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História Como Surgiram as Estações - Capítulo 4


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Notas do Autor


yay ~~
boa leitura!

Capítulo 4 - As heras


As batidas urgentes na porta fizeram Jisung acordar num salto, assustando Mundungus que correu até o outro sofá, os pelos eriçados. O mago da floresta coçou os olhos e procurou em volta, percebendo que tinha realmente dormido no chão e que Chan fazia o mesmo, mas este milagrosamente não tinha despertado aos sons inconvenientes. Para impedir que isto acontecesse caso o barulho persistisse, Jisung se levantou depressa e tropeçou no caminho até a entrada, se surpreendendo ao encontrar um Hyunjin alterado.

— O que está fazendo…? 

— Venha comigo. Agora! — o mago buscador não o deixou terminar a pergunta, puxando-o bruscamente pelo braço para fora do chalé.

— O que foi? — Jisung estranhou o comportamento do amigo, se deixando guiar por ele até a floresta.

O sol ainda estava nascendo e Jisung não entendia porque estava sendo acordado aquela hora e principalmente por seu amigo que parecia bastante irritado com alguma coisa. Eles foram parar num trecho onde ficavam as sibipirunas e as ardísias, um local onde Jisung tinha começado a plantar recentemente, cultivando a terra aos poucos para saber se ele conseguiria fazer vingar uma plantação de videiras. Mais adiante, uma grande rocha fazia um paredão entre as árvores e ela era conhecida por ser o coração da floresta, pois ficava bem ao centro e era onde várias criaturas iam para buscar conforto. 

O mago da floresta estava prestes a perguntar o que eles estavam fazendo ali quando seus olhos capturaram a existência de algo que não havia no dia anterior: heras selvagens subindo pela rocha e descendo pelos troncos das árvores aos montes e como verdadeiras teias gigantes. Elas alcançavam o chão e dobravam de quantidade conforme o mago seguia o rastro, percebendo atônito que elas provavelmente não tinham um fim.

— O que é isso? — perguntou ao puxar uma das folhas com a mão, espantado com a força e a vitalidade dela. O caule, que não devia ser mais grosso que uma linha de lã, era resistente como de um marmeleiro. 

— Eu é que te pergunto — Hyunjin cruzou os braços.

— Isso aqui não estava aqui ontem — Jisung se defendeu. — Como isso pode ter nascido da noite para o dia? Eu tenho certeza de que não fiz nada para fertilizar demais a terra… e que tipo de hera é essa? Eu nunca a vi antes!

— Jisung... 

— Ai não… — resmungou ao colocar as mãos na cabeça. — Em plena véspera de Florescimento. Eu não acredito nisso!

— Ji…

— O que eu vou fazer? Essa hera é brava! Olha só o tamanho dela! — estendeu os braços indignado. — Como essa coisa foi nascer aqui?

— Jisung! 

O quê!? — exclamou, as curvas da boca se virando para baixo.

— O que aconteceu com você para que elas tenham nascido?

— O que quer dizer?

— Não é óbvio? Você está tendo sentimentos por aquele humano.

— O quê? — exclamou. — Impossível! É claro que não. De onde tirou essa ideia?

— Você tem uma explicação melhor?

Jisung se calou e engoliu em seco. Fechou as mãos em punho antes de abri-las devagar, o sangue correndo frenético por todo o seu corpo. O ar começou a ficar rarefeito e ele teve que se obrigar a respirar para não perder os sentidos. Um passo vacilante para trás e ele sentiu os braços de Hyunjin ao seu redor amparando-o. 

— Jisung… você não pode… você não deve se envolver com esse humano. Você sabe como a natureza é influenciada por você — o repreendeu numa voz muito suave, não querendo causar mais desespero no amigo.

— Mas eu não estou me envolvendo… Hyunjin! — brigou ao vê-lo rolar os olhos. — Eu não estou… ah… — exasperou e se agachou, inconformado. — Eu não acredito nisso… — sussurrou ao esconder o rosto nas mãos.

— Ji… — o mago buscador se agachou ao lado dele e o abraçou pelos ombros. — Eu sabia que era má ideia deixá-lo no seu chalé — murmurou. — Desde o momento em que você o salvou, eu já sabia que isso não seria bom. Você já se apegou a ele. Você já deu um lugar para ele no seu coração.

Jisung desviou o rosto para não olhar o mago buscador e mordeu o lábio para conter os tremores. Ele odiava esse tom de voz condescendente que seus amigos usavam com ele toda vez que o viam numa situação parecida. Coração mole, sensível, impressionável, eles o descreviam. Como se fosse errado ele ser assim. Como se fosse algo a ser aprisionado e nunca demonstrado. 

— Vamos ter que conversar com Minho — Hyunjin disse.

— Não! — Jisung refutou e se levantou de uma vez, se desvencilhando de Hyunjin que agora o olhava preocupado. — Você não vai dizer coisa alguma a ele. Eu sou perfeitamente capaz de resolver isso sozinho. 

— Ji, você precisa manter seu foco…

— Eu sei exatamente o que eu preciso fazer! Não preciso que você me diga nem que me trate como uma criança! 

Jisung avançou na direção das heras e começou a arrebentar os caules com as próprias mãos. Puxou-as de cima da rocha até que todas aquelas cordas com folhas penduradas estivessem enroladas no chão aos seus pés, a pilha crescendo conforme ele destruía mais e mais da planta trepadeira. 

O sol ia subindo conforme a manhã passava e o calor aumentava, insuportável. Aquela era a região mais abafada da floresta, mas talvez fosse a intensidade da raiva do mago que estivesse contribuindo para que ficasse ainda mais quente. Jisung transpirava e ele não se sentia perto de terminar. Parecia que a trepadeira continuava nascendo e caminhando entre as árvores, subindo por elas e sorvendo da seiva que as deixava vivas. Elas eram teimosas, mas ele era mais.

Quando ele chegou às sibipirunas, ele foi ainda mais bruto ao arrancar a planta intrusa, pois ele odiava pensar no fato de que os cachos de flores amarelas poderiam ter seu nascimento comprometido devido àquelas ervas daninhas. Seja o que for que tenha feito aquelas intrometidas crescerem em sua floresta, o mago estava disposto a fazer com que morresse. Não podia permitir que arruinassem o momento mais precioso da natureza.

 O suor estava empapando as roupas do mago que não pensava em parar para tomar fôlego. Seu cabelo estava grudado em sua testa e vez e outra ele esfregava o antebraço nela, enxugando as gotículas que se acumulavam e caíam em seus olhos. A boca estava seca e ele desejou ter trazido uma garrafa de néctar com ele, mas suas necessidades podiam esperar. Ele precisava lidar com aquele problema primeiro até que estivesse totalmente livre dele.

Depois de reunir as heras em um só ponto, Jisung ateou fogo nelas, escutando bem baixinho elas sibilarem de dor, o grito miúdo e agudo semelhante a de insetos impertinentes. Era uma agonia cada vez que precisava lidar com a morte de qualquer ser vivo, mesmo que isso significasse o bem-estar dos demais. Com as heras selvagens não era diferente, mas Jisung sentiu satisfação em saber que estava fazendo alguma coisa a respeito de algo muito ruim e isso sobrepujou a culpa que costumava sentir quando causava dano a algo da natureza. Ela não durou muito tempo, no entanto, e logo deu lugar a impressão de que não tinha extirpado aquele mal por completo.

 — Jisung? — uma voz familiar tirou o mago de seus devaneios e ele se virou para encontrar o príncipe ao lado dos arbustos de ardísias. Ele parecia ter acabado de acordar, o rosto meio inchado, o olhar confuso, o cabelo meio bagunçado. — Desculpe, eu não sabia o que fazer. Você não estava no chalé quando eu levantei e eu vi essa fumaça. Achei que tinha alguma coisa errada. 

Jisung olhou para a fogueira que ultrapassava o nível das árvores e viu a fumaça rodopiar pelo céu acima deles. O cheiro, que até então não era um incômodo, se tornou muito evidente e o mago torceu o nariz. 

— O que houve com as suas mãos? — Chan perguntou ao se aproximar ainda mais. 

Era como sair de um verdadeiro transe. Jisung não enxergara mais nada enquanto estava destruindo as heras e a tarefa nublou seus pensamentos do mesmo jeito que a forma incorpórea da fumaça fazia ao contaminar o ar em volta. Ele não tinha reparado no quanto estava encharcado de suor, sujo de terra e muito menos nas mãos que estavam sangrando até que Chan apontasse.

— Eu… — Jisung começou, mas a voz falhou pelo desuso. Ele tossiu uma vez e prosseguiu com mais intensidade. — Eu tive que me livrar dessas heras. Acho que exagerei na força.

Chan cuidadosamente examinou o mago com a mesma cautela de alguém que investiga um artefato explosivo e ao notar os ombros de Jisung relaxarem após o que pareceu uma eternidade, tomou a liberdade de estender as mãos na direção dele, oferecendo sua ajuda de uma forma silenciosa. Mas Jisung não a aceitou, embora tivesse dado a entender por um mísero instante que o faria.

— Vamos? — o mago indicou o caminho por onde o príncipe tinha chegado.

Chan aquiesceu e olhou para a fogueira antes de acompanhá-lo, ocultando a mágoa pela recusa com uma expressão serena.

— Vai ficar tudo bem com as árvores? 

— Vai. O fogo vai consumir apenas as heras. 

— O que houve exatamente? 

— Heras selvagens, do tipo parasita. Sugam a seiva das árvores até apodrecê-las. Eu não as vi crescer ontem e vim removê-las.

Ao voltarem para o chalé, Jisung foi até a pia para lavar o sangue de suas mãos e dos demais machucados em seus braços. Os cortes arderam e pinicaram a pele, mas o mago fez de conta que aquilo não era grande coisa. 

— Se tiver alguma coisa em que eu possa ajudar… — Chan se ofereceu novamente.

— Está tudo bem — Jisung chacoalhou as mãos. — Você deve estar com fome.

O mago disse aos pães e as geleias para saírem dos armários e irem até a mesa e cada um deles tomou o seu espaço na superfície agora coberta por uma toalha branca, cercando o prato, a xícara e os talheres que ficaram à frente da cadeira em que o príncipe tinha escolhido sentar desde que chegara ali.

Depois disso, Jisung sumiu casa adentro, sem dar mais nenhuma explicação.

 

 

— Jisung? — a voz era de Minho e Jisung se empertigou na cama de seu quarto, abrindo a porta com um pequeno gesto da mão. 

O mago dos mundos entrou sem fazer alarde e fechou a porta atrás de si, sentando-se na beirada do colchão. 

— Hyunjin me contou o que aconteceu — ele disse sem rodeios, usando um tom de voz calmo.

— Imagino que sim — disse azedo, o olhar caindo sobre as mãos escondidas nas mangas de sua túnica. Ele reprimiu o desejo que tinha de esfregá-las com força para se livrar do comichão que sentia.

— E o que você acha?

— O que eu acho? — ergueu o rosto. 

— Você acha que as heras foram mesmo resultado de algo que você sente pelo humano?

— O que mais poderia ser? — resmungou chateado. — Não é segredo para ninguém que eu sou o mais tolo aqui. E é claro que a natureza está sentindo cada mudança em mim. Ainda mais agora. Eu a sinto zunindo em mim. É ensurdecedor — cuspiu as últimas palavras, mas sem a pretensão de uma verdadeira ofensa. 

— Você acha que é prudente deixar o humano aqui, com você?

Minho sempre foi o mais sensato entre os três magos. Por ter mais conhecimento e anos de experiência, ele foi porta-voz da razão em muitas decisões. Havia muitas cicatrizes escondidas nele que revelavam todos os tipos de erro que ele cometeu, assim como havia símbolos dos mais diversos formatos tatuados em sua pele como medalhas do que ele conquistou. O poder dele era oneroso, mas mesmo assim ele fazia de conta que era como estar carregando um punhado de penas. Ele atravessava mundos e tinha contato com inúmeras circunstâncias que para alguém sensível seria enlouquecedor. 

Ele podia muito bem impor sua autoridade e fazer cumprir sua palavra, pois ele tinha todo o direito sendo aquele que era como o pináculo que sustentava aquela tríade, contudo, em vez de expulsar Chan de uma vez da casa de Jisung como Hyunjin faria num estalar de dedos, ele perguntava ao mago da floresta o que ele achava certo fazer.

— Por que está perguntando isso para mim? — Jisung retrucou, incerto. 

Minho respirou fundo e olhou o quarto em volta, medindo suas próximas palavras. Estava refletindo sobre a forma como o oráculo, Jeongin, tinha claramente direcionado sua atenção a Jisung quando anunciou sua visão. Seria certo basear uma escolha se apoiando em alguém que viu o futuro e sabe o que vai acontecer nele? Ou seria melhor compreender o que aparentemente era melhor para a Floresta e ir contrário a uma seta que indicou o caminho?

— Eu não quero te tratar como alguém que não sabe fazer suas próprias escolhas — Minho disse por fim. — Você tem razão. Nós não devemos continuar te vendo como uma criança só porque você é mais novo do que nós. Não quero mais te subestimar. Não vim aqui para dizer o que fazer. Quero que faça o que acha melhor. 

— Mas e se o que eu escolher não for bom? Se for uma escolha errada?

— Então faça uma nova escolha. Não acertamos sempre, mas não vai adiantar em nada se ficarmos parados remoendo o que já passou.

Minho se levantou e encostou a mão suavemente no ombro do mago da floresta.

— Seja o que for, não demore muito para decidir. Dependemos de você.

E dito isso, o mago dos mundos saiu do quarto. Jisung foi fazer o mesmo no início da noite, depois de muito pensar a respeito da sua decisão. Ao ver o príncipe, o coração do mago pesou, pois Chan precisou passar o dia tendo que se virar sozinho num chalé mágico e numa floresta igualmente fantástica. Dava para ver pelo semblante dele que ele não tinha enfrentado aquilo com muita destreza e, para variar, Mundungus apenas lambia as patas ao observá-lo, seu gesto para mostrar que ria de uma situação que considerava engraçada.

— Oh — Chan se virou assim que avistou Jisung. Ele estava de pé na sala, tentando puxar um livro da estante, mas sem obter êxito a julgar por sua expressão emburrada. — Você está bem? 

— Sim. O que está tentando fazer?

— Eu estava tentando ler um livro — confessou ao coçar a nuca. — Mas não achei que ia ser difícil. Os livros estão colados na estante.

Isso fez o mago rir. 

— Eles não estão colados — esclareceu e se aproximou de onde o príncipe estava. — Você por acaso pediu com educação?

— O quê? Se eu pedi com educação?

Jisung estendeu a mão na direção de um livro.

— Por favor — disse e puxou-o da estante com facilidade. 

— Oh — Chan arregalou os olhos. — Era isso? 

O príncipe repetiu o processo e finalmente conseguiu o que queria, alegrando-se com o feito como se fosse uma criança que acaba de ganhar um presente. 

— Desculpe tê-lo feito ficar sozinho. Não deve ter sido muito fácil — o mago disse arrependido ao devolver o exemplar que tinha pegado.

— Tudo bem, eu até que me virei bem. Mas e você? Está se sentindo melhor mesmo? Como estão as mãos?

Jisung puxou as mangas da túnica para revelá-las ao jovem príncipe, e ambos se assustaram ao ver as condições em que elas se encontravam: cobertas por um grosseirão severo. Isso explicava o motivo pelo qual Jisung as sentia arder tanto. Ele achava que se devia aos cortes e não se preocupou muito em verificar, submerso que estava em seu problema principal, mas agora entendia que tinha negligenciado demais a coceira incessante. 

— Deviam ser heras venenosas — Jisung comentou ao arregaçar as mangas e deixá-las dobradas em seus cotovelos. — Não conhecia a espécie e achei que seriam como as outras. Que estúpido! — praguejou ao ir até a despensa, Chan em seu encalço.

— Me diga o que eu preciso fazer e eu te ajudo — o príncipe novamente se fez solícito.

Jisung apontou para os potes de vidro e Chan os pegou, misturando em uma tigela uma substância pastosa junto de ervas bem fininhas que soltavam um aroma perfumado. Pingou algumas gotas do óleo que Jisung disse ser bom para atenuar os sintomas e quando a pasta virou uma pomada cheirosa e bastante refrescante, o mago pediu para que Chan continuasse a mexer e se aproximou, soprando umas palavras cantadas que deram o toque final à mistura. 

— Agora é só aplicar — Jisung tentou alcançar a colher, mas Chan foi mais rápido, puxando a tigela para mais perto.

— Me dê as mãos — pediu e desta vez soou firme, quase imperioso. 

O mago piscou algumas vezes antes de se recompor, estendendo-as para Chan.

O príncipe se aproximou e segurou o pulso de Jisung com suavidade, espalhando a pomada sobre as feridas e manchas vermelhas, fazendo o máximo para cobrir cada centímetro com a mistura. Repetiu na outra, tomando a precaução de não puxar demais a pele para não reabrir os cortes.

Enquanto ele fazia isso, Jisung ocupou o tempo desenhando as feições do príncipe em sua mente, constatando atordoado o quanto ele se parecia com a versão do personagem que criava para contar histórias às ninfas. Ele era esbelto, forte porém gracioso, e sua tenacidade era visível até na sua postura. Era impossível não sentir o coração falhar ante àquela proximidade deles e Jisung agradeceu a concentração de Chan estar em outro lugar, pois nunca ele não seria capaz de perceber suas faces coradas.

— Onde posso pegar um pano? Precisamos enfaixar.

Jisung indicou o armário inferior e o príncipe rasgou pedaços de um tecido grande, enrolando-os nas mãos do mago até escondê-las completamente. 

— Por que você arrancou as heras com as mãos? — o príncipe perguntou ao lavar as próprias mãos e secá-las.

— Eu precisava fazer dessa forma — disse sem encontrar o olhar de Chan. 

É claro que ele não contaria que sua raiva foi o seu motivo principal de ter se descontrolado. Se dissesse isso, teria de explicar o que a incitou e não estava certo sobre ter coragem de revelar o que estava acontecendo dentro dele.

— Bom… sendo assim… tome cuidado da próxima vez. Use uma faca ou uma tesoura. Você podia ter se machucado severamente. Ainda bem que você sabe tratar desses ferimentos, mas de qualquer forma foi perigoso.

Jisung emitiu um grunhido, assustando a Chan que não esperava ouvir aquele som estranho. 

— O que foi? 

O mago torceu a boca, insatisfeito. Por que aquele jovem humano precisava dificultar ainda mais as coisas? Como Jisung poderia dizê-lo para ir embora quando ele era tão amável, cuidadoso e exibia essa preocupação genuína? Como poderia abrir mão da companhia dele quando ele era desse jeito?

— Nada… eu só… olha, Chan, eu estou num período difícil — Jisung começou a dizer o discurso que tinha ensaiado a tarde toda. — Minhas emoções… estão descontroladas. O Florescimento me deixa emocionalmente instável. Talvez não seja boa ideia que você presencie isso. Eu sinto muito.

— Ah… — Chan deslocou o peso de uma perna a outra. 

Por um segundo, Jisung teve certeza de que o humano entendeu o que estava querendo dizer, mas ao vê-lo mudar de expressão de repente, como se já tivesse se decidido há muito tempo, algo afundou ainda mais em seu peito. 

— Mas eu não vejo problema nenhum nisso. Eu posso lidar com suas emoções. Você não precisa me esconder nem nada. Estarei aqui quando for difícil, você pode… Jisung?

O mago fechou os olhos com força e lágrimas rolaram pelo seu rosto quente. Fungou e tentou afastá-las, mas suas mãos estavam enfaixadas e no lugar delas tentou usar os ombros para enxugar as bochechas, se sentindo bastante bobo por estar chorando na frente de alguém que não conhecia sua natureza emotiva. 

— Ei, está tudo bem — o príncipe se aproximou e fez algo que deixou o mago desconcertado e sem nenhuma defesa: deslizou a mão por suas costas num gesto confortador, conduzindo-o sutilmente para um abraço.

Jisung não resistiu e foi de encontro ao peito que o recebia, soluçando contra o ombro que era oferecido, suas costas sendo afagadas pelo toque acolhedor de Chan. Era a primeira vez que alguém fazia isso por ele. Que não o repreendeu por estar chorando. Que, em vez de dizer um punhado de palavras indiferentes, fazia o se sentir como se fosse aceitável se expressar daquele jeito. E Chan não precisou conhecê-lo muito para perceber que era aquilo de que precisava tanto. 

Quando o pranto amainou, Jisung se distanciou um pouco e baixou a cabeça, constrangido.

— Desculpe. Acho que ter visto aquelas heras me deixou abalado. Vê-las arruinando o que eu cuidei durante tanto tempo… estou com muito medo de que aconteça de novo — admitiu.

— Você acha que elas podem nascer de novo de uma hora para outra? Existe uma forma de impedir?

Jisung olhou para Chan, para a expressão preocupada dele, e se sentiu bastante encurralado. Como dizer a alguém que está visivelmente interessado de que ele pode ser o principal responsável por algo que ele não tem nenhum controle? 

Chan deve ter interpretado sua hesitação como uma desconfiança, pois estufou o peito, pronto para assumir a responsabilidade que sequer existia. 

— Me diga o que é e vou te ajudar. Se elas nascerem de novo, eu irei arrancá-las.

— E por que é que você faria isso? — perguntou suavemente, num meio sorriso, enquanto enxugava o canto dos olhos usando o braço coberto pela manga.

— Porque isso é importante pra você… — ele disse e após uma batida, sua postura mudou para uma mais retraída. Ele baixou a cabeça, constrangido, percebendo algo. — Estou te devendo isso, no final das contas.

Uma dívida, Jisung entendeu. É claro que o príncipe queria retribuir o favor depois de sua vida ter sido salva. Não se tratava de nada além disso quando ele se oferecia de prontidão, querendo auxiliar o mago da floresta no que fosse. 

Jisung não admitiria, mas a constatação o deixou chateado. Era bom demais para ser verdade, concluiu amargurado. A relação deles não seria normal sob outras circunstâncias. Eles jamais teriam se encontrado se não fosse pela Floresta e, no fundo, aquilo se tratava apenas de um acontecimento aleatório do universo, que pregava muitas peças sem dar o nó final. 

Jisung já devia ter previsto que algo entre eles não daria certo. Como poderia? Chan era um príncipe e tinha obrigações de nobre, precisaria voltar cedo ou tarde para seu lar. Ele era humano e Jisung, um mago. Mundos diferentes que foram separados há anos para aplacar conflitos.

Jisung se sentiu como o tolo que olha por cima de um muro para a vida que gostaria de ter e nunca teria. E doía imaginar que alguma hora teria de descer para o chão e voltar para onde jamais deveria ter saído e que só o fez por inocente curiosidade. Era como saborear do melhor banquete e acordar de um sonho, a frustração de saber que tudo não era real fazendo arranhões em seu peito.

— Ah… — ele deixou a voz escapar incoerente. — Não vamos nos precipitar. Se elas nascerem de novo, eu posso dar um jeito nelas.

— Eu insisto, Jisung. Você já fez muito por mim e quero fazer algo por você. Nada mais justo.

— Não precisa ser justo — sussurrou quase inaudível e depois que Chan pediu para que ele repetisse, o mago fez um aceno com a mão. — Eu vou pensar em alguma coisa. Vou procurar algo nos livros primeiro. 

Eles foram até a sala e Jisung pediu por alguns livros de herbologia e botânica, sentando-se no chão em frente à lareira para apoiá-los na mesinha de centro a fim de lê-los confortavelmente. Chan fez o mesmo e logo puxou um dos volumes para ajudar Jisung a procurar pelas informações de que precisavam, mas em nada foi útil, pois estava escrito num idioma que não conseguia entender.

— Aqui — Jisung fez um gesto e um óculos saiu de dentro de um baú e sobrevoou até ficar à frente de Chan. — Ele vai te ajudar a ler o que não souber.

Chan colocou as lentes sobre os olhos e ele exclamou impressionando, causando o riso de Jisung que achou a cena adorável. Eles começaram a investigar o conteúdo da biblioteca e ficaram nessa atividade até que o mago decidiu fazer uma pausa para o jantar. O jovem príncipe tomou a frente, impedindo que Jisung fizesse qualquer coisa para preveni-lo de usar as mãos. E por mais que o mago pudesse simplesmente fazer tudo usando alguns feitiços, ele preferiu deixar que Chan se sentisse bem à vontade em sua própria iniciativa.  

— Seu amigo, Hyunjin, não parece muito feliz com a minha presença aqui, não é? — Chan observou depois que eles voltaram aos livros. — Hoje de tarde ele e o Minho vieram aqui para falar com você e aquela hora que o Minho foi conversar com você, eu fiquei sozinho com o Hyunjin e… foram os minutos mais desconfortáveis que já passei com alguém na minha vida — riu soprado. 

— Magos buscadores têm uma história infeliz com humanos — Jisung explicou sem despregar o foco das páginas. — Eles sofreram muito na época em que começaram a caçar os seres mágicos. Os magos buscadores são conhecidos por serem muito inteligentes e perspicazes, e isso atraiu o interesse dos caçadores que precisavam obter as informações sobre onde as criaturas se escondiam. Isso fez com que ele se ressentissem de sua raça.

— Por que eles são chamados de buscadores?

— Porque eles buscam, no sentido da palavra. São detentores de informação, sabem o que achar, como achar. São exímios na arte de observar e interpretar. Se você quer saber de algo, um buscador pode te tocar e te ajudar a achar a resposta. 

— Sério? Por que Hyunjin não tocou em mim para descobrir por qual motivo eu vim parar aqui?

— Porque ele só pode te ajudar à medida que possui acesso à informação. Você não a tem porque sua memória não está clara. E Hyunjin não tem contato com o mundo lá fora. Se ele tivesse acesso a mais pessoas, mais lugares, talvez ele pudesse descobrir como você chegou até aqui.

— E essa não seria a solução: ele ir até lá fora e buscar por mais informações para conseguir descobrir mais sobre mim?

Jisung parou a leitura e olhou para Chan.

— O problema é que a barreira que nos separa tem um encantamento. Aqueles que vêm de fora se lembram do mundo humano, mas os que saem daqui não levam nenhuma recordação do mundo mágico. Foi uma precaução dos Anciões. Imagino que também seja por isso que o seu mundo não tenha tantas informações exatas sobre nós — ponderou conclusivo. 

— Ah… — os ombros do príncipe cederam.

— Eu vou conversar com Hyunjin para que ele possa te ajudar a se lembrar. Talvez se você for guiado por ele para investigar sua memória você possa encontrar uma resposta.

— Ele faria isso? — perguntou incerto.

— É claro. Ele não é tão ruim quanto parece.

Chan apoiou o cotovelo na mesinha e tirou os óculos, colocando-os sobre o livro aberto. Gastou um tempo observando o fogo crepitar na lareira, piscando várias vezes quando achou que tinha visto a chama se dobrar em si mesma, construindo formas muito familiares. Assim que se deu conta de como aquelas formas eram sim figuras e de que podia discernir a imagem de cavalos, cavalariços e carruagens, ele se sentiu atraído ainda mais pelo fogo, aquele calor o convidando a se aproximar como alguém que sussurra calidamente em seu ouvido. 

E tão rápido quanto um estalo, Chan estava de volta à sala, seu pensamento dando um rodopio e o deixando tonto antes de se centrar. Uma mão pesava em seu ombro e ele a identificou como sendo a de Jisung. 

— Não é bom olhar tempo demais para o fogo — o mago aconselhou. 

Chan reparou que tinha se inclinado na direção da lareira. Recuou apreensivo e se aproximou mais de Jisung. 

— O que o Minho é? — quis saber ao abandonar a tarefa de entender aquela leitura técnica demais para o seu limitado conhecimento sobre plantas. 

— Um mago dos mundos. Alguém que guia as almas depois que o corpo físico morre. Ele as leva para as próximas vidas e transita entre os mundos para conseguir manter a ordem.

— Que tipo de ordem?

— Ah, não permitir que criaturas ultrapassem dimensões sem consentimento, por exemplo. Não existe apenas esse mundo em que nós vivemos. Existem muitos. E nem sempre aqueles que vivem do outro lado são amistosos. Existem realidades de prisioneiros que querem sair para vir até o nosso. Minho não pode deixá-los sair de lá.

— O que acontece se por acaso eles saírem? 

— Caos. Guerras. Eles são prisioneiros por um motivo — deu de ombros. 

— Você já viu isso acontecer?

— Não… mas não posso me dar o luxo. Já imaginou se algo terrível de outro mundo vem para assolar o nosso? Estaríamos em apuros. 

— Acha que não conseguiria dar conta de derrotá-los?

— Eu acho que não estaria nem um pouco preparado para lidar com a destruição — admitiu. 

Chan anuiu, compreensivo, e observou Jisung de perto, atento ao rosto dele que sempre mostrava um mundo de percepções. Eram sutis as suas emoções, mas elas estavam lá, colorindo cada contorno quando aparecia de um jeito ou de outro. Jisung era tão honesto em sua expressão, deixando vir à tona todo e qualquer sentimento que tinha, independentemente de tamanho e intensidade. Nunca tinha conhecido alguém tão sincero, acostumado que estava às máscaras das outras pessoas que preferiam esconder como estavam se sentindo. 

Jisung era como uma brisa fresca depois de ter enfrentado o calor em um deserto, o príncipe pensou consigo mesmo. O mago era como alguém que não precisava fingir nem ocultar o que era, muito menos o que sentia em relação a tudo. Ele apenas existia espontâneo, sem receios, e era tão bonito, tão puro. E ele tinha essa paciência com sua curiosidade infinita que o deixava totalmente sem jeito. Afinal, quantas vezes foi repreendido por ser um atrevido? Por perguntar demais? Por questionar aquilo que não entendia, não concordava? 

— O que foi? — Jisung perguntou assim que percebeu o príncipe o olhando.

— Nada — Chan desviou o rosto e mirou as mãos em seu colo.

— Acho que está na hora de dormir. Preciso estar bem descansado para amanhã — disse ao se levantar.

Chan o ajudou a guardar os livros de volta à estante. Jisung o ensinou a preparar o chá de alecrim e quando o príncipe ficou com a xícara cheia em mãos, parado perto da porta do quarto de hóspedes, ele fez um pedido incomum.

— Eu posso dormir no seu quarto?

Jisung ficou estático e observou o príncipe com curiosidade, tentando entender de onde tinha vindo aquilo de repente.

— Vou entender se você disser que é desconfortável — apressou-se em dizer. — Eu não vou dormir com você na mesma cama nem nada. Eu posso dormir no chão. Eu levo alguns travesseiros e as cobertas. É só porque… eu não queria ficar sozinho. Se você não se importar, é claro.

Jisung sentiu Mundungus se esfregar nas suas pernas e o olhou a tempo de vê-lo erguer a cabeça, como se dissesse “boa noite” ao balançar os bigodes na sua direção. O felino entrou no quarto e o mago sorriu, perplexo com a ousadia do protetor da casa que certamente o tinha encarado por um motivo especial. Podia até não saber o que se passava na mente do seu gato, sendo ele um animal diferente dos outros, mas tinha aprendido a interpretar muito bem o olhar pretensioso dele de quem sabe mais do que devia.

Antes que pudesse mudar de ideia, Jisung acenou positivamente com a cabeça, ajudando o humano a arrumar o canto onde dormiria. Chan bebeu o chá de uma só vez e se aninhou na pilha de almofadas. Ele não viu, mas o mago conjurou em segredo para que os travesseiros ficassem mais gordos e fofos, se ajustando ao corpo que deitava sobre eles. Jisung não permitiria que Chan acordasse com dores no corpo e muito menos que ficasse desconfortável durante a noite.

— Você tem certeza de que está confortável? — Jisung perguntou inocentemente ao subir na própria cama, sorrindo pequeno ao observá-lo de esguelha.

— Estou sim. Obrigado por me deixar ficar aqui.

Eles ficaram em silêncio e aos poucos as luzes do quarto foram diminuindo, criando uma penumbra que no fim se tornou breu.

 


Notas Finais


chan e seus abraços
não poderia faltar aqui também

obrigada por lerem
espero que estejam gostando! <3
até a próxima atualização ~~


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