História Como Seguir em Frente - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Como (tentar) Seguir em Frente


Fanfic / Fanfiction Como Seguir em Frente - Capítulo 1 - Como (tentar) Seguir em Frente

Querido June, eu me lembro de como você costumava escrever bem; e eu duvido que eu consiga escrever metade de como você fazia com tanta facilidade. Sei que você odeia que eu duvide de mim mesmo, mas eu gosto de ser realista. Olhe pelo lado bom, eu estou escrevendo assim mesmo, como você dizia pra eu fazer. Isso é pra você.

Chamo isso de “como seguir em frente”, ou ao menos tentar. Escrever é um lembrete de que estou vivo. É um lembrete de que ainda penso, de que ainda sigo. Sigo caindo, tropeçando, às vezes com uns passos em falso, mas ainda sigo em frente. Você me ouve?

Se você visse o escritório da Doutora Ana agora, concordaria comigo quando digo que esse lugar é um gatilho para transtornos obsessivos. Eu não sei se ela faz de propósito e nunca tive coragem de perguntar. Tento endireitar pelo menos alguns livros na estante à cada consulta quando ela não está olhando, mas parece mais bagunçado cada vez que olho.

É de lei, o tapete embaixo da escrivaninha está sempre torto. E eu não sei como ela consegue trabalhar com tantos papéis amassados em cima da mesa. Mas ela mantém a postura profissional, com as mãos entrelaçadas em cima da mesa ela me observa. Eu odeio como o reflexo da luz atravessa a lente grossa de seus óculos, de forma que posso apenas supor que está olhando pra mim com seus olhos... suponho que sejam verdes.

— Está mais distraído do que o comum – diz ela tirando as mãos de cima da mesa e as pousando em seu colo. - Como se sente hoje, Lucas?

— Não queria ter vindo hoje. - falei sinceramente.

Eu me afundei ainda mais na cadeira, pensando que poderia estar em casa dormindo àquela hora.

Estava chovendo muito do lado de fora do escritório. A chuva era minha aliada na maioria dos dias, me livrava de ter que realizar tarefas chatas ou sair de casa. Era uma desculpa coletiva que todos compreendiam. “Não posso sair nessa chuva!” Mas desta vez eu não tive escolha quando minha mãe me enfiou no carro e me deixou na porta do consultório.

— Se sente mal por estar aqui? - ela perguntou com a voz calma.

— Não é que eu me sinta mal. - falei desviando o olhar – Só não é o plano mais divertido que eu tinha em mente.

Ela deu um riso baixinho e desviou os olhos para o monitor do computador. Realmente, eram verdes; pude constatar. Agora vinha a hora importante. 

Há três anos eu me consultava com a Doutora Ana. Três anos conturbados, com desistências, mudanças de medicação e muita, muita aflição. Eu poderia contar no dedo as vezes em que a mulher me olhou nos olhos, ou conversou - digo, realmente conversou comigo. Seu sistema era falho, e eu a odiava por isso. Mas precisava de sua receita mágica.

— Você tem dormido bem? - ela perguntou.

— Até demais – falei com a voz calma. - tenho dormido demais.

Isso não a surpreendeu e ela não tirou os olhos do computador.

— Sua alimentação? - ela falou digitando de forma irritante, o som das teclas preenchendo o silêncio entre uma frase e outra. - Tem comido bem?

— Bom, não muito. - respondi.

— Entendi. - disse ela. - Alguma alteração de peso?

Ela me encarou, e eu fiz que não com a cabeça.

Ela arrancou um papel de um enorme bloco de notas e anotou alguma coisa ilegível. Em seguida deu um suspiro e amassou o papel, jogando-o pra cima da mesa e pegou um novo.

Anotou um nome numa letra firme, mas ainda ilegível pra mim.

Tá ótimo, pensei me inclinando pra pegar a receita.

— E a terapia,Lucas? - ela perguntou assim que tirei o papel de sua mão. - Você procurou a Doutora Liza?

— Bom – disse dobrando a receita e colocando no bolso da calça – ainda não tive tempo.

Seu olhar veio duro em minha direção, e pensei que ela sabia exatamente oque eu pensava.

— Você sabe que apenas a medicação não é suficiente. Eu tento te ajudar,Lucas. Mas você precisa ser firme no tratamento.

Não respondi nada, apenas assenti com a cabeça  sentindo uma leve irritação tomar conta de mim.

Eu vou ser sincero. Esqueci suas palavras assim que saí do seu consultório, suspirando de alívio por deixar aquele ambiente pesado. Você concorda comigo, não é June? Ela não me conhece, não sabe nada sobre mim. Mas pelo menos posso continuar com meu remédio, é assim que eu me ajudo, droga! Como sinto sua falta.

Do lado de fora, minha mãe já havia partido com apenas uma mensagem no meu celular. “Tive que ir mais cedo para o trabalho, você volta sozinho de boa?”

Eu tive que soltar um riso baixo. Eu sei qual era a dela, eu teria que andar até em casa e era exatamente isso que ela queria. Que eu andasse, porque isso iria me ajudar, não é mesmo?

A chuva tinha parado, mas a calçada estava molhada e escorregadia, de forma que tive que andar com muito cuidado até chegar numa farmácia da esquina. Entrei no estabelecimento claro, que pra minha sorte estava vazio.

Agora, este é um momento ruim. Você já teve de comprar psicotrópicos? Já percebeu o olhar direto dos atendentes de drogaria, tentando de alguma forma perceber algo sobre você? Eu apenas entrego a receita e desvio o olhar, esperando com impaciência. A atendente tinha um coque alto na cabeça, os fios perfeitamente alinhados com gel. Observei enquanto suas unhas enormes procuravam pelo remédio no sistema. Ela mascou o chiclete com um "nhac" alto e me encarou por baixo dos cílios gigantes.

— É só isso? - ela perguntou me estendendo duas caixinhas. - Só ir ao caixa.

Assim que fui pagar a medicação - a facada. Quase larguei o remédio ali mesmo quando vi que teria que desembolsar nada menos que noventa reais naquela droga (literalmente). Dei uma nota de cem e gastei o resto em chocolate e uma Coca, de forma que fiquei sem grana alguma.

Já fora do estabelecimento, uma onda fria de vento me atingiu. Eu quis chegar logo em casa, mas logo ali, naquela rua, uma visão me paralisou ainda mais do que o vento gelado. Era você, June.

Um June mais velho, com certeza. E com um andar não tão confiante quanto eu me lembrava. Mas era você naqueles olhos castanhos, firmes. No cabelo negro desgrenhado. Eu pude ver quando seu olhar cruzou com o meu.

— June! - eu gritei. - Ah,June!

As lágrimas começaram a escorrer em meu rosto sem que eu tivesse controle, e eu rapidamente parei para secá-las. Não quero que me veja chorando.

O homem dos olhos e cabelos negros se aproximou, colocando a mão em meus ombros.

— Cara, tá tudo bem? - perguntou com um olhar preocupado. Eu o encarei de perto, e senti um nó se fechando em minha garganta numa decepção horrível. Tirei as mãos daquele homem do meu ombro e o empurrei com raiva. Não era você. 

Eu me libertei daquele súbito devaneio e dei as costas, deixando o desconhecido atrás de mim com uma expressão confusa.

Um pensamento horrível e real me atingiu enquanto eu corria de volta pra casa. A sacola balançando na minha mão e batendo na minha perna, assim como o frio batia no meu rosto. Eu corri, sentindo meu peito arder e minhas pernas doerem com aquele esforço mínimo.

Na minha frente, eu via você,June. Vermelho como minha última lembrança sua.  Eu via sangue, e lembrei que nunca mais o veria de verdade. Por que você teve de morrer?



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