História Como se livrar de uma vampira apaixonada - Capítulo 3


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Categorias Em Família
Tags Clara, Em Família, Marina
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Palavras 6.323
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Comédia, Ficção, Ficção Adolescente, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 3 - Capitulo 3


CLARA pov's

CARO TIO FREDERIC,
Talvez a lentilha seja o alimento mais versátil e indestrutível do mundo.
É possível comer lentilha sem adornos, casá-la com seu primo em primeiro grau, o rude “bulgur”, ou tentar afogá-la em vinagre para uma “salada vegana”. Mas, infelizmente, a lentilha sempre sobreviverá. De fato, no lar dos Meirelles, a pequena e tenaz leguminosa ressuscitará à força, sempre livre de qualquer coisa que se assemelhe a sabor, e insinuará seu eu indomável, lenticular, em mais um prato da refeição, esperando ser consumida. De novo e de novo e de novo.
E nem me fale de gelatina e de sanduíche de carne moída. PELO AMOR DE DEUS, FREDERIC.
Por quanto tempo mais devo suportar tudo isso no interesse da paz entre os clãs? Devo me sacrificar como a primeira prisioneira em uma guerra que ainda nem começou?
Honestamente, Frederic, não se trata apenas da comida (ou do que os Meirelles e o Departamento de Educação da Goiânia insistem em chamar de comida).
As escolas de ensino médio do Brasil deveriam ser consideradas ilegais segundo as regras da Convenção de Genebra. As crueldades indescritíveis que suporto deixariam perplexo até o senhor, um especialista no assunto!
Como sabe, sempre fui curiosa a respeito de nossa imortalidade, sobre como será continuar a viver através dos anos (presumindo que evitemos a estaca, como pretendo fazer). Não preciso especular mais. Senti uma amostra da eternidade na aula de “estudos sociais” da Srta. Helena, no quinto tempo de aula. Três dias sobre o conceito de “Destino Manifesto”, FREDERIC. TRÊS DIAS. Minha vontade era me levantar, arrancar as anotações de suas mãos pálidas e gritar: “Sim, os Estados Unidos se expandiram para o oeste! Isso não é lógico, dado que os europeus se estabeleceram na margem leste? O que mais eles poderiam fazer? Avançar inutilmente mar adentro?”
Mas não devo reclamar. Não seria de bom-tom perder a compostura. Devo perseverar, lutando contra a tentação de apenas ficar com cara de boba, como faz a maioria dos meus “pares” (em seus sonhos!), que mergulham em um estado de torpor coletivo, de vazio, parecido com um transe, e que dura o tempo de cada aula. (Se bem que às vezes invejo secretamente sua capacidade de esvaziar a mente por completo durante 50 minutos, reanimando-se apenas ao som de uma campainha, como os cães de Pavlov. E então, saem latindo e ganindo pelos corredores até que as aulas recomecem...)
No entanto, sem dúvida, o senhor está mais intrigado com as notícias da corte do que com as de minha “educação”. Assim sendo, passarei a falar de meu progresso com Marianne.
Fico contente em informar que, às vezes, minha futura princesa demonstra sinais de possuir grande presença de espírito. Infelizmente, toda a considerável força de vontade de Marianne, seu “pique” (para usar uma palavra daqui), se concentra em rejeitar a minha pessoa.
Verdade seja dita: ela demonstra uma dedicação implacável a essa missão.
Enquanto isso, tenho a sensação de que Marianne sente uma atração indevida por um carregador de feno (um camponês! E baixinho, ainda por cima!) que tem aparência e postura tão pouco notáveis a ponto de, mesmo ocupando uma carteira perto da minha na aula de literatura Brasileira (em grande medida assumi o papel de orientadora nessa matéria – talvez eu ganhe uma “monitoria”!), eu nunca conseguir me lembrar de seu nome. Santos? Santinho? (Infelizmente esses dois palpites são bons. Parece que temos um punhado de cada um deles aqui, na escola.)
O fato é que pareço ter “concorrência”, Frederic. Concorrência por parte de um camponês, cujas grosseiras estratégias para cortejá-la incluem aparecer na fazenda dos Meirelles, desnecessariamente sem camisa, para contrair os músculos na frente dela! Exibindo-se como um faisão estufado! E se o senhor pudesse vê-la flertando com o palerma...
Será que isso pesa contra Marianne – ou contra mim, a quem ela despreza?
E se os Dragomir desenvolveram uma queda por camponeses, não deveríamos deixar que sua linhagem se rebaixe naturalmente, em vez de nos unirmos a eles? Estou de pilhéria.
Claro que vencerei. (Uma vlascarponni contra um trabalhador braçal... eu poderia ganhar Marianne com uma das mãos amarrada às costas e talvez usando uma venda.) Mas toda a situação é desanimadora, para dizer o mínimo. Pensar que Marianne considera flertar com um caipira quando uma vlascarponni  demonstra interesse... Quando uma menina  demonstra interesse! Culpo as lentilhas. Pode-se esperar que uma nobre acostumada com carne alcance o máximo de rendimento à base de grãos empapados?
Recentemente me senti ainda mais desanimada ao testemunhar Marianne  sendo maltratada por um dos personagens mais tediosos da Escola, um garoto com o nome infeliz de Felipe Dormand. (Não é de espantar que ele seja a própria dormência!) Imagine só: um simplório insultando uma princesa vampira. Fiquei ali sentada, perplexa, incapaz de acreditar no que via e ouvia. Isso não acontecerá de novo. Estou ciente de que devo seguir as regras de conduta locais (infelizmente há sanções rígidas contra cabeças rolarem nas ruas por aqui), mas outro insulto vindo de um “Dormente” não será suportado. Minha futura esposa – ainda que com uma inclinação camponesa temporária – não precisará aceitar mais insubordinação.
Não é apenas o insulto que me perturba, Frederic. Eu lhe pergunto: como Marianne pode entender seu real valor sendo criada nessas circunstâncias? É surpreendente que pense muito  ser consorte de um roceiro? Se houvesse sido criada na Romênia, educada como uma governante, A Marianne jamais aceitaria um insulto vindo de um plebeu. Teria ordenado que o ofensor fosse executado como o vira-lata imundo que ele é. Aqui, tudo o que ela pôde fazer foi contra-atacar com sua sagacidade (grosseira, mas encorajadoramente cortante) – uma arma, sim, mas uma princesa deveria ter poder verdadeiro em suas mãos.
Estou preocupada com isso, Frederic. Os governantes não nascem prontos, como sabe. São forjados. Marianne não sabe nada sobre exercer o poder. O que isso significará para ela e para os clãs que comandará quando assumir o trono?
Mas eis o ponto principal de minha missiva. O senhor poderia liberar, digamos, mais 23 mil lei – o equivalente a cerca de 30 mil reais – do meu dinheiro sob sua custódia? Estou interessada em uma pequena compra, relacionada, obviamente, à corte que faço a Marianne. E pode ser que eu precise usar uma pequena parte para adquirir um módico estoque de carne vermelha. Desde já agradeço pela generosidade. Sua sobrinha, Clara.
P.S.: O treino de basquete começará logo. Talvez o senhor queira pegar um avião e assistir a um jogo. Acho que não.

***

– Por que Clara não ajuda com os pratos? – reclamei, entregando a
mamãe um prato que pingava. – Ela come com a gente. Poderia ajudar na limpeza. E, além disso, estou cansada de cuidar da roupa suja dessa garota. Ela sempre reclama e pede goma. Quem usa goma, afinal?
– Entendo sua frustração, Marina. – Mamãe enxugou o prato com um pano. – Mas seu pai e eu discutimos isso e ambos achamos que Clara já tem dificuldades suficientes em se adaptar à vida no Brasil.
– Ela se adaptou muito bem. Bem demais, se você quer saber.
– Não confunda a presunção de Clara com felicidade. A vida dela sofreu mudanças bastante drásticas, isso sem termos que forçá-la a um trabalho extra que, na casa dela, seria feito pelos serviçais.
– Pelo menos é o que ela diz. Mamãe riu.
– Independentemente do que esteja pensando sobre a... é... a vampirice da Clara... – Acho que isso não passa de um monte de mer... Quero dizer, de papo- -furado. – A verdade é que Clara  vem de uma família muito rica, privilegiada. Mergulhei as mãos na água com detergente, procurando talheres submersos. – Privilegiada até que ponto? Às vezes fico em dúvida sobre os cavalos de polo e as viagens a Viena.
– Ah, eu não ficaria surpresa, Marina. A família Vlascarponni  mora numa propriedade bem impressionante. É um castelo, na verdade. No alto dos montes Cárpatos.
– Um castelo? – Ninguém mora em castelos, a não ser nos filmes da Disney. – E você viu esse “castelo”?
– Só pelo lado de fora e era bem imponente. Não tivemos permissão para entrar. Os Vlascarponni  não eram os vampiros mais acessíveis... – Pareceu que ela iria se aprofundar nisso, mas mudou de ideia. – Os Dragomir foram mais receptivos.
Estávamos chegando muito perto de uma discussão sobre meus pais biológicos. – Como era? O castelo? Mamãe sorriu.
– Essa é a primeira vez que vejo você intrigada com alguma coisa relativa a Clara. Lavei algumas facas. – Só com a casa dela. Mamãe jogou o pano de prato no ombro e se encostou na bancada. – Não com a Clara? Nem um pouquinho?

Percebi a sugestão sutil em sua voz. – Mãe! Não!
– Marina, admita: Clara é uma jovem atraente e sem dúvida está interessada em você. Seria natural se você demonstrasse algum interesse também. Não seria algo do que se envergonhar.
Enfiei um pirex embaixo d’água e o esfreguei um pouco para soltar a lentilha grudada nas laterais.
– Ela acha que é uma vampira, mamãe.
– Isso não muda o fato de que Clara vlascarponni é uma garota  charmosa, poderosa, rica e Bonita.
Lembrei-me da sensação da mão forte porém delicada da Clara  roçando meu rosto na noite em que nos conhecemos. Daquela sensação de frio na barriga. E do fato de ela ter verbalizado a intenção de morder meu pescoço.
– Alguma vez você me viu olhar para Clara com algo que não fosse aversão? Fala sério! Mamãe sorriu.
– Você ficaria surpresa com a frequência com que a aversão vira desejo.
Havia uma expressão sabichona em seus olhos, como se ela tivesse acabado de ler minha mente enquanto eu me lembrava de Clara tocando meu rosto. Fiquei vermelha.
– Isso parece alquimia, que é tão real quanto os vampiros.
– Ah, Marina. – Mamãe suspirou. – O que é o amor, senão uma forma de alquimia? Existem forças no Universo que simplesmente não somos capazes de explicar.
É. Forças como a gravidade de um buraco negro distorcendo o tempo. E a infinitude de pi vagando pelo Universo. Essas eram forças e realidades verdadeiras. Misteriosas, é claro. Mas também mensuráveis e talvez compreensíveis se aplicássemos matemática e física. Por que meus pais não conseguiam entender isso? Por que precisavam olhar o mundo e enxergar magia e sobrenatural onde eu via números e elementos?
– Eu não gosto da Clara, mamãe, então pode esquecer a alquimia, a aversão e principalmente o desejo – anunciei, enxaguando o pirex.
Mamãe não pareceu convencida enquanto enxugava mais pratos.
– Bom, se os seus sentimentos mudarem, pode conversar comigo. Tenho a sensação de que Clara é uma menina muito experiente. Eu não gostaria que você se sentisse perdida... – Marina está perdida em alguma coisa? Posso ajudar?
Mamãe e eu nos viramos e vimos Clara parada junto à porta da cozinha. Há quanto tempo estava ali? O que será que ouviu? “Aversão vira desejo”?
Se mamãe ficou sem graça por ser apanhada falando de Clara pelas costas, isso não se revelou no seu rosto.
– Mari vai ficar bem, Clara. Mas obrigada por perguntar. O que a traz lá da garagem?
– "Desejo" por aquele delicioso sorvete de tofu e alfarroba que a senhora guarda no freezer.

– Clara foi até a geladeira e abriu a porta de cima. – Estão servidas?
– Eu vou ao estábulo ver uns gatinhos que seu pai achou – respondeu mamãe, falando comigo. – Acho que podemos abrigar mais uma ninhada, mas gosto de fingir resistência. Se encorajá-lo demais, ele vai extrapolar. – Ela deu um tapinha no ombro de nossa estudante de intercâmbio enquanto saía da cozinha. – Boa noite, Clara.
– Tenha uma noite agradável, Dra. Meirelles. – Clara pôs a imitação de sorvete na bancada e pegou duas tigelas no armário, estendendo-as em minha direção. – Marina, posso tentá-la?
– Obrigada, mas estou evitando sobremesa.
– Por quê? – Clara pareceu curiosa. – Sei que alfarroba não é o sabor mais atraente do mundo, mas as sobremesas são um dos maiores prazeres da vida, não acha? Raramente deixei de comer, a não ser quando seu pai tentou fazer aquela torta de abóbora sem ovos ou leite. Nem valia o esforço de levar o garfo à boca.
Tirei o protetor do ralo da pia, deixando a água escoar. – Você não é gorda. Pode comer sobremesa.
Quando levantei o olhar do redemoinho de água, Clara franzia a testa e me olhava de cima a baixo.
– O que é? – Olhei para minha camiseta regata e meu short. – Tem alguma coisa em mim? – Certamente você não acha que está acima do peso, Marina  – disse ela, com incredulidade nos olhos. – Você acreditou naquele imbecil que a provocou no refeitório? Eu sabia que deveria tê-lo silenciado.
– Isso não tem nada a ver com Dormand, que é problema meu, não seu. Só preciso perder um quilo, só isso. Fica tranquila.
Clara abriu o pote, balançando a cabeça.
– Mulheres brasileiras. Por que todas vocês querem ficar quase invisíveis? Por que abrir mão de ter uma presença física no mundo? As mulheres deveriam ter curvas e não ângulos. – Com um tremor debochado que ela geralmente reservava para a culinária de papai, acrescentou: – As mulheres americanas  são pontudas demais, todas projetando omoplatas e ossos do quadril, e você quer se parecer com uma delas.
– Está na moda ser magra – argumentei. – É bonito.
– Nunca se deve confundir moda com beleza – corrigiu Clara. – Confie em mim: os homens não gostam do que dizem as revistas de moda. Eles não acham que as mulheres esqueléticas são bonitas. A maioria prefere curvas, e eu também. – Ela enfiou uma colher no tofu congelado e avançou em minha direção, estendendo-a para o meu rosto. – Coma. Fique feliz por ter um corpo de tirar o fôlego. Por ter uma presença.
Dei um sorrisinho sem graça, mas mesmo assim empurrei sua mão. Pretendia perder uns dois quilos.
– Não, obrigada.
Clara suspirou irritada e enfiou a colher de volta no pote.

Marianne, aceite quem você é. Uma mulher com o poder que você desfrutará não precisa seguir a moda nem se abalar com a zombaria maliciosa dos inferiores.
– Pode parar com esse papinho de realeza – avisei, batendo com o pano de limpar a pia. Qualquer pequeno sentimento caloroso que eu pudesse ter tido pela Clara  desapareceu. De repente senti raiva. – E não me chame por esse nome.
– Ah, Marina. Eu não quis chateá-la – disse ela, pousando o pote na bancada. Sua voz se suavizou. – Eu só tentei...
– Sei o que você tentou. Você tenta todo dia.
Nós estávamos paradas, olhando uma para a outra. Clara começou a estender a mão para mim e de repente mudou de ideia.
– Olha, precisamos ter uma conversa séria – anunciei. – Sobre todo esse negócio de “pacto”. Esse lance de “fazer a corte”.
Clara fez uma pausa, pensativa. E então, para minha surpresa, concordou. – É. Acho que deveríamos. – Agora.
– Não – respondeu ela, pegando a imitação de sorvete de novo. – Amanhã à noite. Nos meus aposentos. Tenho algo para lhe mostrar. – O quê?
– Prefiro que seja surpresa. É outro dos grandes prazeres da vida. Na maior parte das vezes. Bom, algumas vezes.
Não gostei da ideia. Tinha encarado surpresas o bastante nos últimos tempos. Mas mesmo assim concordei. Não me importava se Clara me daria de presente a escritura do seu castelo, um rebanho de ovelhas – ou o que quer que usassem como dote na Romênia. Iria convencê-la de uma vez por todas de que nosso “noivado” estava rompido.
– Então, até amanhã à noite – falei, enxugando a bancada. – E lave a tigela quando terminar.
– Boa noite, Marina.
Eu sabia que encontraria aquela tigela na pia no dia seguinte.

* * *

Mais tarde, naquela noite, caí no sono pensando na afirmação de mamãe, de que a aversão podia se transformar em desejo. Com certeza isso não era verdade. Ou era? Ninguém mais acreditava em alquimia. Não era possível criar ouro a partir de pedras ou de chumbo.
Mas, quando dormi, sonhei com Clara. Estávamos de pé na cozinha e ela segurava aquela colher perto do meu rosto. Só que não estava mais cheia de tofu congelado. Estava cheia da calda de chocolate mais deliciosa e luxuriante que se poderia imaginar.
– Experimente – instigou Clara, apertando a colher de leve contra meus lábios. – O chocolate é um dos maiores prazeres da vida. – Seus olhos negros reluziam. – Um deles, pelo menos.

Senti vontade de protestar. Estou gorda... muito gorda... Mas ela ficava segurando aquela colher e o chocolate, começando a pingar, era tentador demais para que qualquer mortal resistisse. Acabei abocanhando tudo. Era suave como seda na minha língua. Juro que senti o gosto. Apertei a mão de Clara com força, firmando-a e fechando os olhos enquanto engolia
o resto do doce elixir imaginário. Quando terminei e abri os olhos, a colher havia desaparecido, como acontece com as coisas nos sonhos, e éramos só Clara e eu, meus dedos entrelaçados nos dela, meu peito e minhas curvas pressionadas contra seu corpo firme.
Ela sorriu para mim, revelando aqueles dentes incríveis de um branco surreal.
– Você não se arrependeu disso, certo? – perguntou ela, e começou a cheirar meu pescoço. – Foi perfeito, não foi? – sussurrou no meu ouvido. Então Clara me envolveu completamente com seus braços fortes, me abraçou, me apertou... E aí acordei, estatelada na cama.
Estava amanhecendo e a luz do sol entrava pela minha janela. Eu estava ofegante. Uau. Fiquei de lado, encolhida. Estava voltando à realidade quando a luz do sol se refletiu em alguma coisa brilhante no piso ao lado da porta fechada. Um marcador de prata se projetando de um livro. Um volume fino.
Aquilo não estava ali quando me deitei. Devem ter passado por baixo da porta.
Afastei as cobertas, peguei o livro e virei-o para ler o título: Crescendo como morto-vivo – Um guia para o vampiro adolescente sobre namoro, saúde e emoções. A parte de cima do marcador estava gravada com um CV, em letras grossas.
Ah, meu Deus, não. O guia de que Clara falou no dia em que nos conhecemos. Tive uma vaga lembrança de ela ter mencionado aquilo – logo depois de anunciar seus planos de me morder.
Desabei no chão, olhando o presente não desejado.
Então, mesmo contra o bom senso, abri nas páginas marcadas, lendo o capítulo intitulado “Mudanças no seu corpo”. Ah, fala sério! Havia um trecho sublinhado em tinta vermelha. “As jovens damas tendem a se sentir confusas com as mudanças no corpo. Mas não fiquem com vergonha! Desenvolver curvas é parte natural de se tornar uma vampira adulta.”
Contive a vontade de gritar. Não preciso dos conselhos de Clara Vlascarponni sobre me tornar “adulta”, especialmente uma “vampira adulta”. E quem escreveu essa porcaria, afinal? Quem publicaria um livro de educação sexual para seres míticos? Isso só serviria para alimentar a loucura de gente iludida...
Antes que eu jogasse aquela coisa no cesto de lixo, que era o lugar adequado, dei uma olhadinha rápida nas páginas iniciais, procurando o nome da editora. Mas um bilhete escrito à mão atraiu meu olhar.
Querida Marina, 
Claro que nunca precisei de conselhos em nenhum desses tópicos – por favor, “emoções”? –, mas achei que você, como “recém-chegada”, por assim dizer, pudesse encontrar alguma utilidade neste guia. Apesar do tom irritante e superficial, ele é bastante respeitado por nossa raça.
Aproveite – e me consulte se tiver dúvidas. Eu me considero uma especialista. A não ser no quesito “emoções”. Sua,
C.
P.S.: Sabia que você ronca? Acho que tem sonhos agradáveis!
Ela simplesmente não desistia.
Quando fechei o livro, notei que havia algo enfiado perto das páginas finais. Um envelope. Era macio e quase transparente. Respirei fundo ao perceber que continha uma foto. Mesmo através do papel pude distinguir a imagem de uma mulher. Não.
Eu sabia, mesmo sem olhar, quem estava na foto. Minha mãe biológica...
Enfiei o envelope de volta no livro. Clara não iria me manipular, não me forçaria a encarar o passado. Não podia me obrigar a olhar para a mulher perturbada que tinha me entregado a estranhos.
Lutando contra a raiva – raiva de Clara, dos segredos tristes e embaraçosos do meu passado –, joguei o livro embaixo da cama. Não queria que mamãe o encontrasse ao esvaziar meu cesto de lixo. Eu poderia rasgá-lo e enterrá-lo na pilha de adubo mais tarde.
Enquanto o volume fino deslizava pelo piso de madeira até parar em meio aos cotões de poeira, fiquei pasma com uma constatação: será que Clara estava parada do outro lado da porta enquanto eu sonhava com ela? Ai, que vergonha. Por que fui ter aquela fantasia noturna? E o que Clara quis dizer com “sonhos agradáveis”? Por que escreveu aquilo?
Só esperava que, além de roncar – coisa que eu não fazia –, eu não falasse durante o sono. Então me lembrei, com algo mais do que apenas receio, de que havia concordado em encontrar Clara  sozinha em seu apartamento, naquela noite.

***

– Bem-vinda – disse Clara, abrindo a porta do seu quarto e recuando para
que eu entrasse. – Você é minha primeira visita. – Grande coisa.
Clara  fechou a porta atrás de nós.
– Ora, essa é uma reação muito agradável. Digna de uma dama. Fiquei boquiaberta.
– O que você fez com esse lugar? – Enquanto meus olhos se acostumavam à luz fraca, fui notando mais e mais detalhes no cômodo. – Uau! – O quarto, que já fora decorado com lixo de brechó, tinha sido reformado ao estilo do que presumi ser um castelo romeno. Uma colcha de veludo vermelho-sangue decorava a cama, um tapete persa elegantemente desgastado cobria parte do carpete bege remanescente e as paredes tinham sido pintadas de um cinza-azulado fechado. Cor de pedra. Meu olhar parou de repente num suporte na parede com o que pareciam ser armas antigas. Coisas afiadas. Coisas pontudas. – O que aconteceu com a coleção internacional de bonecos indígenas da mamãe? – Eles foram repatriados.
Pela expressão irônica e satisfeita no rosto de Clara, tive a sensação de que o exílio dos bonecos era permanente.
– Mamãe e papai vão matar você quando virem isso.
– Impossível. – Ela riu. – Além do mais, é tudo superficial. Pode ser revertido. Mas por que alguém preferiria badulaques vagabundos a isso... – Ela fez um gesto indicando o quarto ao redor. – E você, Clara? Gosta do que fiz?
– É... interessante – respondi, evasiva. – Quando você arrumou tempo para fazer isso e sem que ninguém percebesse?
– Pode-se dizer que sou uma pessoa de hábitos noturnos.
À medida que minha perplexidade foi se esvaindo, a raiva contra Clara voltou à superfície.
– Por falar em suas atividades noturnas, não gostei do livro – avisei. – Nem de como você
o entregou.
Clara deu de ombros.
– Talvez, com o tempo, você o considere útil.
– Claro. Vou deixá-lo na minha estante, bem ao lado do Guia para a idiota sobre como se tornar uma criatura que não existe. Clara gargalhou.
– Muito engraçado. Eu não sabia que você fazia piadas.

Sou uma pessoa engraçada – me defendi. – E, a propósito, eu não ronco. – Ronca, sim. E murmura também. Meu sangue congelou. O sonho... – O quê? O que você ouviu?
– Nada muito inteligível. Mas devia ser um sonho bem agradável. Você parecia em êxtase. – Não fique espreitando perto do meu quarto – ordenei. – Estou falando sério.
– Como quiser. – Clara baixou o volume de uma vitrola antiga, em que um disco de vinil empenado girava e gemia uma música estranha, cheia de arranhados e guinchos, como gatos brigando. Ou como um caixão com dobradiças enferrujadas se abrindo e se fechando repetidamente num mausoléu deserto. – Gosta de música folclórica croata? – perguntou ela, vendo o meu interesse. – Faz com que eu me lembre de casa. – Prefiro música normal.
– Ah, sim, a sua MTV com todos os bate-estacas e rebolados. Como uma dose de hormônios adolescentes descontrolados administrada pela televisão. Não me oponho. – Ela indicou uma poltrona que com certeza não pertencia aos meus pais. Eles não compravam nada de couro. – Sente-se, por favor. Diga por que reivindicou esse encontro. Sentei-me e a poltrona quase me engoliu. Era supermacia.
– Clara, você precisa parar de me seguir. E precisa ir para casa. – Você é direta. Gosto disso, Maria... Marina.
– Eu já me decidi – continuei. – O “casamento” está oficialmente cancelado. Não me importa o que diz o pergaminho. Não me importa o que os velhos do Velho País... – Os Anciões.
– ...o que os Anciões esperam. Isso não vai acontecer. Estou dizendo agora para você não perder mais tempo. Tenho certeza de que quer voltar para seu castelo. Clara balançou a cabeça.
– Não. Precisamos aprender a conviver, Marina. Não tenho opção quanto a isso, nem você. Assim, sugiro que pelo menos tente cooperar comigo nessa questão. – Não.
Clara abriu um pequeno sorriso.
– Você tem mesmo vontade própria. – O sorriso sumiu. – Este não é o momento para usá- la. – Ela começou a andar de um lado para o outro, como tinha feito na aula da Sra. Francisca. – Não cumprir o pacto, além de resultar numa crise política, desonraria a memória de nossos pais. Eles queriam isso, em nome da paz. Olhei para Clara um pouco surpresa. – O que aconteceu com seus pais?
– Foram destruídos no expurgo, como os seus. O que você achava? – Foi mal. Eu... eu não sabia.
Clara se sentou na cama, inclinando-se para a frente, entrelaçando os dedos e dobrando as pernas.
– Mas, diferente, de você, Marina, fui criada dentro da nossa raça, com modelos de comportamento adequados. – Os tais Anciões?
– É. Eles me entregaram aos meus tios. E, se você os conhecesse, como deveria, não teria esse tom de escárnio na voz. – Ela uniu as palmas das mãos, claramente mascarando alguma frustração súbita. – Eles são terríveis. Franzi a testa.
– E morar com Anciões terríveis foi uma coisa boa?
– Foi uma coisa adequada. Aprendi disciplina. Honra. – Ela coçou o queixo. – Por meio da força, quando eles achavam necessário. Minha raiva contra ela
foi esquecida.
– Quer dizer que seus tios batiam em você?
– Claro que batiam – respondeu Clara em tom casual. – Repetidamente. Eles estavam criando uma guerreira. Formando uma governante. Os reis não são criados com doces, abraços e beijos no colo da mamãe. Os reis têm cicatrizes. Ninguém enxuga suas lágrimas quando você está sentada num trono. É melhor não ser criada para esperar esse tipo de coisa.
– Isso... isso é errado – protestei, pensando nos meus pais, que não suportavam exterminar os cupins que estavam comendo o estábulo, quanto mais bater numa criança. – Como eles puderam machucar você?
Clara fez pouco da minha compaixão.
– Não falei da disciplina rígida dos Anciões para ganhar sua piedade. Eu era uma criança desobediente. Voluntariosa. Difícil de controlar. Meus tios precisavam me preparar para a liderança. E foi o que fizeram. – Ela olhou bem nos meus olhos. – Aprendi a aceitar meu destino.
Bufei. Estávamos de volta à estaca zero.
– Clara, isso não vai acontecer. A seita, ou seja lá o que for, não tem nada a ver comigo. Não vou entrar nessa.
Ela se levantou e começou a andar de novo, passando seus dedos compridos pelos cabelos pretos.
– Você não está escutando.
– Você é que não está escutando – contra-ataquei. Clara esfregou os olhos.
– Desgraça! Você é de enfurecer. Eu disse aos Anciões, há muito tempo, que era insanidade criá-la fora da nossa cultura. Que você nunca seria uma noiva adequada. Uma princesa adequada. Mas todo mundo, dos dois clãs, insistiu na ideia de que você era valiosa demais para correr risco de vida dentro da Romênia... – Eu não sou uma princesa!
– É, sim – insistiu Clara. – Você é uma mulher inestimável. Da realeza. Se tivesse sido criada do modo certo, já teria total consciência disso. Estaria pronta para governar. – Ela bateu com um dedo no peito. – Governar ao meu lado. Mas, como está, você continua sendo  uma garota. – Ela quase cuspiu a palavra. – Eu fui unida, por toda a eternidade, a uma criança!
Um pequeno tremor percorreu minha coluna. – Você é pirada mesmo.
Ela foi até a estante e estendeu a mão para a parte mais alta. – E você é impossível. Pulei da poltrona.
– O que você está fazendo? O que vai pegar?
– Um livro. O item que eu queria mostrar a você. – Clara pegou na prateleira de cima um volume enorme, lustroso, encadernado em couro, e jogou-o no colchão, onde afundou na manta fofa. Apontou para a cama. – Sente-se aqui. Por favor. – Vou ficar de pé, obrigada.
Clara arqueou as sobrancelhas, zombando, sentou-se e deu um tapinha no lugar ao seu lado.
– Está com medo de mim? Com medo de vampiros?
– Não. – Juntei-me a ela. Ela se esgueirou mais para perto ainda, até que nossas pernas estivessem quase se tocando, e abriu o livro sobre nosso colo. Dessa vez reconheci as letras romenas nas páginas e os galhos de uma árvore genealógica. – É a sua família? – Todas as famílias vampiras. Pelo menos as nobres.
O papel estalava enquanto ela procurava o que queria, alisando duas páginas abertas.
– Aqui estamos nós. É onde nós nos conectamos. – Ela bateu com o dedo na junção de duas linhas. – Clara vlascarponni e Marianne  Dragomir. De novo, não.
– Já vi tudo isso antes, lembra? Eu li o pergaminho velho e fedorento. Ela se virou ligeiramente para me encarar.
– E vai ver de novo. E de novo. Até parar de falar coisas desrespeitosas como “pergaminho velho e fedorento” e entender quem você é.
Pela primeira vez não contra-ataquei com uma resposta rápida. Algo em sua expressão me impediu.
Depois de um longo silêncio, Clara voltou a atenção ao livro. Percebi que precisava respirar, depois de prender o fôlego por alguns segundos. Droga. E minha barriga parecia cheia de gatinhos se revirando. Ignorei por um momento a árvore genealógica e olhei o perfil de Clara. Uma mecha dos cabelos cor castanho estava caída sobre a testa e um músculo estremecia no maxilar. Uma pequena cicatriz acompanhava a linha do queixo, onde ela havia coçado.
Honra. Disciplina. Força. O que aqueles Anciões fizeram com ela?
Eu estava acostumada a homens como meu pai e os outros pais que conhecia. Caras legais. Caras que usavam mocassins, jogavam bola com os filhos e colocavam gravatas divertidas no Natal. Clara era tão diferente deles. Sim é claro ela é uma mulher, quanto sua coleção de armas era diferente dos  bonecos de mamãe. Ela era inegavelmente charmosa  quando queria, seus modos eram educados, mas havia uma aspereza logo abaixo da superfície.
– Estes são seus pais – continuou Clara, a voz muito baixa. Olhei para a árvore genealógica enquanto ela passava os dedos sobre os nomes Marianne e Ladislau, logo acima do meu.
Minha mãe verdadeira. E meu pai. A data da morte dos dois também estava escrita ali. Contive um gemido de frustração e raiva. Por que precisamos falar dos meus pais biológicos? Este deveria ser um ano feliz para mim. Um período despreocupado. Mas Clara havia chegado e, com ela, o meu passado. Ela não só jogou em cima de mim essa história absurda sobre vampiros e casamentos, como também cismava em tentar me prender ao meu passado verdadeiro. Enrolava uma corda no meu pescoço e me arrastava por um cemitério. A presença de Clara era uma lembrança constante de quem eu poderia ter sido na Romênia. Uma lembrança não somente de vampiros, mas também de fantasmas. Os fantasmas de Marianne e Ladislau Dragomir.
A tristeza de Clara fez sua voz ficar mais suave ainda. Ela seguiu as palavras desconhecidas Valeriu e Reveka. – E estes eram os meus pais. Senti vontade de dizer alguma coisa. A coisa certa. Mas não sabia o que poderia ser, para qualquer um de nós. – Clara...
– Está vendo essa data? – continuou ela, sem me olhar. – Embaixo dos nossos nomes? Isso marca nossa cerimônia de noivado. Nossos pais escreveram essa data. Pelo menos um deles escreveu. – Um lampejo de sorriso melancólico brincou em seus lábios. – Foi um grande dia para os Vlascarponni e os Dragomir. Nossos dois clãs guerreiros em paz. Preparados para se unirem. Quanto poder num só lugar! Quantas vezes ouvi essa história! – Mas é só isso... uma história.
– É um édito. – Clara fechou o livro com um baque surdo. – Nosso destino é ficarmos juntas. Independentemente do que sentimos uma pelo outra. De quanto você me despreze. – Não desprezo você...
– Não? – Suas sobrancelhas se arquearam e sua boca se retorceu num sorriso malicioso. – Você quase me enganou. Decidi virar a mesa.
– Você fala um bocado sobre obrigação, dever e seja lá o que for, mas também não tenho a impressão de que gosta tanto assim de mim. Nunca disse que quer se casar comigo. Acabou de me chamar de criança!
Clara demorou um tempo enorme escolhendo as palavras.
– Você é um enigma para mim, Marina – disse por fim. – Um mistério. Mas pelo menos estou aberta à possibilidade de explorar as coisas que não entendo.
A luz fraca brilhou em seus olhos negros. Estávamos tão perto que pude ver a leve sombra que tinha perto dos seus lábios. Ela tinha facões de uma mulher experiente. A maioria dos caras que eu conhecia estava mais para garoto do que para homem. Será que Santiago fazia a barba? Mas Clara havia ultrapassado esse limite. E eu estava sentada numa cama com ela. Sozinha. Num quarto escuro. Falando de “explorar” meus supostos “mistérios”. Eu me afastei um pouquinho.
– O que aconteceria se a gente não se casasse? – perguntei, tentando mudar de assunto. Distanciando-nos de novo. – Seria muito ruim?
Clara se afastou também, reclinando-se na cama, apoiada nos cotovelos.
– Provavelmente haveria uma guerra geral, sua família contra a minha, cerca de 5 milhões de vampiros lutando para ocupar o vácuo de poder, montando coalizões, líderes surgindo e caindo, destruição e derramamento de sangue em larga escala. E quando os vampiros entram em guerra... bem, os exércitos precisam se alimentar. – E isso significa...
– Que as ruas vão ser lavadas com sangue humano também. Será o caos. Perdas incontáveis de vidas. – Clara parou, dando de ombros. – Ou talvez nada aconteça. Os vampiros são seres muito caprichosos. Essa é uma das nossas melhores e piores características. Mas, de fato, é bom não arriscar.
– Por que os Vlascarponni  e os Dragomir se odeiam tanto?
– Por que todas as nações, culturas e religiões poderosas entram em conflito? Pelo controle de território. Pelo simples desejo de dominação. Sempre foi assim entre nossos dois clãs, até que o pacto garantiu uma promessa de paz por meio da unificação, como iguais. Se você e eu não pudermos cumprir o acordo, sujaremos nossas mãos de sangue.
Imagens de ruas encharcadas de sangue – por minha culpa – surgiram em flashes na minha mente, como uma cena de filme sendo repassada mil vezes, por isso me levantei, balançando a cabeça.
– É a história mais idiota que já ouvi.
– Verdade? – Agora os olhos de Clara eram insondáveis, algo mais amedrontador do que sua raiva. Ela se levantou também. – Como posso fazer com que acredite nessa “história”? – Não tem como. – Recuei um pouquinho. – Porque os vampiros não existem. – Eu existo. Você existe.
– Eu não sou uma vampira – insisti. – Essa genealogia não significa nada. A raiva relampejou nos olhos de Clara.
– A genealogia significa tudo. É a única posse que valorizo.
Recuei mais alguns passos. Ela pareceu ficar mais alta do que nunca. – Preciso ir agora – falei.
Mas a cada passo Clara avançava em minha direção, lentamente, e eu me vi hesitando, enfeitiçada por aqueles olhos negros, hipnotizada. Senti um arrepio me prendendo ao chão como um choque elétrico.
– Não acredito em vampiros – sussurrei, mas com menos convicção. – Vai acreditar.

Não. Não é racional.
Agora Clara estava a centímetros de mim e inclinou um pouco a cabeça para baixo, para nos vermos melhor, olhos nos olhos. E então mostrou os dentes. Só que não eram mais apenas dentes. Eram presas. Duas presas, para ser exata. Duas presas afiadas, sedutoras, brilhantes. Eram as coisas mais medonhas, perfeitas e inacreditáveis que eu tinha visto na vida.
Quis gritar. Gritar o mais alto que fosse humanamente possível. Ou talvez ter Clara apertando meus ombros, me puxando para perto, sentir a autoridade de suas mãos, o toque de seus lábios, aqueles dentes na minha garganta... Ah, meu Deus. Qual era o problema comigo? Qual era o problema com ela? Ela era uma vampiro, caramba! De verdade. Não. Devia ser um truque. Uma ilusão.
Fechei os olhos, esfregando-os, xingando-me por ter caído naquela fraude e, ao mesmo tempo, desejando sentir aqueles dentes incisivos que pareciam navalhas cortarem minha jugular.
– Por favor... não!
Houve um momento de silêncio que se estendeu para sempre, em que acreditei que ela poderia mesmo me machucar. E então, de repente, Clara realmente segurou meus braços e me puxou, apertando-me contra o peito, como havia feito no sonho. Com firmeza, embora de maneira delicada.
– Marianne – murmurou, e sua voz estava suave de novo. Ela alisou meus cachos e permiti que ela me tranquilizasse, aliviada demais para protestar. – Desculpe-me. Foi cruel amedrontar você. Eu não deveria ter feito isso desse jeito. Por favor, perdoe-me.
Hesitante, envolvi a cintura de Clara com os braços, sem nem saber por que fazia isso, e ela me apertou ainda mais, pousando o queixo na minha cabeça. Sua mão cobria toda a parte inferior das minhas costas, que ela acariciou com suavidade. Ficamos assim durante cerca de um minuto. Eu podia sentir seu coração batendo contra o meu rosto. Muito baixinho. Muito devagar. Quase imperceptivelmente. O meu estava martelando e eu sabia que ele podia sentir isso.
Por fim, recuei e ela me soltou.
– Nunca mais faça esse truque idiota – reagi, surpresa em descobrir que minha voz estava trêmula. – Nunca. Não é engraçado.
Aquela música louca da Croácia ainda tocava, fantasmagórica e penetrante. Clara segurou meu braço e odiei sentir que uma parte de mim gostou do seu toque outra vez. Odiei a dificuldade que tive para me afastar. Ela é uma lunática, Marina.
– Por favor, Marina. Sente-se. – Clara indicou a cama. – Você está meio pálida. Sentar... e depois o que aconteceria? – Eu... eu preciso ir.
Clara não tentou me impedir e eu a deixei ali parada, no meio do quarto escuro. Tropecei ao descer a escada e, quando cheguei ao quintal, corri e só parei só depois de trancar a porta do meu quarto, ofegante, vermelha e incrivelmente confusa. O que senti não foi só medo. Foi  algo parecido com o que tinha experimentado no sonho com Clara. Aversão transformada em medo e depois em desejo... alquimia. Insanidade. De repente tudo se misturava no meu cérebro. E aquilo estava muito, muito errado.



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