Foi só uma coisa que você disse sobre ter se cortado.
– Eu cortei o dedo e ela praticamente ficou babando, como se fosse uma batata frita coberta de ketchup. – Estremeci. – Foi asqueroso.
Mamãe ficou mais pálida ainda e eu senti que lá vinha bomba.
– Quem... quem é essa garota? – perguntou ela quando paramos num sinal de trânsito perto da Faculdade, onde minha mãe dava aula. – Qual é o nome dela?
Percebi que ela estava se esforçando muito para parecer despreocupada e isso me deixou mais nervosa ainda.
– O nome dela é... – Mas antes que eu pudesse dizer “Clara”, eu a vi. Estava sentada no muro baixo que rodeava o campus. E estava me olhando. De novo. Minha testa começou a suar. Mas dessa vez fiquei injuriada. Agora já chega. – Olha ela ali! – gritei, apontando com
o dedo. – Está me encarando de novo! – Não era um comportamento “socialmente desajeitado”. Era perseguição. – Quero que ela me deixe em paz!
Então minha mãe fez algo inesperado. Parou o carro junto ao meio-fio, bem onde Clara estava.
– Qual é o nome dela, Mari? – perguntou ela de novo enquanto soltava o cinto de segurança.
Achei que mamãe iria confrontá-la, por isso segurei seu braço. – Não, mamãe. Ela é... tipo... desequilibrada, sei lá. Mas minha mãe soltou meus dedos com delicadeza. – O nome dela, Marina.
– Clara.  Clara vlascarponni.
– Ah, minha nossa! – murmurou mamãe, olhando para minha  perseguidora. – Acho que isso era mesmo inevitável. – Ela estava com um olhar esquisito, distante. – Mamãe? O que era inevitavel?
– Espere aqui – disse ela, ainda sem me olhar. – Não se mexa. – Minha mãe parecia tão séria que nem protestei. Sem dizer mais nada, ela saiu do fusca e foi em direção onde a ameaçadora que havia me seguido o dia todo. Será que mamãe tinha enlouquecido? Será que ela tentaria fugir? Será que iria surtar de vez e machucá-la? Mas não. Ela escorregou graciosamente do muro e fez uma reverência para minha mãe, uma reverência de verdade, dobrando a cintura. Que negócio é esse?
Baixei o vidro, mas elas falavam tão baixo que não consegui escutar nada. A conversa pareceu durar séculos. E então minha mãe apertou a mão dela.
Clara vlascarponni se virou para ir embora, mamãe voltou para o fusca e deu a partida. – O que foi aquilo? – perguntei, chocada. Minha mãe me olhou bem nos olhos e disse: – Você, seu pai e eu precisamos conversar. Hoje à noite. – Sobre o quê? – exigi saber, com um frio na barriga. Uma sensação ruim. – Você conhece aquela garota?
– Vamos explicar mais tarde. Temos muita coisa para lhe contar. E precisamos fazer isso antes que Clara chegue para o jantar.
Meu queixo ainda estava no chão quando mamãe deu um tapinha na minha mão e voltou a dirigir.


Notas Finais


para as velhas e novas leitoras sejam bem-vindas!


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...