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História Complicated - Limantha - Capítulo 41


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Notas do Autor


Oieee quanto tempo kk scrr
acho que nem tem mais gente por aqui MAS É MINHA META PESSOAL TERMINAR ESSA HISTÓRIA E EU VOU TERMINAR
e de fato ela já está acabando QUEM AINDA TIVER PACIENCIA SÓ TER UM TICO MAIS
bjs

Capítulo 41 - Linda


Samantha

 

There’s place for us,

Somewhere a place for us.

Peace and quiet and open air

Wait for us

Somewhere

 

West Side Story – “Somewhere”

 

Os aparelhos estavam apitando em minha cabeça. É bem melancólico, sabia? Um quarto de hospital. Você deve saber, em algum momento deve ter visitado um. Ou ficado em um.

Se teve a tremenda sorte de nunca nem sequer ter colocado o pé em um quarto de hospital, fique sabendo que é gelado. É gelado, é barulhento e silencioso, ao mesmo tempo. É verde, ou azul. Eu gosto dessas cores, mas pegam os tons mais tristes de verde e azul e colocam nas paredes, nas camas, em tudo! Até a porra do paciente fica azul (entendeu a minha metáfora melancólica? Espero que sim, porque eu fiquei bem orgulhosa de mim mesma).

Eu sei que ninguém mais aguenta a quantidade de vezes que nós visitamos o hospital nessa história, mas dessa vez é diferente. Nesse momento, está sendo bem ruim, mas prometo que quando aparecermos aqui novamente, será algo bom.

Enfim, aconteceu um acidente. Na última vez que nos vimos, minha mãe tinha flagrado aquela overdose de homossexualidade em seu apartamento e saiu de lá, correndo. Depois descobrimos os detalhes. Basicamente ela pegou o carro, onde tinha estacionado no meio da rua, e acelerou. Foi bem rápido, ela perdeu o controle e atingiu um poste. Somente ela ficou ferida, os paramédicos chegaram rapidamente no local do acidente. Talvez por se tratar de uma rua movimentada, talvez porque o carro que estava consideravelmente amassado era uma Mercedes. Mas o que importa é que chegaram rápido.

Estávamos bêbados, assistindo televisão quando o pai de Carol ligou. É verdade que depois da visita surpresa de Milena, o clima ficou meio estranho, mas Lica fez de tudo para me distrair e estava funcionando. Jogávamos stop, repito bem bêbados, mas a ligação nos interrompeu.

— Oi, pai. — Carol respondeu rindo, tentando tapar a boca da namorada que gritava “ME COME!” no fundo. Mas sua expressão fechou e acabamos percebendo que a coisa era bem séria. Era MUITO séria quando ela pousou seu olhar desesperado sobre mim. — Ok, ok, estamos indo.

E desligou. Ninguém respirava.

— Sua mãe sofreu um acidente de carro. Estão levando ela para o hospital.

Bom, esse momento foi estranho. Não sei bem o que dizer o que senti. Não, eu não queria que ela morresse, não tem como porque mesmo depois de toda essa merda que aconteceu, esse inferno que ela me fez passar, ela era a minha mãe. Mas, do mesmo jeito, a forma apática com que reagi à notícia me assustou, foi estranho.

Foi um borrão o resto. Lica pegou a minha mão e apertou como se nunca mais fosse soltar, esse sentimento foi muito bom. Gabriel chamou o Uber, Carol ligava para todos que conhecíamos. Elas acharam que eu estava em estado de choque, então Lorena pegou meu celular e ligou para meu avô e meu pai, além dos meus tios. Um segredo: eu não estava. Em estado de choque, no caso. Claro, chocada eu fiquei, mas assim como todo mundo também ficou. Eu só estava assustada em como era grande o estado de apatia eu me encontrava.

Meu cérebro ficava: “É grave, Samantha”, “Samantha, ela pode morrer”. Meu coração, por outro lado, soltava um: “E daí?”. E isso me assustou demais, por isso permaneci calada o caminho inteiro, olhando pela janela o movimento de São Paulo e sentindo o aperto da mão de Lica junto da minha. Será que eu havia me tornado essa pessoa tão desalmada? Mas o que ela fez comigo não é certo, ela me odeia. Odeia quem eu sou, quem eu amo.

Chegamos ao hospital, meu pai e meu padrasto estavam chorando na recepção. Quando me viram, os dois vieram correndo me abraçar, explicaram rapidamente que o irmão de Carol estava na casa de alguém e falavam sem parar. De novo, eu não ouvia nada, meu cérebro ainda estava lutando sobre como eu deveria me sentir naquela situação.

Parecia que estavam me observando, de certa forma estavam. Eu me sentei longe, com os meus amigos. Lorena e Carol se abraçavam do nosso lado, Gabriel falava no celular com o resto do pessoal no grupo e eu só olhava para frente.

— Ei. — Lica me chamou e tocou meu rosto levemente quando não olhei para ela. — Como você está? — Eu a fitei desesperada, imagina o que ela não acharia de mim se soubesse o tamanho da minha apatia, me acharia um monstro com certeza, mas eu precisava desabafar.

— Dá uma volta comigo?

— Claro, meu bem. — Eu não sei bem aonde eu queria ir, era bem claustrofóbico ali, todo aquele ambiente. As pessoas desoladas e chorando também não ajudavam. Decidi então ir para fora e Lica só me seguindo, como a pessoa incrível que é.

Finalmente parei e me sentei num banco que ficava um pouco afastado da entrada do hospital.

— Você me acha uma pessoa ruim?

— Que pergunta é essa, Samantha? Claro que não. Você é incrível. — Continuei encarando o chão, estava com vergonha. Ela me analisou por mais alguns segundos. — O problema é que você está bem, não é? Você não está arrasada.

Corei, me senti flagrada.

— Sammy, você não é uma pessoa ruim, você é humana. Olha para mim. — Obedeci. — Não sei eles, mas eu não estou esperando que você chore descontroladamente ali. Ela fez coisas horríveis com você, está tudo bem, entendeu? Ela vai ficar bem e vocês vão se resolver. Eu... Eu não sou muito religiosa, você sabe, mas eu acredito que o que quer tenha lá em cima. Ou embaixo. — Não consegui deixar de rir, até nesses momentos ela era boba. — Tenha um plano. Alguma coisa em mim diz que isso é uma grande segunda chance. Não para vocês duas, para ela, porque você não fez nada de errado, não tem que se redimir de nada, é ela que tem que decidir se aceita ou não essa chance de amar e conhecer a filha incrível que ela tem.

 Aquilo me confortou de uma forma inexplicável, não sei mais como viver sem essa garota, honestamente. Ficamos lá fora por mais algum tempo, ela voltou a me distrair, conversamos sobre nossos futuros filhos e como eu queria adotar um gato preto, de preferência o da pousada em Pedra Azul. Acho que somente depois de uma hora meu pai apareceu, aparentemente eles queriam dar o relatório sobre o estado dela.

Vi a mãe de Tina quando entrei novamente, ela estava acompanhando, mas não estava no caso, porque afinal isso aqui não é novela e ela não é a única médica do hospital. Sim, ela estava bem, quebrou alguma coisa, confesso que não prestei atenção. Suspeitaram de sangramento interno, mas descartaram a hipótese depois de alguns exames. Mais algumas coisas, mas todos pareciam aliviados.

De novo, eu não sentia nada. Lica sabia então apenas apertou minha mão ainda mais forte. Aparentemente foi um milagre, com o dano do carro era para ela ter se ferido muito mais, fico feliz. Talvez Lica esteja certa sobre a segunda chance.

Meu querido padrasto decidiu então deixar meus amigos em casa, eles queriam ficar por mim, mas eu insisti que não precisava, apenas Lica não cedeu à minha vontade e ficou junto de mim todo o tempo. Meu pai estava eufórico que minha mãe estava bem, ele não entendia o que eu estava sentindo. Horas adentro, a mãe de Tina apareceu dizendo que ela havia acordado e nos perguntou se queríamos visita-la. Não sei bem como hospitais funcionam, mas não acho que isso seja permitido, abriu uma exceção para nós, imagino.

Eu me levantei antes de todo mundo e pedi que ela me guiasse até o quarto. Meu pai quis me seguir, mas eu não deixei, eu precisava ir sozinha, era um momento entre mãe e filha, se ela assim ainda me considerar, porque não sei mais. Lica me deu um beijo para me dar coragem ou me reconfortar, não sei o objetivo dela, mas teve ambos os efeitos.

Bom, e aqui estou eu, entrei nesse quarto ridículo, gelado e azul. Ela ainda não me viu, as máquinas estão fazendo barulho e meu coração está pesado, eu preciso deixa-lo mais leve. Por isso, pensando em tudo que já havia acontecido nesses últimos meses, eu me aproximei. Um passo, meu primeiro beijo com Lica apareceu. Mais um, eu invadindo sua casa em seu aniversário. Mais um e o pedido de namoro. Outro, nosso término. Quando estava a poucos passos dela as memórias de sua rejeição vieram à tona, ela na escola inconformada, o escândalo na pousada. Tudo.

Foi estranho vê-la cheia de aparelhos, ela sempre prezou tanto pela beleza e mais uns elementos fúteis que compõem a mulher hétero de meia idade. Dei uma leve risada, imaginando que ela odiaria a forma que ela mesma se encontrava.

Foi somente quando me sentei ao lado de sua cama que ela notou minha presença. Ela estava com o tubo que Mitsuko havia alertado, ela não conseguiria falar, apenas ouvir.

— Já te contaram o que aconteceu? — Seus olhos estavam arregalados, parecia assustada, não me lembro de ver esse olhar alguma outra vez em seu rosto em toda a minha vida. — Você bateu em um poste, o carro está todo amassado. — Silêncio, ela me olhava com muita atenção. — Eu preciso te contar uma coisa. Uma coisa que eu só contei para a minha namorada, nem meu pai sabe. Quando... — Só percebi que estava chorando quando a lágrima caiu no meu braço. — Quando ligaram para contar que você tinha sofrido um acidente, eu não chorei.

Era horrível essa conversa, não poder saber o que ela estava pensando, mas também assim talvez fosse melhor.

— Eu não chorei. — Disse, chorando. — Eu não fiquei triste, não fiquei com medo. Eu só senti uma apatia tão, mas tão forte, que me assustou. Isso não é um sentimento que uma filha deveria ter com uma mãe, né? — O olhar assustado dela estava seguindo cada movimento meu. — Eu me senti culpada, por isso, me senti um monstro. Mas a senhora fez por onde, não fez? Afinal, você me disse que eu não era sua filha, então faz sentido. Você acabou de sofrer um acidente, não quero ficar aqui piorando a sua situação, mas só queria que você soubesse que eu queria sim voltar a sentir algo, eu quero. Só que isso vai depender unicamente de você, porque eu não fiz nada de errado, só fui quem eu sou e a senhora que decidiu que quem eu sou era errado. Demorei muito para entender que não era, passei por muitas coisas ruins, então eu não me movimento mais, isso terá que vir de você, entende? — Para a minha surpresa, ela balançou a cabeça positivamente. — Ótimo. Eu não te desejo mal, fico feliz que esteja bem. Então... Até mais.

Toquei levemente em sua mão e saí o mais rápido possível dali. A minha sorte era que Lica me esperava na recepção. Dei um abraço forte nela e pedi para que fossemos embora o quanto antes, era emoção demais para uma pessoa em apenas um dia.

E ainda estávamos meio bêbadas.   

 

Lica

A Sammy ficou bem depois de todo esse turbilhão de coisas na cabeça dela, reagiu bem melhor do que eu esperava. As idas à psicóloga estavam ajudando mesmo e, aos pouquinhos, ela estava voltando a ser a Samantha doida e maravilhosa de sempre, o que para mim na verdade ela nunca tinha deixado de ser, mas tudo bem.

Tinha certeza que ela não iria querer ficar sozinha aquela noite então a levei para minha casa e fiz como missão pessoal distrair Sammy a qualquer custo, porque eu sei que a cabecinha dela estaria martelando. Nem tanto sobre a gravidade do acidente da mãe, mas a forma como ela estava lidando, se culpando por um sentimento totalmente plausível.

— Quer ver um filme? Ouvir música? Assistir série? Fumar? O que você quiser fazer a gente faz. — Anunciei para ela que se sentou na minha cama olhando para mim agradecida.

— O que você quiser fazer, amor.

— Hm... Que tal... Eu te desenhar? — Sam ficou curiosa e animada com a proposta.

— Sério? Como?

— Do jeito que você quiser. — Respondi já correndo pegar minha folha e os lápis. Tive uma ideia e corri no meu armário para pegar um chapéu que ficaria a cara dela, mas qual não foi a minha surpresa quando eu me virei e encontrei Sam nua na cama.

— Amor? — Ri sem graça, impressionante como depois de tudo ela ainda me deixava desconcertada. — Que é isso?

— Me pinta como suas garotas francesas. — Joguei o chapéu longe e me aproximei para um selinho rápido e logo me joguei a sua frente, preparando o papel para a obra mais perfeita que eu faria em toda a minha vida. — Eu não sei se vou conseguir te desenhar.

— Perfeição é irreplicável? — Essa era a Samantha confiante e sem noção que eu conhecia e amava. Eu tenho certeza que a questão da mãe dela ainda a estava corroendo por dentro, mas era fofo como ela tentava se distrair. E, querendo ou não, eu também saí no lucro.

— Irreplicável. — Concordei enquanto traçava rapidamente o esboço dos traços corporais de Samantha. Impressionante como tudo nela era perfeitamente perfeito. Ou são meus olhos, mas é que ela simplesmente é a mulher mais linda que eu já vi em toda minha curta vida. Era hilário como ela estava naquela posição para mim, mas abria um sorriso travesso e meio infantil. Sam é muito peculiar. — Você é linda, sabia disso?

— Ah é?

— É sim. — Comecei a aprofundar seus traços, dando mais dimensões ao desenho. — Linda por dentro e por fora.

— Bom, você é a pessoa que mais me conhece por dentro mesmo, Heloísa Gutierrez. — A cá estou eu elogiando a minha garota e ela fazendo alusão a sexo, sinceramente. Eu dei um chute nela de leve e gargalhamos juntas. Estava esboçando suas tatuagens quando de repente seu semblante ficou sério.

— Lica, eu não consigo ficar triste.

— Meu bem, já falamos disso. Ninguém espera que você fique.

— Mas olha a maneira como estou lidando! Posando pelada! — Fez um gesto mostrando seu próprio corpo e eu ri. Como se eu não estivesse vendo seu corpinho nu né, Sam?

— Cada um tem o direito de lidar como bem entender e julgar melhor.

— Se fosse seu pai você acha que agiria assim?

— Sammy, — deixei o desenho um pouco de lado e me aproximei dela, colando sua testa junto a minha e abraçando seu corpo junto do meu. — eu sou completamente doida. Se fosse meu pai eu poderia ser capaz de jogar as malas dele dentro do quarto de hospital.

Ela riu, parecendo genuinamente mais aliviada.

— Obrigada por existir, Lica.

 


Notas Finais


duas b0iolinhas


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