História Como se livrar de uma vampira apaixonada - Capítulo 12


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Categorias Em Família
Tags Clara, Em Família, Marina
Visualizações 63
Palavras 3.455
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Comédia, Ficção, Ficção Adolescente, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


bom dia meninas passando por aqui para deixar a continuacao da historia
quero agradecer as leitoras que se tomaram um tempinho para escrever seus comentarios fico feliz que ainda estao interessadas en ler esta historia aqui.. e espero que curtan muito este novo capitulo um beijinho a todas voces!

Capítulo 12 - Capitulo 12


– Então santiago  se mostrou à altura do desafio, por assim dizer.
Concordou com a trama toda. Disse que até admirava a clara, apesar de tudo. Tinha algo a ver com clara defender você do valentão do felipe Dormand.
– E isso bastou para convencê-lo a cravar uma estaca no peito de clara? Eu estava cética.
– Bom, eu posso tê-lo ameaçado também. Só um pouquinho – confirmou Daniel. – Mas santiago é um garoto legal. Foi uma coisa boa da clara ter falado dele nas cartas para casa. – clara tinha falado dele?
– Ah, claro – respondeu Daniel. – Ela vivia reclamando do garoto “atarracado e legal” que estava estragando toda a corte.
Legal. Aquela palavra de novo. Dessa vez me fez sorrir. – É, santiago é um cara legal.
Se algum dia eu voltasse a goiania, iria agradecer a ele. – Quer uma rosquinha?
– Não, obrigada. – Estávamos voando a uns 35 mil pés, em direção à Romênia, de volta à terra em que nasci, e Daniel me colocava a par de toda a história. Contava como havia atraído Santiago num plano de última hora para cravar a estaca em Clara, certificando-se de que Andre Strausser ou algum outro fanático não tivesse uma chance. Acabou que Santiago quase havia ido longe demais.
– O garoto não conhece a própria força. – Daniel suspirou, sacudindo as rosquinhas que estava segurando. De algum modo tinha conseguido uns 10 sacos com a comissária de bordo. – O jovem  ficou bastante apreensivo durante um bom tempo. Mas a encenação precisava ser realista. Eu disse a ele para que não se preocupasse. Tudo correu bem. – Por que Clara não fugiu, simplesmente?
Assim que fiz a pergunta, percebi como a ideia era absurda. Uma príncesa vampiro dar as costas? Bem improvável.
– Não seja ridícula – disse Daniel, ecoando meus pensamentos. – Clara nem gostaria de saber que meti Santiago no negócio. Ela queria mesmo ser destruída naquela noite. Ficou bastante surpresa e um pouco irritada quando acordou ainda viva. Mas superou isso. Olhei as nuvens que passavam.
– Como Clara pôde fazer isso comigo? Fiquei pensando que ela havia morrido! Por que não entrou em contato?
Daniel deu um tapinha no meu braço.
– Ela achou que era melhor que você acreditasse que ela havia morrido. Clara enxerga o próprio lado sombrio. Com muita clareza.
– Clara é capaz de controlar esse lado dela. Só não acredita nisso.
– É – concordou Daniel. – Você e eu temos certeza de que Clara é honrada. Qualquer um pode ver isso. Na verdade, a luta interminável de Clara com a própria consciência é prova da força de seu lado bom. Mas Frederic tentou desviá-la, fazer dela um peão em seus planos cruéis. Por isso Clara aparenta desconhecer sua verdadeira natureza. Príncesa nobre ou vilã maligna? Os dois? Ela é uma vampira em guerra consigo mesma. Depois de um tempo, Daniel acrescentou:
– Ter comprado aquela égua, Fera, não ajudou. Clara ficou obcecada por ela. Sentia uma ligação com o animal e começou a pensar que talvez também estivesse corrompido demais para viver. Que mais cedo ou mais tarde ela faria mal... – A mim.
– É. Ela não queria que você precisasse passar a eternidade com um monstro, no sentido mais técnico do termo. Você sabe, alguém capaz de terríveis crueldades... – Daniel deixou a frase no ar. – Mas agora ela sofre. Olhei meu companheiro de viagem. – Como assim?
– Clara precisa de você. Ela sofre por você. Ela a ama. Isso é muito raro. Alguns dizem que o amor verdadeiro entre vampiros é um mito. Que somos malignos demais por natureza. Mas Clara ama. E ela ama você... como você a ama.
Mais do que qualquer coisa, eu queria que Clara me amasse. Mas ainda estava magoada. – Ela não percebeu que a coisa mais cruel que poderia fazer era me abandonar?
– Clara achou que você se recuperaria depressa, seguiria sua vida. É isso o que os adolescentes fazem, não é?
– Mas eu não sou uma adolescente normal.
– Claro que não. – Daniel fez uma pausa. – Mas Clara achou que lhe fez um favor. A um grande custo para o coração dela.
Meus olhos se encheram de lágrimas, como sempre acontecia quando pensava em Clara. – Sinto muita falta dela.
– Claro. Mas você deve se preparar para quando o vir. O lado sombrio dela está ficando mais poderoso a cada dia. Ela destruiu Frederic, sabia? – O quê?
Achei que não tinha escutado direito.
– Ah, sim. Quando Frederic descobriu que Clara ainda estava conosco, e na Romênia, ordenou que ela fosse destruída por desobediência, por abandonar o pacto que deveria cumprir. Bem, Clara entrou no castelo e disse: “Faça você mesmo, velho”, ou alguma coisa do tipo. E Frederic disse: “garota impertinente” e partiu para cima de Clara como um lobo que avança em um cervo.
Clara lutando com Frederic? Não parecia justo. Clara era forte, mas Frederic era mais do que forte. Era como uma força da natureza. – O que aconteceu?
– Clara venceu. E, numa luta até a morte, alguém acaba morrendo. – Ah.
Ainda que Frederic tivesse sido absurdamente cruel, era difícil imaginar Clara mergulhando uma estaca no peito de alguém... Daniel leu meus pensamentos. – Clara não tinha opção. Mas ficou quase destroçada quando a luta terminou. Não quis comer durante dias. Mesmo assim, o que poderia ter feito? Ficar parada e deixar que Frederic
a destruísse? Acho até que a garota já havia suportado demais. O mundo é um lugar melhor com Frederic fora do caminho.
– Mas Clara não consegue aceitar isso, não é?
– Não. Claro que não. Clara foi criada e doutrinada para honrar a família acima de tudo. Foi ensinada desde a infância a respeitar Frederic e protegê-lo, como seu mentor e superior. Claro que Clara vê a desobediência e, em última instância, a destruição de Frederic como mais uma prova de que é irrecuperável. Por isso age como tal. – O que, exatamente, ela está fazendo?
Eu estava morrendo de medo de ouvir a resposta. – Está precipitando uma guerra. – Como?
– Nosso povo, o clã Dragomir, está furioso com o pacto. Acha que Clara deixou você para trás de propósito, com o objetivo expresso de nos negar nossa princesa e o poder compartilhado. Clara não apenas permite que essa interpretação equivocada cresça de modo infeccioso como ela a alimenta. Ela nos incita à guerra. Já acontecem escaramuças entre os Vlascarponni e os Dragomir. Vampiros têm sido destruídos por outros vampiros em fúria. Milícias estão sendo formadas. Logo será uma guerra geral.
– Vampiros são destruídos porque eu não voltei com Clara? Enquanto eu estava perdendo tempo limpando baias, meus parentes tinham o peito cravado por estacas? Por que você não foi me buscar?
Daniel se remexeu, sem jeito.
– Não sou forte como você, Marianne. Temi a fúria de Clara. Ela me disse que você não deveria ir para a Romênia, não deveria saber que ela estava viva. Mas a situação foi longe demais. Não posso permitir que outros Dragomir sejam perdidos só porque tenho medo de desafiar o decreto dela. Precisava buscá-la.
Apertei a mão do meu tio, quase como se eu fosse o vampiro mais velho, mais experiente. – Bem, pelo menos você fez a coisa certa no final. Prometo que farei o máximo para protegê-lo da “fúria” de Clara.
– Acho mesmo que você é a única força capaz de trazer de volta o lado bom de Clara. Minha existência depende disso e o destino de nosso povo também. Porque numa guerra com os Vlascarponni... Bem, no período de paz, que começou com sua cerimônia de noivado, nós, os Dragomir, nos permitimos ficar mais brandos. Se essa guerra não puder ser evitada, temo que, apesar de toda a nossa revolta, não seremos páreo para os Vlascarponni. – Até que ponto isso seria ruim para nossa família?
– Ela seria aniquilada – respondeu Daniel, em tom sinistro.
– Então, se eu não puder convencer Clara, num último esforço, a admitir que me ama e honrar o pacto...
– Acho que em pouco tempo os Dragomir não existirão mais. Não podemos esperar que Clara, do jeito que está agora, demonstre muita misericórdia.
Apoiei a cabeça no encosto da poltrona, procurando absorver tudo isso. Minha nova lista de coisas a fazer: controlar vampiros Dragomir furiosos. Recuperar uma noiva não mais destruída porém relutante e violenta. Impedir a guerra iminente.
Segurei o jaspe-sanguíneo que estava em meu pescoço. Eu enfrentaria o desafio. Não tinha escolha.
O avião encontrou um pouco de turbulência e fomos sacudidos com força  várias vezes. Alguns passageiros gritaram.
Daniel segurou minha mão e sorriu.
– Bem-vinda de volta à Romênia, princesa Marianne.

Depois de tudo o que Clara havia me contado sobre morar em castelos,
comer as melhores comidas e ter roupas feitas sob medida, fiquei meio surpresa ao me ver chacoalhando nas estradas esburacadas da região rural da Romênia num velho Fiat Panda.
– Ah, Daniel – falei, segurando o painel enquanto meu tio forçava as engrenagens a obedecê-lo mais uma vez. – Achei que fôssemos da realeza vampírica. Daniel assentiu.
– Somos mesmo. Excelente linhagem de sangue. – Como explica este carro, então?
– Ah. Isso. Não pense que este veículo representa nossa herança. É apenas uma manifestação temporária de nossas... é... circunstâncias reduzidas.
Ele lutou com a direção não hidráulica, tentando evitar um buraco enquanto subíamos os Cárpatos.
As montanhas da Romênia formavam um contraste violento com os Apalaches, que se erguiam delicadamente na Pensilvânia. Na verdade, os Cárpatos, íngremes, rochosos, serrilhados, fariam os Apalaches sentir vergonha de serem chamados de montanhas. De vez em quando, a estrada se dobrava sobre precipícios de tirar o fôlego e depois serpenteava em florestas densas e sombreadas – nas quais, segundo garantiu Daniel, ursos e lobos ainda viviam. Em seguida, ela emergia na claridade, cortando cidadezinhas que pareciam esculpidas em pedra e datadas da Idade Média. Cabanas tortas, pequenas capelas e tavernas movimentadas surgiam nas ruas estreitas. Eu vislumbrava essas coisas e depois, num piscar de olhos, mergulhávamos de novo na floresta.
Dava para ver por que Clara sentia saudade de sua terra natal: as aldeias de contos de fadas; a sensação de que o tempo havia parado; a impressão penetrante de estarmos dentro de um mistério oculto; um enclave secreto, indomável, esquecido num mundo moderno.
– Segure-se – avisou Daniel, saindo da estrada principal que vinha de Bucareste e entrando numa pista ainda mais estreita.
Fomos chacoalhando e minha cabeça bateu no teto baixo do Panda. – Ai. Isso é mesmo o melhor que podemos ter?
– Bem, eu lhe disse. O clã andou atravessando um período difícil nos últimos anos. Vendemos a Mercedes há anos. Mas o Fiat é bastante confiável. Não tenho reclamações. Nenhuma.
Eu tinha algumas. Como deveria assumir meu lugar de direito como princesa vampira quando meu meio de transporte era do tamanho de um carrinho de golfe, com um motor que parecia pertencer a um ventilador de mesa?

Seguimos em silêncio por um bom tempo, até chegarmos à crista de uma encosta que revelou, abaixo de nós, a distância, um grande agrupamento de telhados de terracota reluzindo ao pôr do sol.
– Sighişoara – anunciou Daniel.
Inclinei-me para a frente, espiando pelo para-brisa com olhos ansiosos. Então tínhamos chegado, finalmente, à terra natal de Clara. Era aqui que ela havia crescido, se tornado a mulher que eu tinha aprendido a amar. – Vamos passar por lá?
– Vamos – disse Daniel. – Como quiser.
Eu havia notado que a postura do meu tio tinha mudado um pouco desde o pouso em Bucareste. Ele estava mais formal comigo. Com mais deferência. Pensei em dizer a ele que não precisava me tratar como uma princesa só porque não estávamos mais nos Estados Unidos. Então percebi que era melhor deixar quieto: eu iria assumir meu posto. Precisaria de deferência, precisaria emanar autoridade se quisesse alcançar o que pretendia. Estava num Fiat Panda, mas mesmo assim era uma princesa. – Por favor, mostre-me – insisti. – Claro.
Daniel nos levou ao coração da cidade e fiquei olhando, encantada, para passagens em arcos de pedra que levavam a becos sinuosos e lojas atulhadas cujos produtos – pães, queijos, frutas e legumes – chegavam até as calçadas. Reparei na torre do relógio, do século XVII, que soou enquanto passávamos: seis horas.
A cada ponto que captava minha atenção, eu ficava pensando: será que Clara teria caminhado por essa rua? Comprado naquela loja? Ouvido o toque profundo do relógio, percebendo que precisava estar em algum lugar, passando o corpo alto sob um daqueles arcos de pedra para chegar a um compromisso num caminho oculto? Este era um lugar onde Clara não pareceria deslocado, nem mesmo com seu sobretudo de veludo e sua calça bem cortada.
– Está com fome? – perguntou Daniel. – Poderíamos dar uma paradinha, antes que todos os comerciantes fechem para o fim do dia.
– São só seis horas – observei. – É, tipo, um costume local fechar tão cedo? Daniel parou o carro junto ao meio-fio.
– Não. Nem sempre é assim. Mas o povo desta região viveu na companhia de vampiros por muitas gerações. Eles estão sempre atentos aos clãs. Ouviram boatos da proximidade de uma guerra e sabem que haverá vampiros sedentos e furiosos, procurando o combustível do sangue e recrutas para nossos exércitos de mortos-vivos. Eles não ficarão nas ruas depois de anoitecer sem que haja um bom motivo.
Senti arrepios. Ainda que agora eu também fosse membro do clã dos vampiros, com certeza era capaz de simpatizar com os temores dos residentes. – Então até o povo comum é afetado pela tensão...

– É, sim. Eles lamentam o fim de quase duas décadas de paz. Durante um tempo parecíamos ter alcançado uma trégua com os humanos também. Isso foi em grande parte graças a Clara. Ela era uma boa embaixadora para nós. Tão charmosa... Mesmo os que faziam o sinal da cruz ao ouvir o nome Vlascarponni eram incapazes de não gostar dela. Mas agora, é claro, sabem que ela mudou.
Daniel me levou para um pequeno restaurante, abrindo a porta e apontando uma sala apertada e estreita. A decoração era simples – algumas mesas velhas espalhadas sobre o piso de madeira –, mas o cheiro era maravilhoso.
– Vamos pedir papanaşi: bolinhos de queijo cobertos de açúcar. Uma iguaria local. – Queijo com açúcar?
– Eu comi o bolo de aniversário vegano – observou Daniel. – Confie em mim, esses daqui ganham de lavada.
Eu não podia questionar.
Chegamos ao balcão e o velho proprietário se levantou de um banco com esforço, cumprimentando Daniel. – Bună.
– Bună – assentiu Daniel. E levantou dois dedos. – Doi papanaşi.
– Da, da – disse o velho, começando a se afastar arrastando os pés.
Então ele me notou e parou abruptamente, com o rosto moreno e desgastado pelo tempo ficando pálido. Apontou para mim com a mão trêmula, os olhos arregalados virando-se para Daniel.
– Ea e o fantoma...
– Nu e! – Daniel balançou a cabeça. – Não é um fantasma! – Ea a Dragomir! – insistiu o velho. – Marianne!
Entendi as palavras Marianne Dragomir e o assunto da conversa, por mais que a língua fosse desconhecida.
– Da, da – concordou Daniel, parecendo ficar impaciente com o homem, dispensando-o. – Comanda, vărog. Nossa comida, por favor.
O homem saiu cambaleando, mas continuou a olhar para mim por cima do ombro enquanto preparava nossos papanaşi.
– Ele se lembra da sua mãe – sussurrou Daniel. – Acha que você é o fantasma dela. O fantoma. É melhor se acostumar com isso.
Fiquei ao mesmo tempo lisonjeada e um tanto incomodada em ser confundida com minha mãe biológica. Percebi, com um tremor, que aquele sujeito acreditava, sem qualquer dúvida, que eu era uma vampira. Ele fora criado na realidade vampiresca. Era vivo quando meus pais foram destruídos. Talvez tivesse participado... Por meio do olhar cheio de suspeita do homem, eu soube que eu não era apenas uma curiosidade, mas uma ameaça potencial. De repente me senti vulnerável, no alto dos Cárpatos, longe da proteção de mamãe e papai, sozinha num restaurante claustrofóbico com um tio que eu mal conhecia e um estranho que me considerava um monstro sugador de sangue que merecia ser exterminado.
O velho entregou nossa comida a Daniel e meu tio pagou com algumas moedas. O proprietário continuou a me olhar cauteloso.
– Venha – disse Daniel, guiando-me para a porta. – Tente não se abalar com isso. É claro que algumas pessoas mais velhas vão reconhecê-la. É igualzinha a ela. Vai demorar um tempo até que eles entendam que você é a filha e que voltou para casa.
Saímos do restaurante e olhei para a rua, tentando pensar naquele local desconhecido como se fosse “casa”.
– Precisamos ir – disse Daniel. – Está escurecendo e a estrada é perigosa.
Acomodei-me no carro e experimentei o papanaşi, mordendo o bolinho com a crosta de açúcar para liberar o queijo quente, derretido. – Hummmmm...
Fechei os olhos e saboreei aquela delícia, mais corajosa e reconfortada com a comida quente no estômago. – Gostou?
Daniel pareceu satisfeito. Engrenou o carro e saiu para a rua, que agora estava quase vazia. – Muito bom – respondi, enfiando a mão no saco de papel para pegar outro. – Bem melhor do que bolo vegano.
– É o doce predileto de Clara, sabia? E ela prefere o daquela loja, em particular.
Lambi devagar o açúcar dos dedos, olhando a cidade passar pela janela. Clara poderia estar lá. Eu poderia ter entrado naquela loja e visto a mulher por quem eu tinha ficado de luto.
– Clara mora aqui perto? – perguntei. – A que distância estamos, exatamente? Minutos? Meia hora?
– Estamos muito perto – disse Daniel, me olhando. Ele parecia meio nervoso. – Você... você não está pensando em passar por lá, está?
– Só para ver a casa dela. – Uma apreensão súbita tomou conta de mim. Apreensão e empolgação. – Acha que ela vai estar lá? – Eu quero que ela esteja lá? Estou pronta?
– Não creio – supôs Daniel, e senti uma pequena onda de alívio. Por mais que quisesse muito ver Clara, sabia que primeiro deveria me preparar. Precisava não apenas tomar um banho depois da viagem, mas tinha que me preparar mentalmente. Ficar firme para encarar a Clara que Daniel havia descrito no avião. A Clara que tinha destruído o tio, que estava precipitando uma guerra e apavorando os moradores do local. A Clara que se acreditava capaz de aniquilar minha família sem piedade.
– Ultimamente ela tem saído muito com suas tropas – acrescentou Daniel. – Para o campo. – Nós estamos nos preparando? – indaguei, preocupada com essa última revelação.
– Um pouco... Não, na verdade, não. Não de um modo organizado, como Clara. Ela é uma guerreira que está criando um exército. Nós somos mais como os colonizadores americanos: vampiros dedicados, ainda que despreparados, formando milícias informais.

Admirei a paisagem áspera. Quanto mais penetrávamos nos Cárpatos, mais eu reconhecia as montanhas dos meus sonhos. Podia escutar a voz da minha mãe biológica, cantando para mim. Sendo silenciada. Era um lugar lindo, mas também era um lugar duro, indomado.
– Vamos precisar de mais do que “milícias informais” – murmurei, olhando para a escuridão que crescia do lado de fora da janela. – Devemos nos preparar também. – Se pelo menos eu soubesse o que isso significava. Se tivesse sido criada como guerreira e não como uma vegetariana numa fazenda cheia de gatos desgarrados. Será que posso mesmo ajudar meus parentes Dragomir?
– Olhe para cá – sugeriu Daniel, parando o Fiat no acostamento.
Virei-me no banco e prendi o fôlego, surpreendida por uma enorme construção de pedra. O edifício fantasmagórico onde Clara havia crescido, onde fora ensinada por meio da violência, criada com histórias de sua linhagem de vampiros e onde ganhara uma consciência feroz do local orgulhosa ocupado pelos Vlascarponni no mundo. – Uau!
Estávamos na beira de um precipício, acima de um vale tão íngreme, profundo e estreito a ponto de parecer que um gigante o havia criado com um golpe feroz de uma foice com uma lâmina de um quilômetro. O castelo de Clara, negro contra o pôr do sol laranja, agarrava-se à encosta do lado oposto, parecendo gadanhar em direção ao céu. Torres parecendo lanças enormes querendo furar as nuvens, janelas góticas abobadadas. Era uma casa furiosa. Uma casa em guerra contra o Universo. Clara morava mesmo ali?
Estacionamos o carro e fomos andando até a beira do penhasco para examinar melhor aquela expressão arquitetônica de raiva, que mais parecia os dentes tortos de uma fera. – Impressionante, hein? – perguntou Daniel.
– É. – A palavra apertou minha garganta. Olhando para aquela casa, fiquei apavorada. Era ridículo sentir medo de uma construção, no entanto, a visão daquele castelo me provocou um temor intenso.
Estou com medo da casa ou da pessoa que aguenta morar nela?
Enquanto Daniel e eu olhávamos, uma luz se acendeu atrás de uma das janelas. Uma única luz numa janela do alto.
Meu tio e eu trocamos olhares.
– Podem ser serviçais – concluiu Daniel. – Ou talvez a garota tenha vindo passar a noite em casa.
– Vamos embora – pedi, agarrando o braço do meu tio. Vamos antes que eu faça alguma coisa idiota. Tipo correr para aquele castelo e bater à porta. Ou fugir direto para o Brasil sem olhar para trás. – Por favor, eu quero ir.
– Estou logo atrás de você – concordou Daniel, indo depressa para o carro.

 



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