História Como se livrar de uma vampira apaixonada - Capítulo 10


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Categorias Em Família
Tags Clara, Em Família, Marina
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Palavras 7.216
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Comédia, Ficção, Ficção Adolescente, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 10 - Capitulo 10


Mari, a gente vai se atrasar para a aula de cálculo – disse  Vanessa,
praticamente me arrastando pelo corredor. Fiz força no sentido contrário. – Acho que vou matar aula.
– De novo? – Havia preocupação eana voz de Vanessa. – Marina, você nunca matava aula. Agora quase não assiste. E é matemática, Mari. Sua matéria favorita! – Não estou a fim, Van.
– Qual é a sua, Marina? É a Clara? Porque vocês duas mudaram. E ela estava toda machucada... O que está acontecendo na sua casa? – Nada, Van. Eu juro.
– Você está matando aula, Santiago já era, Clara parece sempre prestes a cometer um assassinato e não está acontecendo nada? Fui em direção ao banheiro.
– Pode ir pra aula, beleza? Vou ficar por aqui até os corredores esvaziarem para eu dar o fora.
– Estou preocupada com você, Marina – disse Vanessa, segurando os livros contra o peito. – Preocupada de verdade.
– Não é nada – garanti. Nada além de um coração partido, um pacto desfeito e uma guerra que se aproxima. Como eu poderia me concentrar em livros didáticos chatos, deveres de casa sem sentido e aulas maçantes quando tudo estava desmoronando? Quando vidas estavam em jogo? – Te ligo mais tarde.
Vanessa ainda estava ali, com cara de assustada, quando entrei no banheiro e me tranquei numa das cabines. Mas o sofrimento não me deixava em paz nem no banheiro. Enquanto estava ali, sentada, esperando o sinal tocar, Fernanda Cerqueira entrou com sua amiga Luisa Clay. Pela fresta entre a parede e a porta da cabine vi as duas assumindo os lugares diante do altar do espelho, prontas para a autoadoração.
– E aí? Como vão as coisas entre você e a Clara Luxuriante? – perguntou Luisa, remexendo na bolsa e pegando um brilho labial. Passou uma camada gosmenta na boca. – E quem deixou a garota com seu lábio partido e com aquele roxo?
– Ela não quer dizer. – Fernanda  deu de ombros, escovando o cabelo. – Você conhece a Clara. É cheia de segredos. Mas desde que isso aconteceu ela ficou, tipo, totalmente doida. Luisa passou um pouco de blush cremoso nas bochechas. – Doida boa ou doida ruim?
– Doida por mim – reclamou Fernanda, revirando os grandes olhos azuis. – Tipo, não me deixa sozinha. Quer me dar uns amassos o tempo todo. E é uma coisa intensa demais.
Luisa virou a cabeça para um lado e para o outro, verificando se havia alguma mancha nas bochechas.
– nossa! aquela mulher. E tão cheia de tesão!
– É, mas isso é, tipo, supertesão. Nunca fica satisfeita. A gente vai para o apartamento dela atrás da casa dos Meirelles e ela praticamente me arrasta para a cama. Ela está transando com a Fernanda.
Meus dentes doíam tanto, tanto, que por um segundo achei que minhas presas iriam rasgar as gengivas e tive que segurar um grito, apertando a boca com a mão e dobrando-me de dor. E a sede... eu precisava de sangue, desesperadamente... Clara está transando com Fernanda Cerqueira atrás da minha casa. Minha noiva está me traindo, traindo sua princesa...
– Mas eu vivo dizendo a ela – continuou Fernanda, sem perceber meu tormento silencioso na cabine do canto – que não vou jogar fora todo o meu futuro por causa dela, pelo menos até minha que minha mãe pague toda minha universidade.
Então é só sexo. Não vão até o fim. Tentei aplacar o ciúme e a fúria. Mas meus dentes continuavam a pulsar de dor ao pensar em Clara no cobertor de veludo com Fernanda. Encostei a mão na parede fria de azulejos, abalada e sofrendo, e tentei me acalmar.
– É acontece a mesma coisa com meu namorado– concordou Luisa. – Não sei por que os caras não conseguem se contentar com um... – Ela pôs a mão em concha no ouvido de Fernanda e sussurrou alguma coisa que não pude ouvir. Mas deu para adivinhar, pelos risinhos.
– Pois é – disse Fernanda, rindo. – Tipo, é quase a mesma coisa que ir até o fim. E a Clara faz uma coisa que é praticamente melhor do que... – Ela parou, como se percebesse que tinha revelado demais.
Meu coração parou e eu deixei de sentir até mesmo minha boca latejar e meu desejo desesperado.
Que coisa? QUE COISA?
– Ei, não me mata de curiosidade! – exclamou Luisa, sacudindo o braço da amiga. – O que ela faz?
– É só... – Fernanda hesitou mais um segundo, depois não conseguiu se conter mais. Virou-se para Luisa. – Uma coisa com a boca. No meu pescoço.
Meu coração não apenas parou. Foi como se uma mão gigantesca tivesse apertado meu coração, tentando arrancá-lo. Não, Clara. Não faça isso. Não nos traia mais do que já fez. E não se arrisque a mais punições violando o pacto de maneira irreparável. Ainda não. Preciso de tempo para consertar as coisas.
– O quê? – guinchou Luisa. – Tipo um chupão? Isso é tão ensino fundamental! Quem liga pra chupão?
– Não. – Fernanda balançou a cabeça, virando-se de volta para seu reflexo. Ficou um pouco pensativa, observando os próprios olhos. – Não é um chupão. É... ai, não dá para descrever. Mas é incrível. Tipo, perigoso ou sei lá o quê. Como se a gente estivesse fazendo alguma coisa muito sinistra. – Enfiando a mão na bolsa, ela pegou um elástico de cabelo e prendeu a cascata loura num rabo de cavalo alto. – Tipo, eu gosto, mas sei que não deveria.
– Hum, queria que Clara ensinasse isso ao meu namorado. Wayne não faz nada de especial. – Não sei se é uma coisa que dá para ensinar. É só uma coisa que a Clarinha faz. Luisa apontou para o pescoço da amiga, franzindo a testa.
– Bom, seja o que for, deixou uns arranhões. Quer um pouco de maquiagem para cobrir? Fernanda se virou para olhar a lateral do pescoço, perto do ouvido. Passou os dedos pela marcas vermelhas e finas, sorrindo ao se lembrar de algo. – Ah, Luisa. Se você pudesse sentir como é...
– Você tem tanta sorte de ter uma Clarinha europeia... – Luisa fez beicinho.
Quando elas saíram, caí de lado e bati na parede da cabine, ofegante, esperando que as dores e o apetite diminuíssem. Esperando que meu lado vampiro, tão desesperado por emergir completamente, se acalmasse e se escondesse de novo. Clara, o que você está fazendo?

**

– Ela vai morder Fernanda Cerqueira – contei para Daniel.
– Não, não, não – discordou ele, e polvilhou canela em seu cappuccino. – De jeito nenhum. Não acho que nossa garota vá fazer isso.
– Daniel, eu vi a namorada dela, Fernanda, no banheiro da escola. Ela disse que Clara está fazendo coisas estranhas no pescoço dela. Com a boca. E ela estava com arranhões. Daniel pousou a xícara, com os olhos enrugados se nublando. – Arranhões grandes?
– Não sei. Não estava perto o suficiente para ver. Isso importa?
– Na verdade, não, eu acho. Desde que ela não afunde os dentes lá, não é? – Daniel dobrou os dedos como duas presas e os cravou no ar. – Esse tipo de coisa seria má notícia. – Para Clara ou para Fernanda?
– Para a garota é difícil saber. Bem, se ela não sugar essa tal de Fernanda até ela ficar seca, se não matá-la no ato, bom, então ela seria uma morta-viva. E isso é algo que algumas garotas realmente lamentam quando fazem por impulso. Não é uma coisa que deva ser apressada. Além disso, as garotas que não têm linhagem de vampiro, como você tem, são as que ficam malignas depois de uns 100 anos. Não gostam de beber sangue. Não conseguem abraçar o estilo de vida. Preferiam ter se casado com um homem comum e formado uma família normal. Vivem reclamando, arrumando encrenca. A gente passa só uns minutos perto delas e dá vontade de cravar uma estaca no coração. Clara poderia se arrepender muito, depois de alguns milênios, caso cedesse a um momento de paixão. – Está dizendo que elas se casariam se Clara a mordesse? Odiei a inveja, o pecado de proporções bíblicas que me consumia. Senti uma pontada nas gengivas e cocei o queixo.
– Dói, não é? – perguntou Daniel. Esfreguei com mais força. – É tão óbvio assim?
– Só para quem conhece os sinais. Mas, confie em mim, é uma coisa boa. Se suas presas não doessem, aí a jovem vampira deveria se preocupar. – Eu sei. Li o livro.
– Clara lhe deu um exemplar de Crescendo como morto-vivo? – Daniel riu. – É um clássico!
– É, ajudou muito – concordei. – Mas quanto a Clara e Fernanda...
– Ah, sim. Se Clara fizesse a coisa honrada, como se espera dela, os dois se casariam. Não se pode simplesmente morder uma virgem que não suspeita de nada e se safar. Isso não se faz.
A dor voltou rugindo e minhas gengivas latejaram.
– Não acredito que Clara iria se ligar a ela por toda a eternidade.
Daniel balançou a cabeça, evitando meu olhar e jogando mais canela em sua xícara. – Não, ela não faria isso.
– Mas você acabou de dizer que ela faria a coisa honrada...
– Honra coisa nenhuma. Se Clara violar o pacto, não importará quem ela morda. Frederic não admitirá a insubordinação. A razão pela qual os vampiros sobreviveram esse tempo todo é a justiça implacável. Algo como violar um tratado entre clãs seria motivo para destruição imediata.
O ciúme foi banido pelo medo. –
O quê?
– Destruição. Com D maiúsculo.
Eu sabia que eles iriam castigá-la duramente. Até mesmo Clara tinha medo do que eles fariam. Mas eu nunca havia pensado que fossem destruí-la. – Mas ela é a princesa herdeira...
– E as princesas são dispensáveis. Ainda não são rainhas. Minha voz pareceu presa na garganta.
– Quanto tempo Frederic vai dar para que ela obedeça?
– Ela já está por um fio – admitiu Daniel. – Frederic está decidido a fazer Clara obedecer, mas não vai esperar para sempre. – Meu tio fez uma mímica de cravar no peito algo que supus que seria uma estaca, em seguida fingiu acender um fósforo. – E depois... puf! De repente o ar quente da cafeteria ficou úmido e gelado. – É assim mesmo que acontece? Com uma estaca?
– É o jeito mais seguro. – Daniel  confirmou a afirmativa anterior de Clara. – Comprovado pelo tempo.
Visualizei Frederic enfiando uma estaca no coração de Clara, de baixo para cima, logo abaixo das costelas tantas vezes quebradas. Foi quase como se sentisse a madeira afiada rasgar minha carne. Cheguei a apertar o peito. Será que ocorrera o mesmo com meus pais, em seus momentos derradeiros?
– O que vai acontecer com Clara  depois? – perguntei, tentando livrar meu cérebro daquelas imagens horríveis. – Como assim?
– Tipo... com a alma dela.
– Ah, isso. A alma dela pertence ao clã. Não é a noção típica de céu e inferno a que os humanos estão acostumados. A alma de um vampiro é diferente. O clã dá e o clã tira. Bom, às vezes turbas furiosas é que tiram. – Daniel deu de ombros.
A ideia de um Universo sem Clara  era insuportável demais. Mas eu me sentia impotente. – Ela continua se recusando a honrar o pacto, mesmo eu tendo dito que a amava. Que quero me casar com ela. Daniel se animou. – Você a ama de verdade, não é? Pode admitir para mim. – Amo – respondi.
– Então não deixe que ela morda Fernanda Cerqueira, nem que isso signifique ficar grudada nela 24 horas por dia – aconselhou Daniel, tomando um gole de sua bebida. – Porque, no segundo em que ela a morder, o relógio marcará a meia-noite para Clara  Vlascarponni. Isso eu garanto.
Clara destruída. Um Universo sem ela. Eu não conseguia imaginar. E ao mesmo tempo não tinha ideia de como impedir a catástrofe.
Durante toda aquela noite me revirei na cama ao me lembrar de como me senti quando pensei que Clara tinha morrido. Aquele vento frio rasgando meu peito oco, me abrindo como uma estaca.
Se ela não honrasse o pacto, isso não iria destruir somente a ela. Iria destruir a mim também.

***

Ah, droga – murmurei, olhando pela janela enquanto Clara e Fernanda Cerqueira se esgueiravam pelo quintal sob o disfarce da escuridão, indo para o antigo apartamento dela. Eu odiava espioná-la, mas não sabia mais o que fazer. Precisava impedir que ela mordesse aquela garota. Por isso esperei uns minutos e fui atrás dos dois. – E aí, gente? – falei, entrando sem bater. – O que vocês estão fazendo? Como se eu não soubesse.
Fernanda praticamente pulou para longe de Clara, alisando o cabelo e puxando a camiseta desalinhada.
– Meu Deus, Mariana. Você não sabe bater? Algumas pessoas têm vida sexual.
Clara não fez qualquer esforço para se recompor. Apenas ficou sentada na cama, com os braços em volta da cintura de Fernanda, acariciando seu quadril. – O que você quer, Marina?
A voz dela estava baixa, ameaçadora.
– Talvez ela queira as panelas – disse Fernanda, com um risinho afetado. – Você sabe, para cuidar do cabelo.
– Não sinto mais cheiro da lebre – contra-ataquei. – O fedor de água oxigenada está forte demais. É melhor você pegar leve no clareamento, Fernanda, ou vai acabar careca.
– Poderia ser pior. – Ela fungou, olhando para minha cabeça. – Melhor careca do que ter cabeça de bombril.
– Melhor ter cabeça de bombril do que ser uma vaca.
Acho que ninguém havia falado assim com Fernanda Cerqueira. Eu mal podia acreditar que fizera isso. Mas ela que se danasse – a sensação era boa.
Fernanda ficou sentada num silêncio atordoado, abraçada a Clara, de olhos arregalados. Depois se afastou, cutucando o peito dela com o dedo.
– Você ouviu o que ela disse, Clarinha? Vai deixar que ela me chame de vaca? Clara riu, amarga, e a puxou para perto. – Ah, Fernanda. Aceite o elogio. Ela empurrou o peito dela. – Presta atenção, Clarinha. Clara ignorou o aviso, dirigindo-se a mim. – Vou repetir: o que você quer, Marina?
– Preciso de ajuda com Bela no estábulo – menti. – Acho que ela está mancando um pouco, mas quero sua opinião. Você conhece cavalos melhor do que eu.
– Chame um veterinário – disse Clara. – Não sou tratadora de cavalos.

– Qual é, Clara – insisti. – Só vai levar um minuto. – Qualquer coisa para afastar você da Fernanda.
– São quase 10 da noite – observou Clara. – A égua vai sobreviver até amanhã. E nós duas  estamos bem ocupadas aqui. – Seu rosto estava obscurecido pela penumbra do quarto, mas pensei ter vislumbrado as presas.
– Clara, seja razoável – instiguei, abandonando a história sobre Bela.
– Estou de saco cheio desse papo furado – disse Fernanda, soltando-se do abraço de Clara. – Até mais, Clarinha.
– Não vá embora – reagiu Clara, puxando-a de volta. Mas Fernanda soltou o pulso.
– Está ficando tarde mesmo, Clara. Meus pais vão me matar se eu chegar tarde de novo. – Ela pegou a bolsa vermelha de couro no chão e deu um beijo rápido na boca de Clara. – Tchau.
Enquanto ela passava por mim batendo o pé, agarrei-a pelo braço. – E meu nome é Marina, por sinal. Da próxima vez, trate de lembrar. Fernanda se soltou da minha mão com um risinho de desprezo. – Ah, eu vou lembrar. E você vai se arrepender.
Fernanda deixou a porta aberta e eu a bati com força enquanto ela descia a escada.
– O que você vê nela? – perguntei a Clara. Minha voz estava petulante, raivosa demais, mas eu não conseguia me controlar. – Ela é a pessoa mais perversa que já conheci.
– Você conhece coisa pior, Marina. Confie em mim. – Clara se levantou, cruzando os braços. – Por que está aqui, de verdade?
– Para salvar você, sua idiota. Você vai morder a Fernanda! Está totalmente descontrolada. Clara  gemeu. Um gemido que quase virou um rosnado. Ela fechou os punhos e os esfregou na testa.
– Marina, não se meta nisso.
– Mesmo que não se importe comigo, consigo mesma ou com o pacto, já pensou no que vai acontecer a Fernanda se vocês duas passarem do ponto? Está brincando com a alma dela também. Eu posso odiá-la, mas o que você está fazendo não é certo. O rosto de Clara se contorceu numa careta.
– A alma de Fernanda... Essa já está bem mais corrompida do que possa imaginar. Não se preocupe com a garota. Ela mente, trai, rouba e provavelmente mataria para ter o que quer. Eu vi a alma de Fernanda por dentro e sei que é tão escura quanto a minha. Por isso nos damos tão bem. Somos iguais.
Mas não eram iguais. Eu sabia disso.
– Você não pode basear sua vida num romance. – Que conversa é essa?
– Ela não é Catherine e você não é Heathcliff. As duas não precisam destruir uma a outra. – Aquilo foi uma mera encenação. Uma diversão de escola.

– Você não acha que é uma diversão. Eu te conheço você, Clara. – Não conhece!
As vigas praticamente tremeram quando Clara levantou a voz, pela primeira vez. O som era assustador.
Mas eu não iria recuar.
– Conheço. Você é uma vampira honrada. É da realeza. E Fernanda não é do seu nível. Ela nem é vampira.
– Ah, mas você  também não é. – Ela chegou mais perto e segurou um punhado dos meus cachos. – Você mudou o cabelo e as roupas, leu o guia, mas não sabe nada sobre ser um vampiro. Viu meus tios. Está preparada para aquele mundo?
– Eu nasci para governar aquele mundo. Você sabe! Você me ensinou isso! Mas Clara riu de mim, soltando meu cabelo.
– É mesmo? Você mal consegue pronunciar as palavras, quanto mais assumir um trono.
– Você só está magoada, Clara – argumentei. – Não jogue fora sua... – vida? morte-vida? – existência por causa de uma briga com seu tio. – Saia.
Ela mostrou os dentes como um animal, ofegando, e vi suas presas.
Mas eu não estava com medo. Meus próprios dentes doíam. E minha garganta estava seca. – Não.
– Não me teste – rosnou Clara, agarrando meus ombros. – Você não faz ideia do que eu sou capaz. Não viu o que fizeram comigo? O sangue deles está em mim. – Você não vai me machucar.
Eu me soltei, examinando o quarto com os olhos, procurando alguma coisa. Como eu poderia provar que era a pessoa certa não somente para salvá-la, mas para selar nosso destino? E então vi. O copo em sua cabeceira. O copo de Morango Julius que deveria conter um líquido vermelho e morno. Corri para lá, sabendo que ela era mais rápida do que eu. Mas eu tinha o elemento surpresa ao meu lado e peguei o copo, arranquei a tampa – meio enojada, meio louca de desejo.
– Marina, não – gritou Clara, se lançando sobre mim.
Pulei de lado e virei o copo, derramando na boca o sangue grosso, um pouco coagulado. O líquido deslizou pela língua, desceu pela garganta e eu o entornei tão depressa que encharcou meu queixo, meu pescoço e escorreu pela blusa. Era pegajoso, salgado e doce, e tinha gosto de vida à beira da morte. Bebi tudo, dominada pelo gosto, pelo cheiro pungente, agora dentro de mim, me preenchendo, me satisfazendo.
Clara ficou hipnotizada enquanto eu terminava, passando a mão na boca. Não falou nada quando empurrei o copo contra o peito dela, obrigando-a a aceitá-lo.
– Pronto – resmunguei, me sentindo mais poderosa do que nunca. Poderosa, saciada e meio enjoada. – Nunca mais diga que não estou pronta para governar.
Mesmo assim Clara não disse uma palavra. Só ficou imóvel e rígida como um cadáver,

segurando o copo contra o peito. Passei por ela, desci a escada e saí antes que começasse a tremer. Parei no pequeno círculo de luz na entrada da garagem, deixando que o vento frio me acalmasse. Minha blusa estava encharcada, mas o sangue, no ar gelado do inverno, já começava a congelar, endurecendo para formar um gelo escarlate. Limpei o queixo outra vez com o braço pegajoso. Queria vomitar – e beber de novo. Por isso simplesmente esperei um pouco, tentando me acalmar, pensar no que faria. E se meus pais me vissem coberta de sangue?
Olhei para casa. E foi então que vi Fernanda Cerqueira parada a menos de dois metros de mim, me olhando.
– Eu estava voltando... Eu... eu... esqueci o celular – gaguejou ela, apertando a bolsa vermelha contra o peito. Ficamos parecendo imagens espelhadas, só que o tronco dela estava coberto de couro vermelho, e o meu, de sangue. Os olhos dela estavam arregalados. – Que... que diabo aconteceu com você?
Comecei a dizer alguma coisa, mas não consegui pensar em nenhuma mentira. Como se uma mentira pudesse explicar por que meu rosto, meu pescoço e meu peito estavam cobertos de sangue.
Pouco importava. Fernanda deu as costas e correu até seu carro. Eu ainda estava ali, parada, tremendo de frio e emoção, quando o som dos pneus cantando desapareceu na noite.
Eu sabia que havia feito algo que jamais poderia desfazer. Tinha alterado não somente a mim mesma, mas também a meu futuro. Algo fora posto em movimento no instante em que virei aquele copo e eu estava ciente de que, de agora em diante, Clara e eu não precisávamos temer apenas Anciões velhos e furiosos. Eu derramara sangue na rede de boatos de uma escola brasileira – a única coisa que talvez fosse mais perigosa do que legiões de vampiros em guerra sedentos de poder.

**

Marina, o que aconteceu com você naquele apartamento? – perguntou Vanessa,
apertando meu braço e me puxando quando comecei a subir a escada em direção à sala de química. Seus olhos estavam arregalados, implorando que eu a tranquilizasse e dissesse que tudo estava bem. – Você pode me contar. Sou sua melhor amiga. – Não aconteceu nada – menti.
Eu queria contar tudo a Vanessa. Toda aquela história maluca. Estava cansada demais de carregar sozinha um peso tão enorme. Mas não podia. Ela jamais acreditaria. E, se acreditasse, o que pensaria de mim se eu dissesse que bebi sangue? Que queria beber mais sangue? Voltei a subir a escada.
– A gente vai se atrasar para a aula.
Vanessa manteve a mão no meu braço, ainda me puxando.
– Dane-se a aula. Preciso saber o que está acontecendo com você. Está correndo um papo por aí de que estava com sangue na boca, Marina. Que estava saindo do apartamento de Clara e estava coberta de sangue.
– Essa é a coisa mais idiota que já escutei. Mentiras se empilhando em mentiras. Vanessa deixou a mão escorregar pelo meu braço, segurou minha mão e a apertou. – É a Clara, Mari? Ela está maltratando você? Pode me contar. A gente consegue ajuda! Ah, meu Deus... é isso o que ela pensa...
– Não, Van. Eu juro. Se fosse, eu contaria. Prometo. Clara nunca encostou a mão em mim. – Não de um modo que eu não quisesse, que não desejasse... – Não é o que você está pensando.
Ela me encarou e me toquei de que havia falado demais. – Mas é alguma coisa, Mari. Acabou de admitir.
– Não é nada – insisti, tentando sorrir. – Você está se deixando levar.
Vanessa soltou minha mão bruscamente, como se eu a tivesse traído. E tinha mesmo. Havia mentido para minha melhor amiga e ela sabia disso.
– Não acredito em você, Marina. Como pode não confiar em mim? – desabafou ela, com a voz embargada. Vanessa subiu a escada correndo, para longe.
Deixei-me desabar no meio da escada vazia, mais solitária do que nunca. Tinha perdido Clara, Santiago e, agora, Vanessa. Até meus pais pareciam estranhos vivendo num mundo mais simples, que eu havia deixado para trás. Meu único amigo era um vampiro velho que adorava cappuccino.
E, para completar, eu estava ganhando inimigos.

– Ora, ora, ora, se não é a Pacotão.
A voz desprezível vinha de cima. Olhei por cima do ombro e vi Felipe Dormand e André Strausser parados no patamar. – Vão se catar – respondi. Eles desceram a escada batendo os pés, me cercando. – O que você está fazendo, aberração? – zombou Felipe, chutando minha canela. Levantei-me, pronta, quase ansiosa para confrontá-los. – O que vocês querem?
– Queremos saber que aberração está acontecendo naquela garagem da fazenda dos seus pais – disse André. Eu nunca havia notado como sua cabeça parecia literalmente dura sob o cabelo claro raspado.
– Vocês dois usam demais a palavra “aberração” – observei. – Deviam consultar um dicionário de sinônimos. Tem um na biblioteca. Sabem onde fica a biblioteca, não sabem? – Uuuh, a Pacotão está respondona hoje – zombou Felipe. Tentei passar, mas eles bloquearam o caminho. – Não tão depressa – disse Felipe.
– É – grunhiu André. – Queremos saber o que aquela aberração... – Sério, arranjem um sinônimo.
– ...o que aquela aberração que mora na sua casa está fazendo com a minha namorada. A namorada dele? Era para rir?
– Acho que Fernanda tem uma namorada nova, caso ainda não tenha notado.
André fez uma careta. Seu rosto rosado ficava bem feio quando ele sentia raiva.
– Aquela garota fez alguma coisa com a Fernanda. Ela não é normal. Ela... ela... tipo, hipnotizou a Fernanda.
– Não sei do que está falando. E não seja mau perdedor. O futebol não ensinou nada a você?
Felipe deu um peteleco na minha orelha. – Não fale assim com o André.
Dei um empurrão de alerta em Felipe.
– Eu falo com ele como quiser. E nunca mais encoste a mão em mim.
– Ou o quê? Vai mandar sua  guarda-costas me pegar? Porque, por mim, pode vir. – Nós sabemos sobre ela – acrescentou André, querendo me intimidar. – Vocês não sabem nada.
– Sabemos sobre o sangue em você – disse Felipe. – E sabemos tudo sobre a Vlascarponni. Nós pesquisamos na internet. A garota acha que é uma vampira.
Era a primeira vez que eu ouvia alguém, além de Clara e da minha família, usar aquela palavra. Meu sangue congelou. – O quê?
– Uma vampira – repetiu André.

– E você sabe disso – declarou Felipe, cutucando meu ombro.
– Vocês dois são malucos. Prestem atenção no que estão falando.
– Existe um site só sobre a família da Clarinha, os tais da Romênia – disse André. Felipe deu um risinho.
– E sabe o que fazem na Romênia, com os vampiros? Engoli em seco. É, eu sei.
Felipe fez um gesto como se cravasse uma estaca no peito.
– Eles já fizeram isso. De verdade. Fizeram com a família da Clarinha. Com os pais dele. – E a gente não gosta de gente esquisita por aqui – afirmou Dormand.
Havia algo realmente ameaçador no modo como ele disse aquilo. Eu me forcei a rir. Mas meu riso pareceu superficial e medroso. – Vocês dois são sem-noção. – Ah, acho que não...
Felipe foi interrompido pela batida de uma porta acima de nós e o som de tênis correndo na escada.
– Você está aí – gritou Fernanda Cerqueira, jogando-se nos braços de André, quase me derrubando nos últimos degraus.
Ela começou a soluçar, agarrando André. Ele a segurava frouxamente, com a confusão estampada no rosto apático e idiota. – O que foi, gata?
– Ela terminou comigo – choramingou ela. – Aquela aberração...
Pronto. Eu ia ter que comprar um dicionário de sinônimos para dar a cada um deles na formatura.
– ...terminou comigo – repetiu ela, afastando-se e apontando para o peito com o polegar. – Deu o fora em mim! Fernanda Cerqueira!
De repente ela percebeu que eu estava ali e voltou sua ira para mim, apontando o dedo na minha direção.
– Você... vocês duas... vocês são... – Aberrações? – sugeri.
– É! Odeio vocês duas. – Em seguida se virou para André, abraçando-o. – Nem sei por que rompi com você. É como se ela tivesse me enfeitiçado. Mas agora tudo parece esquisito demais.
Ela começou a chorar, grudada no André. A coisa me pareceu um pouco exagerada, mas o cara estava engolindo. Deu um tapinha nas costas dela com a mão grandalhona.
– Senti tanto sua falta! – disse Fernanda, soluçando. – Por que fui me ligar naquela garota?
Parte de mim estava imensamente aliviada. Clara tinha voltado a si. Tinha mandado Fernanda  passear. Talvez, apenas talvez, fosse um sinal de que iria honrar o pacto...
Minha alegria durou pouco. Soltando-se de André, Fernanda Cerqueira voltou a me encarar, os olhos estreitados em fendas, a boca retorcida de fúria. Apontou aquele dedo para mim de novo, falando por entre os dentes trincados e as lágrimas.
– Diga a sua preciosa Clara Vlascarponni  que ninguém, ninguém, dá o fora em Fernanda Cerqueira. Ela vai se arrepender.
Fernanda  ainda estava me encarando furiosa quando cheguei ao topo da escada e olhei para ela.
– Ela me paga – gritou Fernanda para mim. Acreditei nela.
Tudo o que eu havia posto em movimento com aquele copo de sangue derramado estava fugindo ao controle mais depressa ainda do que eu poderia supor.
Eu nunca tinha acreditado que Felipe Dormand conseguiria ligar Clara à palavra vampiro. Mas ele conseguiu. E agora Fernanda  estava furiosa com Clara.
Por mais idiota que fosse, Felipe  descobrira a verdade. E Fernanda  era a pessoa certa para usá- la sem misericórdia.
Eu tinha subestimado meus inimigos.
Clara diria que eu havia cometido um erro de principiante. O erro de uma garota que não estava pronta para comandar legiões de vampiros. Eu tinha muito a aprender e não havia tempo suficiente para isso.

Clara? – chamei. Minha voz ecoou no ginásio quase vazio.
O amplo espaço estava praticamente escuro, com apenas uma fileira de luzes acesas. Na outra ponta da quadra, Clara treinava arremessos sozinha, daquele modo repetitivo, ritualístico, que eu tinha visto antes: quicar, arremessar, recuperar... de novo e de novo e de novo, jamais errando. Jamais hesitando. Ela não se virou ao escutar minha voz e, sem saber se ela tinha ouvido, fui andando em sua direção pelo vasto piso de madeira. – Clara? – tentei de novo quando cheguei ao garrafão.
Ela passou a bola pelo aro e deixou-a quicar para longe, virando-se para mim, perplexa. Nada satisfeita.
– Marina... como me achou?
– Vi você sair com a bola e está frio demais para jogar lá fora – respondi. Olhei o ginásio vazio. – Resolvi ver se você estava aqui. – Como entrou? A escola está trancada. – Do mesmo modo que você. Bati na janela onde o zelador estava trabalhando. Ele disse onde eu podia encontrar você.
– Ele costuma deixar a porta que fica mais perto do ginásio aberta para mim. Garanti que violar as regras valesse a pena para ele, é claro.
Parte da raiva parecia ter se esvaído de Clara, como se houvesse se curado junto com os ferimentos. Mas a antiga Clara não estava de volta. A vampira à minha frente parecia uma encarnação novinha em folha.
– Você está bem? – perguntei. – Ouvi falar sobre a Fernanda. Que você terminou com ela. – É. Já havia rendido o suficiente, como acontece com esse tipo de coisa.
Percebi que Clara e eu estávamos muito perto do lugar onde havíamos dançado, no baile de Natal, que parecia ter rolado numa vida anterior, apesar de apenas algumas semanas haverem se passado. Por mais que tivéssemos ficado próximas naquela noite – nosso sangue quase se misturando –, parecíamos completamente distantes no ginásio vazio. Era como se eu estivesse parada do outro lado da quadra. Em outro planeta.
– Eu cometi um erro, Clara, bebendo o sangue e deixando que Fernanda me visse. – Já cometi erros piores, Marina. Não se preocupe desnecessariamente.
– Mas agora Felipe está falando que você é uma vampira, Fernanda está revoltada e todo mundo está fofocando. Até Vanessa se afastou de mim, com medo dos boatos. – É, muitas coisas parecem estar convergindo.
Clara não deu um sorriso torto, como eu esperava. Estava estranhamente silenciosa. Numa calma quase sobrenatural.

O que vai fazer, Clara?
Ela me deu as costas e arremessou a bola, convertendo uma cesta com facilidade. – Jogar basquete, Marina. E esperar. – Clara...
– Boa noite, Marina – disse ela, abafando qualquer resposta que eu pudesse ter dado com
o som da bola quicando no piso de madeira, o guincho do tênis na quadra e o chiado da bola passando pela borda. De novo, de novo e de novo.

***

Oi, Vanessa.
Apoiei as costas na parede de ladrilhos do ginásio e me sentei ao lado da minha amiga, que tinha sido eliminada pouco antes de mim.
– Parece que isso doeu. Vanessa  evitou meu olhar. Ficou observando o jogo de queimado como se tivesse feito uma aposta de um milhão de dólares em quem venceria. – Foi só uma bolada.
– Mas aquela idiota da Diana mirou bem na sua cabeça. Vanessa se afastou só um pouco. Continuava sem me olhar. – Não doeu tanto assim.
– Ainda está com raiva de mim? Ou só assustada? – perguntei. Vanessa deu de ombros.
– Um pouco dos dois, eu acho.
– Ah. Porque primeiro parecia que você sempre tinha uma desculpa para a gente não almoçar juntas. Depois desaprendeu a retornar telefonemas... Está me evitando há duas semanas, Van.
Vanessa remexeu nos cadarços do tênis, amarrando-os de novo com o tipo de concentração empregada por crianças de 5 anos. – Estou ocupada, só isso.
– Você não está tão ocupada. Finalmente Vanessa me olhou. – Desculpa, Mari, mas... – Mas o quê?
– A coisa ficou esquisita demais para mim. – Então você acredita nos boatos.
Ela voltou a acompanhar o jogo de queimada.
– Não sei no que acreditar. E você não me conta nada.
– É complicado. Mas se puder confiar em mim por enquanto, até eu resolver... Vanessa se virou para mim de novo e dessa vez havia medo em seus olhos. – Não é só com relação a você, Marina. – Então o que é?
– É... ela. Foi ela que mudou você. Ela fez alguma coisa com você. E fez com Fernanda também. Ela mostrou os arranhões para as pessoas... Vanessa não precisava esclarecer quem era “ela”: Clara. – Tudo estava normal até que ela chegou e mudou você – disse Vanessa, com sofrimento na voz, como se Clara tivesse roubado alguma coisa dela. E acho que, segundo o ponto de vista de minha amiga, tinha mesmo.
– Não é culpa da Clara. Quero dizer, não é culpa de ninguém, porque tudo está tranquilo. – Não está, Mari. – O controle de Vanessa foi se desfazendo. – Você sabe que gosto da Clarinha... eu gostava da Clarinha. Mas estão dizendo que ela não é normal. As pessoas estão com medo.
– Você não tem do que ter medo. Vanessa tentou sorrir mas não conseguiu. – Se você diz, Mari...
– Você vai ao meu aniversário, não vai? – perguntei.
Faltavam poucas semanas para eu completar 18 anos. Vanessa e eu sempre havíamos comemorado os aniversários juntas. Trocávamos presentes, comíamos bolo e fazíamos pedidos, lado a lado, desde os 4 anos. Sacudi a mão dela. – Vai estar lá?
Mas a força com que Vanessa puxou a mão de volta e o modo como olhou ao redor para ver se alguém teria visto aquilo me revelou que a tradição chegara ao fim.
– Foi mal, Marina – disse Vanessa, a garganta parecendo apertada. – Não posso. Não se ela estiver lá.
– Por favor, Vanessa...
Mas não tive a chance de convencê-la, porque uma bola perdida acertou a parede logo acima da minha cabeça. Meu grito involuntário alertou a professora Larson para o fato de que Vanessa e eu estávamos ali, à toa, e ela soprou seu apito.
– Tragam esse rabo de volta para cá ou vão correr em volta da quadra – berrou ela, batendo palmas com força. – Não fiquem aí paradas engordando, suas preguiçosas! Levantei-me lentamente, com as costas deslizando pela parede, sempre procurando gastar
o máximo de tempo possível da aula de educação física. Mas Vanessa ficou de pé num instante, entrando na confusão, pegando a bola e arremessando-a contra nossas colegas com uma violência que me deixou pasma. Eu nunca tinha visto Vanessa Marterinne  participar de verdade da aula de educação física. Ela sempre se esforçava ao máximo para ser a primeira a ser eliminada de um jogo ou fingir que havia se machucado. E era a atriz mais convincente que já conheci para representar uma crise de cólica. Num só mês conseguiu ficar menstruada durante três semanas seguidas. Mas agora Vanessa corria pela quadra, pegando cada bola perdida em que conseguia pôr as mãos, disparando como uma metralhadora num filme de gângster. E talvez me imaginasse lá, encolhida contra a parede.
– Venha para cá também, Meirelles! – gritou a professora Larson, soprando o apito de novo. – Agora!
Mas achei melhor ignorá-la. Fiquei só olhando para Vanessa  durante alguns instantes, depois fui para o vestiário, pedindo licença com uma dignidade decidida que minha professora de educação física pareceu incapaz de contradizer, pois nem tentou dar a ordem outra vez.

**

Sra. Francisca?
Levantei o olhar de um rabisco elaborado que estivera fazendo no caderno e vi Felipe Dormand balançando sua mão gorda, tentando atrair a atenção da professora. Eu nunca tinha visto Felipe levantar a mão para nada, então achei que ele estivesse com diarreia e precisasse de permissão para ir ao banheiro ou... na verdade não consegui pensar em nenhum outro motivo para um imbecil como Felipe chamar a atenção para si mesmo numa sala de aula. Por isso o que ele disse em seguida me surpreendeu totalmente.
– Diga, Felipe – respondeu a Sra. Francisca, parecendo tão perplexa quanto eu. – Fiz um relatório sobre um livro. O quê?
– Nossa! – A Sra. Francisca não sabia se deveria ficar feliz, aterrorizada ou as duas coisas. – Fez? Bom, você não tinha sido escolhido...
– Eu sei – disse Felipe. – Mas estava tão interessado no livro que o li antes do tempo. Dava para ver que a Sra. Francisca estava um pouco intrigada, apesar de suas dúvidas óbvias. Ouvir que um aluno – especialmente um péssimo aluno como Felipe – tinha lido um livro antes do tempo... bom, devia ser o mesmo que ganhar na loteria e encontrar o amor verdadeiro num dia só.
– Leu? – repetiu ela, com um sutil brilho nos olhos.
Algo naquela situação me deu a impressão de estar muito errado. Virei-me para Clara, um pouco alarmada, mas ela apenas observava, os olhos plácidos, com aquela calma nova e estranha que havia cultivado.
– E o que você leu? – indagou nossa professora.
– Drácula – anunciou Felipe. – E estou preparado para falar sobre ele.
Ah, não. Ah, por favor, não. Agora estávamos numa espécie de terreno perigoso. Felipe e Fernanda haviam tramado alguma coisa. Por favor, Sra. Francisca, diga a ele para calar a boca. – Bem, Felipe, ainda faltam alguma semanas para lermos Bram Stoker – ponderou ela.
– Eu sei, mas fiquei empolgado com o livro. Me fez pensar em muitas coisas. Quero falar sobre ele para a turma.
A Sra. Francisca hesitou por mais um segundo, mas a ideia de um aluno medíocre ter descoberto coisas em que pensar era de mais para ela.
– Então, por favor, Felipe. Compartilhe seu relatório conosco.
Ela se sentou enquanto Felipe se espremia para sair de sua carteira e andava pesadamente até a frente da sala.
Meu coração havia disparado. Olhei para Vanessa, mas ela manteve a cabeça voltada para a

frente. Que diabo iria acontecer? Será que minha ex-melhor amiga sabia?
Felipe sacudiu uma folha de caderno e pigarreou. Então leu, daquele seu jeito monótono e desajeitado:
– O que surpreende no Drácula de Bram Stoker é o fato de ele se basear na história real de um vampiro que viveu na Romênia. O nome desse vampiro era Vlad, o Empalador, que é meio parecido com o sobrenome Vlascarponni. Cala a boca, Felipe...
Atrás de mim, Fernanda riu baixinho e sussurrou “Ops!” de modo que apenas Clara e eu escutássemos.
– Algumas pessoas dizem que os vampiros ainda existem – continuou Felipe. – Se você procurar na internet vai ver que há um monte de informações sobre pessoas que bebem sangue, sangue humano, e se dizem vampiros. Muitos desses malucos vivem na Romênia, onde costumam ser mortos porque as pessoas normais não querem conviver com eles. Felipe parou e olhou para um ponto atrás de mim. Para Clara. Não.
– Felipe, não sei se isso é apropriado – interveio a Sra. Francisca, colocando-se de pé. Mas Felipe retomou a leitura, mais depressa, antes que alguém pudesse impedi-lo.
– Encontrei até nomes de pessoas que bebem sangue. Um monte de gente que diz que é vampiro tem o sobrenome Vlascarponni, como Clara. É uma coincidência estranha. – Felipe, sente-se agora! – ordenou a professora.
Mas era tarde demais. Os murmúrios haviam começado e todo mundo se virou boquiaberto para Clara. Todo mundo menos eu. Eu apenas olhei direto para a frente, talvez porque meu coração houvesse parado e eu estivesse tecnicamente morta. Meus dedos, que apertavam a mesa, estavam frios e rígidos.
– Vocês podem checar na internet – concluiu Felipe, ignorando a professora. – Vampiros. Iguais aos do livro. – Ele fez uma pausa. – E esse é o meu relatório.
Felipe dobrou seu papel e o enfiou no bolso de trás, com um sorriso presunçoso. Um sorriso que sumiu mais ou menos no mesmo instante em que uma sombra foi lançada sobre a minha mesa.
Clara, não entra nessa.
Mas é claro que uma princesa  vampira não ficaria parada deixando que brincassem com ela. Clara foi até a frente da sala e o sorriso de Felipe desapareceu por completo.
– Queria apresentar algum argumento com seu “relatório” incoerente e mal concebido, Sr. Dormand? – perguntou Clara, parada diante de Felipe. Suas costas estavam viradas para a turma, mas dava para ver a tensão nos ombros largos. Como uma gata pronta para atacar um rato gordo.
– Clara – disse a Sra. Francisca, avançando rapidamente.
Clara a ignorou. Ela se inclinou sobre Felipe, cutucando o peito do valentão com o dedo indicador, empurrando-o contra o quadro branco.
– Porque se tinha alguma coisa a dizer, deveria ser mais direto. Você não é inteligente o bastante para ser sutil.
– Chame a segurança – ordenou a Sra. Francisca a dionísio Bryce, que estava sentado mais perto da porta. – Corra!
Dionísio hesitou por um instante, como se estivesse com medo de perder a ação, depois disparou como uma bala pelo corredor.
Desviando-se do dedo de Clara, Felipe engoliu em seco, olhando os colegas de turma. Pareceu reunir alguma coragem com a presença deles.
– O que estou dizendo é que seus pais foram mortos porque eram vampiros sugadores de sangue. Está claro o bastante?
– Felipe Dormand, pare com isso agora! – berrou a Sra. Francisca, puxando os ombros de Felipe e levando-o para mais longe de Clara.
– Você está me acusando de ser uma vampira? – perguntou Clara, acompanhando passo a passo o recuo de Felipe. – Por que eu sou mesmo...
– Não! – berrei, me levantando da cadeira e correndo até Clara. Agarrei seu braço e a puxei com o máximo de força que pude. – Não deixa o Felipe provocar você.
Clara se virou, furiosa, como se fosse me empurrar, mas nossos olhares se encontraram e ela recuperou o autocontrole. A nova resignação fez seus olhos ficarem vítreos de novo. Ela soltou meus dedos do seu braço com delicadeza. Comecei a segurá-la outra vez, como se pudesse silenciá-la com minhas mãos, mas, no último segundo, deixei o braço tombar ao lado do corpo. Não havia nada que eu pudesse fazer.
Toda a turma mergulhou num silêncio fantasmagórico enquanto eu e Clara nos encarávamos. Eu implorava em silêncio para ela não dizer mais nada que a prejudicasse. Para não provocar uma briga de verdade. Clara me desafiava com um não dito “Por que não agora? Por que não deixar que o fim comece?”.
Dava para ouvir a respiração ofegante de Felipe, Clara e a Sra. Francisca enquanto todos esperávamos o que poderia acontecer em seguida. Atingíramos o ponto crítico. Estávamos nos equilibrando à beira do caos – ou da tranquilidade. Clara encontrou um modo de optar pela tranquilidade. Virou-se lentamente de volta para Felipe.
– Da próxima vez que tiver algo a me dizer, seja direto. E esteja preparado para uma resposta que vai deixá-lo com vontade de ter tido o bom senso de permanecer calado.
– Isso é uma ameaça? – Felipe se virou para a Sra. Francisca. – Ela não pode fazer ameaças! Isso é motivo para expulsão!
– Pare, Felipe – disse a Sra. Francisca. – Pare agora.
Então a segurança chegou, invadiu a sala e nos encontrou de pé, tensos mas controlados.
– O que está acontecendo aqui? – perguntou o policial da escola, ansioso para exercer um pouco de abuso de autoridade.
Esperei que o mundo caísse, mas, para minha surpresa, a Sra. Francisca não entregou a história toda. Sua voz estava um pouco trêmula, embora ela tenha permanecido firme.



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