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História Companhia perfeita para um dia cheio de azar. - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


seulrene é tudo pra mim

Capítulo 1 - Em caso de ano novo, pinte o cabelo de loiro para dar sorte.


Em um mundo que almas gêmeas são tudo, Kang Seulgi com certeza é uma azarada, disso ela sabia. Sempre desastrada com tudo, a sorte não estava ao seu favor, principalmente quando foi diagnosticada - por um homem especialista em "você tem a metade da sua laranja?" - sem alma gêmea.
A Kang já tinha aceitado este fato e às vezes ficava angustiada em relembrar que nunca seria feliz com alguém ao seu lado.

Desde aí, com seus vinte e oito anos, resolveu focar somente na sua carreira como jornalista. Não era um emprego fácil de se lidar, principalmente em um país cheio de pessoas que mais acreditavam na política do que em suas palavras.
Era óbvio que muitos jornalistas ultrapassavam os limites, mas não estavam fazendo nada mais do que exercendo seus trabalhos.

Seulgi não era ignorante como muito que trabalhavam na mesma área que si, na verdade, ela tinha muita paciência com pessoas. Principalmente com aquelas que não eram muito espertas com a tecnologia e caíam em qualquer tipo de notícia falsa feita para passar para todos seus contatos de sua redes social.
Perdeu a calma somente uma vez, em que seu pai, muito conservador por acaso, disse algo que lhe ofendeu indiretamente. O que ela respondeu a ele foi "você por acaso é filho do presidente para saber tudo sobre ele?" e a partir desse argumento, seu pai nunca mais abriu a boca para falar com ela. Ele achou uma falta de respeito consigo e a opinião era a mesma para Seulgi, afinal, se ela estudou por anos, se formou e agora trabalha por horas; ficando sem dormir de vez em quando por procura de fontes confiáveis e de exigir muito de si, pois também precisava entrevistar, por que um homem de meia idade que tem metade do dia gasto vendo notícias na televisão - que a maior parte são manipuladas. Por isso Seulgi costumava trabalhar com podcasts ou com jornais físicos. - iria saber mais do que ela? Claro que, ele veio antes, já viveu muito, mas este argumento já não era mais válido para alguém formado em uma universidade extremamente difícil de entrar.

Até mesmo em dialogar com o próprio pai era difícil, ela culpava totalmente a sua má sorte, que nunca na vida dela, sequer se foi por algum momento. Foi complicado de se desviar dela para conseguir estudar e conseguir se formar.

Mais um ano havia se passado e na véspera do ano novo Seulgi passou na casa de uma amiga, pois seu progenitor realmente não queria colaborar consigo e a ignorava definitivamente. Só que ela não poderia sentir culpa, na verdade, estava disposta a não se culpar e pensar além do positivo.

Seria um ano melhor para ela, porque dizem que se vestir de amarelo dá sorte, então ela exagerou na hora de se vestir e quase só tinha amarelo. As únicas coisas brancas eram sua bermuda e seu tênis. Mas sua camisa social, seu sutiã, sua meia e até mesmo sua calcinha eram amarelos.

“Seulgi! Que bom em te ver.” a amiga da Kang disse, com um sorriso generoso no rosto, como sempre. Ela era a fiel escudeira da mulher, e sim, ela possuía uma alma gêmea. Um homem mais velho com aparência de novo, e bem rico também. Apesar disso, eles moravam em um apartamento grande, com detalhes simples e nada com muita cor, era bonito e combinava, mas não era do gosto de Seulgi, que gostava muito do colorido. Acredita-se que quem gosta de todas as cores juntas, seja alguém que não julgue o outro pela primeira impressão, muito menos pela aparência. Alguém muito sentimental e com um ar de mistério, porém que se entrega totalmente ao amor quando ele 'se bate a porta.' Mas nenhum amor sequer bateu na porta do coração da Kang, ainda.
E surpreendentemente era assim mesmo a descrição do perfil pessoal de Seulgi pessoalmente, muito misteriosa, mas alguém de bom humor, que é muito bondosa e principalmente que não julga o próximo por nada, a única pessoa que realmente desgosta é o presidente do país em que mora.

Seus olhos percorriam por todo o ambiente, havia decorado aonde era o banheiro por ter ido lá algumas vezes. E em todas essas vezes conseguiu se trancar lá e quase quebrar o box, sabe lá como.
Apesar dessas lembranças chatas que insistiam em passar na sua mente de cinco em cinco minutos, ela ainda sentia-se confiante e feliz na espera de um novo ano. Eram onze horas da noite ainda, faltava uma hora.

Nesse tempo, pegou uma cerveja qualquer em um frigobar e se sentou no sofá. O apartamento era no último andar, então tinha uma varanda no teto. Era assustadoramente grande e Seulgi não queria cair na tentação de ir lá dar uma olhada, vai saber o que aconteceria.

Muitas pessoas foram chegando, a música que antes era quase inaudível agora estava quase machucando as orelhas da Kang. Pelo menos era um samba, então ela ficaria surda feliz.

A maioria das pessoas lá da festa eram brasileiras, é claro que ela também era, mas a única descendente coreana ali era ela. O que não a incomodava nem um pouco, porque ninguém mexia consigo ou fazia piadinhas sem graça sobre sua nacionalidade, sabe lá porquê, já que era a mesma que a deles, pois nasceu e cresceu no Brasil, então por que serem tão racistas com alguém? Só o que mudava eram suas características na aparência, que eram diferentes, e não, ela não falava coreano.

Sua mãe que era a responsável por Seulgi ter bochechas tão grandes e olhos com formato diferente. Sua bondade também fazia parte da personalidade da progenitora, mas ainda mais da sua educação. Não existia um preconceito sequer na casa dos Kang/Santos até que a mãe morreu. Foi trágico, mas a forma que ela morreu foi heróica. Claro que isso atingiu muito a filha e o pai, o pai foi o mais afetado, pois sua mente se fechou totalmente e seu coração ficou duro como pedra. Já Seulgi, se culpou muito por anos, era azarada, então claro que iria perder alguém tão bom mais cedo ou mais tarde. Era assim que pensava e isso era uma culpa desnecessária em sua vida, porém a mulher não notava isso de jeito nenhum.

Depois de divagar e terminar sua lata de cerveja, uma grande vontade de ir no banheiro bateu e a mulher andou normalmente para não cair. Mas ao chegar lá, já tinha alguém usando, Seulgi nem notou a mulher que também estava esperando a pessoa sair do banheiro para ela usar. Só notou quando encostou a coluna caída na parede e abriu os olhos, encarando o chão e percebendo um par de pés descalços de frente com o seu par de tênis. Seu olhar subiu e ela finalmente notou a presença da outra ali.

"Ficar descalça na véspera de ano novo dá alguma sorte?" Seulgi indagou com o semblante curioso. A mulher que estava a sua frente arqueou as sobrancelhas.

"Não, na verdade eu só estava com dor nos pés mesmo. Aquele salto alto ainda me mata." respondeu-a, sem graça. "Você está procurando por sorte? Acredita mesmo nessas coisas?"

"Ah, sim." Kang falou, dando de ombros. "Preciso acreditar que algo dá sorte, sou uma mulher azarada demais, esse ano só aconteceu desgraça atrás de desgraça e eu usei preto no ano novo passado, então acho que foi ali o meu erro. Mas sempre fui azarada, então não faz sentido."

A mulher piscou rapidamente algumas vezes, só então que Seulgi fitou seus olhos e percebeu que ela também parecia ter descendência asiática.

"Qual o seu nome?" perguntou-a, vai saber se uma amizade poderia surgir através de um pequeno desabafo. Mas ela duvidou muito, do jeito que seu azar era, poderia é afastar a mulher de si.

"Irene."

"Que?"

"Meu nome é Irene Bae." falou mais alto, Seulgi assentiu, com um sorriso torto no rosto. Irene achou aquilo engraçado. "E o seu?"

"Kang Seulgi." dessa vez sorriu certo, um sorriso fofo, que fazia seus olhos quase fecharem em um eye smile. "Prazer em te conhecer, Irene."

"Você mora no Brasil e tem um nome coreano? Eles não implicaram na hora de escrevê-lo?" Irene perguntou, se sentando no chão frio de madeira. A pessoa pelo jeito estava com uma dor de barriga 'daquelas' e não iria sair dali tão cedo.

"Bom, não." Seulgi deu de ombros, como se realmente era algo simples de se explicar. Mas a questão é que nem ela sabia como tinha um nome tão diferente.

"Comigo sim, tanto que meu nome é Joohyun fora do Brasil. Aí fica Bae Joohyun, bem mais bonito." Irene gesticulou com as mãos, Seulgi reparou que ela usava um vestido todo vermelho e um batom vinho, mas bem fraco. A Kang analisou-a e reparou nas linhas de seu rosto, era bonito e chamativo, com certeza quase no padrão coreano, se ela morasse lá, claro.

"Pelo que eu saiba.. Irene significa paz, então é um nome muito bonito." Seulgi disse, como se divagasse ao mesmo tempo. Ela também se sentou no chão e juntou os joelhos com os braços. "Desculpa se eu demorar para responder, estou concentrada em controlar minha bexiga para não fazer xixi nas calças." fez careta, fazendo Irene rir.

"Nunca pesquisei o significado do meu nome." Bae a respondeu, ela não deu um único sorriso naqueles cinco minutos de conversa e gesticulação. Sua aparência era muito séria, se Seulgi julgasse, poderia falar que ela trabalhava como CEO de empresa ou algo assim, que exigisse cem por cento de seriedade. Talvez uma líder nata?

"Era o nome da minha mãe." seu olhar antes alegre, mudou-se para triste "Eu pesquisei o significado do nome dela depois dela ir. Se tornou meu nome favorito desde então. Coincidência né?" riu sem graça.

"Seulgi, eu sinto muito." mesmo que Irene tivesse achado estranho de uma desconhecida ter falado um pouco sobre sua vida, ela não se sentiu desconfortável como se sentia quando isso acontecia consigo no seu trabalho, como se fosse sua obrigação ajudar aquele alguém. Ela também tinha seus problemas e talvez fosse isso que a tornasse tão egoísta.

"Não precisa se sentir, Irene!" sorriu novamente, suas mãos apertaram seus joelhos e ela quase se arrastou até a porta por causa da vontade. "Será que tem um balde? Eu realmente preciso ir ao banheiro!"

"Por acaso tomou muita cerveja?" Irene perguntou, e a Kang assentiu, querendo rir mas ao mesmo tempo preocupada. "Quando a pessoa sair, eu deixo você ir no meu lugar."

"Que gentil, mas você não está apertada também?" agora foi a vez de Seulgi arquear as sobrancelhas, e parando para observar, aquele corredor onde estavam era bem extenso, a música não estava tão distante, já que a sala de estar era logo antes desse passadiço.

"Na verdade foi uma desculpa para eu me livrar de um cara chato que estava me atormentando." Irene respondeu, com um tom de voz diferente do normal, parecia mais deboche que se usa em situação de alívio. Seulgi até ficou em alerta. "Eles têm essa fissura em asiáticas ou brasileiras com essa descendência. É algum fetiche daqui? Porque sério, desde pequena, nas creches, os menininhos ficavam implicando comigo e fazendo imitações ridículas da língua deles. Como se eu não fosse brasileira também né!" bufou, a Kang pôde sentir toda a indignação em cada palavra. Teve até uma ideia de uma matéria sobre o racismo e pensou em chamar Irene e outras pessoas com descendência asiática para entrevistar. Seulgi também era descendente, mas no caso ela era a entrevistadora ali, e jornalistas sempre devem se manter neutros, mesmo que seja sobre preconceito e idem.

"Eu sofri muito com isso, mas teve um dia que cansei e falei tudo isso que você falou. Não igualmente, mas semelhante. Me deixaram em paz e até disseram que eu não era mais um ursinho fofo e ingênuo e sim um urso violento." Seulgi pôs se a rir, relembrando do momento. Irene riu também, mais pelo apelido que fazia total sentido, pois o formato do rosto dela lembrava um pouco um ursinho. "Aiii! Não posso rir."

"Cuidado." Irene arregalou os olhos em sinal de preocupação, era quase que automático. A mulher se levantou e resolveu bater na porta. "Tem alguém aí?" nenhuma resposta. Se assustou. Seulgi a olhou atentamente, ela sentia que poderia sair a qualquer momento. "Ou quem está aqui morreu, ou não tem ninguém aqui."

"Abra a porta com calma, só a fresta." Seulgi a orientou e Irene seguiu sua ordem, espiando um pouco, não viu ninguém. "Sem ninguém?"

"Sim."

Seulgi arregalou os olhos e correu até o banheiro sem dizer nada, ficou uns dois minutos ali no vaso divagando após fazer xixi. Será que era seu azar? Ou uma pequena sorte por ter conhecido uma mulher com o nome de sua mãe? Não sabia dizer. Só sabia que estava aliviada e poderia morrer ali mesmo. Após sair do toalete e assistir Irene de pé com os braços cruzados, olhando para o teto, denunciando que estava esperando alguém, Seulgi teve uma grande ideia do que a Bae fazia ali, ela não estava acompanhada de ninguém e reclamou de alguém lhe enchendo, será que...?



Irene notou que Seulgi tinha saído do banheiro, e também percebeu que um homem indesejável caminhava até si, quase que a encurralando.

"Demorou demais, hein? Tava com caganeira?" o rapaz riu, Irene continuava séria, Seulgi observou algo de errado no clima entre os dois. "Que seja, vamos voltar. Estava tão legal com você lá."

"Eu não quero, Bruno. É a quinta vez que digo isso, se não parar irei tomar providências" Irene reclamou, estava óbvio que era desconfortante para si e quase que pedia socorro, claro que estava passando dos limites. Aquilo ali era óbvio. A Kang também sentiu-se desconfortável e até repensou muito no que ia fazer, mas em situações como aquela, ela tinha de agir.

"Eu não tô entendendo. Você tá dando em cima da minha namorada na minha frente. Não tem vergonha na cara, seu bostinha?" Seulgi segurou o braço da menor e a trouxe para si, abraçando-a. Irene era alguns centímetros mais baixa que si, na altura do pescoço da Kang.

"Que desperdício." o homem cuspiu as palavras, aquilo não machucou, pois era um completo desconhecido. Seulgi sorriu com malícia internamente, ela poderia expô-lo e fazer da sua vida o inferno, mas sua consciência pedia que não e somente conversasse com a dona da festa para expulsá-lo dali.

"Você sabia que isso é assédio né? E que como uma policial que sou, não posso ignorar." Seulgi falou, o olhando séria. O homem ficou pálido e engoliu seco "Pô, é véspera de ano novo e um filho da putinha estraga?! Assim não dá, só porque tô de folga do meu trampo." Bruno nem sequer ouviu o resto, somente pegou suas coisas e foi embora. Ninguém da festa sentiu sua ausência ou sua falta, já que ele estragou todo o clima, que só voltou a ficar bom depois de um tempo.

"Eu ia pará-lo." Irene disse, indignada. "Seulgi, não sabia que era da mesma área que eu."

"Você é policial?!" Seulgi que engoliu seco desta vez, Irene riu de seu desespero e assentiu. "A-Ah desculpa então! Eu só queria ajudar.. Mas não sou policial não."

Irene sorriu e desejou não sair daqueles braços, estranhamente calorosos, nunca.
A Bae também notou no aroma de perfume doce que provavelmente e obviamente era o de Seulgi.

Elas duas se afastaram aos poucos e se encararam por um bom tempo.

"Você trabalha no que, Seulgi?" Irene perguntou, observando a maior sair de um transe.

"Jornalista. Faço podcasts, escrevo matérias para jornais.." disse, ainda entorpecida com o fato do nariz da Bae ter roçado em seu pescoço e que ficou claro que ela estava sentindo seu cheiro de manteiga de cacau. "Me desculpa por fingir algo que não sou. Foi só pra-"

"Pra me ajudar, eu sei. Não se desculpe. Esse será nosso segredinho, tudo bem?" Seulgi assentiu e Irene sorriu novamente, dessa vez de orelha à orelha. "Vamos sentar no sofá? Parece que está sentindo uma imensa dor nas costas."

"Como sabe?"

"Você não para de se ajustar. Não nota isso?" a Bae riu, achando uma graça ao ver Seulgi negar a cabeça, como se fosse uma criança.

"Acho que é inveja das suas costas perfeitamente eretas, Irene." disse ao se sentar no sofá de maneira relaxada, enquanto assistia Irene se sentar ao seu lado de forma correta.

"Isso é porque fico sentada em uma cadeira ruim o dia todo, ela meio que força suas costas a ficarem retas."

"Você não sai pra resolver crimes e prender criminosos?" Seulgi pergunta, perplexa. E se repreende mentalmente por ter julgado Irene pela segunda vez na noite, sendo que ela não era de julgar.

"Prazer, Tenente." Irene diz em tom brincalhão e estende sua mão em forma de cumprimento, a Kang fica boquiaberta e aperta sua mão. Nota que é macia e quente e cora fortemente. "Está com febre? Está vermelha."

"Ahn? Não! Isso é normal de mim, sempre corando com pequenas coisas. Sabe como é.." Seulgi quis se bater por responder nada com nada, uma jornalista falar tão mal era uma vergonha.

"Eu sou tenente mas continuo sendo gente." Irene fala, a olhando séria.

"Eu sei. Desculpa." Seulgi murmurou, coçando a nuca um pouco sem jeito. "Quer uma cerveja?"

"Uhm? Não. Eu não bebo, mas se quiser que eu te acompanhe até lá."

"Não, não precisa. Obrigada." Seulgi sorri, indo em direção ao frigobar lá na cozinha e respirando fundo ao ver um casal quase se engolindo aos beijos. Ela faz uma careta de nojo e ao mesmo tempo de tristeza, pega duas latinhas e sai dali. "Voltei." senta-se no sofá novamente e abre a latinha, tomando cinco goles de uma vez. Aquilo aliviou sua angústia de poucos momentos atrás.

As duas ficaram um pouco em um silêncio confortável, ouvindo agora um pagode, podiam ouvir as vozes da varanda lá do quarto de cima, o pessoal poderia estar curtindo na piscina inflável. Um cheiro de churrasco veio até os narizes de ambas, que se olharam e correram lá pra cima.

"Eu amo churrasco!" disseram em uníssono, rindo pela sincronia. A dona da festa sorri ao vê-las juntas e oferece duas cadeiras para ambas se sentarem. Realmente estavam assando carne, e sim, tinham pessoas de biquíni e bermuda conversando na piscina. O tempo parecia passar devagar e isso não as incomodava nada, mesmo que não falassem e apenas comiam a carne mal passada.

"Tem certeza que não quer cerveja, Irene? Cerveja com carne assada é a melhor combinação." Seulgi falou em seu ouvido, pois a música estava bem mais alta e era difícil escutar alguma coisa ali. Irene virou o rosto para encará-la.

"Sim, Seulgi." Irene confirmou sua opinião. A Kang deu de ombros e abriu a outra latinha que pegou por acaso.

A música foi abaixando, pois faltavam trinta minutos para o ano mudar e agora era a hora em que as pessoas conversavam entre si para se conhecerem mais. Acontece que Seulgi não queria revelar para todos que no auge dos seus vinte e oito anos não havia encontrado sua outra metade. Para muitos isso era constrangedor. Seulgi também pensava se Irene possuía alguém na sua vida, afinal, isso não era impossível, mas geralmente as almas gêmeas comemoram esse tipo de datas juntas para dar muita sorte para o futuro das duas.
A rodinha começou a conversar em volta da pequena mesa circular que possuía um prato grande, com muita carne, sob ela. As pessoas que estavam na piscina continuaram lá, mas também participaram da conversa. Todos, exceto Seulgi e Irene, conversavam. As duas estavam muito perdidas e não sentiam vontade de falar sobre ser solteira ou não.

"Irene"

"Seulgi"

As duas se chamaram ao mesmo tempo.

"Você primeiro." disseram em uníssono, se surpreendendo de novo.

"Pode falar, Seulgi." Irene deu a ordem e Seulgi apenas acatou-a.

"Essa conversa está me incomodando, podemos voltar?" Irene nada disse, apenas concordou com a cabeça.
As duas desceram as escadas e se sentaram no móvel macio novamente.

"Por que te desconfortou?" Irene perguntou, Seulgi já sabia que ela perguntaria, por isso não demorou muito tempo para formular sua resposta.

"Porque, eu, bem... Não preciso mentir." disse a última parte baixinho "Eu fui diagnosticada sem alma gêmea."

Irene ficou boquiaberta, fechou a boca, a abriu para tentar falar algo e fechou novamente. Se encolheu no sofá e até mesmo desviou seu olhar dos olhos de Seulgi.

"Seulgi."

"Sim?"

Silêncio. Ficaram quietas. Seulgi até pensou em perguntar do porquê Irene ter lhe chamado, mas resolveu esperar.
Paciência acima de tudo, é assim que pensa. Para exercer seu trabalho, precisa muito disso.

"Eu também não tenho alma gêmea." Irene soltou em algum momento, Seulgi deu um pulo do sofá e a olhou confusa. Irene riu. "Na verdade, minha situação é diferente."

"Como assim?"

"Eu tinha alma gêmea sim. Mas eu não a amava."

Seulgi ficou perplexa, esse tipo de caso de não amar sua outra metade era raro. Ela nunca tinha visto, na verdade. As pessoas pareciam tão felizes com suas almas gêmeas que considerava isso um mito.

"E você largou ela?"

"Ela amava outra pessoa. Sabe como é, quebrou o tabu. Assim como você." Irene riu do semblante totalmente curioso da jornalista. Jornalistas são neutros, mas Seulgi era diferente, ela possuía uma opinião formada e não ligava se denunciava estar triste ou não. Talvez isso fosse também outro azar dela que aprendeu a lidar.

"Eu quebrei um tabu?"

"Sim, ué. O tabu é que existem sim almas gêmeas que te completam e que te fazem feliz pelo resto da vida. Mas a verdade que ninguém se atreve a contar é que às vezes ninguém precisa de alguém para ser sua outra metade, e que sim podem ser felizes sozinhos. Que a sua alma gêmea pode amar outra pessoa e o mesmo de você." Irene explicou, não era um assunto interessante para si, o contrário, ela gostava de falar sobre coisas mais simples e tinha certeza que conversar sobre os próprios problemas apenas atraíam mais.

"Consigo compreender o que diz. Mas você sequer cogitou na ideia de amar alguém, Irene?" Seulgi indagou, estava preocupada com a mulher.

"Claro que já. Eu já sou feliz assim, mas adoraria ter alguém do meu lado. Não para me completar e sim para me complementar. Adicionar mais em mim, e não substituir."

Aquela conversa seguiu de uma entrevista. Seulgi tinha mania de perguntar sobre tudo e Irene respondia totalmente séria, como se fossem seus papéis. A Kang descobriu que Irene não bebia por causa de um trauma sobre abusos em sua infância, e também descobriu que a Bae não se interessava por homens de jeito nenhum. Que sua alma gêmea era um homem que se descobriu gay, assim como ela que se descobriu lésbica.
Seulgi também pôde compreender como o trabalho de Irene realmente funcionava e como ela exercia ele. Parecia muito difícil ter que lidar com várias pessoas criminosas e tirar informações delas, mas a Kang se identificou pelo fato do seu trabalho também ser semelhante, a única diferença é que Seulgi não trabalhava de salto alto, muito menos atirava nas pernas de quem fugia de suas mãos.

Já Irene descobriu muito sobre Seulgi também, notou que seu coração é muito bondoso e que ela é muito empática. Conheceu mais sobre o passado da Kang e sobre a morte de sua mãe, se sentiu honrada por ter o mesmo nome que ela.
Entendeu o fato da mulher ser tão aberta com tudo e riu do fato dela estar brigada com seu pai por um motivo tão besta.
Seulgi contou como que foi seu dia inteiro cheio de azares, ela escrevendo a matéria tudo errada e tendo que recomeçar, tropeçando no caminho de volta para casa e apanhando de uma senhorinha que achou que ela queria roubá-la, quando na verdade queria ajudá-la a atravessar a rua. Quando quase perdeu sua chave no bueiro e um cachorro correu atrás de si em uma perseguição implacável até a porta de sua casa. No final, rendeu uma boa história para contar para uma tenente entediada com uma coluta tão reta quanto uma régua que riu até a barriga doer.

O tempo passou e elas se conheceram totalmente. Vinte e nove minutos foram necessários para elas compreenderem mais sobre a outra e se identificarem em algumas ocasiões.
Tinham até a mesma música favorita e possuíam o máximo de coisas em comum, até mesmo do que gostavam de comer o café da manhã; baguete.

Todos da festa foram até onde elas duas estavam e os donos da casa ligaram a televisão na Globo para que finalmente começassem a contagem regressiva.

Seulgi nem notou que sua mão esquerda se entrelaçou com a direita de Irene. Naquela noite, todo o azar da Kang não foi em vão e a culpa que ela sentia pela morte da mãe se foi. Como se Irene fosse mandada pelo universo, como um meio de pedido de desculpas, não que ela fosse um objeto, mas sim uma companhia desejável para esses tipos de dias cheios de azar. Não precisaram de muitos toques para se gostarem de vez, muito menos um beijo ou sexo, só de estarem ali uma com a outra, já tiveram as almas conectadas.

E quando chegou ao último número da contagem, fogos de artifício lindos e coloridos, sem som para o bem dos animais, se expandiram pelo céu, Seulgi teve certeza que por mais que tivesse passado por tudo aquilo, crescesse e se tornasse jornalista para se encontrar com a pessoa certa, no momento certo, ela já sabia que valeu à pena.

E bem, claro que um beijinho entre elas não iria faltar, todo mundo ficou suspreso no final, mas não era como se a química tão forte entre elas não tivesse denunciado tudo logo de início.

Seulgi inclusive teve uma longa epifania, no dia seguinte amanheceu toda jogada no chão da sala com os pés gelados de Irene em sua face. Aquilo era algum tipo de azar de um novo ano ou uma sorte de ter alguém tão bonito ali consigo? Ela não saberia dizer se não tivesse apertada para ir no banheiro e ele estivesse cheio de gente. É, era um azar mesmo.
Mas um azar bom.

"Seulgi, acho que a única forma de parar com esse azar todo é pintando seu cabelo de loiro." Irene murmurou enquanto bocejava, rindo do rosto de sono da maior.

"Que nada. Eu já comecei com sorte."

"Já?"

"Claro, com uma mulher dessas do meu lado. Pensando bem, você é minha sorte, Irene Bae." Seulgi riu e a Bae achou uma graça a forma desengonçada da Kang falar.

"Você não existe."

E depois disso, elas trocaram número e cada uma foi para sua casa, iriam sim se reencontrar, mas mais para frente, no momento, Seulgi ainda estava incrédula que encontrou alguém tão bom para si e se apaixonou no mesmo dia que conheceu. Aquilo não era carência, era de verdade e sentia que alguém finalmente conseguiu abrir a porta do seu coração.
Entretanto, agora ela precisava focar em abrir a porta de sua casa, que estava trancada.

"Eu e os meus dias de azar..." resmungou. E após isso, se desculpou com o seu pai, que viu uma aura diferente na filha e teve seu pensamento mudado aos poucos por ela.

Ficar fora de casa lhe deu uma grande inspiração de escrever uma linda matéria sobre como almas gêmeas são um verdadeiro tabu que ela teve prazer de acabar com ele, sendo feliz com alguém que não completava ela e sim complementava. Um jornal que não só inspirou pessoas, como também as libertou e fizeram-nas sair das sombras, pararam de ser tratadas como anormais e finalmente os dias de azar de Kang Seulgi se tornaram dias de sorte, claro que com alguns desastres, mas ao lado da companhia perfeita para dias de azar, Irene Bae.



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