História Como se livrar de uma vampira apaixonada - Capítulo 4


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Categorias Em Família
Tags Clara, Em Família, Marina
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Palavras 8.867
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Comédia, Ficção, Ficção Adolescente, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 4 - Capitulo 4


– Hoje vamos discutir o conceito dos números transcendentais –
anunciou o técnico da nossa equipe de matemática, o Sr. Virgilio, esfregando as mãos com júbilo aritmético.
Nós, os cinco matematletas, nos inclinamos sobre os cadernos, com canetas a postos.
– Um número transcendental é qualquer número não algébrico e que não é raiz de nenhum polinômio inteiro – começou o Sr. Virgilio. A mão de Mateus Danneker se levantou. – Como pi.
– Isso – concordou o técnico, batendo com o giz no quadro para escrever o símbolo de pi. – Exato. – Ele já estava suando um pouco. O Sr. Virgilio era careca, estava um pouco acima do peso e usava roupa de poliéster, mas tinha um entusiasmo admirável pelos números.
Escrevi o símbolo π no caderno, desejando que não estivéssemos perdendo tempo com conceitos teóricos. Eu preferia enfrentar problemas práticos a ficar abordando ideias abstratas.
– Pi é um exemplo excelente de número transcendental – continuou o professor. – A razão entre a circunferência de um círculo e seu diâmetro. Todos estamos familiarizados com pi. Mas em geral paramos no 3,14 quando o usamos. No entanto, como todos sabemos, pi é muito mais longo. E ainda que tenhamos calculado pi até mais ou menos o trilionésimo dígito, não há final em vista. Ele é infinito, “insolucionável”. E esta é a parte espantosa: os números não formam nenhum padrão.
Ele escreveu no quadro: 3,1415926535897932...
– Ele continua e continua, aleatoriamente. Para sempre.
Todos paramos, absorvendo isso. É claro que, como estudantes interessados em matemática, todos havíamos pensado em pi antes. Porém, a ideia daqueles números se estendendo através de galáxias, do tempo, era muito perturbadora. Quase irritante. Impossível de compreender.
– E, obviamente – o Sr. Virgilio interrompeu nossa viagem –, um número transcendental como pi é, por definição, irracional.
Ele fez uma pausa para que o acompanhássemos e eu escrevi irracional no meu caderno. A palavra parecia me encarar da página. Nos recessos de minha mente, ouvi minha mãe dizer: “Marina, existem forças no Universo que não somos capazes de explicar...”
Almas unidas por toda a eternidade. Clara dissera isso naquela vez em que falou da cerimônia de noivado. Clara, a pessoa menos racional que já conheci. Vampiros e pactos

são irracionais. Como pi? – Srta. Meirelles?
Meu nome me puxou de volta com força para a realidade. Ou o que eu pensava que era a realidade. Por que de repente tudo parecia tão incerto? – Sim, Sr. Virgílio.
– Tive a impressão de que estava sonhando acordada. – Ele sorriu. – Achei que deveria trazê-la de volta à realidade.
– Desculpa – respondi. Realidade. O Sr. Virgílio obviamente acreditava nela. Com certeza não acreditaria em coisas irreais. Como vampiros. Ou destinos eternos. Ou aversão transformada em desejo.
A realidade era o gosto da caneta de plástico na minha boca. A visão da gravata horrenda do professor. A sensação da mesa lisa sob as pontas dos meus dedos. É. Realidade. Era bom estar de volta. E era ali que eu precisava ficar. Mas quando me concentrei de novo nas anotações, percebi que havia rabiscado um esboço grosseiro de um par de presas bem afiadas na margem do caderno. Nem tinha notado isso. Apertando a caneta com força, risquei o desenho até cobrir cada traço.

***

CARO TIO FREDERIC,
Escrevo para agradecer por ter liberado o dinheiro, como pedi, e por ter mandado tão rapidamente minha coleção de armas e móveis variados, tapetes, etc. Não poderia suportar mais um dia com aqueles bonecos de olhos arregalados me espiando de cada canto feliz deste quarto forrado de xadrez. Era como estar cercada por um exército multicultural de anões, todos esperando para me atacar à noite, enquanto eu dormia.
Fiz aos Meirelles o favor de me livrar de toda a coleção, com a ajuda da marreta medieval que o senhor teve a gentileza de incluir na remesa. Um par de saleiro e pimenteiro em formato de cães com chapéus de chef de cozinha também encontrou seu destino. Um dia, sem dúvida, os Meirelles  vão recuperar o bom senso e me agradecer.
Vamos às más notícias. Acho que dei um pequeno passo em falso, tendo apresentado Marianne ao conceito da transformação vampírica um tanto abruptamente ontem à noite. A reação dela foi de puro medo, seguido de negação. Imagine, Frederic, que ela descartou minhas presas como sendo algum tipo de truque barato. Acredita nisso? Uma das metamorfoses mais impressionantes da natureza sendo descartada como um ato de magia? Meu Deus, essa garota me cansa. Tão resistente. Tão racional. Resumindo: nenhum passo adiante e dois passos para trás.
Aceito de bom grado a culpa pelo erro (deveria ter previsto a reação de Marianne – minha psicologia não foi nada sutil), mas eu não antecipara toda essa dificuldade anos atrás?
Acordada neste quarto sobre a garagem, pondero frequentemente sobre como as coisas poderiam ter sido diferentes se Marianne houvesse sido criada como uma verdadeira vampira. Não quero parecer arrogante, Frederic, mas sei, por experiências passadas, que não sou repugnante às mulheres. (A temporada de debutantes em Bucareste está acontecendo? Ai, ai... boas lembranças...) E Marianne, apesar de todos os defeitos (as camisetas estão no topo da lista)... bom, às vezes consigo ter vislumbres de quem ela poderia ter sido. Do que nós poderíamos ter sido.
De fato, a qualidade mais incômoda de Marianne – sua força de vontade, já mencionada – é a mesma que lhe serviria tão bem como governante. Ela me enfrenta, Frederic. Quantas estariam dispostas a isso? Há grande inteligência em seus olhos também. E certo riso zombeteiro – marca registrada de nossa espécie. Além disso, é linda, Frederic. Ou seria, se não tentasse com tanto empenho esconder isso. Se ao menos acreditasse que é linda.
Às vezes não é difícil imaginar Marianne no nosso castelo, ao meu lado – desde que cultivasse modos melhores, aceitasse o conceito de roupas femininas e endireitasse as costas. (Ninguém no Brasil demonstra o menor interesse pela postura. Ficar ereto parece uma espécie de arte perdida, como a esgrima.)
Na realidade desejada que às vezes visualizo, nosso namoro consiste em excursões à ópera em Viena, cavalgadas nos Cárpatos (ela sabe cavalgar!) e conversas enquanto nos demoramos em refeições que de fato consistam de comida. É como sempre abordei – e com sucesso – o belo sexo na Romênia.
Mas, claro, meus devaneios e desejos são desperdiçados, exercícios fúteis que podem divertir com mais eficácia do que os programas de televisão disponíveis (um canal todo dedicado ao jogo de “pôquer” – preciso dizer mais?), embora nada possam fazer para alterar a realidade. Nenhuma reação horrorizada de minha parte mudará o fato de que Marianne é uma garota Brasileira que aparentemente exige uma abordagem Brasileira. Agora, devo determinar o que isso significa. Alguma atividade envolvendo “hambúrguer e fritas”, sem dúvida.
Para concluir, esta é a situação aqui em “nossa pequena democracia”, como minha falsa figura paterna, Ricardo, gosta tanto de chamar esta fazenda ridícula onde nenhum tipo de agricultura é praticado. Francamente, se algum lugar já precisou da mão firme de um tirano... Menos animais no pátio, mais no forno: esse seria o meu primeiro decreto. Mas, de novo, desejos não mudam nada. Sua  sobrinha, Clara
P.S.: Correndo o risco de testar sua paciência, tenho mais um pedido. Quase esgotei meu suprimento de tipo A. (O treino de basquete me deixa com sede. Vamos nessa, time!) O senhor conhece alguma boa fonte doméstica que eu possa usar?

***

– Seu horóscopo diz que “hoje é um bom dia para correr riscos” – leu
Vanessa, encostada nos armários, com o nariz enfiado no novo exemplar da Cosmopolitan.
– Não acredito que você lê isso – gargalhei, procurando os livros que eu precisava levar para casa. – Tipo, você precisa mesmo conhecer “75 truques sexuais para enlouquecer seu homem”? Uns 20 não bastariam para qualquer pessoa? Vanessa voltou à superfície com uma careta.
– Algum dia todos eles podem ser úteis. Não quer estar preparada para o caso de você querer enlouquecer seu homem ou "mulher”?
Fiquei vermelha, lembrando-me da conversa com mamãe, do sonho que tinha tido com Clara, dos sentimentos que vieram à tona naquela noite no quarto dela, quando fez o truque idiota com os dentes. E de Santiago, sem camisa, parado na carroceria da picape...
– É. Acho que sim. Mas nada indica que eu vá usar qualquer “truque” tão cedo. – Ei, nunca se sabe. – Vanessa apontou para trás de mim. – Olha quem está ali. Eu me virei, meio que esperando ver Clara no meio da turma de alunos prontos para irem para casa. A paixonite de Vanessa estava fugindo ao controle e, se o assunto era sexo, uma menção a Clara não podia estar muito longe. Mas não. Era o Santiago, tirando do armário a jaqueta esportiva, com mangas de couro. Desviei o olhar, sentindo um interesse ainda maior pelo conteúdo do meu armário.
– Você devia ir falar com ele – aconselhou Van, um pouco alto demais. – A não ser que finalmente tenha percebido que Clara é a melhor opção. – Clara não é melhor e não é “opção”.
– Bom, então essa é a sua chance de convidar Santiago para a festa do outono – disse Vanessa. Em seguida, levantou a revista. – Ouça seu horóscopo. Corra um risco.
– Eu sei que você lê isso, mas não acredita mesmo nesse negócio de “escrito nas estrelas”, não é? – Fui me afastando do armário, com uma pilha de livros nos braços. – É claro que sim – respondeu Van.
Você também, não, Vanessa... Será que resta alguma pessoa racional nesse mundo?
– Santiago estava obviamente a fim de você naquela noite na sua casa – acrescentou ela. – Tipo, ele mal falou comigo. – É mesmo?
– Mari, eu fiquei invisível. Anda. Convida ele para a festa. A não ser que você esteja em dúvida com relação a Clara. – Não estou, não – garanti. – Então convida o Santiago.

Olhei para minha roupa. Por que tinha calçado meu All Star velho e sujo? E ainda não tinha perdido aqueles dois quilos, para completar.
– Ah, acho que não. Estou horrível e, bem, não era o santiago que deveria me convidar?
– Não estamos na Idade Média – observou Van. – As garotas convidam os garotos. Isso acontece o tempo todo. Algo que você saberia se lesse a Cosmopolitan.
Vanessa não estava totalmente errada. Se havia uma coisa que me aborrecia, era estar com um pé preso na Idade Média. Imaginei o que ela iria achar caso soubesse que, se eu provavelmente não tinha escolha no que dizia respeito a uma esposa, de que adiantaria pensar em um acompanhante para a festa de outono da escola? Eu não estava convencida de que era uma boa ideia convidar o Santiago.
– Eu posso ir sem acompanhante.
– Mas é mais legal ter um. E é melhor correr, porque ele está indo embora.
Virei-me de novo e vi Santiago  trancando a porta do armário. Vanessa me deu um empurrãozinho. – Vai!
Seu segundo empurrão me deixou sem saída, principalmente porque Santiago vinha na nossa direção.
– Oi – disse ele, sorrindo enquanto eu quase lhe dava uma trombada. – Obrigado pela bebida na outra noite.
– De nada. – Brilhante, Mari. Olhei em volta procurando Vanessa, para receber apoio moral, mas ela, sua revista e seus 75 truques haviam desaparecido.
– Eu estava falando sobre você agora mesmo – afirmou Santiago. – Ouvi dizer que tem chances de ganhar um prêmio no Clube da Juventude este ano. – Verdade?
– É. Fernanda  disse que sua appaloosa salta muito bem. – Fernanda Cerqueira disse isso? Tem certeza?
Ainda que abrigasse seu puro-sangue na fazenda dos meus pais, Fernanda agia como se eu não existisse. Da mesma forma que Clara, parecia me confundir com uma espécie de cavalariço. Ela jamais se daria ao trabalho de me ver montar. – É. Fernanda acha que você é a melhor concorrente dela.
– Nunca vou vencer o puro-sangue de Fernanda – respondi. – Não numa appaloosa. Nem sendo uma égua tão boa quanto Bela.
– Tenho certeza de que vai se dar muito bem. – Santiago hesitou. – Talvez um dia eu possa ver você montar.
– Sério? Quer dizer, seria ótimo.
Sorri, encontrando o olhar simpático de Santiago.
Os olhos azuis dele eram tão... comuns! Nada de escuros, aterrorizantes nem mutáveis. E seus dentes eram tão... normais! Houve um silêncio breve e desconfortável. Era agora ou nunca. Respirei fundo.

Santiago? – Diga. – Você vai à festa do outono? – Meu coração batia tão alto que senti medo de não ouvir a resposta dele. – Porque eu estava pensando que talvez a gente pudesse, você sabe, ir juntos. Ele fez uma pausa.
– Bom, eu não tinha certeza...
Ah, não. Mesmo meio surda, ouvi a hesitação na voz dele. Ele estava me dando o fora. Eu sabia. Era meu tênis. Tinha que ser o tênis. Ou os dois quilos...
– Ah, saquei – interrompi, com as bochechas pegando fogo. – Tudo bem. – Não, espera... – Ei, Pacotão! Um braço pesado bateu nos meus ombros e de repente eu estava cara a cara com Felipe  Dormand, que me segurava, exibindo um sorriso gosmento no rosto gordo. Revoltada, tentei me soltar, mas Felipe me agarrou com força, me sacudindo um pouco.
– Será que escutei você convidar o Santiago para a festa? Que negócio é esse?
– Cai fora, Felipe – implorei, apertando os livros contra o peito. – Não é da sua conta. – É, Felipe  – disse Santiago. – Não enche.
– Ah, suas crianças malucas – disse Felipe, despenteando meu cabelo.
Tentei afastar a mão dele e ajeitar o cabelo, mas estava tão nervosa que deixei os livros caírem das mãos quentes e úmidas. Meu dever de casa despencou no chão, com os papéis se espalhando por toda parte.
– Vai se catar, Felipe – esbravejei, furiosa. Uma coisa era gritar uma provocação rápida no refeitório, mas dessa vez ele tinha ido longe demais... Felipe olhou para Santiago.
– E aí? O que vai ser, Santiago? Vai levar o Pacotão? Porque o papo que corre é que ela está namorando aquela menina  estrangeira que mora na garagem dela. Você está dando para ela, não é, Mari?
Girei sob o braço de Dormand, tentando de novo me afastar, quando, de repente, fui libertada. Felipe estava grudado num armário, a garganta pressionada pela mão de uma estudante romena de intercâmbio muito calma porém muito determinada. Os calcanhares de Felipe  bateram no metal. – Ei!
Mas Clara apenas levantou Felipe  um pouco mais.
– Cavalheiros não fazem perguntas impertinentes sobre assuntos delicados às mulheres. – Sua voz estava tranquila, quase entediada. – E nunca, jamais, usam expressões grosseiras diante do sexo oposto. A não ser que estejam prontos para enfrentar as consequências. – Clara, não! – gritei.
– Me so-solta – gaguejou Felipe, o rosto ficando tão vermelho quanto o meu. Ele tentava inutilmente segurar o braço de Clara enquanto uma multidão se reunia no corredor. – Está  me sufocando, cara.
– Solta, Clara – implorei, olhando Felipe  passar de vermelho para azul. – Ele está sufocando!
Clara afrouxou o aperto, permitindo que Felipe tocasse o chão com as pontas dos dedos, embora ainda o segurasse com firmeza.
– Diga o que quer que eu faça com ele, Marina – insistiu Clara, por sobre o ombro. – Determine o castigo e eu farei cumprir.
– Nada, Clara! – respondi, meu rosto em chamas. Ela não é minha  guarda-costas. – Essa briga não é sua!
– Não – concordou Clara. – O prazer é meu. – Em seguida voltou a atenção para Felipe, que havia parado de lutar e permanecia imóvel contra o armário, os olhos arregalados. – Você vai apanhar os livros da moça, entregá-los a ela gentilmente e lhe pedir desculpas – ordenou Clara. – Depois, nós vamos lá fora concluir nossos negócios. Ele largou Felipe, que tombou para a frente, lutando para respirar. – Não vou brigar com você – chiou Felipe, esfregando o pescoço. – Vai ser uma lição, não uma briga – prometeu Clara. – E, quando eu terminar, você não vai incomodar Marina de novo.
Compartilhei um olhar preocupado com Santiago, que estava parado, em silêncio, cauteloso. – A gente só estava de brincadeira – reclamou Felipe.
Clara lhe lançou um olhar furioso, empertigada com toda a sua altura. Ela parecia fechar
o corredor.
– No lugar de onde venho, perturbar uma mulher não é divertido. Eu deveria ter deixado isso claro no outro dia. Não deixarei outra oportunidade passar.
– De onde você vem? – desafiou Felipe, estufando o peito, um pouco mais ousado agora que podia respirar. – A gente está começando a desconfiar.
– Venho da civilização – retrucou Clara. – Você não deve estar familiarizado com o território. Agora pegue os livros.
Felipe deve ter ouvido o alerta final no rosnado baixo de Clara, porque se abaixou e obedeceu, resmungando o tempo todo. Jogou os livros nas minhas mãos e começou a se esgueirar para longe. Clara o agarrou de novo. – Você se esqueceu de pedir desculpas.
– Desculpa – disse Felipe, com os dentes trincados. Clara deu um leve empurrão em Dormand. – Agora, vamos lá fora.
– Clara – falei, segurando seu braço. Seu braço estava rígido embaixo dos meus dedos. Ela iria destruir o gorducho do Dormand, que não era capaz de fazer 10 flexões nem que sua vida dependesse disso. – Para. Agora. Clara me olhou.
– Você merece isso, Marina. Ele não vai desrespeitá-la. Não na minha presença.

Não pode fazer isso aqui. Não desse jeito – alertei. – Aqui não é a Romênia. – Não pode agir como a sua família, que sai impondo suas regras brutais. – Você já foi longe demais. Ficamos nos encarando por um longo momento. Então Clara olhou para Felipe.
– Saia daqui. Fique grato por ter obtido uma anistia. Mas não haverá outra, mesmo que Marina  me peça.
– Sua aberração – murmurou Felipe. Depois saiu correndo pelo meio da multidão, que se dissolveu atrás dele, restando apenas Clara, Santiago e eu. Santiago começou a recuar também, mas Clara não havia terminado.
– Acho que vocês dois estavam conversando. Por favor, continuem.
– Já terminamos – garanti, empurrando Clara para longe. Ela ficou no lugar, sem afastar os olhos de Santiago.
– É verdade? – perguntou Clara a Santiago. – Vocês terminaram?
– Eu... nós estávamos falando sobre... – Santiago arrastou os pés, olhando para baixo. – Olha, Mari, falo com você mais tarde.
– Tudo bem, Santiago, já entendi. Por favor, não precisa dizer mais nada.
As lágrimas que tinham se formado nos meus olhos havia uns cinco minutos começaram a se derramar.
– Por que ela está chorando? – perguntou Clara. – Você disse alguma coisa a ela? Clara levantou as mãos. – Não. Juro.
– Só vai embora, Clara – insisti. Clara hesitou. – Por favor. Ela me encarou. Vi piedade em seu olhar e essa foi provavelmente a pior parte de todo o dia. Um ser bizarro sentindo pena de mim.
– Como quiser – disse ela e recuou. Mas não antes de acrescentar: – Estou de olho em você também, Spadaro.
Quando Clara já estava longe, Santiago  falou, em tom de consolo: – Poxa, o lance foi intenso, hein? Funguei, enxugando os olhos.
– Que parte? Quando Clara quase matou o Felipe ou quando ameaçou você? – A coisa toda. – Foi mal, Santiago. – Não, tudo bem. Felipe é um otário. Ele mereceu. – Que vergonha... Olha, não se preocupa com a festa. Foi idiotice minha convidar você. – Não foi. Eu ia dizer sim. – Santiago olhou pelo corredor, na direção por onde Clara havia partido. – A não ser que vocês dua estejam juntas ou sei lá o quê. É o que estão dizendo por aí. E Clara pareceu meio possessiva.
– Não! – quase gritei. – Clara não é minha  namorada. É só, tipo, uma irmã mais velha superprotetora.
– Bom, ela não tentaria me colar num armário se a gente fosse à festa, não é? Porque eu dou conta dela, mas, depois de ver a garota  em ação, acho que seria uma briga sinistra – disse Santiago, apenas parcialmente brincando.
– Não, Clara é inofensiva – menti. Se não contarmos o fato de que ela acha que é uma princesa  guerreira representante de uma raça semicanibal de mortos-vivos que viram morcegos.
– Então eu te ligo, beleza? – prometeu Santiago.
– Legal – sorri, quase esquecendo que tinha acabado de chorar. Santiago começou a se afastar, depois hesitou. – Mari? – O quê? – Fiquei feliz por ter me convidado. – Eu também – completei, agradecendo em silêncio a Vanessa e sua fé na Cosmopolitan e nos horóscopos, enquanto me virava, toda boba.

* * *

Clara estava me esperando lá fora, sentada num muro baixo de tijolos perto da entrada. Quando me viu, pulou e estendeu a mão para os meus livros, como sempre fazia quando conseguia me acompanhar depois da escola.
– Perdemos o ônibus – observou ela. Não parecia desapontada. – Podemos andar até o trabalho da mamãe. Ela leva a gente.
A Faculdade  ficava apenas a alguns minutos da escola. – Excelente ideia.
Caminhamos em direção ao campus no ar fresco da tarde de fim de outono. Depois de alguns instantes de silêncio, Clara tirou do bolso do sobretudo um lenço engomado de linho com monograma e me entregou. – Seu rosto está manchado de lágrimas.
– Obrigada. – Enxuguei as bochechas e assoei o nariz. – Aqui – falei, devolvendo o lenço. Clara  levantou a mão, encolhendo-se.
– Fique com ele. Eu imploro. Tenho outros. – Valeu.
– O prazer é meu, Marina.
O olhar de Clara estava distante, o tom de voz, distraído. Cerca de um quarteirão depois ela avançou um pouco à minha frente, voltou e abaixou a cabeça, examinando meu rosto. – Aquele garoto... aquele Spadaro atarracado... – O que é que tem o Santiago?
Foi a minha vez de desviar os olhos, focalizando a rua ladeada de carvalhos. – Ele... é... Você se sente realmente atraída por ele? Cruzei os braços sobre o peito, dando de ombros.

– Ah, não sei. Tipo...
– Bom, você vai acompanhá-lo ao tal baile de gala do qual todo mundo anda falando.
– É uma festinha no ginásio. Não é um “baile de gala”. Ninguém diz “gala”. Pelo menos ninguém na escola. Clara franziu a testa.
– Gala, festa, tanto faz. Você o está cortejando?
Isso nos olhos de Clara é sofrimento? Ou é só a escuridão de sempre?
– É só um encontro, mas... É, acho que sim – admiti, sem saber por que me sentia subitamente culpada. Não tinha motivo para isso. O fato de Clara acreditar que estávamos noivos não me tornava uma adúltera. Fala sério. Mas ela continuou a me encarar, por isso acrescentei, sem jeito: – Espero que não haja problema. Com o lance do pacto e coisa e tal. – Só acho difícil entender.
– O quê? – Isso eu precisava ouvir. – Achei que você sempre soubesse de tudo. – Ele nem defendeu você – disse Clara, coçando o queixo, realmente confusa. Fiquei um pouco na defensiva.
– Aqui as mulheres se defendem. Os homens não precisam lutar por nós. Já falei que posso cuidar do Dormand.
– Não como eu posso fazer por você. Não como Spadaro deveria ter feito. Gostando ou não, você é limitada por ser "normal". Pode bater numa mosca, mas eu posso esmagá-la. Qualquer "homem" digno teria interferido.
– Ei – protestei. – Santiago tem dignidade. – Não o bastante para proteger você. – Ah, Clara – gemi. – Santiago acha que você passou totalmente dos limites e ele está certo. Clara balançou a cabeça.
– Então ele não viu o seu rosto. Fiquei sem saber o que responder. Voltamos a andar em silêncio. Clara continha o passo comprido para me acompanhar. Parecia mais distraída ainda do que antes, com a testa franzida.
Passamos pelo portão do campus da faculdade, indo na direção do prédio onde ficava a sala da mamãe. De repente Clara se animou. – Você sabe dirigir, não sabe? Tem carteira? – Bom, claro. Por quê? Aonde você quer ir? Ao banco de sangue?
– Acho que eu gostaria de comprar uma calça jeans – anunciou Clara. – Talvez umas quantas coisas. E eles são muito rígidos quanto a usar certos tipos de calçado na quadra. Minhas solas  romenas violam algum tipo de regra. Parece que preciso de calçados que tenham uma asa desenhada na lateral se quiser jogar basquete. Parei de andar.
– Você quer comprar roupas comuns?

– Não, quero atualizar meu guarda-roupa de acordo com as normas culturais – corrigiu ela. – Você sabe como chegar aos tais outlets dos quais ouço tanto falar, não sabe? Quase engasguei.
– Espere bem aqui – falei, cutucando o peito de Clara com um dedo. – Não se mexa. Vou perguntar se mamãe me empresta o fusca. Eu precisava ver isso.
O que será que Clara Vlascarponni  considerava normal? E, mais importante, como uma romena alta morena e imperiosa, acostumada a andar com calças pretas de estilistas famosos, ficaria usando jeans?

***

– Para ser sincera, não sei como algumas dessas histórias começaram –
reclamou Clara, mexendo no rádio do fusca, provavelmente procurando canções folclóricas da Croácia mas acabando por aceitar a música clássica da estação pública. – Culpa de Hollywood, eu acho.
Mudei para uma estação de música pop, só para irritá-la. – Então, você não acha que é capaz de virar morcego? Clara baixou a música e me lançou um olhar insultado. – Morcego? Por favor! Que vampiro de respeito iria se transfigurar num roedor alado? Você viraria um gambá se tivesse habilidade para isso?
– Acho que não. – Parei num sinal de trânsito. – De repente só uma vez, para ver como seria.
– Bom, os vampiros não podem se transformar em nada. – E o alho? Repele vocês? – Só no hálito de alguém. – E as estacas? Vocês podem ser mortos com uma estaca? – Qualquer um pode ser morto com uma estaca. Mas, sim, isso é verdade. Aliás, uma estaca no coração é o único modo eficaz de destruir um vampiro. – Ah, é. Claro.
– Para poupar seu tempo, vou acrescentar que não dormimos em caixões. Nem de cabeça para baixo. Obviamente, não nos desintegramos ao sol. Como seria possível levar uma vida prática e útil desse modo?
– Até agora, estou achando que ser vampiro é algo bem sem graça.
– Correndo o risco de puxar um assunto inconveniente e, de novo, pedindo desculpas, você não pareceu achar que meus caninos eram sem graça naquela noite. Na verdade, reagiu com bastante intensidade à aparência afiada deles.
E à sensação de suas mãos, de seu corpo... Não entra nessa, Mari.
– Como fez aquilo? Você estava com, tipo, uma prótese de dentes de plástico na boca? Clara me lançou um olhar incrédulo.
– Dentes de plástico? Eles pareciam de plástico?
– Não – admiti. – Mas as dentaduras parecem de verdade hoje em dia.
– Dentaduras. – Ela fungou. – Não seja ridícula. Aqueles eram... são meus dentes. É isso que os vampiros fazem. Nossos dentes crescem.
– Então faz agora – pedi, pegando a autoestrada e enfrentando o trânsito.
– Ah, Marina. Não acho sensato enquanto você está dirigindo numa via movimentada.

Você entrou em pânico naquela noite.
– Não consegue, não é? – desafiei. – Porque foi um truque idiota e você está sem o brinquedinho agora.
– Não me provoque, Marina. A não ser que queira que eu faça o que está me pedindo. Porque eu posso e o farei. – Anda!
– Como quiser.
Clara se virou para mim, mostrou os dentes e eu quase saí da pista. Ela agarrou o volante e puxou o carro de volta. – Cacete.
Ela tinha feito de novo. Tinha mesmo. Olhei na direção dela, com cautela. Os dentes pontudos haviam sumido. É um truque. Um truque. Eu não cairia nessa. Os dentes são cobertos de esmalte, uma das substâncias mais duras do corpo. O esmalte não pode mudar de forma. É impossível, ao nível molecular.
– Precisa se acostumar a isso – repreendeu-me Clara. – Você comprou esse truque, tipo, numa loja de mágica? – Não é um truque. Pare de usar essa palavra. – Clara tamborilava no banco de vinil do carro. Dava para ver que estava ficando frustrada de novo. – A transformação vampírica é um fenômeno. Se você lesse o livro que eu lhe dei...
– Ah, meu Deus, aquela coisa. – Meu exemplar não desejado de Crescendo como morto- vivo ainda estava debaixo da cama. Eu queria jogá-lo fora, mas ficava adiando. Não estava a fim de pensar no motivo disso.
– É, “aquela coisa”. Se você lesse o guia, como deve, saberia que, na puberdade, os vampiros do sexo Feminino adquirem a capacidade de fazer as presas crescerem. Isso acontece quando estamos extremamente furiosas. Ou... excitadas.
– Então você está dizendo que as “presas” são como uma... – Ia dizer... como se falasse isso todo dia. Mas a verdade é que nunca tinha dito essa palavra em voz alta e descobri que, naquela hora, não ia conseguir. Mas Clara entendeu.
– É. Exatamente. Com frequência acontece uma espécie de reação em cadeia, se é que você me entende. Mas fica mais fácil de controlar, com a prática. E as mulheres também podem fazer os dentes crescerem, é claro.
– Então por que eu não consigo, já que sou uma megavampira?
Cedo ou tarde eu iria confundi-la com a lógica. Mas Clara contra-atacou:
– As mulheres precisam ser mordidas primeiro. Eu preciso morder você. É um grande privilégio uma mulher dar a primeira mordida em sua noiva.
– Não comece com esse papo de noivado outra vez – respondi, séria. Ao ver a primeira entrada do outlet, fiz uma curva rápida. – Nem de brincadeira. Isso já era. Clara inclinou a cabeça. – Já era? 
– Isso aí.
Estacionei numa vaga.
– E os espelhos? Quando você experimentar as roupas, vai poder se enxergar num espelho?
Clara esfregou as têmporas.
– Você estudou física básica na escola? Conhece os princípios da reflexão?
– Claro que conheço. Sou eu quem acredita em ciência, lembra? Eu só estava brincando. – Tirei a chave da ignição. – Então, vamos recapitular. Você não pode virar morcego, não se dissolve ao sol e é visível em espelhos. O que os vampiros podem fazer? Por que é tão irado ser um deles, afinal?
– O que haveria de tão maravilhoso em se dissolver ao sol? Ou em não poder se olhar num espelho para ver se você se vestiu direito?
– Você sabe o que quero dizer. Fica aí dizendo que os vampiros são tudo de bom e eu só quero saber por quê.
A cabeça de Clara tombou de volta no banco. Ela olhou para o teto do carro como se implorasse por paciência ou orientação.
– Somos apenas a raça mais poderosa de super-humanos. Temos o dom físico da graça e da força. Somos um povo de rituais e tradições. Possuímos poderes mentais ampliados: capacidade de nos comunicarmos pelo pensamento quando necessário. Governamos o lado obscuro da natureza. Isso é suficientemente “irado” para você? Segurei a maçaneta.
– Por que beber sangue?
Clara deu um suspiro fundo, abrindo sua porta.
– Por que todo mundo é obcecado pelo sangue? Há tanta coisa além disso. Deixei para lá. Tinha ficado meio distraída agora que íamos fazer compras. – Onde quer ir primeiro? – perguntei.
Clara deu a volta pela frente do fusca e pôs as mãos nos meus ombros, me virando para a loja da Levi’s. – Ali.
Cinco lojas e uns 1000 Reais depois, Clara quase parecia uma adolescente Brasileira. E, eu precisava admitir: uma adolescente brasileira muito gata. Ficava ainda melhor numa calça jeans Levi’s 501 do que em suas calças elegantes pretas. E quando vestiu uma blusa social branca por fora da calça – tendo decidido que uma camiseta seria um pouco exagerado para alguém da realeza romena –, bom, o efeito foi bem interessante. Eu não teria mais vergonha de ficar perto dela. Nem um pouco. Vanessa  provavelmente desmaiaria ao ver
a garota.
– E que tal se livrar do sobretudo de veludo? – perguntei. – Nunca.
Retiro o que eu disse sobre a vergonha.

Estávamos indo para o carro, fazendo malabarismos com todas aquelas sacolas de compras, quando Clara parou e segurou meu braço, largando uma sacola. Eu me virei. – O que foi? Ela estava olhando a vitrine de uma loja chamada Boulevard St. Michel, uma butique de alto nível com roupas muito, muito caras. O tipo de roupa que as mulheres ricas usam em festas chiques. Eu nunca tinha nem pisado lá. Para começar, meu pai não acreditava em lavagem a seco, por causa das emissões de gases que faziam mal ao meio ambiente. E, por outro lado, eu não poderia comprar sequer um pé de sapato da Boulevard St. Michel. Nem mesmo depois de um verão inteiro servindo hambúrgueres na lanchonete. – O que você está fazendo?
Acompanhei o olhar de Clara. Ela continuou a olhar a vitrine. – Aquele vestido... o com flores espalhadas no corpete. – Você falou “corpete”? – É, e a saia...
– O vestido com decote em V?
– É. Aquele mesmo. Você ficaria deslumbrante usando algo assim.
Clara realmente era uma sem-noção. Não só achava que era uma vampira, como agora acreditava que eu deveria me vestir como uma mulher de 30 anos que frequentava coquetéis. Dei uma gargalhada.
– Você é pirada mesmo. Aquilo é para mulheres que fazem coisas, tipo, ir a recitais ou sei lá o quê.
Ela me lançou um olhar.
– O que há de errado com um recital?
– Nada. Só que eu não frequento essas coisas. Você consegue me ver usando aquilo na competição de hipismo, por acaso? E aposto que custa uma grana preta. – Experimente o vestido. Recuei.
– Nem pensar. Tenho certeza de que eles não gostam de adolescentes entrando ali. – Eles gostam de qualquer um que tenha dinheiro suficiente – zombou Clara. – Não vão gostar de mim, então. Não tenho dinheiro suficiente nem para olhar. – Eu tenho. – Clara... Vou admitir que fiquei meio intrigada. Era mesmo um vestido lindo. Eu nunca havia experimentado nada parecido. Era tão sofisticado! Cor de creme fresco, com minúsculas flores pretas bordadas, espalhadas por todo canto, sem formar nenhum padrão, o que só o tornava mais bonito. Fez com que eu me lembrasse da teoria do caos: aleatório porém belo em sua simplicidade. O decote era mais ousado do que qualquer coisa que eu já vestira. Dava para ver o volume dos seios de plástico do manequim espiando acima do tecido. Do tecido caro.
Puxei o braço de Clara. – Anda. Vamos embora. Clara me puxou de volta e claro que ela era mais forte que eu. – Dê só uma olhada. Toda mulher precisa de coisas bonitas. – Eu não preciso daquilo.
– Claro que precisa, e eu também preciso. Você poderia usá-lo, digamos, na tal festa a que vai com o Atarracado. Seria perfeitamente adequado para eventos desse tipo. – Ele não é atarracado. – Experimente o vestido. – Eu tenho muitas roupas – insisti. – É. E deveria jogar todas fora. Especialmente a camiseta com o cavalo branco e o coração. Qual é o propósito daquilo?
– Mostrar que eu amo cavalos árabes.
– Eu amo carne malpassada, mas não ando com a imagem de um bife sangrento no peito. – Já escolhi uma roupa.
Clara fez uma cara de desprezo.
– Algo brilhante do shopping, imagino.
Fiquei vermelha. Odiava quando Clara estava certa.
– Acredite em mim – disse ela. – Se usar aquele vestido, não vai se arrepender. Ele foi feito para você. Estreitei os olhos. – O que você sabe sobre vestir? – Não sei nada sobre vestir Clara disse com ironia na voz. Sei sobre vestir mulheres. – e desvesti-las deu um sorrisinho superior. – Agora venha. Realize meu desejo.
Ela foi entrando na loja e eu tive que ir atrás. Como eu havia previsto, a vendedora não pareceu nada empolgada ao ver dois estudantes do ensino médio em sua loja. Mas Clara nem pareceu notar.
– Aquele vestido da vitrine, com o bordado. – E apontou para mim. – Ela gostaria de experimentar. – Cruzando os braços e se inclinando um pouco para trás, ela mediu meu corpo com os olhos, da cabeça aos pés. – Tamanho 38? – Quarenta – murmurei.
– O 40 está na vitrine, naquele manequim – disse a vendedora. E pôs as mãos magricelas com unhas vermelhas nos quadris. – É muito complicado tirar. Se você não está falando sério sobre isso...
Epa. Eu não entendia muita coisa sobre Clara Vlascarponni, mas sabia com certeza que o tom da vendedora não o agradaria. Clara arqueou uma sobrancelha. – Eu não pareci séria? – Ela se inclinou para a frente e leu o nome no crachá da mulher. – 
Luciana?
– Anda, Clara... – chamei e fui andando para a porta.
– Estamos com um pouco de pressa, portanto você poderia pegá-lo agora, por favor? – pediu Clara, sem sair do lugar. De repente ficou muito fácil vê-la dando ordens aos serviçais num castelo.
A vendedora estreitou os olhos, avaliando Clara. Aparentemente sentiu o cheiro de dinheiro no perfume dela, ouviu-a em seu sotaque ou viu-a em sua pose.
– Tudo bem – bufou ela. – Já que você insiste. – Em seguida se arrastou para a vitrine e voltou alguns minutos depois com o vestido. – Aqui – disse, despejando-o nos meus braços. – Os provadores ficam no fundo. – Obrigado – disse Clara. – Disponha.
Luciana foi para trás do balcão e passou a nos ignorar. Clara me acompanhou em direção aos provadores. Fiz com que ela parasse na entrada, pondo uma das mãos firme sobre o peito dela. – Espera aqui.
– Mas deixe-me ver como fica.
Na privacidade do provador, chutei meu tênis, tirei a calça jeans e a camiseta e pus o vestido, desejando estar com um sutiã mais bonito. Um sutiã que fizesse jus ao vestido.
Mesmo parecendo delicado, o tecido era mais pesado e macio do que qualquer coisa que eu já houvesse provado. Fechei o zíper nas costas até onde pude. O vestido se ajustou em volta de mim e de repente todas as partes que eu mais odiava no meu corpo se transformaram nas melhores. Meus seios preencheram o corpete de um jeito ainda melhor do que os volumes angulosos e pequenos do manequim. Ao me olhar no espelho, lembrei o que Clara falara sobre garotas “pontudas” e a vantagem de ter curvas. Naquele vestido, entendi
o que ela queria dizer. A bainha fazia redemoinhos em volta dos meus joelhos e dei uma rodadinha, olhando a parte da frente. As costas. O tecido descia justo pelos meus quadris largos e folgava perfeitamente sobre a bunda. Lucius estava certo. Eu fiquei deslumbrante. Era como um vestido mágico.
– E então? – gritou Clara do outro lado do provador. – Como ficou? – É bonito – admiti, entendendo como me sentia de verdade. Linda. – Então saia.
– Ah, não sei...
Eu estava meio sem graça de mostrar a ela. Olhei para o meu peito. A pele que geralmente era coberta por blusas estava exposta. O volume dos seios, que eu sempre tentava esconder, estava visível para o mundo inteiro ver. Para Clara ver. Não era obsceno, de jeito nenhum. Mas, para mim, era revelador. – Marina, você prometeu.
– Ah, tá bom. – Tentei puxar o corpete um pouco para cima, mas não adiantava. Minhas  curvas se recusavam a se esconder. – Tente não rir. Nem ficar olhando demais.
– Não vou rir – prometeu Clara. – Não haverá motivo para rir. Mas talvez eu fique olhando.
Respirando fundo, empurrei a cortina de lado.
Clara estava sentada na cadeira posta ali para os "maridos" entediados, as pernas compridas dobrada à frente do corpo. Mas, quando me viu, ficou de pé em um salto, como se eu tivesse lhe dado um choque. E juro que vi admiração em seus olhos negros.
– E aí? – Resisti à ânsia de cruzar os braços sobre o peito quando girei para me olhar no espelho. – O que acha?
– Você... você está incrível.
Clara ficou de pé, atrás de mim, jamais afastando o olhar. – Sério?
– Linda, Marianne – murmurou ela. – Linda.
Antes que eu pudesse lembrá-la de não me chamar por aquele nome, Clara chegou mais perto ainda, passou a mão por baixo do meu cabelo comprido e revolto e puxou o zíper até em cima.
– nos  sempre precisamos de ajuda nos últimos centímetros. Engoli em seco. Até que ponto ela era experiente? – Ah, obrigada.
– O prazer foi meu. – Depois, para minha surpresa total, Clara passou os dedos pelos meus cachos e puxou-os num coque torcido, grande e frouxo, no topo da minha cabeça. De repente meu pescoço pareceu muito comprido. – É essa a aparência que uma princesa romena deve ter – disse, aproximando-se para sussurrar no meu ouvido. – Nunca mais diga que você não é inestimável, Marianne. Ou que não é linda. Ou, pelo amor de Deus, que é “gorda”. Quando sentir vontade de cair nessa autocrítica ridícula e sem sentido, lembre-se de si mesma neste momento.
Ninguém nunca tinha me elogiado dessa maneira.
Por um minuto ficamos ali, me admirando. Encontrei o olhar de Clara no espelho. Naquela fração de segundo quase pude nos visualizar... juntas.
Então ela soltou meu cabelo, que caiu pelas costas. E o feitiço se quebrou quando olhei a etiqueta de preço.
– Minha nossa! Preciso tirar isso. Agora mesmo. Antes que eu sue nele ou sei lá o quê. Clara revirou os olhos.
– Se você precisa falar em “suar” em referência a si mesma, algo que desencorajo enfaticamente, use a palavra perspirar.
– É sério, Clara. Vou começar a perspirar só por causa do preço. Clara se curvou para olhar os números na etiqueta e deu de ombros. Entrei correndo de volta no provador, colocando minha calça jeans e amarrando o tênis velho. O efeito princesa desaparecera. Com relutância, entreguei o vestido à vendedora, que  aguardava, segurando uma linda echarpe de caxemira. – Vou colocar na caixa para vocês.
Olhei em volta procurando Clara e a encontrei parada no balcão, batendo um cartão de crédito no tampo de vidro.
– É caro demais – sussurrei, indo depressa até ela.
– Considere um agradecimento pelas orientações nas compras de hoje. Meu presente para sua noite de gala.
Procurei ironia ou sarcasmo nos olhos dela e não vi nada. O que isso significava? Que  Clara Vlascarponni estava desistindo de me cortejar? Duvido. Será? – Obrigada – falei em dúvida.
Luciana colocou cuidadosamente o vestido e a echarpe em duas caixas e as entregou a mim.
– Sucesso com o vestido.
Ela ficou bem mais calorosa depois que o cartão de crédito foi aprovado.
– Tenha um bom dia, Luciana – disse Clara, enlaçando minha cintura e me guiando para fora da loja.
– Realmente não sei o que dizer – gaguejei quando estávamos do lado de fora. – É um presente absurdo. Só o vestido custa uma fortuna e a echarpe é de caxemira.
– Sem dúvida vai fazer frio à noite e você não pode usar uma jaqueta jeans com aquele vestido.
– Bem, obrigada.
– Eu lhe disse que toda mulher merece coisas bonitas. Só espero que o Atarracado aprecie você nessa roupa. – Ela parou do lado de fora, examinando as lojas ao redor. – Não gostaria de um Morango Julius agora?

***

– E então, Santiago, como foi a produção de feno este ano? – perguntou papai,
tentando puxar conversa. – Boa, eu acho.
Santiago  parecia inseguro até mesmo para dar essa resposta simples, provavelmente por estar na berlinda, sob a inspeção dos meus pais.
– Eu ficaria feliz em mostrar alguns dos controles de pragas sem química que nós usamos, se você estiver interessado...
– Pai – interrompi. – Você prometeu. Nada de sermões ambientais.
Por que meus pais tinham feito tanta questão de jantar com Santiago, afinal? Eles viviam falando em espaço pessoal e autonomia de aprendizado – até que chegou a hora de eu sair com um cara. De repente viraram a própria família brasileira  tradicional, insistindo para que Santiago  jantasse com a gente, apesar de ele ter crescido ali do lado e entregar feno na nossa casa quase toda semana. Era uma pagação de mico. E o fato de Clara estar de péssimo humor não ajudava em nada.
– Mais leite de soja? – ofereceu mamãe.
Santiago levantou a mão, um pouco depressa demais. – Não, obrigado.
– A gente acaba se acostumando com o gosto – falei, dando força. – Ah, é. Acho que sou mais fã de leite comum.
– Que explora as vacas – acrescentou papai, apontando um garfo na direção de Santiago. – Pobres animais, postos em fila, com as tetas presas no metal frio... Tetas?
– Papai, por favor. Não fale essa palavra...
– O que é que tem? – Papai levantou as mãos, cheio de inocência. – Santiago  mora numa fazenda. Tenho certeza de que ele está familiarizado com as tetas das vacas.
Cada gota de sangue no meu corpo correu para o rosto. Era bem típico do meu pai falar da anatomia das vacas durante meu primeiro jantar com Santiago e depois acusá-lo de estar “familiarizado” com o equivalente bovino dos seios.

Como se Santiago  gostasse de dar uns pegas nos animais de criação ou algo parecido. Olhei para Clara, esperando que ela desse um sorrisinho afetado, mas ela apenas remexia a salada, examinando um dos premiados tomates- -cereja de papai como se fosse uma forma de vida alienígena melequenta que inexplicavelmente tivesse ido parar na ponta de seu garfo.
– Ricardo – interveio mamãe. – Talvez a gente pudesse mudar de assunto.
Experimentei um breve instante de alívio, até que mamãe se virou para Santiago e comentou:

Soube que vocês estão lendo Moby Dick na aula de literatura. – Ah, é.
– Adorei esse livro quando tinha a idade de vocês – disse mamãe. – A ideia da aventura no mar... E como provoca reflexões! O que pensar da baleia branca? O que ela simboliza? – perguntou ela, ainda falando com Santiago. – Deus, a natureza, o mal ou simplesmente o orgulho de Ahab?
Houve um momento de silêncio enquanto o pobre Santiago  tentava pensar numa resposta àquela pergunta, o que, pela expressão dele, era quase tão palatável quanto o leite de soja. – É... Todas essas coisas? – propôs ele finalmente.
– Estamos lendo a versão resumida – observei, feito idiota. Eu estava acostumada a morar com uma professora: sempre havia algum tipo de questionário durante o jantar. Mas será que mamãe precisava atormentar o coitado do Santiago? – Talvez tenham cortado algumas metáforas...
– A baleia representa as forças ocultas da destruição que anseiam romper a superfície de um mundo complacente – intrometeu-se Clara, falando pela primeira vez e fazendo com que todas as cabeças se virassem na sua direção.
– Hein? – reagiu Santiago, claramente desconcertado. Depois se controlou e me lançou um olhar sem graça.
– Eu gosto da baleia – acrescentou Clara mal-humorada, ainda encarando seu prato. – E de Ahab. Eles sabiam o que era persistência. Sabiam esperar o momento adequado. – Ela ergueu os olhos negros e me lançou um olhar tão afiado quanto suas presas. – E aceitavam seu destino mútuo, por mais desagradável que fosse.
Não. Meu estômago ficou embrulhado. Se Clara começar a falar do noivado, Santiago vai fugir para as montanhas. E por que Clara está se referindo ao destino comigo como “desagradável”, afinal? Está sugerindo que se casar comigo seria tão ruim quanto ficar amarrado a uma baleia agonizante?
– Ô, Clara, como foi o treino de basquete? – perguntei, tentando desesperadamente mudar de assunto e deixar a conversa sob controle.
– Vi você na quadra, Clara – observou Santiago. – Você está, tipo, no nível da NBA. Poderia levar o time feminino  para o campeonato estadual com aquele arremesso de três pontos. Acertou todos nos treinos.
– Ah, é, os treinos – disse Clara, entediada. – “Treinar é aprimorar” – sugeriu Santiago.
– Treinar é se entediar – contrapôs Clara, sem olhar para Santiago. – Prefiro a competição.
– Você pratica luta, não é, Santiago? – perguntou papai, passando mais saag para nosso convidado. Meus pais estavam na fase da comida indiana. A entrada da noite consistia em espinafre murcho. Só nos meus sonhos a gente receberia as visitas com um churrasco. Santiago  observou cauteloso o conteúdo verde e mole mas aceitou a tigela. – É. Sou o capitão do time este ano.

Que coisa mais greco-romana... – comentou Clara secamente, levantando um bocado de espinafre e deixando-o pingar do garfo – ficar se embolando num tatame.
Santiago  me lançou um olhar confuso. Respondi com um dar de ombros que queria dizer “ignore a aluna de intercâmbio ranzinza”. Mamãe jogou o guardanapo na mesa.
– Clara, será que posso falar com você na cozinha?
Ah, graças a Deus. Eu limparia meu quarto ou lavaria uma trouxa extra de roupas para compensar. Lavaria até as calcinhas  de Clara. Fiquei devendo uma a ela.
Clara foi atrás da mamãe se arrastando. Houve uma pausa desconfortável na conversa à mesa, durante a qual todos fingimos não escutar as expressões “participar de uma conversa educada”, “ paspalhona  débil mental” e “retire-se” vindas da cozinha em sussurros altos demais.
Alguns minutos depois a porta da cozinha foi batida. Mamãe voltou sozinha.
– Quem quer mais pão sírio? – perguntou ela com um sorriso de carranca, sem oferecer explicação para o sumiço de uma adolescente romena muito irritadiça.
Do outro lado da mesa, o saag de Clube ficou coagulando em seu prato abandonado.
* * *
Depois que Santiago saiu, fui até a garagem. Clara  estava treinando arremessos, usando um aro velho e enferrujado. Quicar, mirar, arremessar. Olhei-a fazer umas 10 cestas seguidas antes de interrompê-la. – Oi.
Ela se virou, enfiando a bola embaixo do braço, parecendo uma estudante brasileira comum com o moletom da Faculdade Grantley que mamãe havia comprado para ela. Até que abriu a boca:
– Boa noite, Marina. A que devo a visita? Não está entretendo convidados esta noite? – Santiago  precisou ir embora. – Que pena!
Clara jogou a bola por cima do ombro. Ela caiu através do aro.
– O que foi que deu em você? Sabia muito bem que dava para ouvir quando insultou Santiago  na cozinha.
– Verdade? – Clara pareceu meio desconcertada. – Não foi minha intenção. Que grosseria.
Cruzei os braços.
– Tem alguma coisa a dizer sobre mim e o Santiago? Porque, se tiver, diz na minha cara. Não fica fazendo um sermão cifrado durante o jantar sobre baleias e destino. – O que eu poderia dizer? Você deixou sua opinião bem clara.
– Não sei aonde você quer chegar – respondi, honestamente. – Quando comprou o vestido, achei que era seu modo de dizer que não se importava se eu saísse com Santiago.

A bola rolou perto dos pés de Clara e ela se abaixou para pegá-la, depois acompanhou com o polegar as costuras gastas, evitando meus olhos.
– É. Foi o que pensei. Mas hoje, quando o vi olhando para você... – O que é que tem?
Clara estava mesmo com ciúme?
– Apenas não gosto dele, Marina – disse Clara por fim. – Ele não é bom o bastante para você. Independentemente do que pense sobre nosso tênue relacionamento neste instante, não se venda barato a homem nenhum. A garoto nenhum.
– Você não conhece o Santiago – resmunguei com raiva. – Nem tentou conhecê-lo. Ele se esforçou para ser legal com você durante o jantar. Clara deu de ombros.
– Eu o vejo na escola. Ele luta até para entender os conceitos básicos da literatura inglesa. Isso é muito revelador, não acha?
– Então Santiago não gosta de Moby Dick. Quem se importa? Eu também não gosto. Clara pareceu desapontada comigo. Ou triste por algum motivo. Ou as duas coisas. – Acho que meu humor está muito atípico esta noite, Marina – disse ela, evitando meu olhar de novo. – Não sou uma companhia muito boa agora. Poderia me dar licença e me deixar com minhas atividades solitárias? – Clara...
– Por favor, Marina.
Ela me deu as costas e arremessou a bola com um movimento rápido do pulso. Ela passou pelo aro sem tocar na borda. – Ótimo. Fui.
Clara ainda fazia arremessos quando fui lá verificar uma hora depois. Estava escuro e ela jogava no pequeno círculo de luz de um holofote na garagem. Tinha passado a fazer bandejas. Ia gritar um cumprimento, mas mudei de ideia. Algo no modo obstinado com que ela convertia uma cesta após a outra, sem errar, saltando acima do aro com facilidade para enterrar a bola, como se estivesse castigando a coitada, me assustou.

***

CARO TIO Frederic,
Desejo-lhe tudo de bom, enquanto nos aproximamos do Dia das Bruxas. O senhor gostaria muito das representações dos vampiros que os brasileiros  fazem de modo um tanto compulsivo nesta época do ano. Seria de pensar que toda a nossa raça consistisse em homens pálidos, de meia-idade, com tendência genética a ter o couro cabeludo formando um V na testa e uma queda por gel em excesso.
Mas vamos logo ao ponto. Odeio admitir que vejo a situação aqui fugir cada vez mais ao meu controle.
Como anunciei em minha última correspondência, de fato tentei numerosas estratégias “brasileiras” para ao menos criar algum tipo de relacionamento com Marianne – inclusive usar calças “jeans” (que, aliás, são bastante confortáveis) e, como mencionei, jogar basquete, um esporte para “garotas populares”. (Pode me chamar de Magic Clara.)
Porém, até agora, Marianne parece muito pouco impressionada com meus melhores esforços. Na verdade está “se envolvendo” com o camponês. (Frederic, se o senhor o ouvisse tentando participar de uma conversa... É insuportável. Eu preferiria ter nossas onipresentes lentilhas enfiadas nos ouvidos do que escutá-lo por mais de dois minutos.)
Para ser sincera, Marianne me deixa perplexa. Outro dia pensei que havíamos experimentado um avanço significativo. Comprei um vestido magnífico para ela – se o senhor a visse nele, teria achado que estava quase pronta para assumir o trono. Por um momento brevíssimo achei que fizéramos progresso. A expressão em seus olhos, observando-se ao espelho... Algo ficou diferente nela, Frederic. Diferente em relação a mim, eu poderia jurar!
No entanto, o camponês gruda feito um parasita. Um sanguessuga ou um carrapato que não pode ser arrancado. O que Marianne vê nele? E por que insiste em continuar a ver? Eu poderia lhe oferecer muito mais. Em particular, conversa. Réplicas. Para não mencionar a liderança de dois clãs poderosos. Um castelo. Serviçais. Qualquer coisa que desejasse. Coisas que ela merece, Frederic. Maldição. Estou falando bobagens.
O cerne da questão é que temo que o senhor fique desapontado comigo se eu não conseguir convencer Marianne a honrar o pacto e me aceitar como esposa. E, com toda a honestidade, seu desapontamento é uma perspectiva bastante temível. Com isso, sinto-me compelida a mantê-lo a par da situação à medida que esta se desdobra. Certamente não quero lhe apresentar um fracasso antecipado. Prefiro apenas prepará-lo para a pior  eventualidade – ao mesmo tempo que pretendo continuar a me empenhar. Sua sobrinha, humildemente, Clara
P.S.: Se alguém lhe oferecer “saag”, recuse, se for possível fazê-lo sem violar as regras da boa educação. Há alguma chance de o cozinheiro enviar para cá uma ou duas lebres congeladas?
P.P.S.: O investimento que fiz com seu depósito chegará logo. Estou ansiosa.
P.P.P.S.: O camponês não entende o simbolismo da baleia em Moby Dick, Frederic. Juro. Conceitos que foram literalmente golpeados no meu cérebro (lembra-se de minha tutora meio cigana, Bogdana, cujo entendimento de estratagemas literários só era suplantado pela capacidade de usar a chibata?) durante a pré-adolescência permanecem fora do alcance dele. Será que tem alguma deficiência mental? Ou será simplesmente tapado? Parasita.



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