História Como se livrar de uma vampira apaixonada - Capítulo 7


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Categorias Em Família
Tags Clara, Em Família, Marina
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Palavras 6.335
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Comédia, Ficção, Ficção Adolescente, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 7 - Capitulo 7


– Estou morto – disse Mateus Danneker, bocejando enquanto pegava os livros e
fechava a tela do seu notebook. – Não aguento mais matemática.
– Só mais uns exercícios – insisti e abri um dos meus livros de cálculo mais desafiadores. – A gente poderia fazer esses problemas de palavras...
– De jeito nenhum – respondeu Mateus. – E você também devia ir para casa, Mari. Vai acabar surtando se estudar tanto assim. Ainda faltam semanas para a competição. – Por isso mesmo que a gente precisa treinar.
Mateus  se levantou, pendurando a bolsa do notebook no ombro. – A gente se vê, Mari. Descansa um pouco.
Ele foi andando por entre as mesas e me deixou sozinha no meio da biblioteca da escola. Virei uma página do meu caderno, tentando me concentrar. A verdade era que eu não conseguia focar a mente nos problemas. Talvez fosse porque não parava de pensar em como me sentira no ginásio: com sede de sangue.
Enquanto olhava para o livro, com a mente se afastando de novo para longe de limites, derivadas e integrais, escutei vozes e passos no labirinto de estantes. – A gente devia comprar os trabalhos na internet. Felipe Dormand.
– Nem pensar. Pegaram três caras no ano passado e dois deles perderam a bolsa para a universidade. André Strausser. – E agora? A gente procura uns livros sobre a Liga das Nações? – perguntou Dormand. – Não dou a mínima para isso.
Escutei o som de livros sendo retirados de estantes.
– Por que a Fernanda não faz os trabalhos para a gente? – acrescentou Dormand. – Ela é inteligente.
Minhas orelhas se eriçaram ao ouvir o nome de Fernanda.
– Ultimamente ela está um porre – disse André. – Não sei o que está acontecendo.
– Ela anda direto com a Vlascarponni – disse Felipe, cuspindo o sobrenome de Clara  como se fosse um mosquito que tivesse entrado na boca. – Ela deve estar passando sua doença para ela, a filha da mãe.
Com que frequência Clara tem andado com Fernanda? E o que elas estão fazendo? O sentimento de posse e o ciúme atravessaram meu corpo de novo. Tentei me lembrar: quando fora a última vez que Clara havia falado do pacto? E sobre fazer a corte? Percebi que não não sabia. Como podia não saber?
– Aquela esquisita acha que é a dona da escola só porque consegue fazer umas cestas do meio da quadra – resmungou André.
– Tem alguma coisa errada com aquela garota – observou Dormand. – Ela não é normal. Fiquei imóvel na cadeira, concentrada em escutar a conversa. No fundo, não tinha como Felipe e André saberem nada sobre Clara, mas me incomodava pensar que dois dos maiores imbecis da escola começavam a discutir o fato de que ela era diferente. Eu não sabia direito por que isso me incomodava. Dois valentões idiotas não poderiam ser ameaça para alguém tão segura de si e fisicamente forte como Clara. Mas isso me irritou um pouco.
– Você só está pê da vida porque ela bateu em você na frente de todo mundo e acertou sua cabeça oca no armário – observou André.
– É. Se ela tivesse quase estrangulado você, também estaria pê da vida. – Dormand fez uma pausa. – Cara, tem alguma coisa estranha na maluca. Quando ela me segurou... sei lá... foi surreal.
– Qual é? Você ficou com tesão? – zombou André. – O que quer dizer com surreal?
Eu esperava que um panaca metido a machão como Dormand ficasse furioso com o que André estava sugerindo. Mas, pela primeira vez, Felipe pareceu quase pensativo. – Cala a boca, cara – disse ele. – Você não sentiu aquilo. Ouvi o som de livros sendo enfiados de volta nas estantes. – Vamos dar o fora daqui – disse André. – Vou arranjar alguém para fazer esse trabalho. Enquanto eles se afastavam, ouvi Dormand acrescentar:
– Quanto a Vlascarponni... aquela menina ainda vai ter o que merece. Ela não é normal. E um dia desses vou descobrir o que tem de errado.
A voz de Dormand foi sumindo enquanto eles saíam da biblioteca.
Olhei ao redor e tentei dizer a mim mesma que a vaga inquietação que eu sentia era totalmente injustificável. Mas, por algum motivo, não me convenci. Felipe Dormand era um valentão incansável. Eu vinha sendo objeto da provocação daquele garoto desde que conseguia me lembrar. Sabia como ele era capaz de cismar com um alvo.
E se Felipe começar a investigar a vida de Clara? O passado dela? O que ela é? Será que Dormand pode descobrir alguma coisa? Não.
A ideia era quase idiota. Felipe  Dormand não era capaz nem de encontrar um livro sobre a Liga das Nações numa biblioteca de escola. Nunca descobriria que Clara era uma vampira. Nem em um milhão de anos.
E, mesmo que descobrisse, qual era a pior coisa que poderia acontecer? O estado da goiânia  não era a Romênia. Era um lugar civilizado. As pessoas não formavam turbas para trucidar os vizinhos com estacas, pelo amor de Deus. Isso era ridículo. Clara ficaria bem.
Então por que não me senti melhor quando fechei os livros, desistindo da matemática – fechando a capa da lógica e da razão – pelo resto da noite?

**

CARO FREDERIC,
Dezembro no estado da goiânia, no Brasil, é de “pirar o cabeção”, para usar mais uma expressão que aprendi durante essa longa estadia. Este é um mês muito comemorado aqui no Brasil. Agressivamente, poderíamos dizer. Cada superfície imaginável é coberta por fios de luzes que piscam; os prédios são sufocados por enfeites verdes; e uma mania coletiva de erigir gigantescos “bonecos de neve” infláveis, diante das casas, irrompe no populacho. É uma tremenda histeria – e os pinheiros não são apenas um mito, Frederic. As pessoas compram as árvores, em abundância. Estão à venda por toda parte. Imagine pagar pelo privilégio de arrastar um pedaço imundo da floresta para dentro de sua sala de estar com o objetivo de decorá-lo com bolas de vidro e admirar o resultado.
Por que uma árvore? Se fosse necessário expor bolas de vidro, por que não usar algum tipo de vitrine? Uma cristaleira, por exemplo?
Gastei muita energia defendendo os vampiros contra acusações de “irracionalidade”. Se soubesse algo sobre a onipresença dos pinheiros, teria dito apenas: “É, talvez eu seja irracional. Mas mantenho minhas árvores no lugar delas. Fora de casa. Diga-me agora: quem é o louco aqui?”
Mas chega dos feriados de fim de ano. (Enfie minha cabeça embaixo d’água até eu me afogar e assim estarei livre de escutar “Jingle Bells” pela milésima vez!) Escrevo em primeiro lugar para informar que tenho muito pouco a informar. Parece que me curei e dominei a arte de dormir na aula de “estudos sociais”. (Continue com sua fala monótona, Sra. Francisca. Passei ao largo de sua tentativa abominável de transformar a tediosa Primeira Guerra Mundial num dos conflitos mais dramáticos da Terra: gás mostarda! Trincheiras! A aniquilação de nada menos do que quatro impérios!)
Ah, sim. Talvez o senhor se interesse – ou não – em saber que também fiz uma amiga. Uma garota bastante ferina, Frederic. Tenho quase certeza de que o “bom velhinho” Papai Noel a colocou na lista das crianças “malvadas”. (Uma referência obscura para você, sem dúvida. Confie em mim: Fernanda Cerqueira é uma criatura bem fascinante.)
Eu lhe desejaria um “feliz Natal”, mas tenho certeza de que, se existe algo que o senhor detesta mais que o Natal, é esse tipo de “felicidade”. Sua sobrinha, Clara
P.S.: Fique tranquilo porque, apesar de não ter abordado o assunto no corpo desta carta, recebi sua resposta trovejante, ainda que atrasada, à minha sugestão de liberar Marianne de suas responsabilidades vampíricas. Não deixei de compreender sua ira diante de minha afirmação de que “luto contra o freio”. De fato, o senhor foi bastante claro quando disse que “me faria sentir saudade do freio quando o chicote fosse usado”. As imagens equestres são muito vívidas. Todos os argumentos foram levados cuidadosamente em consideração. Mas será que devo acatar sua ordem de continuar com a perseguição agressiva a Marianne? Da Romênia é difícil dizer, não é? A distância é de “pirar o cabeção”.

***

– Marina, é você? – perguntou Clara. Ouvi a porta do apartamento da garagem
se fechar, seguida pelo som de pés batendo para tirar a água. – Oi. – Espiei da pequena cozinha. – Você chegou cedo.
– E você está... aqui. – Ela jogou o sobretudo na poltrona de couro. – Achei que havíamos retomado nossas residências tradicionais.
– E retomamos. – Voltei para a cozinha, mexendo uma panela fervente. Droga. Eu esperava estar com o jantar mais adiantado quando ela chegasse da escola. – Por que já está em casa?
– O treino de basquete foi adiado por causa do tempo chuvoso. Nos Cárpatos diríamos que isso é o equivalente a uma garoa. Um pequeno inconveniente. Aqui parece motivo de pânico nas ruas. Saques e tumulto pelo último pacote de pão de forma na mercearia. – Clara farejou o ar. – Repito: por que você está aqui? E que cheiro é esse?
– Eu sabia que você estava cansada de pratos vegetarianos, por isso preparei um coelho. Vi alguns no seu freezer quando eu estava dormindo aqui. Ela parou por um segundo. – Você fez o quê?
– Cozinhei um coelho.
– Na verdade isso se chama “lebre” – corrigiu Clara, juntando-se a mim na cozinha. – E, se você não sabe o nome correto, como sabe o que fazer com ela?
– Encontrei este livro de culinária na sua estante. – Mostrei o volume velho e manchado. – Tá vendo?
Clara franziu a testa, lendo.
– Cozinhando ao estilo romeno. Em português! Esqueci que havia trazido isso. – Ela me olhou e deu um sorriso malicioso. – Nosso cozinheiro mandou isso para os seus pais, supondo que ajustariam o cardápio de acordo com o meu gosto. Certamente nunca esperavam que eu fosse parar na casa de veganos que nunca se dignariam a aceitar nem mesmo a paixão de um membro da realeza romena pela carne.
– Bem, hoje temos bastante carne no cardápio – prometi. – Também estou fazendo a sopa de cordeiro azedo. – Peguei o livro com ela, abri e apontei para a página que havia marcado. – Esta receita. Clara examinou.
– Como você conseguiu “levistan em pó” no estado da goiânia?
– Olhei no cozinhadagoiânia.com. Dá para substituir por estragão.
– Esse cheiro deve ser do “cordeiro azedo” – disse Clara, franzindo o nariz. – Isso vai
impregnar o lugar. E se seus pais souberem que você cozinhou carne, estará encrencada. – Ei, estou tentando ser legal. Clara gargalhou.
– É. Deixando-me com uma bela infecção intestinal. Quem não tem experiência não deve mexer com carne de caça. – Ela levantou a tampa da panela com a lebre, que estava fervendo, depois me olhou com uma sobrancelha arqueada. – Você limpou esse bichinho, não limpou?
– Tipo... lavar na pia?
– Remover as tripas e os miúdos. Estou vendo alguma coisa flutuando aqui... – Tinha tripas?
Clara pegou uma colher e mexeu na panela.
– Acho que identifiquei a fonte do cheiro. Eu diria que isso é um baço – anunciou ela, pescando uma coisa de aparência escorregadia. – Um orgãozinho maligno. Não é a parte mais palatável de coisa alguma. Nem gatos famintos comeriam um baço.
– Acho melhor jogar fora a lebre – falei com tristeza. O jantar não estava indo tão bem quanto eu esperava.
– Na verdade, Marina, por mais que eu aprecie o esforço... Alguém bateu à porta.
– Com licença – disse Clara, indo atender. – Ah, claro.
Espiei dentro da panela. Havia outras coisas escorregadias começando a borbulhar enquanto a lebre se desfazia. Eca. Quem iria imaginar? A porta se abriu rangendo. – Clarinha! Oi!
Sentindo algo parecido com um chute na barriga, bati a tampa da panela. Conhecia aquela voz animadinha. Fernanda Cerqueira. O que ela está fazendo aqui? – Teve algum problema com a chuva? – perguntou Clara. Senti cheiro de pizza sobre o fedor do baço.
– Não. Para mim não é grande coisa. – Fernanda sorriu. – Peguei emprestado o 4x4 do meu pai. Se acontecesse um acidente, eu não morreria.
Que altruísta! Fui até a entrada da cozinha e me encostei na porta, de braços cruzados, observando as duas.
– Finalmente alguém do estado  de goiânia que entende como enfrentar um pouquinho de precipitação chuvosa – disse Clara, aprovando. – E será que posso acrescentar que você está linda, como sempre? Se bem que nem é preciso dizer. Argh. Eu ia vomitar e não seria por ter comido entranhas. – Ah, Clarinha. – Fernanda equilibrou a caixa de pizza como uma garçonete, liberando uma das  mãos para apertar o braço dela, em um flerte descarado. – Você sempre diz a coisa certa.
– E você trouxe a coisa certa – disse ela, pegando a pizza. – Esta é uma iguaria local que passei a apreciar.
– Com certeza cheira melhor do que o que está cozinhando aqui. – Fernanda olhou em volta, buscando a fonte do odor, e me notou. – Ah, oi. – Ela franziu o nariz. – Eu estava dizendo que tem alguma coisa fedendo aqui. – Tem mesmo – concordei. Clara  passou por mim, levando a pizza para a cozinha. – Como eu ia dizer, Marina, o jantar seria meio inconveniente esta noite, porque chamei Fernanda para estudar. – Estudar?
Eu me senti mais passada do que o coelho. Mais azeda do que a sopa de cordeiro. – É – disse Fernanda. – Clara me pediu que fosse sua parceira em literatura inglesa. Parceira? Para quê? E se houvesse necessidade de alguma parceria, por que eu não fui convidada? Virei-me para Clara, sabendo que havia traição em meu olhar. Queria que ela visse, mas seus olhos me evitavam.
– Lembra que eu me ofereci para o “relatório oral obrigatório” sobre O morro dos ventos uivantes? – perguntou ela. – Bem, depois de testemunhar intermináveis apresentações emburrecedoras dos meus colegas de turma, pensei que seria interessante condensar o romance numa pequena peça. Para enfatizar as partes dramáticas. – Eu vou ser Catherine – observou Fernanda.
– Acho que com isso você vai ser "Heathcliff" – falei para Clara, mal conseguindo mascarar a infelicidade na voz. – Exatamente.
Desliguei o fogão. Talvez o fedor provocado por mim suma dentro de um ou dois anos. – Então acho que vou nessa. Não quero atrapalhar vocês.
– Pode ficar para a pizza – ofereceu Clara. – Você não deve ter comido. Espero que não tenha provado o coelho. Pode não ter fervido por tempo suficiente para matar os parasitas...
– Você estava fervendo o cabelo? – indagou Fernanda. – É assim que você deixa ele desse jeito, Mari?
Encarei Fernanda por um longo tempo, desejando dar uma resposta à altura. Mas nada me veio à mente. Nada.
– Vou para casa – falei, tentando sair com um pouco de dignidade. Tentando passar por elas sem chorar. Tinha dado tudo errado. Um desastre completo.
Clara deve ter visto minha frustração, a humilhação no meu rosto, porque disse: – Com licença um momento, Fernanda.
– Claro, Clarinha – disse ela, indo para o outro lado do cômodo pequeno. – Vou dar uma olhada nas suas armas aqui. Adoro a decoração diabólica. Clara pegou meu braço, levando-me para a porta. 
Marina – disse baixinho –, sinto muito.
– Pelo quê? – Mal me incomodei em baixar a voz. As lágrimas estavam se juntando nos olhos. Lágrimas de ciúme. Lágrimas de vergonha. Eu era idiota demais. Tinha tentado preparar um coelho para Clara e ela ia receber uma garota. E não era qualquer garota, mas Fernanda Cerqueira.
– Foi gentileza sua tentar... um gesto doce... – Havia piedade nos olhos de Clara enquanto ela empurrava um cacho para trás da minha orelha, como se eu fosse uma criança magoada. – Mas talvez não tenha sido a melhor ideia. Não agora.
– É – concordei, empurrando a mão dela para longe do meu rosto. – Foi um erro.
– Fernanda é minha amiga – explicou ela, com calma. – Sinto que preciso de uma amiga agora. Alguém que me entenda.
Essa doeu. Quem poderia entendê-la melhor do que eu? – Eu entendo você.
– Não. Não do mesmo modo... – Ela olhou para Fernanda, que havia tirado uma espada da parede e testava o gume. – Não posso explicar agora. – Ah, nem precisa.
A voz dela endureceu um pouco, assim como o aperto de sua mão no meu braço.
– Marina, você tem Santiago. Você escolheu Santiago. E tem Vanessa, também. Será que eu devo ficar isolada?
– Não. Claro que não. Tudo bem. – Soltei meu braço de sua mão, abri a porta bruscamente e saí correndo do apartamento, sem me incomodar em pegar o casaco.
Enquanto descia a escada fazendo barulho, as lágrimas começaram a escorrer e ouvi Clara falar no patamar: – Marina, por favor... Segui em frente. Ela não chamou de novo. Antes mesmo de ter chegado lá embaixo, ouvi a porta se fechar com força.

**

Desde a infância, volta e meia eu tinha aquele pesadelo. Ele sempre me
deixava trêmula, demorando-se na mente mesmo depois de eu acordar. Eu o expulsava assim que voltava para o estado de alerta, quase sempre suando frio, embolada nos cobertores. Tentava esquecê-lo pensando em coisas reais. A raiz quadrada de qualquer número positivo real pode ser determinada com a fórmula de Newton... Era assim que eu o enfrentava: agarrando-me à realidade, ao que era concreto.
Mas, naquela noite, em meados de dezembro, o sonho, mais vívido do que nunca, não queria ser extirpado.
– Marianne... Marianne...
Ela estava me chamando. A princípio, como um acalanto, um canto reconfortante. Estava escuro e nevava naquele lugar de montanhas desconhecidas, íngremes e irregulares. Os afloramentos de rocha negra, molhada, que brotavam dos montes de neve eram como dentes. Como presas. A neve caía com mais força, de modo quase ameaçador, como se a tempestade estivesse viva e à procura de sangue. – Marianne!
Ela me chamava três vezes e na última era sempre diferente. Como um grito súbito. O gemido de alguém caindo de um dos penhascos... E depois o silêncio.
Apenas o som do vento e a neve em redemoinho, chicoteando os picos das montanhas que recuavam para cada vez mais longe... Meus olhos se abriram de repente. Fiquei deitada na cama por alguns minutos, permitindo pela primeira vez que o sonho saturasse minha mente, se acomodasse e ficasse familiar. Aos poucos, eu o aceitei.
E então chutei as cobertas emboladas, libertando-me, fiquei de pé sobre o piso de madeira fria e fui em silêncio até a cômoda. Abri a gaveta de baixo, com cuidado para que ela não fizesse barulho. Tateando às cegas sob uma pilha de camisetas que eu não usava mais, meus dedos localizaram o que eu procurava. O livro que Clara tinha me dado. Levei o volume até a escrivaninha e acendei a luminária.
No círculo de luz, li o título, agora familiar. Com dedos surpreendentemente firmes, folheei as páginas, à procura do envelope de papel encerado, ainda enfiado perto do final, a umas 40 páginas do pesado marcador de prata.
Quando encontrei o envelope, levantei-o com cuidado – parecia delicado demais ou talvez precioso demais para ser manuseado. Enfiei dois dedos dentro dele e retirei o conteúdo. A foto.
Prendi minha respiração quando vi uma mulher com um vestido de seda carmim, numa pose formal, a postura régia porém confortavelmente ereta, os ombros para trás, o cabelo preto e encaracolado num coque sobre a cabeça, envolvido por uma tiara prateada. O nariz era reta pouquinho achatado, a boca um tantinho larga demais para ser de uma beleza convencional. Uma sugestão de sorriso brincava nos cantos dos lábios, como se alguém houvesse lhe contado uma piada e ela quisesse rir, apesar de terem lhe dito para ficar séria. Para parecer majestosa.
Uma pedra escura e pequena parecia flutuar no ponto onde o esterno encontrava o pescoço,
o cordão fino demais para ser visualizado na imagem. Minha mãe.
Olhei mais de perto. Seus olhos... seus olhos eram como os meus. Assim como o nariz. E a boca com ar divertido.
Eu reconhecia cada parte do rosto de Marianne Dragomir, como se a tivesse visto mais cedo, naquele dia. Talvez porque a vira mesmo, no espelho.
No entanto, a mulher da foto era diferente de mim. Possuía uma qualidade especial que era melhor do que a beleza tradicional: presença.
Recordei as palavras de Clara, ditas semanas antes: “Mulheres Brasileiras. Por que todas vocês querem ficar quase invisíveis? Por que abrir mão de ter uma presença física no mundo?
Mesmo numa fotografia antiga, dava para ver que minha mãe tinha isso. Presença. Marianne Dragomir era cativante. O tipo de mulher que atrairia todos os olhares ao entrar em uma sala.
Virei a foto para ver se tinha data, mas não havia nada escrito, por isso olhei-a de novo, estudando seu rosto por muitos minutos, ouvindo na cabeça a voz do sonho. Desfrutando do acalanto de minha mãe, silenciado havia muito tempo, e me obrigando a suportar o grito de sua perda. De novo e de novo e de novo. Será que ela gritou pela perda da própria vida? Ou por me perder? Por nossa separação eterna?
Quando senti que o peso de nosso passado compartilhado começava a ficar opressivo demais, enfiei a foto de volta no envelope. Ela encontrou resistência, como se outra coisa dentro a bloqueasse. Pus a foto com cuidado sobre a escrivaninha, virei o envelope e o sacudi delicadamente. Um pedacinho de papel quase translúcido caiu na palma da minha mão.
Reconheci a letra. Era a mesma que tinha visto no quadro na aula da Sra. Francisca em setembro. VLASCARPONNI. A mesma letra que estava na dedicatória do meu guia de vampira.
Ela não é linda, Marina? Não é poderosa? Majestosa?  Não é exatamente como VOCÊ?
Era quase como um poema. Uma ode. A mim.
Li de novo, embora tivesse memorizado na primeira vez, depois enfiei o bilhete de Clara de volta no envelope, seguido pela foto, e recoloquei tudo no livro, que deixei na escrivaninha. Depois girei na cadeira, captando meu reflexo no espelho de corpo inteiro que ficava pendurado na porta do quarto. À luz suave, eu poderia ser Marianne Dragomir, a camisola de flanela transformada em um vestido de gala, de seda... Num impulso, segurei o cabelo no alto da cabeça e ajeitei os ombros.
Ela não é linda? Não é poderosa? Majestosa?
Ela não é VOCÊ?
Soltando o cabelo, apaguei a luz e voltei para a cama, sem saber se queria ficar feliz, chorar ou as duas coisas.
Ela não é VOCÊ?

***

No dia de sua grande apresentação, Clara e Fernanda chegaram atrasadas
para a aula de literatura inglesa, cinco minutos depois de o sinal tocar – para melhor nos surpreender com seus figurinos. Fernanda usava um vestido desbotado que parecia da era vitoriana e tão apertado na cintura e tão justo sobre os seios que Felipe Dormand, sentado à minha frente, quase caiu da cadeira quando ela entrou na sala. Clara, para seu papel de Heathcliff, apenas ressuscitou o sobretudo de veludo e a calça preta que tinha usado regularmente havia apenas um mês, mais ou menos.
– Minha nossa – foi só o que a Sra. Francisca pôde expressar ao ver aquilo tudo.
Acho que ela ficou um pouco preocupada com a hipótese de os peitos de Fernanda pularem para fora num momento inoportuno, o que com certeza violaria as normas de vestuário da escola.
Mas foi Clara com o vestuário de menino que imediatamente tomou conta do centro do tablado, introduzindo sua pequena peça, ensinando com mais autoridade do que a Sra. Francisca jamais fora capaz.
– Heathcliff é uma criatura indomada, um homem condenado – lembrou ela. – Catherine também está condenada. Condenada a amar Heathcliff, que deve destruir a ela e à sua descendência. Está em sua natureza tomar o que deseja. E o que ele quer é vingança, acima de tudo. Catherine é uma selvagem admirável. O amor deles é impiedoso, cruel, amargo e maligno.
– Ah, minha nossa! – exclamou a Sra. Francisca, agitando-se numa cadeira nos fundos da sala. Dessa vez acho que estava quase babando pela Clara. – Admiro muito essa história – acrescentou ela. – Ela ecoa. Torci a caneta nos dedos, quase quebrando-a, confusa e triste. Amor impiedoso, cruel e maligno. É isso o que ela quer? Será que foi isso o que sempre esperou de mim? Clara chegou a esperar algum tipo de “amor” entre nós?
Olhei para Santiago, que deu de ombros e revirou os olhos azuis, como se achasse toda aquela produção meio exagerada. Sorri para ele, mas sem emoção. Por que, por que não consigo sentir algo mais profundo por Santiago? Ele é bonito, é popular, sem nenhum traço de crueldade ou perigo em seu corpo musculoso. Por que essa vontade toda de me virar e olhar para Clara? Uma garota  que é toda errada para mim? Uma VAMPIRA arrogante, enigmática e potencialmente perigosa?
Santiago  era a escolha sensata, doce e previsível.
No entanto, me virei, ansiosa por olhar para Clara.
Quando voltei ao drama, ele encarava Fernanda  e a peça começou. De algum modo, condensaram a primeira metade do livro, pegando citações aqui e ali, inventando algumas coisas, imagino, e costurando tudo numa intensa cena de 25 minutos que foi da infância alegre e despreocupada dos dois personagens até Catherine trocar Heathcliff pelo gentil Sr. Linton.
Pelo menos acho que foi isso o que eles representaram. Eu só conseguia me concentrar nos movimentos brutos e ao mesmo tempo ternos dos corpos delas. O modo como Clara agarrava o pulso de Fernanda Cerqueira, puxando-a contra o peito. O modo como os olhos de Fernanda se arregalaram quando ela se soltou. A paixão quase parecia... real.
Minha caneta de plástico se quebrou de verdade sob a pressão dos dedos, com a tinta manchando minha mão e batendo no meu rosto. Não, Clara. Não.
Ninguém notou. A turma toda estava fascinada enquanto Fernanda, com os olhos azuis grudados nos olhos negros de Clara, sussurrava, a voz intensa com o que eu temia desesperada não ser paixão fingida:
– Independentemente do que nossas almas sejam feitas, a sua e a minha são iguais.
Elas ficaram ali, imóveis, cara a cara, até que alguém percebeu que era hora de aplaudir. Vanessa se ajoelhou na cadeira, enfiou os dedos na boca e assobiou, coisa que eu nem sabia que ela era capaz de fazer.
Como se acordassem com aquele alarme estridente, Clara e Fernanda saíram dos personagens, sorriram, deram-se as mãos e fizeram uma reverência profunda na direção da plateia. De alguma maneira os seios de Faith permaneceram no lugar, se bem que, pelo modo como Felipe  Dormand esticava o pescoço, acho que pelo menos ele conseguiu uma boa visão do que estava debaixo do vestido.
Tive que admitir que foi a melhor apresentação de trabalho sobre um livro que eu havia visto na vida. Provavelmente a melhor já feita na Escola Woodrow Wilson. E odiei cada segundo daquilo.
Clara era a minha  noiva. Eu é que deveria estar lá em cima. Algo fora roubado de mim. E não se tratava apenas de alguns segundos de glória diante da turma. Naquele momento eu soube que havia desperdiçado a chance de uma vida inteira de glória ao lado da mulher mais envolvente, enfurecedora, carismática e aterrorizante que eu já havia conhecido. Parte de mim sabia que eu deveria me sentir aliviada. Durante meses, me livrar de Clara Vlascarponni tinha sido tudo o que eu mais queria. E, mesmo assim, só me sentia vazia, derrotada e desesperada para encontrar um modo de trazê-la de volta para mim. Então me lembrei do pacto. Clara nunca deixaria de honrar o pacto. Deixaria?
Enquanto os aplausos iam morrendo, Fernanda saltou para o corredor a fim de se sentar atrás de mim, seguida por Clara, que nem me deu bola.
Então refleti: será que eu iria querer a garota se ela só estivesse ligada a mim pela obrigação? Que tipo de vitória seria essa?
Olhei para Clara, mas ela estava inclinado para a frente, sussurrando algo para Fernanda.
Um amor impiedoso, cruel, amargo e maligno... Clara realmente desejava isso? Será que desejava mesmo Fernanda? Nesse caso, será que algum dia eu havia tido uma chance? Será que deveria querer uma chance?

***

– Trouxe sua roupa lavada – gritei, dando um chute na porta do
apartamento de Clara. Ela abriu a porta.
– Ah, obrigada, Marina . – Em seguida pegou o cesto cheio de roupas emboladas, franzindo a testa. – O que é isso?
– Mamãe disse que você pode começar a dobrar sua própria roupa. – Mas...
– A mordomia acabou, Clara – avisei, seguindo-a para dentro do quarto. Eu não havia entrado ali desde a desastrosa tentativa de preparar um jantar romeno, uma semana antes. O ar ainda fedia um pouco a baço.
Clara jogou as roupas na cama e recuou, examinando aquela confusão. – Imagino que seja tarde demais para contratar uma lavadeira...
– Ah, se liga! Não banque a bebezona. Eu faço isso duas vezes por semana. E não acho que exista nenhuma “lavadeira” aqui por perto.
– Isso é um infortúnio regional seu e não meu. – Ela pegou uma meia, segurando-a como se nunca tivesse visto aquilo antes. – Por onde começar? Peguei a meia dos dedos dela.
– Quer dizer que você é capaz de liderar uma nação de vampiros mas não consegue juntar um par de meias?
– Cada uma com suas habilidades – observou Clara, incapaz de conter um sorriso. – Felizmente, as minhas estão no ramo da liderança e não das “tarefas subalternas”. Dei um sorriso relutante. – Eu ajudo. Só dessa vez. – Obrigada, Marina. Clara se deixou cair em sua poltrona de couro. – Eu disse “ajudo” e não “faço para você”.
Ela não fez qualquer esforço para se mexer. Pelo contrário, deu um risinho, afundou mais na poltrona e cruzou os dedos atrás da cabeça.
– Acho que uma demonstração serviria melhor.
– Sua idiota! – gritei, jogando a meia de volta na pilha e puxando seu braço, pondo-a de pé. Claro que Clara era forte demais para mim e, quando me puxou de volta, acabei caindo sobre o peito dela, nós dois rindo.
Aos poucos o riso foi parando e nossos olhos se conectaram de verdade pela primeira vez desde aquela noite medonha em que eu havia tentado cozinhar uma lebre. De repente não  estávamos mais de brincadeira.
– Marina... – disse ela baixinho, envolvendo meu pulso com os dedos.
– O que foi, Clara? – perguntei, me apoiando com mais força em seu peito, com o coração começando a bater mais forte.
Talvez eu não tivesse sido vencida por Fernanda. Os olhos dela tinham a mesma expressão da noite de Halloween, mas sem a raiva e a frustração. Em vez disso havia uma espécie de desejo mais suave. Um desejo menos temível, embora quase igualmente amedrontador. Mesmo assim não me afastei dela. Dessa vez sabia que não queria me mover. Iria enfrentar o que quer que acontecesse.
Soltando meu pulso, Clara puxou com delicadeza um dos meus cachos, deixando-o voltar para o lugar, como uma mola.
– Você mudou o cabelo. Aceitou seus lindos cachos. – Você gosta?
– Sabe que gosto... – Ela girou outro em volta do dedo. – Isso é fiel a você.
Eu me ajeitei um pouco e minha mão pousou na curva rígida de sua barriga um tanquinho. Ela usava uma camiseta e eu podia sentir sei perto subir e descer com dificuldade. Minha confiança estremeceu por um momento. Honra. Disciplina. Força. A criação dela foi bem diferente da sua, Marina... A família Vlascarponni tem a reputação de ser implacável...
– Como conseguiu isso? – perguntei, acompanhando a cicatriz com a ponta dos dedos. Algo mudou nos olhos dela. O brilho no negrume diminuiu um pouco. – Foi um acidente. Não é uma história que valha a pena ser contada. Ela estava mentindo.
Continuei a acompanhar a cicatriz com o dedo. Era larga e eu não conseguia imaginar o que seria capaz de rasgar a carne daquele jeito... até que pensei nas armas na parede. Mas quem faria aquilo com ela? Com qualquer pessoa?
– Pode me contar o que aconteceu – incentivei-a. Eu entendo você... Ou posso tentar entender... Por que quer arrancar isso dela, Mari? Por que não pode deixar isso pra lá? Porque quero saber sobre ela. É por isso. Eu queria saber a verdade sobre Clara. Suas histórias. Seu passado. O que ela desejava.
– Marina – gemeu ela, envolvendo minha cintura. – Se pudéssemos não falar, neste momento. Se pudéssemos apenas ser.
Não. O que quer que acontecesse teria que ser nos meus termos também. Eu tinha visto Clara com Fernanda. Não seria idiota. Não cairia no seu charme, na sua experiência... não se o que ela realmente quisesse fosse algo diferente ou algo que eu não pudesse dar... Acompanhei a outra cicatriz, no queixo, e ela segurou minha mão, afastando-a um pouco. – Marina...
– Você quer mesmo isso? – sussurrei.
Ela continuou segurando minha mão, movendo-a até a boca, roçando os lábios nela. – Quero o quê, Marina?
– O que você disse na sala de aula. Ela pareceu em dúvida. – Na sala...?
– Um “amor amargo, cruel e maligno”? É o que você quer de verdade?
Quando falei isso, foi como se tivesse cortado uma corda que nos atasse e Clara, ainda segurando minha mão, sentou-se empertigada, colocando-me de pé e empurrando-me com a mão gentil porém firme. E se levantou também. – Clara?
Então ela sorriu, um pouco triste, como se não houvéssemos acabado de compartilhar o que compartilhamos.
– Estamos aqui, perdendo tempo, e a roupa lavada espera na cama – disse ela, com o deboche habitual na voz. Em seguida se inclinou sobre o colchão e pegou uma calcinha. – Nessa velocidade, todos os amassados vão se fixar. E uma Vlascarponni pode dobrar as roupas, se coagido, mas nós não passamos a ferro.
– Clara? – Toquei seu braço. Não queria saber, mas precisava. – O que está rolando entre você e a Fernanda?
Clara sacudiu a Calcinha, evitando meus olhos. – Fernanda?
– É. Fernanda – respondi, me sentando na beira da cama.
– Ela me intriga – admitiu ela, conseguindo de algum modo dobrar sua roupa de baixo. – Por quê? Por que você gosta dela?
Como se eu não soubesse. Clara Vlascarponni podia falar quanto quisesse sobre a beleza das curvas, dos cachos e da importância de se ter presença, mas, no final das contas, era como todos os outros homens – todos os outros garotos –, que ficavam de quatro pela líder de torcida loura que tinha barriga sarada, peitinhos empinados e bunda perfeita debaixo daquela saia curta idiota.
– Ah, Marina – disse Clara, parecendo estar ligeiramente exasperada. – Durante meses eu perguntei como poderia preferir um camponês e você nunca me deu uma resposta satisfatória. Talvez essas coisas não possam ser explicadas com facilidade. – Então você gosta da Fernanda? Nesse momento ela me olhou. – Eu a aprecio.
Aquela confirmação na lata me deixou constrangida, mesmo que já soubesse a resposta. – Há alguma diferença?
Clara suspirou e se sentou ao meu lado na cama, olhando para a parede. – Talvez, Marina. Realmente importa, nessa altura?
– O que isso quer dizer? Por que você fica falando como se o pacto estivesse acabado? E a guerra?
– Você nem acredita no pacto ou na guerra.

– Agora acredito – insisti.
Clara ignorou essa revelação. E eu que achava que isso era tudo o que ela sempre quisera escutar. Um pequeno sorriso cruzou seu rosto.
– Esse baile de Natal que vai acontecer é um evento social muito esperado, pelo que imagino. As garotas querem ir, certo? O Atarracado vai vestir o melhor macacão e levar você, não é?
– Quanto ao Santiago...
O que eu iria fazer com relação ao Santiago? Desde aquele dia no ginásio, em que eu havia confessado a Vanessa minhas dúvidas sobre nosso relacionamento, vinha me distanciando dele. E quando dei as costas ao Santiago para ver Clara encenar sua peça na aula de literatura inglesa, eu sabia que estava dando as costas a um cara maravilhoso... um cara que gostava de mim de verdade. Uma pessoa boa que não bebia sangue nem tinha cicatrizes perigosas. E mesmo assim eu tinha feito isso.
– Não sei se vamos juntos – respondi. – Estamos meio que afastados. Dando de ombros, Clara se levantou e voltou a dobrar a roupa.
– Devem fazer o que deixa vocês dois felizes, Marina. Devem fazer o que é certo para vocês.
– E você vai fazer o que é “certo para você”, eu suponho – falei, mal- -humorada.
– Estamos no Brasil, como sou lembrada constantemente na aula de estudos sociais – observou Clara. – Temos direito à escolha por aqui. – Ela fez mímica de uma balança com as mãos. – Pepsi ou Coca? Mc Donald’s ou Burger King? O antigo namorado ou o novo?
– É. Mas e o André? Ele e Fernanda estão juntos há séculos.
– Eu já disse, Marina. Todos temos escolha. Incluindo Fernanda. André não tem direitos sobre ela. Não vi nenhuma aliança no dedo da garota.
Claro que Fernanda tinha escolha. E havia optado por Clara. Eu tivera provas disso no ginásio e na aula de literatura inglesa. Que inferno! Eu já tinha visto na competição do Clube da Juventude, quando ela segurou meu braço distraidamente, olhando Clara arrasar no percurso com sua égua maldita. Só não quis admitir a mim mesma. A coisa toda foi acontecendo na minha cara e eu havia me obrigado a permanecer cega.
Então Clara sorriu para mim, mas havia algo parecido com tristeza em seus olhos.
– Você tem sorte, Marina – disse ela. – Não está tão presa à tradição, ao peso do passado. Aqui você é livre. Não somente para escolher um refrigerante, mas para escolher seu destino. É uma sensação empolgante, não é?
Acho que eu tinha vivido tanto tempo com minhas possibilidades que não as considerava tão “empolgantes” como Clara. Na verdade, naquele momento, eu até queria estar amarrada com um pouco mais de força ao passado. Ao mesmo tempo, porém, uma raiva súbita me atravessava. Raiva de Clara.
– Se você está tão a fim da Fernanda, o que foi aquilo? – Apontei para a poltrona de couro, onde nós havíamos acabado de nos embolar. Onde eu podia jurar que Clara esteve a ponto me beijar. – Ali, na poltrona. Quando passou o braço em volta de mim. O que foi aquilo, Clara?
Clara baixou a camiseta que estava dobrando, deixando os braços caírem ao lado do corpo.
– Aquilo, Marina, foi quase um erro.
Um erro? Ela tinha acabado de dizer “um erro”?
Esticando-me no meu 1,70 metro e juntando uma força que eu nunca soube possuir, alimentada por uma indignação da qual não sabia ser capaz, recuei a mão aberta e dei um tapa tão forte no rosto de Clara Vlascarponni que sua cabeça virou bruscamente. Ela ainda estava coçando o queixo quando bati a porta.
Romena sugadora de sangue idiota. Tinha sorte de eu não ter feito outra nobre cicatriz em seu corpo imperial. Se ela se metesse de novo com Marina Meirelles – Marianne Dragomir –, com toda a certeza receberia um tratamento régio.



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