História Como se livrar de uma vampira apaixonada - Capítulo 13


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Categorias Em Família
Tags Clara, Em Família, Marina
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Palavras 4.059
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Comédia, Ficção, Ficção Adolescente, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


nuevo capitulo chicas!!! :)

Capítulo 13 - Capitulo13


A boa notícia era que o clã Dragomir também tinha sua propriedade bem impressionante. A má notícia era que ela estava aberta aos turistas quatro dias por semana. Essa era outra manifestação de nossas “circunstâncias reduzidas”, como Daniel gostava de chamar o que, aparentemente, era uma dificuldade econômica grave. – As visitas só começam às 10 da manhã – tranquilizou-me Daniel, ajudando a levar minha mala para nossa mansão úmida. Ele desviou de uma placa de metal que instruía aos visitantes: “PROIBIDO FUMAR! PROIBIDO TIRAR FOTOS COM FLASH!” numas sete línguas. – Estamos muito populares este ano – acrescentou Daniel, como se isso fosse algo ótimo. – As autoridades do turismo da Romênia aumentaram bem a publicidade. O tráfego de carros aumentou 67 por cento. Minha nossa. – Claro que há áreas privativas – acrescentou ele, vendo meu desapontamento. – Os quartos e banheiros estão quase todos fora do circuito de visitas. Se bem que alguns americanos conseguem achar os toaletes privativos. Acho que estranham a comida. De qualquer modo, não se assuste se abrir uma porta e encontrar um dos seus conterrâneos empoleirado por lá. Turistas? Entrando no meu castelo? Aposto que ninguém entrava sem autorização na propriedade dos Vlascarponni. – Daniel? – Sim? Ele arrastava minha mala por uma escada alta e curva, feita de pedra. A lâmpada numa tocha falsa tremeluzia na parede, imitação barata do fogo de verdade que eu tinha quase certeza de que ardia na casa de Clara. Ela não aceitaria nada menos do que a coisa de verdade. De novo acariciei o jaspe-sanguíneo em meu pescoço e a palavra inaceitável relampejou na minha mente. Isso era inaceitável. Se as coisas acontecessem como eu esperava e se eu vinha mesmo para liderar essa família, iria reivindicar nosso castelo para os Dragomir e não para turistas. A ideia me empolgou de forma surpreendente. Quando chegamos ao patamar mais elevado, examinei os tetos abobadados, os corredores que já haviam sido majestosos. É, poderíamos dar uma melhorada. – O que acontece agora? – perguntei a Daniel, acompanhando-o pelo corredor e entrando num quarto gigantesco. Daniel largou a mala no chão. – Você precisa conhecer a família. Todos estão muito ansiosos para jantar com você. Eles vão chegar logo. Imagens da “família” de Clara me vieram à mente. – Quantos virão? – perguntei, esperando não ter que confrontar um número muito grande de meus parentes vampiros de uma vez. – Ah, só uns 20 parentes mais próximos. Achamos que não seria sensato sufocar você em seu primeiro dia aqui, mas, todo mundo está curioso para ver nossa herdeira há muito esperada. Acho que vai querer tomar banho, não é? Trocar de roupa? – sugeriu Daniel. – Vou – respondi, aproveitando a oportunidade para ficar sozinha por um momento. Para refletir. Para me concentrar. Isso tudo estava acontecendo depressa demais. Eu precisava pensar. Daniel andou pelo quarto acendendo luzes. O espaço era empoeirado, datado e frio, mas habitável. Não estava distante demais de sua glória anterior. – Espero que se sinta confortável aqui – disse Daniel, jogando minha mala na cama de dossel. – Vou voltar para buscá-la dentro de uma hora. Tire um cochilo, se quiser. – Obrigada. – Ah! Quase esqueci. – Daniel foi até um grande guarda-roupa, abriu a porta e tirou um vestido pendurado num cabide. Estava um pouco desbotado mas ainda era lindo. A seda que sem dúvida já reluzira carmim havia se suavizado num vermelho mais fechado. – Isso era da sua mãe. Achei que talvez você quisesse usá-lo para o jantar. É de fato uma ocasião importante e nós partimos tão depressa que não lhe dei chance de pôr na mala um traje formal. Como se estivesse num transe, fui até Daniel e passei as pontas dos dedos pelo tecido. – Reconheço isso. Da fotografia. – Ah, sim, do retrato. – Dorin sorriu. – Marianne tinha muitos vestidos, mas este era seu favorito. Ela adorava a cor intensa, tão parecida com sua personalidade. Usou-o em muitas reuniões adoráveis, numa época diferente, antes do expurgo... – Por um momento ele pareceu a ponto de chorar, mas depois se animou. – Você fará justiça a ele, minha princesa, e trará uma nova era para nós. Talvez todos sejamos felizes outra vez, em breve. E talvez o maior sonho de sua mãe, a paz entre os Vlascarponni e os Dragomir, se concretize afinal. Acariciei o tecido de novo. – Mas não tem problema eu usar esse vestido? – É mais do que apropriado – garantiu Daniel. – É perfeito. Então ele me deixou sozinha e coloquei o vestido na cama com delicadeza. Eu usava o colar dela, ia pôr seu vestido e estava em sua casa. Mas como poderia me mostrar à altura do legado de Marianne Dragomir? Será que eu era uma princesa de verdade ou somente um fantasma – uma sombra pálida e superficial dela –, como acreditara o homem do restaurante? Dúvidas não vão ajudar agora, Mari. Clara acreditava que você era exatamente como ela, em todos os sentidos... Encontrei o banheiro, tirei a calça jeans e a blusa que havia usado na viagem e tomei um banho de chuveiro longo e quente. Depois de me secar, peguei o vestido do cabide, abri a fileira de botões de madrepérola que descia pelas costas e o vesti, puxando-o em volta do corpo como um abraço do passado. Um abraço que ficara da minha mãe. Servia perfeitamente. Como se tivesse sido feito para mim. Eu me olhei num espelho dourado que ficava no canto do quarto, vendo o reflexo à luz de uma lua cheia, clara, que brilhava como um farol através de uma série de janelas de vitral. Era assim que Minha mae biologica se via? À luz desta lua? Neste mesmo espelho? A gola do vestido era alta, chegando quase a roçar no queixo, mas o decote mergulhava fundo, emoldurando o jaspe-sanguíneo no pescoço. O vestido se curvava sobre os seios, depois caía abruptamente como uma cachoeira despencando num penhasco dos Cárpatos, terminando numa enorme cauda de seda que farfalhava como um sussurro quando eu andava. Sussurros que sem dúvida seguiam qualquer mulher que ousasse usar aquele vestido imponente. Esse era um vestido que dizia muito sobre a mulher que o usasse. Dizia a todo mundo que a visse: “Sou poderosa e linda e é impossível alguém não olhar para mim. Eu serei notada.” Eu não tinha nenhuma tiara de prata, por isso juntei os cachos frouxamente atrás do pescoço e deixei que caíssem livres pelas costas, preto lustroso sobre o tecido vermelho lustroso, declarando minha posse mais jovem, mas ainda dramática, sobre o vestido. A jovem que eu via refletida no espelho, com olhos escuros brilhando ao luar, parecia mesmo uma princesa. Forte. Decidida. Destemida. Houve uma batida à porta e Daniel me chamou. – Seus convidados chegaram. Você está pronta? – Pode entrar – convidei. Daniel enfiou a cabeça no quarto e seus olhos alegres e enrugados se arregalaram. Por um longo momento ele apenas me encarou, dizendo por fim: – É. Você está pronta. Depois ficou de lado, permitindo que eu passasse pela porta. Notei que ele fez uma pequena reverência.

 

 Eles estavam me esperando ao pé da escadaria curva, todos os rostos voltados na minha direção enquanto eu descia, e vi seus olhares mudando de ceticismo e preocupação para admiração e espanto – e esperança. E o fato de estarem começando a acreditar em mim me deixou confiante, ainda que também me aterrorizasse. Quem sou eu para ser a salvação de alguém? A princesa de alguém? Você é filha de Marianne Dragomir. Linda, poderosa, majestosa... As afirmações de Daniel e de Clara ecoaram de novo na minha mente, me dando coragem. Um a um, meus parentes vampiros se aproximaram para me conhecer depois que parei ao pé da escada. Daniel os apresentou e, enquanto cada um dos Dragomir – primos próximos e distantes – chegava perto para fazer reverências, vi traços meus na curva de um nariz, no arco de uma sobrancelha, nas maçãs do rosto. Eles usavam roupas de qualidade, mas notei que os vestidos eram um pouco ultrapassados e os ternos, às vezes mal ajustados. O que foi feito de nós desde a destruição dos meus pais? – Venham – chamou Daniel quando todos havíamos sido apresentados. – Vamos jantar. Fui à frente de um pequeno cortejo até uma sala de jantar comprida e de pé-direito alto, gélida apesar de um fogo que ardia numa lareira gigantesca, e, seguindo a indicação de Daniel, reivindiquei meu lugar à cabeceira de uma mesa reluzente de pratarias e velas. Nós, os Dragomir, estávamos em grandes dificuldades econômicas, mas todos os cofres pareciam ter sido abertos para o meu retorno. – Sente-se, sente-se – disse Daniel, baixinho, puxando minha cadeira. – Devo dizer que precisarei servi-la. Estamos com poucos serviçais e é difícil atrair alguém do povoado na situação atual. Ninguém quer trabalhar até tarde na propriedade dos Dragomir. – Tudo bem – tranquilizei-o, ocupando meu lugar. Brindes eram feitos a mim, em romeno, e Daniel os traduzia. À minha saúde... ao meu retorno... ao pacto... à paz. Um murmúrio circulou ao redor da mesa quando o último brinde foi feito e Daniel se inclinou para falar comigo. – Querem ouvir você falar. Estão ansiosos demais para comer. Deve contar seus planos a eles. Pela primeira vez desde que tinha posto o vestido de seda vermelho e começado a assumir meu novo papel na realeza, senti um choque de pânico genuíno. Não preparei um discurso. Deveria ter preparado alguma coisa. O que posso dizer a eles? Meu Deus, o que planejo fazer? – Não posso – sussurrei a Daniel, inclinando-me para perto dele. – Não sei o que dizer. – Você deve falar, Marianne – implorou Daniel. – Eles esperam por isso. Vão perder a confiança se você não disser nada. Confiança. Não posso me dar ao luxo de perder a confiança deles. Assim, fiquei de pé, encarei minha família e comecei: – É uma honra estar com vocês esta noite, de volta ao nosso lar ancestral... – O que mais posso dizer? – Faz muito tempo. Daniel traduzia para os que não falavam portugues, olhando-me de vez em quando com algo mais do que consternação nos olhos. Sabia que eu lutava. Ao olhar para meus parentes em volta da mesa, vi a dúvida se esgueirar de volta para a mente deles também. Eu estava perdendo sua confiança tão depressa quanto a havia adquirido. – Pretendo garantir que o pacto seja honrado – acrescentei. – Como sua princesa, prometo que não irei decepcioná-los. – Diga-me, Marina – começou alguém. Uma voz profunda. Ah, graças a Deus... uma pergunta. – Sim? Examinei os rostos à minha frente, tentando encontrar quem falava à luz fraca das velas. – Como você pretende manter o pacto? Impedir a guerra? Porque, pelo que sei, os Vlascarponni não têm mais interesse no que foi acordado. A voz vinha por trás de mim. A voz familiar. Eu me virei, derrubando a cadeira, e vi Clara Vlascarponni parada junto à porta, encostado no portal, braços cruzados diante do peito, um sorriso amargo no rosto. – Clara. Meu coração parou no peito e todo o sangue sumiu do meu rosto. Era Clara. Viva. Parada a menos de cinco metros de mim. Quantas vezes eu tinha sonhado em vê-la de novo? Sonhado em tocá-la? Quantas vezes esses sonhos quase haviam me devastado com sua impossibilidade? Mas agora ela estava tão perto... Seu sorriso sumiu, como se ela não conseguisse manter a postura friamente irônica ao me ver, e eu o ouvi murmurar: – Marianne... Nessa única palavra percebi saudade, alívio, ternura e ânsia. As mesmas emoções que eu estava experimentando. Ela hesitou, insegura, com uma das mãos estendida como se fosse se aproximar de mim. – Clara – repeti, olhando para ela, como se a realidade de sua existência fosse penetrando devagar. – É você mesmo. Quando falei isso, a mão de Clara baixou ao lado do corpo e ela recuperou o sorriso irônico. – De fato, só existe um – disse em tom azedo, com todos os traços de ternura sumindo. – E o mundo é melhor assim. Comecei a correr para ela, quase tropeçando na cauda do vestido. Quis me lançar contra ela, derrubá-la e beijá-la de novo pela pura alegria de vê--la. E depois gritar com ela por ter mentido e me abandonado. Mas então vi seu rosto de perto e parei, no meio do caminho. – Clara? Parecia que ela havia envelhecido anos naqueles poucos meses em que ficamos longe uma da outra. Todos os vestígios da adolescente brasileira haviam desaparecido – e não apenas porque ela tinha voltado a usar a calça feita sob medida e o sobretudo de veludo. O cabelo preto estava mais comprido, puxado num rabo de cavalo. Os labios mas grosos e lindos.sua pele mas morena E os olhos estavam mais negros do que nunca, quase como se não tivessem alma por trás, sim el aja no era mais uma menina e sim uma mulher lindissima.  animando-os. Atrás de mim, os Dragomir pareceram congelados por encontrarem o inimigo em seu próprio território. – A segurança é um tanto relapsa – observou Clara. Em seguida se afastou do portal e passou por mim, entrando na sala, sem me encarar, avaliando os móveis desgastados pelo tempo com o mesmo desdém que havia exibido meses antes na cozinha de nossa fazenda. Só que dessa vez não parecia apenas arrogante, à maneira inocente de alguém que não conhece nada além de privilégios, e sim deliberadamente desdenhosa. – Eu ia me inscrever para a visita turística – acrescentou. – Mas não podia esperar até as 10 da manhã para vê-la, marina. Encarei-a com uma mistura de consternação e fúria. Ela sabia que usar meu nome brasileiro era um insulto nesse lugar. – Não fale desse jeito comigo – avisei. – Isso é cruel e você não é assim. Ela continuou se recusando a me encarar. – Não sou? – Não. Fui em sua direção, sem querer aceitar que ela controlasse cada instante de nosso encontro. Isso não era um baile de escola, onde ela poderia assumir a liderança. Ela estava na casa da minha família. Por mais abalada que eu estivesse por vê-la de forma tão inesperada, por encontrá-la tão alterada, eu não seria acovardada, como meus parentes atrás de mim, que tremiam nas cadeiras. – Você não é cruel, Clara. Agora estávamos parados perto uma da outra, próximas o suficiente para que eu sentisse o cheiro daquele perfume exótico que ela havia parado de usar em algum momento de sua transformação em estudante brasileira. Clara, a príncesa guerreira, estava de volta, em todos os aspectos. Ou pelo menos elara queria que eu acreditasse nisso. – Por que você veio? – perguntou Clara, baixinho, de modo que meus parentes não ouvissem. Continuou sem me encarar. – Deve ir embora, Marina. – Não. Não, Clara. Eu não vou embora. Então ela se virou para mim e houve um clarão de sofrimento, de humanidade em seus olhos, porém foi momentâneo, e ela andou ao meu redor, colocando outra vez distância emocional e física entre nós. Dava para ver que ela lutava para manter as emoções sob controle. Para me manter longe. Pelo menos eu esperava que ele estivesse lutando. – Você esteve observando minha casa – disse ele, andando em volta da mesa como um falcão procurando o coelho que não teve o bom senso de ficar imóvel. Enquanto passava atrás de cada um dos meus parentes vampiros, eles se encolhiam visivelmente. Desejei que parassem de fazer aquilo. – Como você soube? – Na véspera de um conflito é sensato ficar alerta – aconselhou Clara, a voz ainda mais dura enquanto falava de guerra, assumindo seu papel de general. Afastando-se de mim. – É óbvio que tenho guardas no perímetro da minha propriedade. Sua família me incomoda o tempo todo, reclamando do pacto não realizado, afirmando que nunca desejei compartilhar o poder. E quanto mais eles se queixam, mais eu percebo: por que dividir o que posso tomar à força? Não sou avessa a um pouco de derramamento de sangue, se isso levar aos meus objetivos. – Clara, você não está falando sério. – Estou – respondeu Clara, com as mãos nas costas da cadeira de Daniel. Meu tio tremeu por inteiro. Eu sabia que ele estava aterrorizado com a possibilidade de Clara destruí-lo, ali mesmo, por ter me trazido à Romênia. – Você já me viu brincar com algo relacionado ao poder alguma vez, Daniel? Meu tio não disse nada. Clara se inclinou, falando no ouvido dele. – Vou cuidar de você mais tarde, por ter me desafiado e trazido-a para cá. – Fique longe dele – ordenei. – Você veio aqui para me ver. Não atormente minha família em nossa casa. Clara examinou a sala de novo. – Quando tudo isso for meu, precisarei fazer algumas mudanças sérias. Permitir visitas turísticas?! Isso envergonha todos os vampiros! Encarei-o, recusando-me a parecer perturbada ou até mesmo lacrimosa pelo modo insensível como ela agia. A Clara à minha frente estava ainda mais gelada e inacessível do que havia ficado depois que Frederic ordenou que ela fosse espancada. Clara... onde está a minha Clara? – Quero que saia agora, Clara – exigi, deliberadamente calma. – Não falarei com você enquanto estiver assim. Ela arqueou as sobrancelhas. – Este não foi o encontro que você esperava, Marina? Não foi para isso que viajou milhares de quilômetros? Está desapontada ao descobrir que sua família é fraca e que sua ex-noiva está mais desprezível do que nunca? – Você não vai me fazer odiá-la. Não importa quanto se esforce. Sei o que está fazendo. Sei que está tentando me afastar. Acha que não tem mais redenção porque destruiu Frederic. Está convencida de que é igual a ele ou pior, porque traiu sua família. Mas você não é como Frederic. – Ousei acariciar seu braço. – Eu conheço você. Clara se afastou. – Não me toque desse jeito, marianne! – Por que não? – perguntei, baixando a voz para que minha família não ouvisse. – Porque tem medo de perder o controle, como aconteceu no meu quarto, lá em casa? – Não – reagiu ela. – Porque tenho medo de perder o controle como aconteceu com meu tio. – Clara, você precisou fazer aquilo. Quando falei isso, seus olhos se modificaram e ela encarou meus parentes, que, ainda sentados num silêncio inquieto, observavam nossa conversa. – Venha comigo. – Ela agarrou meu cotovelo com a mão firme e me conduziu pela sala, para longe do alcance da audição da minha família. – Estamos falando de coisas particulares na frente dos outros. Não está certo. Paramos diante da lareira e a luz lançava sombras suaves e trêmulas na face de Clara, fazendo-a parecer mais jovem de novo. Quase toquei seu rosto. Mas seus olhos continuavam distantes demais. Negros demais. – Vou lhe dizer uma coisa e depois você vai fazer as malas e ir para casa, Marina. – Não vou... – Você acha que me conhece – disse ela, passando por cima da minha objeção, ainda segurando meu braço. – Por algum motivo, apesar de eu tê--la abandonado, apesar de obviamente eu querer que pensasse que eu havia partido, você se agarra a alguma esperança inútil de que haja um futuro para nós. É hora de acabar com isso, de uma vez por todas, porque não estamos mais na civilizada goiania, frequentando o ensino médio, brincando de guerra numa quadra de basquete. Isto aqui é uma guerra, Marina. – Não precisa ser, Clara. Eu sei que você me ama. – Os Vlascarponni jamais agiram de boa-fé, Marina – continuou Clara, a boca numa expressão séria. – Nós tínhamos um plano. Para você. – Um... plano? – É. Eu deveria conquistá-la, casar-me com você, uma garota inocente, uma adolescente brasileira ignorante da cultura dos vampiros, e trazê-la de volta para a Romênia. Com o pacto realizado, nós esperaríamos um tempo razoável até que ninguém pudesse acusar os Vlascarponni de violar nossa parte da obrigação... – E então? Eu já sabia. Clara me encarou com intensidade. – E então teríamos despachado você com discrição. Em segredo. Agindo como se lamentássemos sua perda, porém silenciosamente satisfeitos por termos a última e inconveniente princesa Dragomir fora do caminho. – Não, Clara. – Balancei a cabeça, horrorizada. Eu não iria acreditar naquilo. – Você não faria isso. – Ah, Marianne. Você ainda é tão ingênua! Acha que os Vlascarponni algum dia pretenderam partilhar a soberania com um inimigo? Não. Claro que não pretenderam. – Como... como isso deveria acontecer? – Não fui informada desses detalhes. Mas talvez pela minha mão. Eu teria muitas oportunidades, sozinha com você em nosso castelo. Não, Clara. Você, não. Ela olhou para o fogo. – Para nós era perfeito demais o fato de você haver sido criada no Brasil. Na tentativa de mantê-la em segurança, os Dragomir acabaram condenando-a. Uma verdadeira princesa vampira teria entendido os riscos de se casar comigo. Poderia ter se protegido, permanecendo sempre alerta. Mas você teria vindo para mim de boa vontade, sem suspeitar de nada. Respirei com dificuldade, obrigando-me a não gritar, sabendo que meus parentes não estavam longe. Eu precisava manter a compostura, ainda que a traição me partisse ao meio. – Você sabia de tudo isso quando foi para a casa dos meus pais? Quando estava morando com a gente? Quando me beijou? Clara também tinha consciência da plateia. O sofrimento que penetrou seus olhos não se refletia na postura régia. – Ah, Marianne... quando eu soube? Desde o início? Ou perto do fim? Não tenho certeza. Talvez eu fosse ingênuo no início. Ou talvez só me enganasse, recusando-me a enxergar a verdade. Mas chegou um momento, antes de eu beijar você, em que eu soube que era cúmplice. Contive um soluço, engolindo em seco e mantendo a postura. – Não acredito em você. – Não faz sentido, MARIANNE? – Ela olhou para minha família. – Olhe para eles. Os Dragomir estão reduzidos. Frederic poderia tê-los enganado e controlado com facilidade, sem perder um único Vlascarponni. Sem uma guerra. O único sangue derramado seria o seu. Você seria sacrificada no interesse do golpezinho de Frederic. – Essa era a ideia de Frederic – observei, desesperada para não acreditar que Clara seria capaz de me destruir. Ela gostava de mim. Eu senti isso em seu beijo, vi em seus olhos. Mas ela é perigosa, Marina. Ela não deseja ser uma Vlascarponni, mas talvez não consiga deixar de sê-lo. – Esse era o plano de Frederic – repeti. – Não o seu. – E quando vi a trama em sua totalidade, fiquei empolgado com a genialidade simples. Isso a deixa revoltada, Marina? Porque deveria. – Você não teria me destruído, Clara – insisti. – Você me ama. Sei que ama. Clara balançou a cabeça. – Só o bastante para lhe dizer que eu a teria destruído. Isso é o máximo que posso oferecer. Agora vá para casa, Marina. Vá para casa e me despreze. Tive esperança de deixála com uma lembrança mais feliz de mim. Mas você veio para cá e agora não posso fazer nem mesmo isso. – Não vou embora, Clara. Nem que seja por minha família. Os Dragomir precisam de mim. – Não, MARIANNE. Você não lhes dá nada além de falsas esperanças. Olhe para você. – Seu olhar viajou por toda a extensão do meu corpo e de novo seus olhos voltaram à vida, dessa vez com admiração profunda. Admiração que eu tinha visto antes. – Você é linda. Impressionante. Inspiradora. Eles vão lutar com mais força, achando que fazem isso por sua princesa que voltou. Pensando que você foi prejudicada pelo fracasso do pacto, quando, na verdade, eu salvei sua vida ao violar o pacto. Eles continuarão a acreditar que foram enganados pela falsa promessa de paz e poder compartilhado e vão se unir para lutar por você. Mas, no fim, os Vlascarponni vencerão. Não prolongue a agonia nem aumente as perdas deles. – Eles já estão com raiva – observei. – Não posso mudar isso. Eles também querem uma guerra, a não ser que o pacto seja cumprido. – Se disser para se renderem a mim, eles farão isso. Você é a líder. Diga para se submeterem a mim e depois vá para casa. Hesitei por um momento, pensando naquela barganha que só teria vantagem para um dos lados. Se eu mandasse os Dragomir cederem, talvez eles cedessem mesmo. Eu era a líder deles. Poderia salvar vidas. Passei os dedos no jaspe-sanguíneo no pescoço, ouvindo minha mãe biológica. Não faça isso, Marianne... Não permita que seu primeiro ato seja de submissão, nem mesmo a Clara. – Não – respondi com firmeza. – Você destruiu o pacto. Você será responsabilizada por arruinar a paz e os Dragomir não vão se ajoelhar diante de um... de um “valentão de escola”. Clara riu disso, uma pequena sombra de seu antigo sorriso de zombaria. – É o que você pensa a meu respeito, Marina? Que sou um “valentão”, como o patético Felipe Dormand? – Você é pior. Seu sorriso ficou triste. – Sou mesmo. Felipe, apesar de todos os defeitos, apesar de todas as crueldades, nunca sequer sonhou em destruir uma mulher tão magnífica quanto você. Eu ainda lutava para encontrar as palavras certas quando Clara me deu as costas e nos deixou.

 



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