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História Conexão - Rabia - Capítulo 24


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Notas do Autor


Oi gente, tudo bem? Espero que sim. Pois bem, demorei horrores, pode me xingar de safada. Nada justifica, mas eu gostaria de justificar (quem não chora não mama nehhh kkkkkkk). Tô passando por um drama de garoutza nessa vida adulta, meio doente, meio viva kkkkkk Eu real tô me olhando com mais carinho, me respeitando e tentando não me cobrar tanto. É isso!!!! Esse capítulo estava sendo escrito desde o dia que eu postei o anterior, ele foi escrito em migalhas kkkkkk eu realmente tentei desde lá, mas não rolou. Confesso que tô bem insegura, tentei fazer diferente, reuni tudo num só nesse capítulo pra não me torturar e nem torturar vocês mais e encerrar essa etapa aqui, então, quem puder me falar o que achou, eu fico muito agradecida. Espero que estejam todos bem e se cuidando. Beijo no coração, rabiolassss. Até!!!


ps. Eu não corrigi o capítulo, pois grande demais kkkkkk

Capítulo 24 - Certos dias.


Dia 1°. Cirurgia Rafaella. Um pouco mais de nove e trinta da manhã.

 

Bia: Quando você sair, eu vou tá aqui ok? - Disse com o queixo sobre o peito de Rafaella encarando seus olhos ainda sem vida. Definitivamente nunca perderia essa mania. Fungou baixinho sentindo o rosto arder. Rafa sorriu serena fazendo Bianca levantar o tronco para beijar seus lábios suavemente. Arrumou sua touca soluçando. Estava emotiva. - Eu sou muito idiota - Rafa riu alto passando a mão por suas costas abraçando-a com força. Bia estava nervosa. Tudo bem. Estavam prestes a mudar a direção do barco. Para sempre. Rafaella sabia disso. Mas não conseguia sentir nervoso, ainda não. Não conseguia sentir nada. Só a luz. Sentia a claridade da luz. Isso a obrigava permanecer de olhos fechados por causa do incômodo. Por mais que não enxergasse, ainda conseguia diferenciar entre tons claros e escuros. E o tom da luz do apartamento em que se encontrava, era claro demais. Isso a fez deduzir que as paredes eram sem graça. Cor pastéis talvez? Branco? Por Deus. Ninguém pinta um cômodo de branco sem ter cem por cento de zelo por ele. Então definitivamente o quarto em que se encontrava no Hospital dos Olhos, não era branco. - Porque você tá assim? - Perguntou se afastando. Rafaella tinha o rosto franzido. Bia riu da sua expressão.

 

Rafa: Que cor são as paredes? - Perguntou rindo. Bia acompanhou encarando em volta. - Me descreve como é... - Pediu bocejando. Não tinham dormido um minuto sequer. Passaram a noite fazendo amor mesmo depois da súplica de Bianca com o argumento de que tinham que acordar cedo para a internação. Não adiantou. Não conseguiam se manter longe. Quando perceberam, já era tão tarde, ou tão cedo - depende do seu ponto de vista -, que se arrastaram para o banho e depois partiram para o hospital. Juntas. Não conseguiam ficar longe uma da outra. Nem na noite passada, e nem em todas as seguintes. Às 5:45 em ponto deram entrada na internação no HO, mas só as 7:30 o médico chegou para avaliá-la e fazer a consulta pré anestésica. E só agora, um pouco mais de nove e trinta da manhã, Rafaella estava pronta para ir pro centro cirúrgico com esperanças de tentar, a todo custo, voltar a enxergar. Talvez agora estivesse com medo, não mais que Bianca. Mas depois de admitir o que faria, conseguia sentir a sensação no estômago. Não sentia mais só a luz. Sentia um incômodo no ventre. Medo talvez.

 

Bia: Você tá no centro do quarto - Contou analisando os detalhes - As paredes são tão feias, mas tão feias que se eu encarar mais de dez minutos, vou me sentir triste - Rafa gargalhou cruzando seus dedos com os de Bianca. - Na sua frente tem um televisão e... - Olhou em volta - Tem um quadro legal de evolução do paciente - Riu alto lendo o nome - Escreveram seu nome.... Rafaella Andrade? - Olhou confusa para a tela branca -

 

Rafa: Eu pedi - Sorriu chamando a atenção da Bia. - Não queria que as pessoas soubessem que eu estava aqui, apesar de saber que alguém já deva ter falado, mas enfim... Só usei o que vai ser meu por direito - Bia soltou um risinho debruçando sobre seu corpo novamente -

 

Bia: Seu por direito? - Falou rouca mordendo o lábio inferior da mulher puxando-o entre os dentes. - Você só tem que parar de me enrolar - Rafa riu gostosa. Bia sorriu encarando suas covinhas extremamente fofas. Não ligava para casamento. Ligava para o fato de viver o resto da vida com Rafaella. Só isso. - Você tá sexy demais com essa camisola...

 

Rafa: Bia - Empurrou ela pelo ombro - Você me ganhou no sussurro e eu pensei até em avançar o sinal - Bia riu com a naturalidade dela de falar sobre sexo pela segunda vez desde o acidente. - Mas falar dessa camisola? - Bufou - Você não presta

 

Bia: Mas você tá sexy, uai - Beijou o pescoço da namorada forçando o sotaque. - Ainda mais com essa carinha de cansada depois de ter feito amor comigo a noite toda... - Continuou a trilha de beijos até a sua clavícula. - Você não faz ideia o quanto eu sou apaixonada por você assim... - Chupou a pele com vontade fazendo a mulher soltar um gemidinho. - Eu nunca vou me cansar de você... - Prometeu. Sem nenhum aspecto sexual. Rafa novamente contornou seus braços pelo corpo da carioca apertando-a com força.

 

Rafa: Eu não quero que você fique aqui - Falou com a voz abafada contra seu pescoço - Quero que faça algo para se distrair, ok? - Bia não respondeu - Bia, não tem nada para fazer aqui, amor...

 

Bia: Não quero te deixar aqui sozinha

 

Rafa: Já Já eu nem vou lembrar que estou aqui - Se referiu a cirurgia, e consequentemente da anestesia. - Vai lá na casa da Gi, passa a tarde com a Flay, só... só não fica aqui se torturando, dengo - Deixou um beijinho no pescoço da carioca antes de se afastar. Pegou seu rosto nas mãos aproximando seus lábios. - Promete que vai esquecer que eu tô aqui até o fim da tarde?

 

Bia: Não - Confessou com a voz embargada - Só não quero te deixar aqui sozinha...

 

Rafa: É você quem vai estar sozinha, amor - Bia concordou - Volta no final da tarde - Pediu - Acho que já vou estar acordada e... e aí podemos ficar juntas - Bia sorriu assentindo -

 

Bia: Ok, me convenceu - Beijou a ponta do seu nariz - Só... eu vou estar orando ok? - Rafa assentiu - Vou orar para Deus garantir que todas as cosias saiam da forma prevista por Ele - Rafa sorriu. Bia também. É estranho o fato de pegarmos os hábitos das pessoas que amamos pelo reflexo daquilo causa nas suas vidas. Bianca nunca foi o exemplo perfeito de devoção à Cristo, mas ver a luz que Rafaella emanava pelos poros todas as vezes que falava dEle, confortava seu coração.

 

Rafa: Não pega o Antônio ein? - Beijou a testa da mulher - Deixe ele aproveitar a vovó - Bia riu. Rafa sabia que seria impossível ela cumprir isso. Deu mais um selinho nos seus lábios e a enfermeira entrou na sala. Bia respirou fundo apertando Rafaella nos braços. - Vai ficar tudo bem, amor... já está, não? - Bia assentiu limpando os olhos. - Quero você aqui mais tarde... - Beijou a mão da mulher - Se cuida... - Pediu sentindo a maca ser destravada. - Eu te amo, Bia..

 

 

Bia: Não mais que eu, Rafa... - Deu outro beijo sobre a testa da maior vendo-a partir com a enfermeira. Cruzou os braços sentindo a vontade incontrolável de chorar. Estava com medo. E com muita esperança. Mas ela era facilmente cegada pelo receio do negativo. Suspirou encarando as paredes brancas. Realmente se continuasse a fazer isso, ficaria triste. Respirou fundo pegando a bolsa. Não tinha porque ficar, não seria útil. Se dirigiu ao elevador escutando um silêncio absoluto. Realmente ficaria triste. As portas se fecharam obrigando-a se escorar na parede. Sua perna esquerda tremia de forma incontrolável. Nervosismo. Normal. Tanto tempo tentando normalizar a condição de Rafaella, e agora estavam a um passo do novo mais uma vez. Entrou no carro tirando os óculos escuros. Deu partida soltando um riso. Realmente não conseguiria ficar longe do filho. Se deu conta disso quando virou a rua fazendo o trajeto para a casa da mãe. Pegou o menino com a promessa que o levaria ao final da tarde para os cuidados da vó novamente, e em menos de 20 minutos, já estava na porta do apartamento de Gizelly, e agora também de Flayslane. Estranho. Muito estranho de se imaginar.

 

Gizelly: Boca Rosa? - Abriu a boca em falsa surpresa segurando a maçaneta - O que você.... Bernardo sai daí - Gritou fazendo a carioca colocar as mãos sobre os ouvidos do bebê que estava contra seu corpo peito, no canguru. - Entra, mulher - Bia obedeceu encostando a porta. Gi pegou o menino no colo que se pendurava na cortina. - Eu vou tirar a tua pilha - Ralhou fazendo o menino gargalhar e contagiar a carioca. Bianca sorriu largando a bolsa sobre a poltrona e fazendo carinho no cabelo do filho que tinha os dedinhos na boca - Vai dar oi pra tia Bia, vai, anda - Largou ele no chão dando dois tapinhas na bunda. Bernardo soltou outro riso correndo em direção a empresária que se ajoelhou com cuidado para ficar do seu tamanho.

 

Bia: E aí carinha? - Apertou a bochecha da criança que fez uma careta irritado. - Gostoso da tia - Encheu o rosto angelical de beijos babados.

 

Bernardo: Tonho? - Bia riu sentindo -

 

Bia: TomTom - Corrigiu virando o corpo para mostrar o bebê - ô filho - Pegou à mãozinha babada - O priminho

 

Bernado: Cagou - Falou fazendo a empresária arregalar os olhos -

 

Flay: Bernardo - Falou firme da porta. Gizelly estremeceu fazendo Bianca engolir o riso. - Olha as coisas que você fala na frente dele, Gizelly - Repreendeu brava. - Vem aqui - Chamou o menino que andou com receio até a mãe. Bianca aproveitou para levantar. - Você tem noção que isso é feio? - O menino negou - É muito feio e você não pode falar

 

Bernardo: Mas a ti..

 

Gizelly: Mamãe tem razão - Se aproximou abraçando o corpinho pequeno. Bia sorriu largo com a cena. - É feio e você não pode falar - Bia sorriu - Isso é coisa de adulto, e você só é um bebezinho

 

Bernardo: Eu não vou mais falar - Prometeu subindo nas pernas da advogada - Nunca mais - Bia sorriu largo vendo a interação dos dois. Não entendia muito bem qual era a relação, mas sabia que tinha algo além. Muito além.

 

Flay: Acho bom - Fez cara de brava levantando. - Fala rapariga - Riu dando um beijo molhado na bochecha da carioca. - Oi pacotinho - Apertou a bochecha do neném que riu gostoso. - Você tá a coisa mais gostosa, caraaa - Deu um beijo na testa se afastando. - Tira ele desse canguru - Bia negou -

 

Gi: Agora que é oficialmente mãe, não larga mais o filhote - Flay riu. Bia bufou. -

 

Bia: Ai cala a boca - Se aproximou do sofá sentando. Gizelly calçou o sapato - Onde você vai? - Perguntou reparando na roupa social da mulher.

 

Gizelly: No fórum - Jogou o cabelo pro lado - Eu volto com o almoço - Prometeu e Bernardo grudou novamente nas suas pernas -

 

Bia: Ou, a Rafaella me mandou pra cá pra vocês me distraírem - Reclamou -

 

Gizelly: Mas eu não vou ficar nem duas horas fora, menina - Retrucou pegando o menino no colo. - Eu já volto ok? - Bê assentiu - Não é pra se pendurar na cortina - Bia sorriu encarando Flay que tinha o rosto repousado sobre a mão admirando a cena. Sorriu mais largo ainda. Nunca a tinha visto assim. - Obedece - Falou firme dando um beijo babado no rosto do menino. - Eu já volto - Colocou ele no chão - Eu já volto tá? - Se aproximou das mulheres no sofá. Flay assentiu seguido de Bianca. Gi encararou a cantora meio perdida soltando um riso envergonhado e pegando a bolsa. - Até - Deu um tchauzinho e saindo pela porta. A sala ficou em silêncio. Bianca encarou a amiga. Agora entendia o porquê de Rafaella obrigar ela a ir para a casa de Gi. Então Rafaella sabia? Grunhiu chamando a atenção de Flayslane. Odiava o fato da mineira ser boa em guardar segredos até mesmo com ela.

 

Bia: Você não vai me contar? - Perguntou abrindo o canguru -

 

Flay: Contar o que? - Pegou Antônio no colo -

 

Bia: Não me responde com outra pergunta

 

Flay: Ai Bianca - Fingiu bocejo - Você já tomou café?

 

Bia: Não quero, me fala vai - Levantou arrumando a calça - A Rafaella não me falou nada

 

Flay: Ainda bem - Sussurrou fechando os olhos. Se escorou no encosto do sofá. Bia mordeu os lábios surpresa.

 

Bia: Você falou com ela? - Flay assentiu passando aos mãos pelas costas do bebê. Bernardo brincava no meio da sala com os carrinhos. - Por que você falou com ela e não comigo?

 

Flay: Porque só ela me entenderia... - Suspirou - Na boa, não quero falar sobre isso

 

Bia: Mas eu quero - Sentou do seu lado - Por isso ontem vocês estavam um grude no churrasco - Bocejou rindo - Vocês estão amigas demais

 

Flay: Sempre fomos - Abriu os olhos fazendo Bianca ri - Beleza, no início não éramos, mas agora somos, ainda bem - Confessou - Você tem sorte de ter alguém como ela...

 

Bia: Amiga, tá tudo bem contigo? - Colocou a mão sobre a testa dela - Que você gosta da Rafaella eu sei, mas elogiar alguém não é muito do teu feitio - Flay riu -

 

Flay: Me deixa em paz caralho - Sussurrou a última palavra - Você tá bem? - Perguntou pegando a mão da amiga - Nervosa?

 

Bia: Desesperada - Admitiu suspirando - Ela disse pra eu vir pra cá e voltar só no fim da tarde, mas eu fico pensando nela lá sozinha e..

 

Flay: Bia, ela não tá sozinha - Lembrou - Você que ia ficar lá sozinha - Bia concordou - Eu sei que é difícil e que a cirurgia implica muitas coisas na vida de vocês, mas ficar lá num corredor feio, não ia ajudar em nada - Levantou - O dia vai passar rápido, você vai ver - Colocou Tomtom no sofá - Ela vai ter alta hoje?

 

Bia: Amanhã, se der tudo certo - Tirou o tênis - Tô com medo, Flay - Confessou - Se a cirurgia não der certo, nós...

 

Flay: Vão continuar tentando até dar - Interrompeu - É normal ter medo, Bia

 

Bia: Mas e se ela ficar do jeito que estava? - Perguntou com receio -  Eu não vou aguentar passar por aquilo denovo, mais uma vez eu não aguento, amiga - Respirou fundo - Eu amo a Rafaella, amo demais, mas não vou conseguir ver ela se deteriorando

 

Flay: E se der certo? - Se ajoelhou na frente da amiga - Por que vocês sempre pensam em todas as possibilidades negativas antes das positivas? Puta que pariu, parece até a Gizelly - Deu um tapa na perna da carioca que riu - Ficar aí imaginando o que de ruim pode acontecer, não vai fazer diferença nenhuma - Levantou - O tempo de recuperação vai ser o mesmo

 

Bia: Você é sempre seca em tudo, sua kenga - Jogou a almofada -

 

Flay: Por isso a Rafaella te mandou pra cá, porque se fosse pra Mari ou pra Manu elas iam alimentar essas tuas paranoias aí - Bia riu assentindo - Relaxa ok? Vocês passaram por muitas coisas ruins para no fim trilharem caminhos separados, não pensa no pior, pode até pensar, mas não pensa que isso possa fazer vocês se separarem - Bia colocou a mão no bolso concentrada nas palavras da amiga - Você passou por muitas coisas, ela também, nós sabemos que nada dura dessa forma se não for por amor e vontade - Se aproximou da amiga - Independente do resultado, as coisas continuam do mesmo jeito, porque o amor e a vontade ainda estão presentes - Bianca assentiu com os olhos cheios. Flay abraçou-a com força. - Vai dar tudo certo, metadinha - Garantiu enquanto Bia se permitia chorar. Estava com medo. Estava tentando ignorar, mas desde cedo estava sentindo o sentimento crescer no seu peito. Sabia o quão enjoada poderia ser a recuperação cirúrgica e o quão desesperador seria se o resultado fosse negativo. Foi despertada do borrão escuro quando Antônio chorou. Se desvencilhou dos braços da amiga pegando o menino no colo. Encarou a imensidão dos olhos pequenos e úmidos lembrando de Rafaella. O menino soluçou fazendo Bia ri. Ele era igual a mãe, e isso era a coisa que Bianca mais amava nos dois. O fato de terem tantas características amáveis.

 

Bia: Eu preciso levar ele para a minha mãe - Se espreguiçou. Estavam deitadas no sofá. Almoçaram quando Gizelly chegou, perto das duas, e passaram o resto da tarde largadas no sofá. Isso foi o suficiente para Bianca conseguir esquecer as responsabilidades. Agora quase seis da tarde, tinha certeza que Rafaella já estava despertando da anestesia.

 

Gi: Deixe ele aí que a gente leva - Se espreguiçou levantando do colo da cantora. - A gente vai ir na casa da Mari, ver a Alice, a gente passa lá e deixa ele na sua mãe - Bocejou -

 

Flay: Assim não fica contra mão para você - Levantou arrumando Bernardo que dormia ao lado de Antônio.

 

Bia: Eu não vou negar - Riu - Depois que a gente vira mãe, a gente não nega ajuda

 

Gi: Não acredito que esse bebezinho é mãe - Apertou as bochechas da mulher carioca que xingou -

 

Bia: Não dá banho nele

 

Flay: Mas tu é porca ein

 

Gi: Quer que a criança siga os mesmos passos - Bia riu pegando a bolsa -

 

Bia: Babacas - Amarrou a jaqueta na cintura - Ele já tomou mais cedo, e tá friozinho - Se aproximou do sofá se ajoelhando na altura do bebê - A mamãe vai te pegar amanhã a noite, tá bom? - Passou o nariz na bochecha do bebê - Mas agora a mamãe precisa cuidar da outra mamãe, neném... As titias vão cuidar de você e depois a vovó... fica bem filho, vou morrer de saudades - Encheu ele de beijinhos antes de levantar. - Cuidem dele - Gizelly fez careta - E depois a gente vai ter um papinho - Falou para a capixaba - Eu quero saber tudo...

 

Flay: Hora de ir para casa - Interrompeu puxando a mulher pelo braço - Bianca - Bateu com os pés no chão irritada -

 

Bia: Que bobeira, Flay - Riu abraçando a amiga - Seja lá o que for, não perde de viver algo legal por medo - Se afastou - Você merece viver algo legal

 

Flay: Só é confuso, mas vai lá... - Riu - Me liga pra contar como ela tá

 

Bia: Essa amizade é um delírio

 

Flay: Delírio é esse relacionamento dar certo - Riu sendo acompanhada por Bianca -

 

Bia: Ainda bem que deu né? - Flay assentiu -

 

Flay: Vai dar certo ok? - Beijou a testa da amiga - Independente do resultado - Bia assentiu antes de sair porta a fora. Desceu no estacionamento entrando no carro. Encarou o lugar vazio respirando fundo. O dia tinha sido suficientemente bom para dar gás a carioca para os próximos dias. Era isso que ela precisava.

 

 

45 minutos depois.

 

Bianca apertou o botão nove do elevador tirando os fones de ouvido. Tinha passado em casa para tomar um banho e comer algo, agora estava a caminho do quarto de hospital em que Rafaella estava, mais atrasada do que nunca. Gemeu frustrada. Estava se sentindo culpada. Saiu do elevador expulsando toda a culpa sem sentindo entrando no quarto com cuidado. O barulho da porta fez Rafaella levantar a cabeça com pressa.

 

Rafaella: Quem é? - Perguntou mais alto que o necessário. Bia soltou uma risada fazendo a mulher sorrir reconhecendo a risada. Bia parou encarando o rosto. A nova condição da namorada a tinha despertado tantas coisas que não fazia ideia. A maior delas era reparar mais. Muito mais. Em todas as coisas. Por isso continuou encarando o sorriso torto mais tempo do que gostaria. - Bia? - Perguntou quando a sala ficou em total silêncio.

 

Bia: Ah, oi - Soltou um riso largando as bolsas sobre a poltrona e se aproximando - Tô aqui - Tocou a perna da mineira. - Como se sente? - Tocou seu rosto encarando os dois grandes curativos sobre os olhos. Os dois tinham sido operados, o direito para fins estéticos, o esquerdo guardava a possibilidade de reversão. - Você tá tão linda... - Grudou seus lábios. Rafa riu selando um selinho.

 

Rafa: Tô com muito enjoo - Confessou - E um pouco de dor de cabeça

 

Bia: Que tipo de dor de cabeça, Rafaella? - Arrumou a camisola da mineira. - Responde, mocinha

 

Rafa: É uma dor suportável - Bocejou - Como foi seu dia? - Puxou a mão da mulher para mais perto. - Eu acabei de acordar, por favor, me distraí - Pediu - Sobe aqui, amor... - Pediu manhosa - Quando o Dr. vir aqui, a gente fala da cirurgia - Bia assentiu sentindo o receio na voz da mulher. Também estava com medo. Ansiosa. As duas.

 

Bia: Cuidado com a cabeça - Arrumou o travesseiro da mulher. - Eu passei a tarde com a Flay, Gi e o Bê

 

Rafa: Você pegou o Antônio né? - Bia riu se entregando - Você não se aguenta né

 

Bia: Eu só vou ver ele amanhã a noite denovo - Fez bico. Por mais que Rafaella não enxergasse, sabia que ela estava fazendo isso. Conhecia ela como a palma da mão. Mesmo não enxergando. Porque ela não precisava enxergar a sua mulher para conhecê-la.

 

Rafa: Eu tô com saudade também - Admitiu sentindo Bianca arrumar o acesso em seu braço. - E de você também... - Sussurrou - Acho que te ter perto nunca é o suficiente - Bia abriu a boca surpresa com a declaração inesperada. -

 

Bia: Você é uma cretina com essas declarações fora de hora - Rafa riu. Bia encostou suas testas. - Não é o suficiente para mim também - Sussurrou contra seus lábios. - Agora deita e descansa, Rafaella - Empurrou ela com cuidado. - Você comeu algo? - Perguntou fazendo carinho no rosto da mais velha.

 

Rafa: Bolacha água e sal - Fez careta beijando a mão da mulher.

 

Bia: Biscoito - Corrigiu. Rafa riu.

 

Rafa: Como tá meu rosto? - Perguntou baixinho mudando de assunto sem deixar de distribuir beijos na mão da empresária -

 

Bia: Você tem dois curativos nos olhos - Contou - Um pouquinho de sangue seco aqui - Tocou o olho esquerdo. - Mas nem dá pra ver - Garantiu esfregando com cuidado para limpar - E os curativos foram feitos de forma bem porca - Rafa riu - Mas você continua linda...

 

Rafa: Você é uma eterna mentirosa - Bianca colocou a mão no peito ofendida. Era estranho. Muito estranho, mas Rafaella sabia todos os movimentos de Bianca quando falava algo. Sabia os movimentos que suas palavras causavam na mulher. Nunca tinha percebido isso até ficar cega. Bianca era tão misteriosa, tão envolvente, mas ao mesmo tempo tão fácil de desvendar. Tão fácil de agradar. Tão simples. Tão amável. Tão preciosa. Aproximou seus lábios com delicadeza. Estava com dor, mas queria sentir o gosto da mulher. Sua mulher. Segurou com delicadeza a nuca de Bianca mergulhando a língua na sua boca. Chupou com vontade sentindo a cabeça latejar. Ignorou, mas Bianca não. Com cuidado afastou seus lábios brotando um selinho nos seus lábios.

 

Bia: Eu já falei para deitar - Tentou brigar, mas acabou rindo - É sério, fica paradinha só por umas horas - Rafa bufou - Teimosa - Arrumou a mulher na cama. - Princesa.. - Deu um selinho nos seus lábios. Beijou a testa da mulher fazendo carinho nas bochechas rosadas. Soltou um risinho sentindo o cheirinho do seu lip tint. Rafaella ficaria louca se descobrisse que a próxima coleção de Boca Rosa Beauty era voltada para ela. Ia ficar louca mesmo. Continuaram em silêncio, numa sincronia só delas, até serem interrompidas.

 

Dr. Éder: Boa noite, garotas - Sorriu se aproximando da cama - Tudo bem, Rafaella? - Tocou na cabeça da mulher - Sente dor? - Rafa assentiu - De 0 à 5, qual o grau de dor? 0 é nada e 5 é tudo - Bia soltou um risinho -

 

Rafa: Uns seis - Contou - Cinco e meio - Corrigiu - Desculpa, Bia - A carioca riu -

 

Bia: E eu que sou uma eterna mentirosa - O Dr. riu. -

 

Dr. Éder: Vou pedir para aumentar a medicação - Olhou a prancheta - Muito enjoo? - Assentiu - Tontura?

 

Rafa: Não

 

Dr. Éder: Possível que tenha nas próximas horas - Confessou anotando - Nos próximos dias você precisa ficar de repouso absoluto, se amanhã você estiver bem, vou te dar alta, mas você precisa manter a palavra que irá ficar de repouso - Rafa assentiu - Seu olho tá bem inchado, o que é normal, a partir do sexto dia melhora e..

 

Bia: Quando sabemos... - Interrompeu - Quando sabemos que deu certo? - Ajeitou a postura. -

 

Dr. Éder: Quero ver a Rafaella na próxima semana - Não respondeu a pergunta - Para fazermos uns exames, acompanhar tudo direitinho, tirar os curativos, testar algumas coisas... - Sorriu respondendo a pergunta - O hospital tem o serviço de Home Care para fazer os curativos em casa - Arrumou o soro - Esperem o pós operatório, é meio chatinho, mas é um não necessário... Semana que vem está logo ali, qualquer coisa fora do normal pode me ligar... - Bia assentiu depressa - Você foi corajosa, Rafaella.... Vocês foram - Olhou para Bianca que assentiu com os olhos cheios. - Se cuidem - Se despediu saindo do quarto. Bia suspirou tirando o casaco e se aproximou da amada.

 

Rafa: Bia? - Sussurrou - Será que deu certo?

 

Bia: Não sei... - Confessou deitando a cabeça sobre a barriga da mulher - Mas eu vou cuidar de você ok?

 

Rafa: Só hoje... - Passou a mão no cabelo liso - Amanhã eu cuido de você...

 

Bia: Eu gosto disso... - Sorriu beijando o ventre da mulher. - Vamos ficar bem, Rafa...

 

Rafa: Já estamos bem, Bia.. - Garantiu entrelaçando seus dedos. Estavam bem. Iam ficar. Independente do resultado.

 

Dia 2°. Alta.

 

Bia: Mas que droga - Bufou quando a roda da cadeira travou. Rafa sorriu. 

 

Rafa: Você é uma barbeira - Riu colocando a mão na cabeça logo em seguida. Sua cabeça latejava com força a fazendo gemer de dor. Parecia que uma escola de bateria estava no seu encalço. Não conseguia ficar em pé sem se desmanchar em enjoos. Se sentia patética por estar em cima de uma cadeira de rodas, mas não aguentaria percorrer o caminho do quarto até o estacionamento. O trajeto com o carro já seria doloroso o suficiente com o balançar na curta estrada, não queria ter que se torturar mais ainda por vergonha de usar a cadeira. - Por Deus, Bianca - Soltou um grito quando a buzina alta trouxe uma brisa fresca contra seu rosto.

 

Bia: Eu tô prestando a atenção - Se apressou em se defender empurrando a cadeira com dificuldade. - De quem foi a ideia de trazer esse tanto se bolsa?

 

Rafa: Sua - Respondeu fazendo massagem nos cantos dos olhos. Não fazia ideia de como estava. Que roupa vestia ou como seu cabelo se comportava. Não fez questão de perguntar. Estava com tanta dor, que queria ouvir o mínimo possível. Só queria o silêncio. Ansiava por isso.

 

Bia: Prontinho - Tirou as mãos dos ouvidos da maior quando destravou o carro. Rafa sorriu. Amava o cuidado da carioca. Amava o fato dela se importar em minimizar todo o barulho para faze-lá suportar a dor terrível. Amava Bianca. Isso era incontestável. Amava mais ainda tudo que ela fazia pelo seu cuidado. - Agora sim - Passou o cinto pelo seu corpo antes de inclinar o banco. - Tá confortável? - Perguntou arrumando a almofada embaixo da sua cabeça. - Muito enjoo ainda? - Rafa apertou a mão da empresária indicando que sim. Bia fez biquinho dando de ombros frustrada com a situação. Não era como se tivesse o que fazer. Os enjoos eram necessário, assim como todos os sintomas do pós operatório. - Eu vou bem devagarinho ok? - Rafa sorriu assentindo de leve. -

 

Rafa: Me dá um beijinho - Pediu num sussurro rouco. Bia se debruçou sobre ela selando seus lábios num selinho breve. - Agora sim... - Tentou sorrir sendo impedida por um enjoo. Gemeu dolorida fazendo a namorada ri e fechar a porta com cuidado. Rafaella colocou a mão sobre a cabeça massageando. Tinha tido um sonho tão horrível, que atribuía o fato da dor de cabeça latejante ter sido ocasionada por ele. Sentia o arrepio na espinha só de lembrar. Parecia tão real e assustar lembrar das malas. Dos bilhetes. O som estridente da porta batendo e Bianca indo embora. Tudo parecia tão horrível e bobo. Pura bobagem. Bianca não iria embora. Sabia disso. Era um sonho, mas não deixava de ser desesperador a ideia. Uma bobagem desesperadora. Gemeu outra vez. Dessa vez mais alto. Chamando a atenção da mais nova.

 

Bia: Já estamos chegando, amor... - Passou a mão na sua perna em forma de consolo. - Tá tudo bem?

 

Rafa: Sim... - Omitiu. Não queria falar. Lembrar. Pressionou a cabeça sentindo uma sede absurda. Pensou em pegar a garrafa d'água, mas desistiu sentindo a curva sinuosa da estrada. Estava com tanta dor que não tinha tempo para pensar se a cirurgia tinha dado certo, só queria um breve silêncio. Um breve silêncio de horas a fio.

 

Bia: Eu vou estacionar próximo ao elevador, e depois eu venho colocar na nossa vaga - Bia avisou. Rafa continuou do mesmo jeito. Precisava de um remédio urgentemente. Tirou o cinto quando sentiu o veículo  estacionar. Escutou ela sair do carro e pensou em levantar o banco. Desistiu lembrando o quão traiçoeiro ele era. A porta foi aberta e com a mão sobre a sua barriga, Bianca levantou o banco. Rafaella divagou rapidamente enquanto era tirada com cuidado para fora do carro. Durante todo o processo de aceitação, pensou que ia ter trauma de andar de carro por causa do acidente, mas foi a única coisa que não teve. Pelo contrário, tinha mais trauma de passar um batom por causa do incidente com as marcas do que andar em um veículo em velocidade moderada. Não lembrava de nada do acidente, talvez da cabeça batendo contra o para-brisa e a leve sensação de ser jogada para frente. Só. Apenas. Mas as palavras do contratante ainda ecoavam na sua mente.

 

"Acredito que seu rosto não é mais a nossa cara".

 

Não teria trauma de algo que não lembrava. Era difícil. Sua mente não bloqueava as cenas, elas simplesmente não existam. Pelo menos não as que vieram depois de se chocar contra o vidro grosso. Diferente das palavras. Ela sim era lembradas. Em camadas. Tons. Timbres. Traumas.

 

Bia: Pronto, mocinha - Fez voz de criança tirando o copo d'água da mão da mulher depois dela ter tomado o remédio. - Deita... - Pediu quando Rafaella negou. - Você está igual uma folha A4, a cara de enjoo se vê de longe e ainda tá negando repouso? - Soltou um risinho - Vai amor... - Arrumou as cobertas sobre seu corpo. - Eu vou ir estacionar o carro e...

 

Rafa: Deita um pouquinho aqui comigo - Interrompeu zonza. Quase derrubada. - Só um poquinho - Pediu e Bia assentiu tirando os tênis. Entrou debaixo da coberta abraçando a loira pela cintura. Rafa apertou-a nos braços sentindo tudo ficar mais calmo. O remédio estava fazendo efeito. Se aconchegou com mais vontade nos braços da namorada. Era pouco ainda. Repousou a cabeça sobre seu peito sentindo o cheirinho de bebê. Arriscaria dizer que era de Antônio, mas conhecendo a mulher que estava enroscada, não arriscaria esse palpite. Inalou o cheirinho no seu pescoço plantando um beijo carinho sobre a carne. Passou o nariz por toda a extensão não satisfeita o bastante. Bianca era seu imã. Se atraíam com facilidade. Deu outro beijinho escutando a respiração ficar serena e sorriu sentindo o cansaço lhe abraçar também. Apertou Bia com mais força escutando um resmungo. Ela tinha dormido. Rápido. Rafa passou os pés por suas pernas constatando que ambas ainda estavam abaixadas. Sorriu. Bianca tinha dormido a noite inteira na poltrona dura, levantando de uma em uma hora, e não tinha reclamado se quer uma vez. Seu cuidado era genuíno. Conseguia sentir. Rafaella deu mais um cheirinho no seu pescoço sentindo a calmaria que o seu cheiro trazia. Beijou sua testa e seus ombros tensos relaxaram. Talvez fosse o remédio ou talvez fosse Bianca. Ela tinha esse poder sobre si. Preferia a segunda opção. Gostava de pensar na segunda opção. Não tinha vergonha. Não tinha vergonha em ser brega. - Eu amo te sentir pertinho... - Confessou com voz arrastada. Caindo no sono. No melhor lugar do mundo. Para ela.

 

 

Dia 3°. Sonhos. 

 

Rafaella se espreguiçou na cama levantando com cuidado. Tinha tido outro sonho. O mesmo. Malas, bilhetes, silêncio, porta batendo, Bianca indo embora. Não entendia o porque de estar sonhando pelo segundo dia consecutivo a mesma coisa. A sensação de abandono era a mesma. Ainda mais desesperador por pensar ser real. Respirou fundo dando conta que estava no meio do quarto. Sentiu uma pontada na bexiga indicando o quão cheia ela estava. Suspirou afastando os borrões voltando para a realidade - que não era com Bianca indo embora -. Estava apurada para ir ao banheiro. Colocou as pantufas tentando não fazer barulho. Odiava o fato de ter que depender de alguém para tudo. Ainda mais de Bianca que era desesperada com qualquer coisa. Amava seu cuidado, mas amava mais ainda ter a independência. Soltou um riso entrando no que achava que era o banheiro. Reconheceu o ambiente tirando a roupa. Precisava de um banho também. Estava com fome. Não faz ideia de quantas horas tinham dormido, mas por julgar pelo seu estado de relaxamento, talvez mais de 15 horas. Tinha apagado. Só tinha feito isso desde a alta, para falar a verdade. O volume de remédios ajudava no coma não tão induzido. Estava cansada também. Terminando as necessidades, ligou o chuveiro sentindo o vapor subir. Quando pensou em entrar no box, a porta foi aberta. Bianca. Não poderia ser outra pessoa. Tinham um imã. Pólo positivo atraí o negativo. Se atraíam. O tempo todo. A milhas de distância. Riu.

 

Bia: Sua gay safada - Rafa gargalhou com a voz que ela fez. A mesma que usava com Luete. - Você não sabe o que significa repouso absoluto?

 

Rafaella: É só um banho, amor - Entrou no box sentindo água quente molhar seus pés. Gemeu em satisfação tomando cuidado para não molhar o rosto. - Se quiser pode vir uai - Bia riu. Amava o sotaque. -

 

Bia: Uai é? - Tirou a blusa depois de esfregar os olhos. - Vou entrar só para garantir que você está segura - Rafa soltou um risinho - Não molha o cabelo - Avisou e a loira assentiu em concordância - Me espera, amor - Pediu tirando a calça -

 

Rafa: Antônio dormiu? - Perguntou. Em algum momento entre a chegada em casa e o sono profundo, escutou a campanhia e a voz de Mônica. Lembrava vagamente da voz de Íris também. Estava grogue demais para lembrar. Realmente só tinha dormido nos últimos dois dias.

 

Bia: Dormindo... Mamou igual um bezerro agora - Riu - Uma mamadeira de 200ml e depois mais 40ml - Contou entrando no box - Tava com fome, mamãe - Beijou o ombro da Rafaella ficando na ponta dos pés - Tomou o remédio que eu deixei do lado da cama? - Rafa negou - Toma depois do banho...  - Rafa assentiu -

 

Rafa: Você pode lavar meu cabelo? - Pediu e Bia assentiu. - Você trabalhou até agora? - Perguntou tomando cuidado para não molhar o rosto.

 

Bia: Sim - Ligou a mangueira do chuveiro - Relaxa a cabeça - Pediu molhando o cabelo - Poxa, só tem Boca Rosa Hair, você se importa? - Rafa riu -

 

Rafa: Eu acredito que esse produto é de ótima qualidade - Bia riu passando o shampoo com cuidado fazendo massagem no couro cabeludo -

 

Bia: Cuidado - Pediu passando a água no cabelo com cuidado. Rafa sorriu sentindo a sensação de ser cuidada. - Prontinho - Falou tirando o condicionador - O que foi? - Perguntou virando a mulher de frente.

 

Rafa: Obrigada por tudo - Sorriu puxando a mulher com cuidado para seus braços. Bia largou a mangueira do chuveiro cair. - Obrigada por estar aqui cuidando de mim e dele... - Sussurrou - Eu sei que não sou nem um por cento do que você é para nós, mas...

 

Bia: Xiu - Pediu deitando a cabeça no peito da namorada - Você é, eu juro que é, mas agora eu que tenho que cuidar de vocês....

 

Rafa: Eu... eu não sei se deu certo e...  - Respirou fundo - Não é falta de esperanças, mas...

 

Bia: Hoje é o terceiro dia, amor, não tem que pensar nisso hoje...

 

Rafa: Precisamos falar sobre isso, Bia

 

Bia: Não precisa ser hoje, não agora que estamos tomando um banho quentinho e fingindo que tá tudo bem... - Suspirou - Você consegue? Consegue tomar um banho quentinho comigo?

 

Rafa: Consigo, com você eu consigo tudo - Prometeu beijando a testa da carioca e colocando a mulher embaixo da água corrente. Agora era a sua vez de lavar os cabelos da menor. De cuidá-la. Terminaram o banho com chamego. Rafaella deu a ideia de pedirem sopa para comer já que a queda da temperatura na grande São Paulo influenciava no pedido. Agora sentadas no sofá, vendo uma porcaria qualquer na TV. Rafaella tinha a cabeça apoiada no peito de Bianca, enquanto Antônio tinha a cabeça apoiada em seu peito. Apesar de o filme não ser áudio visual, Bianca tirava de letra o fato de narrar perfeitamente o que acontecia em cada cena para a mulher que nem prestava a atenção no filme, só na voz.

 

Bia: Ele dormiu... - Contou arrumando a chupeta na boca do neném. - Ele tá a sua cara, Rafaella.. - Passou o dedo sobre a bochechinha rechonchuda. - Igualzinho...

 

Rafa: Espero poder ver todas as mudanças dele de agora em diante... - Confessou ganhando um beijo na testa. Tinha apenas poucas lembranças de Antônio a olho nu guardadas na memória. Tinha medo de esquecê-las. De lembrar só com a ponta dos dedos.

 

Bia: Você vai... - Falou com a voz carregada de esperanças. Rafa sorriu se aconchegado mais nos seus braços. - Quer ficar mais um pouquinho aqui? - Deu um beijo no ombro da mineira que assentiu - Só cinco minutinhos então...

 

Rafa: Eu dobro o tempo... - Sussurrou sentindo necessidade. O tempo nunca era suficiente se tratando se Bianca. Nunca.

 

Dia 4°. Teimosia.

 

Bia: Eu falei que não era para fazer esforço, Rafaella - Falou nervosa passando o algodão sobre o olho esquerdo. - Eu nem deveria estar fazendo isso, puta que pariu, Rafaella - Grunhiu irritando a maior. Não tanto quanto Bianca estava. - 

 

Rafaella: Minha cabeça tá explodindo e você não cala a merda da boca - Arrancou o algodão a mão da carioca estressada. Tinha sonhado denovo. Dessa vez a tarde. Durante uma soneca. -

 

Bia: Você é uma estúpida - Arrancou o algodão da mão dela denovo - Você é a merda de uma teimosa - Bufo passando o soro sobre o olho inchado. - Repouso absoluto, você sabe o significado? - Brigou analisando o olho roxo. - Porra Rafaella...

 

Rafa: O Antônio tava chorando...

 

Bia: E eu já estava indo pegar ele

 

Rafa: Você tava trabalhando e ele doente - Argumentou. O menino tinha acordado meio gripadinho. Estava medicado, mas qualquer sinal, fazia Rafaella entrar em alerta. Ele não poderia adoecer nesse momento.

 

Bia: É só uma febre fraquinha - Pontuou limpando os cantos ainda analisando a cicatriz imperceptível. Só era possível reparar bem de perto. Ainda bem. Continuou analisando. Era a primeira vez que a via sem os curativos. - Era só ficar deitada que eu ia trazer ele

 

Rafa: Eu não aguento mais ficar deitada

 

Bia: E eu não aguento mais você teimando desde cedo - Retrucou fazendo a mulher abrir a boca surpresa. Bia continuou limpando. Não se desculpou. A mineira precisava sossegar. Estava passando dos limites desde cedo se recusando a fazer repouso. E o que isso ocasionou? Um quase acidente. Rafaella tinha batido com o rosto na forra da porta. Bianca quase infartou com o barulho. Pensou que ia ter um treco quando escutou encontrou a mulher escorada com a mão na cabeça. Por Deus, Rafaella era teimosa. Insuportável quando queria. O mini acidente tinha sido a gota d'água. Se o repouso fosse opcional, não teriam recebido três folhas de como fazê-lo. Suspirando, Bia trocou o curativo ainda nervosa. Suas mãos tremiam. Sabiam que tinham que ter cuidado. Ainda mais agora. Respirou fundo colocando o último esparadrapo tocando levemente a cicatriz direita. O olho esquerdo portava toda a porcentagem da mulher voltar a enxergar, já o direito tinha sido corrigido esteticamente. Ou seja, se a cirurgia deu certo, Rafaella ainda continuava com o título de deficiente. Passava a ser monocular. Passava a enxergar apenas do olho esquerdo. - Você pode ficar parada só dois dias, por favor? - Pediu juntando os gases sobre a cama espantando os pensamentos. Não queria pensar. Não por agora. Apesar de saber que era necessário, estava evitando as investidas da mulher para falar sobre o assunto. - Você precisa ficar quieta, você fez uma cirurgia delicada e tá agindo como se tivesse tirado um sinal do nariz - Respirou fundo engolindo o nervosismo que não queria deixar seu corpo - Por Deus Rafaella, você fez café da manhã, ficou a manhã inteira com o Antônio no colo, e como se não bastasse, conseguiu arrebentar a cara na porra da parede - Intensificou o tom no palavrão batendo os pés com forças no chão. Rafa se encolheu assustada. Estava assustada. Não queria brigar, de maneira alguma. Era a última coisa que queria fazer, mas estava agitada. Muito agitada. Sentia uma pressão absurda sobre os olhos, principalmente o esquerdo, desde a noite passada. Quando teve pesadelos. E agora, quando pensou que conseguiria descansar, teve eles denovo. Não conseguia ficar parada. O choro do filho tinha sido uma bênção para distraí-la. Estava com receio de se desligar e lembrar. Por mais que soubesse que não podia ficar para cima e para baixo, de um lado para o outro, a única maneira que conseguia fazer com que sua mente não lembrasse da mulher fazendo as malas e indo embora, era cuidando do filho.

 

Rafa: Eu... eu sonhei que você ia embora - Confessou com a voz surpreendentemente sem nenhum tipo de emoção. Bianca parou o que estava fazendo. Encarou seu rosto analisando cada detalhe. Rafaella tinha a testa franzida. Talvez ali tivesse uma emoção escondida. Bia não conseguia desvendar. - Nós discutíamos... eu discutia - Corrigiu com a voz baixa. A nota mais baixa da melodia. Quase inaudível. - Você pegava tudo e ia embora, você ia para longe e... e eu ficava sozinha - Sua voz vacilou. Bia mordeu os lábios tentando assimilar as informações. Não iria embora. Sabia disso. Rafaella sabia disso. Mas todo mundo que ama alguém, de certo modo tem medo de que essa pessoa vá embora do nada. Todo mundo tem medo do abandono. Também tinha. - Eu sei que você não vai, não sem me falar, mas... Mas pareceu tão real, é tão real e... - Respirou fundo - Eu não paro de pensar nisso a dias e..

 

Bia: Dias? - Questionou baixinho - Você sonha com isso a dias?

 

Rafa: Sim - Confessou - Desde a noite do hospital, é como se os sonhos fossem fragmentados, eu não sei... só... só é estranho - Suspirou - Ele ficam se repetindo e...

 

Bia: Por que é estranho? - Apertou a mão da mineira passando segurança -

 

Rafa: Porque você sempre fala demais - Soltou um risinho disfarçando a vontade de chorar. - E te ver quieta é desesperador, parecia... parecia desesperador - Bia se aproximou mais de seu peito - Tô com medo, Bia... - Confessou - Não de você ir embora... quer dizer, sim... eu não suportaria isso - Sua voz falhou - Mas tô com medo de não te ver indo embora... - Confessou fungando - É só um medo bobo, eu não sei... você é feliz? - Perguntou beijando os cabelos lisos -

 

Bia: Demais, Rafa... mais do que eu pensei que seria a três anos atrás - Deitou a cabeça sobre o peito da mais velha - Eu já cometi muito o erro de não falar o que eu tô sentindo para você - Suspirou - Não vou cometer ele nunca mais... - Beijou sua clavícula de forma carinhosa - Eu sei que você tem medo de me perder, eu também tenho, mas você não vai... - Prometeu - É só um sonho, amor, nada mais que isso...

 

Rafa: Eu sei, não deveria me deixar influenciar - Sorriu - Só... só tô com medo - Repetiu fazendo Bianca sentir o tremor. - Meu olho tá tão inchado que eu não faço ideia se deu certo... e seu não deu, Bia? - Perguntou de forma retórica - Esse é o meu medo, acho que os sonhos são por causa disso... Eu fico o dia todo pensando sobre isso... "E se" para todos os lados e... - Soluçou - Ai eu penso que se deu errado, de alguma forma, você pode ir embora por achar que é demais para você... - Bia tremeu só em pensar de ter uma atitude parecida. - Eu sei que você não vai embora, eu juro que sei... - Respirou fundo tentando se acalmar - Só que a gente não tem como ignorar esses medos bobos... - Suspirou - Eu deveria ter te contato antes, mas eu tava tentando não me deixar influenciar e... E se não der certo, Bia?

 

Bia: Aí a gente vê o que faz, mas independentemente do que fizermos, eu não vou embora... - Prometeu beijando os dedos gelados - Seu coração me basta e eu tenho ele... - Rafa beijou sua testa - Eu amo seus olhos, mas não me importo de perdê-los se eu tiver seu coração...

 

Rafa: Eu amo você - Não confessou. Era nítido a milhas de distância seu sentimento pela mulher. - Eu nunca mais vou te mandar embora como daquela vez, nunca mais... - Confessou mais uma vez. Finalmente tinha entendido o poder da conversa dentro de um relacionamento? Talvez. Agora sabia que nem tudo conseguiria carregar sozinha. Precisava dividir. Suas alegrias, seus medos, receios, vontades. Estava entendendo que dividir o fardo, não as afastariam, muito pelo contrário. As conectariam ainda mais. 

 

Bia: Eu sei disso, amor... só, por favor, para de ser teimosa - Rafa sorriu com o pedido que mais parecia uma súplica. - Fica paradinha um segundo - Empurrou a mulher com cuidado de costas na cama deitando-a. - Chega de levantar da cama, chega de me desobedecer, Rafaella.. - Abraçou a mais velha pela cintura - Eu não te quero fora da cama nos próximos dias, tá me ouvindo? - Mordeu o queixo da mineira - Ein sua gay safada? - Rafa gargalhou. Bianca era ótima para descontrair qualquer clima. Ela era ótima em tudo.

 

Rafa: Você tem que parar urgentemente de fazer conviver com o Miguel - Bia riu - Porque até o Antônio você tá chamando de gay safada - Bianca gargalhou - Eu amo isso...

 

Bia: O que?

 

Rafa: Essa risada... essa risada escandalosa - Bia sorriu dando um breve selinho nos seus lábios - Apesar de parecer um caminhão pedindo urgentemente por um óleo no motor... Eu amo - Bia soltou outra gargalhada. Dessa vez mais alta. Contagiando o ambiente. Quebrando a onda de tensão.

 

Bia: Eu amo você - Deu outro selinho sobre os lábios gelados de Rafaella. - E vou amar ainda mais amanhã quando você acordar, porque eu ainda vou estar aqui... - Cruzou seus dedos repousando sobre o peito. Estaria ali na manhã seguinte. E não era uma promessa. Era uma certeza. Não existiria outro lugar no mundo que gostaria de acordar que não fosse esse. Esse abraço.

 

Dia 5°. Aconchego.

 

Bia entrou no quarto de Antônio vendo Rafaella sentada na poltrona de amamentação. Sorriu se escorando na porta. Queria brigar para ela voltar para a cama, mas perdeu toda a marra vendo a delicadeza em que ela ninava o neném febril. Sabia que apesar da teimosia, Rafaella não agravaria sua condição se saúde. Ela sabia os limites. Não extrapolaria. Confiava nela. E isso confortava o seu coração. Sorriu ainda mais largo vendo a facilidade dela em contornar as manhãs do neném. Cantarolava baixinho dando palmadinhas no bumbum. Lindo de ver. Bia cruzou os braços se escorando ainda mais na porta. Encarou Rafaella que tinha os cabelos loiros soltos em cascatas pelos ombros, seu corpo estava acompanhado de uma camiolsa de seda rosa claro e nos pés uma sandalinha de andar em casa. Linda. Incrivelmente linda. Bia soltou um gemidinho derrotada. Não importava como ela estivesse, aos seus olhos ela sempre estaria linda. Para sempre. Seus olhos caíram sobre o neném que chupava o dedo irritado. O semblante era igual o da mãe quando estava com raiva. Por Deus, era iguais. Totalmente iguais. Cada detalhe de Antônio lembrava Rafaella. Principalmente os olhos, que era a coisa favorita de Bianca no seu garotinho.

 

Rafa: Você tem que ser mais silenciosa se não quiser que eu perceba sua presença - Sussurrou fazendo o sorriso da carioca aumentar. Rafa soltou um risinho colocando Antônio contra a parte seu peito nua. O menino realmente estava com gripando. Desde a noite passada estava tendo febre, fraquinha, mas o suficiente para deixá-las em alerta. Estavam monitorando, nada indicava a necessidade de levá-lo ao pronto socorro. Mas caso fosse necessário, Manu já estava em alerta para acompanhar Bianca.

 

Bia: Ele dormiu? - Se ajoelhou em frente à mulher - Seu rostinho está cansado... - Sussurrou se aconchegando entre as pernas de Rafaella que desceu a mão livre para os seus cabelos fazendo um cafuné. Rafaella estava com um pouquinho de dor de cabeça. Pela primeira vez desde a alta, não teve nenhum sintoma, a não ser a dor de cabeça fraquinha. Mas isso poderia ser atribuído a preocupação com o filho. Não tinha dormido bem durante a noite por causa dele. E pela primeira vez em dias, não tinha sonhado com Bianca indo embora. O que já acalmava seu coração. - O banho de camomila funcionou? - Perguntou encostando o rosto na perna da mulher para aproveitar o carinho. Rafa soltou um risada. - O que foi?

 

Rafa: Eu... tenho certeza que você está com o cenho franzido com... com um biquinho - Sussurrou. Bia riu baixinho. Realmente estava. - Agora você está sorrindo - Desce a ponta dos dedos para o rosto da carioca. Bia agarrou sua mão dando dezenas de beijinhos. - Linda... - Retornou o carinho para o rosto da mulher apertando suas bochechas. Antônio reclamou.

 

Bia: A febre não baixou? - Fechou os olhos se aconchegando mais a Rafaella. -

 

Rafa: O banho de camomila deu uma aliviada na agitação dele... e a febre - Suspirou - Vai e volta...

 

Bia: Se voltar, eu vou levar ele no hospital - Falou beijando a coxa exposta da namorada. -

 

Rafa: Acho que não vai precisar ... - Revelou. Bia não contestou. Tinha receio em sair e deixar Rafaella sozinha, mas sabia que não precisava ter. Só queria tanto que o resultado da cirurgia fosse positivo que cercava a mulher o tempo todo para constatar isso. Apesar de saber que nenhuma das duas tinham esse poder. O poder fazer Rafaella voltar a enxergar. Estavam fazendo tudo certinho. O olho de interesse, esquerdo, tinha começado a desinchar, não o suficiente para conseguir abrir, ainda era o quinto dia, mas a ansiedade aumentava a medida em que o dia da próxima consulta se aproximava. - Coloca ele no berço? - Rafaella pediu depois de um longo silêncio. Tomtom finalmente tinha ferrado no sono. Bia levantou e pegou ele com cuidado dos braços da mulher. Colocou o corpinho no berço e não colocou a coberta. Estava quente e ele ainda continuava meio febril. Arrumou a blusinha do pijama alisando a barriga gorducha e sorriu feliz. Ser mãe de Antônio, era, sem dúvidas, o maior presente que poderia receber da vida. E de Rafaella. Ligou a musiquinha no mobile e voltou para perto de Rafaella ajudando-a com a parte de cima da camisola. No auge da agitação, TomTom só se acalma quando é colocado em contato com o calor humano da mãe. Era uma nova mania. Uma nova descoberta. - Obrigada - Sorriu puxando Bia pela mão que excitou. - O que foi? - Perguntou arrumando ela no seu colo. -

 

Bia: Não tô te machucando?

 

Rafa: E desde quando tu faz isso? - Bia encarou o rosto da mineira sorrindo. Céus, tão linda. Nas últimas 24 horas estava tudo tão milimetricamente organizado dentro do caos particular, que estava tentando evitar o assunto proibido. Os sonhos. Suspirou ainda encarando o rosto sereno. - Para de me encarar...

 

Bia: Como você sabe? - Se aconchegou nos braços da mulher.

 

Rafa: Sua respiração... eu sei lá, fica diferente... você não entenderia - Bia beijou seu pescoço de forma delicada. Entendia, e muito. Sempre perdia o ar perto de Rafaella, e mesmo agora com a nova condição, sem poder encará-la nos olhos e tendo respostas imediatas, afinal era assim que se comunicavam, pelo olhar e de forma rápida, continuava do mesmo jeito, perdendo o ar. Todas as vezes que encarava a mulher. Raro. Incrivelmente raro o que tinham.

 

Bia: Deve ser porque eu perco o ar toda vez que eu te vejo...

 

Rafa: Suas cantadas são horríveis

 

Bia: Não foi uma cantada, foi uma confissão - Falou baixinho. Rafa puxou ela com cuidado pelo pescoço. Noite passada quase fizeram amor, se não fosse o pós operatório e Antônio ter acordado extremamente irritado obrigando-as a parar para velar seu sono durante o início da madrugada.

 

Rafa: Eu amo você, Bia... amo mesmo - Sussurrou colando suas testas. - Você é o meu presente mais lindo...

 

Bia: Eu odeio quando você fala essas coisas do nada, porque não consigo pensar em algo a altura - Confessou fazendo Rafa ri. - Eu amo você... amo tanto, tanto que parece que eu vou me partir no meio... - Rafa selou seus lábios brevemente. - Eu... eu...

 

Rafa: Te amo... - Assoprou o rosto da empresária obrigando-a fechar os olhos respirando undo. Angústia? - O que foi?

 

Bia: Você sonhou denovo? - Perguntou lembrando da agitação de Rafaella minuto antes de levantar e ir para o quarto de Antônio.

 

Rafa: Não - Respondeu verdadeira. - Só preocupação com ele... - Bia soltou o ar aliviada. Estava com receio de os sonhos serem sinais de um possível resultado negativo com a cirurgia. Estava tentando não focar nisso, mas seu peito estava tão cheio de esperança que estava com medo dela matá-la. - É só preocupação mesmo...

 

 

Bia: Então por que parece ser algo a mais? - Rafa soltou um riso sapeca. De quem é pego no pulo. -

 

Rafa: Só lembrei do acidente, eu não lembro de muita coisa, desmaiei logo em seguida de bater no para-brisa, mas... Mas eu lembro de você...

 

Bia: Lembra como? - Cruzou seus dedos fazendo carinho na mão da maior -

 

Rafa: A última... a última lembrança que eu tenho do seu rosto... - Respirou fundo sentindo a dificuldade. - É... é ele contorcido, sofrendo.. e... e eu quero muito esquecer - Admitiu. Bia fechou os olhos com força. No dia do acidente, foi a primeira a desmaiar. Não faz ideia do quanto Rafaella viu até ficar cega. Até ficar escuro. Sabia que tinha ela tinha visto até ser lançada para fora, mas não sabia quanto tempo levou do momento em que desmaiou até o momento em que ela desmaiou.

 

Bia: Eu não só sofri aquele dia, amor - Esfregou o nariz pela bochecha esquerda da mais alta. Em forma de carinho. No último mês, desde quando começaram o preparo para a cirurgia com a bateria de exames, Rafaella soltava sutilmente como se sentia em relação a cegueira. O que aprendeu, o que a atormentava, o que não esquecia. Qualquer coisa referente a sua nova condição. Que talvez passasse a não ser mais a sua atual. Agora, era só mais um dos momentos que sua nova cor favorita trazia. O escuro. - Eu fui feliz... acho que mais feliz do que triste naquele dia... - Sorriu contando. - Tivemos um dia incrível, fui pedida e pedi em namoro... fizemos amor e... estávamos juntas - Sua voz falhou - Estávamos juntas o dia todo e... e mesmo depois do acidente, num lapso de consciência, eu senti seu dedo entrelaçado no meu... - Foi a vez de Rafaella retribuir o carinho com a ponta do dedo. - Nunca vamos esquecer esse dia....

 

Rafa: Mas não quer dizer que a gente precise lembrar assim... - Concluiu - Aqui tudo parece ser muito fácil...

 

Bia: Aqui onde?

 

Rafa: Aqui - Deu um beijo carinhoso no queixo da namorada - Sente o cheirinho de bebê? - Bia riu quando ela inalou o perfume no seu pescoço. Tinha adquirido uma nova mania e sabia que Rafa já tinha percebido, mas não tinha falado nada. Rafaella não era à favor da cama compartilhada, e estava certa. Mas Bianca era extremamente dependente de Antônio. E com isso, antes de dormir, passava o perfume dele na hora de deitar. Ou quando ficava muito tempo longe dele. Coisas de mãe. Coisas de mãe Bia. - Acho que aqui... nesse quartinho pequeninho, com esse cheirinho de bebê, dentro desse abraço, as coisas parecem ser bem fáceis.... - Bia a puxou pelo queixo com delicadeza. Encarou a mulher que não a viu, mas sentiu. Ela sentia. Transbordava.

 

Bia: Eu juro... juro mesmo, Rafa... Se complicar, se qualquer coisa complicar... eu vou deixar bem simples pra gente - Fungou baixinho. Se declarou. - Independente do resultado da cirurgia, vamos nos casar, vamos passar o resto da vida juntas porque eu não vou embora...

 

Rafa: Eu sei... eu juro que sei - Sorriu tímida. - Eu também não vou... - Tateou o rosto da mulher limpando as lágrimas. - Não chora... - Bia soltou o ar no seu rosto. Rafa riu. Meio alto. Bia tapou sua boca com a sua. Se beijarem. Se conectaram. Mais uma vez.

 

6° dia. Medo.

 

Bia fechou a porta se despedindo da técnica que veio fazer a troca de curativos de Rafaella, desinfetar e passar um colírio. O olho ainda continuava inchado. Não como no início, mas ainda continuava com uma leve coloração roxa seguido de um inchaço. Os gases foram substituídos por tampões e deveriam permanecer. Essa pelo menos tinha sido a recomendação médica.

 

Bia: Mamãe voltou - Falou entrando na sala. Antônio estava deitado no tapete tentando morder um celular de plástico enquanto Luete estava deitada sobre seus pés. Riu com a cena se derretendo logo em seguida. Eles eram unha e carne. O tempo todo onde um tava, o outro tava atrás. Sempre assim. Luete dormia a noite inteira do lado do berço guardado o neném. Era fofinho de ver. Já Rafaella estava sentada na poltrona perto da porta da varanda aproveitando o sol fraco. Bia se aproximou com cuidado para não assustá-la, mas falhou quando a mulher deu um pulinho sentada. Bia riu.

 

Bia: Quem não deve não teme - Rafa riu largando o tablet e levantando a mão afim de se localizar. Bia tocou e ela puxou a mulher para se sentar ao seu lado.- Ou - Ganhou um selinho surpresa devolvendo roubando outro em seguida. - Como se sente? - Perguntou tocando o rosto da mineira que deu de ombro. -

 

Rafa: Acho que ela esfregou muito meus olhos - Contou - Tá ardendo, mas acho que era para limpar direitinho - Bia assentiu beijando sua bochecha. - Mas sem aquelas pontadas... - Confessou -

 

Bia: Sexta é a consulta... - Lembrou e Rafa assentiu em silêncio. - Não está ansiosa? - Perguntou estranhando a súbita mudança de humor. Rafaella negou suspirando.

 

Rafa: Acho que não deu certo... - Falou baixinho fazendo Bia tremer ao seu lado. - Eu... continuo do mesmo jeito - Sorriu amarelo - É como... Não sei - Soltou um risinho - Ela trocou o curativo e eu só conseguir ver o que sempre vejo com ela manipulando os remédios... só sombras e vultos... - Respirou fundo. Bia passou o braço pelo seu corpo puxando-a para perto. - Não fala nada, tá bom? - Pediu baixinho - Não agora... vamos esperar a consulta... - Bia assentiu beijando sua cabeça. Sabia que o não falar de Rafaella era fingir que nada estava acontecendo. Suspirou fundo. Queria gritar. Não queria que Rafaella se sujeitasse a mais uma cirurgia. De jeito nenhum. Fechou os olhos tentando lembrar das recomendações médicas. Por Deus, os olhos começaram a desinchar tem nem três dias e já estava aceitando algo que não fazia ideia se era verdade. A troca de curativos foi tão rápida que não dava para considerar o que a mineira falou tendo em vista o tanto de soro fisiológico que a enfermeira jogou na sua cara. Céus, mas e se fosse isso mesmo? Quando Rafaella se desmontaria? Se perguntou verificando Antônio. Continuava na mesma posição sendo cuidado por Luete. Soltou um riso nervoso. Rafa notou. - O que foi? - Perguntou baixinho - 

          Bia: Bernardo e a Luete - Rafa riu - 

        Rafa: Ela só falta dormir no berço - Bia concordou - O sol tá tão quentinho... - Bia encarou ele. Realmente estava. O pôr do sol sempre repousava na sua janela antes de ir descansar. Era o horário favorito de Rafaella. Ela sempre ia para a janela sentir, já que estava impossibilitada de vê-lo. - Como tá o céu? 


           Bia: Todo laranja e rosado... - Deitou puxando Rafaella para seu colo que repousou a cabeça em seu peito. Bia afagou seus cabelos. 
        

Rafa: Você já considerou se mudar? - Perguntou colocando a mão embaixo da blusa da carioca. Subiu com leveza a unha do umbigo até os seios de forma carinhosa. Bia se arrepiou. 

 

Bia: Eu penso sim... Você pensa? - Devolveu a pergunta bocejando. - 

 

Rafa: Acho que... que sinto esse lugar pequeno - Confessou - Eu amo aqui, é nossa primeira casinha, mas só cabe nós quatro... - Bia sorriu. Luete era sempre considerada como da família por Rafaella. Como filha. 

 

Bia: Imagina quando a gente tiver outra criançinha? - Perguntou com a voz de criança. Rafa riu imaginando. - 

 

Rafa: Vai ficar pequeno mesmo... - Sussurrou. Bia entendeu que ela queria chorar. Começou o carinho no seu cabelo deixando-a confortável para isso. Mais íntimo do que se despir para alguém, só chorar. Não que isso não seja uma forma de se despir. De ficar nú.

 

Bia: Chora... - Falou baixinho. - Pode chorar, amor...

 

Rafa: Eu... eu sinto muito, Bia - Seus lábios tremeram e o primeiro soluço escapou entre os dentes. Bia respirou fundo. - Eu tô... tô tentando ter esperanças e... - Outro soluço. Mais alto. Bia apertou-a nos braços. Sabia que ela precisava. Era a primeira vez que chorava desde a cirurgia. Sabia que ela precisava fazer isso. Então deixou. Rafaella se entregou agarrada contra seu corpo. Deus sabia o quanto queria voltar a enxergar. O quanto ansiava por isso. Mas agora, depois de ter os curativos arrancados, essa esperança tinha sido engolida por um medo crescente. Por um monstro. - Eu... eu fico pensando se... se os sonhos foram algum tipo de aviso e... 

 

Bia: Eu não vou embora, vida...

 

Rafa: Eu sei... É só que.... Eu tenho tanto medo de te perder que eu só consegui focar nisso, e se... e se Deus tivesse me falando para eu escutar mais e...

 

Bia: Amor - Levantou o rosto de Rafaella obrigando-a sentar - Seus sonhos não são um aviso, são a sua angústia... - Rafa fungou baixo. Bia se quebrou com a ideia. Odiava os tampões. Por Deus, estavam menos de duas horas no seu rosto, mas já odiava. - Seu medo é tão grande, que não te deixa dormir... - Bia tocou seu rosto de forma delicada. - Deus sempre vai considerar seu desejo, princesa... - Lembrou - Vamos esperar a consulta, vamos permitir ter esperanças e...

 

Rafa: Eu queria falar que eu odeio essa merda - Confessou virando a cabeça para sentir o sol. Bia admirou. Apesar da situação, admitiu a mulher. O sol refletia os seus traços. Era sortuda. Muito sortuda. Não encontraria uma Rafaella em nenhum lugar, por isso não iria ir embora. Simples assim. Amava o que tinha para deixar. - Mas... mas eu não consigo odiar... - Soltou um riso - Como não? - Bia continuou em silêncio. - Odiar tudo isso, seria te incluir, incluir o Antônio, mas eu não odeio vocês... - Bia sabia disso. Era um fato óbvio para ela. Mas Rafaella precisava falar. Então daria o seu tempo para ela. Não como sua mulher, mas sim como sua amiga. Não falaria nada. Esperaria. Rafaella estava pedindo isso. Pedindo um tempo para chorar. Estava aceitando sua ajuda. Estava se libertando. Estava dividindo. Outro soluço e Bia não me moveu. Apertou a mão da mulher fazendo uma breve análise a respeito dos últimos dias. Estavam no caminho certo. Óbvio que estavam. Se conectaram mais do que o último ano. Ensaiaram o último mês. Se apoiaram nos últimos dias. Aprenderam a conversar. A repartir. A se despir uma para outra. Para Bianca nenhum dos exercícios eram difíceis. Sempre foi um espírito livre, não tinha vergonha de expor suas fraquezas. Já para Rafaella era algo totalmente novo. Estava aprendendo a sintonizar a leveza da amada. Aprendendo que somar é sempre melhor do que subtrair. Dividir nem se fala. Era normal ter medo. Mas não era refém dele. Estava a dois passos de descobrir se a sua vida voltaria ao normal, entre aspas. Entre aspas porque o normal era totalmente equivocado. Não passaria pelo o que passou para voltar ao normal. Não desperdiçaria tudo pelo seu normal. Seu artificial. Independente do novo, não seria mais um normal. Poderia continuar cega, fim. Poderia virar monocular, outro fim. Não era mais um normal. Qualquer que fosse o novo capítulo, sabia que tinha Bianca junto. Sabia disso. Mesmo sonhando ao contrário. Mesmo se torturando. Ainda teria ela. Sabia do resultado final, mas eram os detalhes que sufocavam. A torturavam.

 

7° dia. Suspiro.

 


Bianca ajoelhou no pé da cama imaginado que Rafaella estivesse dormindo. Dobrou os joelhos sentindo a necessidade de implorar. Implorar para Deus, porque ele ouviria. Ele ouve tudo não? Afastando o bolo da garanta tentou organizar os pensamentos. Não conseguiu. Soluçou baixinho sem se importar. Fechou os olhos determinada. 


Bia: Eu sei que você pode ouvir, Deus... É justamente por isso que eu estou aqui, porque eu sei que o Senhor me ama com todo seu coração... - Soluço abafado. - Eu não sou digna de nada, de absolutamente nada... mas ela é, ela é digna do Seu amor, da Sua misericórdia e Graça... - Rafaella seguro as lágrimas tentando não se mexer. A voz de Bianca estava tão carregada. Tão cheia. Tão desesperada. - Eu não consigo, Pai... Eu não consigo dançar com ela na beira do precipício mais uma vez... Me pede qualquer coisa que eu faço, só não coloca nosso amor à prova.... Já andamos por cacos de vidros o suficiente para sangrar até morrer, não nos deixe passar por isso novamente... A Rafaella precisar enxergar, precisa me enxergar... Precisa se enxergar - Rafa mordeu os lábios segurando o soluçou. - A faça enxergar, eu imploro pelo seu milagre... Imploro para que o Senhor revele o propósito para nós se ela continuar cega, só nos direcione, nos mostre.... - Outro soluçou. Bianca perdeu o ar. Desesperada. Era a primeira vez que se curvava. Primeira vez que implorava. - Eu não quero voltar para esse buraco, estamos vivendo numa corda frágil a anos... Por favor, Deus, eu não sou digna de nada, mas ela é... Eu juro... Por favor, Deus... - Soluçou. Dessa vez mais alto. Sem parar. Não importava. Rafaella acompanhou. No choro. No pedido. Na súplica. Implorou. Muito. Mais do que seus dedos pudessem contar. Não importava. Implorou alto. Suplicou. Certa de que Deus escutaria. Porque não existe nenhum som que Deus não ouça. Rafaella sabia disso. Se ajoelhou também no chão gelado e continuou. Noite a dentro. Implorando. Suplicando. Chorando.

 

Rafaella pulou da cama assustada. Tentou se equilibrar respirando fundo. A oração da noite passada invadiu seu pensamentos obrigando-a tapar a boca antes que soltasse um grito. Sentia um incômodo absurdo sobre o olho esquerdo operado. A pontada lhe causava um enjoo absurdo. Seu corpo tremia. Não conseguia entender. Tinha tido mais um sonho. Diferente de todos. Não compreendia. Entrou no banheiro tentando fazer o mínimo de barulho possível arrastando os pés. Estava nervosa. Ansiosa. Desesperada. Esperançosa. Debruçou-se sobre a pia respirando fundo. Queria puxar o curativo junto do tampão, mas suas mãos tremiam de forma assustadora. Respirou fundo sentando no chão frio. Queria acordar Bianca. Queria dizer que o que estava sentindo, mas ao mesmo tempo em que queria dividir as novas sensações, tinha medo de fazer isso. Tentou controlar a respiração sentindo o bolo na garganta lembrando do sonho. O excesso de informações a fizeram ofegar. Não queria mais pensar a respeito. Não queria mais sonhar com o que parecia ser impossível de entender na atual situação. Queria parar. Não dava. 


Sonho On


Bianca corria atrás Antônio num campo florido. Tão florido que todos seus poros exalavam alegria. Surreal. Seu vestido branco arrastava no chão do campo sujando a barra de terra seca. Ela não se importava. Continuava. Linda. Feliz. Sorrindo. Alcançou Antônio virando-o de cabeça para baixo. Apertou com força e girou-o no ar. O menino soltou um grito eufórico despertando Rafaella que foi invadida por uma onda de felicidade. Um tsunami. Olhou em volta antes de voltar a atenção para o pacotinho frágil nos seus braços. O neném sugava o líquido morno da mamadeira com vontade. Sua mãozinha esquerda segurava com força o dedo indicador de Rafaella. Na pulseirinha estava escrito em metálico o nome Eva. A que dá vida. Seus olhos pequenos entregavam um oceano caramelo. Uma imensidão. Mais uma sugada forte mostrou sua força. Tão pequena. Tão forte. Outra risada. Rafa sorriu ajeitando a toquinha rosa. Mais uma risada obrigou Rafa levantar a cabeça para encarar a dona dela. Bia tinha as mãos no ventre volumoso, as bochechas coradas e os lábios largos em um sorriso gostoso. Antônio lhe entregava um girassol. Rafaella sorriu admirando ele beijar com cuidado sua barriga. Seu olhos encheram. Os de Bianca também. Seus olhares se cruzaram mesmo com a distância. Rafa se esforçou com apenas um olho. Bia sorriu largo. Rafa entendeu. Soluçou. Ela estava a enxergando. Enxergando esperança.
 

Sonho Off

 

 

Rafaella colocou a mão no coração tentando controlar as batidas frenéticas. Suas mãos tremiam. Não conseguia interpretar o sonho. Esperança? Santo Deus, o que isso queria lhe dizer? Nunca sonhava, mas nos últimos dias isso era tão frequente. Tão normal? Céus, pareciam tão significativos Sentia a sensação boa no peito e o desespero nas veias. Estava sendo esmagada pela frequência da sua respiração acelerada. Sua cabeça latejava, seu olho esquerdo lacrimejava. Tentava controlar a respiração sentindo que o barulho dela poderia sobrevoar o quarto e acordar Bianca. Sua cabeça latejou novamente. O enjoo a fez grunhir. Se ajoelhou tateando o chão em busca do vaso sanitário. Precisava arrancar o desespero do seu interior. Abriu com pressa a tampa no tempo certo em que seu estômago regurgitou o líquido para fora. Se apoiou buscando equilíbrio. Tudo doía. Sua cabeça deu mais uma volta obrigando-a se segurar com mais força. Sentiu outra pontada tentando se acalmar. Outro jorro a fez esquecer. Lembrou logo em seguida. Gemeu dolorida. Se segurou com mais força antes de se debruçar sobre a porcelana e liberar o que quer fosse que estava lhe causando grande incômodo. Quando acabou, sentiu seu corpo fraco, mas necessitado de um pouco d'água. Continuou parada. Imóvel. Incapacitada de se mexer. Respirou fundo tentando não pensar. Com paciência girou o pé levantado. Seu joelho fraquejou, mas ela firmou-o com mais força que o necessário. Outro enjoo a fez estremecer. Deveria ter tido mais responsabilidade na hora de levantar, mas estava tão assustada, que se obrigou a pular da cama para não acordar Bianca. Abriu a torneira com dificuldade escutando a água correr. Fez menção de abaixar a cabeça, mas a dor a impediu. Colocou as mãos debaixo da água fazendo uma concha. Encheu jogando sobre seu rosto. Não se importou. Precisava de água gelada. Repetiu a ação encharcando seu rosto. Não parou na terceira vez. Pelo contrário. Quando o tampão colou no seu rosto, e com seu cabelo extremamente molhado, parou. Soluçou. A pontada a fez gemer. Se irritou. Trincou o maxilar, e no primeiro sopro de coragem, puxou o curativo sobre o olho esquerdo junto com o tampão. O clarão a obrigou a fechá-lo com força. Não viu nada de diferente. Repetiu a ação, dessa vez com o olho direito. Outro clarão. Normal. Sabia diferenciar as cores claras das escuras. Não havia nada de diferente. Sacudiu a cabeça grunhindo. Sentiu outra tontura, dessa vez mais forte. Se amaldiçoou. A porta abriu com força assustando-a. Não virou. 

 

Bia: Rafa? - Sua voz baixa e rouca se fez presente. -Rafa? - Chamou novamente. Rafaella levantou a cabeça tentando colocar curativo. - Você tirou o curativo? - Avançou sobre a mulher com pressa. - O que... você tá... - Olhou para o vaso sanitário e gemeu em desespero. - Tá sentindo algo? - Perguntou quando Rafaella soluçou. - Rafa? Amor... por Deus, o que você tá sentindo? - Segurou o rosto da mineira - Tá passando mal? - Perguntou analisando o olho que antes era cobrido por um tampão, agora tinha a coloração roxa. Rafaella abriu os olhos esfregando sobre a cicatriz. O borrão a fez soluçar. Bianca se desesperou. Rafaella a empurrou afastando-a. Continuou. Soluçando. Bianca cruzou os braços sentindo o peso nos ombros. Não aguentariam mais uma tempestade. Rafaella se engasgou tentando se recuperar mirando um ponto fixo em Bianca. Era o que a carioca achava. - Tá tudo bem... tá tudo bem, amor - Engoliu o soluço sentindo o peito doer. - Estamos bem... vamos passar por isso também... - Tentou ser otimista. Rafaella continuava do mesmo jeito. - Por favor...


Rafa: Casa comigo... - Sussurrou. Agora sem chorar. Sem se mexer. Com o ponto fixo em algo. Nela. - Casa comigo, Bianca... - Bia tremeu confusa. Rafaella fechou os olhos rapidamente sentindo o enjoo por causa da ação. Abriu os olhos novamente. Agora mais nítido. Ainda borrado. Um ponto branco. Embaçado. Mas ainda Bianca. - Casa comigo, Bianca - Falou mais alto. Não pediu. Gritou. Sua garganta ardeu. Bia tremeu. Tentando assimilar. Rafa continuou. Gritando com mão contra o peito. - Casa comigo, Bia... - Seus lábios tremeram. Bia soluçou. Rafa acompanhou.  Ignorou o enjoo. Se aproximou. Diferente de todas as outras vezes. Agora segura. Ignorando as dores. Ajoelhou. - Casa comigo, Bianca? - Perguntou soluçando. Bianca tremeu levando a mão a boca. Suas pernas cederam. Rafaella a amparou. Bianca soluçou sem ar. Entendendo. Rafaella não quebrava as promessas. Não as que fazia para Bianca.



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