História Como se livrar de uma vampira apaixonada - Capítulo 8


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Categorias Em Família
Tags Clara, Em Família, Marina
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Palavras 6.253
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Comédia, Ficção, Ficção Adolescente, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 8 - Capitulo 8


Foco, Marina, foco – falei para mim mesma.
Mas quanto mais eu me obrigava a ficar concentrada, mais a concentração me escapava. Era como se agarrasse bolhas de sabão que flutuavam no ar. Bolhas cheias de códigos matemáticos e números sem significado. Sinais de adição, de subtração, de raiz quadrada girando em volta da minha cabeça. Todos estouravam no segundo em que eu os pegava. Estouravam e sumiam.
De algum modo, apesar de faltar a vários treinos, eu tinha conseguido chegar à última rodada da Olimpíada de Matemática de goiânia, em que competiam os melhores estudantes. Sem canetas. Sem papel. Nem mesmo uma chance de reler as perguntas. Só a moderadora lançando problemas orais e 10 alunos de pé, um tentando responder antes dos outros.
Eu queria muito vencer. Aquela era uma arena onde eu podia brilhar. A gente não precisava ser bonita, nem loura, nem rica, como Fernanda.
Para com isso, Mari. Você pode chegar ao campeonato nacional se mantiver a cabeça no lugar.
Olhando para o público modesto encostado nas paredes do refeitório, vi o Sr. Virgílio suando no terno de poliéster escolhido para hoje – um marrom-acinzentado medonho – e me observando. Ele sorriu e fez o sinal com os polegares para cima. Mateus Danneker estava lá também, depois de ser eliminado na rodada de velocidade, quando entrou em pânico inexplicavelmente por causa de alguns polinômios rotineiros. Mateus pôs as mãos em concha na boca:
– Não erra – sussurrou, de modo teatral. Como se isso ajudasse. A moderadora terminou de folhear os papéis.
– Pergunta número dois. Um caixa de banco distraído trocou os reais  pelos centavos quando descontou o cheque de pagamento da Sra. Jones. Depois de comprar uma xícara de café por 50 centavos, a Sra. Jones percebe que tem o triplo do valor do cheque original. Qual é o valor do cheque?
Eu podia fazer isso. Era uma equação diofantina. Isso. Então por que meu cérebro não funcionava?
Quanto mais eu me concentrava e raciocinava, mais indecifrável me parecia toda a linguagem das equações. Era como se parte da minha mente estivesse se desligando. Morrendo. Isso havia começado semanas antes, quando passei a me afastar de Santiago e me aproximar da Clara. Para longe da humanidade comum e em direção a um mundo onde o sangue tinha um cheiro delicioso. O cálculo fazia minha cabeça viajar. A álgebra perdia aos poucos a atração. E agora eu estava numa sala cheia de matematletas, em que eu deveria ser uma força dominante, mas, em vez disso, só conseguia pensar: reais? Centavos? Café seria uma boa... Onde se pode conseguir uma xícara de café por 50 centavos? Mas eu não queria café. Queria ir para o campeonato nacional. Raciocina Marina... E nenhum pensamento me vinha. Pelo menos não do tipo certo. Será que o café ajudaria?
– Não! – berrei, sem nem perceber que tinha falado a palavra em voz alta, até que o salão já quieto ficou completamente silencioso e todas as cabeças se viraram na minha direção.
Comecei a suar como se fosse o Sr. Virgílio num dia de verão, empolgado com um problema envolvendo uma parede alta e o ângulo do sol. Humilhada. Eu tinha sido humilhada.
– Foi mal – falei, me dirigindo a todo mundo e a ninguém em particular. Todos continuavam a me olhar: meus concorrentes, meus colegas de equipe, os espectadores. E, assim, saí do lugar designado para mim e fui andando, com o que eu esperava que fosse um pouquinho de dignidade, em direção à porta.
No corredor, me encostei na parede fria, de azulejos. O que estava acontecendo com o lado esquerdo do meu cérebro? A parte que deveria controlar a análise e a objetividade parecia entorpecida. E pinicando. Como se fosse mastigada pelo lado direito, o aleatório, intuitivo, não lógico. Apertei as têmporas com os dedos, massageando-as, tentando aliviar uma dor que eu sabia que não era exatamente física. – Marina, você está bem?
O Sr. Virgílio passou pela porta e correu até o meu lado, bufando um pouco e enxugando a testa com um lenço. Eu sabia o que ele estava pensando. Seu cavalo premiado acabara de quebrar uma pata no último obstáculo. Ele havia investido quatro anos em mim e eu tinha saído mancando.
– A matemática está parecendo... difícil ultimamente – tentei explicar, encarando o Sr. Virgílio, desesperada. – Não sei o que está acontecendo. Não consigo me concentrar.
– As coisas estão bem em casa? – ele tentou perguntar. O esforço de forjar uma conexão humana real entre nós que não fosse sustentada pelos números fez o suor empoçar em seu lábio superior e escapar pelos cantos da boca. Ele usou a gravata para enxugar o queixo. – Problemas com garotos? – sugeriu, nervoso. Parecia à beira de algum tipo de espasmo, como se tivesse penetrado demais numa caverna profunda e percebesse que não havia oxigênio ali.
Se eu começasse a me abrir, ele poderia desmaiar no corredor. Eu precisava salvá-lo, deixar que ele respirasse.
– Não, não é um garoto- menti, poupando meu professor de um ataque cardíaco.
– Ah, graças a Deus! – exclamou ele, apertando o peito. E então percebeu o que tinha dito. – Quero dizer, claro que, se fosse um garoto, você poderia me contar... – Tudo bem – insisti. – Não é nada disso.
Mas era. Só que Clara não era um garoto, de fato. Era uma mulher. E eu a queria de volta. Mas sabia que não adiantava mais. Ela estava a fim da Fernanda 
– Vou me sair melhor da próxima vez, Sr. Virgílio – prometi. – Vou mergulhar nos livros amanhã. Me concentrar. – É isso aí, Mari.
O Sr. Virgílio  estendeu a mão para dar um tapinha no meu ombro, hesitou e recuou de volta.
– Vamos voltar para dentro – falei, corajosamente. – Pelo menos posso ouvir, tentar resolver os problemas só por diversão.
– É, é – concordou o Sr. Virgílio, aliviado porque nosso momento pessoal havia passado. – Excelente ideia.
Acompanhei meu treinador de volta ao refeitório. Mas, para ser honesta, resolver problemas não parecia divertido nem excelente. Parecia a atividade mais sofrida que eu poderia imaginar.

***

CARO FREDERIC,
O senhor sabia que no Brasil as “opções” são tão abundantes que algumas pessoas de mente débil chegam ao ponto de se sentir assoberbadas e precisar de aconselhamento psicológico (eu sei: nós gargalhamos!) só porque são incapazes de se orientar em meio às opções quase infinitas inerentes a literalmente cada ato, por mais insignificante que seja?
Aqui, até mesmo pedir uma pizza (finalmente esbarrei em algo comestível) exige múltiplas decisões. Grande? Extragrande? Com pepperoni? Algum tipo de legume? Mais queijo? Menos queijo? Queijo escondido, como uma surpresa, dentro da massa? E, por falar em massa... grossa? Fina? Moldada à mão? Ou devemos repensar tudo e pedir no estilo de portuguesa? Ou à siciliana?
Francamente, Frederic, pedir comida “para viagem” (também descobri que posso comandar um exército de supostos serviçais, todos andando por aí em motocicletas yamaha) exige tanta estratégia quanto alguns generais devotam a uma batalha em que sangue de verdade, e não apenas molho de tomate, será derramado.
Por falar nisso, lamentei saber que os Dragomir estão cansados de esperar o retorno de sua princesa e a consumação do pacto.
Eles continuam sendo uma família impulsiva e impaciente, não é? Mas acusar-me de não me esforçar para cumprir com minha obrigação – e depois tentar cravar uma estaca num Vlascarponni  num ataque de ira... Esse tipo de coisa pode precipitar um conflito terrível, Frederic. E de repente considero toda essa possibilidade enfadonha demais.
Será que nós, vampiros, devemos sempre recorrer tão rapidamente à violência? Será que não poderíamos nos sentar em volta de uma “loura gelada” e “esfriar a cabeça”, como minha televisão e algumas colegas de time vivem insistindo para que eu faça? (O senhor ficaria pasmo com o esforço que os adolescentes brasileiros fazem para conseguir qualquer quantidade de cerveja, que é proibida aos menores de 18 anos. Na verdade é espantoso, Frederic – tudo por um pouquinho de lúpulo fermentado. Se ainda fosse por sangue...)
Retornemos à pequena explosão de tensões entre os Dragomir e os Vlascarponni. Por favor, aconselhe os dois lados a permanecerem pacientes, lembrando-lhes que somos vampiros. Por que tanta pressa quando temos a eternidade?
E já que estamos no assunto dos impetuosos Dragomir e da violência, nossa princesa-à-espera me deu um tapa na cara bem impressionante um dia desses. O senhor, dentre todos os vampiros, sabe como é difícil fazer minha cabeça se virar com o uso da mão aberta.
Devo dizer que admirei a força por trás do tapa. Muito impositiva. E o modo como os olhos dela relampejaram foi bastante régio.
Quanto à causa de minha humilhação pela bofetada de Marianne... Talvez seja melhor deixar para outra missiva.
Enquanto isso, será que eu poderia lhe pedir que mandasse, com extrema presteza, algumas das minhas roupas formais? Digamos, talvez, os vestidos que adquiri em Milão. E despache um par de vestidos discretos também. Confio no seu julgamento. Tenha em mente que a maior parte das minhas colegas de festa estará usando vestidos alugados. (O senhor sabia que é possível alugar roupas? Isso não parece repulsivo? Vestir roupas usadas por uma sucessão de predecessores de pedigree duvidoso e higiene incerta? Mas é verdade.) O fato é que desejo, é claro, me apresentar de modo adequado à minha posição – sem sobrepujar indevidamente as demais. A deliberada demonstração de superioridade por meio da vestimenta é algo grosseiro, não acha? Desde já agradeço pela ajuda. Sua sobrinha, Clara
P.S.: Que diabo. Por que não me despedir com o cumprimento Brasileiro tradicional? “Feliz Natal”, tio Frederic. “E próspero ano-novo.” P.P.S.: Realmente – “aconselhamento psicológico”!

***

– Marina, telefone para você – disse papai, enfiando a cabeça no meu
quarto. – É o Santiago.
– Eu nem ouvi tocar – admiti, sentando-me e pegando o aparelho sem fio da mão dele. Estivera deitada na cama, olhando para o teto, pensando em vampiras infiéis e no fato de que meu cérebro parecia estar se desintegrando e desejando que minha vida fosse simplesmente normal de novo. – Oi, Santiago – falei, com menos entusiasmo do que deveria ter. – E aí?
Eu deveria terminar com o Santiago. Sabia disso e mesmo assim não tinha feito nada. Por quê? O que estou esperando?
– Oi, Mari. Eu só liguei... bom, estava pensando se ainda está tudo em cima para o baile formal de Natal. Não tenho visto você na escola...
– É, acho que andei ocupada. A gente devia se encontrar e bater um papo, mas...
Lá fora ouvi um grito agudo, depois uma gargalhada. Puxei a cortina de lado. Clara e Fernanda  estavam no quintal, travando uma guerra de bolas de neve artificial bem vigorosa. Enquanto eu olhava, Clara pegou Fernanda  no colo e a jogou numa pilha deixada por nosso arado, esfregando gelo em seu gorro de lã cor-de-rosa. – Clara! – gritou ela, chutando-a. – Sua idiota! É, Clara... Você é, sim. – Marina... você está aí?
– Ah, desculpa, Santiago. – Fechei a cortina. – Estou.
– Eu estava perguntando sobre o baile, porque preciso alugar um smoking... Lá fora, mais gritinhos contentes. Santiago  acrescentou, um tanto inseguro: – Espero que ainda queira ir, Mari. Que cara  legal. Muito, muito legal... Abaixo da minha janela, Fernanda  berrou: – Não encosta a mão em mim! Parecia que ela desejava exatamente o contrário. Apertei o telefone, obrigando-me a prestar atenção em Santiago. Será que eu tinha mesmo certeza de que queria terminar com ele? Será que pararia de viver só porque tinha sido dispensada por uma estudante de intercâmbio metida que tentara me seduzir em seu quarto só para depois admitir que tinha sido um “erro”? Será que desperdiçaria todo o meu último ano escolar deitada na cama, preocupada em pensar se era uma vampira? Pelo amor de Deus! Não, eu não faria isso.

– Claro que eu quero ir, Santiago  – respondi, forçando a voz a parecer muito mais animada do que me sentia. – Mal posso esperar. O alívio inundou a voz dele.
– Beleza! Então vou pegar o smoking amanhã. Se você tem certeza... Será que Fernanda Cerqueira nunca vai parar de berrar no meu quintal? – Claro que tenho, Santiago – respondi, acrescentando logo antes de desligarmos: – Vai ser muito bom.
Estiquei-me na cama, puxando o travesseiro para cima do rosto e cobrindo os ouvidos para abafar toda a diversão que minha ex-noiva de pacto de sangue e Fernanda estavam tendo lá fora.
Enquanto ficava ali, odiando as duas, meus dentes começaram a doer. A princípio era só uma dor pequena, chatinha, mas, a cada vez que o som da guerrinha de Fernanda e Clara chegava aos meus ouvidos, a dor ficava mais aguda. Era quase como se meus dentes estivessem apertados demais dentro da boca, forçando-se contra as gengivas, e eu quis arrancá-los. Desejava descobrir algum modo de libertá-los para se tornarem o que desejavam tão desesperadamente ser.
Fui até a cômoda e catei o guia de vampiro. Abri no sumário. Ali estava: Capítulo 9: “Encontrando o caminho das presas!” Folheei até a página indicada.
“As garotas começam a sentir os incisivos doerem à medida que se aproximam dos 18 anos, embora algumas ‘precoces’ possam notar mudanças já aos 16. A sensação ocorre com frequência, ainda que não exclusivamente, em momentos de estresse emocional, não diferentes daqueles de sua primeira sede de sangue. Tente ser paciente e aceitar o ‘desconforto dental’ como parte da maturação vampírica, assim como você aprende a aceitar as cólicas menstruais como parte de seu crescimento para a condição de mulher. Lembre-se de que, quando for mordida pela primeira vez, suas presas serão liberadas para se expandir e desabrochar e logo você esquecerá as dores temporárias que a levaram à plena condição de vampira!”
Minhas presas poderiam ser liberadas com a mordida de um vampiro. Claro. A Clara tinha me contado isso quando fizemos compras. As presas das mulheres só cresciam quando elas eram mordidas. Guardei o guia. A boa notícia era que eu tinha uma vampira à mão no meu quintal. A má era que eu queria cravar uma estaca no coração da "menina" antes que ela tivesse chance de se aproximar – sem contar o fato de que ela não parecia mais dar a mínima para mim. O que uma jovem vampira “desabrochando” iria fazer?

**

– Você tem sorte que pelo menos uma de nós leia a Cosmopolitan e a Vogue – disse Vanessa em tom reprovador, entrando no meu quarto com umas 10 caixas de sapatos. A pilha era tão alta que ela não conseguia enxergar nada à sua frente. – Vanessa e sua coleção de sapatos vieram prestar socorro!
Minha melhor amiga largou as caixas no chão, numa pilha desordenada, e seus olhos se arregalaram ao me ver. – Caraca, Marina! – Isso é... bom? Vanessa veio correndo, agarrou meus braços e me girou, me olhando de cima a baixo. – Você está... você está um escândalo!
– O.k. – acalmei-a, soltando seus dedos um por um. – Pega leve porque esse vestido me custou praticamente cada moedinha que ganhei na lanchonete durante o verão. – E valeu cada centavo – declarou Vanessa, confirmando com a cabeça. Olhei no espelho pendurado atrás da porta do quarto. – É lindo, não é?
– Você é linda – corrigiu Vanessa. – O vestido só deixa o resto do mundo saber disso. Onde comprou? Esse não é um vestido qualquer de poliéster do shopping.
– Voltei àquela loja esnobe onde comprei o vestido para o Halloween.
Dessa vez, fui eu que dei uma de superior diante de Luciana. Mas tinha aprendido bastante com Clara. Apenas alguns meses antes, eu não tinha noção de tudo o que poderia ser obtido apenas levantando o queixo e falando de nariz empinado.
– Isso é, tipo... veludo de verdade – disse Vanessa, deslizando a mão pelo tecido.
– É. O busto, ou melhor, o corpete, como diria Clara, é de veludo e a saia é de seda japonesa tecida à mão.
Passei as mãos sobre o vestido preto. Era escuro como um céu noturno de agosto logo antes de uma tempestade. Tomara que caia, tinha corte reto e envolvia meu corpo num caimento perfeito. Não era apertado demais, mas justo o bastante para mostrar cada curva da minha silhueta. Quando me olhei no espelho, fiquei feliz por não ser magricela demais. Aquele não era um vestido feito para um corpo mais fino.
– Tenho os sapatos perfeitos – guinchou Vanessa, revirando as caixas. Ela levantou um par de sandálias de salto alto e tiras, muito discretas para Vanessa, mas perfeitas para o vestido. – Tem certeza de que posso pegar emprestado?
– Claro – respondeu Vanessa, com apenas uma levíssima sugestão de tristeza ou ciúme na voz. – Eu nunca vou a lugar nenhum. Pelo menos a sandália pode ter algum uso.

Dei uma abração na minha amiga.
– Obrigada, Van... Você é o máximo.
– Ah, não fica toda melosa. A gente ainda precisa fazer seu cabelo e já são quase sete da noite.
– Acha que pode me ajudar com, tipo, um coque? Quero que seja perfeito. Melhor ainda do que no Halloween.
– E eu não leio a Cosmo, a Vogue e a Penteados das Celebridades? – observou Vanessa, pegando minha escova de cabelos. – Você está em boas mãos, Marina Meirelles.
Hesitei, depois peguei a foto da minha mãe biológica, que eu havia posto numa pequena moldura de prata sobre a escrivaninha.
– Será que consegue me deixar parecida com... ela? Entreguei a foto a Vanessa e ela ficou boquiaberta.
– Marina... essa é... essa tem que ser... – Ela me olhou, visivelmente chocada. – Ela era tipo uma princesa ou sei lá o quê?
– É uma longa história – respondi, pegando a foto de volta. Olhei para Marianne Dragomir. – Mas ela era especial, sim.
– O que você está me escondendo? – indagou Vanessa, curiosa e meio cautelosa. – Tem alguma coisa rolando.
– É só uma lembrança que me deram – expliquei evasiva, guardando a moldura. – Era algo que antes eu não conseguia encarar.
– Mari, ela é igualzinha a você. É quase sobrenatural.
Fiquei vermelha de prazer. Ela não é linda... poderosa... majestosa... como VOCÊ?
– Obrigada, Vanessa, mas será que a gente pode falar disso mais tarde? Neste momento estou desesperada por uma ajuda com o cabelo.
Quando falei em cabelo, vanessa  voltou ao presente e pegou um punhado dos meus cachos. – Deixa comigo, Marina. Quando eu tiver terminado, toda garota da escola vai querer ser você.
Depois de 15 minutos e um frasco de fixador inteirinho, Vanessa  segurou um espelho e me mostrou o resultado. Meus cachos estavam arrumados artisticamente, mas de maneira aleatória, na cabeça, como uma coroa gloriosa, brilhosa, e ela havia pegado uma mecha grossa e torcido em volta do coque, imitando a tiara da foto de minha mãe biológica. Vanessa tinha mandado muito bem.
– Nunca mais vou rir de Penteados das Celebridades – prometi. Lá embaixo, a campainha tocou.
– Mari? – perguntou Vanessa, me dando uma última borrifada. – O quê? – perguntei, ainda me admirando no espelho.
– Isso tudo é pelo Santiago ou tem alguma coisa a ver com o fato de Clara estar indo com a Fernanda? Sei que você sempre diz que não gosta dela. Mas mesmo assim é um saco quando alguém que era a fim da gente muda de ideia...
– É tudo por mim – interrompi, ajeitando os ombros. O vestido, o cabelo e a sandália, tudo tinha a ver com sentir orgulho de mim mesma. Acreditar que eu era linda. Acreditar que eu era inestimável.
Esqueça Clara e Fernanda Cerqueira. Minha intenção era ter presença.
– Então, arrasa com elas – disse Vanessa, dando-me um abraço cauteloso, para não estragar meu cabelo. – Você está incrível.
Dei uma última olhada no espelho enquanto descia para receber o Santiago. Incrível. Essa era a palavra para minha transformação. Talvez eu acrescentasse também majestosa.
Apesar de estar mais do que um pouquinho triste e mais do que um pouquinho magoada, além de completamente confusa, a jovem mulher no espelho conseguiu dar um sorriso.

**

– Você está muito linda, Mari – disse Santiago, me entregando um pouco de
ponche.
– Você também está legal, Santiago. Legal.
– Uma pena você andar tão atolada ultimamente – acrescentou ele. – Senti sua falta.
– Sabe como é, o último ano da escola... – desconversei, dando de ombros e tomando um gole de ponche.
– Nem me fale – concordou Santiago. – Estão esfolando meu rabo.
Encolhi-me um pouco diante da expressão grosseira. Parecia algo que um... um... camponês diria.
– Tipo, se eu não ganhar uma bolsa, vou ter que ficar preso a uma faculdade preparatória por dois anos – continuou ele. – Vai ser um saco. Você já fez suas inscrições?
– Eu preciso passar para a Grantley. Você sabe, onde minha mãe dá aula. Aí não vou pagar nada.
– Irado. De graça.
Tomei outro gole de ponche, desejando que Santiago e eu tivéssemos mais em comum. Talvez houvesse sido um erro ir com ele ao baile. De repente seria melhor eu ter ficado em casa... – Ih... – Os olhos de Santiago se arregalaram e ele apontou por cima do meu ombro. – Saca só. – O quê?
Virei a cabeça e meu coração parou por um segundo.
Clara havia chegado de mãos  dadas com Fernanda. Ela estava reluzente num vestido prateado com alças finas e luvas que subiam até os cotovelos, o cabelo louro preso com uma tiara brilhante, como se fosse uma espécie de princesa do gelo. Uma rainha da neve cruelmente cintilante.
E Clara... Clara era seu equivalente escuro, num vestido  de caimento perfeito ela estava mais que maravilhosa. Mesmo do outro lado do ginásio era fácil ver que não era um vestido alugado como a de as outras meninas. O vestido de Clara era feito sob medida para seu corpo moreno e gostoso, a largura do seu vestido foi feita com perfeição e cobrindo a medida certa as sandálias tão maravilhosamente combinada  quanto seus modos.
Olhei para Santiago. O smoking dele era adequado. Preto, conservador. Nem um pouco espalhafatoso ou constrangedor. Mas se esticava nos ombros volumosos e a gravata- borboleta estava um pouquinho torta.
Era totalmente injusto comparar os dois – tipo, Jake não pode pagar por um smoking sob medida –, mas foi o que fiz. Minha  parceira de pacto de sangue nunca estivera tão linda. E Fernanda reluzia como um pingente de gelo alto e frio, pendendo do braço dela. Ela puxou Clara para baixo, sussurrando no ouvido dela. Ela riu, mostrando dentes de um branco tão puro quanto o da camisa de Santiago.
– André não vai gostar disso – murmurou Santiago, rindo.
Olhando em volta no ginásio mergulhado na penumbra, localizei facilmente André Strausser, com seu parceiro e capanga gorducho Felipe Dormand à tiracolo. André  fuzilava Clara e Fernanda com o olhar, o peito arfando de fúria. Ele esmagou seu copo de papel e o ponche voou na camisa, o que só o deixou com mais raiva. Esfregou a mancha e soltou um monte de palavrões.
– Viu? Ele está pê da vida – observou Santiago. – É melhor Clarinha tomar cuidado no estacionamento. Ouvi dizer que André  quer acabar com ela. Vai enfiar a surra nela por estar saindo com a Fernanda.
Olhei de volta para Clara. Ela guiava Fernanda para a pista de dança. Em seguida, envolveu a cintura dela com as mãos.
– Vem – falei, pegando a mão de Santiago. – Vamos dançar.
– Claro, se você não tem medo de que vá eu pisar no seu pé – brincou Santiago. – Não sou muito bom.
– Tudo bem, Santiago – garanti, sentindo carinho pelo cara que me levava pelo ginásio, com minha mão apertada em seus dedos grossos, calejados de trabalho. Claro que Santiago não sabia dançar, não tinha smoking sobre medida nem sabia como fazer um elogio elegante. Era um garoto de fazenda e não um membro da realeza romena. Ele pôs uma das mãos na minha cintura, segurou minha mão direita com a outra e fizemos círculos lentos sob as luzes que piscavam. – Isso é legal – disse Santiago, colando seu corpo no meu.
– É – concordei, tentando me concentrar naquele sentimento carinhoso. Ele é legal, Mari. Tente sentir alguma coisa. Tente curtir o fato de estar com um cara legal, normal... Tente esquecer Clara, vampiros e pactos...
Santiago encostou a testa na minha. Éramos quase da mesma altura.
– Marina... – Ele me puxou para mais perto. – Faz um tempão que a gente não se beija. – É, faz – concordei, sem saber o que mais poderia dizer. Tente, Mari...
Santiago roçou o rosto no meu. Nossos lábios estavam para se encontrar quando, de repente, ele foi puxado para longe. – Ei, que por...?
– Posso interromper?
Clara estava parada na nossa frente, sorrindo, mas não de modo feliz. Santiago  voltou a envolver minha cintura com o braço. – Clarinha, a gente está dançando.
– E eu estou interrompendo. É assim que funcionam os bailes no lugar de onde venho. – Não estamos em... no lugar de onde você veio – disse Santiago.
– Clara! – sibilei com os dentes trincados, olhando-a furiosa. Não. Ela não tinha o direito.
Clara pôs a mão no ombro de Santiago.
– Peço desculpas se me equivoquei com os costumes de vocês. Mas, por favor, me permita. Não ficarei com ela por muito tempo. Santiago olhou para mim, em dúvida.
– Só um segundo, Santiago – pedi, querendo matar Clara ali mesmo. – Eu cuido disso. Santiago lançou um olhar raivoso para Clara também. – Só uma música.
Depois saiu batendo o pé no meio da multidão, claramente irritado. – O que você quer? – perguntei. – A gente estava quase... – É, eu vi o que vocês “quase” iam fazer. – Isso não é da sua conta.
A música terminou e eu cruzei os braços em cima do peito, como se me protegesse contra ela. Mesmo quando odiava Clara, eu me sentia vulnerável a ela. – A música acabou, Clara. Volta pra Fernanda.
– Vai começar outra música. Não é o que acontece nesses eventos? E, obviamente, outra música começou.
– Podemos? – perguntou Clara, passando o braço pela minha cintura e me puxando. – Você não vai parar até conseguir o que quer, não é? – Não.
– Então só uma música – resmunguei, deixando-me ser puxada, odiando o frio traidor na minha barriga.
– Você dança, Marina? – perguntou ela, sorrindo para mim. – Valsa? Quadrilha francesa? – Sabe que não.
– Ah, mas com a sua graça, você deveria. Eu poderia ter... – Clara pareceu se conter e deixou a frase no ar. – Por enquanto, faça assim – instruiu ela, guiando minha mão esquerda para o seu ombro e pegando a direita, segurando-a perto do peito. Sua palma era fria na minha cintura. Aquela frieza familiar. Parte de quem ela era.
Não, Mari... não caia nessa... Ela está com a Fernanda... Você não passa de um “erro” em potencial.
– É só me acompanhar – afirmou Clara. – Eu guio. Confie em mim. Confiar em você...
Mesmo à revelia, me deixei ser conduzida, o corpo seguindo o dela.
– É, Marina – disse Clara, olhando-me com admiração. – Você tem um talento natural, como eu esperava.
Assim que ela disse isso, tropecei, pisando naqueles sandalias lindamente desenhadas.
– Desculpa – falei enquanto ela me firmava, puxando-me para mais perto ainda.
– Está tudo bem – disse Clara. Tínhamos ficado quase imperceptivelmente mais lentos, só
o bastante para sairmos de sincronia com a música, movendo-nos em nosso próprio ritmo. –

Todo mundo tropeça de vez em quando. Como você sabe muito bem. – Ela guiou minha mão para seu rosto, pondo as pontas dos meus dedos no lugar onde eu havia batido. – Ainda dói aqui quando passo  as cremes. Ela diz sorrindo. Mas foi merecido. – Se está tentando se desculpar...
– Estou tentando elogiar. É raro um indivíduo bater em mim e sair ileso.
A música era longa e nós oscilávamos juntas, ainda um pouco fora do ritmo, e meu coração tinha começado a bater acelerado. Meu Deus, eu não queria me sentir assim. Queria odiar Clara com um fervor ainda maior por se enfiar no meio do meu encontro, interrompendo a tentativa de ter uma noite legal. Procurei manter Fernanda em mente. Fernanda, Fernanda, Fernanda, Santiago, Santiago. Erro, erro, erro.
Clara pôs os dedos sob o meu queixo, inclinando minha cabeça para me olhar nos olhos de novo.
– Eu não tinha o direito de me intrometer daquele jeito, mas acho que é difícil abandonar velhos hábitos.
Por algum motivo, quando ela disse isso, tive vontade de chorar. Quis que a música terminasse naquele momento ou talvez que continuasse para sempre.
– Você está linda demais esta noite – continuou ela. – Quando a vi nesse vestido... Nossa, Marina. Eu a achava linda antes, mas hoje você se superou. – As pontas de seus dedos acariciaram a parte de trás do meu vestido, sentindo o tecido refinado. – Veludo e seda pretos ficam perfeitos em você. Parece um noturno de Chopin. Uma harmonia suave e ao mesmo tempo estimulante, feita para ser desfrutada à noite... – Não, Clara...
– Eu não poderia permitir que aquele garota...
– Você está com a Fernanda – lembrei um tanto bruscamente. – Não comigo.
Uma dor fugaz relampejou nos olhos dela, quase como se eu tivesse lhe dado outro tapa. – É, claro. Está certa. Não vou interferir de novo, Marianne. Prometo.
Meus dedos apertaram seu ombro ao ouvir meu antigo nome. O nome que eu havia notado que ela tinha parado de usar.
– Você me chamou pelo meu nome. Meu antigo nome.
Clara apertou minha mão, comprimindo o polegar contra minha palma. – Velhos hábitos. Velhos nomes. Velhas almas.
– É isso o que somos? – Examinei seus olhos escuros. Nós tínhamos uma ligação... Montanhas escuras, pactos de sangue... Ela não podia negar... Mas negou.
– Estes são novos tempos.
Mesmo assim, Clara soltou minha mão para me abraçar mais completamente, me puxar mais para perto, até eu quase me sentir parte dela. Quase não dançávamos mais, ficando apenas paradas juntas, no meio da pista de dança.
– Como você me exaspera – sussurrou ela perto do meu ouvido. – Como testa minha 
decisão.
E antes mesmo que eu pudesse questionar o que ela queria dizer – era eu que a exasperava? –, ela encostou a testa na minha, como Santiago havia feito pouco antes. Só que Clara não moveu a boca na direção da minha. Apenas roçou os lábios de leve na minha bochecha e desceu pelo maxilar até o meu pescoço.
Uma sensação ferozmente maravilhosa e aterrorizante me fez estremecer e, na fração de segundo em que sua boca passou pela minha jugular, todo o ginásio desapareceu. Estávamos sozinhas, eu poderia jurar, numa sala de pedras iluminada por velas, os pés descalços num grosso tapete persa, uma lareira ardendo às minhas costas. Eu já estivera lá. Eu sabia.
Clara abriu a boca ligeiramente e eu senti um toque levíssimo de suas presas acariciando minha pele, logo acima do ponto onde meu sangue pulsava mais forte. Suas presas...
Eu não me importava se aquilo era irracional. Não me importava se era impossível. Só queria senti-las. Precisava delas, como jamais havia precisado de qualquer coisa na vida. Meus dentes começaram a ficar doloridos. Era aquela agonia deliciosa, delirante, de alguma coisa lutando para nascer.
– Clara... por favor... – Inclinei a cabeça para trás, expondo o pescoço para ela, ansiando por envolver sua nuca com as mãos, enfiar os dedos em seus cabelos compridos e escuros e puxar aquelas presas fundo nas minhas veias. O desejo era intenso a ponto de também ser dor. Dor e prazer misturados do modo mais inconcebivelmente maravilhoso.
– Ah, Marianne – sussurrou ela, a voz rouca no meu ouvido, testando minha carne com aqueles incisivos afiados como navalhas... Agora... agora... por favor, faça agora... – Com licença! Oiê!
A imagem se despedaçou. Meus olhos se abriram e eu estava de volta ao ginásio da escola, bombardeada por um número exagerado de luzes piscando. Nós nos separamos de forma abrupta e Clara passou a mão pelos cabelos pretos, lambendo os lábios, sem sinal das presas. Parecia abalada.
– Me esqueceu, sua boba? – disse Fernanda Cerqueira, parada perto da gente, mãos nos quadris, balançando a cabeça. – Se eu não soubesse das coisas, juraria que você estava ficando um pouquinho perto demais de sua anfitriã aí. – Seu tom era leve, mas ela me cutucou com o dedo e havia raiva e descrença em seus olhos. Sua expressão dizia com todas as letras: “Não tem nenhuma chance de me trocar por isso.”
– Clara e eu só estávamos dançando – respondi com a voz firme, recuperando o autocontrole na mesma hora. Não entraria em pânico. Não ficaria sem graça. E não agiria como se ela fosse superior a mim ou a merecesse mais. Dei as costas para Fernanda. – Preciso encontrar o Santiago – falei para Clara.
– Espere – insistiu Clara, tentando me alcançar. Mas Fernanda interveio, agarrando a mão dela.

– Tenho certeza de que Marina quer voltar para o acompanhante dela. E sei bem que você também quer voltar para a sua. – Mari...
Estava prestes a acontecer uma cena. Outros casais começaram a olhar.
– Obrigada pela dança – respondi, sorrindo e recuando. – Ela é toda sua, Fernanda.
– Ah, eu sei disso – disse ela, o sorriso com um brilho tão gelado quanto o do vestido. Foi logo agarrando Clara, mas ela continuou a olhar para mim. Acho que havia compaixão em seus olhos. Ou um pedido de desculpas. Talvez ela simplesmente não pudesse se conter. Talvez fosse mesmo como todo adolescente. Na hora da necessidade, qualquer pescoço serviria. Mais uma vez eu quase tinha sido usada – um erro –, como naquele dia no quarto dela. Será que eu era tão incapaz de enxergar suas verdadeiras intenções? Que poder ela tinha sobre mim que me fazia cair de novo, de novo e de novo? Meu Deus, ela quase mordeu meu pescoço...
Encontrei seu olhar durante um longo tempo através da pista de dança, depois dei as costas lentamente a Clara Vlascarponni  e fui andando, de cabeça erguida e ombros alinhados, enfrentando a multidão. As pessoas saíam da frente, abrindo caminho para mim. Eu me recusei a olhar para trás, mas esperava que ela estivesse me observando. E percebendo que tinha cometido um erro terrível ao me trocar por Fernanda Cerqueira.
Com pena de mim? Fala sério. Eu que tenho pena de você, Clara.
Santiago não estava em lugar nenhum. Não fiquei surpresa. Eu havia colocado nós dois numa situação humilhante. Qualquer um que tivesse prestado atenção pensaria que Clara e eu estávamos perto demais. Provavelmente tivemos sorte de ninguém ter visto suas presas.
Acabei ligando para minha mãe e pedindo uma carona. Fiquei em silêncio durante todo o caminho para casa, odiando vampiros. Vampiras intrometidas, que destruíam corações, não sabiam controlar seus hormônios e mordiam pescoços.

***

FREDERIC,
Foi assim que você planejou isso o tempo todo? Claro que foi.
Como fui idiota por não perceber o esquema em sua totalidade. Ou – devo ser honesta comigo mesma – talvez eu conhecesse a verdade. Mas queria tanto o poder também...
Esta noite, porém, quando encostei as presas no pescoço de Marianne, todo o futuro ficou claro para mim. O cheiro do sangue dela foi como um soro da verdade injetado nas minhas veias, um espelho rachado refletindo meu próprio eu infernal.
Você sabia o tempo todo que uma garota brasileira que não fosse criada como vampira seria destruída com facilidade caso assumisse o trono. A carta que escrevi, alertando que Marina não estava preparada, que estaria vulnerável ao ataque de fêmeas famintas de poder, não foi uma revelação para você. A fragilidade dela o agradava. Você contava com isso. Ah, meu Deus, Frederic, será que nós contávamos com isso?
Eu teria me casado com ela, cumprindo o pacto, teria levado Marianne para o nosso mundo na Romênia, onde ela ficaria quase absolutamente indefesa, e então iria abandoná-la ao seu destino sinistro. Quando? Quanto tempo isso teria demorado? Um ano? Menos? Mas, a essa altura, os clãs iriam estar unidos de forma legítima e todo o poder estaria nas nossas mãos. Nas suas mãos.
Você forçaria o destino, Frederic? Iria derrubá-la pessoalmente? Em segredo, é claro, com a mão enluvada de um dos seus lacaios... ou tentaria forçar a minha mão?
Com Marianne  escondida em nosso castelo no alto, quem seria melhor para cuidar de sua destruição “desafortunada” do que a mulher  que compartilhava a cama com ela?
Seria este o golpe mais cruel, Frederic? Fazer com que eu me sentisse como me sinto e depois arruiná-la? Seria esta sua maior tentativa de me endurecer? Mesmo para você isso parece maligno demais. Vil demais. Ou talvez, mesmo depois de todos esses anos, eu
o subestime – o que é sempre um erro perigoso.
E se eu não fizesse como me orientou, se não a destruísse, você me despacharia também, acusando-me de insubordinação? Eliminaria a herdeira inconveniente? Quem, entre os Anciões Vlascarponni – e presumo que todos conheçam e aplaudam suas intenções relativas a Marina –, iria culpá-lo?
Que desgraça! Que poder você teria então: controle absoluto sobre os dois maiores clãs de vampiros, sem nenhum sucessor para mordiscar seus calcanhares.
Você sabia o tempo todo que eu chegaria a ter um sentimento tão profundo por ela? Não é adequadamente cruel, Frederic, que, agora, para tê-la, eu precise abrir mão dela?  Libere-nos, Frederic. Libere Marianne de mim e me libere, também, ainda que por pouco tempo. Apenas por alguns meses. É tudo o que peço. Deixe-me em paz. Não quero pensar em pactos, em poder nem em nada do que, como você, sou capaz de fazer.
Porque a parte mais doentia é que, mesmo de má vontade, admiro sua estratégia. Sinto um prazer doentio ao ver o plano em sua totalidade. Ao saber que, no seu lugar, eu teria feito a mesma coisa: sacrificaria uma adolescente brasileira  insignificante sem pensar duas vezes, no interesse de comandar tantas legiões malditas de vampiros. Quase posso sentir o poder em minhas mãos.
Mas, é óbvio, eu sou quem sou: produto de suas mãos. Assim permaneço, como sempre, Sua,
Sempre, irrevogavelmente e irredimivelmente, Clara
P.S.: Marianne pode surpreender todos nós, Frederic. Pode mesmo. Talvez tenha uma tremenda capacidade de lutar. Mas não serei o instrumento de sua inevitável destruição.
P.P.S.: No caso de você não ter deduzido o que quis dizer com tudo o que escrevi acima, deixe-me ser clara: opto por desobedecer o pacto.
A escolha não é uma coisa maravilhosa, Frederic? Não é de espantar que os brasileiros  deem tanto valor a ela.



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