História Como se livrar de uma vampira apaixonada - Capítulo 5


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Categorias Em Família
Tags Clara, Em Família, Marina
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Palavras 9.933
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Comédia, Ficção, Ficção Adolescente, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 5 - Capitulo 5


Oi, Bela. – Eu sorri, dando um tapinha firme no pescoço musculoso da minha
égua appaloosa. – Pronta para se exercitar? Faltam poucas sessões de treino antes da apresentação. – Meu sorriso sumiu de repente. O concurso do Clube da Juventude seria dali a apenas algumas semanas e tinha parecido uma boa ideia quando me inscrevi, mas agora eu estava sofrendo sérios ataques de nervosismo. Bom, era tarde demais para desistir. Não era? Quando estendi a mão para pegar as rédeas, tirando-as de um prego da parede, ouvi uma picape parar do lado de fora do estábulo. Olhei para a porta e vi um estranho caminhar em minha direção. Um homem baixo, de macacão sujo, segurando uma prancheta. – Pois, não? – perguntei.
– Você conhece uma tal de... – Ele olhou a prancheta. – Uma tal de Clara Vlasca... aqui. – Ele estendeu a lista de nomes em minha direção. – Não consigo entender esse nome.
– Ah, não. – Meu coração afundou. Eu nem precisava olhar. – Vlascarponni. O que ela fez agora? Encomendou alguma coisa?
– É. E precisa receber esse monstro que está arrebentando meu trailer de tanto chutar. Quero essa coisa fora de lá agora mesmo. – Monstro?
– Estão me procurando?
Como se captasse a deixa da palavra monstro, Clara apareceu das sombras, pegou a prancheta e uma caneta e assinou o papel.
– Espero que saiba o que está fazendo – disse o entregador, balançando a cabeça. – Ah, mas é claro que sei.
Fui atrás enquanto Clara e o homem passavam pela arena interna de montaria, indo na direção da porta.
– Clara, o que você comprou?
O homem de macacão gritou por cima do ombro, respondendo por ela:
– Sua amiga comprou uma égua assassina. Esse bicho devia ser sacrificado. – Clara?!
Todos passamos pela porta do estábulo e chegamos ao caminho de terra, onde vi um trailer usado para transportar cavalos. Sacudindo-se. Sons de pancadas fortes vinham lá de dentro. – Você tira esse bicho de lá, garota – insistiu o sujeito. – Não vou tocar nele de novo. Sem hesitar, Clara se aproximou da traseira do trailer, destrancou sua porta e a abriu. – Ah... Clara? Será que você deveria mesmo entrar aí? – A garota está morta – observou o baixinho.

ouve um som de luta, depois escutei a voz de Clara acalmando o animal e cascos batendo em metal. Em seguida, silêncio. Um longo silêncio. Finalmente, Clara voltou, puxando um animal muito arisco e muito forte. A égua mais negra que eu tinha visto na vida. Devia medir uns dois metros de altura. Seus olhos se reviravam enlouquecidos, mostrando a parte branca em contraste com o focinho de ébano. Recuei quando passaram, mas ela se assustou e tentou me morder.
– Fique calma – tranquilizou-a Clara. E gritou para mim: – Desculpe- -me, ela está um tanto agitada.
O entregador partiu, murmurando algo sobre crânios partidos, e eu acompanhei Clara, que estava convencendo sua nova montaria a entrar numa baia. Ao lado da de Bela. – Quero que elas sejam vizinhas – sorriu Clara. Foi minha vez de revirar os olhos. – Maravilha.
– Calma – disse Clara à égua de novo, enquanto ela tentava morder seus dedos. Ela apertou o focinho do animal, lutando com ela enquanto prendia seu cabresto nos dois lados da baia. Quando estava amarrada, ela a soltou e ela deu um grande salto sobre Clara, mordendo seu antebraço. – Droga!
Firmei os pés no chão e cruzei os braços. – Você comprou uma égua? Essa égua?
– Sim – respondeu Clara, esfregando a mordida. – Lembrei que você tinha dito que nós não tínhamos nada em comum. – Ela virou o polegar na direção de sua égua demoníaca. – Isso é algo que podemos compartilhar. Uma atividade. Um modo de passarmos mais tempo juntas.
– Você não vai participar do concurso do Clube da Juventude – avisei.
– Meu blazer comemorativo do clube está sendo bordado neste momento. – Ela sorriu. – Estou ansiosa para usar aquele veludo cotelê azul. Em sua língua, veludo cotelê é “corduroy” e você sabe que “corduroy” significa “tecido de reis”, não é? Considero bem adequado.
– Mas eu achei que você tivesse desistido...
Clara franziu a testa, acariciando o focinho de sua égua. Dessa vez ela se encolheu mas não mordeu.
– Você achou que eu havia me esquecido de um pacto que fui preparada para cumprir desde a infância porque suporto os avanços grosseiros do Atarracado para cima de você? Não mesmo.
– Pare de chamá-lo de atarracado e de insinuar que ele é idiota. Santiago é um cara muito legal.
– Legal... Bem, essa é uma qualidade superestimada. – Clara soltou um dos lados das cordas que continham sua égua e ela empinou. Ela deu um tapinha no pescoço do animal. – “Legal” não é superestimado? – Ela fez uma pausa, virando-se para mim. – Que nome devo  dar a ela? Ela precisa de um nome, já que vou inscrevê-la na prova de salto. – Você não pode fazer isso! – exclamei. – Eu vou competir nessa categoria. – Eu sei. Achei que poderíamos treinar juntas. – Eu já disse que não quero sua ajuda.
– Não está com medo de uma competição amigável, está?
Bati o pé. Em parte porque não, não queria competir com ela. Ela era uma atleta nata. Uma astro do polo na Romênia. Também não queria que ela começasse a passar seu tempo no estábulo.
– Eu disse que não quero montar com você. – Você está reagindo de forma exagerada. – E você é uma... é uma... vampira idiota! Nunca me escuta. Eu disse especificamente para não interferir nessa parte da minha vida. Nós moramos juntas e frequentamos a mesma escola. Esse é o único lugar onde não tenho você pegando no meu pé o tempo todo. – Uma vampira?
A voz veio de alguém atrás de nós duas. Epa.
Clara e eu nos viramos e vimos Fernanda Cerqueira, curiosa e meio confusa, observando nossa discussão. Seus braços levemente bronzeados estavam cruzados sobre a camiseta justa de líder de torcida e o rabo de cavalo louro balançava, brilhando à luz fraca, enquanto ela inclinava a cabeça.
– Você chamou Clara de vampira? Gaguejei, procurando uma explicação. – Ela... ela está sugando toda a minha energia vital – respondi finalmente. – Marina vive me dando apelidos. – Clara sorriu, sem graça. E estendeu a mão. – É um prazer vê-la fora da sala de aula, Cerqueira. Ah, meu pai.
Fernanda pareceu um tanto surpresa, mas estendeu a mão também. – Ah... Você também, Clara.
Clara não apertou a mão dela. Beijou-a de leve. – Encantada, como sempre.
– Uau. Isso foi diferente. – Fernanda puxou a mão de volta, dirigindo-se a mim, a cavalariça, como se só agora me notasse. – Oi, Marina. – É Marina.
– Certo. – Mas a atenção de Fernanda havia se desviado de novo, para o animal sem nome. – Que égua linda. Vi quando você a trouxe para dentro. Mas parece perigosa. Clara soltou a outra corda, libertando seu novo bicho de estimação.
– Acredito que os cavalos, como as pessoas, são maçantes quando totalmente domados. Prefiro um pouco de determinação.
O animal sacudiu a cabeça, mas Clara o tranquilizou:
– Calma, calma. – Então se dirigiu a Fernanda e a mim: – Ela foi maltratada, coitadinha. Teve uma infância desagradável.
– Desagradável? – perguntou Fernanda, inclinando a cabeça.
– Nunca chegue perto dela com um chicote – alertou Clara. – Foi o que o antigo dono recomendou com muita ênfase. Parece que o primeiro proprietário tinha a mão muito pesada.
Criada no chicote. Pensei na confissão de Clara sobre levar surras dos tios. Repetidamente. Imaginei se teria escolhido aquela égua de propósito, por causa da conexão cruel que compartilhavam. Parecia típico dela.
Fernanda e eu recuamos, abrindo caminho enquanto Clara guiava a égua para fora da baia. – Você vai montar nela? – indaguei, incrédula. Clara franziu a testa.
– É o que nós fazemos com os cavalos, certo? – Eu tenho uma sela extra – ofereceu Fernanda. Olhei-a furiosa.
– Não! – gritei. – Está falando sério? – Fernanda não era o tipo de pessoa que a gente podia questionar, mas não pude acreditar que ela achava que Clara deveria tentar montar naquela égua que tinha uma expressão diabólica nos olhos e a mania de morder. – Clara, nem pense nisso.
– Ah, não creio que ela vá gostar de uma sela – disse ela. – Pelo menos não por enquanto. Primeiro vou acostumá-la a carregar só o meu peso. Balancei a cabeça.
– Ela vai matar você.
Clara me lançou um olhar conspirador.
– Você, mais do que ninguém, deveria saber que isso é improvável. Os animais não são capazes de usar ferramentas.
Sem hesitação, ela ficou ao lado da égua e saltou em seu lombo com a mesma facilidade demonstrada ao fazer arremessos na quadra de basquete. A égua relinchou e girou imediatamente, mas Clara provou que não era só garganta. Em segundos ela estava dominada e as duas – mulher  louca e animal louca – foram para o centro da arena num passo rápido porém controlado, Clara guiando com os joelhos e o cabresto. A intervalos de alguns passos a égua refugava ou virava para morder as pernas dela. Mas as duas mantinham uma parceria firme, ainda que tensa.
– Em pouco tempo estaremos saltando – gritou Clara, sorrindo.
Ela estava conseguindo. Montava a égua de aparência mais maligna que eu já tinha visto. Meu alívio durou pouco. Percebi exatamente o que sua sobrevivência significava para mim. Quando chegasse a hora do concurso, eu competiria com Fernanda Cerqueira  e uma astro romena que montava uma égua demoníaca.
Clara instigou a montaria a trotar. Depois, a andar a meio galope. Era uma mistura de dança com briga de bar.

– Impressionante. – Fernanda olhava as duas, admirada. – Clara deve ter, tipo, uma espécie de magia. Achei mesmo que ela fosse matá-la.
– É só uma questão de tempo – respondi, baixinho.

***

– Obrigada pelo cachorro-quente de pelúcia – agradeci, apertando a
grande salsicha estufada que Santiago ganhara ao acertar duas bolas na boca de um palhaço. – Eu me diverti pra caramba na festa.
– Foi mal não ter conseguido o urso.
– Ah, um cachorro quente é legal. É diferente.
Estávamos sentados na grande picape 4x4 de Santiago, estacionada diante da fazenda, tentando descobrir como nos despedirmos. Eu deveria simplesmente saltar do carro? Será que ele sairia também?
– Eu já disse que você ficou muito linda nesse vestido? – perguntou Santiago.
Ainda não dissera, mas eu tinha visto a expressão no rosto dele quando foi me buscar. A mesma admiração demonstrada por Clara na butique. Durante toda a noite vários caras me olharam. A princípio me senti meio sem jeito. Mas foi fácil me acostumar com esse tipo de atenção.
– Gostei do seu cabelo assim também – acrescentou Santiago.
Enrolei um cacho que pendia do coque. Tinha feito o máximo para imitar o efeito que Clara havia conseguido torcendo meu cabelo com os dedos. – Obrigada.
– Estou feliz por ter me convidado. Curti muito. Houve uma pausa longa.
– Acho que vou nessa – declarei finalmente, pondo a mão na maçaneta. – Ah... hum... é... Eu abro a porta.
Santiago desligou o motor e desceu, vindo para o meu lado. Abriu minha porta e eu tentei descer, quase caindo com os saltos altos. – Merda!
Muito classuda, Marina.
Mas Santiago me impediu de cair e de repente estávamos muito perto um do outro. Cara a cara. Foi aí que ele me beijou. Beijou de verdade. Seus lábios eram mais macios do que eu esperava e um pouco úmidos. Meus lábios se abriram um pouco, como eu tinha visto na TV e nos filmes durante anos e anos. Pareceu muito natural enquanto acontecia – e então nossas línguas se encontraram. Santiago  empurrou ligeiramente a língua contra a minha. Então é assim... A sensação não foi elétrica, mas senti um arrepio de felicidade. Santiago me envolveu com os braços, um abraço de urso. Um abraço de lutador. Nossas línguas roçaram e roçaram e Santiago 

acariciou minha cintura. Legal. E sem dúvida ficaria melhor com a prática. Talvez eu pegasse emprestado o artigo de Vanessa  sobre “75 truques sexuais para enlouquecer seu homem”.
Foi ele quem se afastou primeiro.
– Preciso ir ou vou acabar passando da hora. Eu te ligo, beleza? Percebi que ainda estava apertando o brinquedo de pelúcia. – Beleza.
Ele se inclinou para me beijar de novo. Um toque leve, doce, nos lábios. – Até mais – despediu-se Santiago. – Tchau.
Fiquei parada olhando a picape se afastar.
Quando as luzes traseiras haviam quase desaparecido na escuridão, caminhei para a entrada de casa, ouvindo o farfalhar da bainha do vestido contra os joelhos. Meu primeiro beijo de verdade.
– E então, como foi?
A voz rouca e profunda que vinha da escuridão me assustou, fazendo com que eu parasse na mesma hora. Olhei para as sombras. – Clara?
– Estou bem aqui.
Acompanhei sua voz até os degraus do terraço, onde ela estava sentada em meio às sombras, perto de uma abóbora de Halloween que tremeluzia. Cheguei mais perto. – Você estava me espionando. Clara estendeu uma tigela.
– Estou de serviço na distribuição de doces. Quer? As crianças não ficaram felizes com a oferenda, mas acho que só restam saquinhos de soja caramelada. Aceitei um saquinho e me sentei perto dela, num degrau.
– Não costumam aparecer muitas crianças pedindo doces. Ninguém mora a menos de um quilômetro daqui.
– Ah. – Clara deu de ombros. – Então fui eu que odiei o doce. – Ela tomou o cachorro- quente de pelúcia dos meus braços. – Seus pais não vão gostar disso em casa. Brinquedo imitando carne. O Atarracado ganhou isso com algum feito de proeza física? – Em seguida jogou o brinquedo por cima do ombro, numa cadeira do terraço. Ignorei a provocação.
– Você estava me esperando?
Clara olhou para a escuridão distante. – Como foi?
– Como foi o quê?
– Ele a beijou. Como foi? Sorri, lembrando. 
– Legal.
– Legal? – Clara deu uma fungadela curta, de desprezo. – Digo e repito: o “legal” é superestimado.
– Por favor, não comece – pedi. Não estrague isso.
– Quando você beijar a pessoa certa, vai ser muitíssimo melhor do que legal – resmungou Clara.
– Você não tem o direito de dizer isso.
Eu me levantei para entrar, alisando o vestido. Ela não estragaria esse momento. Isso não iria acontecer.
Para minha surpresa, Clara cedeu.
– Você tem razão. Fui grosseira. Eu não tinha o direito. – Ela deu um tapinha no degrau. – Por favor, faça-me companhia. Acho que estou melancólica esta noite. – Você devia ter ido à festa – falei, sentando-me de novo. Clara inspirou fundo e soltou o ar. – Não havia nada lá para mim.
– Até que foi divertido. Havia jogos e a gente...
– Alguma vez, ao menos por um minuto, você analisou minha vida pela minha perspectiva? – interrompeu Clara, um tanto ríspida. – Já pensou em como eu me sinto? – Ela se virou para me encarar, os olhos reluzindo fracamente, como os da abóbora. – Alguma vez você olha para além de si mesma?
– Qual é o problema? Você está com saudade de casa ou algo assim?
– Algo assim. É. – O brilho ficou mais forte. – Por Deus. Eu moro numa garagem, longe de tudo o que conhecia. Fui mandada aqui para cortejar uma mulher que me despreza em favor de um camponês...
–Santiago é um cara perfeitamente legal, Clara. Clara bufou.
– É isso o que você quer da vida? Algo legal? Tudo precisa ser legal? – Legal é... legal – protestei. Clara  balançou a cabeça.
– Ah, Marianne. Eu poderia lhe mostrar coisas tão além do legal que fariam sua linda cabecinha girar.
Sua voz tinha mudado subitamente, ficando mais baixa ainda e mais rouca. Havia nela uma qualidade que eu nunca escutara mas que reconheci por instinto. Ímpeto sexual. Luxúria. Desejo. Um desejo tenso, exasperado, frustrado. – Clara, acho que seria bom a gente entrar.
Mas ela apenas chegou mais perto e falou com mais suavidade, porém ainda com a sugestão de uma frustração mal contida.
– Eu poderia lhe mostrar coisas que fariam você se esquecer de tudo o que conhece aqui, em sua vidinha segura...

Engoli em seco. O que ela pode me mostrar? Que tipo de coisas? Estou interessada? Sim. Não. Talvez. – Clara...
– Marianne...
Ela se aproximou ainda mais e notei que ela ofegava. Eu também. Inalando a força que ela sempre exalava, eu compartilhava seu ar rarefeito.
– Você nunca pensa nessa sua parte? Na parte que é Marianne? – Marianne é só um nome.
– Não. Marianne é uma pessoa. Uma parte de você.
Então Clara acariciou meu rosto, tocando-o com o polegar, e eu me peguei fechando os olhos, oscilando de leve, como se fosse uma serpente sob o feitiço de um encantador. Sabia que deveria parar o que quer que estivesse acontecendo, mas não fiz nada.
– A outra metade de você não se contentaria com o “legal” – disse Clara, baixinho. Ela envolveu meu queixo com uma das mãos e pude sentir sua respiração na minha boca. Fria e próxima. – Eu finalmente vi essa parte do seu ser, do seu espírito, quando experimentou essa roupa. Você fica tão linda nesse vestido! Ela a transforma...
Meu vestido. Tive uma sensação de poder enquanto os caras me olhavam durante a festa e gostei disso. Mas, ao lado de Clara, sentia esse poder fugir ao meu controle e passar para suas mãos. Ela segurava as rédeas com tanta segurança quanto fizera com sua égua selvagem. E isso era aterrorizante. Lambi os lábios. Minha barriga estava retesada com aquela mistura de fome, ódio e medo que senti na primeira vez em que ela me mostrou aqueles dentes. Será que vai fazer isso de novo? Será? Será que deveria? – Marianne.
Seus lábios mal tocaram os meus e uma ânsia me rasgou ao meio, como o desejo por aquele chocolate luxuriante, irresistível, proibido no sonho. Não... eu acabei de beijar o Santiago... Não quero desejar o Clara... Ela era tudo o que eu não queria. A garota  achava que era uma vampira. Mesmo assim, eu pressionava meu corpo contra o dela, sentia minha mão subindo por vontade própria para acariciar seu queixo, onde estava a cicatriz, quase invisível sua pele lisa e extremamente suave. A violência em sua infância... isso a endureceu. Teria se tornado perigosa?
O braço de Clara deslizou pelas minhas costas e ela roçou meus lábios de novo, dessa vez com mais força. Até sua boca era suave e branda. E eu queria provar mais.
– Assim, Marianne  – murmurou ela. – É assim que deve ser... e não legal...
Ela estava me tentando a querer mais. A imagem dela fechando o zíper do meu vestido, seguro, entendido das coisas, atravessou meu cérebro num relâmpago. Experiente... Mamãe havia me alertado. Não deixe isso lhe subir à cabeça, Mari...
Clara levou a mão até o meu pescoço, envolvendo minha nuca com os dedos, o polegar acariciando minha pele.
– Deixe-me beijá-la, Marianne... beijar de verdade... como você deve ser beijada.

– Por favor, Clara...
Eu estava implorando ou protestando?
– Seu lugar é ao meu lado – disse ela, baixinho. – Com a nossa espécie. Você sabe... Pare de lutar contra isso. Pare de lutar contra mim... Não!
Devo ter gritado, porque Clara recuou abruptamente.
– Não? – perguntou incrédula, os olhos cheios de choque e incerteza. Minha boca estava se mexendo, mas nenhum som saía. Sim? Não?
– Eu... eu acabei de beijar o  Santiago – gaguejei. – Há alguns minutos. – Não era errado ficar com duas pessoas numa noite só? Não era coisa de... vagabunda? O que aquele vestido estava fazendo comigo? E o lance que ela tinha dito sobre “nossa espécie”... Não.
Clara tirou a mão do meu pescoço e se inclinou para a frente, quase abraçando os joelhos, enfiando as mãos nos cabelos compridos e pretos com um som que era parte gemido e parte rosnado.
– Clara, desculpe... – Não diga isso.
– Mas eu quero me desculpar...
Só que eu não sabia por quê. Por ter beijado Santiago? Por ter quase beijado Clara? Por ter feito com que parássemos?
– Entre, Marina. – Clara ainda estava curvada sobre os joelhos, os dedos cruzados no cabelo. – Agora, por favor.
E então a porta da frente se abriu.
– Achei ter escutado vozes aqui fora – disse papai, fingindo não perceber a tensão óbvia. – Papai – falei esganiçada, ficando de pé. – Acabei de chegar em casa. Clara e eu estávamos conversando.
– Está ficando tarde – avisou papai, puxando-me para o seu lado. – E, Clara, acho que podemos dizer que a distribuição de doces acabou. Você deveria ir para a cama.
– Claro, senhor – respondeu Clara, educada. Ela se aprumou lentamente e ficou de pé também. Parecia cansada enquanto entregava a tigela ao meu pai. – Feliz Dia das Bruxas.
Então, entrei correndo, subi para o quarto e arranquei o vestido, jogando-o no fundo do armário. Puxei o cabelo, que caiu sobre os ombros. Tudo de volta ao normal. Após vestir uma camiseta e uma calça de moletom para dormir, fui de mansinho até a janela e olhei para a garagem. Mas a luz do quarto de Clara estava apagada. Ela tinha ido dormir. Ou talvez tivesse saído.
Mamãe bateu à minha porta. – Marina? Você está bem? – Estou ótima, mamãe – menti. – Quer conversar?

***

CARO TIO FREDERIC,
Que confusão por aqui. Que confusão! Seria bem mais fácil de explicar se o senhor experimentasse usar um e-mail. Está disponível em toda parte hoje em dia. Pense nisso, por favor, pelo menos enquanto eu estiver aqui.
Até lá tenho a difícil tarefa de lhe informar via correio que todo o pacto parece cambalear, interminável e irrevogavelmente, na direção do esquecimento. Esta noite... Por onde começar? O que dizer?
Se aquele não era o momento, não sei o que mais posso fazer. Se Marianne não sentiu o que eu senti naquele instante, se ela teve a presença de espírito de recuar, na verdade de gritar “Não!” para mim quando eu iria admitir que já estava totalmente apaixonada perdida por ela, não sei mais o que fazer.
Tenho certeza de que o senhor pode deduzir, pelas linhas acima, o que se passou entre nós, num sentido geral. Não vou me rebaixar – nem desonrar Marianne – entrando em detalhes. Fazer isso seria não só humilhante, mas também pouco Educado. E certamente o senhor me entende.
Será que fui mesmo superada por um camponês? Um camponês atarracado, tapado, parasita?
Talvez de manhã a situação pareça menos desagradável. Só podemos esperar.
Enquanto isso, será que o senhor poderia me oferecer alguma informação sobre o castigo que enfrentarei caso venha a fracassar? Gostaria de começar a me preparar mentalmente, sobretudo se for enfrentar o pior. Sempre preferi encarar o destino de cabeça erguida, como me ensinou. E poderei fazer isso melhor se tiver oportunidade de me preparar.
Sua sobrinha, com dúvidas, incertezas e preocupações que não são de pouca monta, Clara

** 

Você vai fazer uma ótima exibição, querida – prometeu mamãe, usando
um alfinete para prender meu número nas costas do blazer de montaria. – Vou vomitar – gemi. – Por que me inscrevi nisso?
– Porque os desafios nos fazem crescer – respondeu mamãe. – Se você diz...
Dentro de alguns minutos seria a minha vez. Eu montaria Bela na arena do Clube da Juventude e nós saltaríamos uma série de obstáculos. A coisa toda duraria uns três minutos, no máximo. Então por que eu estava tão nervosa?
Porque você pode cair. Bela pode refugar. Você não é uma atleta, é só uma matematleta. – Eu deveria ter trazido um bezerro, como no verão passado – resmunguei. – Tudo o que a gente precisa fazer é entrar na arena e esperar para ver se ganha um prêmio.
– Marina, você é uma ótima amazona – insistiu mamãe, me girando pelos ombros para olhar nos meus olhos. – E até parece que nunca competiu.
– Mas aquilo era matemática – protestei. – E eu sou boa em matemática. – Você é boa saltadora também. Pensei em Fernanda e Clara. – Mas não sou a melhor. – Então hoje é uma excelente oportunidade para testar seus limites. Arriscar-se a um segundo ou até mesmo a um terceiro lugar.
Olhei para o outro lado do campo, onde Clara estava a meio galope com sua égua, que ela havia batizado de Fera. Rá-rá-rá.
– Correr riscos nem sempre é uma coisa boa – retruquei, olhando Clara lutar para controlar o animal ainda meio selvagem. Clara era a única que conseguia encostar em Fera. Ela insistia em dizer que ela era incompreendida, mas eu achava a égua simplesmente maligna.
– Aquilo é um pouco arriscado demais – admitiu mamãe, acompanhando meu olhar. Em seguida suspirou. – Espero que ela fique bem.
Pelo modo como ela disse, tive a estranha sensação de que mamãe não falava somente da competição de saltos.
– Ela também precisa colocar o número – acrescentou mamãe. E acenou para Clara.
Ela ergueu a mão, cumprimentando-a, e veio trotando, saltando da sela e enrolando as rédeas numa estaca da cerca. Fera jamais seria o tipo de animal capaz de esperar sem estar amarrada.

Clara fez uma pequena reverência. – Dra. Meirelles. Marina.
– Oi, Clara – respondi, pouco à vontade.
Ela se virou e minha mãe prendeu o número. Para minha surpresa, em seguida mamãe girou Clara, como tinha feito comigo, e a abraçou. A surpresa se transformou em choque quando Clara a abraçou de volta. Quando foi que essas duas se aproximaram? Em algum momento depois do Halloween, talvez. Clara e eu estávamos nos evitando desde aquele encontro estranho no terraço.
– Boa sorte – disse mamãe, espanando uma sujeira imaginária no blazer impecável dela, de caimento perfeito. – E use o capacete – acrescentou. – É obrigatório.
– É, é, a segurança em primeiro lugar – disse Clara, sarcástica. – Vou procurá-la. – Ela virou para mim com o olhar neutro. – Boa sorte. – Pra você também.
Clara desamarrou a égua e a conduziu para longe. Mamãe a observou com o rosto tenso. – Ela vai ficar bem – garanti. – Assim espero.
– Eu sou a segunda, certo? – perguntei. – É. Depois da Fernanda.
Maravilha. A pior apresentação que poderia vir antes de mim. Fernanda não competia apenas na exposição anual do Clube da Juventude. Montava nas exposições mais importantes em seu capão caríssimo. Meu estômago ficou embrulhado de novo.
– Você vai se sair muito bem – afirmou mamãe. E me abraçou. O alto-falante começou a berrar. Estava na hora. – Vamos lá.
Obviamente Fernanda completou o circuito sem falhas com seu puro-sangue Dança Lunar. Dominou o percurso com as pernas ágeis, de ossos finos, do animal, superando cada obstáculo, até mesmo o quinto, uma torre que, de onde eu esperava, na lateral, parecia ter uma altura intransponível.
Eu precisava fazer xixi, um xixi de nervosismo, mas não havia tempo. Montei enquanto os cascos de Dança Lunar passavam na parte final do circuito.
– A seguir, Marina Meirelles, da Escola Woodrow Wilson, montando Bela, uma appaloosa de 5 anos.
Eles anunciaram meu nome.
Respirei fundo e localizei Santiago, que assistia da arquibancada. Ele sorriu, me encorajando com os polegares para cima. Sorri de volta, quase por obrigação.
Clara também estava lá, observando, encostada na cerca. Droga. Como se eu precisasse de seus olhos hipercríticos para me julgar.
Olhei por cima do ombro, imaginando o que aconteceria se minha égua e eu simplesmente desistíssemos. Mas era tarde. Não havia como dar para trás.

Respirando fundo outra vez, fui em frente. Os cascos de Bela faziam pouco barulho na terra densa da arena quase silenciosa. Sentindo a força do animal, seus passos familiares sob meu corpo, comecei a me concentrar. O primeiro obstáculo se aproximava. Uma cerca. Entramos em meio galope, saltamos e ultrapassamos sem erro. Você está só saltando com Bela. Exatamente como faz em casa. Passamos então com facilidade pelas traves baixas e o nervosismo foi sumindo, sendo substituído pela empolgação. Todas aquelas pessoas nos observavam e estávamos conseguindo.
Bela passou pelas duas cercas seguintes, e seus cascos seguer roçaram as traves.
A quinta cerca, a mais alta, se aproximou e meu coração quase pulou pela boca. Mas Bela se ergueu, voou e nós passamos.
Um circuito perfeito. Sem faltas. No final das contas havíamos feito uma passagem impecável. Um sorriso enorme, vitorioso, rasgou meu rosto. Engole isso, astrozinha romena.
Enquanto ia a meio galope para a saída, acenei para meus pais, que aplaudiam, e para Clara, que estava com os dois dedos na boca, assobiando. Procurei Clara e vi que ela batia palmas com energia, as mãos levantadas. Ela moveu os lábios sem emitir som: “Boa apresentação.” O que quer que tivesse se partido entre nós havia acabado de ser um pouco consertado.
Voltei, depois de levar Bela, bem a tempo de ver a exibição de Clara.
Ela montava com facilidade, majestosa, como se tivesse nascido sobre o lombo de Fera. A égua negra como a noite também parecia estranhamente calma. Cutucando os flancos, Clara a instigou num meio galope, chegando quase ao galope total. A velocidade era insana para o percurso pequeno, mas Clara não parecia notar. Havia um pequeno sorriso em seus lábios enquanto se aproximava da primeira cerca. Fera voou, pousando com suavidade, e percebi que aquele era um animal nascido para saltar. As duas pareciam fundidas uma na outra, égua e domadora, tomando conta do circuito. Fera chegava ao dobro da altura necessária e de repente os espectadores estavam gritando e aplaudindo.
Era uma coisa imprudente. Imprudente demais. Olhei para meus pais na arquibancada. Pareciam aterrorizados e logo fiquei também.
Enquanto Clara voava por cima do quinto obstáculo, alguém apertou meu pulso, fazendo- me pular de susto.
– Olha só para ela – sussurrou Fernanda Cerqueira para ninguém em particular. Tive quase certeza de que ela nem notara quem estava segurando, tamanha a intensidade com que olhava Clara. Fernanda bateu com o chicote de montaria no tornozelo, distraidamente, no mesmo ritmo dos cascos. Puxei o braço para longe.
– Desculpa – murmurou ela, sem desviar o olhar de Clara.
Fera ultrapassou o último obstáculo e o locutor anunciou um novo recorde de tempo na competição.
Clara e a égua pararam diante do portão e ela apeou, tirando as luvas de montaria com ar Tranquilo, como se tivesse acabado de dar um passeio no parque, alheia aos aplausos. Sempre metida a besta.
– Vou dar os parabéns a ela – disse Fernanda.
Captei uma expressão peculiar nos olhos da futura rainha do baile de formatura.
Fernanda desapareceu na multidão, em direção à saída, seguindo Clara atrás da arena. Foi então que pensei no chicote de montaria. Fera não gostaria de ver o chicote. Clara chegara até a pôr um cartaz de aviso no estábulo – um cartaz que eu via quase todo dia. – Fernanda, espera – gritei, indo atrás dela.
Mas não fui rápida o bastante. Quando a alcancei atrás da estrebaria, Fernanda  se aproximara da égua e da Clara e estava balançando o chicote, chamando a atenção da morena. O chicote roçou o flanco do animal e Fera girou furiosa, recuando, quase arrancando as rédeas das mãos de Clara antes que ela percebesse o que estava acontecendo. Ouvi Clara ordenar que Fernanda largasse o chicote, mas era tarde demais. A égua empinou, dando com as patas no ar, perto demais de Fernanda. Gritei, vendo o que iria acontecer, e então Clara empurrou a garota, colocando-se na frente dos cascos e depois caindo debaixo deles.
Houve um estalo horrível quando a força dos cascos de Fera, impelidos por uma tonelada de cartilagens e músculos, colidiu com as pernas e as costelas de Clara. Tudo acabou em segundos, antes que eu pudesse sequer gritar de novo, e de repente Clara estava caída, o corpo comprido dobrado, quebrado, sobre a grama. Havia sangue na blusa branca dela, sangue escorrendo da bota de cano alto e manchando a calça cáqui. – Clara!
Finalmente encontrei minha voz e gritei, correndo, abaixando-me ao lado dela. Estava tão apavorada que me esqueci do monstro perigoso que se erguia ainda solto perto do meu ombro.
– Pegue-a – pediu Clara, com os dentes trincados enquanto tentava rolar de lado, indicando a égua que estava parada, arfando, com medo e ainda cautelosa. – Você consegue. Antes que ela...
Fernanda começou a chorar aos berros, mas ninguém nos ouvia atrás da estrebaria. Todos estavam lá dentro, assistindo à competição. Fera tinha parado, com a cabeça baixa, fungando como uma sentinela furiosa acima de Clara. Eu podia sentir seu hálito quente no meu pescoço e então fiquei apavorada por mim também. Nada de movimentos bruscos...
– Ela precisa ser amarrada, Marina – implorou Clara, contraindo-se com o esforço das palavras.
Assenti em silêncio, pois sabia que ela estava certa. Levantando-me bem devagar, o mais lentamente possível, me virei.
– Calma, garota – sussurrei, estendendo as mãos com as palmas para cima. A égua se encolheu e eu também. Mantenha a calma, Marina...
Cheguei mais perto. Os olhos de Fera giraram loucamente, mas ela não fugiu. Não deu  coices. Parecia entender que alguma coisa tinha dado errado. Estendi as mãos trêmulas para as rédeas soltas que pendiam do freio. – Calma, garota.
Mantive os olhos fixos nos dela e localizei as rédeas com as pontas dos dedos. A respiração da égua continuava pesada e rápida, mas ela ainda estava parada. Clara gemeu. Eu precisava agir depressa. Movendo-me com mais segurança, porém com os dedos trêmulos, enrolei as rédeas numa estaca presa ao chão. Graças a Deus. Ela estava sob controle.
Corri de volta para Clara, que apertava as costelas por cima da camisa ensanguentada. Fiquei de joelhos e segurei sua mão livre.
– Está tudo bem – prometi. Mas não conseguia desviar os olhos de sua perna. Havia uma fratura na metade da canela e a bota de couro estava dobrada. – Chama alguém para ajudar – gritei para Fernanda, que parecia paralisada.
– Foi um acidente – ela choramingava sem parar.
– Vai chamar alguém! – gritei com ela de novo. – Agora!
– Não! – rosnou Clara, mais alto do que eu imaginaria ser possível, dada a posição retorcida de seu corpo. Mas algo em seu tom interrompeu Fernanda e ela se virou. – Chame os pais de Marina. Mais ninguém.
Fernanda hesitou, em pânico, perplexa, incerta. Olhou para mim.
– Chama os médicos de plantão – implorei a Fernanda. O que Clara estava fazendo? Ela precisava de uma ambulância.
– Só os pais de Marina – disse Clara, cuja voz se sobrepôs à minha em seu tom mais autoritário. E me segurou pela mão para que eu não pudesse ir. – Eu... eu... – Fernanda começou a dizer alguma coisa. – Vá! – ordenou Clara.
Fernanda saiu correndo. Rezei para que ela trouxesse os médicos.
– Droga, isso dói – gemeu Clara, o rosto se retorcendo enquanto uma onda de dor a atravessava. Ela apertou minha mão. – Fique aqui, está bem?
– Não vou a lugar algum – respondi, num esforço para que a voz não falhasse. Estava aterrorizada e lutava para não deixar que Clara visse meu medo. Um fio de sangue escorria de sua boca e eu contive a ânsia de gritar. Isso devia ser mau sinal. Poderia indicar uma hemorragia interna. Limpei o líquido vermelho com os dedos trêmulos e uma lágrima caiu no rosto dela. Eu nem tinha percebido que estava chorando.
– Por favor, não faça isso – ofegou Clara, me encarando. – Não desmorone por minha causa. Lembre-se: você é da realeza. Apertei sua mão com mais força.
– Não estou chorando. Aguenta firme aí. Ela se remexeu um pouco, encolhendo-se. – Sabe... isso não pode matar um..
Meu Deus, ela ainda ia falar naquela palhaçada de vampiro? Nunca acreditei nem por um segundo que ela não poderia morrer. – Fica parada.
– Essa perna... Porcaria.
Seu peito arfava e ela tossiu. Mais sangue. Um monte de sangue. Sangue de mais. Saía de seus pulmões. Provavelmente haviam sido perfurados. As aulas de primeiros socorros na escola tinham sido em número suficiente para que eu soubesse um pouco sobre acidentes. Limpei seus lábios com a manga da minha blusa, mas isso só espalhou mais sangue em nós. – Os médicos já estão vindo – prometi. Mas será que chegarão tarde demais?
Por instinto, alisei o cabelo de Clara com minha mão livre. Seu rosto relaxou só um pouquinho e a respiração se acalmou de leve. Mantive a mão ali, pousada em sua testa. – Mari?
Ela procurou meu rosto com os olhos. – Não fale.
– Eu... eu acho que você merece... um prêmio.
Mesmo contra a vontade eu ri, um riso áspero, tenso, e me abaixei para beijar sua testa. Aquilo simplesmente aconteceu. Pareceu a coisa certa a fazer. – Você também.
Seus olhos se fecharam. Senti que sua consciência estava se esvaindo. – E... Mari?
– Fica quieta.
– Não deixe que façam nada... com minha égua – conseguiu dizer com a respiração difícil. – Ela não quis fazer mal. Foi só o chicote, você sabe...
– Vou tentar, Clara – prometi. Mas sabia que não adiantaria. Os dias de Fera estavam contados.
– Obrigado, Marianne... – Sua voz era quase inaudível.
Vindo da lateral da estrebaria, ouvi o som de pneus de carro na grama. Soltei o ar com alívio. Fernanda havia chamado a ambulância.
Mas me enganei. Quando o veículo virou a esquina, identifiquei o velho fusca com Ricardo Meirelles ao volante. Meus pais saltaram, o medo estampado no rosto, e me tiraram do caminho.
– Levem-me para sua casa – implorou Clara, voltando um pouco a si. – Vocês sabem... Mamãe girou para me encarar.
– Abra a traseira do carro – ordenou.
– Mamãe, ela precisa de uma ambulância. – Faça o que eu digo, Marina.
Comecei a chorar de novo porque não entendia o que estava acontecendo e não queria contribuir para a morte de Clara. Mas obedeci.
Meus pais colocaram Clara no carro  com o máximo de delicadeza possível, mas ela 
continuou a gemer, mesmo inconsciente. A dor era tão grande que devia ter passado pelo seu cérebro entorpecido. Comecei a ir atrás dela, mas papai me impediu com a mão firme no ombro. Em vez disso mamãe entrou, agachando-se ao lado de Clara.
– Fique aqui e explique o que aconteceu – disse papai. – Diga a eles que levamos Clara para o hospital.
Vi a mentira no rosto de papai e meus olhos se arregalaram. – Vocês vão levá-lo para lá?
– Só diga a todo mundo que ela está bem – retrucou papai, sem responder à minha pergunta. – Depois, cuide da égua.
O que eles me pediam era de mais para mim. E se não levassem Clara para o hospital e ela morresse? Seriam responsáveis! Talvez acusados de negligência ou alguma modalidade de homicídio. Fernanda tinha visto que Clara não estava bem. Sabia que ela precisava de cuidados médicos. E o Clube da Juventude verificaria se ela fora hospitalizada. Afinal de contas, o haras poderia ser processado. Que diabo meus pais estavam fazendo? Eles podiam ir para a cadeia. E por quê? Não fazia sentido manter Clara fora de um hospital.
Mas não havia tempo para protestar nem para pedir orientação. Clara precisava ir para algum lugar quente, pelo menos. Algum lugar onde as pessoas soubessem cuidar de ossos quebrados e pulmões sangrando. Desde que não fosse a nossa cozinha, onde papai poderia tentar alguma cura com ervas...
Meu peito arfou de novo. Eu estava apavorada. Se meus pais fossem tentar algum tipo de “cura natural” em Clara seriam mais sem-noção do que eu pensava. Tudo isso passou pela minha cabeça enquanto eu seguia a pé atrás do velho fusca, olhando desamparada o veículo sacolejar pela área gramada e pelo estacionamento de cascalho, o mais rápido que papai conseguia dirigir sem, aparentemente, levantar suspeitas ou sacudir muito Clara.
Eu ainda estava ali, parada, olhando uma nuvem de poeira que se afastava, quando Fernanda reapareceu ao meu lado, mais recomposta. Seus olhos estavam vermelhos, mas os ombros haviam voltado a ficar alinhados. Mesmo assim sua voz ficou um pouquinho embargada quando perguntou:
– Você acha que ela... vai ficar...?
– Ela vai ficar bem – prometi, mentindo com mais facilidade do que achava possível. Precisava soar convincente. A sobrevivência da minha família, não somente a de Clara, estava em jogo. – Acho que os ferimentos não foram tão ruins como pareceram de início. – Não?
Fernanda me lançou um olhar cético. Mas também era um olhar de esperança. Percebi que ela preferia acreditar na mentira. Afinal, não queria ser responsável pelos ferimentos de Clara, muito menos por sua morte.
– Ela se sentou um pouco – contei, obrigando-me a encarar os olhos azuis de Fernanda. – E fez uma piada.
A tensão no rosto de Fernanda se aliviou e eu soube que ela havia se obrigado a acreditar no  que eu disse. Estava desesperada demais por ser absolvida.
– Deve ter parecido tão ruim porque aconteceu rápido demais. – É, provavelmente – concordei. – Foi apavorante mesmo.
O olhar de Fernanda  se desviou na direção do estacionamento, como se ainda esperasse ver o carro se afastar. Então notei que ela continuava com o chicote nas mãos, batendo-o distraída na bota. Eu teria jogado aquela coisa no lixo. Como é que ela não havia enxergado a placa no estábulo?
A resposta era tão óbvia que chegava a ser ridícula. Fernanda  Cerqueira  não via nada além de sua pequena esfera de interesse. Simples assim.
– Mesmo não estando tão ruim quanto a gente pensava, por que ela não quis que eu chamasse os médicos? – perguntou ela, pensativa.
Eu também não tinha certeza, mas fiquei com a sensação de que teria a ver com as ilusões de Clara sobre ser uma vampira. Mas essa definitivamente não era uma resposta adequada para Fernanda, por isso sugeri:
– Acho que ela é orgulhosa demais. Corajosa demais para ser carregada ao som de sirenes e com pessoas olhando.
Na verdade, conhecendo Clara, isso também poderia ser verdade.
Fernanda  sorriu um pouco, ainda olhando a distância. O chicote batia a um ritmo constante em sua bota. Estava calma agora, quase relaxada.
– É – disse ela, mais para si mesma do que para mim. – Clara Vlascaponni  parece não ter medo de nada. E ela sabe mesmo o que quer, não é?
Você não faz ideia, senti vontade de dizer. Nesse instante, porém, um bando de juízes da competição marchava em direção a nós duas. Eu me virei para encará-los, pronta para contar mais mentiras.

***

Estava escuro quando cheguei em casa, montando Bela. Havíamos
seguido um caminho alternativo, atravessando milharais vazios e evitando as estradas ao máximo, quase como se eu estivesse com medo de ser seguida. Não quis pegar carona para casa com nenhuma das pessoas que tinham oferecido, como Fernanda  ou os líderes do Clube da Juventude. Principalmente eles, cujas perguntas eu já havia respondido pelo menos 50 vezes. Eles pegariam no meu pé e perguntariam por que nenhum dos hospitais da região parecia saber nada sobre uma garota ferida por um cavalo. E depois iam querer falar com meus pais e então entrariam na nossa casa e descobririam Clara Vlascaponni quase morta – ou morta de fato – no nosso sofá, com meu pai tentando ressuscitá-la usando ervas medicinais e chás. Esporeei Bela um pouco mais ao pensar nisso.
Será que Clara podia mesmo estar morta? Como eu me sentiria nesse caso? Será que lamentaria? Sofreria? A culpa me mordia. Será que eu me sentiria aliviada de algum modo?
E eu estava mais preocupada com Clara ou com o papel dos meus pais nesse desastre? Todas essas perguntas se reviravam na minha mente enquanto eu ia para casa, presa num passo de égua quando precisava de um jato. Nossa cavalgada parecia ridiculamente vagarosa. Einstein havia explicado essa sensação, não é? Relatividade. Nossa percepção do tempo depende da velocidade com que queremos que ele passe. Tempo. Relatividade. Ciência.
Tentei me concentrar nesses conceitos em vez de me voltar para preocupações inúteis, mas a imagem do sangue na blusa de Clara teimava em reaparecer. O sangue que jorrava de sua boca. O sangue vermelho, vermelho.
Quando cheguei ao final de nossa estradinha, Bela estava num galope imprudente e larguei as rédeas, deslizando da sela ao ver o fusca dos meus pais parado na frente da casa. Havia outro carro, um sedã desconhecido mas igualmente decrépito. A casa estava toda às escuras, com exceção de algumas luzes fracas lá dentro.
Abandonei a pobre Bela, apesar de saber que deveria colocá-la em sua baia, subi correndo os degraus e entrei.
– Mamãe! – berrei a plenos pulmões, batendo a porta atrás de mim.
Minha mãe surgiu vindo da sala de jantar, pedindo silêncio com um dedo nos lábios. – Marina, por favor. Fale baixo.
– O que aconteceu? Como ela está?
Fui em direção à sala de jantar, mas mamãe segurou meu braço. – Não, Marina. Agora, não.

Examinei o rosto dela. – Mamãe?
– É grave, mas temos motivo para acreditar que ela vai se recuperar. Está recebendo bons cuidados. Os melhores que podemos dar, com segurança – acrescentou, enigmática.
– Como assim, “com segurança”? – indaguei. Cuidados com segurança eram dados nos hospitais. – E de quem é aquele carro lá fora? – Nós chamamos o Dr. Zkulguer... – Não, mamãe!
Não o Dr. Zkulguer. O charlatão húngaro maluco que havia perdido a licença médica por usar controversos “remédios” tradicionais de seu país, no Brasil, onde as pessoas tinham o bom senso de acreditar na medicina de verdade. Eu deveria ter reconhecido o carro. Muito depois de o restante do condado ter boicotado o velho Zkulguer, ele e meus pais continuaram amigos, juntando-se ao redor da mesa da cozinha e conversando até altas horas da noite sobre os idiotas que não confiavam em “terapias alternativas”. – Ele vai matar  Clara!
– O Dr. Zkulguer entende Clara e o povo dela – disse mamãe, segurando-me pelos ombros. – Ele é de confiança.
– De confiança em relação a quê? – À discrição.
– Por quê? Por que temos que ser discretos? Você viu o sangue saindo da boca da Clara? A perna esmagada?
– Clara é especial – afirmou mamãe, sacudindo meus ombros um pouco, como se eu devesse ter percebido esse fato um milhão de anos antes. – Aceite isso, Marina. Ela não estaria segura num hospital.
– E está segura aqui? Na nossa sala de jantar?
Mamãe soltou meus ombros e esfregou os olhos. Percebi que ela devia estar cansada. – É, Marina. Mais segura.
– Mas ela está com hemorragia. Até eu sei disso. Provavelmente precisa de sangue. Mamãe me olhou de um jeito estranho, como se eu tivesse compreendido uma verdade importante.
– É, Mari. Ela precisa de sangue.
– Então leva Clara para o hospital, por favor. Mamãe me encarou por um longo momento.
– Marina, há coisas sobre Clara que a maioria dos médicos não entenderia. Podemos conversar sobre isso mais tarde, mas agora preciso voltar para cuidar dela. Por favor, suba e tente ser paciente. Falarei com você assim que tiver novidades sobre o estado dela.
Dando as costas para mim, mamãe abriu a porta da sala de jantar e escutei vozes fracas vindas de dentro do cômodo escuro. A voz do meu pai. Do Dr. Zkulguer. Mamãe entrou para se juntar à conspiração secreta e fechou a porta.

Furiosa, apavorada e frustrada, subi correndo e esqueci a pobre Bela. Sinto vergonha de admitir que ela passou a noite toda no frio de novembro, andando em volta do estábulo, com a sela ainda no lombo. Eu estava atordoada demais para pensar no animal que havia me ajudado a conquistar um pouco de glória havia apenas algumas horas. Em vez disso, subi na cama e olhei pela janela, tentando descobrir o que fazer.
Enquanto pensava se deveria chamar um médico, vi meu pai sair de casa e atravessar o quintal rapidamente em direção à garagem. A luz se acendeu no quarto de Clara, mas só por alguns instantes. Ela se apagou de novo e, segundos mais tarde, papai voltou, caminhando depressa pelo gramado. Pude ver, à luz do luar, que ele carregava alguma coisa. Algo mais ou menos do tamanho de uma caixa de sapatos mas com cantos arredondados. Um embrulho.
Esperei até que os passos de papai atravessassem a casa e que a porta da sala de jantar se fechasse. Então desci, evitando todas as partes barulhentas do piso que poderiam me entregar. Fui na ponta dos pés até a porta da sala de jantar e virei a maçaneta, abrindo só uma fresta. O bastante para poder ver lá dentro.
O fogo na lareira estava quase apagado e a iluminação era mínima, mas eu conseguia enxergar a cena.
Clara estava deitada na nossa grande mesa de jantar de madeira, a que usávamos para ocasiões especiais. Estava com o peito nu, sem as roupas sujas de sangue, e a parte de baixo do corpo fora coberta com um lençol branco. Seu rosto estava sereno. Os olhos, fechados. A boca, tranquila.
Parecia um cadáver. Eu nunca tinha ido a um funeral, mas achei que ninguém poderia parecer mais morto do que Clara naquele momento. Ela está morta?
Olhei para o peito dela, desejando que se mexesse, mas, se os pulmões funcionavam, estavam fracos demais para que eu pudesse distinguir seu movimento na sala mal iluminada. Por favor, Clara. Respire.
Quando o peito de Clara não deu sinal de vida, algo se abriu dentro de mim e todo o meu corpo pareceu uma enorme caverna com um vento gelado atravessando os espaços vazios. Não, ela não pode ter morrido. Não posso deixá-la ir. Lutei para me manter calma. Se Clara tivesse morrido, não estariam cuidando dela. Parariam de tratar do seu corpo. Cobririam seu rosto.
Minha mãe andava de um lado para o outro perto da lareira, com uma das mãos na boca, olhando para meu pai e o Dr. Zkulguer, que conversavam em voz baixa junto do pacote que papai havia apanhado na garagem.
Alguma decisão devia ter sido tomada, porque o Dr. Zkulguer pegou uma faca – um bisturi? – numa bolsa preta. Ele vai operar a Clara? Na nossa mesa?
Quase me virei, horrorizada demais para olhar. Mas, não, o charlatão húngaro não cortou Clara. Apenas rompeu o barbante que amarrava o pacote e rasgou o papel. Levantou o conteúdo, aninhando-o como se estivesse fazendo o parto de um bebê – um bebê mole, escorregadio, que quase escapou de suas mãos. Que troço era aquele?
Inclinei a cabeça um pouco mais para a frente, encostando o rosto na fresta e lutando para controlar a respiração e não ser descoberta. Mas ninguém prestava atenção na porta. Mamãe, papai e o Dr. Zkulguer estavam olhando aquela... coisa nas mãos do húngaro. Parecia algum tipo de bolsa, feita de um material que eu não conseguia identificar. Mas era algo maleável, porque dançava nas mãos do Dr. Zkulguer, como gelatina num saco plástico.
– Deveríamos ter imaginado que ela guardaria isso – sussurrou o Dr. Zkulguer, assentindo, a barba branca balançando.
– É – concordou mamãe, agora avançando na direção de Clara. – Deveríamos ter imaginado.
Papai assentiu e os dois enfiaram os braços sob os ombros de Clara , levantando-a com delicadeza, até deixá-la quase sentada. Clara  emitiu um som, algo entre um gemido de dor e
o rugido de uma fera furiosa e ferida. Meus dedos úmidos escorregaram na maçaneta ao ouvir aquilo. Não era totalmente humano nem totalmente animal. Mas era arrepiante e reverberava pelas paredes.
Enxuguei as mãos na calça de montaria, forçando a vista para entender a cena diante de mim.
O Dr. Zkulguer se inclinou para a paciente e estendeu a bolsa como uma oferenda diante do rosto de Clara. A luz da lareira se refletiu nos óculos do médico e ele sorriu de leve enquanto encorajava, baixinho: – Beba, Clara. Beba.
A paciente não reagiu. A cabeça de Clara tombou de lado e papai mudou de posição para segurá-la, firmando-a.
O Dr. Zkulguer hesitou, depois pegou o bisturi de novo, usando-o para furar a bolsa, bem embaixo do nariz de Clara. Os olhos que eu temia terem se apagado para sempre se abriram com um tremor. Soltei um grito.
Sempre escuros, agora os olhos de Lucius estavam totalmente pretos. As pupilas pareciam ter consumido as íris e a maior parte da área branca também. Eu nunca tinha visto olhos como aqueles. Era impossível me desvencilhar deles. Ela abriu a boca e seus dentes tinham mudado de novo. Meus pais deviam ter escutado meu grito, mas era tarde demais. Eles também estavam hipnotizados enquanto Clara inclinava a cabeça, cravando as presas na bolsa e bebendo com a expressão exausta, ainda que sedento. Um pouco de líquido escorreu pelo queixo e pelo peito. Líquido escuro. Líquido grosso. Eu tinha visto um líquido assim antes, havia poucas horas, manchando aquele mesmo peito. NÃO.
Fechei os olhos, incrédula. Balançando a cabeça, tentei pensar direito, expulsar a imagem do que achava ter visto.
Havia um cheiro, também. Um odor pungente que eu nunca tinha sentido. Bem, eu tinha sentido de leve antes, mas agora... agora era forte demais. E estava ficando mais forte ainda. Abri os olhos e me obriguei a olhar de novo. Eu não percebia aquele aroma com o nariz. Eu
o sentia, em algum lugar fundo, na boca do estômago ou nos recônditos daquela parte primitiva do cérebro que estudamos na aula de biologia. A área que controla o sexo, a agressividade e... o prazer?
Clara se empertigou mais um pouco, sustentando-se num dos cotovelos, ainda bebendo com volúpia, como se não conseguisse se fartar. Mas logo não restava mais nada. O saco estava vazio. Clara então tombou de volta com um gemido que, de algum modo, conseguiu revelar uma agonia crua e pura satisfação. Papai segurou seus ombros nus bem a tempo. – Descanse, Clara – insistiu papai.
Mamãe limpou com um pano o peito dela, onde o sangue tinha se derramado. Sangue. Ela estava bebendo sangue.
Fechei os olhos de novo, dessa vez com mais força. Então aconteceu uma coisa estranha, porque eu estava agachada num chão sólido, de madeira, que teoricamente não podia se mexer, mas que começou a balançar e girar sob meus pés. Toda a casa oscilava ao meu redor e, mesmo quando abri os olhos, tentando me orientar, senti que eles giravam por vontade própria na direção do teto, que foi desbotando como uma tela de cinema quando o filme acaba.
Acordei mais tarde, naquela mesma noite, na minha cama, vestida com o pijama de flanela, confusa e desorientada, como se de repente me encontrasse num país estrangeiro e não no meu quarto. Ainda estava escuro. Tentei ficar o mais imóvel possível, olhos abertos, para o caso de o quarto começar a dançar e o teto começar a desbotar de novo.
Mas a casa não se mexeu, mesmo quando repassei, em detalhes nítidos, tudo o que tinha visto. Tudo o que tinha sentido.
Eu tinha visto Clara beber sangue. Tinha mesmo? Foi uma coisa turva, confusa. E aquele cheiro... Talvez o Dr. Zkulguer tivesse dado a Clara algum tipo de bebida alcoólica romena, alguma poção ou sei lá o quê. Talvez eu houvesse entendido mal, em meio ao pânico e ao medo.
Mas o que eu não podia explicar era como havia me sentido quando acreditei que Clara estivesse morta.
Sofrimento. O maior sofrimento que eu poderia imaginar. Como se um buraco tivesse sido aberto na minha alma.
Essa foi a parte que me assustou de verdade. Fiquei tão alucinada que desci de novo no meio da noite, me esgueirando até a sala de jantar. O fogo da lareira fora atiçado e Clara estava deitada de costas na mesa, mas agora havia um travesseiro sob sua cabeça. Puseram um cobertor mais quente sobre o lençol, que cobria seu corpo dos ombros aos pés. Meu pai ainda estava lá, cochilando na cadeira de balanço e roncando baixinho, mas mamãe tinha sumido, e o Dr. Zkulguer  também, além de sua maleta e da bolsa com a qual eu havia provavelmente sonhado.

Fui de mansinho até perto do rosto de Clara. Não havia vestígios de nada vermelho em seus lábios, nem mancha no queixo, nenhuma sugestão de mudança em sua boca. Só um rosto pálido, ferido, agora familiar. Enquanto eu a observava, ela deve ter sentido uma presença, ou talvez sonhasse, porque se mexeu um pouco e a mão tombou da mesa. A posição parecia desconfortável, por isso, depois de esperar um pouco para ver se ela se moveria mais uma vez, segurei seu pulso com cuidado e o coloquei de volta na mesa. Apesar do cobertor e do fogo que estalava ali perto, sua pele estava fria demais ao toque – na verdade, gelada. Ela estava sempre muito fria. Meus dedos escorregaram para baixo, envolvendo os de Clara por um momento, para oferecer algum conforto ou calor. Ela estava viva.
Então comecei a chorar, o mais baixo que pude, num grande esforço para não acordar papai. Deixei que as lágrimas escorressem pelo rosto e pingassem nas nossas mãos entrelaçadas. Clara me deixava maluca. Ela era maluca. Mas não importava. Eu não queria ter que enfrentar de novo aquela perda. Nunca mais.
Soltei um soluço, incapaz de me conter. Ao ouvir o som, papai gemeu, a fungada forte de alguém tentando dormir numa cadeira dura, e temi que ele acordasse. Por isso, soltei a mão de Clara, enxuguei o rosto na manga e voltei para o quarto. De qualquer modo, já estava quase amanhecendo.

***

CARO TIO FREDERIC,
É com profundo pesar – e grande temor ao pensar em sua reação – que escrevo informando que sofri um pequeno acidente com uma égua que comprei pela internet.
Ah, o senhor teria apreciado Fera. Uma criatura terrível, espantosa, feroz. Negra da testa aos cascos e, desnecessário dizer, até o âmago do ser. Eu não poderia desejar menos que isso.
Voltemos à narrativa, porém. Minha égua deliciosamente maligna me deu uma surra admirável – pela qual a absolvo. O resultado foi uma perna quebrada, algumas costelas partidas e um enorme buraco em um dos pulmões. Nada a que eu não tenha sobrevivido antes nas mãos da família. Entretanto, temo precisar ficar de cama durante pelo menos uma semana.
Não escrevo com esperança de obter sua simpatia. (Ah, essa seria uma ideia esplêndida. O senhor, Frederic, choroso pelo bem-estar de alguém. Eu poderia gargalhar, se isso não me fizesse tossir mais sangue.) Não, levo a pena ao papel mais no interesse de dar aos Meirelles o que lhes é devido, já que nunca fui econômico com eles em termos de críticas. (Lembra-se da minha missiva depois daquele primeiro prato de lentilhas? Encolho-me só de pensar.)
Nessa crise, no entanto, para seu crédito, Ricardo e Elizabeth estiveram à altura da ocasião, compreendendo de imediato que levar um morto-vivo ao hospital seria uma atitude infeliz. (Quantos de nossos irmãos modernos foram inconvenientemente guardados em necrotérios durante dias – e até mesmo em mausoléus durante anos – por conta da falta do que os humanos chamam de “sinais vitais”?)
Ora, como sempre, eu divago. De volta ao ponto: talvez tenhamos sido injustos com os Meirelles. Eles demonstraram grande presença de espírito e, mais importante, se arriscaram por minha causa. Quase sinto vontade de repor seus horrendos bonecos como gesto de gratidão. Será que o senhor poderia mandar que algumas mulheres daí fizessem algum boneco grosseiro com, digamos, um carretel de madeira e alguns pedaços de lã? Nada bonito. Os padrões estéticos para essa coleção específica não eram elevados, acredite. “Feio” e “malfeito” pareciam ser os critérios fundamentais.
Quanto a Marianne... Frederic, o que posso dizer? Ela reagiu ao meu acidente com o valor, a vontade e a coragem de uma verdadeira princesa vampira. E, todavia, uma princesa possuidora de um coração gentil. Devemos nos perguntar o que isso significaria para ela em nosso mundo.
Frederic, poucas vezes eu afirmaria ter mais experiência do que o senhor em relação a  rosto, na sua mão.
Pode ser que o império dos vampiros sobreviva a Marianne. Mas Marianne sobreviveria ao império? Ela se mostra promissora, Frederic, mas necessitaria de anos para atingir a maturidade. Nesse meio-tempo, seria aniquilada.
Talvez a medicação esteja me afetando. Para ser sincero, Frederic, os Meirelles têm um curandeiro húngaro maravilhoso, muito indulgente com relação às prescrições, se é que o senhor me entende. É, talvez seja a infinidade de poções que percorrem minhas veias e saturam meu cérebro, mas reflito sobre essas coisas aqui, deitada – perdendo, devo acrescentar, o primeiro jogo de basquete da temporada.
Voltemos a Marianne. Nós, vampiros, não temos alma. Mas não traímos os nossos, não é? Não destruímos arbitrariamente, correto? E temo que virar vampira acabaria por destruir Marianne.
Será que não deveríamos considerar a hipótese de liberá-la para ser uma adolescente humana e normal? E deixar os problemas do nosso mundo no lugar deles: em nosso mundo e não nos ombros de uma garota brasileira inocente que só anseia por montar sua égua, rir com a melhor amiga e trocar beijos “legais” com um camponês simplório?
Estou ansiosa por suas ideias, ao mesmo tempo que prevejo sua reação negativa. No entanto, o senhor me criou não somente para ser implacável, mas também digna, Frederic, e sinto o dever de trazer essas questões à luz. Sua  sobrinha, em recuperação, Clara
P.S.: Sobre o boneco: peça olhos de botão, se possível. Isso parecia ser um traço comum.



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