História Como se livrar de uma vampira apaixonada - Capítulo 9


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Categorias Em Família
Tags Clara, Em Família, Marina
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Palavras 8.546
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Comédia, Ficção, Ficção Adolescente, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 9 - Capitulo 9


– Marina?
Meus olhos se abriram de repente. Eu estava no meu quarto, deitada na cama, no escuro, mas havia alguém ali. Sentei-me num pulo, procurando a luz.
Outra pessoa a acendeu. Comecei a gritar, mas uma mão firme sobre a minha boca me impediu, empurrando-me de volta no travesseiro.
– Não grite, por favor – sussurrou Clara enquanto eu me retorcia. Fiquei parada e ela afastou a mão. – Peço desculpas por assustá-la e pelo tratamento grosseiro. Mas eu precisava falar com você.
Por um momento fiquei quase empolgada em encontrá-la no meu quarto. Ela está aqui por minha causa... E então todos os acontecimentos da noite voltaram de uma vez. Sentando-me de novo, apertei as cobertas em volta do peito.
– O que você quer? – falei rispidamente, olhando o relógio. – São três da madrugada!
– Não pude dormir depois do que aconteceu esta noite. – Ela se sentou na beira da cama, sem ser convidada. ainda vestia a roupa do baile – Só vou conseguir descansar depois que conversarmos.
Levantando as cobertas, olhei para mim mesma, sem certeza do que usava para dormir. Será que estou decente, pelo menos?
– Está tudo coberto – garantiu Clara, com um sorriso minúsculo nos lábios. – Sua roupa de dormir não revela nada além do amor insistente pelos cavalos árabes.
– Você está numa situação tão precária que nem acredito que tentou fazer uma piada. Passou totalmente dos limites.  ficou sem jeito.
– É mesmo. Só fiz a brincadeira na esperança de fingir que nosso relacionamento não tinha mudado esta noite.
– Você quase me mordeu, Clara. E depois foi embora com a Fernanda. Com certeza as coisas mudaram.
– O que fiz esta noite, ou o que quase fiz esta noite, foi imperdoável – concordou ela, arrasada. – Foi repreensível. Não somente por ter chegado perto de mordê-la, mas também por fazê-lo em público. E com Fernanda  olhando, a mulher que me acompanhava. Não sei o que me deu. Nem sei como começar a pedir o seu perdão.
Tudo naquele pedido de perdão doía. Estar perto de mim era “repreensível”? Era “imperdoável”? Ela não conseguia imaginar “o que deu nela” para sentir atração por uma criatura tão repulsiva como eu. Ainda mais porque isso poderia ter perturbado sua preciosa  prioridade: Fernanda Cerqueira.
Clara suspirou, interpretando corretamente o meu silêncio. – Você me despreza mais do que nunca, não é? – É.
– Você foi embora. Imagino que Santiago tenha ficado chateado. – Vamos sobreviver.
Meu tom frio pareceu confundi-la.
– É. Acho que vamos. – Ela esperou. – Pensei que você teria mais a dizer.
– O que quer que eu diga, Clara? – Eu pretendia dar um gelo nela, mas de repente tudo saiu numa explosão. – Você aparece na minha porta, me persegue durante meses e, quando finalmente me convence de que sou especial, quando finalmente sinto algo por você, você vira tudo de cabeça para baixo e fica de quatro pela mesma loura perfeitinha de quem todo cara gosta. Você é tão típica...
– É verdade? Você começou a sentir algo por mim? Sua voz estava agridoce. Mais azeda do que doce. – Senti, Clara. Senti. Só por um momento. – Minha raiva foi sumindo, acomodando-se numa tristeza carrancuda. – Agora parece um pesadelo. Um “erro”, para usar a sua palavra. Um erro terrível.
Clara esfregou os olhos cansados.
– Ah, Marina... Não pense que sabe toda a verdade sobre o que faço ou digo – retrucou ela, enigmática. – Às vezes nem eu sei. Se pareço incoerente, é porque estou lutando comigo mesma.
Ela se inclinou para a frente, torcendo as mãos. – Que desgraça. Fiz uma tremenda confusão. – É. Acho que sim.
Ela me olhou com sofrimento nos olhos.
– Você nunca vai entender como é ser seduzida pela normalidade. Quase funguei.
– Você? Normal? – Sim, eu. Normal. – A última coisa com a qual você já se importou foi em ser normal. – Não, Marina. Isso não é totalmente verdade. Não nos últimos tempos. – Clara se levantou e começou a andar pelo meu quarto pequeno, falando baixinho, quase consigo mesma. – Você não faz ideia de como foi ser criada na solidão. Ser criada para um objetivo. Seus pais, Marina, não têm em mente uma finalidade para você. Você não é uma ferramenta deles. Você existe apenas para ser amada por eles. Sabe como isso é estranho para mim? Olhei para ela, sem saber o que dizer. Sem querer interrompê-la. Ela parou e sorriu para mim, um sorriso triste.
– Eu vim para cá e, de repente, havia todo um mundo novo. Nossos colegas de escola, por 
exemplo. Eles têm permissão para ser tão... tão frívolos! – Você detesta frivolidade.
– Mas a frivolidade é fácil. – O sorriso sumiu. – Eu costumava achar que os adolescentes brasileiros fossem ridiculamente voltados para si mesmos. Mas isso é viciante, por falta de uma palavra melhor. Eu me vi atraída pelo seu mundo. Estar entre vocês é estar de férias. As primeiras férias da minha vida. Se descontarmos as pressões inerentes ao cumprimento do pacto, não há expectativas para mim, além de fazer uma cesta de três pontos antes de o sinal tocar.
– Clara, o que você está tentando dizer? Ela se deixou afundar de novo na cama. – Acho que estou relutante em abrir mão de tudo isso por agora. – Abrir mão de quê?
– Dos bailes enfeitados com papel crepom barato. Dos jeans. Do basquete. De estar com uma garota sem o peso de gerações espiando por cima dos meus ombros... – Fernanda. Você não quer abrir mão de Fernanda. Ela recuou.
– Para uma garota que bloqueou todas as minhas tentativas de fazer a corte, de repente você está muito possessiva.
– Era você que ficava dizendo como era importante nós duas nos casarmos, caramba! Clara  passou os dedos pelos cabelos cor castanhos.
– Se eu tivesse mordido você esta noite não haveria como voltar atrás. Sabe disso, não sabe? Eternidade. É isso o que estará em jogo quando estivermos juntas. Eternidade. Está preparada para isso? E, Marina, uma parceria comigo não é algo que você deveria desejar. A eternidade pode vir mais depressa do que prevíamos, caso se junte a mim. – Não entendi.
Ela segurou minha mão, entrelaçando meus dedos.
– E é exatamente por isso, Marina  Meirelles, que eu a liberei. – O quê?
– Eu dissolvi o pacto.
– Por causa de Fernanda – repeti, puxando a mão. Odiei o ciúme que me rasgava como uma força física. – Você quer morder a Fernanda. É disso que se trata. Clara balançou a cabeça.
– Não. Eu não morderia Fernanda. Se bem que não tenho certeza se reluto por impor a condição de vampira em Fernanda ou por impor Fernanda ao mundo dos vampiros. Não acreditei. Sabia que ela queria Fernanda.
– Clara, de acordo com o pacto, você precisa me morder. Nós estamos prometidas uma a outra. Se não fizer isso, violará o tratado e a guerra vai começar... – Estou tentando lhe dizer, Marina, que o pacto não existe mais. Na voz dela havia um tom definitivo que me apavorou e meu ciúme foi substituído por uma gitação mais doentia, mais forte. – O que você fez, Clara?
– Escrevi aos Anciões. Avisei-os de que não vou mais participar desse jogo ridículo. – Você o quê? – Isso saiu quase como um grito. – Você o quê? – repeti, baixinho. Houve um tremor de medo, mas também de determinação, nos olhos de Clara. – Escrevi ao meu tio Frederic. Cancelei todo o combinado. – Achei que não pudesse fazer isso. – Mas fiz.
Minha agitação se intensificou, virando pavor e fazendo minha nuca arrepiar. A última coisa que eu esperava ver no rosto de Clara era medo. Por isso soube que ela estava numa encrenca enorme.
– O que vai acontecer?
– Não sei – admitiu Clara. – Mas você vai estar em segurança. Não deve se preocupar. Fui eu que tomei a decisão. Eles não lhe farão mal. – Ela segurou minha mão de novo e permiti que ela cruzasse nossos dedos outra vez. – Mesmo que isso custe minha existência, Marianne, você estará em segurança. Eu lhe devo isso, por motivos que nunca precisará saber ou entender.
O pânico tomou conta de mim e apertei os dedos dela com força. – O que vai acontecer, Clara?
– Não deve se preocupar com isso.
– Clara... – Pensei na cicatriz pequena  no seu braço. Em suas palavras. “É claro que eles batiam em mim. Repetidamente. Estavam criando um guerreira...” – Eles vão castigar você?
Ela deu uma risada sombria.
– Ah, Marianne. Castigo não é exatamente a palavra para o que vou enfrentar nas mãos dos Anciões.
– A gente pode tentar argumentar com eles... – falei, sabendo que era uma sugestão impraticável.
Clara sorriu para mim e havia ternura no rosto dela.
– Você tem um coração bom e é abençoada com uma ingenuidade que às vezes é perigosa. Mas o mundo está repleto de criaturas como minha pobre e malfadada Fera. E eu. Criaturas que presenciaram coisas monstruosas e acabaram por se tornar monstros também. Criaturas que talvez devessem ser sacrificadas.
– Para com isso, Clara – exigi. – Para de falar assim!
– É verdade, Marianne. Você nem pode conceber as coisas que aparecem nos meus sonhos, nas minhas tramas e na minha imaginação... Engoli em seco.
– Foi isso o que quis dizer no Halloween, quando falou que poderia me mostrar coisas “não legais”?

Os dedos de Clara  apertaram os meus.
– Ah, não, Marianne. Nada de violência contra você. Independentemente do que pensa de mim ou do que vá recordar de mim no futuro, por favor, acredite que eu não iria nem poderia fazer mal a você. Talvez houvesse um tempo, antes de eu conhecê-la, em que, se você tivesse ficado no meu caminho para o poder... mas agora, não. – Ela hesitou e afastou o olhar. Depois murmurou: – Meu Deus, espero que não...
– Tudo bem, Clara – acalmei-a. – Sei que não faria mal a mim. – Mesmo assim, ela ter admitido aquilo me abalou. Houve um tempo em que ela poderia ter feito mal a mim? Por que acrescentou aquela advertência no final?
Mas Clara não estava me escutando. Ela olhava fixamente para as paredes cor-de-rosa que tanto odiava.
– Para minha família, para os meus filhos, poderia ter sido diferente.-filhos? Ela quer ter filhos...-fiquei pensando. Eu realmente vi um novo caminho aqui, apesar de todas as vezes que zombei deste lugar e de suas convenções. – E se você ficasse aqui? – sugeri, esperançosa. – Poderia viver como uma pessoa comum. Assim que soltei as palavras, percebi como pareciam bobas. Mesmo assim Clara me surpreendeu, dizendo:
– Talvez por mais algumas semanas, se eu tiver sorte. – Só isso?
– Só. Sei qual é o meu lugar e eu seria atraída de volta a ele. – Clara desentrelaçou nossos dedos, ficando de pé. – O importante é que saiba que está liberada do pacto. Absolvida. Você está livre para... bem... – Um toque de seu riso de zombaria se esgueirou de volta na voz dela. – Livre para fazer o que quiser da vida. Ir à faculdade. Morar em alguma casa de dois andares no subúrbio. Ter filhinhos de cabelos louros, com gosto pela vida rural, correndo pelo campo. Seu destino lhe pertence. Isso eu prometo. – E se eu não quiser mais essas coisas?
– Confie em mim, Marianne... Marina. Um dia você vai olhar para esses poucos meses e achar que não passaram de um sonho estranho. Um pesadelo em potencial. E vai ficar muito, muito feliz, por ele jamais ter se realizado.
Então Clara beijou minha testa e eu soube que o peso de nosso destino compartilhado jamais seria tirado de seus ombros. Ela podia brincar de ser uma adolescente normal, mas isso era apenas um breve adiamento. O destino de Clara Vlascarponni estava amarrado em pergaminhos, preso em genealogias e imposto por punhos ou coisa pior. Isso me deu calafrios.
Ouvi seus passos indo em direção à porta, mas ela parou antes de sair.
– A criatura mais linda que eu já vi na vida foi você, esta noite – disse baixinho. – Quando dançamos... e a visão de você me deixando, com a cabeça erguida, sem olhar para trás, enquanto as pessoas abriam caminho... Não importa onde more e com quem escolha se casar, Marina, você sempre vai fazer parte da realeza. E vou me lembrar eternamente de sua imagem esta noite, assim como vou me recordar do modo como chorou por mim quando eu 
estava machucada lá embaixo. Esses são dois presentes que você me deu e que vou guardar enquanto puder.
Clara saiu e fechou a porta. Depois, apesar da doçura e do calor de suas palavras, estremeci no escuro.

***

Demorou menos de uma semana para o inferno se abrir, depois que a
carta de Clara  chegou à região rural perto de Sighişoara, na Romênia.
Enquanto isso, Clara sugava tudo o que podia da típica vida de adolescente brasileiro como se ela fosse uma veia farta. Jogava basquete durante horas e horas, matava aula e até deu uma festa em seu apartamento na garagem, que terminou com uma batida da polícia e uma ameaça por parte de meus pais de deportá-la no próximo voo para Bucareste. Fernanda estava o tempo todo a seu lado, como se elas tivessem sido grudadas com cola.
E então, Clara, mamãe, papai e eu fomos convocados para um encontro com os Anciões, que aconteceria no estado da goiânia. Eles se dignaram a marcar uma reunião aqui, tão séria era a crise. Não havia escolha a não ser comparecer.
– Não acredito que eles vão se reunir numa churrascaria – reclamou mamãe, entrando com relutância na Bife do Oeste, na véspera de ano- -novo, na hora marcada. – É como um tapa na cara. Eles sabem que somos vegetarianos. – É um jogo de poder – concordou papai. – Por favor, apenas cooperem – implorei. Eu sentia que as coisas já iam ficar feias o bastante sem que papai e mamãe tivessem de se preocupar com a comida. – Aqui servem saladas.
– Cheias de agrotóxicos – fungou papai. – De conservantes. Às vezes papai assumia uma perspectiva muito limitada.
– Nós viemos para uma reunião – disse mamãe à recepcionista.
– Com um bando de... homens mais velhos – acrescentei. – Eles disseram que reservaram uma sala.
Um medo tão cru quanto a carne que havia nos freezers atravessou o rosto da recepcionista, mas ela conseguiu dar um sorriso enquanto localizava três cardápios. – Aqui, por favor.
– Ai, merda – não consegui deixar de dizer enquanto entrávamos na sala. Mamãe apertou minha mão. – Está tudo bem, Marina. Mas não parecia nem um pouco bem. No meio de uma sala forrada em lambri e enfeitada alegremente com recortes de papelão de Papai Noel com duendes e renas de narizes brilhantes, 13 dos velhos mais tenebrosos que eu já vira estavam encurvados ao redor de uma mesa circular, golpeando uma enorme bandeja cheia de carne sangrenta, muitíssimo malpassada. Eles jogavam pedaços de carne vermelha nos pratos e não comiam. Apenas... chupavam. O sumo. O sangue que escorria. Ainda que o aquecimento estivesse ligado no restaurante, o ar era frio com a presença deles. E o cheiro de sangue fazia minhas narinas pinicarem, penetrava nos poros e me fazia cócegas no estômago.
Meus pais apertaram a barriga e meu pai começou a ter ânsias de vômito.
O vampiro mais velho e mais assustador levantou com relutância o olhar de seu festim. Indicou três cadeiras vazias.
– Por favor, sentem-se. E desculpem-nos por termos começado sem vocês. Estávamos famintos por conta da viagem.
Frederic. Tinha que ser o tio de Clara, Frederic. Havia uma semelhança muito vaga nas feições deles e a mesma pose de poder contido. Mas o velho vampiro Vlascarponni não tinha o charme, a graça e o maravilhoso brilho de malícia que havia nos olhos de Clara. Frederic parecia mais uma versão atormentada e deformada da sobrinha. Enquanto o poder de Clara era bonito de se testemunhar, temperado com humor e até mesmo alegria, o de Frederic era amargo e repugnante. Fiquei angustiada ao pensar em Clara – na maravilhosa e divertida Clarinha – sob o jugo daquele homem, sentindo seu punho... – Sentem-se – ordenou Frederic de novo.
Até mesmo a arrogância, que havia se tornado um dos traços mais cativantes de Clara, se assentava de modo totalmente errado nos ombros encurvados do tio.
Obedecemos e nos sentamos. A recepcionista nos entregou os cardápios, lançando-nos um olhar piedoso, como se fôssemos reféns.
– Vocês vão querer...? – Ela fez um gesto para a pilha de carne, sem certeza do que falar. – Ou devo chamar uma garçonete?
– Só três saladas do bufê – disse mamãe por nós três, devolvendo o cardápio. Dava para ver que ela estava lutando para manter a compostura diante da carnificina. Olhei ao redor da mesa.
Havia uma cadeira vazia. Imaginei se Clara iria aparecer. E então a porta se abriu e ela entrou. Eu até esperava que ela estivesse com as roupas antigas – o sobretudo de veludo e a calça preta –, mas ela usava calça jeans e seu casaco de moletom da Grantley. Senti que estava demarcando seu território logo no início. Um desafio. E, apesar disso, circulou ao redor da mesa apertando as mãos de cada um dos presentes. – Tio Frederic. Tio Teodor.
Cada vampiro interrompeu o consumo de sangue apenas o suficiente para apertar a mão dela antes de voltar ao festim. Clara se sentou, piscando para nós. Dava para ver que estava nervosa.
– Ela está com medo deles – sussurrou mamãe no meu ouvido.
– Eu também – confessei. – Você reconhece algum, da Romênia? Mamãe assentiu ligeiramente.

– Acho que me lembro de um ou dois, mas foi há muito tempo.
– Comam – instigou Frederic, apontando o garfo para nós. – Depois, falaremos.
Meus pais foram para o bufê de saladas e eu fui atrás, mas não sem olhar por cima do ombro para aqueles pedaços de carne, com desejo. O odor do sangue... era inebriante demais. Apesar de meus temores por Clara e por todos nós, aquele cheiro me atraía. Fiquei culpada por me sentir assim naquele momento tão pavoroso.
Quando retornamos ficou bastante óbvio que havíamos interrompido uma discussão intensa, ainda que em voz baixa. A bandeja estava cheia de pedaços de carne que foram sugados até ficarem secos e os pratos individuais haviam sido empurrados para a frente. Todas as cabeças estavam viradas para Clara, sentada imóvel. Os olhos dela se voltaram rapidamente para nós.
– Os Meirelles precisam estar aqui?
Ficamos de pé, segurando os pratos de salada, à espera do veredicto. Eu não sabia o que teríamos feito se Frederic dissesse para irmos embora. – Sim – respondeu ele. – Eles devem ficar. Pusemos nossos pratos na mesa e o som ecoou na sala subitamente silenciosa. Em seguida puxamos as cadeiras e nos sentamos. – Comam – ordenou Frederic, de novo. Até o molho da salada parecia grudar na minha garganta, por isso dei algumas mordidas, só para constar, e empurrei o prato.
O vampiro à minha direita se inclinou para mim. Não mais encurvado sobre um pedaço de carne sangrenta, ele passaria por um empresário qualquer que tivesse saído para jantar. Só que havia algo diferente nele. Algo ameaçador nos olhos. Então esses são os Anciões... – Não está com fome? – perguntou ele, com sotaque forte.
– Não – respondi, obrigando-me a encarar seus olhos pretos. Não iria me encolher nem demonstrar medo. É esse o meu povo? A minha espécie?
– Eles terminaram – anunciou Frederic, levantando-se depois que meus pais também haviam empurrado os pratos. – Farei as apresentações.
O velho rodeou a mesa citando os nomes, mas não gravei nenhum. Estava ocupada demais observando Clara. Ela parecia uma condenada que esperava a cadeira elétrica na companhia dos carrascos e não quis me encarar.
Frederic se sentou, dobrando o corpo comprido na cadeira como se fosse uma espécie de acordeão humano. Juntou as mãos à sua frente, unindo os dedos esqueléticos e nodosos. – O que vamos fazer com essas duas jovens?
– Com as duas jovens, não – interrompeu Clara. – Só comigo. Isso diz respeito apenas a mim.
– Silêncio – sibilou Frederic.
– Claro, senhor – cedeu Clara. Frederic olhou para os meus pais.

Vocês sabem que Clara decidiu, com uma espécie de ataque de independência – ele cuspiu a palavra –, que não cumprirá mais o pacto. Todos assentimos.
– Clara nos contou – disse papai. – E nós apoiamos sua escolha. Além disso, ela está convidada a ficar conosco pelo tempo que desejar.
– Vocês “ apoiam sua escolha”? – trovejou Frederic, incrédulo. – Vocês apoiam a insubordinação dela?
– Olhe, Frederic – começou meu pai. Sua voz falhou e havia um pedaço de espinafre preso em seus dentes, mas mesmo assim senti orgulho dele. – Elas não passam de umas pirralhas. – Não conheço esse termo – disse Frederic.
– Pirralhas. Jovens. Adolescentes. Por que não deixá-las à vontade... Frederic  bateu na mesa e alguns pedaços de carne ressecada caíram da pilha. – Deixá-las à vontade?
Mamãe pôs a mão no meu braço.
– É – acrescentou ela, corajosamente. – Se Clara decidiu que quer romper o pacto... Bem, aquilo foi feito há muito tempo e ela é uma menina. Vocês devem entender que seria ridículo esperar que essas duas adolescentes se apaixonassem e se casassem só por causa de um decreto.
Olhei para Clara. Seus olhos estavam fixos em Frederic.
– Se apaixonassem? – rosnou Frederic. – Quem disse algo sobre amor? Isso tem a ver com o poder.
– Tem a ver com duas  adolescentes – contradisse meu pai. – Clara está namorando outra moça e Marina está se preparando para a faculdade...
Sem dúvida meu pai falara o que não devia. Ao ouvir a expressão “namorando outra moça”, Frederic  saltou da cadeira e girou para Clara feito um chicote estalando. Clara se encolheu, como se tivesse sido golpeada no rosto. – Cortejando? – rugiu Frederic. – Fora do pacto? – É a minha escolha – disse Clara calmamente, usando sua nova palavra predileta. – Marina estava receptiva ao pacto, mas escolhi outra coisa.
Apesar de saber que ela estava me protegendo, as palavras doeram. E mesmo nesse instante Clara não olhou para mim.
Seguindo uma deixa silenciosa que ignorei por completo, quatro vampiros idosos se levantaram e de repente Clara estava de pé, sendo levada para longe. Um dos vampiros mais velhos havia passado o braço pelos ombros dela, mas eu sabia que Clara não iria receber um sermão gentil de um tio bem-intencionado. – Aonde vocês vão levá-la? – indagou mamãe.
– Está tudo bem, Dra. Meirelles – garantiu Clara. Em seguida afastou o braço do parente que o segurava, como se preferisse receber sua punição com dignidade. – Por favor, não se envolvam em um assunto de família.

– Clara, espera – gritei, me levantando. Ela se virou para mim só por um segundo. – Não, Marina.
Um calombo enorme ficou preso na minha garganta enquanto eles a agarravam e a empurravam na direção da porta. Quatro contra uma. Covardes. Tentei segui-la, mas mamãe me puxou de volta. – Acho que não, Marina. Agora, não.
– Sente-se, por favor – acrescentou Frederic, com a voz cortês. – Mesmo que você fosse atrás... bom, não poderia encontrá-la. Ela está perfeitamente segura com a família.
– Acho que deveríamos ir embora – disse papai, ficando de pé. Mamãe e eu começamos a acompanhá-lo.
– Isso ainda não terminou – alertou Frederic, apontando um dedo esquelético para nós três. – Clara vai voltar com um pensamento diferente. E vocês não vão recuar diante de sua promessa.
Mamãe se eriçou.
– Minha filha não vai fazer nada contra a vontade.
– A vontade dela é se casar com minha sobrinha. Sua filha está destinada a ela. Ela sabe. Para usar sua expressão, ela a ama. Papai me olhou.
– Do que ele está falando, Marina? – Não sei – gaguejei.
– Eu vi seu olhar quando Clara foi levada. – Frederic gargalhou. – Ser criada entre humanos a deixou transparente demais.
– Estamos indo – concluiu papai, agarrando meu braço.
– Boa noite, por enquanto – disse Frederic, me fazendo uma ligeira reverência.
Enquanto passávamos, rodeando a mesa, pelo clã de vampiros senti algo sendo posto na palma da minha mão. O movimento foi tão rápido que pareceu um truque de mágica. De algum modo tive o bom senso de não gritar. Olhando para trás, captei o olhar de um vampiro que não havia notado antes. Era um pouco mais gordo do que os outros e um pouco mais baixo, e sua pele era rosada. Os olhos tinham uma leve sugestão de diversão e, quando o encarei, ele pôs um dedo nos lábios, sinalizando que agora compartilhávamos um segredo, e piscou para mim.
Segurei o pedaço de papel até chegar ao meu quarto e o abri com dedos desajeitados de impaciência. Era um bilhete:
Não fique tão apavorada por enquanto. Nem tudo está perdido. Você parece uma boa garota. Frederic é despótico. Sempre cheio de si. Encontre-se comigo amanhã naquele belo parque que tem um riacho. Que tal por volta das 10?
Estarei no coreto. E vamos manter isso entre nós, hein? Daniel.

***

Mamãe entrou no meu quarto por volta da meia-noite e falou:
– A luz do quarto dela ainda não se acendeu. – Você também está vigiando?
Eu estava olhando pela janela, em direção à garagem. – Claro.
Afastei o olhar só por um momento. – Acha que ela vai ficar bem? – Sinceramente, não sei.
– Você sabia que eles batem nela?
Mamãe puxou mais ainda a cortina, juntando-se à minha vigília. – Não tinha certeza, mas suspeitava.
– Clara disse que batiam nela repetidamente.
Quando pronunciei essas palavras em voz alta, meu medo já intenso beirou o pânico.
– Eu lhe contei que os Vlascarponni têm a reputação de serem implacáveis e que Clara foi criada para ser a princesa deles – disse mamãe, soltando a cortina. – Não fico surpresa em saber que ela não teve uma infância feliz. – Ela se sentou ao meu lado na cama e beijou minha testa, como fazia quando eu era criança e tinha medo de trovões. – Mas Clara é forte – lembrou ela. – Tente não deixar que seu medo a domine.
Mas dava para ver que ela tirava conclusões precipitadas. Como eu. – E se ela não voltar?
– Ela vai voltar. – Ela hesitou. – Mari, você a ama, de verdade?
Fui poupada de precisar responder quando uma luz se acendeu no apartamento em cima da garagem. O ar saiu dos meus pulmões num jorro e senti como se estivesse prendendo a respiração havia horas. Não esperei mamãe. Simplesmente saí correndo do quarto, com os pés descalços voando pelo quintal gelado. Não me importei com o frio.
Encontrei Clara no banheiro apertado da garagem. Estava sem sua blusa e de sutiã, curvada sobre a pia, lavando o rosto. Ela me ouviu entrar mas não se virou. – Vá embora.
– Clara, o que aconteceu? Ela continuou curvada. – Deixe-me em paz. Cheguei mais perto. – Não. Vira pra mim. – Não.

Passos soaram na escada e mamãe apareceu atrás de mim. Deu um tapinha no meu braço e depois se aproximou de Clara do mesmo modo quieto e não ameaçador como eu tinha feito com Fera naquele dia terrível.
– Clara – disse ela com voz tranquilizadora, pondo a mão nas costas dela. Reconheci aquele gesto de quando eu era criança e passava mal, vomitando. Os músculos de suas costas  estremeceram.
Percebi que talvez, apenas talvez, ela estivesse chorando. Ou tentando não chorar. Com muita força.
Mamãe se curvou perto de Clara, puxando seu cabelo castanho comprido para trás. Em seguida se empertigou e se dirigiu a mim:
– Marina, vá pegar o kit de primeiros socorros, embaixo da pia da cozinha. – Mamãe, ela está bem?
– Vá, Mari – disse ela, com calma.
Eu não queria ir. Queria ficar com Clara. – Agora – insistiu ela. – Tô indo.
Parei junto à porta, olhando para trás, e vi que minha mãe havia puxado Clara para si, envolvendo-a com os braços. Ela tremia. Mamãe acariciava seu cabelo, falando com ela baixinho. Era por isso que minha mãe tinha me mandado sair. Sabia que Clara não queria que eu a visse desmoronar, talvez sob a pressão do primeiro toque maternal que sentira na vida. Fechando a porta em silêncio, a obedeci e fui correndo para casa.
Voltei com o kit de primeiros socorros, seguida por meu pai grogue, ainda lutando para amarrar o roupão na cintura.
A essa altura, Clara já estava deitada na cama, com minha mãe sentada a seu lado. Ela acendeu o abajur da mesa de cabeceira enquanto eu lhe entregava o kit. Clara virou o rosto para a parede, mas pude ver que ela fora muito machucada. Seu lábio estava cortado e hematomas escuros se formavam na bochecha. O nariz parecia meio torto. – Vou pegar uma toalha molhada – ofereceu papai, querendo ser útil.
– Estou bem – insistiu Clara. Mas se encolheu quando mamãe passou álcool em sua boca. – Você não está bem – disse mamãe.
– Não é o meu melhor ano, hein? – zombou Clara, amarga. – Pelo menos a égua não sabia
o que estava fazendo.
Papai se sentou também, ao pé da cama. Segurava distraidamente a toalha molhada como se não soubesse o que fazer com ela, agora que a havia trazido. – Clara, o que aconteceu? Clara não respondeu.
– Clara – instigou papai de novo. – Conte para a gente.
– Marina deveria ir dormir – disse Clara, o rosto ainda virado para a parede. – Está tarde.
– Quero ficar.
– Você é uma criança – disse Clara. Sua voz estava rouca. Distante. – Não precisa tomar parte em nada disso.
Meus pais se entreolharam e eu percebi que, naquele momento, eles julgariam se eu ainda era mesmo criança.
– Mari pode ficar, se quiser – declarou papai. – Isso a afeta, também.
– Eu vou embora pela manhã – prometeu Clara. – Não vou mais afetar nenhum de vocês. – Você não vai a lugar nenhum – disse mamãe, pegando a toalha molhada com papai e limpando um pouco de sangue do rosto de Clara. Em seguida, virou o rosto dela com delicadeza em sua direção e eu vi o estrago por inteiro pela primeira vez. Ainda que o quarto estivesse na penumbra, pude notar que, comparado com os “tios”, a égua tinha pegado leve. Meu estômago doeu de raiva e tristeza.
– Isso é entre mim e minha família – disse Clara. Em seguida ergueu o tronco um pouco. Ainda não tinha olhado para mim. – Vou para casa enfrentar a situação. Todos sabíamos o que isso significava. Mais dor. Mais cicatrizes.
– Aqui é a sua casa, agora – afirmou papai, com voz firme. – Você vai ficar.
Enquanto papai fazia o convite e eu observava mamãe cuidar dos ferimentos de Clara, vi, finalmente, as pessoas que haviam levado uma criança da Romênia, salvando a vida dela. De repente me ocorreu que, sem dúvida, eles arriscaram a vida por mim. Pareceu estranho e egoísta que eu nunca tivesse percebido isso antes. Eles sempre haviam desconsiderado os próprios riscos.
– Casa. – Clara cuspiu a palavra com desprezo. – É. Casa – disse mamãe.
– Isso mesmo – acrescentou papai, pondo a mão no braço de Clara. – Você ficou na garagem por tempo demais. Nunca percebi como aqui é frio. Esta noite vai se mudar para a casa. Permanentemente. Vamos arranjar espaço.
– Não posso me impor mais do que já fiz – respondeu Clara, falando com papai. – E vocês não precisam temer por minha causa. Os Anciões não planejam ficar. Confiem em mim. Eles têm certeza de que a mensagem foi entendida. Que vou obedecer.
– Mesmo assim quero que se mude para a casa – disse papai, não admitindo a recusa da Clara. – Consegue se levantar?
Clara parecia machucada e exausta demais para protestar. Mexeu as pernas devagar e parou na beira da cama.
– Desgraça! – disse ela, apertando as costelas. – Eles memorizam cada lugar que já foi quebrado em mim para poderem quebrar de novo, com mais eficiência.
Mamãe passou o braço pelos ombros nus de Clara, reconfortando-a, e eu desejei estar no lugar dela. Clara se apoiou, de novo se permitindo demonstrar um pouco de fraqueza, e ela
a segurou por um momento, olhando para meu pai por cima da cabeça abaixada de Clara. Havia uma tristeza profunda nos olhos dela.

Tente ficar de pé – disse papai, segurando Clara pelo braço.
– Obrigada – respondeu Clara. Mesmo espancada, ela mantinha uma postura nobre ao ficar de pé. – Obrigada por tudo. Desculpem-me por causar tanto aborrecimento.
– Não é aborrecimento, filha – garantiu papai, ajudando a firmar Clara com um braço em volta da cintura.
Clara se encolheu de novo enquanto mamãe também passava o braço pela cintura dela. Eles começaram a andar lentamente, mas Clara parou depois de alguns passos.
– Dra. Meirelles, Sr. Meirelles, no passado, eu nem sempre fui gentil. Acho que chamei vocês de... fracos. Vocês sabem que são muito diferentes da minha família.
– Tudo bem, Clara – garantiu mamãe, instigando-a a andar. – Não precisa falar mais nada.
– Não. Preciso, sim. Foi errado insultá-los e não só porque são meus anfitriões. Creio que confundi gentileza com fraqueza. Peço desculpas.
– Venha, Clara. – Papai deu um tapinha nas costas dela. – Desculpas aceitas. Agora vamos levá-la para a cama.
Fizemos um pequeno desfile patético, lento, pelo quintal gelado: mamãe, papai e Clara seguindo com dificuldade eu logo atrás. Minha mãe fez uma cama para Clara no escritório dela, um pequeno cubículo entre nossos quartos, e fingiu que ia se deitar. Mas eu sabia que meus pais estariam de vigília a noite toda. Sabia que não confiariam na afirmação de Clara, de que seus parentes brutais iam embora. E estavam preocupados com a hipótese de ela desaparecer na escuridão. Eu também estava. Mas logo ouvi a respiração profunda e regular da Clara no cômodo ao lado. Ela tinha que estar dormindo. Devia estar exausta. Enquanto eu puxava as cobertas, de volta à minha cama quente, me lembrei de que o novo ano já havia começado. Logo eu teria 18 anos. Tecnicamente, a idade para me casar.
No cômodo ao lado, a mulher de quem eu tinha sido noiva quase que desde o nascimento até alguns dias atrás se mexeu e soltou um gemido abafado de dor. Quantas vezes ela fora quebrada “com eficiência” e havia gritado assim, sofrendo até mesmo no sono? E será que carregava outros ferimentos por dentro? Uma dor ainda pior do que ossos quebrados, cortes e hematomas?

**

Cheguei perto do coreto do parque por volta das 10 horas, como o bilhete
havia pedido, e o vampiro que estava esperando acenou, segurando o casaco em volta do pescoço com a outra mão. Fazia um frio de rachar e havia previsão de chuva. – Fiquei com receio de que não viesse – disse ele, sorrindo. Apesar do sorriso, me aproximei com cautela. – Clara disse que vocês todos iam para casa. – É verdade – confirmou ele. – Os outros já retornaram à Romênia. Fiquei para trás na esperança de ajudar na situação.
Relaxei um pouco, feliz por saber que a maioria dos tios de Clara havia partido. Quanto mais longe, melhor.
– Meu nome é Daniel – acrescentou ele, estendendo a mão enluvada. Ele deve ter me visto olhar para a lã colorida. Listras amarelas e laranja. – Chique, não acha? – disse ele, balançando as mãos. – Comprei no shopping. Apertei a mão dele.
– Comprou no shopping?
– Ah, sim. Cultura brasileira. Tudo aqui tem a ver com diversão. Fiquei com inveja quando Clara foi despachada para ficar vários meses aqui. É claro que foi bom mandá-la para longe do velho Frederic durante um tempo. – Ele sugou as bochechas, tornando-as cadavéricas, numa imitação. – Pareceu uma jogada inteligente.
Examinei o rosto de Daniel. Suas bochechas estavam rosadas no frio e os olhos eram pretos, como eu passara a esperar dos vampiros, mas tinham um franzido alegre nos cantos. – Sente-se, sente-se – disse ele, indicando um banco e espanando um pouco de gotas minúsculas de chuva. Mesmo assim o banco não pareceu muito convidativo.
– Será que a gente poderia ir a uma cafeteria ou algo assim? – sugeri, soprando as mãos. Lancei um olhar de desejo para suas luvas.
Daniel ponderou, com a cabeça balançando para a frente e para trás.
– Claro. Por que não? Acho que fiquei num clima meio capa e espada com esse parque vazio. Sou fã de romances de espionagem, sabe? – Eu também – respondi, sorrindo.
– Bom, não fico surpreso – disse ele, me levando para fora do coreto. – Como somos parentes e coisa e tal, provavelmente temos uma porção de coisas em comum. – Somos parentes?
– Sim, sim. Eu deveria ter posto isso no bilhete. Talvez fosse menos assustador para você. – Parentes, como?

– Sou seu tio. Irmão de sua mãe.
Parei e o encarei, procurando algum traço familiar no seu rosto. Qualquer semelhança com minha mãe biológica ou comigo.
– Você não se parece muito com ela nem comigo.
As bochechas rosadas de Dorin ficaram um pouco brancas.
– Bom, na verdade sou meio-irmão. Seu avô andou tendo uma aventura fora do casamento. – Ele sorriu sem graça. – Sou o produto disso. – Mas você conheceu meus pais biológicos? – Claro, claro. Mas, primeiro, vamos a um lugar fechado. Você está tremendo. É, estava. De frio e ansiedade. O vampiro ao meu lado era meu tio. Tinha conhecido meus pais biológicos. Enfim, depois de quase 18 anos, eu ficaria sabendo quem eles eram de verdade. Finalmente estava pronta. Daniel  me ofereceu o braço e o aceitei. – Então venha, Marianne. Temos muito o que conversar. Juntos caminhamos pelo parque na direção do Pouca Fé, a cafeteria mais próxima. Daniel parou antes de entrar, lendo a placa. Um sorriso estampou seu rosto.
– Entendi. Entendi mesmo. Que engraçado. Vocês e seus trocadilhos. Em Bucareste seria chamado simplesmente de “Cafeteria”. Os comunistas estragaram tudo.
Fizemos os pedidos – descafeinado para mim e um café com leite duplo com chantilly e chocolate para Daniel – e nos sentamos a uma mesa no canto. Daniel sugou o creme como se fosse sangue de um bife.
– Antes de entrarmos nas histórias de família – começou ele –, aquilo ontem à noite foi feio, hein? – Ele limpou o bigode de espuma com um guardanapo. – Mas Frederic é assim. Adora um drama, mais do que um aldeão comum. Tudo vira teatro.
Meus sentimentos calorosos iniciais para com meu tio receberam um banho de água fria.
– Então o que aconteceu com Clara foi só uma espécie de efeito teatral? Porque o nariz quebrado dela pareceu bem verdadeiro.
Daniel parou no meio do gole, baixando a xícara. – Não! Verdade? – Verdade.
– Nossa. Achei que eles já haviam superado esse tipo de coisa. Não é bom. Não é nem um pouco bom. Nunca pensei que iriam encostar a mão nela de novo. Nunca pensei que teriam a coragem de lutar com ela. Eu mesmo não me arriscaria. – Eram quatro contra uma só  – lembrei.
– Mesmo assim. – Daniel parecia estar avaliando as chances. – Eu não me arriscaria. Como está a garota? Como ela se saiu?
Como eu poderia colocar em palavras?
– Tão mal assim, é? – Daniel  pareceu aflito. – Frederic nunca teve muito interesse por crianças. Mas Clara se saiu bem, apesar de tudo, não é? É uma ótima menina. Uma vampira notável. Todo o clã Vlascarponni tem um orgulho justificado. Não é de surpreender que Clara se rebele, depois da rédea curta com que Frederic a manteve enquanto ela crescia. Passei o dedo na borda da minha xícara. – O que vai acontecer com Clara?
– Bem, a carta surpreendeu todos os Anciões. Achávamos que você é que seria difícil de atrair. Os Brasileiros não são muito chegados a um pacto de sangue. É mais uma coisa europeia. Tentei chamar a atenção para isso, mas ninguém me ouve. Eles tinham quase certeza de que você cederia. – Que eu “cederia”?
– Ah, é só olhar para Clara. Nós presumimos que ela faria qualquer adolescente desmaiar. Ela é muito popular em Bucareste, entre certas debutantes que apreciam o lado sombrio...
Eu não queria ouvir sobre as antigas conquistas de Clara.
– Então vocês acharam que eu ficaria caidinha por ela e que Clara aceitaria o que recebesse.
Daniel inclinou a cabeça, pensativo.
– É. Acho que foi mais ou menos isso. E você ficou caidinha, não foi? Você a ama, estou certo?
Fiquei vermelha.
– Quanto a amor, não sei...
– Todos vimos como você olhou para Clara. E Frederic, apesar de todos os defeitos, é muito hábil em ler os pensamentos de outros vampiros. Melhor do que a maioria. Ele é velho demais. Que habilidade não aperfeiçoou? – Ainda não sou vampira – corrigi.
– Mas sente sede, não é? – perguntou Daniel, esperançoso. – Nesse ponto você já deve... Olhei ao redor, certificando-me de que a cafeteria estivesse vazia.
– Já – confessei, sussurrando para que o barista atrás do balcão não escutasse. – Às vezes. Daniel assentiu, aprovando.
– Você tem muita coisa pela frente, Marianne. A primeira vez que provar um Vermelho Siberiano, sobretudo o tipo O, safra 1972... – Seu olhar ficou distante e ele estalou os lábios. – Ah, é algo extraordinário.
– Não se eu nunca me tornar vampira por completo. Não se nunca for mordida. Daniel voltou à realidade.
– Ah, sim, o pacto. E a nossa garota rebelde, Clara. Nós, ou melhor, você, é quem deve persuadi-la e garantir que o pacto seja cumprido. – Como posso fazer isso?
– Você a ama. Pode fazer com que ela recupere o juízo. Na verdade é bem simples.
– Não é nem um pouco simples. Clara não quer mais saber do pacto. E ela tem uma namorada... 

– Clara está se rebelando. Está sendo adolescente. Ela vai voltar. Vai voltar para você. Terminei de tomar meu café. – Você está muito errado. Daniel não tinha visto como Clara agia comigo agora. No café da manhã ela havia se mostrado totalmente distante. Desligada. Algo aconteceu quando lhe deram a surra. O riso, o sarcasmo, a leveza, tudo isso tinha sumido. Agora Clara estava diferente. Intensa. Assustadora.
– Precisamos tentar – disse Daniel.
Fiquei imaginando se ele seria capaz de ler minha mente, como Frederic.
– Você consegue. É filha de Marianne Dragomir. E, ora, aquela mulher era capaz de fazer qualquer coisa que quisesse.
Do outro lado da mesa, meu tio estreitou os olhos, reparando em mim. – O que foi?
– De certos ângulos, você fica igualzinha a ela. É a imagem cuspida e escarrada, para usar uma expressão nojenta da sua língua. – Ele balançou a cabeça, suspirando. – Uma mulher linda, linda. Tremendo desperdício.
– Daniel, por que você não pode assumir o papel de líder do nosso clã? – sugeri. – Você é um Ancião. Não pode consertar essa confusão? Mudar o pacto, de algum modo?
– Eu já lhe disse. Meu sangue não é puro. Você é a última Dragomir pura, herdeira do trono. Precisa ser você. Todos contamos com você. Contamos com o sangue que corre nas suas veias. Sua mãe, Marianne, era uma grande líder. Assim como seu pai. Ele era muito nobre. Você descende da melhor linhagem.
– Se o pacto não for cumprido, haverá mesmo uma guerra?
– Os Dragomir e os Vlascarponni  já estão impacientes. Há rumores de desconfianças dos dois lados. Seu casamento oferecerá estabilidade, garantirá que o poder seja compartilhado igualmente entre clãs que guerrearam durante gerações, lutando pela supremacia. Mas, à medida que começam a se espalhar os boatos de que o pacto pode não ser cumprido, a velha instabilidade retorna mais forte do que nunca. A situação já está volátil. – Os vampiros podem morrer?
– Os vampiros não morrem – observou Daniel. – Mas podem ser destruídos e isso é muito pior do que a morte. Mas, para responder à sua pergunta, sim. Vampiros seriam destruídos. A velha guerra, que cessou com o seu noivado com Clara, seria retomada. Uma guerra de verdade. Por minha causa.
– Seus pais obtiveram a primeira paz – continuou Daniel. – Você vai alcançar a paz duradoura.
– Me fale sobre eles – insisti. – Quero saber de tudo.
Ele deu um sorriso largo, caloroso, e sinalizou para o barista no balcão.
– Acho que vamos precisar de um bule inteiro. – E se virou para mim. – Há tanta coisa para contar, minha futura princesa.

***

O que você está fazendo aqui? – perguntou Santiago, parecendo infeliz ao
me ver ao lado do seu armário.
Saí do caminho para que ele pudesse abri-lo. Parecia fazer séculos que eu o vira lutar com a tranca no primeiro dia de aula. Muita coisa tinha acontecido desde então. – Eu queria ver você – respondi. – Falar do que aconteceu no baile. – Você me fez bancar o idiota.
Santiago abriu a porta com força, fazendo-a bater nos outros armários. – Fui eu que fiquei parecendo uma pessoa horrível. Fui eu que... – Não precisa descrever – rebateu Santiago, enfiando os livros no armário. – Vi você com a Clara. Eu estava lá, caso tenha se esquecido do que fez naquela noite. – Eu mereço isso – admiti. – E só quero dizer que sinto muito.
– Por que quis sair comigo? Eu era um prêmio de consolação, depois que a Clara convidou a Fernanda? Porque ela pode ter dado em cima de você no baile, mas parece que ela tem uma namorada.
Santiago estava com vontade de me magoar e conseguiu. Afinal de contas, ele tinha sido magoado por mim.
– Santiago, você não é prêmio de consolação de ninguém – garanti. – É um dos caras mais legais que conheço e eu gostaria de não ter tratado você daquele jeito.
– É, eu também – disse ele, batendo a porta do armário. – Mas não sinta pena de mim, Marina. Sou eu que sinto pena de você, porque a garota pode ser um mulheraõ da Europa, mas nunca vai tratar você de um jeito tão legal quanto eu trataria.
E o pior era que eu sabia que Santiago estava certo. “Legal” não fazia parte do vocabulário de Clara Vlascarponni. Intensa. Toda uma dama. Divertida. Arrogante. Perigosa. Honrada. Passional. Essas eram as palavras pelas quais Clara vivia. Mas legal? Nunca.
– Eu vejo como olha para ela – acrescentou Santiago. – Droga, eu soube que a gente ia terminar naquele dia que você foi ao treino de luta. Você ficou olhando para ela o tempo todo.
Eu não tinha nada a dizer. Não havia como me defender.
– Ela vai partir o seu coração, Marina. Aquela garota vai destruir você.
E, com isso, meu primeiro namorado se virou e saiu da minha vida – com uma dignidade muito pouco camponesa.
Fiquei ali, parada, observando Santiago se afastar enquanto pensava em como era curioso ele ter usado aquela palavra típica dos vampiros para o que Clara Vlascarponni faria comigo. Destruir.

**

Como era estranho que, de todas as expressões que Santiago  poderia ter escolhido – sacanear, magoar, destroçar, ferrar –, ele optasse por aquela palavra específica. Isso me abalou um pouco, quase como se fosse uma premonição. Mas por quê?
Você sabe, Marina... No fundo, sabe que tem bons motivos para temer a Clara...
Eu era a herdeira puro-sangue da liderança de um clã que havia guerreado com a de Clara  durante gerações. Deveria herdar o poder que a família dela sempre quis tomar. Se eu estivesse fora do caminho... Então me lembrei da declaração estranha de Clara logo depois do baile de Natal.
“Por favor, acredite que eu não iria nem poderia fazer mal a você. Talvez houvesse um tempo, antes de eu conhecê-la, em que, se você tivesse ficado no meu caminho para o poder... mas agora, não. Meu Deus, espero que não...”
Não. Clara nunca me faria mal, nem mesmo pelo desejo de ascender ao poder. Eu me prendi à primeira parte. “Eu não iria nem poderia fazer mal a você.”
Então pensei na Clara mudada. Naquela jovem distante, raivosa, ferida, que nem queria me olhar nos olhos. Será que ela poderia me fazer mal?
Eu não acreditava nisso. Se havia uma certeza à qual eu precisava me agarrar com força na minha nova vida, agora de pernas para o ar, era a promessa feita por Clara de me proteger, mesmo à custa de sua própria existência.
Ainda assim eu não conseguia deixar de me sentir inquieta com o alerta pouco característico – e bastante sinistro – de Santiago.

**

Clara, eu trouxe um pouco de chocolate quente. – Enfiei a cabeça no
seu quarto novo, levando uma bandeja. – É do tipo vegano, mas não é tão ruim.
Ela estava deitada de costas em sua cama improvisada – um colchão de ar –, de olhos fechados, ouvindo música com fones de ouvido. A luminária da mesa era a única fonte de luz do cômodo, lançando sombras ao redor dele. Demorei um segundo examinando-a antes que ela percebesse que eu estava ali e se virasse, como ela sempre fazia agora. Seus ferimentos haviam melhorado um pouco e o inchaço em volta das bochechas tinha sumido. Pousei a bandeja e dei um tapinha no seu ombro.
Ela levou um susto, tirou os fones de ouvido e sentou-se bruscamente. – Não me assuste desse jeito. Não sabe que é perigoso? Já devia saber. – Foi mal. – Dei um passo para trás, vendo como seus olhos estavam duros. – Fiz um pouco de chocolate quente e pensei... – Não gosto de chocolate.
– Você acabou de esvaziar outro pote do sorvete de tofu com alfarroba de papai. Então não precisa fingir que não gosta de chocolate. Toma um golinho. Clara empurrou minha mão, derramando um pouco no chão. – Marina, é tarde. Vá dormir.
Ignorei sua ordem e me sentei de pernas cruzadas ao seu lado, tomando a bebida rejeitada. – O que você está ouvindo? – Metal alemão. Richthofen. Pousando a caneca, fiz sinal para ele me passar os fones. – Posso ouvir?
Ela trincou os dentes mas concordou. – Como quiser.
Quando pus os fones no ouvido, meu coração se encolheu. Parecia música de elevador para almas atormentadas a caminho do inferno. Palavras guturais em alemão, sintetizadores rosnando, sem melodia. Apenas uivos e gemidos. De dar medo.
– O que aconteceu com o Black Eyed Peas? – perguntei, fazendo um esforço para brincar enquanto tirava os fones.
– Acho que isso está combinando mais com meu estado de espírito. – Clara...
– Marina, vá embora.
– Para de ficar me empurrando para longe. – Pare de ficar me puxando para perto!

Abracei os joelhos junto ao peito. – Estou preocupada com você.
– O tempo de preocupação já passou.
– Não, não é verdade. Ainda podemos consertar as coisas.
– Marina, em poucas semanas vou retornar à Romênia para enfrentar o castigo pela minha insubordinação. Só me deixe em paz pelo tempo que me resta. É tudo o que peço. – Mas, Clara, eu quero ajudar. Ela riu, um riso curto e amargo. – Você? Você quer me ajudar? – Não é engraçado. Eu posso ajudar. Talvez seja a única pessoa capaz de fazer isso. – Como?
– Posso me casar com você.
Seus olhos se suavizaram apenas por um segundo e então ela os esfregou com as palmas das mãos, passando-as sobre os ferimentos, como se estivesse se castigando. – Marina...
Eu me inclinei para a frente, segurando a mão dela. – A gente poderia fazer isso. Eu quero fazer. Clara puxou a mão.
– Você nem sabe o que está oferecendo, Marina. Só sabe que sente pena de mim. Não vou me casar por pena, para ser salva como uma vira-lata doente que está prestes a ser sacrificada e é adotada no canil por alguma boa alma. Prefiro ser destruída com dignidade. – Não sinto pena de você. – Não?
– Não. – As lágrimas queimavam meus olhos. – Eu te amo, Clara.
Não pude acreditar nas palavras que tinham escapulido da minha boca. Sempre pensei que, quando as dissesse pela primeira vez, o momento seria perfeito. E não desesperado e doentio desse jeito.
Houve um longo silêncio e os olhos de Clara endureceram de novo.
– Que pena, Marina – respondeu ela. Depois se deitou e virou de lado, como se quisesse dormir.
Saí correndo do quarto e trombei com minha mãe, chocando-me nos braços dela. Ela me levou para o seu quarto e fechou a porta.
– O que você estava fazendo com Clara? – perguntou ela, ao mesmo tempo que tirava alguns lenços de papel de uma caixa e os entregava para mim. – Só conversando.
Enxuguei os olhos, mas as lágrimas não paravam. – E o que ela disse? Por que você está chorando? – Eu disse a Clara que a amava – admiti, apertando os lenços de papel molhados. – Que queria me casar com ela. 
Os olhos da minha mãe se arregalaram. Sua postura, geralmente calma, desabou. – E o que ela disse?
Sua voz estava baixa. Ela tentava se controlar, mas dava para sentir que estava apavorada. – Ela disse não. Que preferiria ser destruída a suportar que eu me case com ela pelo que julga ser pena.
Minha mãe soltou um grande suspiro. Em seguida, fechou os olhos, juntou as mãos levando as pontas dos dedos aos lábios e eu a ouvi sussurrar. – Você é uma boa mulher, Clara. Uma maravilhosa mulher.



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