História Como se livrar de uma vampira apaixonada - Capítulo 11


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Categorias Em Família
Tags Clara, Em Família, Marina
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Palavras 5.532
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Comédia, Ficção, Ficção Adolescente, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


bom meninas esta aqui a continuacao da historia :)

Capítulo 11 - Capitulo 11


– Marina, apague as velas.
Meu aniversário de 18 anos. Deveria ser um dos pontos altos da minha vida, mas foi horrível. Deprimente. Eu não tinha amigos e, portanto, não tinha festa. Meu único convidado, claro, era o tio Daniel, cuja presença contínua havíamos finalmente revelado a Clara e a meus pais.
Meu tio estava sentado à mesa, observando tudo com seus olhinhos brilhantes. – Isso é adorável – ficava dizendo ele. – É o máximo.
– A cera está pingando – avisou mamãe, dando-me um cutucão. Ela havia feito um bolo vegano com xarope de arroz, leite de soja e suco de maçã sem açúcar. Mas que delícia. Mesmo assim soprei, para deixá-la feliz. As velas estremeceram e se apagaram. Não perdi tempo fazendo um pedido.
– Parabéns! – disse mamãe, tentando animar a festinha.
Clara me olhou do outro lado da mesa enquanto mamãe cortava o pseudobolo. Se existe uma coisa pior do que uma vampira furiosa é sua versão impenetrável. Ninguém pode exibir um olhar vazio como um vampiro. Devolvi o olhar. Eu sentia sua falta. Se pelo menos ela falasse comigo... Clara  devia estar solitária. Todo mundo a evitava na escola, sussurrando pelas suas costas, enquanto a história do relatório de Felipe se espalhava nos corredores, dando mais força aos boatos que já circulavam. O fato de Clara ter praticamente admitido que era uma morta-viva, bem na frente da turma, não havia ajudado a acalmar a situação.
De repente não era incomum ouvir a palavra “vampira” sussurrada nos corredores da Escola.
– Ei, isso está uma delícia – disse papai, comendo sua fatia de bolo. Ele acredita mesmo nisso?
– Temos um presente para você.
Mamãe sorriu, me entregando uma caixa embrulhada no papel alegre e amarrotado, rosa e amarelo, que vínhamos reutilizando desde que eu tinha uns 10 anos.
– Ah, presentes! – exclamou Daniel, batendo palmas. – Adoro presentes.
Tirei com cuidado o papel de embrulho para que mamãe pudesse guardá-lo para mais um ano. Dentro da caixa havia uma calculadora bem moderna e um cartão anunciando que eu tinha renovado a assinatura da revista Mago da Matemática. Lancei um olhar perplexo aos meus pais. Eles sabiam que eu havia saído da equipe de matemática. – Talvez um dia você recupere o interesse – explicou mamãe.
Eu sabia o que ela queria dizer de verdade: talvez possa ser você mesma de novo. Vai superar Clara  e sua vida vai continuar.

Obrigada, mamãe e papai. É um presente maravilhoso.
– Clara, você também não tem um presente para Marianne? – cutucou Daniel. Clara voltou bruscamente de algum devaneio particular. – Ah, é. Claro.
Ela estivera tão distante, tão trancada em si mesma que eu não esperava que fosse comprar algo para mim.
Olhei com ansiedade enquanto ela enfiava a mão no bolso da calça jeans, tirando uma caixa. Uma caixa minúscula. De veludo vermelho. Como aquelas em que se colocam anéis. Anéis de noivado.
Meus pais prenderam a respiração. De repente meu coração estava disparado. Clara empurrou a caixa por cima da mesa.
– Aqui. Feliz aniversário. Muitos anos de vida. – Minha nossa – disse mamãe. – Não sei se... Forcei meus dedos a não tremerem enquanto pegava a caixa e abria a tampa. É agora? Será que Clara mudou de ideia? Vamos em frente com o pacto? Mas não.
Dentro, num pequeno quadrado de veludo branco puríssimo, não estava um anel, e sim um colar, com uma pedra de um vermelho tão fechado que chegava a ser quase preto. Era lindo. E eu odiei. Quase saí correndo por conta da decepção que apertou meu peito, tornando difícil respirar. Ao ver a caixa que serviria para um anel, eu acreditara mesmo que Clara havia voltado atrás. Por um breve momento eu tinha visualizado nós duas juntas. Todo o nosso futuro passou diante dos meus olhos. Eu. Clara. Paz entre os vampiros. A segurança nos braços uma da outra, imunes às ameaças dos Anciões ou dos nossos colegas de escola. Por um breve momento, eu havia pensado que a caixinha guardava a promessa de tudo isso.
Olhando para Clara do outro lado da mesa, percebi que minhas esperanças haviam sido absurdas. Ela não tinha a postura de um "homem" pedindo alguém em casamento. Estava sentada empertigada, os olhos vazios, contida em seu novo estado, serenamente desinteressada. Clara Vlascarponni não era uma pretendente prestes a se casar. Era uma vampira prestes a ser destruída. Esperando o que se abateria sobre ela.
Senti vontade de gritar e jogar o colar do outro lado da sala, como uma criança mimada que não tivesse ganhado o brinquedo que queria. Mas eu não era uma criança mimada. Era uma jovem mulher arrasada e precisava demonstrar uma elegância que não possuía.
– Obrigada – consegui dizer. – É lindo. – Então fechei a tampa e deixei a caixa de lado. – Estou cansada. Se vocês não se importarem, acho que vou subir.
Meus pais pareceram tristes e esgotados e percebi que eles também estavam sendo arrastados para baixo por meu sofrimento aparente demais e pela preocupação comigo e com Clara. Empurrando a cadeira para trás, fui até mamãe e lhe dei um abraço apertado.

– Muito obrigada pela festa. Você é a melhor mãe do mundo. Fui até meu pai.
– E você é o melhor pai. De todos os tempos.
– Você é uma jovem linda, Marina – disse papai, a voz embargada. – Nós dois temos orgulho de você.
Soltando-me do abraço de papai, cumprimentei Danie e Clara com a cabeça. – Boa noite e obrigada – falei.
– Boa noite, Marianne – cantarolou Daniel. – Muitos anos de vida!
Clara não disse uma palavra. Só ficou lá parada, olhando o presente rejeitado.
Mantive a compostura por todo o caminho até o quarto, mesmo depois de estar fora do alcance da audição da minha família. Enquanto me despia e vestia a camisola, não cedi às lágrimas. Segurei os soluços até me deitar na cama. Enterrei o rosto no travesseiro e os abafei, para que ninguém ouvisse. Não deixaria meus pais mais preocupados do que já estavam.
– Marina.
A voz dela veio da porta.
Através das lágrimas, vi a forma ondulante de Clara parada na entrada. Enxuguei os olhos, sem graça por ter sido surpreendida chorando.
Ela entrou no quarto, fechou a porta em silêncio e veio até mim, sentando-se na cama.
– Por favor, não chore – disse ela, me tranquilizando. – Não há nada que valha suas lágrimas. É seu aniversário.
– Está tudo errado – protestei, esmagando o choro com as palmas das mãos.
– Não, Marina. – Clara puxou minhas mãos. Passou gentilmente os polegares sob meus olhos, primeiro um e depois o outro, enxugando as lágrimas. – Para você as coisas vão ficar bem. Este é um dia feliz. Seus 18 anos são um marco importante. Por favor, não suporto ver suas lágrimas.
– Um dia feliz?
Eu estava incrédula.
– A caixa... você pensou que era outra coisa. Eu vi seu rosto. Você ficou desapontada. Pensou que eu tivesse mudado de ideia... – Pensei – respondi, ainda fungando.
– Não, Marina. – Ela balançou a cabeça. – Nunca. Você precisa esquecer aquilo tudo.
– Não posso – respondi, estendendo a mão para ela. Mas Clara se levantou depressa, quase como se tivesse medo de me tocar, e eu sabia que, apesar do seu distanciamento e da sua frieza, uma parte dela ainda se sentia atraída por mim. Sempre soube que ela se sentira atraída por mim, como eu me sentira atraída por ela.
– Você não me deu a chance de explicar meu presente – declarou ela, enfiando a mão de novo no bolso e pegando a caixa. Em seguida a entregou a mim. – É melhor do que um anel. Melhor do que a promessa de... o quê? A eternidade com um vampiro condenado?
– Nada me deixaria mais feliz do que você concordar com o pacto – falei, recusando-me a pegar a caixa.
– Ah, Marina, abandone essas ideias em favor do que eu posso oferecer. – Ele estendeu a mão de novo, com a caixa na palma. – Você não reconheceu o conteúdo? Eu estava confusa, mas me levantei, curiosa, pegando a caixa. – De onde?
– Da foto. Sei que olhou para ela, Marina. Eu sabia que você iria olhar, na hora certa. Quando estivesse preparada.
Minha mãe. Era o colar da foto que ela havia enfiado no livro. Abri a tampa de novo. – Ah, Clara. Onde conseguiu?
– Ele foi guardado para você, na Romênia. Para lhe ser dado nesta ocasião. Era o pertence preferido de sua mãe e é uma honra para mim lhe entregar uma recordação tão importante. Espero que você o use durante muitos anos, com boa saúde e boa sorte.
Fui até a mesa e peguei a foto na moldura de prata, olhando o jaspe-sanguíneo que enfeitava o pescoço da minha mãe. A pedra que agora eu segurava na outra mão era uma prova palpável da existência de Marianne Dragomir. Uma ligação verdadeira com ela. A pedra se destacava sobre o veludo branco e era de um vermelho fechado, como um coração de verdade. Um coração transplantado da minha mãe para mim. Clara veio por trás, pondo as mãos nos meus ombros.
– Ela não é linda, poderosa, majestosa... como você? – perguntou ela. – Acredita mesmo nisso?
– Acredito. E acho que você também passou a acreditar. – Então...
– Não. – Clara nem me permitiu falar do pacto.
Pus a foto novamente sobre a mesa e me virei para o espelho. Tirando o colar da caixa, encostei-o diante do pescoço.
Clara me acompanhou pelo reflexo da minha imagem. – Permita-me, por favor.
Outra vez ela parou atrás de mim, tirando o cordão delicado dos meus dedos. Afastei o cabelo do pescoço e Clara passou o cordão em volta e prendeu o fecho.
A pedra era fria ao encostar na pele, como devia ser o toque de vampira da minha mãe. Enquanto eu me olhava no espelho, o poder que eu havia sentido crescendo dentro de mim –
o poder dela – surgiu com uma força ainda maior. A conexão que eu viera estabelecendo com Marianne Dragomir finalmente estava soldada junto ao fecho daquele frágil cordão e eu quase podia ouvi-la sussurrar no meu ouvido: “Não a considere perdida ainda, Marianne. Esse não é o nosso estilo. Sua vontade é tão forte quanto a dela e o amor de Clara é tão forte quanto o seu.”
Virei-me para encarar Clara e não esperei que ela se afastasse, me puxasse para perto ou fizesse qualquer movimento. Pus as mãos em seu peito, deslizei-as para cima e envolvi seu pescoço com os braços.
– Marianne, isso não pode acontecer...
Clara agarrou meus pulsos com as mãos, como se quisesse me empurrar.
– Pode acontecer – garanti, segurando-o com firmeza, os dedos se cruzando atrás do pescoço dela, afagando seu cabelo preto.
– Por que não sou capaz de fazer o que deveria? – gemeu ela, cedendo com facilidade, não só aceitando meu abraço mas correspondendo a ele. – Eu já deveria ter ido embora... Acho que desperdiço tempo só de estar perto de você. E em troca de quê? De alguns momentos que em breve não serão nada além de lembranças para você? Uma anotação trágica no diário de uma garota?
– Você ficou por causa deste momento – respondi, permitindo, agora, que ela assumisse o controle, como sabia que ela iria querer. Eu exercera todo o poder de que precisava. Tinha atraído Clara de volta, resgatando-a daquela distância fria. Agora eu queria que ela me beijasse. Que mordesse meu pescoço. Que realizasse o que nós duas queríamos havia tanto tempo. Desde que ela tinha se inclinado sobre mim na cozinha, no dia em que chegou à minha casa, a mão roçando no meu rosto. Desde que havia me encarado e dito: “Seria realmente tão repugnante, Marianne, ficar comigo?”
Mesmo naquela época eu sabia, bem no fundo, que não seria nem um pouco repugnante. Que seria algo quilômetros e quilômetros além de legal. Que poderia ser simplesmente a glória.
Clara hesitou por só mais um instante, olhando-me nos olhos.
– Não sou menos perigosa para você, Marianne – sussurrou ela. – O que quer que façamos será apenas por esta noite. Não muda nada. Vou partir para encontrar meu destino e você ficará aqui para seguir adiante com o seu.
– Não pense nisso agora – implorei. Eu não acreditava que o que faríamos naquela noite não mudaria nada. Acreditava que poderia mudar tudo. – Só esqueça o futuro por enquanto.
– Como quiser, minha princesa – disse Clara, fechando os olhos, se entregando a mim. Em seguida se inclinou para roçar os lábios frios, suaves, contra os meus, primeiro com delicadeza, depois com mais insistência.
Enfiei os dedos mais fundo em seus cabelos, puxando-a contra mim, e, quando fiz isso, Clara soltou um gemido faminto, passando as mãos por meus cachos castanhos, e nos beijamos com mais força, como se estivéssemos famintas uma pela outra. Como se estivéssemos devorando uma a outra.
E enquanto nos beijávamos, nos beijávamos de verdade, algo dentro de mim foi esmagado, como um átomo se partindo, irrompendo com toda a força de um núcleo despedaçado. Mas eu também estava em paz. Era como se tivesse encontrado meu lugar no Universo, no caos, e Clara e eu pudéssemos seguir juntas por todo o tempo sem fim, como pi, existindo infinitamente, irracionalmente, girando para sempre.
Seus lábios deslizaram em direção ao meu pescoço e meus incisivos começaram a doer ao toque de suas presas, que roçaram minha pele, afiadas. Ela passou os dentes por toda a extensão do pescoço, até onde o jaspe- -sanguíneo repousava, perto do esterno.
– Clara, sim – insisti, mostrando o pescoço o máximo que podia, oferecendo e implorando. – Não pare... por favor, não pare desta vez... Se ela me morder, será minha... Para sempre...
– Não, Marianne. – Ela lutou contra si mesma, mas o apertei de novo, sentindo suas presas morderem minha carne, quase o bastante para rasgar a pele, e meus dentes se afiaram contra as gengivas, perto de atravessá-las.
– Sim, Clara... minhas presas... estou sentindo... – Não.
Clara recuperou o controle, mas era um controle tênue, e ela deslizou as mãos envolvendo meu rosto, afastando-se, me olhando nos olhos de novo.
– Chegamos perto demais, Marianne... O beijo deve bastar. Não serei eu a condená-la, mesmo que você deseje isso. Não vou arrastá-la para a destruição também. – Não entendo... – Nós chegamos tão perto...
– Por favor, nunca lamente isso, Marianne – implorou ela, e seus olhos eram o oposto de frios e distanciados. De repente ela parecia abalada, quase desesperada. – Não fique com raiva quando eu for embora ou mudar. Por favor, só se lembre disso como foi de verdade e foi tudo para mim. Para a mulher  que sou agora.
– Você não vai mudar, Clara – garanti, segurando seus pulsos, sem entender. O que nós tínhamos acabado de compartilhar... Com certeza nós duas, juntas, poderíamos selar pactos, acabar com guerras e reagir a qualquer desafio. Éramos da realeza vampírica. E estávamos juntas. – Você não vai a lugar nenhum. Agora está tudo bem. Vai ficar bem. – Não, Marianne. Não está bem. Não vai ficar bem.
Até aquele momento eu não havia notado que meu quarto tinha sido rasgado por um clarão de luz vermelha, que produzia uma imitação bizarra de sangue nas paredes. – Clara? O que está acontecendo?
Ela não respondeu. E ainda me segurava quando papai entrou bruscamente no quarto.
– Clara, a polícia está aqui – disse papai. Ela estava controlada, ainda que de maneira estranha. – Uma garota disse que foi mordida por uma vampiro e identificou você. – Clara?
Olhei-a desesperada, esperando por uma resposta. Mas Clara apenas me beijou mais uma vez, de leve, nos lábios, e se virou para o meu pai.
– É melhor que eu enfrente isso sozinha, Sr. Meirelles – disse ela. – Por favor, deixe-me lidar com isso sem sua ajuda dessa vez.
Papai hesitou, depois ficou de lado e permitiu que Clara saísse, me segurando enquanto eu tentava ir atrás.

– Ela está armando contra a Clara – falei para os meus pais. – Fernanda jurou
que iria se vingar por ela ter terminado o namoro. Fernanda inventou tudo. Os dois trocaram um olhar de dúvida.
– Clara terminou com Fernanda  há dias – acrescentei, defendendo-a. – E tenho quase certeza de que foi porque tinha medo de acabar mordendo aquela garota. Ela sabia que estava perdendo o controle, mas se conteve.
Mamãe lavava a louça da minha festa frustrada.
– Marina, Clara está passando por algo muito difícil, lutando consigo mesma. Não podemos ter certeza do que aconteceu. – Não aconteceu nada!
– E “nada” estava acontecendo no seu quarto? – perguntou papai. – Você está envolvida demais com Clara para ser imparcial, Marina.
– Ela é uma Vlascarponni – argumentou mamãe, mergulhando os pratos na pia. Parecia muito chateada. – Ela deseja não ser assim, mas pode não conseguir lutar contra esse seu lado. Talvez tenha sido até perigoso deixá-la morar aqui. Nem sei mais se fizemos a coisa certa.
– Vocês estão sendo injustos. Só porque os tios dela são horríveis não significa que Clara seja um monstro! Ela não mordeu Fernanda. Por favor, vamos até a delegacia! Meus pais trocaram outro olhar inseguro. Então papai disse:
– Marina, independentemente de como a gente se sinta, Clara  pediu para cuidar disso sozinha. Vamos respeitar o desejo dela. E você também vai.
– Agora eu tenho 18 anos – observei. – Não preciso da permissão de vocês para fazer nada.
– Mas precisa de um carro – observou mamãe.
Corri até o gancho perto da porta dos fundos, onde meus pais guardavam as chaves. Tinham sumido.
– Cadê as chaves?
– Isso é para o seu próprio bem, Mari – disse papai. – Você foi muito a fundo com Clara. Precisa recuar.
– E é nossa responsabilidade protegê-la – acrescentou mamãe. – Queremos ajudar Clara  também, é claro. Mas você é nossa maior prioridade. Encarei os dois, me sentindo traída.
– Ela não nos quer agora, filha. Fizemos tudo o que podíamos – disse papai. O telefone tocou e
Não, é a Vanessa.
– Não posso falar agora...
– É sobre a Clara – disse ela. Havia pânico em sua voz. – O que é? O que está acontecendo? – Não sei se devo contar.
– Diga logo, Vanessa. Por favor.
– Eles estão fora de controle. Estão falando em espancar a garota pelo que ela fez com a Fernanda. Felipe incitou todo mundo com aquele papo de vampiros. Eles estão malucos! Meus dedos apertaram o fone.
– O que você ouviu exatamente?
– Tem uns caras... esperando a Clara. Vão levá-la para o celeiro do Santiago e “dar uma lição nela”. – Ela fez uma pausa. – Estou com medo por ela, Mari. Não sei o que ela fez com você...
– Nada!
– Mas estou com medo por ela. Estão falando do sangue em você e dos arranhões em Fernanda e de como a perna dela se curou tão depressa... e de todas as coisas que acharam no site sobre a família da Clara, Mari. – Ela fez outra pausa. – E Fernanda ouviu você chama-la  de Vampira também. No estábulo.
Aquele dia no estábulo, há milênios. Mais uma vez eu piorei as coisas para a Clara. Pelo jeito, eu é que sou perigosa...
– Eles ficam falando sobre vampiros e estacas – gritou Vanessa. – Estacas? – perguntei. O fone quase caiu da minha mão.
– É, Marina. Estão levando estacas, como se estivessem na Idade Média ou sei lá o quê! Para
o caso de ela ser uma vampira de verdade! Eles piraram!
Estacas. Pessoas fora de controle. Turbas. Meus pais biológicos foram destruídos dessa maneira...
Lutei para permanecer calma.
– Eles disseram quando isso vai acontecer?
– Esta noite. Mais tarde. Vão pegar a Clarinha quando ela sair da delegacia. Todo mundo já soube que ela foi presa.
É claro. A rede de boatos devia estar frenética. – Obrigada, Vanessa.
– Eu... eu sei que a gente não tem sido amiga ultimamente... mas isso... isso é loucura. Achei que você deveria saber. – Preciso desligar. – Mari? – O quê? – Feliz aniversário. – Tchau, Vanessa.

Desliguei o telefone, escancarei a porta antes que meus pais pudessem me impedir e corri para selar Bela.

**

CARO FREDERIC,
Desculpe o papel timbrado barato da Delegacia de Polícia de Goiânia. Tenho sorte de possuir ao menos isso para escrever a você.
Parece que fui acusada de “atacar” uma garota local, Fernanda Cerqueira. e de morder seu pescoço. Eles vão terminar de me “fichar” logo, portanto vou tentar ir “direto ao ponto”, como dizem por aqui. Mais importante: eu NÃO cravei as presas naquela garota insuportável. Ela inventou o ferimento. Os policiais enfiaram uma série de fotos “chocantes” debaixo do meu nariz, observando minha reação. Não pude deixar de rir. Marcas de mordidas, sim. Mas de um vampiro? Não. Mas foi uma falsificação hábil. Fernanda sem dúvida é esperta. E aparenta ser imune à dor. As marcas pareciam bastante profundas. E havia uns bons hematomas. Bravo. Trabalho excelente.
Durante um período particularmente sombrio, cheguei a desfrutar da natureza tortuosa de Fernanda. Agora meu flerte retorna para me morder. Irônico, não?
Fora isso, sinto que o humor neste pequeno povoado está bastante implacável no momento. Ainda que eu deva ser liberada “com o compromisso de ficar à disposição” até que seja acusada formalmente, tenho uma forte suspeita – intuição de vampira – de que “a coisa tá preta”.
Ou, para usar termos que você terá mais facilidade de entender, a turba está se reunindo, como previ já há algum tempo.
Escrevo porque sei que você ansiou pelo prazer de me destruir pessoalmente por tê-lo desafiado – por violar o pacto e arruinar seu plano. Ah, como deve ter ansiado por cravar fundo a estaca. Mas agora a tarefa será feita por um bando de adolescentes Brasileiros  ridículos. De certo modo eles foram melhores do que você, Frederic. É cruel da minha parte ficar feliz em privá-lo do que tanto quis? Sinto mesmo alguma alegria em saber que sempre lamentará que não tenha sido por suas mãos...
Dito isso, vou de boa vontade ao encontro do meu destino no humilde estado de goiânia no estado de, Brasil. E, assim, a história se repete. Mais uma Vlascarponni destruída. Lutarei para partir de modo tão corajoso e estoico quanto meus pais. Para manter a honra do clã – que é mais do que você fez, Frederic, segundo meu ponto de vista.
Também escrevo em favor de Marina. Eu não a mordi, Frederic. Ela permanece sendo uma adolescente brasileira. Deixe-a assim. O sonho de uma princesa Dragomir acabou.
Há mais alguma coisa a dizer? Parece estranho, dada a minha queda pelas missivas cheias de divagações, que minha última carta seja tão breve. Mas, na verdade, estou morta – em mais de um sentido. (Quem pode resistir ao humor negro? Não é sinal de coragem rir da própria extinção?)
Confio esta carta ao Serviço Postal do Brasil. Uma organização muito confiável. É rara a burocracia à qual podemos confiar nossas últimas palavras. Acredito que esta vá encontrá-lo em curto tempo. Sua sobrinha em sangue e memória, Clara

**

Os cascos de Bela trovejavam na noite chuvosa. Eu estava congelando na
sela. Era o fim do inverno e a noite continuava gelada, a chuva misturada com o vento batia no meu rosto, deixando minha blusa molhada. Não tive tempo de pegar um casaco.
– Anda, Bela – instiguei, batendo os calcanhares nos flancos, desejando que a égua seguisse mais depressa. Parecia que ela entendia minha urgência, porque voava pelo campo. Rezei para que não caísse na toca de um bicho e quebrasse uma pata, porque a noite estava escura demais e nós corríamos de maneira imprudente pelo terreno irregular.
Salvar Clara... Salvar Clara... Era o que martelava nos meus ouvidos a cada batida de cascos.
À minha frente, o celeiro dos Spadaro surgiu, cinza-claro e em arco, como uma lápide contra o céu. Um gritinho escapou dos meus lábios. Já havia carros ali. Mas não posso estar atrasada demais. Não posso. Quando saltei de cima de Bela antes mesmo de ela parar, escutei vozes dentro do celeiro. Vozes raivosas, masculinas, e um ruído de briga. Corri até o celeiro e abri a porta pesada, puxando-a para trás em seu trilho enferrujado.
Lá dentro, um pandemônio. A briga já estava acontecendo. A turba estava solta.
– Santiago, não – gritei, vendo meu ex-namorado no meio da balbúrdia. Mas ele não prestou atenção. Ninguém sequer me notou quando corri para o meio da confusão, tentando tirar os garotos de cima da Clara. Havia sangue por toda parte e punhos voando enquanto Clara lutava sozinha contra eles. Ela era muito forte, mas não o bastante para aguentar aquilo...
– Vou matar você pelo que fez com ela – gritava André ao socar Clara. Tentei agarrar os punhos de André, mas alguém me puxou para longe, lançando-me contra uma parede. Voltei gritando para eles pararem, mas ninguém prestou atenção. Estavam embriagados de vingança, medo e ódio, ódio de alguém diferente deles. – Parem – implorei. – Deixem ela em paz!
Clara deve ter ouvido minha voz, porque se virou para mim, só por um segundo, e vi surpresa em seus olhos. Surpresa e resignação.
– Clara, não – gritei, sabendo o que ela iria fazer. Iria se destruir.
E então ela fez um movimento fatal. Virou-se para os garotos já furiosos e mostrou as presas.
A bravata de machão foi abandonada pelos agressores.
– Vampira! – gritou André, com terror e choque se misturando na voz.
– Filha da mãe... – xingou Felipe  Dormand, recuando, parecendo petrificado, como se de repente tivesse percebido que aquilo não era mais apenas um jogo. Ele havia liberado um poder que jamais esperara realmente, apesar de todas as suas histórias de vampiros, sites e estacas.
André também se afastou cambaleando pelo piso coberto de feno, mas ainda tentando pegar algo atrás, às cegas.
Eu vi antes que ele a localizasse. A estaca. Feita em casa. Grosseira, porém fatal. Parcialmente enterrada no feno. Mergulhei para pegá-la, mas Santiago  também a viu e foi mais rápido. Agarrou-a e foi na direção de Clara, que lutava para ficar de pé, pronta para se defender do lutador mais baixo, mas mesmo assim muito forte.
– Não, Santiago! – gemi, me ajoelhando com dificuldade, e tentei agarrar as pernas dele, sem conseguir. Clara rosnou e avançou também.
E então, como se fosse em câmera lenta, vi meu ex-namorado levantar o braço, saltar para a frente e enfiar a estaca no peito de Clara.
– Santiago... não! – gritei. Ou pensei ter gritado. Não me lembro de ter ouvido as palavras saírem de minha boca.
E numa fração de segundo tudo estava acabado.
Santiago – o garoto legal – estava junto ao corpo de Clara. O corpo totalmente imóvel de Clara.
– O que você fez? – esbravejei no silêncio súbito.
Santiago recuou, com o pedaço de madeira pesado, afiado e sangrento na mão.
– Tinha que ser eu – disse ele, me olhando com expressão arrasada. – Desculpa. Eu não sabia o que ele queria dizer. Não me importava.
– Clara – gemi, cambaleando pelo feno. Desmoronei ao lado dela, tentando sentir sua pulsação. Ela estava lá, porém mais fraca do que o normal. O sangue escorria por um buraco na sua blusa. Um buraco enorme. Olhei para o círculo de rostos. Rostos familiares. Garotos que eu conhecia da escola. Agora a raiva havia sumido e a consciência do que tinham feito parecia se assentar. Como puderam ter feito isso? – Chamem alguém para ajudar – implorei.
– Não, Marianne – disse Clara, baixinho.
Eu me curvei sobre ela, apertando gentilmente a mão no buraco em seu peito, como se pudesse parar o sangramento. – Clara...
– Acabou, Marina  – ele conseguiu dizer, com a voz suave. – Deixe para lá. Uma voz forte e poderosa veio do canto mais escuro do celeiro.
– Saiam. Todos vocês. E nunca falem sobre isso. Nunca. Nada aconteceu aqui.
Daniel. Meu tio havia abandonado sua postura alegre e falava com uma autoridade inesperada enquanto emergia das sombras, caminhando com passos firmes, assumindo o controle.
Pés se arrastaram depressa no feno enquanto o grupo de adolescentes obedecia e se dispersava, correndo como se as palavras do vampiro fossem um estilingue lançando-os na noite.
De onde Daniel tinha vindo? Por que não havia chegado a tempo? Corri até ele, batendo os punhos manchados de sangue em seu peito.
– Você deixou isso acontecer! Devia ter protegido a Clara!
– Saia, Marina  – insistiu Daniel, segurando minhas mãos. Ele era surpreendentemente forte. A tristeza enchia seus olhos. – Esse é o destino de Clara. É o que ela deseja. Não. Não pode ser. Nós acabamos de nos beijar...
– Como assim, “o que ela deseja”? – choraminguei, correndo de volta para Clara, caindo de joelhos. – Nosso destino é ficarmos juntas, certo? Diga, Clara.
– Não, Marianne – respondeu ela, a voz fraca e sumindo. – Seu lugar é aqui. Tenha uma vida feliz. Uma vida longa. Uma vida humana.
– Não, Clara. – Solucei, implorando que ela vivesse. Ela não podia desistir. – Quero viver com você.
– Não é para ser, Marianne.
Juro que vi lágrimas em seus olhos negros, logo antes de eles se fecharem. Comecei a gritar e depois só me lembro das mãos de meu pai me levantando, puxando-me para longe, carregando-me – lutando contra nada e contra tudo – até o fusca. Eu não sabia quando eles haviam chegado nem como tinham me encontrado. Não importava. Clara havia morrido. Fora destruída.
O corpo desapareceu. Daniel  desapareceu. E, seguindo a instrução do vampiro, ninguém mencionou o que acontecera. Era como se a coisa toda tivesse sido um sonho. Não fosse o cordão no meu pescoço, o modo como o fecho parecia queimar no ponto onde os dedos dela
o haviam lacrado, talvez eu mesma não acreditasse.

**

– E o prêmio de espírito escolar da Escola Woodrow Wilson vai para...
Fernanda Cerqueira.
Meus dedos seguraram a cerca de arame enquanto a garota responsável pela destruição de Clara caminhava até o tablado como uma espécie de heroína, subindo os degraus sob um coro de assobios e aplausos de um mar de formandos que usavam capelos e becas azul- marinho. Sob o capelo, os cabelos louros de Fernanda  se agitavam como uma bandeira ao vento enquanto ela recebia o prêmio e acenava para a multidão.
O entorpecimento que eu havia alimentado cuidadosamente como estratégia para enfrentar a dor, a fúria e a perda quase se despedaçou ao ver Fernanda ser aplaudida e não sei como me contive para não soltar um grito.
Por que vim assistir à formatura? Eu havia me recusado a participar da cerimônia, mas alguma coisa perversa dentro de mim tinha me atraído para o campo de futebol. Eu estava ali para testemunhar meus colegas de escola receberem seus diplomas. A maior parte deles eu conhecia desde o jardim de infância. Alguns haviam participado do extermínio da pessoa que eu mais amara nesse mundo. Acho que queria ver o rosto deles. Haveria algum vestígio do ato maligno cometido no celeiro? Ou teriam se convencido de que nada acontecera, como Daniel  aconselhara? O que me deixava mais arrasada era pensar que um ou dois deles acreditavam que tinham feito uma coisa boa. Será que Santiago sentia isso? Ele dissera naquela noite: “Tinha que ser eu.” O que isso significava?
– Marianne. – A voz era baixa porém nítida. – Não adianta se torturar. Ainda que sonhar com vingança seja um comportamento muito típico de um vampiro. Eu me virei e o vi.
Um vampiro ligeiramente gorducho, meio careca, a poucos metros de mim, encostado na parede de um quiosque. Usava uma camiseta azul- -marinho com o mascote da Wilson – um cachorro de aparência durona, com papada, chamado Woody – bordado no peito. Encontrando meu olhar, o vampiro acenou.
Só de ver Daniel, alguém ligado a Clara e àquela noite, senti vontade de vomitar. Quando meu estômago parou com os espasmos, comecei a andar feito uma zumbi.
Atrás de mim, ouvi mais aplausos enquanto André Strausser ganhava o prêmio de melhor atleta.
Os aplausos pareciam vir de quilômetros de distância à medida que eu caminhava pela grama na direção de Daniel. Na direção de um passado breve porém intenso que ainda me consumia.
– Ora, ora, ora. Você está tão pálida e séria! – Daniel riu enquanto eu me aproximava. –

Quase como uma vampira de verdade. – Ele me abraçou, mas fiquei rígida. Eu ainda não o perdoara por fracassar em proteger Clara. – Por que não está se formando hoje, com os outros?
– Eles não significam nada para mim – respondi, me afastando dele. – E no entanto está aqui!
– Daniel, esquece isso. O que você está fazendo aqui?
– Hum. – Ele franziu a testa. – É um negócio muito complicado. Muito difícil de explicar. Eu não estava a fim de nada desafiador, mas perguntei assim mesmo: – Que tipo de negócio complicado?
– Está havendo uma disputa ferrenha na Romênia. – Daniel  suspirou, evitando meu olhar. – Na verdade é uma tremenda confusão. Você não deveria saber disso, é claro. Mas não achei justo mantê-la no escuro. Provavelmente fizemos isso por mais tempo que o recomendável. Foi ideia da Clara. Não me culpe. Se ela soubesse que estou aqui...
Meus joelhos quase se dobraram e Daniel avançou depressa para segurar meu cotovelo. – Firme, aí!
– Você disse... Clara? Se Clara soubesse que você está aqui? – Mas isso é impossível... Clara tinha sido destruída...
Daniel pigarreou, parecendo culpado e nervoso.
– Ela achou que seria melhor fazer a coisa ao modo dela. Mas Clara está arrasada e as coisas estão desmoronando na Romênia.
Agarrei Daniel pelos ombros, sacudindo-o com mais força do que jamais havia sacudido qualquer coisa na vida.
– CLARA... ESTÁ... VIVA?
– Ah, sim, bastante – admitiu Daniel, tentando se soltar. – Mas do jeito que as coisas vão... É estranho como o alívio, a alegria e a fúria podem se misturar totalmente e, em circunstâncias como essas, a próxima coisa que a gente percebe é que está soluçando, gargalhando, dando socos no peito de um vampiro e empurrando-o de costas contra um quiosque.
Quando recuperei um nível mínimo de compostura fomos para casa pegar meu passaporte. Eu estava indo para a Romênia. Para casa. Encontrar Clara.



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