História Como se livrar de uma vampira apaixonada - Capítulo 6


Escrita por:

Postado
Categorias Em Família
Tags Clara, Em Família, Marina
Visualizações 83
Palavras 4.758
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Comédia, Ficção, Ficção Adolescente, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 6 - Capitulo 6


– Mamãe, quero que me conte o que aconteceu naquela noite.
Minha mãe estava no escritório de casa, óculos na ponta do nariz, examinando à luz pálida da luminária de mesa as últimas publicações acadêmicas que havia recebido. Ao som da minha voz, ergueu os olhos.
– Eu já esperava que viesse falar comigo sobre isso, mari.
Ela indicou a espreguiçadeira de segunda mão e cheia de calombos, que servia como poltrona de visita. Eu me afundei nela, puxando o cobertor de lã peruano por cima das pernas.
Mamãe girou sua cadeira na minha direção e empurrou os óculos para o alto da cabeça, me dando total atenção.
– Por onde deveríamos começar? Com o que aconteceu entre você e Clara no terraço? Fiquei vermelha e desviei o olhar.
– Não. Não quero falar sobre isso. Quero falar sobre o que aconteceu há duas noites. Quando trouxeram Clara para cá. Por que não foram para um hospital? – Eu lhe disse, Marina. Clara é especial. É diferente. – Diferente como?
– Clara é uma vampira, Marina. Um médico que estudou numa faculdade brasileira não saberia como tratá-la.
– Ela é só uma garota, mamãe – insisti.
– É mesmo? É nisso que você ainda acredita? Mesmo depois do que viu, agachada perto da porta?
Olhando para minhas mãos, torci em volta do dedo um fio solto e o arranquei do cobertor. – É confuso demais, mamãe. – Marina? – Hein?
– Você tocou Clara. – Mamãe, por favor... Não íamos falar disso de novo, íamos? Mamãe me encarou.
– Seu pai e eu não somos cegos. Seu pai pegou o finzinho de seu... momento com Clara na noite do Halloween.
Fiquei feliz com o fato de que a luminária mal lançava luz sobre a mesa, porque minhas bochechas estavam pegando fogo.
– Foi só um beijo. Na verdade nem foi isso.

– E quando tocou Clara você não notou nada incomum?
A frieza. Eu soube na hora o que ela queria dizer, mas, por algum motivo, fui evasiva. – Não sei. Talvez.
Mamãe percebeu que eu não estava sendo completamente honesta. Ela não tinha paciência com pessoas que ficavam com preguiça de pensar quando encaravam um conceito difícil. Pôs os óculos de novo no nariz.
– Quero que pense no que viu na sala de jantar. No que sentiu. No que você acredita.
– Eu quero acreditar no que é real – choraminguei. – Quero entender a verdade. Você se lembra do Iluminismo? A ordem geométrica substituindo a superstição? De Isaac Newton, que desvendou o “mistério” da gravidade? E que disse um dia: “Minha maior amiga é a verdade.” Como uma vampira pode ser real?
Mamãe me encarou por um longo momento. Pude ouvir o tique-taque do relógio sobre a mesa enquanto ela organizava seu considerável estoque de conhecimento.
– Isaac Newton – disse mamãe, finalmente – manteve a fé na astrologia durante toda a vida. Você sabia desse aspecto de seu suposto cientista racional? – Não – admiti. – Não sabia.
– E lembra-se de Albert Einstein? – observou mamãe, presunçosa. – Aquele que desvendou o átomo, algo que mal poderíamos conceber há apenas um século? Uma vez Einstein disse: “A coisa mais linda que podemos experimentar é o mistério.” – Ela fez uma pausa. – Se os átomos podem existir, escondidos e ao mesmo tempo em todo lugar, há milênios, por que não uma vampira? Droga. Ela era boa nisso. – Mamãe...
– O que é, Marina?
– Eu vi Clara beber sangue. E vi os dentes dela. De novo. Mamãe segurou minha mão e a apertou.
– Bem-vinda ao mundo do mistério, Marina. – Uma sombra atravessou seu rosto. – Por favor, tenha cuidado. É um território muito, muito traiçoeiro. Totalmente indomado. O mistério pode ser lindo. E perigoso.
Eu sabia o que ela queria dizer. Clara. – Vou ter cuidado, mamãe.
– A família Vlascarponni  tem a reputação de ser implacável – acrescentou, de forma mais direta. – Você sabe que seu pai e eu gostamos muito de Clara e que ela é encantadora, mas também devemos ter em mente que a criação dela foi bem diferente da sua. E não só em termos de posses materiais.
– Eu sei, mamãe. Ela me contou um pouquinho. Além disso, como vivo dizendo a vocês, não estou a fim dela. Mentirosa.
– Bom, saiba que estou sempre aqui, disposta a conversar. Seu pai também.
– Obrigada, mamãe. – Empurrei o cobertor de lado e me levantei para ir embora, beijando
o rosto dela. – Por enquanto, só preciso pensar.
– Claro. – Mamãe voltou para suas publicações. – Eu te amo, Marina – acrescentou por cima do ombro enquanto eu fechava a porta.
Apesar dos avisos, apesar de suas preocupações óbvias comigo, jurei ter percebido uma levíssima sugestão de sorriso em sua voz.

**

CARO TIO FREDERIC,
Continuo aguardando sua resposta às minhas preocupações relativas ao destino quase certo de Marina, caso ela assuma o trono. Não tem nada a me dizer? Como devo entender seu silêncio?
Sinceramente, Frederic, é exaustivo navegar por essa situação com pouca orientação, a milhares de quilômetros de casa. Estou cansada de competir, sem sucesso, com um camponês. Estou exaurida pelos ferimentos físicos. Fico impaciente por... por quê? Algo que nem sei qualificar. Entedio-me de minha própria natureza, meus pensamentos, meu passado e meu futuro, aqui, deitada.
Na ausência de um comentário construtivo, prosseguirei como meu instinto determina em relação a Marianne. Duvido que concordará com meu modo de agir, mas me sinto frustrada, irrequieta e imprudentemente voluntariosa. Luto contra o freio que o senhor pôs na minha boca por tanto tempo. Sua sobrinha, Clara

***

– Bom, até que enfim você saiu da garagem, como queria – provoquei.
– Não acredito que viva desse jeito. – Clara deu um risinho, apoiada em meus travesseiros de cetim cor-de-rosa. No meu quarto. Mamãe tinha insistido para que ela se mudasse para dentro de casa até que sua perna ficasse boa. O gesso estava apoiado no cachorro-quente de pelúcia. – É como viver num casulo fofo, feito de algodão-doce. – Ela fez uma careta. – É rosa demais. – Gosto de rosa. Clara fungou. – O rosa é somente o primo patético e débil do vermelho. – Bom, não é para sempre. Você vai voltar logo para seu calabouço escuro com as armas enferrujadas. – Olhei o quarto em volta. – Viu meu iPod? – Refere-se a isso?
Clara localizou o aparelho entre camadas de lençóis e o ergueu. – É. – Estendi a mão. – Me dá.
– Ah, não posso ficar com ele? É tão chato ficar confinada aqui. E estou gostando de explorar suas preferências musicais. Lá vamos nós.
– Por que não compra um?
– Mas o seu já tem Black Eyed Peas – zombou ela. – Não seja idiota.
– Gosto deles. Estou falando sério. – Um sorriso diabólico atravessou seu rosto cantalorando. – “My humps, my humps, my humps!” Minha bunda, minha bunda, minha bunda! Quem não iria gostar disso?
Arranquei o iPod de sua mão e ela riu. Eu ri também. – Se você não estivesse todo arrebentada...
– Faria o quê? – Ela agarrou meu pulso com uma velocidade espantosa para quem estava com as costelas partidas. – Iria me bater até eu pedir clemência? Só nos seus sonhos.
É. Às vezes. Nos sonhos. Quero dizer, eu não sonhava que batia nela. Mas ultimamente Clara  vinha tendo mais participações especiais no meu sono. Em casamentos. Em cavernas escuras. À luz trêmula de velas. Ela me soltou, ficando séria. – Eu nunca agradeci a você apropriadamente. – Ela se levantou um pouquinho, ajeitando- se, e se contraiu de dor com o movimento. – Por ter cuidado de Fera, por ter ficado comigo. Você foi muito corajosa.

Mudei de posição também, tentando não esbarrar na perna dela. – Sinto muito por ela ter sido sacrificada.
Clara olhou pela janela, com a boca encurvada para baixo.
– Você fez o que pôde. Mas acho que algumas coisas são perigosas demais para viver. – Você tentou domá-la – acrescentei, sem jeito. – Funcionou durante um tempo.
– Não era da natureza dela ser domada. No fim, todos somos fiéis à nossa natureza. À nossa criação.
Ficamos sentadas em silêncio durante algum tempo e me perguntei no que Clara estaria pensando. Na égua ou nela mesma?
– Parabéns pelo segundo lugar – disse ela.
Acompanhei seu olhar até o quadro de cortiça na parede, onde eu havia pendurado a fita vermelha de vice-campeã ao lado de um punhado de outras azuis das competições de matemática que eu vencera. Claro, Fernanda Cerqueira tinha ficado com a fita azul. Meu desempenho havia sido bom, mas não o suficiente. – Você merecia a azul – confessei a Clara, séria. – Que estranho eu ter sido “banida por toda a vida” da competição – observou ela, com ironia. – Eles criaram uma regra nova, ficou sabendo? Só para mim. “É proibido levar animais ferozes para eventos públicos.” Fui a primeira transgressora. Uma pioneira em violar a lei, por assim dizer. – Ela riu, tossiu forte e colocou as mãos sobre as costelas. – Desgraça.
Fiquei mexendo no iPod. – Clara?
– O que foi, Marina? Encarei seus olhos negros. – Eu estava lá. Naquela noite. – Eu sei. – Sabe? – Você chegou perto de mim tarde da noite. Segurou minha mão. Voltei a futucar meu iPod, sem graça.
– Ah... Achei que você estivesse dormindo.
– Não fique mexendo nisso enquanto conversa. – Clara  tomou o aparelho dos meus dedos. – Claro que eu sabia que você estava lá. Tenho sono leve. Principalmente quando cada centímetro do meu corpo está destroçado de dor.
– Desculpa. – Dei um sorriso débil. – Não queria incomodar você.
– Não... pelo contrário. Fiquei comovida. – Seus olhos se suavizaram e todo o jeito imperioso sumiu. – Você chorou por causa da minha dor. Ninguém nunca chorou ao me ver sofrer. Não esquecerei essa gentileza, Marina.
– Foi como eu me senti na hora. Não pude deixar de chorar.
– Não, claro que não. – O reconhecimento pareceu lhe causar dor, de algum modo. –
Quando eu voltar à minha vida na Romênia, ninguém vai chorar ao ver Clara Vlascarponni  machucada. E, quando eu sofrer, como é inevitável, vou me lembrar de seu gesto com carinho e apreço.
– Também não vou me esquecer daquela noite – prometi. Enxuguei as palmas das mãos nas pernas. Tinham ficado suadas. – Clara, eu vi você beber sangue.
– Ah, o sangue. – Ela não pareceu surpreso com minha confissão. – Espero que não tenha ficado muito perturbada. Nem enojada. Eu não julgava que você estivesse preparada para isso. Pode ser bem repulsivo para quem não está acostumado. – Eu meio que desmaiei.
Clara deu um sorriso triste e olhou pela janela.
– Mesmo inconsciente numa mesa, consegui deixar você nauseada. Que belo talento eu tenho.
– Não. Não foi só por ter visto o sangue. Eu... também senti o cheiro.
Clara virou a cabeça lentamente para me olhar, como se não acreditasse no que ouvia. Vi uma pequena fagulha em seus olhos. – Sentiu? – Senti. – E como era esse cheiro? – Forte. Quase arrebatador. – É. É assim mesmo.
– É isso o que você põe no copo de Morango Julius, não é? Clara sorriu, um tanto debochada.
– Eu pareço mesmo uma mulher  que tomaria milk-shake de morango de um quiosque de shopping? Já não expressei o que sinto a respeito de coisas cor-de-rosa?
– É. Acho que eu deveria ter imaginado. – Uma pergunta estivera queimando minha cabeça. Uma pergunta para qual eu não tinha certeza se queria resposta. Mas precisava fazer. – Clara, onde você o consegue? – Visões de filmes antigos, de mulheres aterrorizadas usando camisolas vaporosas, encolhidas diante de agressores com presas, surgiram na minha cabeça. – É... violento?
– Ah, Marina, os vampiros têm meios. Não é uma coisa tão predatória como no passado. Boa parte fica armazenada, como vocês fazem com o vinho. Ninguém precisa pisotear as uvas quando quer tomar champanhe.
Movendo-se com cuidado para proteger as costelas, Clara cruzou os dedos na nuca, afundou no travesseiro e olhou o teto. Sua voz rouca e profunda ficou pensativa.
– Dizem que nossa adega na Romênia é a melhor do mundo. Safras que datam do século
XVIII. Podemos chamar um serviçal estalando os dedos, dar o nome de um veneno, para usar uma das minhas expressões prediletas, e nos deliciar.
Um tanto enojada e mais do que um pouco incomodamente empolgada, deixei que ela continuasse a falar, observando-a cair mais fundo num devaneio.

– E também, é claro, quando dois vampiros se casam, quando se unem por toda a eternidade, eles têm um ao outro. Dizem que é a melhor bebida. A fonte mais pura. – Clara ficou mais introspectiva ainda, mais distante. – Do macho para a fêmea. Da mulher para o homem. Sangue compartilhado. Poderia haver um elo mais forte entre dois seres? Um sorriso passou por seus lábios.
– O sexo é um prazer fugaz. Sem dúvida, um ato íntimo, que não deve ser descartado. É fundamental para a procriação, além de ter outros benefícios óbvios. O sorriso sumiu.
– Mas compartilhar o sangue com outra pessoa... Seja homem ou mulher expor nosso ponto mais vulnerável, onde a pulsação bate logo abaixo da pele, e confiar que seu parceiro ou parceira  irá se satisfazer sem dominá- la... Isso torna o sexo quase insignificante, em comparação. O sexo é um ato desigual, do homem para a mulher. Mas o sangue... o sangue pode ser compartilhado de modo verdadeiramente igual.
Ela parecia ter me esquecido sentada ali do lado. Fiquei escutando, hipnotizada e... mais alguma coisa.
Ou talvez Clara não tivesse esquecido minha presença. Seu olhar se virou de repente para mim.
– Mas você acha que eu estou delirando, que falo sobre impossibilidades, sobre atos irracionais. E está certa: a existência de um vampiro é irracional. Nós somos um estudo sobre impossibilidades.
Safra de sangue. Dentes furando pontos de pulsação. Continuava a parecer maluquice. Mas não era mais impossível. Ou mesmo indesejável, pelo modo como Clara descrevia. Não, nem um pouco.
– Clara, eu vi você beber sangue. Não é impossível.
– Ah, Clara. – Ela descruzou as mãos de trás da cabeça. – Por que agora? Por que nessa altura do campeonato, como diria o técnico Ferrin na quadra de basquete? – Como assim “nessa altura do campeonato”?
Para mim parecia o início do jogo. Eu estava apenas começando a entender. Começando a acreditar. Por mais difícil que fosse aceitar aquilo, eu não podia mais negar. Acreditava que Clara Vlascarponni era uma vampira. E que eu podia, no mínimo, sentir o cheiro do sangue. Reagir a ele. Havia muito mais para entender... para deduzir. – Está dizendo que é tarde? – insisti.
Clara apoiou a cabeça nas mãos, esfregando os olhos, aparentando cansaço.
– Por que fui contar toda essa baboseira romântica? Eu me deixei ser levada. Droga, às vezes sou irresponsável. Eu queria tanto que você entendesse e agora é o momento errado. Desejei partilhar tudo isso com você antes. E então, quando demonstrou interesse, não consegui me calar.
– Não pareceu “baboseira” – garanti. Ao contrário, tudo o que ela dissera era intrigante, ainda que de um modo perturbador, admito. – E por que não agora?
Mas antes que Clara pudesse responder, meu pai bateu à porta entreaberta. – Clara, visita para você.
Clara se empertigou de novo e arqueou as sobrancelhas. – Para mim? Visita?
Também fiquei surpresa. Que eu soubesse, Clara não havia cultivado muitas amizades no Brasil.
Antes que eu pudesse pensar em alguém, papai ficou de lado, a porta se abriu mais e um narizinho petulante, preso a um rosto lindo enfeitado por cabelos tão claros que praticamente reluziam, entrou hesitante no quarto. – Oi, Clara.
Clara olhou em direção à porta. Olhou com muita intensidade, quase como se nunca tivesse visto Fernanda Cerqueira.
Presumi que ela estivesse furiosa com ela por quase tê-la matado. Mas de repente seu rosto se abriu num sorriso. Um sorriso estranho. Como se houvesse acabado de ter uma revelação.
– Bem-vinda, Fernanda – disse ela. – Entre. Essa é mesmo uma surpresa agradável. Desculpe- me se não posso me levantar para cumprimentá-la.
– Não, sou eu quem precisa pedir desculpas – respondeu Fernanda, entrando no meu quarto com um beicinho exagerado. – Acho que está presa aqui por minha culpa. – Ela examinou o quarto. – Tipo, é horrível.
Estreitei os olhos para ela. Está falando dos ferimentos da Clara? Ou da minha decoração?
– Minha égua e eu estávamos em rota de colisão desde o início – tranquilizou-a Clara. – Eu flertei com a inevitabilidade. Você só fez a cerimônia de casamento. Fernanda inclinou a cabeça, como se não soubesse se ela a culpava ou não. – Bem, espero que esteja se sentindo melhor. – Ela remexeu na bolsa e pegou um iPod. – Trouxe um presente de melhoras.
Entregou o aparelho a Clara, que sorriu para ela.
– Obrigada, Fernanda. Foi muita gentileza. – Ela me lançou um olhar. – Acho que não vou mais precisar do seu, Marina.
– Imaginei que fosse ficar entediada, presa na cama – acrescentou Fernanda, que ainda não havia admitido minha existência. – É o modelo mais novo e você pode carregar as músicas que quiser.
– Ela gosta de música croata – observei. Não que alguém tivesse pedido minha participação.
Clara levantou um dedo.
– E do Black Eyed Peas. E não se esqueça do Hoobastank. Será que alguém pode se esquecer do Hoobastank?
– Verdade? – guinchou Fernanda, batendo palmas. – Eu também adoro o Hoobastank.

Clara fez um gesto para a cama. – Por favor, sente-se, Fernanda. Três seria definitivamente de mais no meu colchão estreito de solteiro, ainda mais com uma vampira de mais de 1,75 metro esparramada ali. Por isso me levantei. De qualquer modo, eu não estava muito a fim de passar o meu tempo com uma líder de torcida grosseira e egoísta. – Acho que já vou. – Tchau, Mari. Fernanda me dispensou e ocupou o meu lugar perto de Clara. Deixou-se cair com força na cama e ela se encolheu, quase imperceptivelmente.
– Cuidado com a perna dela – avisei, pensando em como ela era uma bruxa que só pensava em si mesma.
– Marina – chamou Clara quando cheguei perto da porta. – Espere. – O que é? Precisa de alguma coisa? – Não. Tenho algo para você.
Ela tateou debaixo do travesseiro e pegou um livro. Prendi a respiração, reconhecendo o exemplar de Crescendo como morto-vivo – Um guia para o vampiro adolescente sobre namoro, saúde e emoções.
– Você largou isso embaixo da cama. – Clara o estendeu para mim, mantendo a mão estrategicamente posicionada sobre o título. – Estava esquecido no meio da poeira. Depois de toda a consideração que coloquei na dedicatória...
Peguei o livro com ela, apertando-o contra o peito e escondendo-o de Fernanda. – Ah, obrigada.
– Acho que você vai achar o capítulo sete muito útil. Lamento não poder dar mais orientação do que isso. Mas o livro deve responder à maior parte das suas perguntas. – Achei que essa fosse sua especialidade – brinquei, pensando na dedicatória.
– Para ser sincera, sugiro que satisfaça qualquer curiosidade que possa ter e depois jogue
o guia fora. De uma vez por todas. Na verdade é muito barulho por nada. Meus olhos se arregalaram. – O quê?
Desde quando Clara Vlascarponni achava que qualquer coisa relacionada aos vampiros era “muito barulho por nada”? Eu tinha acabado de ouvir a menina  fazer poesia sobre laços de sangue.
Tentei decifrar sua expressão, mas Clara já estava concentrada de novo em Fernanda.
– Estou sendo grosseira ao falar de coisas particulares quando tenho uma visita. Por favor, desculpe-me, Fernanda.
– Sem problema, Clarinha. Tenho muito tempo. – Fernanda sorriu para mim e repetiu: – Tchau. Mas elas nem me notaram. Fernanda já havia chegado mais perto de Clara, demonstrando todas as funções de seu novo iPod. As cabeças estavam inclinadas sobre a telinha e elas riam.

Olhei mais uma vez para minha fita idiota de segundo lugar, desejando não ter pendurado nada no quadro de cortiça. Fernanda estava sentada praticamente embaixo dela. A fita no quarto dela era azul. E maior. Fita de vencedora. Minha fita vermelha era de cor mais forte, mais ousada, brilhando no quarto ensolarado, atraindo o olhar como um pássaro exótico. Mas aquela faixa de seda carmim era na verdade somente a prima patética e débil da azul. – Tchau – falei.
Elas não responderam, já imersas na conversa, por isso saí, levando o livro.
Parei ao pé da escada e abri no capítulo sete. O título era: “Então você sentiu cheiro de sangue? Parabéns!”
Li o parágrafo de abertura, não uma, mas quatro ou cinco vezes: “O aumento da percepção olfativa – às vezes se aproximando do estímulo sexual – quando você está na presença de sangue é sinal de que sua natureza vampírica está florescendo!” Minha natureza vampírica.
Alguns parágrafos adiante o guia orientava: “Logo você sentirá sede de sangue, em especial quando enfrentar emoções fortes.”
Acima de mim, ouvi Clara rir com Fernanda Cerqueira. Elas riam alto e intensamente, como se já compartilhassem histórias muito antigas.

– Vanessa, o que você está fazendo aqui? – perguntei, abrindo caminho pelas
arquibancadas até onde ela estava.
– Eu poderia perguntar a mesma coisa – retrucou ela, sinalizando para que eu me sentasse ao seu lado.
Larguei a mochila e me sentei.
– Santiago me convidou para assistir ao treino de luta – expliquei, acenando para ele. Santiago piscou para mim, os músculos se avolumando quase como num desenho animado, mal contidos pelo macacão justo de lycra. – Por isso repito: o que você está fazendo aqui?
– Ah, não sei. – Vanessa sorriu. – Às vezes eu dou uma passada, só para acompanhar o treino.
O ginásio era dividido para permitir que equipes de vários esportes partilhassem o espaço. Os tatames de luta estavam desenrolados num canto, as líderes de torcida saltavam perto dos lutadores e o time de basquete feminino ocupava metade do piso brilhoso de madeira. O ar estava cheio de grunhidos e gritos das líderes de torcida, de guinchos dos tênis e de cheiro de suor.
Um apito soprou agudo.
– Vlascarponni! Na frente, pelo centro, droga! – A voz retumbante do técnico Ferrin soou acima de todos os outros barulhos. – Você está há uma hora no bebedouro! Arrasta essa bunda de volta para o treino!
Fiquei mais empertigada, olhando quando uma morena alta de cabelos escuros correu vindo do vestiário das garotas e entrou na quadra. – Clarinha está jogando?
– Se está... – Vanessa suspirou, sonhadora.
– Vanessa, é por causa da Clara  que você vem pra cá?
– Não é, tipo, um vício – protestou ela. – Talvez só uma ou duas vezes por semana. Mas, poxa, olha só para ela!
Enquanto assistíamos, Clara agarrou uma bola atirada contra seu peito, deu alguns passos agressivos em direção à cesta, saltou aparentemente sem esforço e enterrou a bola. – Mas ela ainda nem voltou para as aulas.
– É, eu a encontrei no corredor antes do treino. Ela disse que vai voltar às aulas amanhã. – Ela me lançou um olhar curioso. – Achei que você tinha dito que a perna dela estava quebrada.
– Estava machucada... – Ah, inferno. Eu havia desistido de tentar explicar os mistérios de Clara Vlascarponni. – Acho que agora está melhor.

E como. – Vanessa! – Ah, olha ela de short, Marina. Tem umas meninas que a gente quer que fiquem de roupa. Mas Clara podia até tirar mais uma camada. Tipo, você não gostaria de ver o que tem por baixo daquilo?
De fato, o corpo por baixo das roupas devia ser praticamente perfeito – com a exceção de outra cicatriz, alguma outra marca, perto de braço direito. Como ela ganhou aquilo? E será que havia mais em outras partes do corpo? A perna esquerda, que tinha sido quebrada, exibia um grande hematoma preto, o único sinal de que ela ainda estava machucada. Fora essas pequenas imperfeições, não havia nada para criticar. Até as cicatrizes eram sexy. Além disso, Clara era uma cabeça mais alta do que a maioria das outras jogadoras, as pernas bem torneadas eram mais definidas e a sua cintura... Sua barriga era um tanquinho
Lancei um olhar culpado para Santiago, sentindo que o havia traído. Vanessa acompanhou meu olhar.
– Ei, olha lá seu namorado se embolando. – Não sei se ele é meu namorado...
– Qual é, Mari? Vocês estão juntos. Saíram duas vezes na semana passada, almoçam juntos quase todo dia e você está aqui, não está? Vi Santiago girando no tatame, grunhindo.
– Consegue guardar um segredo, Vanessa?
– Poxa, somos amigas desde o jardim de infância. Alguma vez entreguei os seus segredos? – Não. Nunca.
Vanessa era um monte de coisas: desligada, impulsiva, obcecada por sexo. Mas nunca foi desleal.
– E aí? Desembucha!
– Não sei bem se Santiago e eu combinamos tanto assim.
Os olhos de Vanessa, cercados por uma grossa camada de delineador, se arregalaram. – O quê? Achei que gostasse dele de verdade!
– Ele é... legal – respondi, encolhendo-me um pouco ao usar o adjetivo desprezado por Clara. – Mas não sei se existe algo intenso mesmo. Não como eu gostaria.
– Hummm. Bem, Santiago não é nenhum bom não é a Clarinha – concordou Vanessa, com o olhar voltando à quadra de basquete. – Eu disse isso desde o início. – É, eles são muito diferentes.
Se ela soubesse como eram diferentes, talvez não ficasse tão a fim de sua Clarinha. Vanessa  tinha quase desmaiado quando dissecamos minhocas no sexto ano. Não era o tipo de garota que beberia sangue.
– Não que eu fosse trocar Santiago  pela Clara – acrescentei. – Só estou dizendo que não tenho certeza sobre Santiago e eu.

– E eu estou dizendo que você deveria finalmente se ligar e escolher a Clara, antes que ela se canse de dar em cima de você. Admita, Mari. Clara tem carisma – acrescentou ela, assentindo na direção das líderes de torcida. – Veja como Fernanda está olhando para ela. Clarinha chama atenção.
Quando olhei para o outro lado do ginásio, Fernanda Cerqueira  subia rumo ao topo de uma pirâmide de líderes de torcida – andando por cima das pessoas, como sempre –, mas seu rosto estava virado para a quadra de basquete, onde Clara conversava com o treinador. O modo como Clara  ficava parada, as mãos nos quadris, mais morena do que o treinador Ferrin, parecia dizer que a Clarinha astro era quem estava no comando. Olhei de volta para Fernanda. Ela estava em cima de sua pilha humana mas continuava a observar a discussão no meio da quadra.
– Falando nisso – Vanessa  interrompeu meus pensamentos –, você está muito bonita hoje. Essa roupa é nova?
Afastei o olhar de Clara e Fernanda e alisei a saia de tecido amarrotado, acima dos joelhos. – É. Gostou?
– Gostei. Fica bem de roxo. E a gola em V é muito sexy. – Sexy demais?
– Não. Na medida certa. Você devia usar coisas assim com mais frequência. Fica meio... exótica. Tipo uma cigana ou sei lá. – Ela olhou para a minha cabeça. – E fez alguma coisa no cabelo também?
Amassei os cachos com os dedos.
– Usei um umidificador de cachos em vez de tentar alisar o cabelo. Acho que estou cansada de lutar contra a natureza.
– Está ótimo. – Vanessa assentiu, me avaliando. – Brilhoso. E é diferente do que todo mundo faz. Tipo, descolado.
Um grito agudo ressoou e olhei para a frente bem a tempo de ver Fernanda Cerqueira se estatelar no chão, derrubando toda a pirâmide. Seu esquadrão caiu um a um, como dominós berrando embaixo dela.
Praticamente todo mundo no ginásio correu para olhar ou ajudar. E a primeira pessoa a chegar ao local do acidente, estendendo a mão para ajudar Fernanda a ficar de pé, foi ninguém menos do que Clara Vlascarponni.
Uma a uma as outras líderes de torcida se levantaram e se examinaram para ver se ninguém estava machucada. Como todo mundo, Fernanda parecia bem, mas Clara segurou o braço dela e a levou na direção do vestiário, onde os dois pararam, conversando.
– Ora, ora, ora – observou Vanessa. – Se você vai trocar Santiago por Clarinha, é melhor correr, porque parece que pode ter concorrência. Olha só para ela, fazendo a garota bancar o "cavalheiro" diante da donzela em perigo!
Quase ri disso. Para começar, Fernanda namorava André desde sempre. E o mais importante, Clara nunca me trocaria por outra garota, mesmo que a bunda dela ficasse linda 
no saiote de líder de torcida. Ela gostava de mulheres com curvas. E estava prometida a mim.
Porém, enquanto eu as acompanhava de longe, Clara e Fernanda riram alto, como tinham feito no meu quarto. Depois ela lhe deu um empurrãozinho cheio de flerte e Clara sorriu para ela, parecendo menos aflita do que no passado. Com a postura mais relaxada. Mais... livre.
– É – riu Vanessa. – Se você quer a Clarinha, seria bom agir. Fernanda está babando por ela como se a garota fosse uma bolsa Prada que tivesse ido parar numa liquidação do Wal-Mart. A preço de banana e pronta para saltar direto nos braços dela! – Não, isso é maluquice – protestei.
Se bem que, apenas uma semana antes, eu pensava que vampiros fossem maluquice. O que Clara quis dizer quando falou “nessa altura do campeonato”?
Enquanto eu olhava Clara e Fernanda conversarem, rirem juntas, tive uma sensação estranha, como se alfinetes quentes pinicassem meu coração. Ciúme! Outro sentimento também cresceu dentro de mim. Um sentimento de posse. Um sentimento forte, de proprietária, que beirava a raiva. Uma sensação de ser dona. De ter direito sobre Clara. Meus dedos envolveram a lateral do banco, apertando-o com força. E, de repente, pela primeira vez, senti sede. Muita, muita sede.
De uma coisa que eu nunca havia desejado antes. Exatamente como meu guia para vampiros alertara.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...