História Como se livrar de uma vampira apaixonada - Capítulo 2


Escrita por:

Postado
Categorias Em Família
Tags Clara, Em Família, Marina
Visualizações 97
Palavras 7.367
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Comédia, Ficção, Ficção Adolescente, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 2 - Capitulo 2


Acabou que meus pais nem tiveram chance de me explicar qualquer coisa.
Quando chegamos em casa, meu pai estava no meio de sua aula de ioga tântrica para hippies exageradamente sexuados e exageradamente ultrapassados no salão que ficava atrás da casa. Por isso mamãe mandou que eu fizesse minhas tarefas. E aí Clara  chegou cedo para o jantar.
Eu estava no estábulo limpando as baias quando vi de relance uma sombra entrar pela porta.
– Quem está aí? – gritei assustada, ainda com os nervos à flor da pele por conta dos acontecimentos do dia.
Quando não houve resposta, tive a sensação ruim de que devia ser a nossa convidada para
o jantar. Lembrei que mamãe convidara a aluna de intercâmbio quando ela atravessou a empoeirada arena de equitação. Ela não pode ser tão perigosa. Ignorando o aval de mamãe, continuei segurando o forcado com firmeza. – O que você está fazendo aqui? – indaguei enquanto ela se aproximava. – Olhe os bons modos – reclamou Clara com seu sotaque metido a besta, levantando pequenos tufos de poeira a cada passada longa. Chegou perto de mim e outra vez fiquei espantada com sua altura. – Uma dama não se exalta no meio de um estábulo – continuou ela. – E que espécie de saudação foi essa?
A garota  que me perseguiu o dia todo está dando aula de etiqueta para mim?
– Perguntei por que você está aqui – repeti, apertando o forcado com um pouco mais de força.
– Para conhecer você, é óbvio – respondeu ela, enquanto parecia me avaliar, andando em volta de mim, olhando minhas roupas. Girei, tentando mantê-la em meu campo de visão, e a peguei franzindo o nariz. – Sem dúvida você também está ansiosa para me conhecer.
Não mesmo... Eu não fazia ideia do que ela falava, mas me medir da cabeça aos pés não era nada legal.
– Por que está me olhando desse jeito? Ela parou de me rondar.
– Você está limpando as baias? Isso aí nos seus sapatos são fezes?
– São – respondi, confusa com seu tom de voz. Por que ela se importa com o que tem nos meus sapatos? – Eu limpo as baias todas as noites.
– Você? – perguntou ela, parecendo perplexa e horrorizada. – Alguém tem que fazer o serviço.
Por que essa garota acha que isso é da conta dela?
– No lugar de onde venho temos pessoas para fazer isso. Criados. – Ela fungou. – Uma dama da sua magnitude nunca deveria fazer uma tarefa inferior. É ofensivo.
Quando ela disse isso, meus dedos apertaram o forcado outra vez e não foi por medo. Clara vlascarponni não estava só me apavorando – estava me deixando possessa.
– Olha, já estou de saco cheio de você ficar atrás de mim e dessa sua pose – esbravejei. – Quem você pensa que é? E por que está me perseguindo?
A raiva e a incredulidade brilharam nos olhos pretos de Clara.
– Sua mãe ainda não contou, não é? – Ela balançou a cabeça. – A Dra. Meirelles prometeu que lhe explicaria tudo. Seus pais não são muito bons em cumprir promessas.
– A gente... A gente ia conversar mais tarde – gaguejei, com o ultraje enfraquecendo um pouco diante de sua raiva óbvia. – Papai está dando aula de ioga...
– Ioga? – Clara deu uma risadinha desagradável. – Contorcer o corpo numa série de configurações ridículas é mais importante do que informar à filha sobre o pacto? E que tipo de homem pratica um passatempo tão pacifista? Os homens deveriam treinar para a guerra, não perder tempo entoando “om” e pregando a paz interior. Hein?
– Pacto? Que pacto?
Clara observava as traves do teto do estábulo, andando de um lado para o outro, as mãos cruzadas às costas, e murmurava:
– Isso não está certo. Não está nem um pouco certo. Eu disse aos Anciões que você deveria ter sido convocada de volta à Romênia há anos, que nunca seria uma noiva adequada...
Epa, espera aí. – Noiva? Clara fez uma pausa e girou nos calcanhares para me encarar. – Estou cansada da sua ignorância. – Ela chegou mais perto de mim, inclinando-se. – Como seus pais se recusam a informá-la, eu mesma darei a notícia. E vou fazer isso do modo mais simples. – Ela apontou para o próprio peito e anunciou, como se falasse com uma criança: – Eu sou uma vampira. – E apontou para o meu peito. – Você é uma vampira. E vamos nos casar assim que você alcançar a maioridade. Isso foi decretado desde o nosso nascimento.
Não cheguei a processar a parte do “vamos nos casar”, muito menos o lance sobre “decretado”. Eu já tinha me perdido na parte da “vampira”.
Pirada. Clara vlascarponni é completamente pirada. E estou sozinha com ela num estábulo. Por isso fiz o que qualquer pessoa sensata faria. Cravei o forcado no pé dela e corri feito louca para casa, ignorando seu grito de dor.

**

– Sem chance de eu ser uma morta-viva – gemi.
Mas ninguém prestou atenção. Meus pais estavam concentrados demais no pé machucado de Clara vlascarponni.
– Sente-se, Clara – ordenou minha mãe, parecendo contrariada com nós dois. – Prefiro ficar de pé – respondeu Clara.
Mamãe apontou com firmeza para o círculo de cadeiras em volta da mesa da cozinha. – Sente-se. Agora.
Nossa visitante ferida hesitou, mas, depois, murmurando baixinho, ocupou uma cadeira. Mamãe arrancou a bota dela, que tinha a marca visível de um dente de forcado, enquanto meu pai estava na cozinha, procurando o kit de primeiros socorros embaixo da pia e fazendo um chá de ervas.
– Só está roxo – afirmou mamãe.
– Ah, que bom – disse papai. – Não estou mesmo encontrando os curativos. Mas ainda podemos tomar o chá.
A garota esguia que se declarava sugadora de sangue e tinha ocupado o meu lugar à mesa da cozinha me olhou com irritação.
– A sua sorte é que meu sapateiro só usa couro da melhor qualidade. Você poderia ter me espetado. E não vai querer espetar uma vampira. Além do mais, isso é jeito de receber sua futura esposa ou qualquer visitante, por sinal? Usando um forcado?
– Clara – interrompeu minha mãe. – Você pegou Marina  desprevenida. Como expliquei antes, o pai dela e eu queríamos conversar com a menina antes.
– É, certamente vocês demoraram para cumprir a tarefa. Dezessete anos. Alguém precisava intervir. – Clara soltou o pé que minha mãe segurava e se levantou, mancando pela cozinha calçando uma bota só, como uma rainha  inquieta em seu castelo. Pegou a lata de camomila, cheirou o conteúdo e franziu a testa. – Vocês bebem isso?
– Você vai gostar – prometeu papai. E serviu quatro canecas. – É muito calmante num momento de estresse como este.
– Nada de chá. Só me digam o que está acontecendo – implorei, sentando-me para recuperar minha cadeira. Ela não estava nem um pouco quente. Nem parecia que alguém tivesse sentado ali um pouquinho antes. – Alguém. Por favor. Desembucha.
– Respeitando o desejo de seus pais, repassarei essa tarefa a eles – declarou Clara. Em seguida levou a caneca fumegante aos lábios, bebericou e estremeceu. – Santo Deus, isso é medonho.
Ignorando Clara, mamãe trocou um olhar cheio de significado com meu pai, como  se  os dois tivessem um segredo. – Ricardo, o que você acha? Aparentemente papai entendeu o que ela estava sugerindo, porque confirmou com a cabeça e disse:
– Vou pegar o pergaminho. E saiu da cozinha.
– Pergaminho? – Pergaminhos. Pactos. Noivas. Por que todo mundo está falando em código? – Como assim?
– Ah, querida. – Mamãe se sentou na cadeira junto à minha e segurou minhas mãos com carinho. – Isso é bem complicado de explicar. – Tente – resmunguei.
– Você sempre soube que foi adotada na Romênia – começou mamãe. – E que seus pais biológicos foram mortos num conflito...
– Assassinados por camponeses – completou Clara, com uma careta. – Pessoas supersticiosas, inclinadas a formar hordas malignas. – Ela levantou a tampa da pasta de amendoim orgânico de papai, provou um bocado e limpou os dedos nas calças, que eram pretas e justas nas pernas compridas, quase como calças de montaria. – Por favor, digam que há alguma coisa palatável nesta casa. Mamãe se virou para Clara.
– Será que poderia ficar quieta por alguns minutos enquanto conto a história?
Clara fez uma ligeira reverência, com o cabelo preto  reluzindo sob a lâmpada da cozinha.
– Claro. Continue.
Mamãe voltou a atenção para mim.
– Mas não lhe contamos a história toda porque o assunto parecia transtorná-la demais.
– Agora poderia ser uma boa hora para isso – sugeri. – Não tem como eu ficar mais transtornada do que já estou. Mamãe tomou um gole do chá. – É, bem... a verdade é que seus pais biológicos foram mortos por uma turba furiosa que tentava livrar sua aldeia dos vampiros.
– Vampiros? – Ela só podia estar brincando.
– É – confirmou mamãe. – Vampiros. Seus pais estavam entre os vampiros que eu estudava na época.
Certo, eu costumava ouvir palavras como fadas, espíritos da terra ou trolls em casa. Cultura e lendas folclóricas eram o foco das pesquisas de mamãe. Papai fazia seminários de “comunicação com anjos” no salão de ioga. Mas, com certeza, nem meus excêntricos pais levariam monstros de Hollywood a sério. Não era possível que eles acreditassem que meus pais biológicos viravam morcegos, se dissolviam à luz do sol ou tinham caninos enormes. Ou era? 
– Você mencionou que estava estudando algum tipo de seita – retomei a conversa. – Um subgrupo cultural com rituais estranhos. Mas nunca falou sobre vampiros.
– Você sempre foi muito lógica, Marina – disse mamãe. – Não gosta de coisas que não possam ser explicadas pela matemática ou pela ciência. Seu pai e eu tínhamos medo de que a verdade sobre seus pais biológicos pudesse perturbá-la demais. Por isso mantivemos as coisas um tanto vagas.
– Está dizendo que meus pais biológicos acreditavam mesmo que eram vampiros? Mamãe confirmou com a cabeça. – Bom... é.
– Eles não achavam que eram vampiros – resmungou Clara. Ela havia apanhado a bota e estava pulando num pé só, tentando calçá-la. – Eles eram vampiros.
Enquanto eu olhava nossa visitante boquiaberta e incrédula, o pensamento mais repugnante do mundo me passou pela cabeça. Aqueles rituais aos quais minha mãe havia se referido, relacionados aos meus pais biológicos...
– Eles... Eles não bebiam sangue de verdade...
A expressão da minha mãe disse tudo e eu achei que fosse desmaiar. Meus pais biológicos: esquisitões bebedores de sangue.
– É uma coisa muito, muito saborosa – comentou Clara. – Por acaso vocês não teriam aqui, no lugar desse chá...
Mamãe lhe lançou um olhar enfurecido. Clara franziu a testa. – Não. Acho que não. – As pessoas não bebem sangue – insisti, a voz ficando meio aguda. – E vampiros não existem!
Clara cruzou os braços, carrancuda. – Com licença? Eu estou bem aqui. – Clara, por favor – disse mamãe, no tom calmo porém sério que reservava para alunos difíceis. – Dê um tempo à Marina para ela processar as coisas. Sua tendência analítica a torna hostil ao mundo paranormal.
– Sou hostil a tudo o que é impossível – gritei. – Ao que é irreal.
Naquele momento, papai voltou segurando com cuidado um rolo de pergaminho mofado.
– Historicamente, muitos povos não simpatizam com a ideia de mortos-vivos – observou papai, colocando o documento sobre a mesa. – E o final da década de 1980 foi um período ruim para os vampiros na Romênia. Havia grandes expurgos de meses em meses. Muitos vampiros gente boa foram eliminados.
– Seus pais, que eram bastante poderosos dentro do grupo, perceberam que estavam marcados para morrer e entregaram você a nós, antes de serem mortos, esperando que pudéssemos mantê-la em segurança no Brasil – acrescentou mamãe.
– As pessoas não bebem sangue – repeti. – Não bebem. Vocês não viram meus pais agindo
como vampiros, viram? – desafiei. – Nunca os viram com dentes compridos e mordendo pescoços, não é? Sei que não. Porque isso não aconteceu.
– Não – admitiu mamãe, segurando minhas mãos de novo. – Não tivemos permissão para isso.
– Porque não aconteceu – repeti.
– Porque morder é uma coisa muito particular, muito íntima – se intrometeu Clara. – Não convidamos pessoas para olhar. Os vampiros são sensuais, mas não são dados ao exibicionismo. Somos discretos.
– Mas não temos motivo para acreditar que tenham mentido para nós com relação a beber sangue – completou mamãe. – E não há nada de desconcertante nisso, Mari. Para eles, era bastante normal. Se você tivesse crescido na Romênia, dentro daquele grupo cultural, iria parecer normal para você também. Soltei as mãos com força. – Não mesmo.
Com um suspiro fundo, Clara  voltou a andar para lá e para cá.
– Sinceramente, não suporto mais isso. A história é bem simples. Você, Marianne, é a última de uma longa linhagem de vampiros poderosos. Os Dragomir. Realeza vampírica. Isso me fez gargalhar. Um riso esganiçado, histérico. – Realeza vampírica? Tá legal.
– Sim. Realeza. E esta é a última parte da história, que seus pais ainda parecem relutantes em contar. – Clara se inclinou por cima da mesa, de frente para mim, firmando os braços e me olhando. – Você é uma princesa vampira, herdeira da liderança dos Dragomir. Eu sou uma princesa vampira também, herdeira de um clã igualmente poderoso, o Vlascarponni. Mais poderoso, na verdade, mas esse não é o ponto. Nós fomos prometidas uma a outra numa cerimônia de noivado pouco depois de nascermos.
Com o olhar, pedi ajuda à minha mãe, mas tudo o que ela disse foi: – A cerimônia foi muito bonita, muito elaborada.
– Numa caverna enorme nos Cárpatos – acrescentou papai. – Com velas por toda parte. – Ele olhou para mamãe com admiração carinhosa. – Nenhuma pessoa de fora havia conseguido esse tipo de acesso antes. Olhei-os furiosa.
– Vocês estavam lá? Nessa tal cerimônia?
– Ah, conhecemos um monte de vampiros naquela viagem e testemunhamos muitos acontecimentos culturais interessantes. – Mamãe sorriu um pouquinho, recordando. – Você deveria ler meu resumo da pesquisa no Boletim de Cultura Popular do Leste Europeu. Foi um trabalho bastante notável, se me permitem dizer.
– Deixem-me terminar, por favor – resmungou Clara.
– Alto lá – censurou papai com gentileza. – Nessa pequena democracia todo mundo tem a chance de falar.

Pelo olhar desdenhoso que Clara  dirigiu ao meu pai, pude ver que ela não ligava muito para democracia. A delirante projeto de Drácula voltou a andar de um lado para o outro.
– A cerimônia de noivado selou nosso destino, Marianne. Devemos nos casar logo depois de você alcançar a maioridade. Nossas linhagens sanguíneas serão unidas, num casamento  consolidando a força dos nossos clãs e encerrando anos de rivalidade e guerra. – Os olhos pretos reluziram e se desviaram para longe. – Nossa ascensão ao poder será um momento glorioso. Cinco milhões de vampiros, a sua família e a minha juntas, todos sob o nosso comando. – Minha suposta  noiva retornou bruscamente à realidade e me olhou, fungando. – Eu farei todo o “trabalho pesado”, é óbvio, no que diz respeito à liderança.
– Vocês todos perderam a noção – declarei, olhando o rosto de cada um. – Isso é maluquice.
Então, Clara chegou mais perto de mim e se abaixou até ficarmos cara a cara. Pela primeira vez vi curiosidade e não desdém, zombaria ou prepotência em seus olhos escuros. – Seria mesmo tão repugnante, Marianne, ficar comigo?
Não tive certeza do que ela quis dizer, mas achei que era sobre nós duas juntas, não numa jogada de poder político, mas de modo romântico.
Não falei nada. Será que Clara  Vlascarponni realmente achava que eu iria me apaixonar por ela, só por causa de seu rostinho bonito e seu corpo de arrasar? Acreditava que eu dava a mínima para o fato de ela ter o perfume mais sensual que já senti...?
– Vamos mostrar o pergaminho a ela – interrompeu papai, quebrando o clima. – É, está na hora – concordou mamãe.
Eu quase havia esquecido aquele papel mofado, mas então papai se sentou e desenrolou cuidadosamente o pergaminho sobre a mesa da cozinha. O frágil material estalou enquanto ele o alisava com dedos gentis. As palavras – em romeno, pelo jeito – eram indecifráveis para mim, mas aquilo parecia algum tipo de documento legal, com uma porção de assinaturas na parte de baixo. Desviei o olhar, me recusando a prestar atenção àquele absurdo.
– Vou traduzir – ofereceu Clara, levantando-se. – A não ser, é claro, que Marianne tenha estudado romeno.
– É a próxima prioridade da minha lista – falei com os dentes trincados. Poliglota nojentinha.
– Seria bom você começar a aprender, minha futura esposa – rebateu Clara, chegando ainda mais perto e se inclinando por cima do meu ombro para ler. Pude sentir sua respiração na minha bochecha. Era fria e doce. Mesmo contra o bom senso, continuei inalando aquele perfume incomum, levando-o para o fundo dos meus pulmões. Clara estava tão perto que meu cabelo castanho e encaracolado roçou seu queixo e ela, distraidamente, afastou as mechas, o que fez com que seus dedos tocassem meu rosto. Estremeci com o toque.
Se Clara sentiu o mesmo choque que eu, não demonstrou, permanecendo concentrada no documento. Será que estou ficando lesada de tanto sentir esse perfume? Estou imaginando 
coisas?
Ajeitei ligeiramente o corpo na cadeira, tentando não encostar de novo em nossa convidada arrogante enquanto ela passava o dedo sob a primeira linha do pergaminho.
– Isto declara que você, Marianne  Dragomir, é prometida em casamento a mim, Clara Vlascarponni, logo depois de chegar à maturidade, aos 18 anos, e que todas as testemunhas concordam com esse acordo. E depois do casamento nossos clãs estarão unidos e em paz. – Ela se inclinou para trás. – Como eu disse, é bastante simples. E veja só: a assinatura do seu pai adotivo. E da sua mãe.
Não pude resistir a espiar quando ela disse isso. E, de fato, as assinaturas de mamãe e de papai estavam no documento, entre dezenas de nomes romenos estranhos. Traidores.
Empurrando o pergaminho, cruzei os braços e fuzilei meus pais com o olhar. – Como vocês puderam me prometer feito... feito uma vaca premiada?
– Não “prometemos você”, Marina – disse mamãe. – Na época, você não era nossa filha. Só estávamos lá para testemunhar um ritual único, no interesse da minha pesquisa. Isso aconteceu semanas antes do expurgo, semanas antes de adotarmos você. Não sabíamos o que
o futuro nos reservava.
– Além disso, ninguém promete vacas – zombou Clara. – Quem prometeria isso? Você é uma princesa vampira. Seu destino não lhe pertence totalmente.
Princesa... Ela está crente mesmo que sou uma princesa vampira... A sensação estranha, quase prazerosa, do momento em que ela roçou meu rosto foi esquecida quando a realidade me acertou de novo. Clara Vlascarponni era uma lunática.
– Se eu fosse vampira, teria vontade de morder alguém. Sentiria sede de sangue – argumentei, numa última tentativa de enfiar um pouco de razão numa conversa que tinha evoluído para o absurdo.
– Você assumirá sua verdadeira natureza – prometeu Clara. – Está chegando à idade. E quando eu mordê-la pela primeira vez, você será uma vampira. Eu lhe trouxe um livro, um guia, por assim dizer, que vai explicar tudo...
Levantei-me tão depressa que minha cadeira caiu no chão com estrondo.
– Ela não vai me morder – interrompi, apontando um dedo trêmulo para Clara. – E não vou para a Romênia me casar com ela! Não dou a mínima para essa “cerimônia de noivado” que fizeram!
– Todos vocês vão honrar o pacto – rosnou Clara. Não era uma sugestão.
– Não banque a ditadora conosco, Clara – interveio papai, empurrando a cadeira para trás e coçando a barba. – Eu lhe disse: isso aqui é uma democracia. Vamos todos respirar fundo. Como disse Ghandi: “Devemos nos tornar a mudança que queremos ver.”
Estava claro que a morena nunca havia enfrentado um mestre da resistência pacífica, porque pareceu surpresa pelo modo como papai avaliava a situação: firme porém afável, e totalmente anticonvencional.

– Que raios significa isso? – perguntou ela.
– Ninguém vai tomar nenhuma decisão hoje – traduziu mamãe. – É tarde, estamos todos cansados e um tanto abalados. Além disso, Clara, Minha filha não está pronta para pensar em casamento. Ela ainda nem beijou um rapaz, pelo amor de Deus ainda menos uma menina. Clara deu um sorrisinho, levantando uma sobrancelha.
– Verdade? Nenhum pretendente? Que inesperado. Imaginei que sua habilidade com o forcado seria atraente para alguns solteiros aqui no interior.
Senti vontade de morrer. Ali mesmo. Queria correr para a gaveta das facas, pegar a maior que encontrasse e cravá-la no meu coração. Contar que nunca fui beijada era quase pior do que ser uma princesa vampira. O lance dos sanguessugas era uma fantasia ridícula, mas minha total falta de experiência... era real.
– Mamãe! Isso é constrangedor demais! Precisava contar?
– Bom, Marina, é verdade. Não quero que a Clara  pense que você é uma garota experiente, pronta para o casamento.
– Não vou me aproveitar disso – prometeu Clara, séria. – E ela não pode ser forçada a se casar, é claro. Esta é uma nova era. Infelizmente. Mas devo dizer que sou obrigada a prosseguir com a corte até que Marianne perceba que seu lugar é ao meu lado. E ela perceberá.
– Não perceberei, não. Clara nem deu bola. – A ligação entre nossos clãs foi decretada pelos membros mais antigos e mais poderosos: os Anciões das famílias Vlascarponni  e Dragomir. E os Anciões sempre conseguem o que querem.
Mamãe se levantou.
– A decisão será de Marina, Clara.
– Certamente. – Mas o meio sorriso condescendente no rosto de Clara dizia o contrário. – E onde vou ficar?
– Ficar? – indagou papai, confuso.
– É. Dormir – esclareceu Clara. – Fiz uma longa jornada, suportei meu primeiro dia no que chamam de escola pública e estou exausta.
– Você não vai voltar para a escola – protestei em pânico. Eu havia me esquecido da escola. – Não pode!
– É claro que vou frequentar a escola.
– Como conseguiu se matricular? – perguntou mamãe.
– Estou com o que chamam de “visto de estudante” – explicou Clara. – Os Anciões acharam que seria difícil explicar minha presença prolongada de outro modo. Os vampiros não gostam de levantar suspeitas, como devem imaginar. Gostamos de nos misturar.
Gostam de se misturar? Usando um sobretudo de veludo em pleno verão? No estado  de goiânia? No coração conservador da região rural do estado, onde 
pessoas duronas, de ascendência alemã, ainda acham que orelha furada é radical e, possivelmente, um passaporte para o inferno?
– Você é mesmo aluna de intercâmbio? – perguntou papai, franzindo a testa.
– Sou. A aluna de intercâmbio que está morando com vocês, para ser exato – esclareceu Clara.
Mamãe levantou a mão com cautela. – Nós nunca concordamos com isso. – É – acrescentou papai. – Não teríamos que assinar alguma coisa? E a burocracia? Clara gargalhou.
– Ah, burocracia. Um pequeno detalhe que foi resolvido na Romênia. Ninguém com bom senso recusa um pedido do clã Vlascarponni. É falta de educação. E as consequências de nos recusar um favor... bom, digamos apenas que as pessoas em toda parte tendem a arriscar o pescoço quando fazem isso.
– Clara, você deveria ter nos consultado antes – protestou mamãe. Os ombros de Clara baixaram, mas só um pouquinho.
– É. Talvez nós tenhamos passado dos limites nesse aspecto. Mas vocês devem admitir que é uma honra me receberem aqui. Sabiam que este dia e eu chegaríamos. Papai pigarreou e olhou para mamãe.
– De fato prometemos aos Dragomir, há anos, que quando chegasse a hora... – Ah, ricardo, não sei. Temos que pensar nos sentimentos de Marina.
– Vocês prestaram um juramento à minha família – lembrou Clara  de novo. – Além disso, não tenho outro lugar para ir. Não vou retornar à pseudopousada na cidade, onde dormi ontem à noite. A decoração do quarto tinha temática suína, pelo amor de Deus. Papel de parede com porcos, badulaques em forma de porcos por toda parte. E uma Vlascarponni não dorme com suínos.
Mamãe suspirou, me tranquilizando com as mãos nos meus ombros.
– Acho que Clara pode ficar no apartamento de hóspedes em cima da garagem enquanto pensamos na situação. Certo, minha filha? É só por um tempo, tenho certeza.
– A fazenda é de vocês mesmo – murmurei, sabendo que estava derrotada. Meus pais sempre recebiam os desgarrados. Gatos arredios, cachorros agressivos... Qualquer coisa sem-teto poderia morar na nossa fazenda, mesmo que ameaçasse morder.
* * *
E foi assim que uma adolescente que se dizia vampira passou a morar na nossa garagem no início do meu último ano de colégio. E não era uma vampira qualquer. Era a minha arrogante e intrometida noiva vampiro. A última pessoa com quem eu ia querer ir para a escola, quanto mais me unir por toda a eternidade.
Passei metade da noite em claro, pensando na minha vida arruinada. Meus pais biológicos eram membros de uma seita que jurava que bebia sangue. Não havia nada que eu pudesse fazer com relação a eles, a não ser tirá-los da cabeça. Essa história poderia continuar escondida no passado. E ficaria lá.
Mas o futuro... Tudo o que eu queria era uma chance de namorar Santiago Spadaro, um cara normal, e, em vez disso, ganhei uma noiva-aberração, bem na minha garagem. Como se todo mundo na escola já não achasse que minha família era suficientemente bizarra, com a ioga do meu pai e sua improdutiva fazenda orgânica anticarne, e minha mãe, a provedora da família e especialista em superstições idiotas. Agora, sim, eu seria mesmo uma excluída. A garota do ensino médio noiva da monstro. E que monstro.
Deitada na cama, eu não conseguia parar de pensar no perfume de Clara, que senti quando ela se inclinou perto de mim. O poder que manifestou andando no meio da sala de aula. O toque dos seus dedos no meu rosto. A afirmação de que um dia cravaria os dentes em mim. Meu Deus, que psicopata!
Jogando as cobertas para o lado, me sentei na cama e abri a cortina, olhando pela janela na direção da garagem. Ainda havia uma luz acesa no apartamento que ficava em cima. Clara  estava acordada. Fazendo o quê?
Voltei a me deitar e puxei as cobertas, apertando-as em volta do pescoço – meu pescoço macio, vulnerável, ainda não beijado –, com parte de mim desejando a manhã que viria e a outra parte morrendo de medo.

***
  
Pov Clara:

CARO TIO FREDERIC,
Escrevo do meu “apartamento” sobre a garagem precária dos Meirelles, onde estou hospedada, respirando escapamento de veículos dia e noite.
Ainda que esteja aqui há apenas algumas semanas, como sinto falta do esplendor rochoso dos Cárpatos e do modo arrepiante e lindo como os lobos uivam à noite. Só quando estamos num lugar que carece completamente de perigo ou mistério entendemos como podemos sentir saudade dos locais sombrios do mundo.
Aqui, a única preocupação é colidir, nas estradas estreitas, com uma carroça sobrecarregada de feno (e as pessoas dizem que a Romênia é atrasada!) ou saber se vai passar um bom programa na televisão à noite. (Os Meirelles tiveram a gentileza de me oferecer uma TV em meu exílio e só posso responder com o português  “beleza!”.)
Mas é claro que sei que não estou aqui pela diversão, pelas artes ou pela arquitetura. (Será que algum dia poderei ser feliz de novo em nosso altivo castelo gótico depois de caminhar pelos corredores da Escola, uma ode ao linóleo?) Tampouco devo me concentrar na culinária. (Francamente, Frederic: veganos?) Ou na conversa perspicaz de meus colegas estudantes. (A palavra “tipo” se tornou algo completamente desagradável.) Mas eu divago. A garota, Frederic. A garota. Imagine meu choque ao encontrar minha futura esposa, minha “princesa”, afundada até os joelhos em dejetos de animais, gritando comigo do outro lado de um estábulo e depois tentando me cravar uma ferramenta agrícola no pé, como um cavalariço demente. Não abordarei o fato de que o excremento de cavalo parecia se grudar numa crosta permanente em suas botas masculinas; deve ser falta de bons modos até mesmo citar isso.
Isso não importa. Ela é grosseira. Não coopera. Carece de qualquer apreciação por sua cultura – e certamente por seu dever, seu destino e pela rara oportunidade que lhe é dada pela mera circunstância de seu nascimento.
Resumindo: Marina Meirelles  não é uma vampira. O fato de morar no Brasil parece ter retirado de nossa futura princesa todos os traços do sangue real que, como sabemos, deve ter corrido em suas veias ao nascer. Ela passou por uma terrível diálise cultural, por assim dizer.
Abençoada com o cabelo castanho e encaracolado nas pontas que torna as mulheres romenas tão características, ela o subjuga, esticando-o e besuntando-o numa tentativa inútil de se parecer com qualquer outra adolescente brasileira. Mas por que querer ser outra pessoa?
E sua noção de moda... Quantas manifestações do tecido de brim podem existir? E as camisetas com cavalos e “trocadilhos” relacionados à aritmética? Qual é a graça de “Matemática é D+”? E que mal faria usar um vestido de vez em quando? Sorrir?
Frederic, sei que tenho o dever de estabelecer um relacionamento com essa jovem, mas, honestamente, será que ela é capaz de liderar nossas legiões? E quanto a compartilharmos algum tipo de intimidade física... Bom, se o senhor puder fornecer qualquer detalhe com relação a esse objetivo, eu ficaria bastante grata.
O senhor sabe que estou sempre disposta a “me sacrificar pelo time” – uma nova expressão que aprendi aqui e de que gosto muito –, mas tudo isso parece um tanto improvável. Talvez fosse mais inteligente cancelar tudo e apenas esperar pelo melhor. Temos mesmo certeza de que haverá uma guerra geral entre os clãs caso o contrato não seja cumprido? Se estivermos falando de apenas alguns confrontos em pequena escala, com perdas mínimas, creio que devemos reconsiderar o pacto de casamento. Porém, é a sua opinião que deve prevalecer, é claro.
Enquanto isso, continuarei com meus esforços, até agora infrutíferos, de educar e atrair essa brasileira impossível. Mas, por favor, Frederic, contemple minhas preocupações. Sua sobrinha, devotada ao dever, Clara Vlascarponni.
P.S.: Fui recrutada para o time de basquete. O técnico acha que eu já posso estrear!

***

– Não consigo fazer isso – reclamou Vanessa, riscando outra resposta errada.
– Esses problemas não são tão difíceis – retruquei, feliz por ser o último ano em que precisaria ensinar matemática a Vanessa. A matéria de cálculo acabava com ela e nós estávamos dando nos nervos uma da outra. O fato de fazer um calor insuportável no meu quarto também não ajudava em nada. Por mais que eu implorasse, papai se recusava a instalar um ar-condicionado, alegando ser desperdício de energia. Peguei o livro e comecei a ler: – Dois homens estão viajando em dois trens, que saem da estação...
– Ninguém anda mais de trem – interrompeu Vanessa, de birra. – Por que a gente precisa sempre falar de trens? Por que não aviões? Levantei os olhos do livro.
– É impossível ensinar a você. Van fechou seu caderno com força. – Falando nisso, e a Clara na aula, hoje, hein? A Sra. Francisca quase teve um orgasmo quando ela se levantou e fez aquela palestra enorme sobre Hamlet. – Vanessa fez uma pausa. – Ela chegou bem perto de fazer uma peça sobre a Dinamarca parecer interessante. – Voltando ao problema...
– Aliás, cadê a clarinha? – Van  abandonou totalmente o cálculo, pulando na minha cama para olhar pela janela. E abriu a cortina. – Claaaarinha  – cantarolou. – Venha brincar... Vanessa quer ver você...
– Por favor, não chame a garota – pedi, séria.
– Só uma espiadinha naqueles olhos negros e sensuais. – vanessa se inclinou para fora da janela. – Ei, tem alguém vindo. Uma picape parou na sua rua.
– Quem é? – perguntei, sem me importar. Devia ser um dos alunos de ioga de papai, chegando cedo. Ouvi o som de pneus no cascalho, depois um motor sendo desligado. Minha melhor amiga se virou para mim, largando a cortina. – Santiago. É a picape azul do santiago. Parou perto do estábulo. Santiago?
Tentei parecer indiferente.
– Ah, é só nossa entrega de feno. A gente compra da fazenda do Santiago spadaro. Ele descarrega e vai embora.
– Ah. – vanessa processou isso, depois enfiou a cabeça pela janela e berrou: – Ei, santi! A gente vai descer!
Não, ela não fez isso.
– Van..! Minha camiseta está furada! E estou de cara lavada!

Você está linda. – Ela ignorou meus protestos e me puxou pelo braço. – Além disso, eu disse que a gente ia descer.
Relutante, deixei que ela me arrastasse para fora. – Eu vou te matar. Vanessa nem me ouviu. – Ele está sem camisa – sussurrou, me puxando pelo quintal na direção da picape do santiago. Ele estava de pé na carroceria, jogando fardos no chão. – Olha aqueles músculos!
– vanessa, cala a boca! – pedi, apertando o braço dela. – Ai!
Ela se soltou e franziu a testa para mim.
– O que vocês estão fazendo? – perguntou santiago, sorrindo e fazendo uma pausa no trabalho. Ele então tirou um lenço vermelho do bolso da calça jeans surrada e enxugou o suor da testa. Os bíceps inchados e a barriga tanquinho brilhavam ao sol poente.
– Só estamos estudando matemática – respondi, mudando a posição do braço para esconder o furo da camiseta. Ele ficava bem em cima da barriga, aumentada depois de um verão inteiro jantando torta.
– Quer beber alguma coisa quando acabar aí? – ofereceu vanessa, como se a casa fosse dela.
– Beleza – concordou santiago, sorrindo. – Só me deixem terminar de descarregar, antes que o sol se ponha totalmente.
Vanessa agarrou meu pulso, sinalizando que deveríamos esperar lá dentro. – Vamos trocar sua camiseta – cochichou no meu ouvido.
– A gente se vê daqui a pouco – falei para santiago, dando uma olhadinha final em seus peitorais. Nada mau.
Mas enquanto eu me virava na direção da casa, vislumbrei uma estudante romena de intercâmbio encostada na lateral da garagem, braços cruzados sobre o peito.
Talvez fosse um truque da luz que ia se esvaindo, lançando sombras duras no seu rosto fino, mas ela não parecia feliz.

***

– Amanhã você vai se virar sozinha, não importa o que mamãe diga
sobre ajudá-la a se adaptar – alertei Clara, que estava me seguindo na fila do almoço, rescusando tudo o que lhe era oferecido. – Já sabe como as coisas funcionam.
– Ah, sim – disse ela, empurrando a bandeja com um dos dedos, como se fosse um objeto tóxico. – Enfileire as pessoas como gado num curral, apresente comida feita para gado e obrigue-as a consumi-la encurvadas, ombro a ombro, em mesas que parecem comedouros para gado.
– Pega logo alguma coisa – gemi, escolhendo um sanduíche. – Esse de carne moída não é ruim.
Clara segurou minha mão e seus dedos no meu pulso eram fortes. E frios! – Marina, isso é carne? Mas seus pais proíbem...
– O que mamãe e papai não sabem sobre a escola não vai fazer mal a eles – expliquei, me desvencilhando de sua mão e empurrando a bandeja. Esfreguei o pulso, esquentando-o. – Portanto não conte nada.
– Que ato insubordinado e rebelde de sua parte! – Clara sorriu, com apreciação na voz. – Aprovo totalmente.
– Numa boa, não estou nem aí para a sua aprovação.
– Claro que não. – Clara deixou passar o sanduíche de carne moída mas pegou algumas batatas fritas. – Cartofi pai. Pelo menos isso nós temos na Romênia.
– Aliás, onde você arrumou essa bebida? – perguntei, apontando para a sua bandeja, onde havia um enorme copo de plástico com a logomarca MORANGO JULIUS. – A gente não tem permissão para sair da escola, sabia?
– Ah, os terrores da detenção. – Clara suspirou, levantando o copo para beber pelo canudinho grosso. Um líquido vermelho, espesso, foi sugado. Ele engoliu com satisfação. – Não o bastante para me afastar dos prazeres de um “Morango Julius”. Acho que estou viciada.
– Você deveria jogar isso fora – falei, estendendo a mão para o copo. – Sério, se for pego...
Clara puxou a bebida antes que eu pudesse tocar nela.
– Acho melhor não. E aconselho você a não derramar isso.
Olhei para o seu rosto, sem saber o que ele queria dizer. Os olhos negros eram maliciosos. – Anda – ordenei, pegando um pouco de gelatina de limão. – Estamos segurando a fila. Vamos pagar, se não quiser mais nada.
Levamos as bandejas para a caixa e, enquanto eu enfiava a mão nos bolsos, Clara pegou sua carteira e a abriu. – Por minha conta. – De jeito nenhum. – Encontrei algumas notas emboladas no bolso, mas Clara foi mais rápida. Entregou uma nota de 50 à mulher do bandejão.
– Fique com o troco. – Ela sorriu para ela, dobrando a carteira e pegando as duas bandejas.
– Mas... – Ela começou a protestar.
– Ela ainda não está acostumada com nosso dinheiro – expliquei, me virando para Clara. – Nosso almoço só custou, tipo, 20 reais.  franziu a testa.
– Marina, você acha que não estou familiarizada com o valor de várias moedas do mundo, em especial o real, que é uma das moedas? melhor cotadas. Eu moro na Romênia, não numa bolha.
A mulher do bandejão ainda estava segurando o troco, insegura. – Eu dou a ela mais tarde – falei, aceitando o dinheiro.
– Olhe, ali está Vanessa, acenando um tanto histericamente para nós – observou Clara, carregando nossas bandejas. – Ela é bem efusiva, não é? – Pelo jeito você vai comer com a gente.
Bufei, seguindo-a enquanto ela deslizava pelo labirinto de mesas em direção a Van. Alguns alunos levantaram os olhos ou até mesmo se desviaram do caminho enquanto a adolescente alta que vestia blusa branca muito elegante, calça preta e botas engraxadas ia passando. Clara  não parecia nem um pouco incomodada com a atenção. Pelo contrário: tive a sensação de que se achava merecedora de nada menos do que isso.
– Ei, Mari. – Van sorriu quando chegamos. Ficou vermelha. – Oi, Clarinha.
– Vanessa, que bom ver você – disse Clara, pondo nossas bandejas sobre a mesa. – Você está estonteante hoje.
Minha melhor amiga ficou ruborizada de prazer.
– Bom, obrigada. Deve ser a blusa nova. É Abercrombie, do outlet. – Ela apontou para a calça preta e justa de Clara. – E, por falar em roupa, essa calça é show. Todo mundo em Roma se veste como você? Ou só as pessoas da família real? – Romênia – corrigi. – Não é Roma.
– Ah, é tudo na Europa. – Vanessa fez pouco caso do que falei, ainda olhando para Clara com uma expressão que só poderia ser descrita como embasbacada. – De qualquer jeito, essa calça é maneiríssima. Clara sorriu.
– Vou dizer a minha estilista  que a obra dela é “show” e “maneiríssima”. Tenho certeza de que ela ficará agradecida em saber que pode competir com a Gap.
Ela fez menção de puxar uma cadeira para mim, mas foi minha vez de segurar sua mão. – Eu puxo.

Como quiser – respondeu ela, recuando.
– Ah, eu gostaria de morar na Romênia – suspirou Vanessa, apoiando o queixo nas mãos branquinhas. – Seus modos são tão...
– Impecáveis. – Clara forneceu a palavra a ela.
– Ah, que ótimo – murmurei, examinando minha bandeja. – Esqueci de pegar uma colher. – Já volto – ofereceu Clara, levantando-se.
– Não, eu pego – insisti, levantando-me também.
Clara passou por trás de mim, apertou meus ombros com aquelas mãos poderosas e me guiou de modo delicado porém firme de volta para a cadeira. Ela se inclinou por cima de mim, falando baixinho, ainda me segurando. Seu hálito frio roçou minha orelha e mais uma vez tive aquela sensação traidora, de frio na barriga.
– Marina, pelo amor de Deus – disse ela. – Permita que eu faça ao menos uma gentileza comum por você. Apesar do que você faça, para não aceitar minha ajuda. Ao contrário isso é uma admissão da superioridade. Um reconhecimento do poder que você têm sobre nós. Essa é a única forma de servidão que uma Vlascarponni se permite e eu faço isso com prazer por você. Sua obrigação é aceitar com graciosidade.
Clara soltou meus ombros e saiu andando antes que eu pudesse responder.
– Não faço ideia do que ela quis dizer, mas foi, tipo, a coisa mais excitante que alguém já falou. – Vanessa seguiu Clara com o olhar. – Como você é sortuda! Por que meus pais não recebem estudantes de intercâmbio?
– Eu gostaria que ela fosse problema seu – respondi. Ah, como gostaria! Se ao menos Van  soubesse como Clara Vlascarponni era maluca! Se soubesse o que ela dizia ser... – Por que ela precisa agir assim? Só quero que me deixe em paz. Van  enfiou um canudinho em sua caixinha de achocolatado. – Não entendo você, Mari. Quando a gente tinha 5 anos, você só queria se vestir de princesa. Agora uma "príncipe" encantada de verdade fica de quatro por sua causa e você reclama!
– Ah, Van, só não fique encorajando a garota, beleza?
– Está vidrada demais no Santiago Spadaro para ver que a realeza europeia está dando em cima de você, Mari. Vai perder seu tempo com um cara que se diverte tirando leite de vaca?
– A família do Santiago nem tem vacas – protestei. – Eles mexem com agricultura. Ei, achei que você gostasse do Santiago. Ficou babando pelos músculos dele outro dia!
– Ah, ei, Clara – disfarçou Vanessa, me chutando por baixo da mesa. – Você voltou depressa.
– Não queria que a gelatina ficasse ainda menos palatável de tanto esperar – disse Clara atrás de mim, inclinando-se de novo por cima do meu ombro, arrumando meus talheres na bandeja. Garfo à esquerda do sanduíche de carne moída. Faca e colher à direita. – Esse é o modo brasileiro também, não é?

E o que você faz na Romênia além de frequentar, tipo, a melhor escola de etiqueta do mundo? – perguntou Vanessa  enquanto Clara se sentava.
Ela se recostou na cadeira dobrável de metal e cruzou  as pernas compridas, empurrando para o lado as batatas fritas intocadas.
– Bom, minha formação é bastante rigorosa, embora eu tenha tutores particulares. Quando sinto vontade, desfruto de viagens a Bucareste e Viena. A caça é popular nos Cárpatos. E também a equitação.
– Olha, você e Mari  têm algo em comum! – exclamou Van. Lancei-lhe um olhar de reprovação. – Têm, sim!
Clara arqueou as sobrancelhas, intrigada.
– Verdade, Marina? Achei que toda a sua atividade equestre se resumisse a limpar os estábulos – provocou ela. – Não fazia ideia de que era familiarizada com a visão que se tem de cima de um cavalo. Por que guardou segredo?
– Eu não queria você espreitando no estábulo, assustando minha égua – respondi antes de dar uma mordida no sanduíche de carne moída proibido.
– Mari vai saltar no concurso do Clube da Juventude no outono – acrescentou Van. Clara sorriu em sinal de aprovação.
– Sabe, sou conhecida como a melhor montadora de minha cidade natal, Sighişoara. Talvez possa ajudá-la a mon...
– Não! – exclamei, mais alto do que pretendia. Baixei a voz. – Não preciso de ajuda, tá? – Tem certeza? Fui capitão da seleção amadora de polo da Romênia. – Ah, qual é – gemi, enfiando uma colherada de gelatina na boca.
– Melhor pegar leve com a sobremesa, Pacotão – gritou alguém. – Você já balança feito uma tigela cheia de gelatina.
Ah, não... Era o gorducho do Felipe Dormand que, acompanhado por Fernanda Cerqueira e André, seu namorado atleta, passava gargalhando perto da nossa mesa.
– Olha quem fala, Dormand – alertei. – Pelo menos a minha gordura não está toda dentro da cabeça.
Mas eles já estavam se afastando, rindo juntos.
– Inaceitável. – Clara se endireitou na cadeira, com incredulidade na voz. – Ele acabou de zombar de você, Marina? – perguntou, começando a se levantar.
– Clara, deixa pra lá – falei, apertando seu braço. – Já cuidei disso. Como sempre faço. Clara me olhou com desconfiança.
– Devo permitir que aquele... aquele... quadrúpede zombe de você?
Segurei com força a manga de sua blusa, sentindo seu braço firme, mesmo através do tecido.
– É só Felipe Dormand bancando o panaca, como de costume – respondi. – Não comece uma briga por causa disso.

Por um momento Clara pareceu esquecer Felipe enquanto voltava a se sentar, claramente perplexa, examinando meu rosto.
– Marina, eu não entendo. Logo você, suportar zombarias...
– Chega, Clara – alertei, implorando em silêncio, encarando seus olhos escuros. Por favor, não mencione vampiros, noivados nem nada sobre eu ser uma princesa. Não com a Vanessa aqui. Nem agora nem nunca. – Sei como cuidar disso. Clara desistiu, embora com óbvia relutância.
– Como quiser. Mas só vou ceder uma vez. A atitude desses imbecis com relação a você, Marina, não ficará sem resposta de novo.
Ela se recostou na cadeira, cruzando os braços, olhando a porta pela qual Felipe, Fernanda e André haviam partido. Ela observava atentamente, como se desejasse que os três voltassem para testá-la. Parecia estar tramando, criando estratégias, imaginando a briga. Seu olhar era tão frio e amedrontador que até Vanessa ficou quieta, pela primeira vez na vida.
Terminamos o almoço em silêncio. Clara não comeu nada, só tinha dado alguns goles no Morango Julius de vez em quando, distraída, enquanto olhava para a porta. Quando saímos do refeitório, ela jogou o copo vazio na lata de lixo.
– Espero que ela arrebente a cara do Felipe um dia desses – sussurrou Vanessa, esvaziando sua bandeja. – Seria moleza. Clara parecia pronta para matar por você.
Do jeito que Van falou, aquilo pareceu quase romântico. Mas eu também tinha visto a expressão de Clara e sentido sua raiva mal contida nos músculos tensos sob minha mão.
Não, a perspectiva de Clara Vlascarponni me vingar por qualquer coisa não era nem um pouco romântica. Pelo contrário, havia acabado de me encher de uma apreensão que beirava
o pavor. Quanto mais eu pensava na combinação André, Felipe, Fernanda, Clara e eu, mais eu tinha certeza de que era algo que só poderia terminar em desastre. 



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...